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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Eles estão ali...




   Ronda o meio milhão a estimativa falível de entradas de imigrantes ilegais na União Europeia a cada ano que passa.

   No flanco mediterrânico Espanha e Itália estão na linha da frente, recebendo dois terços das entradas ilegais, e as recentes investidas sobre Ceuta e Melilla revelam um padrão indesejável.

   As detenções de clandestinos em Espanha não sofreram alteração significativa desde 2002, tendo sido capturados 19 451 ilegais nos primeiros nove meses deste ano, mas o reforço da vigilância no estreito de Gibraltar e nas Canárias tornou mais perigosa a travessia e desviou as rotas de migração clandestina para os enclaves em Marrocos.

   O acordo entre Madrid e Rabat, em vigor desde 1992, ao permitir a repatriação imediata de ilegais diminuiu a pressão da imigração ilegal marroquina, mas não obsta à avalancha de desesperados oriundos da África subsaariana que podem almejar à possibilidade de permanência provisória em Espanha até determinação da sua nacionalidade e aproveitando a inexistência de acordos de repatriação.

   Após a legalização de clandestinos concluída em Maio, os imigrantes legais em Espanha oriundos da África negra rondam os 150 000 (considerando-se, no entanto, outros 80 000 ilegais), vêm sobretudo do Senegal e da Nigéria, mas não chegam a cinco por cento dos estrangeiros residentes, muito atrás das comunidades de marroquinos, equatorianos e colombianos.

   Senegal, Mali, Níger, Nigéria, Guiné-Bissau, Guiné Conackry, Guiné Equatorial e Gâmbia partilham o triste destino de serem países em crise permanente, mal governados, corruptos, ora avassalados por secas, ora devastados por conflitos étnicos.

   A travessia do Saara rumo à miragem da Europa nas costas de Marrocos persistirá dado a inexistência de padrões mínimos de bom governo comprometer a recuperação económica.

  Na ausência de interlocutores sérios na África subsaariana – independentemente da relevância demográfica e petrolífera da Nigéria – todo e qualquer auxílio de índole não-humanitária deve submeter-se exclusivamente a imperativos de controlo por parte dos doadores.

   O programa de três anos de assistência à gestão económica e boa governação aceite pela Libéria, em Setembro, ao colocar o controlo das receitas fiscais, alfandegárias e produtos financeiros sob tutela internacional é um exemplo a seguir nos casos extremos de estados falhados.

   No Magrebe, a população crescerá 48 por cento até 2025 e as economias locais, com índices de desemprego superiores a 15 por cento, não dão sinais de criação de postos de trabalho capaz de absorver tal pressão demográfica.

   O processo de parceria entre a União Europeia e os países do Mediterrâneo, lançado em 1995 com a Declaração de Barcelona, ao visar a criação de «um espaço de paz, estabilidade, segurança e prosperidade comum» esvaiu-se em ambiguidades estratégicas do Líbano à Argélia e não passa de rosário de bons intenções com escassos resultados práticos, enquanto, a nível comezinho, a produção de haxixe continuou a aumentar em Marrocos.

   Só o negócio do haxixe marroquino movimenta anualmente mais de 3 mil milhões de euros e alimenta, via contrabando, 70 por cento do mercado europeu, independentemente dos regimes legais sobre uso e consumo do estupefaciente.

   Na impossibilidade da União Europeia definir a curto prazo uma política comum de imigração e de ajuda efectiva ao desenvolvimento de países terceiros cumpre discutir e definir objectivos.

   Nesse sentido é de considerar o seguinte:

   – As sucessivas e descoordenadas legalizações de imigrantes ilegais devem terminar e submeter-se a um quadro comum de pautas de entradas em função das necessidades dos mercados de trabalho e no respeito pelas relações preferenciais dos diversos países motivadas por relações de ordem histórica;

  – As políticas de permanência e reunião familiar devem visar a integração de estrangeiros no respeito pelos valores constitucionais dos países de acolhimento;

  – O combate à imigração ilegal deve continuar a passar pela repressão das redes de tráfico, das formas de economia clandestina e ilegal (prostituição compulsiva, exploração de trabalho escravo, não-inscrição de trabalhadores em sistemas de segurança social e sindical, etc.) e pela celebração de acordos com países de passagem que os obrigue a aceitar o retorno de clandestinos comprovadamente oriundos do seu território em condições compatíveis com o respeito pelos direitos do homem;

  – A concessão de pedidos de asilo não se confunde com política de imigração e implica, em consequência, a suspensão das formas de auxílio bilateral ou multilateral aos estados responsáveis por actos sistemáticos e repetidos de perseguição;

  – Os programas de auxílio ao desenvolvimento devem calendarizar objectivos mensuráveis aferidos por comissões paritárias em que o voto de qualidade seja assegurado por personalidade ou entidade previamente acordada entre doadores e beneficiados.

   São requerimentos mínimos face à realidade das migrações que têm de levar em conta a inevitabilidade dos fluxos demográficos, as capacidades e necessidades de absorção do mercado de trabalho e dos sistemas de segurança e assistência social, os limiares de conflitualidade social e cultural, a vital promoção das trocas culturais e os imperativos de segurança face à criminalidade e a actos terroristas.

  Convém fazer face ao destino em muitas e variadas línguas.

