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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A trituradora do Japão

Naoto Kan
   Outro primeiro-ministro japonês foi triturado em pouco mais de um mês e as reformas prometidas pelo Partido Democrático (PDJ) depois da vitória nas eleições de Agosto de 2009 esfumaram-se ante a realidade de novo impasse político.
   Naoto Kan sucedeu no início de Junho a Yukio Hatoyama, condenado a demitir-se por financiamentos políticos ilícitos e após falhar a promessa de reduzir substancialmente a presença militar norte-americana no arquipélago.

   O anterior ministro das Finanças lançou-se na campanha para renovar a maioria da coligação governamental na eleição de domingo de metade da câmara alta do parlamento de Tóquio com declarações confusas sobre a possibilidade de aumentar a taxa de IVA.

   Kan e os seus aliados do Novo Partido do Povo, de direita, acabaram por falhar a maioria de 122 mandatos e viram o Partido Liberal-Democrático (PLD) recuperar da derrota que no Verão passado pôs termo a mais de meio século de hegemonia do bloco de centro-direita.

                            Um primeiro-ministro por fios

   Com 308 deputados na câmara baixa da Dieta, 12 mandatos aquém da maioria absoluta para se impor a eventuais obstruções na Câmara de Conselheiros, o PDJ, fundado em 1998 por dissidentes do PLD, social-democratas, socialistas, sindicalistas e centristas de várias tendências, terá agora de procurar novos aliados para aprovar legislação.

   Em Setembro Kan tem, ainda, pela frente eleições internas para a liderança do PDJ e até lá o seu destino depende dos acordos que conseguir firmar com pequenos partidos nas duas câmaras do parlamento.

   Pelo caminho o sexto chefe de Governo de Tóquio em quatro anos terá de encontrar uma solução para o diferendo com Washington sobre a base aérea de Futenma, em Okinawa, a maior instalação militar norte-americana no país.

   Sem qualquer apoio em Okinawa, onde se concentram mais de metade dos 47 mil militares norte--americanos destacados para o Japão, e ante a oposição do Partido Social-Democrata, que abandonou a coligação governamental em Maio, o PDJ esforça-se por encontrar uma solução de compromisso que permita relocalizar as instalações numa área menos povoada da ilha.

   Um acordo com os Estados Unidos poderá, no entanto, revelar-se impossível de concretizar se, conforme as sondagens indicam, um candidato oposto à transferência da base vencer as eleições para governador da perfeitura de Okinawa em Novembro.

                                      Promessas perdidas

   Disciplinar a burocracia do estado e descentralizar poderes contaram-se entre as grandes promessas eleitorais do PDJ.

    Hatoyama nem teve tempo para cumprir com o compromisso de pôr cobro à prática tradicional em que facções do PLD interferiam na actividade do executivo e a burocracia definia e controlava orçamentos à revelia do parlamento.

    O PDJ afirma continuar a pretender impor a neutralidade do funcionalismo público e a sua subordinação ao governo através da nomeação de supervisores da Dieta para os principais organismo de estado, além de reforçar o papel das chefias políticas dos ministérios na elaboração e gestão do orçamento.

   A par desta centralização da decisão política à custa da burocracia de estado, o PDJ defende a descentralização de poderes, incluindo gestão orçamental, para os municípios e órgãos de governo local, mas tudo está comprometido pela incapacidade de definir uma estratégia para ultrapassar a deflação e reduzir a dívida pública.

   O PDJ está dependente de acordos políticos com partidos minoritários para avançar com reformas fiscais como as propostas para reduzir o imposto de 40% sobre lucros e um aumento da actual taxa de 5% do IVA.

                                      IVA e dívida grega

   O aumento do IVA serviria na perspectiva do PDJ, que multiplica declarações contraditórias sobre a matéria, para financiar a reforma do sistema de pensões (21,5 % da população está na faixa etária a partir dos 65 anos), aliviando a dívida pública, mas arrisca deprimir o consumo interno.

   Kan dramatizou a situação do país, agitando o espectro de uma crise à grega, ao afirmar ser insustentável manter os actuais níveis de dívida pública que se aproxima dos 200% do PIB, o maior rombo da contabilidade nacional entre as economias desenvolvidas.

   No Japão 94 % das obrigações do tesouro são subscritas por instituições nacionais e particulares, mas à medida que a população envelhece (dos actuais 127 milhões de habitantes deverá cair para 89 milhões em 2055) as taxas de aforro domésticas irão diminuir e o recurso aos mercados internacionais será inevitável.

   Admitindo que crescimento económico depois das contracções de 2008 e 2009 poderá ultrapassar os 2% este ano, o governo de Tóquio, tem ainda de conter um défice orçamental na ordem dos 7%.

   A segunda economia mundial em apuros com uma das mais baixas taxas de produtividade entre os países desenvolvidos e uma dívida pública recorde esbarrou, outra vez, num impasse político.

Jornal de Negócios
14 Julho 2010

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nenhuma nação é uma ilha




    Na iminência de uma eleição que poderá custar cara ao “Partido Democrático do Japão” (PDJ) o governo de Yoshihiko Noda optou por nacionalizar três ilhas do arquipélago de Senkaku na posse de um empresário nipónico, abrindo o mais virulento confronto com a China desde a normalização das relações diplomáticas em 1972.

   A soberania nipónica sobre estas cinco ilhas e três rochedos é contestada pela China, que denomina o arquipélago Diaoyu, além de Taiwan, tendo o diferendo propiciado diversos incidentes desde os anos 90.

   Uma proposta de subscrição pública para a municipalidade de Tóquio adquirir as ilhas, administradas pela prefeitura de Okinawa, foi lançada este ano pelo governador da capital, Shintaro Ishihara, um nacionalista de direita proponente do reforço das capacidades militares do Japão.

                              Duas guerras e o mar imenso


   O arquipélago desabitado está na posse de Tóquio desde a vitória japonesa sobre a China na guerra de 1894-95 que viu Pequim perder Taiwan e o controlo da Coreia.

   A partir de 1945 as ilhas ficaram sob administração dos Estados Unidos que as reverteram para o Japão em 1971, tendo os sucessivos governos de Tóquio impedido até agora a presença no arquipélago de cidadãos nipónicos sem autorização oficial.


