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domingo, 2 de setembro de 2012

O pico da polémica

 Oil sands open-pit mines, Alberta, Canada

   O consenso mínimo foi expresso pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que aponta para cenários em que as temperaturas poderão subir de 1,1 a 6,4 graus no final do século.

   As reduções necessárias nas emissões de gases com efeito de estufa até 2020, ou mesmo 2050, para tentar evitar uma alta de temperatura superior a 2 graus irão coincidir com o declínio da produção de petróleo e a transição para uma economia que terá de superar a dependência dos hidrocarbonetos.

   As estimativas dos especialistas da ONU sobre mudança climática vão a par da contínua polémica sobre o pico do petróleo, o momento em que a exploração dos recursos disponíveis entrará em declínio.

Dentro em breve ou daqui por 40 anos
   Os estudos recentes apresentam perspectivas contraditórias e têm implicações substanciais para as estratégias de combate ao aquecimento global.

   O Centro de Pesquisa de Energia do Reino Unido conclui pelo crescente declínio da produção de petróleo convencional (excluindo combustíveis líquidos extraídos de areias e xitos betuminosos, carvão, gás natural e biomassa).

   Mais de dois terços da presente capacidade de produção terão de ser substituídos até 2030 para manter o actual nível de extracção, o que implica, por seu turno, um incremento anual rondando os 3 milhões de barris/dia (a Arábia Saudita produz presentemente 3,8 milhões de barris/dia).

   A possibilidade do declínio irreversível da produção, ou, na melhor das hipóteses, da estagnação por alguns anos seguida de queda abrupta, ocorrer antes de 2030 é tida como provável e a ocorrência de uma quebra nos níveis de extracção ainda antes da década de 2020 surge como "um risco significativo".

   O relatório pode ser consultado aqui:
http://www.ukerc.ac.uk/support/Global%20Oil%20Depletion
   Já os consultores da IHS Cambridge, liderados por Daniel Yergin, consideram possível um crescimento da produção sustentada de 92 milhões de barris/dia em 2009 para cerca de 115 milhões de barris/dia até 2030, podendo manter-se esse nível durante duas décadas.

   A recente crise provocou cortes de 19% nos investimentos no sector petrolífero e do gás natural em 2009, em relação ao ano anterior, mas o previsível aumento da procura obrigará ao retomar do investimento tecnológico para explorar novas jazidas, as areias betuminosas de Alberta, no Canadá, etc., porque, apesar da aposta em fontes renováveis, o petróleo satisfaz 40% das necessidades de energia.

   O estudo, que estima as reservas totais em 4,8 triliões de barris e a produção, até à data, em 1,1 triliões, está disponível aqui:

http://www.cera.com/aspx/cda/client/report/report.aspx?KID=5&CID=10720#top
   A Agência Internacional de Energia admite, por seu turno, que a produção petrolífera chegue aos 106 milhões de barris/dia em 2030, enquanto especialistas das universidades de Uppsala, Adelaide e Liverpool
(cf. http://www.tsl.uu.se/uhdsg/Publications/PeakOilAge.pdf) calculam que a extracção já entrou em declínio e o nível máximo ficará pelos 75 milhões de barris/dia dentro de duas décadas.

Uma transição turbulenta

  O petróleo e demais combustíveis fósseis são apenas um dos factores, num contexto de aumento dos consumos de energia, que, numa projecção da Agência Internacional de Energia, poderão, na ausência de medidas governamentais de contenção, crescer 40% nas duas próximas décadas em relação aos níveis de 2007, ao mesmo tempo que se torna necessário reduzir os custos ambientais energéticos.

   A conjugação de riscos geopolíticos, impedindo a exploração de reservas provadas, prováveis e potenciais de petróleo (questão menos premente para o gás natural, que poderá prover ao consumo até pelo menos 2060), os custos de perturbações nos fornecimentos de energia reduzindo a produção e comercialização de alimentos, a escassez de água, tornam ainda mais difícil acertar políticas globais de redução das emissões de gases com efeitos de estufa.

   O petróleo, no entanto, é o combustível político por excelência e uma das matérias-primas mais sensíveis à especulação financeira potenciada nos últimos anos pelo declínio do dólar.

   Para a OPEP, que representa 40% da produção, a conjuntura é animadora. O barril entre os 75 e os 80 dólares é preço presentemente aceitável para os 12 estados produtores. Significativas reservas de crude nos principais consumidores, em particular nos Estados Unidos, e um aumento lento da procura auguram para os primeiros meses de 2010 um mercado petrolífero longe das convulsões de 2008 e 2009.

