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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O espectro terrorista paira sobre a Rússia

Moscovo, 29 Março 2010

    Pouco depois do presidente Dmitri Medvedev ter anunciado, em Abril de 2009, o fim de uma década de "operações anti-terroristas" na Tchetchénia uma vaga de atentados no norte do Cáucaso obrigou o Kremlin a tomar medidas drásticas para conter a espiral de violência.

    O último Verão ficou marcado por um incremento de acções terroristas na Tchetchénia e, sobretudo, nas repúblicas vizinhas da Ingushétia e do Daguestão, não poupando também a Kabardino Balkaria.

    O recrudescimento da violência político-religiosa, saldando-se por 916 mortes confirmadas em 2009 contra 586 no ano anterior, foi ficando restrito ao norte do Cáucaso até, em Novembro, um atentado contra o comboio-expresso Moscovo-Sankt Petersburgo ter vitimado 27 pessoas.

    Finavam-se assim quase cinco anos de relativa calma para maioria da população russa em que separatistas do norte do Caúcaso não concretizaram atentados noutras regiões do país e confirmava-se o fracasso de Moscovo em estabilizar o flanco sul onde, segundo Medvedev, imperam "baixo nível de vida, elevado desemprego e a corrupção generalizada".

                            A ameaça de uma campanha terrorista
   Ao diagnóstico do presidente, tornado público durante uma visita à região em Junho, pode acrescentar-se a radicalização religiosa, confrontos entre seitas sufis e islamitas wahabitas, sentimentos separatistas anti-russos e lutas entre clãs e etnias pelo controlo político e esferas de influência nos circuitos das economias oficial e paralela.

    No imediato os atentados desta semana em Moscovo por duas bombistas suicidas originárias do norte do Caúcaso levantam dúvidas quanto à capacidade do Kremlin de evitar novos ataques capazes de tirarem lustro às comemorações em Maio dos 65 anos da vitória na II Guerra Mundial.

   O maior risco é, sobretudo, a previsível escalada de violência separatista para aproveitar a atenção internacional na contagem decrescente para as Olimpíadas de Inverno de 2014 em Sotchi, na província adjacente de Krasnodar.

    Um novo crescendo da xenofobia russa tendo como alvo os compatriotas do norte do Caúcaso - cinco milhões e meio de pessoas num dos mais complexos caldeirões étnicos do planeta -, abrangendo igualmente cristãos georgianos e ossetas, além de imigrantes da Ásia Central de religião muçulmana, é uma deriva inevitável que irá a par de um aumento da repressão e presença das forças militares e de segurança na região.

    Sinal do que está para vir foi a sugestão do chefe da Comissão de Investigação da Procuradoria da Rússia, Aleksandr Bastrikin, a 4 de Março, de criar uma base de dados com as impressões digitais de toda a população do norte do Caúcaso e a emissão de novas matrículas para veículos automóveis para monitorizar potenciais ameaças terroristas.

                                  Uma proliferação de conflitos
   A eclosão dos confrontos na Tchetchénia no dealbar dos anos 90, a guerra de 1994-1996, o subsequente conflito de 1999-2000, a instauração com beneplácito de Moscovo do regime do presidente Ramzan Kadirov apostado na islamização da república (presentemente com 1 milhão de habitantes), apoiando-se nas duas principais confrarias sufis (Kadiria e Nakshbandia) contra os fundamentalistas wahabitas, redundaram numa maior dispersão dos movimentos separatistas em toda a região.

   Na Ingushétia (cerca de 460 mil habitantes), em risco de renovado conflito com os vizinhos cristãos ossetas, a proliferação de um islão wahabita seguiu um curso semelhante ao do Daguestão (2,5 milhões de habitantes), assinalando-se idêntica tendência na Kabardino Balkaria (900 mil habitantes), enquanto na república de Karachaievo-Tcherkessia (aproximadamente 400 mil habitantes) Karachais e Balkars confrontam reivindicações de Circassianos e Abazas.

   A diversidade de conflitos no norte do Caúcaso dificulta uma estratégia concertada de estabilização por parte de Moscovo.

   A proliferação e conflitualidade dos diversos movimentos separatistas de tendência wahabita é ofuscada, contudo, pela predominância de tchetchenos e inguches na maior parte dos atentados terroristas anti-russos.

                                     As viúvas negras
   O aparecimento de mulheres bombistas-suicidas (na maioria tchetchenas, mas tendo sido identificadas também inguches) a partir de 2000 entrou, por sua vez, decisivamente no tradicional imaginário russo marcado pelo temor e fascinação pelas fúrias caucasianas desde as campanhas de conquista tzarista no início do século.

   Num contexto ainda mais complexo do que o que propiciou o bombismo suicida feminino entre curdos, tamiles ou palestinianos, as mártires (shadiki) do norte do Caúcaso transformaram-se em agentes essenciais nos mais recentes ataques separatistas.

   Conhecidas como viúvas negras entre a população russa, estas suicidas são conduzidas por convicção ideológico-religiosa e desejo de vingança por violência contra familiares e humilhações pessoais ou manipuladas por pressões sociais num contexto tradicional em que família e clã estão acima de tudo.

   Viúvas negras participaram nos principais ataques terroristas separatistas, caso dos sequestros no teatro Dubrovka, em Moscovo, em 2002, e na escola de Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, além dos atentados desse ano contra dois aviões comerciais russos que provocaram 89 mortos.

   O espectro das viúvas negras que paira sobre a Rússia é outro sinal da proliferação e dispersão de grupos terroristas islamitas no norte do Caúcaso apostados numa guerra santa que não deixa margem de manobra negocial para um Kremlin incapaz de definir uma estratégia de estabilização na mais conflituosa região do país



Jornal de Negócios
31 Março 2010

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sábado, 8 de setembro de 2012

O grandeza minguada dos fusos horários da Rússia




  
   No domingo com o horário de Verão os russos vão perder um dos seus motivos de orgulho nacional: desaparecem dois fusos horários.