 

   O PDJ, no poder desde 2009, tem, no entanto, sido alvo de críticas pela oposição de centro-direita do “Partido Liberal-Democrático” por complacência e fraqueza ante as pretensões chinesas.

   Em Setembro de 2010 a detenção da tripulação de um arrastão chinês ao colidir em águas do arquipélago com dois navios-patrulha nipónicos provocou uma grave crise diplomática -- coincidente com uma disputa sobre exportações de minérios raros da China para o Japão – cuja resolução deixou na maioria da opinião pública nipónica a ideia de que PDJ não soubera assumir uma posição de força.

    O recente reavivar de disputas com a Coreia do Sul quanto a indemnizações de guerra e a soberania sobre as ilhotas e rochedos de Dokdo/Takeshima, controladas por Seul desde 1952, contribuiu, juntamente com a campanha de Ishihara e o temor de perdas eleitorais, para a decisão de Noda de comprar as três ilhas de Senkaku por 2,05 mil milhões de ienes (19,87 milhões de euros).

   A nacionalização de 11 de Setembro, uma semana antes do aniversário do início da invasão da China pelo Japão em 1931, foi pretexto para mais uma vaga de manifestações anti-nipónicas que, até ao momento, as autoridades de Pequim têm controlado em função dos seus interesses tal como aconteceu com os protestos depois do bombardeamento pela NATO da embaixada chinesa em Belgrado em 1999.


   O confronto sino-japonês surge, por sinal, num momento pouco auspicioso para Pequim em que a consagração de novos dirigentes no Congresso do Partido Comunista se vê abalada por graves escândalos de corrupção, abuso de poder e diferendos sobre estratégia económica.

                        Dinâmicas de confronto


   A imbricação entre a segunda maior economia do mundo (a China desde 2010) e a terceira maior economia conterá o conflito, malgrado o risco de uma escalada a curto prazo por via de provocações e desafios de parte a parte, mas não resolverá a questão de fundo.

   A China é o principal parceiro comercial do Japão, representando 21% das suas trocas comerciais e investimentos superiores a 83 mil milhões de dólares desde 1996.

   O Japão é, por sua vez, o quarto destino das exportações da China, e as trocas entre os dois estados equivalem a 9% do total da balança comercial de Pequim.

   As dinâmicas de poder são, contudo, pouco propícias a entendimentos a médio prazo.

   Antes do dobrar da metade do século o Japão encontrar-se-á em retracção demográfica aparentemente irreversível e a China terá uma população activa em redução acelerada ainda antes de o rendimento médio per capita ultrapassar os níveis próprios de um país em vias de desenvolvimento.

   As disputas pelo controlo de rotas marítimas e a projecção de poder militar, confundem-se com conflitos por recursos piscícolas, jazidas de petróleo e gás natural e estendem-se por uma vasta área em que a China reivindica direitos soberanos.

   O Mar do Sul da China é palco de acrimónia insolúvel entre a China, Vietname, Taiwan, Filipinas, Brunei e Malásia e -- tal como outros confrontos envolvendo Tóquio, Pequim e Seul – envolve, além de mitos nacionais, amargas memórias de guerras desencadeadas pelo Japão a partir do final do século XIX.

   O conflito entre a Rússia e o Japão sobre as Curilas cabe numa categoria diferente de diferendos sobre apropriações territorias no rescaldo da derrota do Império japonês em 1945, mas condiciona qualquer governo em Tóquio obrigando a não ceder nas disputas com a China ou a Coreia do Sul por questão de princípio.

   O sistema de alianças centrado em Washington acaba, finalmente, por envolver os Estados Unidos em todos os conflitos regionais.

   As disputas sobre ilhas, ilhotas e rochedos nos mares asiáticos do Pacífico são sinais de problemas que se avolumam.

Jornal de Negócios
18 Setembro 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

Hatoyama - Tiro e queda

 

   A política por vezes tem destas coisas e a Hatoyama foi um ar que lhe deu num instantinho.

   Yukio Hatoyama chegou a primeiro ministro do Japão em Agosto do ano passado com um vitória eleitoral histórica.

   O Partido Democrático desalojava do poder os democratas-liberais, o grande bloco conservador que durante meio século tinha governado o Japão.

  Hatoyama prometia reformas de fundo num Japão, a segunda maior economia do mundo, atolado numa crise há duas décadas.

 Uma economia estagnada, a pior dívida pública dos países desenvolvidos, uma quebra demográfica acentuadíssima: 127 milhões de japoneses habitam o arquipélago, mas em meados deste século nem chegarão a 90 milhões.

   Foi por muito pouco tempo que brilhou nova promessa de reforma.

   Com uma taxa de aprovação acima dos 70 por cento Hatoyama e o seu Partido Democrático, uma mescla de dissidentes conservadores, centristas e socialistas, prometeram inaugurar uma nova era política, só que falharam em toda a linha.

  Escândalos de financiamentos partidários ilícitos, tal e qual os antecessores do partido liberal democrático, puseram logo em causa a probidade dos reformadores.

   Muito pior, num erro crasso Hatoyama prometeu encerrar a maior base militar norte-americana no Japão. A base na ilha de Okinawa com mais de 30 mil militares norte-americanos. Falhou a negociação com os estados unidos e o destino ficou selado: a taxa de aprovação do chefe de governo caiu a pique e só lhe restou demitir-se.

  Foi assim que hoje (2 Junho 2010) o Japão viu cair mais um primeiro-ministro.

  Quatro chefes de governo em quatro anos e sexta-feira (4 de Junho) outro entrará na calha.

  Os democratas, com a maioria que têm na Câmara Baixa do parlamento de Tóquio continuarão a governar mesmo que percam as eleições para o Senado em Julho, mas o Japão para já viu finar-se mais uma promessa de reforma política e económica.

  Junte-se-lhe a crise da Toyota que se vê obrigada a retirar carros com defeitos nos mercados internacionais, some-se-lhe a falta de iniciativa diplomática, e o Japão dos nossos dias é uma sombra do passado recente.

   Ainda há bem pouco tempo, ainda no princípio dos anos 90, corriam temores espantosos sobre o poder avassalador do Japão.

  Compravam tudo, quadros de Van Gogh, tinham as maiores multinacionais do mundo, o yene valia ouro.

  Filmes uns atrás dos outros, montes de livros, celebravam a era do domínio do Japão. Hoje ouve-se o mesmo em relação à China, algo menos quanto à Índia.

