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quarta-feira, 13 de março de 2013

A violência da História



Manifestação antigovernamental sunita
Falluja, 15 Fevereiro 2013


   Entalado entre a guerra civil síria e o temor do programa militar nuclear iraniano provocar um conflito generalizado do Golfo Pérsico ao Cáspio, o Iraque, dez anos depois da queda de Saddam Hussein, está longe de ser o “farol da democracia” prometido por George W. Bush.

  Tensões entre xiitas e as minorias sunita, curda e turcomena comprometem um sistema federalista imperfeito, toldam a negociação sobre repartição de recursos e a institucionalização de normas democráticas.

  Os níveis de violência atingidos entre 2006 e 2008 reduziram-se significativamente, mas, sobretudo nas áreas sunitas, impera a falta de segurança e é também entre a minoria arredada do poder que se faz sentir mais fortemente o peso do desemprego que atinge cerca de 40% dos iraquianos.

   Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por seu turno, confrontam-se com o passivo de uma invasão concebida sem medir as consequências e planeada com negligência criminosa que chegou a aproveitar aos extermicionistas terroristas da Al Qaeda sunita.

   As justificações invocadas para a guerra, designadamente a existência de arsenais de armas químicas e biológicas como ameaça iminente, revelaram-se falsas e demonstraram a sistemática manipulação de dados de valor duvidoso recolhidos e analisados por serviços de informação incapazes de assegurarem a sua autonomia face a preconceitos governamentais arreigados.

  A fraude das armas de destruição maciça – além da questão da insuficiência na recolha de informações sobre projectos militares clandestinos e confronto de análises contraditórias -- saparam a legitimidade para futuras intervenções unilaterais, sem cobertura da ONU, para alegadamente salvaguardar a paz e segurança internacionais.

  Nem o anúncio por Washington e Londres em Dezembro de 2003 de que Muammar Gadaffi renunciara a um programa militar nuclear clandestino de dimensões insuspeitas evitou o avolumar de críticas ao bem fundado da estratégia de Bush e Tony Blair.

   O patrocínio norte-americano da intrasigência israelita no conflito com palestinianos reforçou as alas islamitas e rejeicionistas de um acordo com o estado hebraico, que, por seu turno, persistentemente discrimina a população árabe.

   A duplicidade de critérios, patente na aliança com as monarquias sunitas autocráticas do Golfo Pérsico, retirou credibilidade à propalada “nova era de democratização” por todo o Médio Oriente e os abusos na “guerra contra o terrorismo” conjuraram-se para acentuar uma imagem altamente negativa dos Estados Unidos, e por arrasto dos seus aliados ocidentais, na maior parte dos países árabes e islâmicos.

  A ausência de planos, a falta de recursos militares e assistenciais civis, a desorientação na identificação de aliados locais para dar início a esforços necessariamente morosos e de resultados incerto de criação de entidades administrativas minimamente credíveis saldaram-se num estrondoso fracasso político, com elevadíssimos custos humanos para as populações do Iraque, como, ainda, do Afeganistão.

  A presunção de que não seria necessário mobilizar grandes contingentes militares para garantir a segurança no final das hostilidades, actos inanes como a decisão do líder da Autoridade Provisória Paul Bremer de desmantelar as forças armadas iraquianas e expulsar da administração pública todos os membros do antigo partido governamental Ba`ath, selaram o destino de uma intervenção mal concebida e pior concretizada.

   Barack Obama ao concretizar a retirada militar en 2012 deixou o Iraque como aliado incerto, sem conseguir mitigar as consequências estratégicas negativas da invasão de 2003.

   A guerra acelerou dinâmicas conflituais internas nos estados do Médio Oriente saídos da partilha anglo-francesa dos despojos do Império Otomano no final da I Guerra Mundial.

   Na Síria ou no Iraque os poderes de minorias étnico-confessionais, promovidas por Paris e Londres, foram irremediavelmente postos em causa e volatilizou-se a barreira de segurança das monarquias sunitas que representava o regime de Saddam contra o Irão xiita liderado por Khomeini.

   O pacto de 1943 entre Franklin Roosevelt e o rei Saud ainda define as garantias de segurança de Washington a Riade e os Estados Unidos, apesar da sua cada vez maior autonomia energética, precisam de assegurar o livre fluxo de petróleo e gás do Médio Oriente para os mercados mundiais.

   Independemente de uma capacidade única de projecção de força, Washington perde influência política à medida que a contestação, com forte pendor islamita, derruba regimes autocráticos no Médio Oriente.

   A arrogância e inépcia de Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Blair e demais coniventes, o despotismo torcionário de Saddam apostado num confronto insustentável, a deriva terrorista dos salafistas sunitas, a vingança xiita e curda, ficam como um exemplo dos malefícios da ignorância e da violência da história.

Jornal de Negócios
13 Fevereiro 2013

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A vaga separatista



    
     A vitória nacionalista nas eleições na Flandres, o triunfo anunciado da Convergència e Unió na votação catalã de Novembro e o acordo de Edimburgo para um referendo sobre a independência da Escócia são a crista de uma alterosa vaga separatista na Europa.

   A inadequação institucional de grande número de estados para assumirem reivindicações de autonomia nacional ou regionalista revela-se cada vez mais gravosa à medida que os impasses sobre a integração política, económica e financeira na União Europeia se agudizam.

   A crise da dívida soberana e de balança de pagamentos num crescente número de países da zona euro – uma união monetária imperfeita e disfuncional que destabiliza relações institucionais com estados da UE não aderentes à moeda única – é uma das razões para o reavivar de tensões separatistas que se estimulam reciprocamente.

   Na monarquia espanhola a falência financeira das autonomias, abarcando regiões e nacionalidades históricas consagradas na Constituição de 1978, e a crise do estado central enfunam as velas do separatismo da Catalunha.

   O repúdio ao centralismo do Partido Popular anima uma coligação liderada por forças conservadoras, pugnando por uma política soberanista a partir da exigência de maior autonomia fiscal, que ameaça levar à ruptura com Madrid.

   Se a maioria dos 7,5 milhões de habitantes da Catalunha apoiar a secessão o efeito de carambola sobre outros nacionalismos e regionalismos ibéricos será imparável.

  Expurgado de taras racistas e xenófobas o nacionalismo basco, onde é grande o peso da esquerda abertzale, terá então condições para ganhar novo ímpeto descartando derivas terroristas.

   Resta à Espanha encetar uma reforma constitucional federalista difícil de negociar em plena crise económica e financeira.