   Dos onze fusos horários sobram nove.

   No Extremo-Oriente a Tchuckotka e a península da Kamchatka passam a alinhar pelo fuso de Magadan na Sibéria Oriental.

   Nos confins da planície europeia desaparece também o fuso horário de Samara.

   É uma medida promovida pelo presidente Dmitri Medvedev para facilitar contactos administrativos e comerciais ao longo dos 7 mil e 400 quilómetros que vão do enclave de Kaliningrad no Mar Báltico até à costa do Pacífico.

  Os onze fusos horários eram um dos orgulhos da Rússia.

   O maior país do mundo não era de facto o que ostentatava maior número de fusos horários.

   A França é recordista: conta com 12 fusos horarios por causa dos seus territórios e colectividades ultramarinos nas Caraíbas, América do Sul e do Norte, no Índico e no Pacífico.

   Mas a Rússia com a sua imensa massa nos continentes asiático e europeu revia-se na grandeza dos seus onze fusos horários continuos.

  Estavam em vigor desde 1919. Eram mais um dos sinais da grandeza soviética e depois, mais minguada, da grandeza russa.

  Eram bem mais dos que os seis fusos dos Estados Unidos, com Alasca incluindo e descontando outros três para ilhas do Pacífico.

   Mais do que o Canadá que também se reparte por seis fusos horários. 

   Em prol da racionalização administrativa Moscovo opta, pois, pela redução dos fusos horários que poderá já no próximo ano vir a apertar ainda mais as diferenças de hora entre as várias regiões, sobretudo nos Urais e na Sibéria.

   Cada vez mais perto do fuso de Moscovo enquanto a oriente todos se levantam mais cedo.

    Não chega ao exagero da China ou da Índia que subsistem com um único fuso horário, mas a reforma avança.

   Está também em estudo abandonar a diferença entre Hora de Verão e de Inverno que só foi introduzida tardiamente em 1981, ainda existia a União Soviética. 

   Parece coisa pouca isto dos dois fusos horários que se esvanecem na imensidão do maior país do mundo. Mas para muitos russos é como se a pátria perdesse um pouco mais da sua grandeza.    



TSF / O Mundo num Minuto
26 Março 2010

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917506&audio_id=1529257

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Rússia bicéfala na sombra de Salazar



    Corria o mês de Março de 2002, a Rússia preparava-se para eleições presidenciais e o inopinado sucessor designado de Boris Ieltsin dava-se a conhecer num livro de entrevistas, “Na Primeira Pessoa”. 

   A ascensão incompreensível de Vladimir Putin que o levou aos 43 anos a integrar os serviços da presidência (Junho de 1996), depois à chefia dos serviços de informação (Julho 1998), para em Agosto de 1999 acabar como primeiro-ministro e, logo em Janeiro de 2000, assumir interinamente a presidência era o último dos enigmas da era Ieltsin.

   As entrevistas a três jornalistas bem intencionados pouco adiantavam sobre as razões da ascensão de Putin.

   O antigo agente do KGB reconhecia não ter intimidade de maior com o anterior presidente, apesar de confessar que nos últimos tempos tinha jantado na datcha de Ieltsin e bebido umas cervejas com um dos maiores amantes de vodka que a Rússia conheceu.

   Se em matéria de mentores políticos o mistério era total, já algumas passagens davam para entender ao que vinha Vladimir Putin.

                                        Putin na versão 2000

   Defender a integridade do estado frente à ameaça terrorista tchetchena, recuperar a dignidade nacional e o estatuto devidos à nova Rússia, democrática e respeitadora da lei, eram as linhas de força do discurso de Putin.

   Depois, encontravam-se, também, referências a políticos que o inspiravam.

   Começava por, rindo-se, nomear Napoleão Bonaparte e, logo, em tom mais sério, louvava De Gaulle e Ludwig Erhard, sendo que o economista e chanceler patrono da economia social de mercado interessava particularmente Putin por ter “reconstruído a Alemanha na base de novos valores morais”.

   Era o melhor que se conseguia extrair em menos de 200 páginas ao custo de 50 rublos, uma ninharia na altura, e, aproveitava-se, ainda, para ficar a conhecer os políticos com quem Putin dizia partilhar “um sentimento de companheirismo”.

   Apenas quatro homens oriundos, tal como Putin, da antiga Leninegrado eram referidos no círculo de amizades próximas e coniventes.

   Dois deles eram parceiros do KGB e, ainda que peso pesados na hierarquia do Kremlin, acabaram recentemente preteridos como possíveis sucessores: Sergei Ivanov e Igor Sechin.

   Putin nomeava ainda Aleksei Kudrin como amizade segura nascida no início dos anos 90 durante a administração reformista do presidente da câmara de Leningrado, rebaptizada Sankt Petersburg, Anatoli Sobchak. Kudrin continua confinado à sua especialidade na pasta da Finanças.

   Por último, surgia o nome de Dmitri Medvedev, um jurista que acabou como vice-primeiro-ministro e presidente da Gazprom antes de ser nomeado sucessor, e cujas presentes declarações não contrastam muito com o que afirmava Putin nos idos de 2000.

  Era o que se apurava por Moscovo no mês em que Vladimir Vladimirovitch, herdeiro e protector dos interesses da família Ielstin, se entronizava no Kremlin, enquanto “As Marionetas” – um fabuloso e premonitório programa televisivo de sátira que acabaria exterminado em 2002 – já começava a mostrar o judoca Putin a atirar pelos ares gente à esquerda e à direita.
                          
                            Quem pode fazer o quê a quem?

   É o Kto Kovo? (Quem pode fazer o quê a quem?) a frase mais impositiva e omnipresente da cultura antiliberal da Rússia que define, uma vez mais, a determinação do poder no Kremlin.

   Impor-se pela força é tanto mais fácil quando todos os estudos de opinião indicam que a maioria dos russos aspira ao reconhecimento do estatuto de grande potência do país, ao retomar da assistência paternalista do estado perdida no final dos anos 80 e a uma redução das crescentes desigualdades sociais, apesar do perene cepticismo ante a corrupção administrativa e empresarial.