  Por certo a ascensão de potências da Ásia é uma realidade a par do declínio relativo dos Estados Unidos e sobretudo da Europa. Mas algumas ascenções irresistíveis nunca são bem o que aparentam. Nem a chinesa é o que se ouve por aí, nem a japonesa conseguiu esconder graves problemas de fundo.

 A queda brusca de Hatoyama, está aí a provar como é difícil uma política de reformas em tempos difíceis e logo na segunda maior economica do mundo.

TSF / O Mundo num Minuto
02 Junho 2010

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Coreia do Norte sobe a parada


   O Paquistão efectuou em Maio de 1998 a sua primeira série de testes nucleares.

   Seguiram-se três anos de sanções e, em 2004, o principal responsável do programa paquistanês Abdul Khan era obrigado a confessar publicamente que uma rede clandestina sob sua direcção traficava informação e materiais para países envolvidos em projectos nucleares militares.
   A Líbia, o Irão e a Coreia do Norte contavam-se entre os principais clientes da rede de Abdul Khan e Pyongyang chegou mesmo a adquirir centrifugadores do tipo P2 para enriquecimento de urânio, segundo revelou o general Pervez Musharraf nas suas memórias recém-publicadas.

   A nuclearização militar do Paquistão, na sequência do teste realizado pela Índia em 1974, foi o caso mais grave de fracasso do Tratado de Não-Proliferação desde a sua adopção em 1968.
 
   Nem Nova Delhi, nem Islamabade são signatários do Tratado e, por duas ocasiões, em 1999 e em 2002, os dois estados estiveram perto de recorrer aos seus arsenais nucleares.
 
   Israel, que iniciou com auxílio da França na década de cinquenta um programa militar nuclear, concluído com êxito nos anos sessenta, encontra-se, igualmente, fora do Tratado.

  A Coreia do Norte, que em 2003 abandonou o Tratado acaba, por sua vez, de tornar-se a nona potência militar nuclear do planeta.

   No acervo positivo das últimas décadas podem, no entanto, contar-se a renúncia de estados como a África do Sul, o Brasil e a Líbia aos seus projectos militares nucleares, bem como a desnuclearização das antigas repúblicas soviéticas mediante acordos estabelecidos por iniciativa de Moscovo e Washington.

   Aos riscos de proliferação estatal junta-se a ameaça terrorista patente no tráfico ilegal de materiais radioactivos passíveis de uso para fabrico de "bombas sujas". A Agência Internacional de Energia Atómica registou desde 2002 mais de 300 casos de tráfico ilegal de materiais radioactivos, sobretudo na Europa.

   As perspectivas de imposição de uma proibição total de testes nucleares são remotas. Potências nucleares, como, por exemplo, os Estados Unidos, recusam tal alternativa invocando a necessidade de modernização dos seus arsenais.

                                        A última cartada

   O ensaio nuclear norte-coreano foi de dimensão diminuta. As estimativas vão de uma quilotonelada a 15 quilotoneladas.

  Trata-se de uma potência em todo o caso inferior à explosão que arrasou Hiroxima em 1945 e abaixo do nível dos primeiros ensaios nucleares indiano e paquistanês.
 
   As capacidades da Coreia do Norte armar mísseis com engenhos nucleares são, aparentemente, ainda pouco significativas, mas seria um erro subestimar a determinação de Pyongyang que conseguiu concretizar o objectivo estabelecido nos anos cinquenta de se dotar de meios militares nucleares.
 
   A Coreia do Norte contou, inicialmente, com o apoio reticente de Moscovo e, posteriormente, de Pequim, mas, além do contributo paquistanês, as fases finais do projecto assentaram nos seus próprios recursos humanos e tecnológicos.
 
   Nunca Kim Il Sung, nem o seu sucessor Kim Jong Il perderam de vista que só armas nucleares poderiam evitar que os Estados Unidos voltassem a considerar a possibilidade de optar pelo uso de bombas atómicas contra o regime de Pyongyang, tal como o general Douglas MacArthur propôs no final de 1950 para deter o avanço das tropas norte-coreanas e chinesas.
 
   A partir do momento em que passou a dispor de urânio e plutónio com qualidade suficiente para dotar-se de um pequeno arsenal nuclear o regime de Kim Jong Il tem-se por invulnerável a um ataque militar, tanto mais que os 20 milhões de habitantes de Seul estão ao alcance das suas forças de artilharia e os mísseis da classe No-Dong têm capacidade para flagelar todo o sul da península e alcançar o Japão.
 
   O objectivo aparente de Pyongyang, falhadas as iniciativas negociais da administração Clinton e a estratégia de recusa de conservações directas de George W. Bush, visa obrigar os Estados Unidos a assinarem um acordo de paz que ponha termo ao estado técnico de guerra que prevalece desde o final das hostilidades em 1953, retirando as suas tropas e arsenais da península, provendo ajuda económica e financeira, além de garantias de segurança.
 
   Nenhuma administração norte-americana alguma vez aceitará tais condições e se Washington falhou o desiderato de impedir a nuclearização da Coreia do Norte pode, pelo menos, considerar que a última cartada de Kim Jong Il isolou ainda mais o país e provou que a campanha iniciada o ano passado para desarticular a vasta rede norte-coreana de lavagem de dinheiro – nomeadamente através de bancos em Macau –, tráfico de droga e cigarros afectou significativamente o regime, mas não a ponto de pôr em causa a sua sobrevivência.
 
    A partir de agora Pyongyang já não tem mais cartas para jogar salvo a provocação militar que será intolerável para todos os estados vizinhos.
  
  A possibilidade de Pyongyang aumentar as suas receitas através de vendas de tecnologia militar é limitada e a ameaça de tráfico de materiais radioactivos ou nucleares para grupos terroristas mostra-se, ainda que real, pouco racional porque provocaria retaliações capazes de aniquilar o regime que visa, sobretudo, a sua autoperpetuação.

                                 Um novo imperativo para a China

   O regime de Kim Jong Il é essencialmente vulnerável a sanções que a China possa vir a aplicar já que Pequim fornece mais de 70 por cento do combustível e um terço dos alimentos consumidos pela Coreia do Norte.