   Na Bélgica a conquista da câmara de Antuérpia por Bart De Wever assinala o momento em que os conservadores passam a hegemonizar o nacionalismo flamengo.

   De Wever posiciona-se contra a coligação do “governo dos impostos” liderada em Bruxelas pelo socialista francófono Elio Di Rupo e, apesar de concessões a uma “renegociação confederal”, aspira a cortar definitivamente as transferências financeiras para o sul.

   Com a Nieuw-Vlaamse Alliante a direita domina claramente o espaço político na Flandres em oposição ao centro-esquerda francófono na Valónia e em Bruxelas.

  Uma separação à imagem da negociação entre checos e eslovacos em 1992 é cenário crível para a dissolução do reino constituído em 1831.

   Os nacionalistas escoceses têm a grande prova dentro de dois anos num referendo quanto à união política firmada com a Inglaterra em 1707.

   No Reino Unido estão em jogo dinâmicas políticas conflituosas susceptíveis de avivar o separatismo católico na Irlanda do Norte.

   Os conservadores de David Cameron tendem a reforçar prerrogativas nacionais em ruptura com a União Europeia, enquanto nacionalistas escoceses optam por um retorno à soberania plena que o petróleo e gás no Mar do Norte possam eventualmente sustentar.

   O marcado regionalismo da maioria germanófila entre meio milhão de habitantes do Alto Adige/Sul do Tirol, anexado pela Itália em 1919 ao defunto Império Austro-Húngaro, enquadra-se, por sua vez, na contestação de regiões ricas a transferências tidas por desproporcionadas a favor do estado central que a crise da eurozona acentuou.

   O separatismo da Lega Norde, a recuperar das máculas de desvio de dinheiros partidários que fez naufragar o líder Umberto Bossi, ainda tenta, por seu turno, capitalizar as pronunciadas assimetrias da península numa conjuntura de desnorte em que se multiplicam escândalos de corrupção administrativa da Calábria ao Lazio.

   Na Colectividade Territorial da Córsega, entidade estabelecida em 1991 com uma autonomia relativamente elevada num dos mais centralistas estados europeus, um arraigado separatismo mostra-se vivaz.

   A esquerda autonomista e separatista predomina desde 2010 numa ilha onde o banditismo e crime organizado perpassam as disputas políticas como em nenhuma outra região da França.

   Onze assassinatos ocorridos desde Janeiro, em que se confundem motivações políticas e negocistas, são sinal de possível retorno à agitação violenta sob o manto do separatismo e a soberania de Ajaccio.

   Reivindicações nacionalistas e regionalistas vêm, assim, complicar negociações entre estados que se digladiam quanto a direitos soberanos e supranacionais na União Europeia.

   Às divergências internas na zona do euro somam-se conflitos com expectativas e estratégias dos demais dez estados que não integram a moeda única, condenando ao fracasso políticas que não tenham em conta esses interesses.

Jornal de Negócios
17 Outubro 2012

sábado, 22 de setembro de 2012

Já não há heróis na ponte sobre o rio Kwai

 
 
   Ao assobio da velha marcha do coronel Bogey leva-se pouco mais de três horas no comboio que vai de Banguecoque até Kanchanaburi.
 
   É o roteiro inevitável para chegar ao rio Khwae Yai, à ponte da Linha da Morte e aos museus e cemitérios da guerra que começou em 1931 na Macnhúria e alastrou com a invasão japonesa da Tailândia, Malaya britânica e ataque a Pearl Harbour em Dezembro de 1941.
 
   Lá chegando, vir-se-á a saber que, após tanta morte sofrida, um comboio transportando mulheres forçadas à prostituição em bordéis militares japoneses foi o primeiro a cruzar a ponte de madeira em Fevereiro de 1943. 

   Dois anos depois a ponte da linha ferroviária que ligava a Tailândia à Birmânia foi destruída num bombardeamento aliado e aqui se finou o esforço de guerra japonês que, após humilhar a Grã-Bretanha em Singapura, chegou, através da Indochina, a ameaçar o Raj que imperava na Índia.

  A construção da Linha da Morte, iniciada em Setembro de 1942, custou a vida a 100 mil trabalhadores forçados tailandeses, birmaneses e outros coolies oriundos das actuais terras da Malásia e Indonésia, e massacrou, ainda, 16 mil prisioneiros aliados, na maioria britânicos, holandeses, franceses e australianos. 

   Na primeira semana de Dezembro, fogos-de-artifício celebram o bombardeamento aliado que, em 1945, destruiu a ponte sobre o Khawe Yai.

   Um guia tailandês evoca, então, para turistas e mais gente, a galhardia desses prisioneiros de guerra que o francês Pierre Boulle romanceou, David Lean filmou para todo o sempre e o assobio retorna floresta adentro.

   Em frase feita o guia dirá: "Stiff upper lip, Sir."

   Imperturbável a imagem de Alec Guinness irrompe, então, sem que lhe trema a coragem e, na erecta postura de todas as memórias, com sua intrepidez, bravata e insensatez, afronta o rio e o destino.

   Um comboio volta a passar, mas já não há heróis na ponte do Khawe Yai.





                                      Das Malvinas a Bassorá

  As celebrações dos 25 anos da vitória na última guerra imperial nos confins do Atlântico Sul, nas inóspitas Malvinas/Falkland, coincidiram com um momento de humilhação da Grã-Bretanha pela detenção de quinze marinheiros e fuzileiros pelo Irão.

   Teerão tem gerido a crise em seu proveito e embaraçado por tabela os Estados Unidos que em Janeiro prenderam cinco iranianos em Irbil, no norte do Iraque.

   Teerão quer a libertação destes detidos que afirma serem diplomatas em serviço na capital do Curdistão. Washington afirma tratarem-se de agentes subversivos.

   A troca, impossível de assumir publicamente, destes iranianos pelos militares britânicos será um dos desfechos inevitáveis desta crise.

   O primeiro indício nesse sentido surgiu, aliás, com a libertação na terça-feira de um diplomata iraniano raptado em Fevereiro, em Bagdade, por homens envergando fardas do exército iraquiano.  

   A par deste confronto, ofuscado por atentados e uma mortandade selvática no Iraque que condena ao fracasso a derradeira tentativa do Pentágono para estabilizar Bagdad e a província confinante de Anbar, as confissões forçadas dos presos britânicos vão sendo emitidas a conta gotas nas televisões do Irão e no canal de língua árabe que Teerão criou para galvanizar os xiitas iraquianos.

   Em Londres, o constrangimento é grande.

   Em véspera da retirada da maior parte das tropas britânicas do sul do Iraque, as confissões não abonam em termos da moral e estoicismo de que os militares de Sua Majestade fazem gala.