   A recuperação económica da Rússia nos anos de Putin, ainda que em termos comparativos aquém do crescimento de países como a Polónia, a Estónia ou a Ucrânia, é suficiente para resguardar o regime de uma crise de legitimidade a curto prazo, mas, a sucessão de Putin acaba de criar uma situação insólita.

   Putin afirma-se como líder nacional e futuro chefe do governo, mas sapa a legitimidade do herdeiro apesar de afirmar, na sua última conferência de imprensa a 14 de Fevereiro, que o presidente é o garante da constituição e quem define as linhas gerais da política interna e externa.

   Ao declarar, logo de seguida, que o primeiro-ministro é o poder executivo supremo na Rússia, Putin – que demitiu dois chefes de governo Mikhail Kasianov e Viktor Kristenko – subverte implicitamente a ordem constitucional russa e abre caminho a todas as especulações.

   A Rússia nunca conheceu qualquer sistema de partilha de poder ao mais alto nível do estado, tirando direcções colegiais instáveis durante a era soviética de Krushov e Brejnev, e as actuais querelas entre facções na estratosfera do poder não auguram estabilidade a um regime em que possam coexistir duas entidades reivindicando a última instância de decisão.

                                Carmona e Salazar no Kremlin

   Sobra isto com Medvedev no Kremlin e a sua alegada aspiração de harmonizar a liberdade e a ordem a longo prazo para o que até invoca o exemplo do Despotismo Iluminado da imperatriz Catarina II.

   Na primeira hipótese Putin subverte a Constituição, usurpa poderes, e cumpre o desiderato de Salazar, tornando-se primeiro-ministro de um rei absoluto.

   Neste cenário Medeved faz de Óscar Carmona e deixa a liderança a quem sabe muito bem o que quer e para onde vai.

   O delfim, em alternativa, esvazia de poderes o seu administrador executivo e assume a plenitude de imposição da vontade política.

    Chega Março, outra vez, e fica-se sem saber o que esperar.

                             A política é a fatalidade

   Talvez valha ponderar o que disse Napoleão num dia de Setembro de 1808, quase quatro anos depois de se fazer coroar imperador, ao encontrar-se em Erfurt com Goethe.

   O cabo-de-guerra preparava-se uma vez mais para discutir com Alexandre I, imperador de todas as Rússias, a partilha da Europa, mas Napoleão também ocupava o seu tempo a conversar sobre literatura e teatro com o autor do muito admirado “Os sofrimentos do jovem Werther”.

   Dessas conversas ficou registo do que tinha Napoleão para dizer a Goethe sobre o valor das tragédias teatrais: uma escola para os povos e os dirigentes ao contrário dos dramas em que a fatalidade tem um papel determinante. “De resto, o que é que pretendem com a sua fatalidade? A política é a fatalidade”, asseverava o imperador que inspirou Putin.



Jornal de Negócios
28 Fevereiro 2008

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domingo, 2 de setembro de 2012

A doutrina dos interesses privilegiados

Александр III Александрович Tzar Alexandre III (1881-1894)

   A diplomacia imperial russa está de volta e Dmitri Medvedev foi o mais claro possível na reciclagem da doutrina tzarista ao afirmar que no concerto das potências Moscovo exige o reconhecimento de interesses privilegiados em determinadas regiões e reivindica o direito de defesa dos seus cidadãos em qualquer parte do mundo.
   Ciente de que só pela força se dá ao respeito, o presidente russo e o seu patrono Vladimir Putin querem desde já poupar-se aos desgostos que angustiaram no final do século XIX o tzar Alexandre III.

   O predecessor de Medved e Putin evitou grandes guerras, ampliou o domínio russo na Ásia Central, mas perdeu influência nos Balcãs e no Mar Negro, e, falhadas tentativas de aliança com a Grã-Bretanha, a Alemanha e o Império austro-húngaro, acabou os seus dias nos idos de 1894 na busca de um entendimento com a França republicana.

   O genro do chamado «pacificador», o Grão-Duque Alexandre Mikhalovitch, haveria de recordar, depois de 1917, numa passagem célebre das memórias de exilado em Paris como o tzar se queixava amargamente aos seus ministros de que a Rússia só podia contar com dois aliados fiéis: o exército e a marinha imperiais.

                                Um labirinto de hidrocarbonetos

   Qualquer diplomata russo conhece esta tirada e juntando-lhe, agora, força aérea, arsenal nuclear e hidrocarbonetos, pode recordar aos confrades europeus e norte-americanos que Moscovo tem como opções imediatas um niet no Conselho de Segurança ao prolongamento da missão internacional no Afeganistão ou a interdição dos voos da NATO sobre território russo para abastecimentos a Cabul, sem falar da eventual venda de sistemas de mísseis anti-aéreos ao Irão.

   Moscovo não tem alternativa a curto prazo aos mercados europeus para as vendas de petróleo e gás natural, mas o mesmo vale para os compradores da União Europeia que têm todo o interesse estratégico em investir na Rússia.

   Empresas alemãs, britânicas e italianas contam-se entre os maiores investidores e a União Europeia representa 70% do investimento estrangeiro.

   A Rússia provê, presentemente, 40% dos 540 mil milhões de metros cúbicos de gás natural consumido na União Europeia. A previsão de um aumento da procura para 800 mil milhões de metros cúbicos em 2030 admite que essa quota de mercado suba para os 60% e, consequentemente, os investimentos estrangeiros são vitais para as empresas russas cumprirem os seus compromissos comerciais.

   Uma interdependência semelhante já se esboçava no final do século XIX entre russos e potências ocidentais e, reza a história, que nem isso obviou ao pior.
                            Gostaríamos que não fossem tão brutos

   Saída da letargia de Agosto – Durão Barroso ou Javier Solana aparentemente só interrompem férias em caso de guerra nuclear –, a UE, falhada a mediação de Sarkozy, manifestou a sua preocupação pela reacção desproporcionada da Rússia na Geórgia (o que subentende a responsabilidade de Tbilissi pelo eclodir do conflito) e anunciou prosseguir uma meditação vigilante.