   Para a China, a aplicação de sanções implica o risco de Pyongyang enveredar por provocações militares intoleráveis, agravando ainda mais os riscos de militarização nuclear do Japão ou da Coreia do Sul, ou de causar o colapso do estado norte-coreano.
  
   Ambas as alternativas são negativas para Pequim que, presentemente, não dispõe de influência para propiciar qualquer tipo de golpe político ou militar em Pyongyang.
 
   A capacidade de resistência do regime de Kim Jong Il à avalanche de desastres (secas, inundações, fomes) que causou mais de dois milhões de mortos na última década não augura, também, viabilidade às sanções internacionais que vieram a ser adoptadas se Pequim mantiver um nível mínimo de abastecimentos para permitir a subsistência do estado norte-coreano.
 
   Em Seul reina, também, o consenso de que o colapso brusco do regime norte-coreano apresenta riscos económicos e de segurança intoleráveis.
 
   O Irão e a necessidade de preservar a capacidade de dissuasão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear são os factores que obrigam, no entanto, à adopção de medidas de contenção da Coreia do Norte.

    Se tal como aconteceu com o Paquistão, a Coreia do Norte conseguir nos próximos anos ser aceite como potência nuclear o Tratado está condenado e o regime iraniano terá excelentes perspectivas de êxito para o seu programa militar.
  
  Kim Jong Il cometeu, contudo, um erro clássico.

  Ao realizar um teste nuclear precisamente no dia em que o Comité Central do Partido Comunista chinês iniciava o seu plenário o líder norte-coreano fez perder a face ao presidente Hu Jintao.
 
   É algo de intolerável para a cultura política chinesa e levará certamente a China a repensar as alternativas de que dispõe para derrubar o "Querido Líder", preservando, no entanto, a Coreia do Norte como entidade estatal autónoma.
 
   Talvez aqui possa surgir uma oportunidade para ultrapassar o impasse se Pequim conseguir articular um acordo com os Estados Unidos que terão de propiciar garantias de segurança aos eventuais sucessores de Kim Jong Il.



Jornal de Negócios
11 Outubro 2006


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domingo, 2 de setembro de 2012

Outra promessa de reforma no Japão

 Yukio Hatoyama


   Depois da "década perdida" e das reformas inacabadas do primeiro-ministro Juinichiro Koizumi, entre 2001 e 2006, o Japão está prestes a entrar num novo ciclo político que porá termo à hegemonia do Partido Liberal-Democrático (PLD).

   O Partido Democrático do Japão (PDJ) vai, com toda a probabilidade, liderar o governo de Tóquio após as eleições de 30 de Agosto para a Câmara Baixa do Parlamento nipónico (Dieta), prometendo reformar o sistema político e relançar a economia.

   A perda do controlo da Câmara Alta da Dieta em Julho de 2007 e a sucessão, entre escândalos e desavenças das facções do PLD, de três chefes de governo notoriamente incapazes foram o dobre de finados num cenário de agravamento das desigualdades sociais e perda de competitividade a que se juntou, por fim, a crise financeira e económica mundial, que resultou na pior recessão do pós-guerra no Japão.

                                       Ganhar credibilidade

   Às portas do poder, o PDJ tem passado os últimos meses a tentar ganhar respeitabilidade como partido governamental.

  O controverso Ichiro Ozawa demitiu-se da presidência do PDJ a favor de Yukio Hatoyama em Maio devido a um escândalo de corrupção, mas, ainda assim, é um dos cabeças-de-lista em Tóquio e figura de proa na campanha eleitoral.

   Fundado em 1998 por dissidentes do PLD e agregando, ainda, social-democratas, socialistas, sindicalistas e centristas de várias tendências, o PDJ é um partido heteróclito e a sua linha política tem sofrido revisões significativas.

   Apesar de continuar a afirmar a necessidade de reorientar a aliança de defesa com os Estados Unidos numa base igualitária, o PDJ abandonou as reticências à missão logística da marinha japonesa no Índico para apoio ao esforço de guerra no Afeganistão e admite agora a comparticipação financeira de Tóquio na reorganização da rede de bases militares norte-americanas no arquipélago.

  O PDJ ainda critica a concentração em Okinawa de 70% dos 37 mil militares dos Estados Unidos estacionados no arquipélago, considerando que devem ser redistribuídos por outras regiões, mas passou a aceitar a comparticipação financeira de Tóquio na transferência de 8 mil fuzileiros norte-americanos para Guam.

  A instalação de armas nucleares norte-americanas ou a sua passagem pelo arquipélago sem consulta prévia ao governo de Tóquio, ao abrigo de um acordo secreto paralelo ao Tratado de Segurança Mútua de 1960, também já não é terminantemente repudiada pelo PDJ.

  Hatoyama afirma estar disposto a negociar com Washington a eventual revisão do princípio dos "Três Nãos", adoptado numa resolução da Dieta de 1971, que exclui a posse, produção ou introdução no Japão de armas nucleares.

   O PDJ concorda igualmente com as sanções em vigor contra a Coreia do Norte, as missões de patrulha da marinha japonesa nas costas da Somália e admite maior flexibilidade nas negociações com a Rússia sobre o Sul da cadeia das Curilhas anexadas por Moscovo no final da Guerra do Pacífico, mas reafirma a soberania japonesa sobre as quatro ilhas em disputa.

   Além de aceitar o compromisso de reduzir em 25% em 2020 as emissões de gases com efeito de estufa em relação aos níveis de 1990, em vez dos 8% propostos pelo actual governo, o PDJ apresenta-se sobretudo como um garante da continuidade na política externa.

                             Disciplinar o Estado, reforçar o governo

   Disciplinar a burocracia do estado e descentralizar poderes é uma das grandes promessas eleitorais do PDJ.

   Hatoyama afirma que cumpre pôr cobro ao sistema preservo que caracterizou cinco décadas de governação em que as facções do PLD interferiam na actividade do executivo e a burocracia definia e controlava orçamentos à revelia do parlamento.

   O PDJ propõe-se impedir que, uma vez referendado o executivo e o orçamento pela Dieta, facções do partido governamental vetem de facto as decisões do poder executivo.

   Na prática trata-se de incorporar no governo os principais dirigentes do partido, evitando que os chefes de facções ganhem peso no parlamento e em órgãos de decisão informais.

   O PDJ pretende impor a neutralidade do funcionalismo público e a sua subordinação ao governo através da nomeação de mais de uma centena de supervisores da Dieta para os principais organismo de estado, além de reforçar o papel das chefias políticas dos ministérios na elaboração e gestão do orçamento.