   As confissões forçadas não convencem a Ocidente, mas dão que pensar quanto à fibra e capacidade de resistência de militares apanhados numa guerra que para muitos parece ter perdido o sentido.

   Vai longe a imagem do homem de armas, pleno de coragem e resistência a toda a prova, sacrificando-se por um estoicismo patriótico que, no mito do rio tailandês, roçava a desmesura.

   Essa imagem já não faz sentido.

   O sequestro tornou-se uma arma cada vez mais efectiva e surge frequentemente associado à humilhação pública e tortura de reféns.  

   Por vezes, o sequestro surge ligado ao banditismo que se confunde com acções de cariz alegadamente político.

   Tal parece ser o caso do rapto do jornalista Alan Jonhston. O correspondente da BBC cobria há três anos as guerras de Gaza e desde o rapto a 12 de Março nunca mais houve notícia do paradeiro.

   A captura de reféns é prática corrente por parte de árabes e israelitas e causa de grande comoção em Israel que não poucas vezes se viu obrigada a cedências gravosas para recuperar os seus homens.

    A captura de dois militares israelitas pelo Hizballah foi, também, o pretexto para Telavive lançar a invasão do Líbano no Verão passado.

    Na frente de Gaza, as arrastadas negociações com milícias palestinianas ainda não levaram à libertação do cabo Gilad Shalit capturado num ataque a um posto israelita em Junho de 2006.

   Nesta vertigem de raptos e detenções cirúrgicas não é de admirar que também no Afeganistão os sequestros de estrangeiros sigam imparáveis. Nos primeiros anos após a queda dos Taliban, os sequestrados eram em regra libertados a troco de dinheiro.

    No mês passado, a guerrilha taliban mudou de estratégia e passou à exigência da troca política. Assim, o jornalista italiano Daniele Mastrogiacomo só foi posto em liberdade depois da soltura de cinco militantes taliban.
   
                                    A coragem ante a degola

   Uma das imagens de marca da chacina que caracteriza estes tempos é a humilhação sistemática dos reféns.

   Confissões forçadas, apelos desesperados, e o momento da execução que se pretende exemplar e aterradora passaram a táctica reconhecida e praticada para galvanizar apoiantes e atemorizar opositores.




Daniel Pearl (10 Out. 1963-1 Fev. 2002)


   Num dos episódios mais sangrentos esta táctica falhou apenas pelo acto de coragem do jornalista Daniel Pearl que em nove dias de cativeiro em Karachi recusou sujeitar-se à chantagem dos raptores, nunca fazendo qualquer apelo.

   Na maior parte das situações, porém, poucos reféns conseguem resistir às torturas físicas e psicológicas.

   No caso de pessoal militar capturado por forças regulares e, em princípio, salvaguardado pelas disposições da Convenção de Genebra, a cedência às exigências dos captores e, sobretudo, os actos públicos de condenação das políticas seguidas pelos seus estados têm um efeito altamente pernicioso sobre as tropas combatentes. 
      
    A opinião pública britânica, maioritariamente oposta ao esforço de guerra no Iraque, poderá, ainda, assumir que estas confissões extorquidas à força, expressam, também, o sem sentido da presença militar no Iraque e os riscos crescentes de um confronto com o Irão.

   Mesmo em casos de confronto estado a estado a lição política é simples, mas terrível para quem for apanhado neste terror dos sequestros: ceder à chantagem é dar azo a mal pior e mais horrendo.

   No caso do militares britânicos a cedência às exigências de Teerão, ainda que Londres evite uma retratação pública, é um dado adquirido e irá fazer ainda mais mossa na moral das tropas que só aguardam pelo momento da retirada.


Jornal de Negócios
04 Abril de 2007

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

The Sun faz a cama a Gordon Brown



   Por cá os jornais metem-se em muitas embrulhadas, mas não apoiam em regra candidatos à chefia do governo.
 
   Quanto mais não seja porque o mercado é pequeno. Seria quase fatal para um jornal declarar apoio a um partido e arriscar perder leitores.

  Noutros países a tradição é bem diferente.

  Na Grã-Bretanha, por exemplo, o apoio declarado de um tablóide como The Sun, o jornal de maior circulação no país, é em regra crucial.

 The Sun não são só as manchetes assassinas, as historietas e escândalos das celebridades do momento, a modelo meio nua na terceira página.

 É mais do que isso: é uma enorme influência política e sendo feito para vender e vender muito, porque vende mais de três milhões de exemplares por dia, tem um faro especial para seguir as tendências do eleitorado. 

  Apesar de evidentes sinais de mau gosto e chauvinismo ou então por causa disso este sol que alumia o Reino de Isabel II é um sucesso: foi fundado em 1964 e cinco anos depois passou para as mãos do australiano Rupert Murdoch.

  O barão dos media tornou The Sun no rei dos tablóides.

  O jornal começou por apoiar os trabalhistas, mas em 1979 apaixonou-se por Margaret Tatcher.

  Só voltou a conhecer paixão tamanha quando descobriu Tony Blair nos idos da eleição de 1997 e ficou assim neste enlevo ao lado dos trabalhistas até hoje.

  Porque esta quarta-feira assassinou o primeiro-ministro Gordon Brown.

  Reza a manchete: depois de 12 longos anos no poder este governo perdeu o norte e agora também perdeu o apoio do Sun.

  Não podia ser pior para o sucessor de Blair.

  Na véspera Brown apelara aos militantes na conferência anual dos trabalhistas para não perderem a esperança. Disse para acreditarem numa vitória nas eleições do próximo ano, mas, de facto, acontece que a crise económica é terrível e os trabalhistas foram clamorosamente derrotados nas últimas votações para o Parlamento Europeu e os conselhos locais.

  As sondagens são do mais desanimador possível: em intenções de voto estão muito abaixo dos conservadores de David Cameron, são mesmo ultrapassados pelos democratas-liberais.

  Agora, Brown levou uma facada do Sun.

  Para pôr a coisa em pratos limpos pode bem dizer-se à boa maneira tablóide: The Sun acaba de fazer a cama a Gordon Brown.    

TSF / O Mundo num Minuto
30 Setembro 2009

Os penitentes do euro a caminho de Fátima



Angela Merkel, Guido Westerwelle e Wolfgang Schaeuble
Bundestag, 7 Maio 2010.


   Bem podem os proponentes do novíssimo pacote de estabilização da Zona Euro acender velas na Cova da Iria pois só um milagre salvará as suas reputações.