   Suspender uma vez mais – tal como já ocorreu por duas vezes devido a diferendos entre polacos, lituanos e russos – a revisão do Acordo de Parceira de 1997 até as forças de Moscovo abandonarem as zonas tampão que impuseram em território georgiano é mero compasso de espera.

   Sem imporem sanções inviáveis e contraproducentes a Moscovo os 27 podem, eventualmente, acolher a proposta polaca e sueca, lançada em Maio, de reforçar a «parceria oriental», ampliando a cooperação com a Moldova, Bielorrússia, Ucrânia, Geórgia, Arménia e Azerbeijão.

   Para a Moldova é um seguro político face aos problemas com os separatistas russos da Transdnistria.

   Na Ucrânia há consenso quanto a maior cooperação com a UE, ao contrário da integração na NATO que racha o país ao meio.

   De Minsk pouco há a esperar (a iniciativa polaco-sueca refere apenas negociações a nível técnico), mas, pelo menos, dá-se mostras de pretender evitar o isolamento da Belarus ainda que, complicando o cenário, continue de pé a proposta de Lukashenko para uma união formal com a Rússia que Moscovo tem recusado até agora.

   No caso do Azerbeijão (renitente face a Moscovo) e da Arménia (aliada à Rússia) tudo está pendente da resolução do conflito no enclave de Nagorno-Karabach ocupado pelos arménios desde 1994. Os indícios de retorno a um conflito militar são, por sinal, alarmantes.

   Aos georgianos resta conformarem-se com a perda irremediável da Abkházia e da Ossétia do Sul e, tal como em todas as «áreas de interesse privilegiado» da Rússia, procurarem um entendimento com Moscovo resguardando-se numa cooperação reforçada com Bruxelas.

   A renegociação do traçado de fronteiras na Europa está na mesa e o eventual sucesso na resolução de conflitos no Chipre ou na Moldova não será necessariamente seguido de idênticos progressos nos Balcãs ou no Cáucaso.

                                 Ir ao Cáucaso sem a Turquia

   Independentemente do investimento numa «parceria oriental» implicar um delicado equilíbrio com a Rússia e um esforço para impedir os desígnios de Washington de alargamento da NATO, subsiste o problema de tal estratégia não fazer nenhum sentido caso se mantenham vetos políticos à integração da Turquia.

   Diversificação de fornecimentos de hidrocarbonetos a partir do Cáspio ou cooperações com estados do Cáucaso obrigam necessariamente à integração plena da Turquia na UE.

   Os 27 estão actualmente demasiado divididos para conseguirem esboçar uma estratégia coerente face ao Kosovo, à Rússia, ao fracasso da reforma institucional acertada em Lisboa, e quanto às negociações com a Turquia.

   A indefinição em Washington complica um calendário de crises anunciadas – Irão, sucessão de Mubarak no Egipto, Caxemira – e, apesar da Rússia ter o destino marcado pelo colapso demográfico e a dependência das exportações de matérias-primas, a conjuntura está a favor dos herdeiros dos desígnios imperiais do tzarismo.

Jornal de Negócios
03 Setembro 2008

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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Um recomeço modesto em Moscovo




   O compromisso assumido por Barack Obama e Dmitri Medvedev de reduzir em cerca de um terço os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da Rússia permite retomar as negociações sobre armamentos estratégicos, mas pouco avança em relação ao acordo estabelecido entre Vladimir Putin e George Bush há sete anos.

   Nessa altura, Moscovo e Washington tinham acordado limitar o número de ogivas a máximos de 2 200 a 1 700 unidades até 2012, (presentemente, os Estados Unidos dispõem de 2 202 ogivas e a Rússia conta com 2 787, segundo a estimativa do Bulletin of Atomic Scientists) e 1 600 meios de transporte (mísseis balísticos intercontinentais em terra, submarinos e bombardeiros).

   Obama e Medvedev firmaram agora um compromisso político para substituir o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START) de 1991, que expira em Dezembro, por um novo acordo, que reduzirá o número de ogivas para patamares entre as 1 500 e as 1 675 unidades e restringirá os meios de transporte entre os 500 e 1 000 num prazo de sete anos após a assinatura do tratado.

                                           Negociação apressada
  
   O acordo deverá incluir processos de verificação e controlo dos arsenais e implica cinco meses de negociações difíceis sobre qual o estatuto de alguns meios de transporte norte-americanos como as frotas de bombardeiros B-1 e os dispositivos de radar e baterias de defesa anti-mísseis na Polónia e na República Checa.

   Se vingar o novo compromisso, Obama poderá tentar convencer o Senado a ratificar o Tratado de Interdição Total de Testes Nucleares de 1996 e encetar conversações com as demais potências nucleares sobre a criação de um banco internacional de fornecimento de combustíveis para indústria nuclear civil, limitando a produção de matérias físseis, no âmbito das negociações do próximo ano para reforço das provisões do Tratado de Não-Proliferação Nuclear de 1968.
  
   O desenvolvimento de programas de defesa anti-balística com componente espacial, uma das principais preocupações de Moscovo e também Pequim, não foi publicamente abordado nas conversações desta semana, mas terá de ser considerado nas negociações que, na óptica de Medvedev, englobam de facto sistemas ofensivos e defensivos.

   A cooperação entre norte-americanos e russos para contenção da Coreia do Norte e do programa militar nuclear do Irão será outro ponto de convergência possível, mas a influência de Moscovo em Teerão é bastante limitada.

   Os sucessivos atrasos na entrada em funcionamento da central nuclear de Bushehr e no fornecimento de mísseis anti-aéreos S 300 a Teerão demonstram as reticências da Rússia, mas estão longe de implicar a adesão russa às sanções punitivas consideradas por Washington.

