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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A tentação militar na Líbia





    A guerra civil na Líbia está num impasse e as ameaças de intervenção militar de estados europeus e de Washington poderão tornar ainda mais complicada uma situação caótica.
   As forças rebeldes aparentam não ter capacidade militar para derrubar Gadaffi que se mantém entrincheirado em Tripoli, controla boa parte do ocidente do país e o porto de Sirte a meio caminho entre a capital e Benghazi.

   As tropas, milícias e mercenários do coronel não conseguem, por sua vez, lançar uma ofensiva para recuperar as cidades perdidas no leste do país.

   Gadaffi é ainda senhor de Sabha, a principal cidade na margens do Saara, mas a maior parte dos desertos do sul são domínio de tuaregues e outras tribos de fidelidades indefinidas.

   Vários políticos reivindicam em Benghazi representar um governo provisório ou um conselho nacional como alternativa a Gadaffi, mas não existe uma liderança política que possa ser reconhecida internacionalmente como representativa de uma qualquer futura autoridade de transição.

   As sanções internacionais aprovadas contra Gadaffi só surtirão efeito a prazo apesar de limitarem no imediato a capacidade do coronel para mobilizar recursos financeiros e militares e sirvam igualmente para fomentar deserções entre os seus fiéis.

                                        O dedo no gatilho

   À medida que se agravam a crise humanitária provocada pela fuga de trabalhadores imigrantes para o Egipto e a Tunísia e a ameaça de uma vaga de clandestinos cruzarem o Mediterrâneo, além de se acentuar a quebra nas exportações de petróleo e gás natural, surge a tentação de intervir militarmente na Líbia.

   Numa primeira fase apoiar militarmente diversas e conflituosas facções anti-Gadaffi em Benghazi e no leste da Líbia é a óbvia opção numa momentânea convergência de interesses estrangeiros - alguns países da União Europeia, os Estados Unidos e mesmo a China - para precipitar a queda do coronel.

   A França adiantou-se no envio de auxílio humanitário para Benghazi, enquanto conselheiros militares e operacionais de diversos serviços secretos se fizeram ao terreno, mas nenhuma pressão, mediação ou patrocínio estrangeiros têm hipóteses de sustentar uma frente unitária que só virá eventualmente a ganhar corpo mediante negociações e confrontos entre as facções líbias anti-Gadaffi.

   Armar grupos que não se controlam, de orientações políticas incertas e entre os quais se contam também islamitas radicais é, por outro lado, um tiro no escuro com efeito ricochete garantido.

   Da longínqua Austrália, pela voz do ministro dos negócios estrangeiros Kevin Rudd, surgiu o mote para a União Europeia - que falhou no essencial todas as políticas de cooperação com os estados do Magrebe - e Washington - outro caso de embaraço diplomático do Bahrein ao Egipto - começarem a admitir a hipótese de intervenção militar na Líbia, enquanto Moscovo foi célere no seu "nyet".

                                      Um risco excessivo

    A imposição de zonas de exclusão aéreas sem cobertura legal da ONU - concedida de forma indiscutível no caso da Bósnia-Herzegovina de 1993 a 1995 e controversa quanto ao Iraque entre 1992 e 2003 - e, tendo em conta que quem terá de tirar as castanhas do lume serão em primeiro lugar os estados europeus mais expostos aos riscos da Líbia, representa uma tentação por demais excessiva.

    Independentemente do Tribunal Penal Internacional puder vir a tipificar as acções de Gadaffi como crimes contra a humanidade ou crimes de guerra, a entrada no conflito de forças militares estrangeiras representa para todos os efeitos a intervenção numa guerra civil.

    Uma incursão militar com participação britânica, italiana e francesa nunca deixaria de ser vista como a mais cínica contrição de pecados por parte de antigos prevaricadores e parceiros económicos de Gadaffi.

    O contributo dos Estados Unidos para uma acção militar geraria uma onda de protestos contra Washington que até agora esteve ausente das revoltas árabes.