   O primeiro dos pecados é que declaração, promessa ou palavra de político ou presidente de banco central não merecem qualquer crédito junto do contribuinte-eleitor.

   A crise grega alegamente não teria efeitos de contágio, mas degenerou em pandemia e o pacote de emergência financeira a Atenas começou em 20 mil milhões de euros, subiu para 40 mil milhões, e acabou em 110 mil milhões, com comparticipação do FMI.

    Pelo meio Angela Merkel, encurralada pela incompreensão dos eleitores alemães sobre os custos da ajuda à Grécia, adiou, tergiversou, deitou a perder tempo precioso para evitar o alastrar da crise, e acabou punida nas eleições na Renânia do Norte-Vestefália vendo esfumar-se a maioria governamental na câmara alta do parlamento de Berlim.

   Ainda quinta-feira Jean-Claude Trichet descartava em Lisboa a compra de títulos do tesouro no mercado secundário para, na madrugada de segunda-feira, a Comissão Europeia anunciar que o Banco Central Europeu passaria a intervir nos mercados de dívida pública e privada.

   Por cá, os inadiáveis investimentos em grandes obras públicas de José Sócrates definharam como um roseiral à míngua de água no deserto da Margem Sul e o aumento da carga fiscal entrou na ordem do dia.

   O argumento do momento é que, desta feita, o pacote de estabilização é suficientemente avantajado para sustentar o euro e salvaguardar a dívida soberana dos endividados e relapsos da Zona Euro.

   Todos os percalços serão esquecidos quando os resultados provarem o acerto do novíssimo pacote.

   Tem um senão.

                                O FMI como sustentáculo do euro
   Os 500 mil milhões da UE (60 mil milhões a disponibilizar pela Comissão através de empréstimos nos mercados dando como garantia o excedente orçamental comunitário e 440 mil milhões em empréstimos e garantias dos 16 mais Polónia e Suécia num Special Purpose Vehicle, instrumento de direito privado que durante três anos poderá apoiar estados em dificuldades) só fazem sentido com os 250 mil milhões do FMI e a intervenção dos bancos centrais dos Estados Unidos, do Japão, da Inglaterra, da Suíça, do Canadá para facilitar a liquidez de dólares para os bancos europeus.

   A participação do FMI (em que os actuais os estados do euro detêm uma quota de 22,87 % em direitos de voto) prova que a Zona Euro se revelou incapaz de impor as regras de disciplina orçamental acordadas entre os 16 e que a sua capacidade de endividamento se esgotou quando os défices orçamentais atingiram em 2009 os 6,3 % do PIB da eurolândia.

   A independência do BCE sai comprometida ao passar a aceitar intervier no mercado secundário, mesmo sem aumentar a oferta monetária, contra a posição do presidente do Bundesbank Axel Weber, e logo depois de ter aceite títulos de dívida grega como garantia para empréstimos.

   Se os estados da Zona Euro falharem na redução dos défices a pressão inflacionária far-se-á sentir e qualquer investidor passa a assumir como dado adquirido que, de facto, os défices orçamentais de estados relapsos serão em última análise cobertos pelos europarceiros solventes.

   A supervisão dos orçamentos nacionais por Bruxelas arrisca-se mesmo a ser contestada quando algum governo relapso sustentar não ter condições para impor sacrifícios sociais por risco de grave perturbação da ordem pública.

   Tal argumentação para solicitar ajuda financeira será apenas outro desenvolvimento sofístico da referência no artigo 122º do Tratado da União Europeia quanto às «dificuldades» ou «ameaça grave de dificuldades» em que possa vir a encontrar-se um Estado-membro por via de «ocorrências excepcionais que não possa controlar».

   Aguarda-se, entretanto, pela purga no Eurostat por comprovada complacência ante a falsificação sistemática da contabilidade pública grega, com conivência na última fase da Goldman Sachs e da JPMorgan o que sempre oferece desculpa para minimizar a cumplicidade política dos estados da Zona Euro.

                                        Alguém há-de pagar
   À distância de Pequim, Washington ou Brasília quem tiver capacidade de decisão política ou financeira depressa conclui que a Zona Euro só poderá subsistir por via de maior coordenação de políticas económicas e financeiras, com a correlativa disciplina orçamental que nunca foi imposta e que as infracções alemã e francesa de 2002 degradaram ainda mais.

   Existe, ainda, um risco acrescido de desacerto estratégico entre os 16 do euro e os demais 11 estados da União, e em primeiro lugar a Grã-Bretanha.

   Compromissos económico-financeiros tendentes à convergência e coordenação política na Zona Euro podem revelar-se eventualmente prejudiciais para os demais membros da União.

   Os diferenciais de produtividade e competitividade entre os estados da Zona Euro persistem, irão mesmo agravar-se nesta crise, e a capacidade de endividamento para cobrir os défices que daí advêm está agora estancada.

   A reestruturação da dívida de Atenas daqui por três anos, quando atingir os 150 do PIB, é a hipótese mais credível, e a ajuda de emergência não conseguirá obviar aos efeitos negativos da contracção da economia grega.

   A Zona Euro mostra-se demasiado heterogénea para ser consistente nas suas políticas financeiras.

   Há estados que só podem cair borda fora se for aplicada uma rigorosa disciplina financeira que lhe coarctará qualquer hipótese de crescimento nos anos mais próximos.

   Outros terão de sacrificar o crescimento económico à estabilidade orçamental e à contenção da dívida pública e privada com custos políticos e sociais eventualmente insuportáveis.

   Há ainda outro senão.

   De quem tem capacidade de decisão política esperam-se resultados. Só isso permite pensar em que promessas frustradas não sejam penalizadas politicamente. Os sucessivos volte-face descredibilizam governos e instituições e quando a credibilidade se vai tudo é possível.

   Face aos desenvolvimentos mais recentes porque irá alguém acreditar que os mais rigorosos planos de austeridade são mesmo para cumprir?

   Porque não contestar qualquer medida tida por prejudicial quando se pode sempre esperar que um governo acabe por ceder?

   E porque não ceder se continua a haver vida para além do défice desde que algum parceiro europeu acabe por entrar com o dinheiro em falta?

   E se já andamos nisto há dois ou três anos não conseguiremos mais uns tempos de tolerância?

   Umas quantas velas em Fátima bem podem arder em penitência pelo euro à espera de milagres.

Jornal de Negócios
12 Maio 2010

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Um primeiro-ministro irascível





    Chatarrão, maçudo, desajeitado, sem grandes dotes para cativar simpatias, tais são algumas das pechas assacadas a Gordon Brown desde que saltou para a ribalta ao assumir, em Maio de 1997, a tutela das finanças da Grã-Bretanha e, agora, juntaram-se-lhe acusações de irascibilidade e intimidação do pessoal menor em Downing Street.