   O reconhecimento das divergências quanto à adiada adesão da Geórgia e da Ucrânia à NATO, das propostas russas para criação de novos mecanismos de segurança europeus e acerca dos projectos de construção de gasodutos do Cáspio para fornecimentos à Europa confirma que Washington admite a impossibilidade prática de se opor efectivamente às pretensões russas de criar uma esfera de influência privilegiada no Cáucaso e na Ásia Central.

                                     Parceria limitada


  O reconhecimento do estatuto de grande potência é quanto basta a Moscovo nesta fase e as facilidades concedidas aos Estados Unidos para o esforço de guerra no Afeganistão representam uma concessão praticamente sem custos, mas a limitação da cooperação com Washington a questões de segurança é um indício da fragilidade das relações entre os dois países.

   O investimento norte-americano na Rússia não ultrapassa os 3,4% do investimento directo estrangeiro e as trocas comerciais quedam-se pelos 36,1 mil milhões de dólares, o equivalente ao comércio entre os Estados Unidos e a Polónia.

   Em Moscovo Obama e Medvedev deram os primeiros passos para desbloquear um impasse numa negociação estratégica para reduzir arsenais nucleares e que poderá, inclusivamente, contribuir para reduzir riscos de proliferação, mas a cooperação entre a Rússia e os Estados Unidos mantém-se, de facto, confinada a questões de segurança.

Jornal de Negócios
08 Julho 2009

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A guerra não é a guerra



  
   Os israelitas, alarmados ante a ameaça de fornecimento de sistemas anti-mísseis russos ao Irão e à Síria, foram os primeiros a entender os sinais e, sem grandes alardes, o ministério da Defesa de Telavive interditou a venda de armamento ofensivo à Geórgia para não comprometer as relações com a Rússia.

   O aviso de Moscovo fora dado a 20 de Abril quando um caça russo abateu na Abkázia um avião de reconhecimento georgiano não-tripulado, de fabrico israelita, e Telavive, fiel ao princípio de que para bom entendedor meia palavra basta, decidiu imediatamente suspender as vendas de material aeronáutico a Tbilissi.

Moscovo negou responsabilidade pelo incidente, ocorrido duas semanas após alemães e franceses se terem oposto na cimeira da NATO em Bucareste à proposta de Washington para iniciar o processo formal de adesão da Geórgia e da Ucrânia, mas os israelitas compreenderam que os contratos militares com Tbilissi não justificavam arriscar a hostilidade da Rússia.

Esferas de influência

As divisões na NATO quanto à eventual integração da Geórgia, a advertência de Moscovo de que a declaração unilateral de independência do Kosovo e o projecto norte-americano de defesa anti-mísseis na República Checa e na Polónia teriam consequências globais justificavam as cautelas de Telavive ante a iminência de um acto de força por parte da Rússia contra o aliado mais exposto de Washington.

Após meses de atentados e confrontos, envolvendo russos, georgianos, separatistas ossetas e abkazes, falhada uma proposta alemã para relançamento das negociações sobre o estatuto da Abkázia, o presidente georgiano aventurou-se numa acção militar para capturar a Ossétia do Sul.

A retaliação do Kremlin em larga escala era inevitável, quanto mais não fosse para evitar o agravamento das instáveis situações nas repúblicas russas do Daguestão, Ingushétia e Tchetchénia, e justificava-se para impor a ordem moscovita no Cáucaso, evitando, por extensão, um reacender do conflito entre a Arménia e o Azerbeijão que pusesse em causa os interesses da Rússia.

Vladimir Putin, cujas declarações taxativas são habitualmente subestimadas, acusou a Geórgia de genocídio, assumiu as consequências inevitáveis do conflito e impôs a lei da força.

Na União Europeia manifestaram-se as divisões tradicionais face à Rússia, mas também ninguém se atreveu a dizer publicamente que as intervenções televisivas do presidente da Geórgia apelando à ajuda ocidental flanqueado com a bandeira comunitária entravam na área do desaforo.

Em Washington ponderaram-se os riscos de sustentar um aliado que ignora as relações de força no Cáucaso e os interesses globais dos Estados Unidos.

Um perdedor na Geórgia

Mikhail Saakashvili, segundo Putin, desencadeou "uma aventura sangrenta", visando implicar outros países e, sobretudo a NATO, num acto de agressão que, afinal, resultaria fatalmente num "golpe mortal na integridade territorial da própria Geórgia".

Putin falou, deixando o presidente Dmitri Medvedev claramente em segundo plano, e os objectivos estratégicos de Moscovo ficaram claros.

A assunção plena da tutela sobre entidades separatistas na Ossétia do Sul e na Abkázia, além do enclave da Transdnistria na Moldova, visa obrigar a renegociar qualquer acordo de redefinição de fronteiras na Europa, incluindo o Kosovo, em termos de esferas de influência.

O alargamento da NATO à Geórgia e à Ucrânia é inegociável e as controvérsias com a Ucrânia sobre o arrendamento (acordado até 2017) da base naval de Sevastopol e, inclusivamente, o estatuto da península da Crimeia, maioritariamente russa, estão de novo em aberto.

O retorno em força da Rússia numa acção militar, tão fulgurante quanto o recurso recorrente às chantagens sobre fornecimentos de hidrocarbonetos, tem sobretudo a ver com a redefinição de áreas de influência.

A contenção das aspirações anti-russas, criadas pelas revoluções ucranianas e georgianas, levam, presentemente, à tentativa de conter a integração de estados fora do controlo de Moscovo numa esfera pró-Nato, e, cumulativamente, implicam a criação de dificuldades à estruturação de linhas de abastecimento de hidrocarbonetos alternativas às detidas por empresas russas.

Para a Rússia, além do interesse em desqualificar o projecto Nabuco, sustentado pela produção do Mar Cáspio e que atravessará a Geórgia rumo à Turquia, será ainda mais importante tentar controlar os fornecimentos de hidrocarbonetos que irão abastecer a China a partir da Ásia Central, mas nesta questão Moscovo dificilmente conseguirá impor a sua vontade.