                                 Operação morosa e arriscada

    Para ser eficaz uma acção desse tipo (com prazo impossível de prever) teria, após definir com precisão as áreas alvo de vigilância e actuação, de impor zonas de exclusão aérea a todos aviões e helicópteros militares além de voos civis não-autorizados.

    O objectivo da operação não é claro e, no imediato, zonas de exclusão aérea apenas consolidariam as linhas de fractura existentes entre os beligerantes.

    Aguardar, depois, que protestos, revoltas, atentados e deserções acabem por reduzir cada vez mais as zonas sob controlo de Gadaffi deixa no escuro as condições em seria eventualmente prestado apoio militar no caso do coronel continuar a reprimir os opositores.

    Sem o contributo dos estados vizinhos - Egipto, Tunísia e Argélia - e limitada a bases em Malta, Chipre, Grécia e Itália, contando com a oposição de estados da NATO como a Turquia, o cunho unilateral da intervenção teria custos políticos e diplomáticos superiores a qualquer ganho imediato

    A eficácia da intervenção implicaria ainda alargar o âmbito das operações de forma a interditar a movimentação de tropas e equipamento militar no solo (basta lembrar que o massacre de Srebrenica em Julho de 1995 ocorreu apesar da zona de exclusão aérea da NATO e mesmo da presença de capacetes azuis no terreno) além de obrigar a bloquear surtidas da marinha fiel a Gadaffi e monitorizar o tráfego marítimo.

    A mobilização de meios seria necessariamente significativa e obrigaria a coordenar operações com facções anti-Gadaffi com a consequência de enlear desde logo forças estrangeiras nos conflitos que irão prosseguir após a queda de Tripoli.

    O risco de confrontos directos com apoiantes de Gadaffi numa situação de guerra implicaria também reavivar fúrias de todo o tipo contra o que seria visto por muitos como mais uma investida imperalista em terras árabes.

    O risco de uma intervenção militar é excessivo, certamente contraproducente, e a maior parte das opções que restam são más, mas as coisas são o que são.

                             A inevitável turbulência

    A guerra civil na Líbia seguirá o seu curso e, porque o petróleo encarece e os temores de outras sublevações em estados produtores estão bem vivos, a confluência de interesses contra Gadaffi acabará por prevalecer.

    Na Líbia, tal como no Iémen, as estruturas do estado são demasiado frustes e a ruptura dos equilíbrios e fidelidades tribais degeneram em guerras civis e movimentos separatistas.

    A turbulência e violência na Líbia persistirão depois da queda da Gadaffi, mas, tal como noutros estados árabes, tudo isso é parte de um ciclo imprevisível de conflitos a que as autocracias do Médio Oriente não podem escapar.


Jornal de Negócios
02 Março 2011

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domingo, 19 de agosto de 2012

O custoso triunfo da NATO na Líbia




    O incerto triunfo da NATO na guerra civil líbia tem altos custos políticos e levanta reticências quanto à futura cobertura legal por parte das Nações Unidas de intervenções militares com alegadas intenções de protecção humanitária.

   A resolução do Conselho de Segurança de 17 de Março, autorizando a adopção de "todas as medidas necessárias" à "protecção de civis", acabou por servir de pretexto à NATO para desencadear uma campanha contra Gadaffi que tentava esmagar a revolta que ganhara força em meados de Fevereiro.

   O cadastro e isolamento diplomático do coronel, mitigado apenas por apoios de estados africanos ou de países como a Venezuela, as ameaças de chacina dos insurrectos proclamadas em Tripoli criaram condições para facilitar uma acção militar.

                                 Guerra civil e interesses

   A imposição de zonas de interdição aérea e o bloqueio naval para impedir fornecimentos de armas e a chegada de mercenários foram acompanhadas a partir do início dos bombardeamentos, a 19 de Março, de ataques visando destruir equipamentos militares e centros de controlo e comando do regime.