   Nunca foi cativante a imagem pública do sucessor de Tony Blair e quando finalmente chegou a primeiro-ministro, em Junho de 2007, depois de muita acrimónia nos bastidores, Brown desperdiçou o seu capital político ao hesitar nesse Outono em convocar eleições antecipadas.

   Ninguém lhe negava qualidades intelectuais para enfrentar o negrume de 2008-2009, que Brown classifica como "a primeira crise da globalização", mas a economia do Reino Unido sofreu no ano passado uma contracção de 4,8%.

   Seis trimestres recessivos (uma quebra de 6% do PIB) saldaram-se por sucessivos desaires eleitorais para os trabalhistas, e o fim da mais longa recessão desde o pós-guerra no derradeiro trimestre de 2009 (com um magro crescimento de 0,1%) deixa em aberto previsões de crescimento para este ano que não ultrapassam os 1,4%, enquanto o défice orçamental superará os 12 %.

                                         Humilhado e persistente
   Ainda assim, Gordon Brown resistiu às humilhações nas eleições locais de Maio de 2008 e nas europeias de Junho do ano passado, torneou desafios à sua liderança, aguentou as reticências de grande número de deputados trabalhistas e segurou o seu ministro das finanças Alistair Darling nas tormentas da falência do banco Northern Rock, do extravio de dados pessoais de 25 milhões de beneficiários de abonos de família e no fiasco da taxa da redução dos impostos sobre rendimentos.

   Com eleições à porta, provavelmente a 6 de Maio, os trabalhistas só este mês começaram a vislumbrar alguma esperança nas sondagens sobre intenção de voto.

   O "The Guardian" e o "The Sun" publicaram, na terça-feira, sondagens que podem vir a negar aos conservadores uma maioria no parlamento. 37% para os conservadores de David Cameron, 30% para os trabalhistas e 20% para os democratas-liberais de Nick Clegg, segundo "The Guardian/ICM" e 39%, 33% e 17%, na mesma ordem, de acordo com "The Sun/YouGov".

   Estes inquéritos, que põem em causa uma consistente vantagem dos conservadores, que chegaram a ultrapassar em 21 pontos os trabalhistas no Verão de 2008, não reflectem a polémica aberta pela publicação no domingo no semanário "The Observer" de excertos de um livro do jornalista Andrew Rawnsley, The end of the party, com alegações de um cadastro de intimidações a subordinados e funcionários de Downing Street por parte do primeiro-ministro.

   Abusos verbais, acessos de ira, muita papelada e objectos vários pelos ares, afora pormenores deveras caricatos, constam do relato do bem informado Rawnsley, que, mais significativamente, não traz dados novos sobre as disputas entre Brown e outras luminárias trabalhistas como Jack Straw, David Miliband ou Alistair Darling, e, sobretudo, é omisso quanto a desacatos mais graves e politicamente comprometedores.

                                          Irado em má altura
   Em poucos dias sucederam-se a inevitável manchete "The Prime Monster", do "The Sun", ou comentários mais cordatos, como o do colunista principal do "The Times", Daniel Finkelstein, que optou por concluir que Brown "não é, de forma alguma, má pessoa, apenas se comporta mal".

   Cameron exigiu um inquérito, gerou-se confusão sobre alegações imprecisas de queixas de funcionários de Downing Street, ouviram-se desmentidos oficiais e chegaram revelações de um estudo do gabinete do primeiro-ministro indicando que um terço dos seus 1 270 funcionários pretendem deixar o emprego queixando-se de um ambiente malsão.

   À primeira vista assiste-se a pequena tempestade irrelevante quando os trabalhistas tentavam relançar a imagem de um Brown simpático e tão preocupado com a fome em África quanto com a sorte do eleitor mais próximo versus um aristocrático David Cameron sem experiência governativa, menos de nove anos de parlamento e líder da oposição desde Dezembro de 2005, acusado, ainda por cima, de falta de competência para as complexidades da recuperação económica.

    Contudo, apesar da chamada de atenção feita terça-feira pelo governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, para as incertezas que rodeiam uma frágil recuperação económica e a necessidade de apresentar rapidamente um plano consistente de redução do défice orçamental e reestruturação do sistema bancário e financeiro, muito da próxima eleição vai jogar-se em questões de carácter.

                                   Um parlamento sem maioria
   Frente a um Cameron, de ar gentil e conhecido pelas suas andanças de bicicleta, clamando que chegou a alternativa conservadora para reduzir um défice orçamental recorde, nada convém a Brown a imagem de chefe de governo irascível e enredado em intermináveis complots com os seus pares trabalhistas.

   E, no entanto, pela primeira vez, Brown, desajeitado, maçudo, chatarrão, assolado por acessos de fúria, vislumbra alguma esperança de evitar um desaire eleitoral. Se confirmar a reviravolta nas tendências de intenção de voto, poderá, pelo menos, aspirar a um parlamento sem maiorias absolutas.

   O exemplo não é, contudo, demasiado inspirador.

   Na eleição de Fevereiro de 1974, o conservador Edward Heath perdeu a maioria absoluta, não conseguiu acordar um governo de coligação, e o Labour de Harold Wilson acabou por formar um executivo minoritário.

   O líder trabalhista convocaria novas eleições em Outubro e arrancaria então a maioria com mais três deputados.

   Aconteceu em 1974 e o irascível Brown bem pode agora controlar acessos de fúria para, pelo menos, pensar numa coligação.

Jornal de Negócios
24 Fevereiro 2010

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domingo, 9 de setembro de 2012

Um presidente desconcertante e dois chefes de governo equivocados

 Bush e John Howard
                                                    Forum APEC, Hanói, 18 Novembro 2006


    A vontade de "êxito instantâneo" é, afinal, uma ilusão nefasta, o Iraque uma "tarefa morosa" e difícil, mas o que conta é a determinação porque o triunfo é possível a menos que se opte pela retirada, tal a lição que, trinta e um anos após a queda de Saigão, George W. Bush diz ter retirado da guerra do Vietname ao compará-la com a actual situação em terras de Mesopotâmia.

   À desconcertante tirada de Bush na presença do seu aliado australiano John Howard, no primeiro dia de visita a Hanói, veio juntar-se a admissão por Tony Blair de que a intervenção no Iraque foi "um desastre", mas não por erros de planeamento ou devido a qualquer erro estratégico.