Pior que um tártaro

Criar condições para derrubar Saakashvili e reverter a orientação pró-ocidental da Geórgia é apenas um dos desideratos de Moscovo que considera as antigas repúblicas soviéticas agregadas na Comunidade de Estados Independentes como estados-clientes.

Dar-se ao respeito perdido nos anos de Gorbatchov e Ielstin é o intento essencial de Moscovo e, enquanto isso não entrar na lógica estratégica de americanos e europeus, já bem apreendida por chineses e indianos, teremos conflitos sempre aquém da guerra e muito perto do risco de grande guerra.

Para os europeus, divididos entre o irredentismo anti-russo dos estados bálticos, dos checos e da Polónia e a contenção de franceses, alemães ou italianos, a margem de manobra é escassa. Os abastecimentos russos que representam 40% do gás natural consumido na União são impossíveis de substituir e, assim, os apelos ao respeito pela integridade territorial da Geórgia não passam de uma quimera.

Para qualquer administração de Washington enquadrar questões mais imediatas de Teerão a Pyongyang será sempre mais valioso do que trunfos no Cáucaso, mas a acomodação dos interesses de Moscovo revela-se cada vez mais problemática.

Face à potência russa tudo o resto está em aberto porque é uma questão de relações de força e Moscovo encara intrusões na sua alegada área de influência como afrontas estratégicas.

Há um provérbio russo que diz: "Pior que um tártaro só um hóspede não convidado". Vem dos tempos em que a Rússia esteve sob domínio mongol do século XIII ao século XV.

Todos são tártaros invasores, hóspedes não convidados na grande casa da Rússia e das suas comunidades espalhadas pelo chamado "estrangeiro próximo"; ninguém mostra respeito suficiente pelos vastos e justos interesses de Moscovo. É esta obsessão que sustenta a lógica estratégica no Kremlin.




Jornal de Negócios
13 Agosto 2008

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A ordem normal da política russa



  Quando Putin anunciou, em Setembro, o seu retorno à presidência a nudez forte da verdade do regime autocrático rasgou o manto diáfano das fantasias modernizadoras e liberais insinuadas pelo seu mandatário Dmitri Medvedev e a Rússia agitou-se.

O desalento ante as sempre adiadas reformas da justiça, a omnipotência da Administração Central e a sua insistência em controlar sectores chave de uma economia incapaz de superar a dependência dos hidrocarbonetos, além das crescentes disparidades de rendimentos, não era ignorado pelo Kremlin.

As sondagens - em particular da instituição mais prestigiada, o "Centro-Levada" - indicavam que a votação na "Rússia Unida", o partido da administração, iria diminuir nas eleições legislativas de 4 de Dezembro.

As avaliações positivas da actuação do presidente e do primeiro-ministro já tinham caído abaixo dos 50% desde o início de 2011.

A eleição para a Duma confirmou o que sondagens e eventos públicos de escárnio e desafecto ao poder, e a Vladimir Putin muito em especial, vinham indiciando.

Bandidos, ladrões e mágicos

O parlamento mantém um cunho vincadamente iliberal, segundo os próprios padrões políticos russos, e continua a contar com apenas quatro partidos capazes de superarem a barreira dos 7% dos sufrágios.

A "Rússia Unida" perdeu a maioria para impor alterações constitucionais quedando-se pelos 49%.

A quebra de 15% da entidade partidária governamental levou os comunistas a subirem a sua votação para 19%, enquanto os chauvinistas nacionalistas do "Partido-Liberal Democrático" obtinham 12%.

A "Rússia Justa - criada em 2006 sob patrocínio do Kremlin – acentuou uma alegada linha social-democrata em confronto com o primeiro-ministro Putin, mas apoiando Medvedev, e teve como paga 13% dos sufrágios.

A eleição foi marcada por notórias irregularidades com recurso a métodos tradicionais, designadamente os consagrados "carrossel" (depósito de boletins pré-preenchidos) e "helicóptero" (voto repetido em diversas assembleias), além da clássica viciação da contagem de boletins.

Os resultados no norte do Cáucaso e em muitas circunscrições de Moscovo foram ostensivamente deturpados a favor de "Rússia Unida" por vezes com margens superiores a 20% dos sufrágios.

A nível nacional, no entanto, considerando anteriores eleições, além da diferença entre as previsões das empresas de sondagens e os inquéritos pós-votação à boca das urnas, parece crível que a viciação de resultados em prol do partido governamental tenha rondado entre os 5% a 10%.

É a ordem normal da política russa pós-perestroika e estamos muito longe da fraude generalizada e maciça a que se viu obrigado a recorrer o poder em 2006 para garantir a vitória de Boris Ieltsin na segunda volta das presidenciais contra o comunista Gennadi Ziuganov.

Sem ironia, dois dias depois da votação, o presidente da Comissão Eleitoral, Vladimir Churov, gabou-se publicamente a Medvedev de ter previsto os resultados com maior precisão do que as empresas de sondagens.

Numa tirada na tradição do melhor humor russo-soviético, o presidente retorquiu considerando que Churov fazia justiça à alcunha de "o mágico" com que fora crismado nos círculos do poder.

Um protesto minoritário

Entretanto, multiplicavam-se apelos, sobretudo via internet, para manifestações de protesto contra a "fraude eleitoral", exigindo a anulação dos resultados e nova votação.

Pela primeira vez, desde o final dos anos 90, Moscovo assistiu no passado sábado a uma mobilização significativa de contestatários, enquanto as direcções dos partidos não-governamentais que obtiveram representação parlamentar aceitavam os resultados.

Entre 25 mil a 100 mil pessoas, segundo estimativas das autoridades versus oposicionistas, clamaram contra Putin na capital sem que se tenham registado incidentes ou detenções.

Em cerca de outras 60 cidades ocorreram manifestações muito menos relevantes -- em Sankt Petersburg, por exemplo, pouco mais de 7 mil pessoas participaram nos protestos – e o número de detenções quedou-se por uma centena.