    A não-oposição da China, Rússia, Índia e Brasil, além da incongruente abstenção da Alemanha, que valera a luz verde do Conselho de Segurança, interditando, no entanto, a presença no terreno de "qualquer tipo de força de ocupação estrangeira", cedo se transformou numa contestação política a que se juntou a África do Sul, enquanto a maior parte dos estados da Liga Árabe condenava Gadaffi.

   Duas razões eram subjacentes à intervenção da NATO na óptica dos estados contestários: impor a sua tutela política num país de interesse estratégico pelas suas vendas de petróleo e gás natural à União Europeia e obviar a riscos de emigração clandestina essencialmente da África subsahariana.

   O pretexto humanitário servira interesses diversos, como aliás é de regra, mas a partir de agora consensos ou ausência de vetos no Conselho de Segurança serão muito mais difíceis de conseguir em casos de guerra civil.

   A NATO foi e é um dos principais actores numa guerra civil alheia, sem ter em conta interesses de outras grandes potências.

   Mesmo num caso de interesse estratégico limitado, envolvendo uma liderança excêntrica genericamente desprezada pelas principais potências, as divergências de apreciação assinalam um previsível bloqueio à cobertura pela ONU de próximas intervenções militares em áreas onde estejam em disputa hegemonias políticas.

                              Nem massacres, nem arrebatamentos

   Os bombardeamentos permitiram deter a contra-ofensiva do coronel, mas a falta de preparação e descoordenação da heteróclita frente de revoltosos de Benghazi pouco mais possibilitaram numa primeira fase do que consolidar as linhas de fractura entre as facções em conflito.

   Por altura das primeiras infiltrações de forças especiais foram notícia sobretudo fracassos como a detenção no início de Março por revoltosos de oito elementos das SAS e do MI6 britânicos nos arredores de Benghazi.

   A crescente entrada em acção de agentes da NATO e estados aliados, como a Jordânia ou Qatar, contribuiu, por fim, para um melhor entendimento da situação no terreno e posterior armamento, treino e coordenação de acções com os opositores ao coronel.

   Embargos, sanções financeiras e comerciais debilitaram progressivamente Gadaffi, os ataques da NATO eliminaram a sua marinha e força aérea, reduziram a capacidade de abastecimento e movimentação de tropas e equipamentos e a entrada de mercenários, oriundos sobretudo do Chade.

   Massacres de populações civis foram evitados em boa parte pela intervenção da NATO e graças à aliança firmada com o "Conselho Nacional de Transição" (CNT) - criado no final de Fevereiro em Benghazi por dissidentes do regime, opositores seculares e islamitas - que se comprometeu a restringir acções de retaliação contra os inimigos.

   Mais de um milhão de refugiados - cerca de metade líbios e os demais trabalhadores estrangeiros - conseguiram abrigo na Tunísia e Egipto e mesmo a sorte de outros 240 mil desalojados internos foi, até agora, menos cruel do que o habitual em guerras civis por via da consolidação de zonas de segurança.

   Estes aspectos positivos do entendimento entre a NATO e o CNT, o reduzido número de vítimas civis dos bombardeamentos, e a impossibilidade de uma negociação entre Gadaffi e os opositores depois de rompidas as alianças tribais levaram alguns estados da aliança militar renitentes numa primeira fase a apoiar o esforço militar, caso da Turquia, a acabarem por não contestar publicamente a intervenção.

                                   Do impasse à ofensiva

  A falta de coordenação inicial das operações, lideradas pela França e Grã-Bretanha, a precaução de Washington em evitar assumir o comando da ofensiva num conflito tido como fora de uma área de vital interesse estratégico, foram deixando a claro divergências tácticas e a cada vez maior assimetria entre as capacidades das principais potências militares da Europa Ocidental e os Estados Unidos.

   Chegado o início de Agosto a Noruega retirava os seus caças F16 das missões ofensivas na Líbia, o impasse militar acentuava-se, as contratações de mercenários anti-Gadaffi no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos revelavam-se incómodas e as disputas e ajustes de contas entre os opositores de Gadaffi levavam ao assassínio de um dos principais comandantes militares do CNT.