   Mais articulado do que o presidente norte-americano, o chefe de governo britânico culpava "as dificuldades" por motivo da violência desencadeada pela Al Qaeda e os insurrectos sunitas, por um lado, e pelas milícias xiitas apoiadas pelo Irão, por outro, contra a vontade de paz da maioria dos iraquianos.

    Determinado a manter tropas no Iraque em apoio do governo de Bagdade, Blair na sua entrevista ao canal inglês da Al Jazeera, concluiu que a dificuldade da situação residia na acção dos mesmos "elementos estrangeiros" que alimentam o extremismo global e, consequentemente, só uma estratégia de pacificação abarcando todo o Médio Oriente e o Afeganistão poderá conter a ameaça de uma corrente minoritária islamita "perversa e aberrante".

                             Blair em busca de crédito e parceiros

   A "estratégia global" de Blair passa por promover "forças moderadas" e oferecer uma parceria para "uma solução construtiva" à Síria e ao Irão a partir do momento em que designadamente Teerão abdique do apoio ao terrorismo e cumpra as suas obrigações internacionais desistindo do programa militar nuclear.

   A recusa de cooperação por parte de sírios e iranianos implica o isolamento internacional dos dois regimes, na visão do chefe de governo britânico.
Ignorando as advertências de Blair, Damasco e Teerão rapidamente tomaram a iniciativa diplomática para alargarem a sua margem de manobra no conflito sem esperarem por eventuais convites para negociações.

   A Síria restabelecia as relações diplomáticas com Bagdade cortadas em 1982 e o presidente Ahmanidejad convidada os homólogos iraquiano e sírio para uma cimeira em Teerão.

   Confrontada com as manchetes sobre o "desastre iraquiano", Downing Street viu-se obrigada a rectificar o sentido das declarações de Blair, precisando que o derrube de Saddam Hussein e a formação de um governo democraticamente eleito em Bagdade só podiam considerar-se como evoluções positivas e que o primeiro-ministro se limitara a constatar "as dificuldades existentes".

   As precisões e rectificações dificilmente terão elevado o crédito político de Blair nas capitais do Médio Oriente que, para além do caos da invasão do Iraque, ainda estão longe de lhe perdoar o apoio concedido a Israel quando Londres se recusou a apelar a um cessar-fogo imediato, em Julho, na fase inicial do ataque ao Líbano.

   De volta a Hanói, Condoleezza Rice, contagiada pelo desconcerto do seu presidente, afirmava, na mesma altura em que Blair se esquivava à apreciação desastrosa, que os iraquianos tinham boas lições a receber dos vietnamitas.

   No entender da secretária de estado os iraquianos devem preservar a sua unidade estatal e tal como os vietnamitas assumiram "escolhas difíceis" sobre os seus "conflitos internos" (eufemismo para a guerra contra a França entre 1945 e 1954 e para o posterior conflito com os Estados Unidos e os seus aliados anticomunistas) e abriram a economia ao exterior (a partir de 1986) também os povos da Mesopotâmia se seguirem o exemplo dos comunistas de Hanói terão "um futuro de paz e oportunidades".

   À encomendação da "escolha difícil" da guerra sem quartel dos líderes comunistas do Vietname e das suas reformas económicas após anos de catástrofe por parte da antiga professor universitária de Stanford, seguiu-se a vez do chefe do governo australiano que veio negar a ocorrência qualquer desastre no Iraque.

   Para John Howard é inverosímil falar em desastre pois a intervenção revelou-se apenas "mais difícil do que o esperado" e duas eleições, um referendo e o julgamento de Saddam são prova do "heroísmo" e "perseverança" dos iraquianos.

   Num fim-de-semana em que a violência fazia mais de 150 mortos no Iraque as declarações de Bush, Blair e Howard parecem, pois, revelar incapacidade em reconhecer que a situação se caracteriza pela proliferação de poderes rivais locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como pela multiplicação de bandos criminosos armados, em consequência da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein, e que nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Constatar que o exército e as forças de segurança são permeáveis à acção de milícias desafectas ao governo central e reconhecer o fracasso do executivo de Bagdade em assegurar o mínimo de consenso entre partidos xiitas, curdos e sunitas, além de se mostrar incapaz de prover condições de segurança e serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento, é acto que tão pouco parece estar ao alcance dos actuais responsáveis em Washington, Londres e Camberra.
      
                            A pergunta que faziam a Baker

   O paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, condiciona qualquer iniciativa política e acabou por deixar os três políticos implicados no fracasso à espera das propostas que a comissão Baker-Hamilton venha a aventar para puderem alterar o rumo.

   Henry Kissinger já opinou junto da comissão bipartidária que uma retirada precipitada destabilizaria por muito tempo a região, admitindo, no entanto, que o governo de Bagdade não conseguirá impor a curto prazo a sua autoridade a todo o país e controlar a violência sectária.

   Para o velho estratego só uma grande conferência internacional, com participação obrigatória da Síria e do Irão poderá definir compromissos que permitam ultrapassar o impasse.

   Da parte de Bush e de Howard, o compromisso para com um calendário de retirada faseada parece, no entanto, ser a atitude mais previsível ante as recomendações que o painel de notáveis e o grupo de análise do Pentágono venham a apresentar.

   A opção de reforço do actual contingente militar é, notoriamente, de difícil execução, de valia duvidosa e praticamente impossível de aceitar pelas opiniões públicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

   Já Blair acalenta algumas esperanças de apoio à sua vaga "estratégia global" e à possível convocação de uma grande cimeira internacional à semelhança da Conferência de Madrid orquestrada por James Baker em Outubro de 1991 com a anuência de Gorbachev no rescaldo da Operação Escudo do Deserto que obrigou Saddam a retirar do Kuwait e garantiu a autonomia das regiões curdas na zona de exclusão no norte do Iraque.

   Antes do mais, o presidente desconcertante e os dois primeiros-ministros equivocados terão, contudo, de atentar nas razões que levam James Baker a contar para quem o quer ouvir como, depois de anos passados a ser constantemente interrogado sobre as razões que o levaram a apoiar a decisão de Bush pai de não derrubar Saddam Hussein em 1991, acabou por chegar uma altura em que já ninguém via necessidade de lhe perguntar tal coisa.

   Já ninguém pergunta ao antigo secretário de Estado o porquê de tão controversa decisão que tanto amargou aos xiitas.

   Ninguém o interpela sobre tal opção desde o final de 2003, meio ano depois de Bush filho ter proclamado o "fim de operações militares significativas" no Iraque a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln com a faixa em fundo de "Missão Cumprida", quando os crescentes ataques de insurrectos e terroristas sunitas e xiitas vieram juntar-se ao caos dos primeiros meses da ocupação.