A significativa participação de jovens adultos da classe média foi a grande novidade destas manifestações o que pode ser entendido como protesto contra o uso e abuso da propaganda e manipulação administrativa e judicial por parte do poder.

O sucesso de Aleksei Navalni, um advogado libertário e nacionalista-chauvinista, ao taxar o partido de Putin como "partido de bandidos e ladrões" é um caso exemplar da influência do activismo de protesto na internet.

O controlo pelo Kremlin e seus associados políticos e empresariais dos principais meios de comunicação social, sobretudo a televisão e a rádio, é insuficiente para sufocar expressões de protesto antigovernamental num país de 143 milhões de habitantes que conta com 60 milhões de usuários da internet.

A minoria urbana de classe média desafecta ao poder pouco tem em comum com os trabalhadores de baixos rendimentos e pensionistas, uma das principais camadas de apoio a comunistas e nacionalistas alinhada com o heteróclito arco de tendências autoritárias predominantes na Rússia.

Não há folga para ambições liberais e quem confundir protestos pontuais e uma inquietação revoltosa com alternativas políticas anti-autoritárias muito terá de penar.

Ameaça de estagnação

O sistema autocrático de patrocínio político centrado em Putin não atrai jovens contestatários anarquistas ou liberais numa conjuntura em que se esbateu a memória das convulsões da "perestroika" de Gorbatchov e da tumultosa transição dos anos Ieltsin.

O efeito sedutor da normalização imposta nos anos da presidência Putin, entre 2000 e 2008, quando o crescimento económico rondou os 7% anuais e a Rússia reassumiu importância internacional, esvaneceu-se e deu lugar a constatações mais sóbrias numa altura em que o regime não oferece válvulas de escape à dissidência política e às reivindicações sociais.

Nos círculos empresariais, sempre dependentes do poder político-administrativo e enleados na corrupção institucional, admite-se o impasse a que chegou o sistema económico e a expatriação de capitais está de novo em alta prevendo-se que atinja os 70 mil milhões de dólares no final deste ano.

As previsões de crescimento para 2012 centram-se nos 4% e dificilmente a Rússia superará essas taxas sem concretizar a diversificação e modernização da sua economia.

Gás e petróleo representam 17% do PIB e 44% das receitas do estado e preços do crude abaixo de 110 dólares por barril ameaçam instabilidade imediata numa fase em que o incremento da produção implica avultados investimentos estrangeiros.

A vitória anunciada

Nas eleições presidenciais de Março Putin irá confrontar-se com o líder comunista Ziuganov, segundo candidato mais votado em 1996 contra Ieltsin, de novo vencido em 2000 por Putin, e derrotado em 2008 por Medvedev.

O social-democrata Sergei Mironov, apoiante do defunto modernismo liberal de Medvedev e opositor de Putin, afirmou, também, pretender candidatar-se.

Enquanto não surgem outros candidatos, o multimilionário Mikhail Prorokhov manifestou igualmente a sua ambição presidencial.

Em Junho Prorokhov assumiu a chefia de um partido de direita promovido pelo Kremlin, "Causa Justa", mas em Setembro desentendeu-se com os seus patronos durante o processo de escolha de candidatos às eleições legislativas.

"Causa Justa" revelou-se um fracasso, obtendo pouco mais de 390 mil votos (0,60% dos sufrágios), mas Prokhorov, com apoio de Alexei Kudrin (fiel putinista que se demitiu de ministro das finanças em Setembro por desentendimento com Medvedev), fala agora em dinamizar um partido de centro-direita.

A candidatura do excêntrico oligarca, com fortuna feita no sector dos metais preciosos, surge à medida da estratégia de Putin para enquadrar opositores de centro-direita com eventual propensão liberal.

Se, contudo, Prokhorov enveredar por uma oposição declarada ao poder é bem mais provável que venha a conhecer o destino de outros oligarcas caídos em desgraça: o exílio na melhor das hipóteses, caso de Boris Berezovski, ou a prisão, como sucedeu a Mikhail Khodorkovski.

Putin tudo fará para evitar o enxovalho de ter de se sujeitar a uma segunda volta e quem o subestimar pagará caro.


Jornal de Negócios
14 Dezembro 2011

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Putin senhor de todas as Rússias

   Aleksei Kudrin



   A demissão do responsável pelas finanças de Moscovo na última década foi a primeira consequência do anúncio oficial do retorno do homem forte da Rússia à presidência e sinal da instabilidade do sistema autocrático centrado em Vladimir Putin.

   Aleksei Kudrin há mais de um ano que assumia publicamente significativas divergências políticas com o presidente Dmitri Medvedev, evitando, no entanto, criticar directamente o chefe do governo.

A atitude do ministro das Finanças - tal como Medvedev um dos quadros de São Petersburgo que fizeram carreira com Putin na capital na segunda metade dos anos 90 - reflectia a sua ambição em assumir a direcção do governo.

O desafio de Kudrin

Kudrin, ministro das Finanças desde Maio de 2000, conseguiu estabilizar as finanças russas num contexto de alta dos preços dos hidrocarbonetos e da estatização ou subordinação ao Kremlin dos grupos económicos constituídos na década de 90.

A boa gestão de Kudrin permitiu a Moscovo aguentar a crise financeira de 2008 E recuperar da quebra de 7,8% do PIB em 2009, retomando um crescimento de 4% no ano seguinte.

Com credenciais e prestígio internacional suficientes para aspirar à chefia do governo Kudrin, um dos mais próximos associados de Putin, viu-se preterido a favor de Medvedev.

O imediato desafio público de Kudrin a um presidente a prazo só poderia resolver-se pelo pedido forçado de demissão com a anuência de Putin.

A partir de agora o confronto pessoal entre dois elementos da elite do poder, por sinal ambos com perfil académico e técnico diferente de outros rivais ligados aos sectores de segurança e militares, vai depender dos interesses de Putin.