   Mais de 7 500 ataques, segundo dados oficiais da NATO, tinham, contudo, reduzido substancialmente a operacionalidade das forças de Gadaffi e Julho marcara um crescente reconhecimento diplomático do CNT, uma entidade de valor político e respeitabilidade incerta, presidida por Abdel Jalil, um dissidente do regime, mas promovida a alternativa frentista de âmbito nacional.

                                      A sereia do Ramadão

   Para potenciar os efeitos do equipamento e treino de unidades no leste e ocidente da Líbia, a melhoria da coordenação de operações entre a NATO e forças anti-Gadaffi, e a erosão dos centros de controlo e comando de Tripoli, faltava, no entanto, fechar o cerco da capital.

   A conquista de Zawayia na semana passada, na sequência de uma ofensiva de forças berberes oriundas das Montanhas Nafusa, a ocidente de Tripoli, fechou o cerco à capital, cortando abastecimentos de combustível e as principais rotas de acesso à Tunísia.

   A partir daí a luta pelo controlo de Tripoli, a operação "Sereia" no mês do Ramadão, passava a marcar a fase final da guerra de movimento convencional, mesmo que cidades costeiras como Syrte, região natal de Gadaffi, ou Sabha, na zona desértica do sudoeste da Líbia, além de clãs da tribos Warfalla ou Magarha, continuem fiéis ao coronel.

   A vitória será de todas as milícias e brigadas das tribos, cidades e regiões líbias que se mobilizaram na revolta e que agora irão entrar em confronto, mas em termos de grande política a NATO soma aqui um triunfo incerto.

   Morto, cativo ou foragido, Gadaffi irá atormentar pelos tempos mais próximos os estrategos da intervenção da NATO na Líbia que estão irremediavelmente enleados nos conflitos que irão prosseguir após a conquista de Tripoli.

Jornal de Negócios
24 Agosto 2011

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Ardeu a tenda de Gadaffi


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    A guerra civil na Líbia, ao romperem-se as solidariedades tribais que sustentavam o regime de Gadaffi, é o mais repentino e inesperado desenlace da vaga de revoltas e protestos que abalam a maior parte do mundo árabe.

   O coronel optou por reprimir sem peias a contestação em Benghazi, centro da velha Cirenaica - a região leste da Líbia tradicionalmente reticente ao domínio de Gadaffi -, mas um erro de cálculo quanto às relações de força precipitou uma reacção imprevista.

   O primeiro sinal de uma irremediável ruptura dos consensos ocorreu na noite de domingo quando líderes de uma das principais tribos, Warfala, denunciaram a ilegitimidade da repressão e, então, o sistema de alianças que dava corpo ao aparelho de estado desfez-se em facções rivais.

   O dinheiro deixou de comprar fidelidades a partir do momento em que a honra das tribos em conflito ficou em causa.

   Na cultura política tribal da Líbia as afrontas lavam-se em sangue.

   A guerra civil entre grupos de interesses baseados em facções tribais que partilhavam poderes do estado foi assim a consequência inevitável do desmoronamento do consenso que Gadaffi conseguira gerir durante quatro décadas.

                                       A honra das tribos

   Na origem da revolta contra Gadaffi podem considerar-se os efeitos negativos de tomada de decisões arbitrárias em círculo cada vez mais restrito, a desigual partilha dos proventos petrolíferos em prejuízo das regiões leste da Líbia e o desemprego estrutural de cerca de 30% da força de trabalho, afectando essencialmente os jovens - sensivelmente cerca de 60% dos líbios tem menos de 30 anos.

   O país conta ainda com grande número de imigrantes clandestinos (entre 500 mil a 700 mil), milhão a milhão e meio de residentes legais e ilegais oriundos do Egipto e mais de 100 mil trabalhadores especializados estrangeiros, sobretudo da Ásia do Sul, mas toda esta mão-de-obra não chega a entrar em concorrência directa com a potencial força de trabalho líbia.
Para a população líbia uma dezena de grandes tribos definem as fidelidades e os sistemas de patrocínio.