Jornal de Negócios
22 Novembro 2006

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domingo, 2 de setembro de 2012

A ressaca eleitoral para lá de Sócrates e Manuela



 
   Gordon Brown vai ser um dos maiores perdedores das eleições desta semana nos 27 e o descalabro trabalhista no Reino Unido augura o pior para o Tratado de Lisboa e as relações entre Londres e os parceiros europeus.

   A única dúvida que sobra das sondagens é saber se o Partido Trabalhista acaba ultrapassado pelos Democratas-Liberais de Nick Clegg e até que ponto um eleitorado exasperado com a recessão e os abusos de dinheiros públicos pelos deputados de Westminster acabará por dispersar-se a favor dos Verdes de Caroline Lucas, do United Kingdom Independence Party, que deplora a participação na UE, e dos candidatos de extrema-direita do British National Party.

   As votações simultâneas para 34 concelhos locais em Inglaterra também nada indiciam de bom para os trabalhistas, que, na expectativa de uma participação nas eleições europeias na ordem dos 38%, tal como em 2004, se arriscam a quedar-se com pouco mais de 20% dos votos.

   A confirmarem-se os piores augúrios, uma votação inferior a 20%, os dirigentes trabalhistas terão de considerar a séria possibilidade de nas eleições legislativas de 2010 correrem o risco de uma derrota comparável à bancarrota de 1983, quando Margaret Thatcher arrebatou 42% dos votos contra apenas 28% de Michael Foot.

                                Brown já era e Cameron complica

   A derrota anunciada de Brown porá em causa a sua intenção de promover uma reforma constitucional, mas a deplorável situação dos trabalhistas levará, provavelmente, muitos rivais a ponderarem duas vezes antes de tentarem derrubar o líder ou sequer apoiarem a convocação de eleições legislativas antecipadas.

   Nem a remodelação do governo, que poderá custar o lugar ao ministro das finanças Alistair Darling, também apanhado no escândalo de despesas fraudulentas, deverá ser suficiente para dar novo ímpeto aos trabalhistas, que se encontram presentemente a cerca de 20 pontos de distância dos conservadores nas intenções de voto.

   A magna questão que importa tanto quanto o que aconteça em Portugal ou na Alemanha tem, entretanto, a ver com uma declaração inopinada do mais que provável próximo primeiro-ministro britânico.

   David Cameron fez um discurso radical a 26 de Maio que nem levantou muitas ondas, tal é a desconfiança corrente entre a opinião pública britânica face aos alegados malefícios de Bruxelas.

   O líder conservador anunciou, no entanto, uma viragem radical na atitude dos "Tories" em relação à União Europeia.

   Até então, o Partido Conservador tinha-se limitado a prometer um referendo caso o Tratado de Lisboa não tivesse entrado em vigor à data em que chegasse ao poder, o que levaria, na previsível vitória de eurocépticos e eurofóbicos, à anulação da ratificação britânica.

   Agora, Cameron, que tem excelentes hipóteses de pôr termo ao ciclo trabalhista iniciado com a vitória de Tony Blair em Maio de 1997, assevera que é imperioso reverter para o Reino Unido os poderes alienados a favor da União Europeia.

   O líder conservador assegura, taxativo, que, em qualquer circunstância, convocará um referendo sobre o Tratado de Lisboa, exigirá aprovação referendária de eventuais alienações de poderes nacionais, promoverá um escrutínio detalhado no Parlamento das regulamentações da EU e da aplicação dos orçamentos de Bruxelas, além de reforçar os poderes dos juízes britânicos face à legislação europeia.

   Com esta declaração inopinada, Cameron meteu-se numa camisa de sete varas que lhe deixa escassa margem de manobra.

                                  Londres a léguas de Bruxelas
 
    Na mais que provável hipótese de chegar ao Nº 10 de Downing Street, o líder conservador ou cumpre a sua promessa e entra em confronto com os parceiros europeus, ou então renega as declarações e sujeita-se de imediato às críticas da ala maioritária de eurocépticos e eurofóbicos entre os conservadores britânicos, o que em qualquer circunstância é vendaval garantido.

   Mesmo que o referendo irlandês em Outubro aprove o Tratado de Lisboa, que o Tribunal Constitucional de Karlsruhe não levante objecções à ratificação pelo parlamento alemão, e que os presidentes Lech Kaczynski e Vaclav Klaus assinem os compromissos da Polónia e da República Checa, a reforma institucional da União bem pode encalhar nas costas britânicas.
Assunto de somenos, nunca falado por cá.

  Coisa tremenda que poderá dar cabo do que se aventa por terras portuguesas e um destes dias, de repente, sem que se tenha reparado muito nisso, fica em causa o que Vital, Rangel, Sócrates e Manuela davam por assegurado.

Jornal de Negócios
03 Junho 2009

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Isabel II: 60 anos de reinado


Isabel II renovou hoje o compromisso de serviço para com o seu povo e assim arrancaram os festejos dos 60 anos de ascensão ao trono. Isabel II, à beira dos 86 anos, está em vias de ultrapassar o recorde da sua trisavó, a rainha vitória. Mas não poderia ser mais diferente o destino das duas mulheres. Vitória reinou quase 64 anos e ao morrer, em 1901, era soberana do maior império do mundo. Isabel, pelo contrário, assistiu à fase final do desmembramento da potência imperial. No ocaso do seu reinado ainda terá pela frente um referendo sobre a independência da Escócia que poderá resultar na dissolução do reino unido da grã-bretanha fundado no início do século 18. Isabel II soube sempre adaptar-se. Num reinado marcado pela 
omnipresença da televisão conseguiu um equilíbrio difícil entre a distância do trono e a encenação da comunhão popular. Só, por uma vez, em 1997, quando diana de gales morreu, só então Isabel errou clamorosamente na apreciação do chamado sentimento popular. Mas Isabel II conseguiu emendar a mão. Uma década depois o filme “a rainha” viria a recriar esse Verão de terror e contrição da monarquia. Ironicamente, Helen Mirren uma das maiores actrizes inglesas, retrato perfeito da mulher emancipada, do desprezo pela aristrocracia e de tanta mudança que ocorrera na grã-bretanha do pós-guerra, haveria de ser logo Helen Mirren a encarnar com raro brilhantismo a personagem de uma rainha atormentada e desorientada. Passou esse ano horrível e se Carlos o seu herdeiro imediato não colhe simpatias já o neto Guilherme surge como uma aposta segura da monarquia. É certo que o sucessor de Isabel II dificilmente continuará a ser monarca constitucional de 16 nações soberanas, mas irá receber de sua mãe ou de sua avô um trono ainda prestigiado. Quem lhe suceder só a poderá louvar pelo sentido de estado e do dever. Ante controvérsias e mudanças que tantas vezes a devem ter amargurado Isabel II soube manter a pose e a dignidade. Cumpriu sempre o essencial e preservou a monarquia, a firma, a empresa, como se diz na gíria pela Grã-Bretanha. Todos reconhecem que Isabel foi, é, e, provavelmente, ainda será por mais alguns bons anos a senhora incontestada à frente da firma. Uma profissional do mais alto gabarito.