   A par desta centralização da decisão política à custa da burocracia de estado, o PDJ defende a descentralização de poderes, incluindo gestão orçamental, para os municípios e órgãos de governo local.

   Para um partido pouco coeso e sem experiência de governo, tamanha reforma, que implica a neutralização do alto funcionalismo público a par da sua subordinação a directivas de um governo partidário, remetendo, ainda, os parlamentares do PDJ a um papel de mero suporte político, parece de difícil concretização, mas é parte integral da própria estratégia económica e financeira.

                                  Limitações orçamentais

   Hatoyama considera ser possível recuperar mais de 100 mil milhões de dólares gastos de forma espúria num orçamento que atinge os 2.172 triliões de dólares e reorientar essa verba para programas de reforma da segurança social, apoio às famílias, consumidores, e ao sector agrícola reduzido a 3 milhões de pessoas - 70% na faixa etária a partir dos 60 anos - para estimular o consumo interno numa economia demasiado dependente das exportações.

  A reforma do sistema de reformas e a garantia de uma pensão mínima universal de 70 mil ienes (515 euros) é uma das prioridades num país em que 21,5% da população atingiu a faixa etária a partir dos 65 anos.

  As projecções apontam para uma redução da população dos actuais 127 milhões para 89 milhões em 2055 e o PDJ não contempla o recurso a mão-de-obra imigrante, apesar de pouco mais de 2,5 milhões de estrangeiros viverem no arquipélago.

   O PDJ visa financiar a reforma do sistema de pensões através do imposto sobre o consumo, cuja revisão dos actuais 5% para valores mais elevados considera não ser possível efectuar nos próximos quatro anos.

   Tal como no caso de apoios às famílias com filhos menores de 15 anos, da eliminação de portagens em auto-estradas, ou da redução dos impostos sobre os lucros para pequenas e médias empresas, de 18% para 11%, o PDJ confronta-se com problemas de financiamento que não serão superados pela prometida redução de deduções fiscais para os rendimentos mais altos.

  O défice orçamental ronda os 7% do PIB e para o presidente do PDJ só após a estabilização da economia será possível apontar objectivos quantitativos para a sua redução.

                                           Uma retoma lenta
    Os 264 mil milhões de dólares em programas de estímulo à economia (cerca de 2% do PIB) injectados desde o Outono de 2008 tardam a relançar o consumo interno, e o desemprego deverá ultrapassar no final do ano o recorde de 5,5% registado em Abril de 2003.

  O partido, com apoio da esquerda, defende um aumento do salário mínimo e a garantia de igualdade salarial para trabalhadores temporários.

  A reforma laboral de Koizumi de 2004 acelerou as desigualdades de remunerações e presentemente trabalhadores a prazo ou a tempo parcial representam um 1/3 da mão-de-obra com remunerações em média 40% inferiores à do pessoal do quadro.

  Esta remuneração diferenciada da força de trabalho foi um dos factores que permitiram às empresas evitarem maiores perdas de competitividade, apesar de o Japão ter caído para nono lugar em termos mundiais.

  O PDJ contará com apoio eleitoral e político para rever o sistema de remunerações, ainda que muitas empresas possam repercutir aumentos de custos sobre fornecedores ou reduzir pessoal, mas confrontar-se-á com forte resistência por parte das associações patronais.

  As dificuldades da retoma económica, após a contracção de 3,5% do PIB no ano fiscal terminado em Março, são outro factor inibidor de reformas a curto prazo.

  Apesar do declínio das exportações em Junho (menos 35,7% em relação ao mês homólogo do ano anterior) ter diminuído cerca de 5% comparado com a quebra das vendas ao exterior de Maio, apenas as grandes empresas beneficiaram destes resultados.

  A dívida pública supera os 180% do PIB, o pior índice na OCDE, e, salvo um aumento nas emissões de títulos do tesouro, tradicionalmente subscritos na quase totalidade pelos particulares e a banca japoneses, o PDJ terá grandes dificuldades em financiar as suas promessas.

  Um novo ciclo político vai começar no Japão caso o PDJ venha a conseguir maioria para formar governo sem necessidade de alianças comprometedoras, mas muitas das reformas dificilmente serão concretizadas.

Jornal de Negócios
29 Julho 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=380070

A eleição de 30 de Julho de 2009 resultou em 308 mandatos para o PDJ e 119 para o PLD na Câmara de Representantes. (Nota de Setembro 2012)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Japão: um guerreiro nunca morre

 Shinzo Abe


   O Trono do Crisântemo dará hoje, muito provavelmente, notícia do advento do desejado herdeiro para gáudio dos tradicionalistas, mas será a chegada à chefia do governo de Tóquio de Shinzo Abe, no próximo mês, que irá marcar uma mudança significativa nos equilíbrios estratégicos da Ásia Oriental com a assunção pelo Japão de uma política externa mais interventiva e pautada pelo reforço das suas capacidades militares.

   O sucessor de Junichiro Koizumi apresenta como principais prioridades da diplomacia nipónica a supressão da ameaça nuclear norte-coreana, o reforço da aliança militar com Washington e um alinhamento estratégico de contenção da China, designadamente através de um maior empenhamento nas relações com a Índia e a Austrália.

   As restrições impostas às forças armadas japonesas pela Constituição de 1947 deverão, assim, ser eliminadas e ao sistema de ensino caberá a promoção da ideia de identidade e orgulho nacionais sem contemplações pelas críticas aos alegados méritos dos projectos de expansão imperial prosseguidos desde o final do século XIX e que culminaram na derrota na Guerra do Pacífico.

   A melhoria de relações com a China e a Coreia do Sul contam-se, também, entre os objectivos enunciados por Abe, mas, neste particular, o futuro líder do Partido Liberal-Democrático (PLD) reclama um «esforço acrescido» por parte de Pequim e Seul que só pode ser recebido com um esgar de mal-estar por parte de sul coreanos e chineses.

                                  Culpas por assumir

   O silêncio de Abe quanto às visitas de altos dirigentes nipónicos ao santuário xintoísta de Yasukuni, em Tóquio – onde se veneram os mortos em combate pelo Imperador, incluindo 14 condenados por crimes de guerra –, alimenta as críticas da esquerda japonesa e dos governos da região, em especial da Coreia do Sul e da China.