   Mas a Cimeira de Copenhaga vai acabar por marcar mais um passo na transição para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis e a competição pelo acesso a um recurso escasso irá agravar-se no imediato e, aqui, o petróleo jogará um papel fundamental.

   Toda a eventual melhoria ambiental acabará por ser feita à custa dos produtores de petróleo e muito rapidamente o estatuto político desses países irá degradar-se e pagar boa parte da factura dos custos da transição. As repercussões financeiras e a turbulência, sobretudo no Médio Oriente, na Rússia e entre os produtores africanos, não vão tardar a fazer-se sentir.

Jornal de Negócios
09 Dezembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=399737

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um embargo arriscado




   A reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.
  
   Os efeitos contraproducentes do embargo petrolífero da União Europeia ao Irão deverão fazer-se sentir ainda antes do Verão e da imposição plena das sanções comerciais, económicas e financeiras dos Estados Unidos e de outros aliados como a Austrália.

   Obrigar Teerão a regressar às negociações sobre o programa nuclear é o objectivo declarado do embargo, mas, mesmo que as conversações sejam retomadas (sem garantias de obtenção de acordo satisfatório) a reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.

   O Irão terá de compensar a perda do mercado da UE (20% do total das exportações de crude) e, desde logo, interessa-lhe que os preços não caiam abaixo dos 100 USD/barril para aliviar perdas das receitas na ordem dos 70 mil milhões de dólares (metade do orçamento de estado) que obtém com vendas de petróleo.

   A Arábia Saudita ou a Rússia, dois exportadores com necessidade de financiarem dispendiosos programas sociais por motivos de segurança interna, partilham o mesmo interesse.

                                        Petróleo caro

   A procura global de petróleo deverá rondar este ano entre os 90 a 89 milhões de barris/dia, de acordo com projecções da "Agência Internacional de Energia" e da "Organização dos Países Exportadores de Petróleo", e a médio prazo o consumo continuará a superar a oferta.

   O Irão extrai actualmente cerca de 3,5 milhões barris/dia e a capacidade de produção extra da OPEP cifra-se em 2,85 milhões barris/dia (75% assegurada pelos sauditas), segundo a AIE, chegando aos 3,8 milhões barris/dia se forem considerados Iraque, Nigéria, Venezuela e Líbia.

   Caberá a Riade, além do Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos, assegurar a estabilidade do mercado, independentemente de eventuais acréscimos na produção iraquiana e líbia.

   A capacidade extra das monarquias do Golfo equivale praticamente às exportações iranianas que rondam os 2,5 milhões barris/dia e teoricamente estabilizará os preços, podendo-se negligenciar a valorização de variedades de crude próximas da qualidade iraniana como o "Urals" russo em relação ao "Brent" do Mar do Norte.

   O Irão deverá conformar-se com a redução a curto prazo das compras de outros importantes clientes como o Japão e a Coreia do Sul (17% e 9% das exportações, respectivamente), mas procura obviar a maiores perdas mantendo ou alargando as quotas de venda à China (20%) e Índia (17%).

                                     Um óbice estratégico

   Pequim adquiriu em 2011 ao Irão 557 000 barris/dia (um aumento de 30% em relação a 2010 ano em que as compras chinesas de crude no mercado internacional subiram 6,1%) e desde Dezembro as suas companhias pressionam Teerão para maiores descontos.

   Além dos investimentos no sector de hidrocarbonetos iraniano a China dificilmente poderá reduzir drasticamente a quota de vendas do seu terceiro maior fornecedor após a Arábia Saudita e Angola.

   A Índia, longe da diversidade de fornecedores conseguida pela China graças às compras em África e na América Latina, depende do Irão para 11% das suas necessidades de petróleo e 70% das suas importações provêm do Médio Oriente.

   As duas potências asiáticas, independentemente da avaliação que façam dos seus interesses estratégicos nas relações com Washington e em menor medida com a União Europeia, não podem ficar excessivamente dependentes de fornecimentos de petróleo das monarquias do Golfo.

   Nem a Pequim, nem a Nova Delhi interessa uma dependência energética sujeita à garantia de defesa e segurança em última instância dos Estados Unidos.

    Teerão irá tentar obviar aos danos do cerco norte-americano e europeu através de acordos de troca directa, da negociação de preços favoráveis - sobretudo a empresas chinesas e indianas - contornando o sistema bancário sujeito a sanções e por via do mercado negro.

   As eleições legislativas de Março irão demonstrar se as sanções reforçaram uma dinâmica política mais nacionalista e intransigente no Irão como é de esperar.

   A subida gradual dos preços do petróleo pode, entretanto, ser dada como  adquirida porque não é possível tentar excluir o quarto maior produtor do mercado mundial sem arriscar uma agitação dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=533607

O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=565975