   As cisões a que se assiste nas forças armadas evidenciam, por exemplo, linhas de fractura entre sobretudo os clãs das tribos Gadaffa (a tribo do coronel) e Magariha que detinham os principais postos de comando.

   Ao fim de uma semana de revoltas, Gadaffi perdera o controlo da Cirenaica, onde são influentes as correntes islamitas, e grassava uma repressão particularmente violenta em Tripoli.

   O alastramento da guerra civil deixa antever combates de rua com uso de armamento pesado e bombardeamentos pela aviação e marinha das cidades onde se concentra 90% da população.

                                     O saber de Ibn Khaldun

   A tese de Ibn Khaldun, uma das mentes mais brilhantes que o Maghreb viu nascer nos idos do século XIV, de que a corrupção do poder e da riqueza dissolve a prazo a capacidade de atracção e liderança dos grupos dominantes prova uma vez mais o seu valor.

   O que Ibn Khaldun escreveu sobre a dinâmica da formação, exclusivismo e dissolução de coesões sociais, a "asabiyah", ainda hoje explica muito do acontece na Líbia e, num sentido mais lato, por todo o mundo árabe.

   Consensos e coesões sociais de alcance mais ou menos limitado (caso do clã Tikrit de Saddam Hussein entre os sunitas iraquianos, por exemplo) foram-se dissolvendo à medida que os exclusivismos de poder se acentuavam e regimes autocráticos - formalmente monárquicos ou republicanos - se revelavam incapazes de oferecer alternativas de integração e promoção a novas gerações.

    O "boom" demográfico no mundo árabe teve o auge na década de 1960, com sete filhos por mulher, e tem vindo a declinar.

   Em 2008 registavam-se apenas três filhos por mulher, mas grande número de países enfrenta agora as consequências do crescimento demográfico e da urbanização.

   Nenhuma das economias árabes foi capaz, entretanto, de criar oportunidades de emprego para a geração (sensivelmente metade da população do Norte de África e Médio Oriente tem menos de 25 anos) que foi chegando ao mercado de trabalho e em certos países, como é o caso do Egipto, a expansão de medíocres sistemas de ensino redundou numa frustração de expectativas.

                                        Porquê agora?

   A nível ideológico a falência do pan-arabismo secularista e, posteriormente, do extremismo islamita como alternativas políticas levou a um vazio doutrinário em que a única evidência é, precisamente, a carência de legitimidade dos poderes instituídos.

   Sistemas que excluíam dos centros de decisão grupos cada vez mais vastos, incluindo em muitos casos camadas jovens com níveis educacionais superiores aos dos seus progenitores, geraram impasses políticos em que a cleptocracia e arrogância de poderes autocráticos alimentavam rancor e revolta.

   Apesar da capacidade de certos regimes, caso da Arábia Saudita ou das monarquias do Golfo, distribuírem proventos do petróleo, tensões confessionais e sociais (como a discriminação da maioria xiita na Bahrein) acabaram por galvanizar e mobilizar grupos sociais cada vez mais abrangentes que arriscaram testar a solidez e determinação de sucessivos regimes.

   Baixos níveis de alfabetização ou de acesso à internet (mesmo rondando apenas 15% da população no Egipto, mas com implicações mais latas em termos de actividade empresarial) não impediram uma capacidade acrescida de mobilização de minorias activistas, potenciada por cadeias de televisão como "Al Jazeera", que supreenderam regimes calejados na censura trivial do panfleto e publicações clandestinas.

   Protestos, revoltas e agora uma guerra civil são a série de eventos subversivos que revelam o fracasso comum de "asabiyah" que se pretendiam perenes.

   A tenda de Gadaffi já ardeu e mais revoltas estão prestes a estalar da Jordânia a Marrocos.


Jornal de Negócios
23 Fevereiro 2011

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