   A persistente recusa da maior parte dos políticos e intelectuais do Japão em assumirem responsabilidades pelas atrocidades japonesas durante a Guerra do Pacífico inquina as relações com aliados e parceiros regionais.

   O pedigree conservador de Abe – filho de um ministro dos negócios estrangeiros nos anos oitenta, sobrinho neto de um primeiro-ministro do final da década de 60 e inícios dos anos 70, Eisaku Sato, e, por sinal, Prémio Nobel da Paz em 1974, além de neto de Nobusuke Kishi chefe de governo no final dos anos cinquenta, anteriormente detido por suspeita de crimes de guerra, mas nunca julgado – e a sua visão tradicionalista e vitimista do Japão como nação injustiçada por um esforço de guerra justificado alimentam as maiores apreensões nos estados vizinhos.
       
                              O fim da Constituição pacifista

   A Constituição imposta por Douglas MacArthur, que Abe considera «um acto de contrição do vencido ante o vencedor», estipula no seu artigo 9º a «renúncia perpétua à guerra como direito soberano da nação e à ameaça ou uso da força como formas de resolução de disputas internacionais».

   Desde a sua criação, em 1955, que o PLD pugna pela revisão da Constituição que nega o «direito de beligerância» e constrange a acção das forças armadas, apesar da interpretação vigente ter permitido a criação de «Forças de Autodefesa», consubstanciadas num corpo de 240 mil homens, com um orçamento anual de 50 mil milhões de dólares, sensivelmente 1 por cento do PIB, mas, ainda assim, suficiente para firmar o lugar do Japão como quinto país em termos mundiais em matéria de gastos militares.

   Apesar de o Japão dispor de capacidades tecnológicas para uma rápida reconversão, as suas «Forças de Autodefesa» não dispõem sequer de mísseis de médio e longo alcance, submarinos nucleares ou porta-aviões e a participação em missões internacionais de paz, iniciada nos anos 90, confronta-se com restrições consideráveis.

   A proposta de novo texto constitucional aventada pelo PLD no final do ano passado implicará, também, uma revisão do tratado de cooperação mútua e segurança com os Estados Unidos de forma a alargar as responsabilidades militares japonesas.

   Abe, num cenário marcado por insolúveis disputas territoriais com a China, a Coreia do Sul e a Rússia, acrescido da letal deriva nuclear de Pyongyang, visa alargar o âmbito da cooperação com os Estados Unidos, na esteira das iniciativas de Koizumi, nomeadamente através da partilha de sistemas de defesa antimísseis e da presença de um porta-aviões nuclear norte-americana numa base no arquipélago.

   As leis adoptadas com carácter temporário em 2001 e 2003 para apoio logístico a missões no Afeganistão e Iraque tenderão a ser substituídas por legislação que permita a participação e assistência em forças multilaterais de pacificação ou manutenção da paz, tendendo, a prazo, a eliminar as restrições ao uso de força letal por militares japoneses sujeitos a ataques e, por maioria de razão, à retaliação em caso de acções ofensivas contra ao arquipélago.

   Um programa de reforma constitucional terá de ser aprovado por uma maioria de dois terços nas duas câmaras do parlamento e através de maioria simples em referendo nacional, cujos termos ainda aguardam aprovação pela Dieta de Tóquio.

   A derrocada do Partido Socialista e a consolidação do Partido Democrático como principal força da oposição no final dos anos noventa criou, no entanto, condições para uma revisão constitucional, mas Abe terá primeiro de passar pela difícil prova das eleições para a Câmara Alta, agendadas para Julho, e tentar alargar a maioria de 135 mandatos frente aos 82 detidos pelo Partido Democrático, num total de 242 deputados.

                                            O primeiro passo

   Na frente eleitoral aquele que será o mais jovem primeiro-ministro japonês, com apenas 51 anos, pode contar com o efeito benéfico da recuperação económica e do fim da deflação, dois méritos de Koizumi após a sua nomeação em Abril de 2001.

   As propostas para obviar ao envelhecimento populacional (21 por cento dos japoneses têm mais de 65 anos e a taxa de fertilidade cifra-se apenas em 1,24 crianças por mulher), vão a par dos planos para limitar a imigração a um máximo de 3 por cento da população o que duplicaria o número actual de residentes estrangeiros, 2 milhões entre os 128 milhões de habitantes do arquipélago.

   Os efeitos perniciosos do envelhecimento e da contracção demográfica já se fazem sentir (as projecções apontam para uma quebra da população para o patamar dos 105 milhões em 2050) e obrigam ao incremento de recursos para a assistência social e médica que podem gerar problemas orçamentais e dificultar a obtenção de maiorias parlamentares necessárias ao grande projecto de reavaliação constitucional.

   Dois anos como chefe de gabinete e porta-voz do governo, além de secretário-geral do PLD, deram a Abe exposição suficiente para se impor como o herdeiro de Koizumi, num caso exemplar de estratégia de sucessão partidária que exasperará por certo os trabalhistas britânicos, mas está ainda por definir o papel futuro das facções do partido governamental que o primeiro-ministro cessante marginalizou.

   As esperadas discussões quanto ao aumento de impostos indirectos representam outro óbice que poderá contribuir para reduzir as possibilidades de Abe impor o seu programa de renovação nacionalista.

   A única certeza que sobra resume-se à recusa generalizada por parte da opinião pública japonesa da «diplomacia do cheque» que durante décadas marcou a presença internacional do Japão, em função da pujança económica e financeira, e o predomínio de uma vertente nacionalista que, na ausência da autocrítica pelos malefícios da guerra, ronda perigosamente o culto da nostalgia do excepcionalismo nipónico.

Jornal de Negócios
07 Dezembro 2006

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O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

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domingo, 19 de agosto de 2012

O presidente do Pacífico de passagem pela Europa



Tóquio,
14 Novembro 2009

  
   A intervenção militar na Líbia liderada por franceses e britânicos entra no seu terceiro mês sem solução política à vista e ameaça envolver os Estados Unidos num atoleiro que Barack Obama tentou evitar.

   Os aliados europeus de Washington estão em risco de a curto prazo cederem à tentação de mobilizar forças terrestres para tentarem fazer pender a relação de forças contra Gadaffi numa guerra civil que se arrasta.