O mundo num minuto / TSF
06 Fevereiro 2012

domingo, 19 de agosto de 2012

A crise do euro e a reforma da União

Foi precisa uma rebelião em Westminster de deputados conservadores contra o seu primeiro-ministro e uma azeda tirada de Nicolas Sakozy contra David Cameron para trazer à ribalta a questão intratável da reforma institucional da União Europeia na sequência da crise do euro. O desprezo do presidente francês pelas pretensões de Cameron em participar nas discussões sobre a gestão da crise da eurozona teve o seu contraponto na recusa de um quarto dos deputados conservadores em acatarem as directivas do líder do partido para votarem contra a proposta não-vinculativa de convocação de um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia

Entre os 305 deputados conservadores 81 aprovaram a proposta apresentada à Câmara dos Comuns que acabou derrotada por 483 votos contra 111.

Eurocepticismo conservador

A obstinação de parte significativa dos eleitos conservadores na Câmara dos Comuns em contrariarem as directivas do primeiro-ministro, que nesta votação contava com o apoio dos parceiros de coligação liberal-democratas e da oposição trabalhista, evidencia a forte tentação de romper vínculos institucionais com a União Europeia que grassa no partido de Cameron. Os chamados eurocépticos conservadores consideram desejável assegurar essencialmente uma zona de comércio livre com os demais 26 parceiros da União descartando a maior parte da legislação comunitária, designadamente em áreas como o emprego, ambiente ou imigração.

Um primeiro passo nesse sentido seria a convocação de um referendo sobre eventual saída da UE, renegociação de acordos ou manutenção do status quo, conforme o proposto na petição popular apresentada pela eurodeputada Nikki Sinclaire(uma dissidente do "United Kingdom Independence Party") que recolheu mais de 100 mil assinaturas e foi levada aos Comuns pelo conservador David Nutall.

Um referendo com décadas

O conservador Edward Heath conduziu a adesão do Reino Unido à "Comunidade Económica Europeia" em 1973 e dois anos depois o seu sucessor trabalhista Harold Wilson cumpriu a promessa eleitoral dos trabalhistas de convocarem um referendo sobre a permanência no "Mercado Comum".

As divisões entre os trabalhistas não impediram que em Junho 67% dos eleitores acabassem por aprovar a manutenção do Reino Unido na CEE e desde 1975 nunca mais teve lugar qualquer referendo sobre os vínculos britânicos à União apesar da aprovação de sucessivas reformas institucionais porviados tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e Lisboa.

Para os proponentes conservadores da revisão dos acordos com a UE, que contam presentemente com crescente apoio popular maioritário segundo os inquéritos de opinião, é chegada a altura de pôr termo a uma deriva de transferência e cedência de poderes soberanos do estado e referendar as relações com Bruxelas.

O voto de protesto desta segunda-feira não punha em causa a sobrevivência da coligação governamental formada com os liberais-democratas em Maio de 2010, tendo escasso custo político imediato, e assumiu, assim, uma dimensão que superou as piores dissensões conservadores face ao governo de John Major por altura da ratificação do Tratado de Maastricht O furor anti-europeu não parou de aumentar entre os "tories" desde o crash da libra em Setembro de 1992, que levou o Reino Unido a abandonar o "Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio", foi factor decisivo na derrota eleitoral de Major em 1997, e ameaça agora Cameroa

Uma estratégia soberanista

Em plena crise do euro e ante perspectivas económicas negativas no Reino Unido um referendo sobre a UE seria colocar "a questão errada, no momento errado", nas palavras do chefe da diplomacia britânica William Hague.

David Cameron, por sua vez, argumentou que Londres defende melhor os seus interesses permanecendo na UE e a tese é partilhada pelos aliados liberal-democratas.

O líder conservador sublinhou ter-se comprometido a referendar qualquer reforma de tratados que venha a implicar cedências de soberania tal como Nick Clegg defendera no manifesto eleitoral dos liberais-democratas a convocação de um referendo "na próxima ocasião em que o governo britânico acorde uma mudança fundamental na relação entre o Reino Unido e a União Europeia".

Os parceiros europeus absorvem mais de metade das exportações britânicas, frisou também Cameron para reforçar o interesse do Reino Unido em participar na definição das regras do mercado único, mas o chefe do governo londrino foi claro na caracterização de outros objectivos fundamentais. Num apelo a união conservadora Cameron declarou que os tratados firmados depois de 1973 deveriam ter sido referendados e manifestou-se disposto "a remodelar a nossa relação com a UE para melhor servir os interesses nacionais". A estratégia do primeiro-ministro que dificilmente poderá ser contestada por liberais-democratas ou trabalhistas passa, portanto, por recuperar poderes legislativos, nomeadamente em matéria laborai e de segurança social, obstar à regulação de transacções financeiras prejudiciais à actividade da praça de Londres, além de preservar a opção de não-participação em regastes financeiros conforme acordado em relação ao segundo pacote de ajuda à Grécia.

Um processo mal encaminhado

Para os principais partidos britânicos, tal como ocorre na Suécia, Polónia ou na República Checa, é impensável que Londres e as demais nove capitais fora da eurozona, se vejam arredadas de um processo decisório que afecta directamente os seus interesses como integrantes de um mercado único.

As negociações de reestruturação da dívida grega, as discussões sobre reformas orçamentais de Roma ou recapitalização da banca estão a realizar-se essencialmente à revelia dos dez estados que não participam no euro e a equívoca liderança franco-alemã está longe sequer de chegar a compromissos aceitáveis sequer para os países da moeda única

A revisão dos tratados, incontornável para qualquer solução da crise do euro, está, contudo, também dependente dos estados fora da eurozona e, pelo que se vê do renovado fôlego dos eurocépticos conservadores britânicos às tiradas ofensivas de Sarkozy, tudo aparenta estar mal encaminhado. 
 

Jornal de Negócios
26 Outubro 2011