Jornal de Negócios
12 Outubro 2005

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O cilício de Passos Coelho


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Foto: Joshua Benoliel, "A Ilustração Portuguesa"
                                  Nº 263, 6 de Março de 1911  


   Os planos de contingência da cimeira europeia para conter a crise do euro começaram a falhar ainda antes de Dezembro chegar ao fim e a desmoralização alastra.

   Londres recusou participar no financiamento excepcional de 200 mil milhões de euros dos estados da UE ao FMI numa tentativa de levar a instituição de Washington a criar linhas especiais de crédito para a eurozona.

   Os Estados Unidos já tinham manifestado o seu desinteresse num maior envolvimento do FMI na crise europeia, enquanto a China, Rússia e Brasil insistiam na necessidade de os próprios estados da UE angariarem os recursos necessários antes de tentarem recorrer a empréstimos nas instâncias internacionais.

                                          Fundos curtos

   A falta de um acordo a nível do G 20 foi assim pretexto suficiente para o Reino Unido não contribuir com cerca de 30 mil milhões de euros para um fundo que ficou reduzido a 150 mil milhões de euros.

   Portugal, Grécia e Irlanda quedam fora deste esforço de financiamento, enquanto estados da UE que não integram a moeda única, como a Dinamarca, República Checa, Polónia e Suécia, manifestaram a intenção de avançar com contribuições diversas conforme exigência do "Bundesbank" que pretende agregar o maior número possível de países dos 27.

   O fundo de resgate de emergência continua a contar, por sua vez, com pouco mais de 250 mil milhões de euros em caixa e o "Mecanismo Europeu de Estabilidade", cujo início de operações com disponibilidades na ordem de 500 mil milhões de euros, foi antecipado um ano para Junho de 2012, depara-se com duas dificuldades de maior.

   A Finlândia recusa prescindir da regra de unanimidade e põe em causa a opção de que o novo fundo permanente possa decidir actuar em situações de emergência quando estiverem reunidos 85% dos direitos de voto dos países da zona euro, independentemente das objecções da minoria.

                                 A degradação anunciada

   A "Fitch", por seu turno, juntou-se à "Standard & Poor’s" ao baixar para perspectiva negativa a notação AAA da França o que, além de motivar uma azeda troca de argumentos entre responsáveis financeiros de Paris e Londres sobre qual dos dois países apresenta piores indicadores económicos merecendo a degradação da sua capacidade de endividamento, ameaça fragilizar os fundos de resgate europeus.

   Os limitados recursos do "Fundo Europeu de Estabilidade Financeira", criado em Maio de 2010, e a sua notação AAA serão postos em causa se a França, conforme a maior parte dos investidores antecipam, perder o estatuto que partilha com a Alemanha, Finlândia, Holanda, Áustria e Luxemburgo.

   Acresce que as facilidades de crédito a três anos, com juros de 1%, que o "Banco Central Europeu" anunciou para a banca não irão ser canalizadas prioritariamente para o mercado da dívida soberana dadas as necessidades de recapitalização do sector avaliadas em 115 mil milhões de euros, obrigando assim a instituição de Frankfurt a prosseguir as compras no mercado secundário.

   A polémica político-legal sobre os termos de acordo intergovernamental a 26, excluindo a Grã-Bretanha, marcará o primeiro trimestre de 2012 e arrastar-se-á na sequência das eleições presidenciais francesas de Abril/Maio já que o candidato socialista François Hollande defende a eventualidade de recurso a emissões de obrigações europeias, mutualizando a dívida.

   A possível eleição de Hollande relançará a contestação à estratégia de austeridade imposta por Berlim que abafa qualquer hipótese de crescimento nos países assoberbados pela exigência de reduzir a curto prazo défices orçamentais e condenados a manter dívidas públicas que levarão décadas a baixar para níveis sustentáveis.

                             O gado humano para exportação

   O contexto é depressivo e a recessão anunciada para 2012 justifica uma desmoralização crescente que em países como Portugal é agravada por um discurso governamental propenso a enaltecer as virtudes salvíficas e morigeradoras do empobrecimento, enquanto nas hostes da oposição campeia notória irresponsabilidade.

   Um chefe de governo que constata as óbvias tendências de contracção demográfica e a incapacidade de reciclar e empregar mão-de-obra qualificada e excedentária num país pouco competitivo teria de dar sinal da sua modernidade reformista recorrendo ao mais tradicional dos expedientes nacionais.

   Seco e desencantado, Passos Coelho fez-se eco dos clássicos benefícios da emigração e quase parecia um discípulo de Oliveira Martins, descontando o pormenor do historiador oitocentista deplorar a saída maciça para o estrangeiro como "nosso atestado de prostituição política e económica."

   Oliveira Martins ao analisar, em 1891, a "fatalidade" da emigração concluía que "nos termos a que deixámos chegar a nossa economia nacional é indubitável que, sem subsídios do Brasil pela exportação da indústria da cria de gado humano há muito que teríamos rebentado falidos."

   Rematava o historiador que "se não os exportássemos, nas condições em que isto por cá anda, tínhamos um suplemento de alguns milhares de pretendentes a empregos reles, de galopins de eleições ou de parasitas a quem seria necessário salariar por outra forma com Obras Públicas, ou simulacros delas, unicamente empreendidas para lhes dar de comer. É, portanto, muito preferível que vão para fora; e como para parte nenhuma podem ir com mais proveito, seu e nosso, é excelente que vão para o Brasil."

   Foi excelente noutros tempos e há quem pense que se faz outra vez tempo de partir.

Jornal de Negócios
21 Dezembro 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=526603