  O coronel tem-se mostrado capaz de manter o controlo sobre os principais centros urbanos das regiões ocidentais e do sul da Líbia apesar do isolamento internacional de Tripoli.

   As acções militares dos países da NATO ultrapassam os termos da mera protecção de civis salvaguardada por decisão do Conselho de Segurança da ONU e colocam Londres, Paris, Roma e Washington em rota de colisão com grande número de estados árabes e potências como a China, Índia, Rússia, Brasil ou África do Sul.

   Os Estados Unidos, após assumirem o comando e coordenação militares na fase inicial dos ataques aéreos e navais, tinham descartado a participação em força na ofensiva contra Gadaffi por considerarem a Líbia um país não-estratégico para os seus interesses.

   Descoordenação e divergências políticas, insuficiências militares dos aliados europeus, acabaram por constranger os Estados Unidos a prosseguirem uma participação directa nos ataques e a darem cobertura a uma dúbia coligação de opositores ao coronel.

   A guerra civil líbia, que implicava sobretudo os interesses de aliados como a Itália, Espanha, a França ou a Turquia, revela um dos paradoxos maiores com que se confrontam os Estados Unidos: mesmo quando a Casa Branca pretende distanciar-se de certas crises regionais a rede de interesses e alianças internacionais acaba por arrastar Washington para intervenções indesejadas.

                                    O arrimo dos aliados

   Apesar de todos estes embaraços os Estados Unidos precisam dos aliados europeus para financiar, sustentar politicamente e apoiar militarmente a estratégia definida para o norte de África e o Médio Oriente e reiterada a semana passada por Obama.

   A retórica de apoio à Tunísia e ao Egipto, as denúncias das violências na Líbia, Síria e no Iémen, os silêncios sobre a repressão dos xiitas no Bahrein, omissões quanto à democratização em países como Marrocos, Arábia Saudita ou Jordânia, definiram o quadro estratégico traçado por Obama e em todos os casos será conveniente a Washington contar com a NATO e a União Europeia.

   O impasse no conflito israelo-palestiniano, contudo, poderá a curto prazo saldar-se por uma divergência diplomática séria se a Turquia e alguns estados da UE apoiarem em Setembro uma declaração unilateral de independência palestiniana, mas as consequências no terreno serão diminutas.

   A administração democrata nunca retirará o sustento financeiro e militar a Israel por mais que condene as expansão de colonatos na Cisjordânia e, em último recurso, tal como os aliados da NATO e da UE, encontrará na campanha para contenção do programa militar nuclear do Irão fundamento suficiente para evitar o isolamento diplomático de Telavive.

   A questão iraniana condiciona, também, as relações com os países bálticos, do leste europeu e a Turquia na medida em que Washington e a NATO ainda não acordaram com Moscovo os termos de uma eventual parceria para um sistema de defesa anti-mísseis justificado em última análise pela alegada ameaça de Teerão.

                                 Perdidos no Hindu Kush

   A ressaca de uma guerra sem norte na Mesopotâmia em que o Irão surge como beneficiário claro deixou os europeus com escassa influência quanto à planeada retirada parcial dos militares norte-americanos do Iraque, mas já no Afeganistão os Estados Unidos necessitam de todo o arrimo possível.

   As negociações em curso com os taliban dificilmente levarão os insurrectos a participarem em Dezembro na Conferência de Bona que assinalará o décimo aniversário do estabelecimento do governo interino do Afeganistão e a via negocial mostra-se incapaz de pôr termo à guerra.

   Na impossibilidade de vitória militar é aventada como justificação para retirada progressiva o argumento de que irão desaparecer bases permanentes no Afeganistão de organizações terroristas capazes de representarem um perigo regional ou internacional.

   O abandono do teatro de guerra afegão terá bom acolhimento nas opiniões públicas ocidentais, mas é uma solução de recurso ilusória, se a neutralização do Afeganistão - independentemente do regime político em Cabul ou das partilhas de poder no país a que ocidentais, russos e iranianos se acomodem - não for feita em termos que não antagonizem o Paquistão, nem sejam vistas pela Índia como uma ameaça.

                                   Projecção incomparável

   Todas estas questões que Obama aborda na presente digressão europeia são reveladoras de algumas características das relações dos Estados Unidos com os seus principais parceiros do velho continente e que ultrapassam em muito as dimensões económicas e financeiras.

   A NATO, a presença do Reino Unido e da França no Conselho de Segurança, as estruturas políticas da UE, representam, apesar das crescentes limitações na projecção de poder dos europeus, o mais sólido apoio de última instância dos Estados Unidos.

   O suporte que os europeus oferecem não se estende além de zonas tradicionais de influência em África, detém-se nos contrafortes do Cáucaso, mas contem a Rússia, e do Médio Oriente chega a adiantar-se pela Ásia Central graças à cada vez mais relevante contribuição turca.

   Além do peso económico e cultural da Europa, os legados coloniais propiciam uma desproporcionada influência global que não tem paralelo em potências de outros continentes.

   Obama autoproclamou-se em Tóquio, em Novembro de 2009 ainda nem completara um ano de mandato, "o primeiro presidente americano do Pacífico".

   O "presidente do Pacífico", pelo simbolismo de uma infância no Hawai e na Indonésia, tem necessariamente de reequilibrar a estratégia de Washington para tentar acomodar os interesses das potências emergentes, sobretudo a China e a Índia.

   Na Europa, muito em especial nos países com mais antigas relações históricas com os Estados Unidos, Washington continua, no entanto, a encontrar um núcleo de apoio político e com uma influência global sem paralelo.


Jornal de Negócios
25 Maio 2011

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Chinês rico é o que se quer



   Primeiro foi o austero The Economist a asseverar que salários mais altos para os trabalhadores chineses são coisa boa para o Ocidente.

   Se os rendimentos do trabalho aumentarem irão crescer o consumo doméstico e as importações e o relançamento global do emprego compensará o eventual aumento de custo nas importações da China.

   Tudo o que possa contribuir para o escasso consumo doméstico chinês, que presentemente corresponde a apenas 36% do Produto Interno Bruto (PIB), é, também, bem vindo para Die Welt. O diário conservador alemão sublinha que o envelhecimento demográfico torna a Europa cada vez mais dependente da expansão do consumo em países como a China e a Índia.

   Neste Agosto Le Monde saudou igualmente as reivindicações laborais na China e também no Bangladesh. Para o jornal parisiense uma alta salarial na Ásia contribuirá para travar a deslocalização de indústrias e serviços e criará novos consumidores para os produtos europeus.

                         MESMO QUE GANHE POR FORA

   O consenso sobre a valia do consumidor chinês deu ainda maior relevância a um estudo da Fundação para o Estudo da Reforma Económica da China patrocinado pelo Crédit Suisse.

   Os investigadores estimaram que o rendimento disponível não-declarado das famílias possa totalizar cerca de 9,3 triliões de yuans, ou seja 30 % do PIB de 2008. A Fundação de Pequim atribui, ainda, mais de 63% do rendimento não-declarado aos 10% mais ricos.

   Uma chuva de comentários sublinhou desde logo dois aspectos: a desigualdade social, oleada pela corrupção, é muito superior ao estimado, colocando a China a par dos piores países da América do Sul, e, tinha de ser!, o potencial de consumo ultrapassa as expectativas mais animadores.

                      É GRANDE E VAI SER AINDA MAIOR

   Tóquio reconheceu que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China superou o do Japão: 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares. Após ter ultrapassado a Alemanha em 2007, nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, os comentários foram mais contidos.

   “China é a segunda economia mundial” e “China a caminho de alcançar os Estados Unidos” foram algumas das manchetes que tinham ignorado no final de Julho o vice-governador do banco central e responsável pelo reserva cambial de Pequim, Yi Gang, ao declarar que a economia chinesa era maior do que a japonesa.

   Pequim subestima sistematicamente certos dados estatísticos, sobretudo do sector de serviços, e exclui Macau e Hong Kong da contabilidade nacional, pelo que não era descabida a declaração de Yi Gang.

                                       TOMBA O SAMURAI

   Bem pode o governo de Tóquio referir que, no primeiro semestre de 2010, a dimensão da economia japonesa ainda superava a chinesa.

   Era maior a economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), mas é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.

   A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares.

   A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.

   Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o seu PIB correspondia a 80% do norte-americano. O crash imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica.

                      SEREIS VELHOS ANTES DE ENRIQUECER

   Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em paridade de poder de compra e, presentemente, as estatísticas referem, segundo os mesmos indicadores, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.

   A China continua, no entanto, relegada numa base per capita para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37 870 doláres do Japão ou os 47 240 dos Estados Unidos.

   Depois, há o peso do atraso e das assimetrias regionais e o modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se.

   A degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água, enquanto o tão esperado incremento do consumo interno se confronta com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.

   As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia e os efeitos perversos da política de filho único, introduzida em 1978, vão começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado.

   A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos).

   O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.

   As projecções da ONU cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

                               UM ETERNO POTENCIAL

   Por essa altura é provável que em termos nominais a China esteja em vias de se tornar na maior economia mundial, tal como acontecia antes da Revolução Industrial.

   Tem um senão: será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.

   E, com a China ao longe, ainda se falará do potencial do consumidor chinês.

HOJEMACAU

19 Agosto 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=1081

O alvoroço com a China


   As estatísticas revelaram-se confrangedoras e o terceiro trimestre consecutivo de crescimento económico japonês quedou-se por uma taxa de 0,4 % em ritmo anual, mas o que chamou a atenção foi o simbolismo de Tóquio reconhecer que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China ultrapassou o do Japão.

   Ao divulgar segunda-feira que o PIB nominal da China no segundo trimestre fora de 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares do Japão o governo de Tóquio dourou a pílula referindo que no conjunto do primeiro semestre deste ano a dimensão da economia japonesa ainda se mostrava maior do que a chinesa e apenas inferior à dos Estados Unidos.

   Depois de ter ultrapassado a Alemanha em 2007, já nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, não houve grande alvoroço.

                                Cai o Japão, sobe a China

   Agora, ao contrário da reconhecida superior dimensão da economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.

   A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares e nem precisa de contabilizar dados de Hong Kong e de Macau.

   A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.

   Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o PIB nipónico correspondia a 80% do norte-americano.

   O "crash" imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica assolada pela deflação, uma dívida pública rondando os 200% do PIB, um consumo privado estagnado e dificuldades em recuperar o dinamismo exportador das indústrias electrónicas, de construção naval, automóvel e de equipamentos industriais.

   Tóquio contabiliza, ainda, os efeitos da contracção demográfica, que deverá levar a população dos actuais 127 milhões de habitantes para 89 milhões em 2055, e particularmente deprimentes são as estimativas que chegam quanto a uma antiga colónia.

   A Coreia do Sul poderá ultrapassar o rendimento "per capita" do Japão dentro de duas décadas, segundo projecção do IHS Global Insigth, mas, tal como no caso de outras estimativas e indicadores tudo isto só conta parte da história e o que suceder com a Coreia do Norte pode virar tudo do avesso.

   Uma tendência de fundo é, contudo, certa: na segunda metade do século os dois países mais populosos, a China e a Índia, irão recuperar a posição de maiores economias mundiais que tinham perdido na sequência da Revolução Industrial.

                                 Envelhecer antes de enriquecer

   Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em termos de poder de paridade de compra, segundo o FMI, e, presentemente, as estatísticas do Banco Mundial referem, ainda nos mesmos termos, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.

   Desde então, no entanto, com a aceleração do consumo chinês de matérias-primas, crescimento das reservas de divisas e investimentos no estrangeiro a influência de Pequim na economia mundial aumentou significativamente.

   A China continua, ainda assim, relegada numa base "per capita" para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37.870 doláres do Japão ou os 47.240 dos Estados Unidos.

   O peso do atraso e das assimetrias regionais levará décadas a ultrapassar.

   O modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se e a degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água.

   O incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.

   As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia, apesar de nos últimos trinta anos cerca de 300 milhões de chineses terem ultrapassado o limiar da pobreza.

   O efeito perverso da política de filho único, introduzida em 1978, vai começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado e algumas das consequêcias notam-se já na quebra brusca dos efectivos da faixa etária entre os 15 e os 29 anos.

   A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos). O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.

   As projecções da ONU, na variante intermédia, cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

   Por essa altura é bem possível que em termos nominais a China seja a maior economia mundial, mas será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.

Jornal de Negócios
18 Agosto 2010

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