Kudrin poderá ser recuperado para algum cargo da Administração Pública ou no sector das grandes empresas da órbita do estado ou acabar relegado para a oposição não-tolerada como sucedeu a Mikhail Kasionov depois de ter sido demitido da chefia do governo por Putin no início de 2004.

O interregno
No interregno de Medvedev a constituição foi imediatamente alterada em 2008 após Putin o ter nomeado sucessor no Kremlin.

Futuros mandatos presidenciais, mantendo a restrição de uma única reeleição, foram alargados de quatro para seis anos.

Medvedev não arriscou criar uma rede própria de poder durante os quatro anos que lhe couberam em sorte no Kremlin e a sua situação sempre foi bem diferente da de Putin quanto Boris Ieltsin nomeou o ex-oficial do KGB primeiro-ministro em 1999 e putativo sucessor.

O primeiro presidente da Rússia ao definir os termos da sucessão pretendia assegurar a segurança pessoal e financeira da sua família e de alguns colaboradores mais próximos, compromisso que foi respeitado por Putin até à morte de Ieltsin em 2007.

Putin, por sua vez, ao escolher Medvedev visava apenas evitar o recurso a uma revisão constitucional ao estilo de autocratas como Nursultan Nazarbaiev, chefe de Estado da ex-república soviética do Cazaquistão desde 1991, que fez aprovar uma emenda em Maio de 2007 permitindo-lhe optar pela reeleição sem quaisquer limitações de mandatos.

Como chefe do governo, Putin manteve o seu estilo abrasivo em contraste com o tom mais polido e diplomático de Medvedev que discursava repetidamente sobre a prevalência da lei num sistema político em modernização e a diversificação da economia.

Da guerra com a Geórgia em 2008 aos conflitos com a Ucrânia ou divergências com Washington, passando pela exclusão do sistema político de todos os rivais (exceptuando a presença irrelevante dos comunistas de Gennadi Ziuganov ou dos ultra-nacionalistas de Vladimir Jirinovski) as diferenças de tom entre "Batman" e "Robin", conforme os crismou um diplomata norte-americano em telegrama inspirado entretanto vindo a público, nunca chegaram, contudo, a assumir relevância.

Incertezas e turbulência
Kudrin justificou as suas críticas à estratégia de Medvedev (que tem a aprovação de Putin) argumentando, designadamente, ser errado aumentar as despesas militares, que deverão subir dos actuais 1,3% do PIB para 3% em 2014, ou adiar o processo de aumento gradual até ao final da década da idade da reforma masculina para os 62 anos e os 60 anos no caso das mulheres. Os constrangimentos da economia russa, agravados pela contracção demográfica, irão acentuar-se nos próximos anos, tendo Kudrin previsto um défice da balança de transacções correntes a partir por volta de 2014 que poderá tornar-se difícil de controlar devido às políticas de expansão da despesa pública.

O sector do gás e petróleo representa 17% do PIB e 44% das receitas do estado e preços do crude abaixo de 110 dólares por barril ameaçam instabilidade imediata numa fase em que o incremento da produção implica avultados investimentos estrangeiros.

Ao aproximar-se outro período de turbulência e incerteza mais vincada se torna a necessidade de unicidade do poder na Rússia e, por isso, Putin voltará ao Kremlin.

A unicidade do poder
O sistema de patrocínio político, que enquadra os principais sectores de actividade económica e sustenta as elites, define o putinismo.

Apesar das últimas sondagens do "Instituto Levada", a mais prestigiada instituição de estudos de opinião pública da Rússia, indicarem que 66% da população se declara insatisfeita com a orientação económica e política do país, Putin continua a apresentar taxas de aprovação superiores a 50%.

A eleição de Putin em Março é um dado adquirido por piores que sejam os resultados da "Rússia Unida" nas legislativas de Dezembro em que "o partido oficial do Kremlin" se limita a apresentar como candidatos representantes da administração pública.

O simples facto do cargo formal mais alto do estado ter de ser assumido a partir de Maio directamente pelo próprio Putin é revelador de que o regime do sucessor de Ieltsin não consegue escapar a uma personalização e centralização extremas do poder.

Presentemente, o sistema político russo não oferece oportunidades de contestação legal e é uma incógnita saber quanto tempo poderá continuar a acumular pressões sem oferecer algum tipo de escape.




Jornal de Negócios
28 Setembro 2011

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A floresta de Putin



   As florestas e as turfeiras ardem em boa parte da Rússia europeia e, na angustiada busca de responsáveis que convulsiona o país, o Kremlin não se sai bem.
 
   Na pior onda de calor de que há registo na Rússia nos últimos 130 anos, as temperaturas estão bastante acima da média em zonas que vão do Leste da Sibéria para Sudoeste, atingindo valores recorde nas regiões a Norte e Noroeste do Mar Cáspio.

Os extremos próprios de um clima continental fazem-se sentir este Verão com particular intensidade nas províncias de Nijni-Novgorod, Moscovo e Voronej, mas os fogos florestais, que no início da semana fustigavam 17 das 83 unidades administativas da Federação, além do irremediável alarme e pânico sociais que causaram, ameaçam vir a ter repercussões políticas.

Apesar de três anos de seca nas regiões meridionais e na bacia do Volga, o risco de incêndios, que alastraram numa área superior a 7.400 quilómetros quadrados, foi menosprezado.

Bases militares foram destruídas; instalações nucleares e refinarias ainda se encontram em risco; e a perda de património e de vidas por efeito directo dos incêndios, além da sobremortalidade provocada pelo calor, é significativa.

Os prejuízos directos da vaga de incêndios, numa estimativa preliminar divulgada na terça-feira pelo diário "Kommersant", ultrapassam 11 mil milhões de euros, cerca de 1% do PIB.

Seca e fogos
A calamidade é menor do que os fogos de 1972, que tornaram a URSS definitivamente dependente de importações de cereais - e nem tem comparação com os grandes incêndios de 1915, no final da era imperial, que fustigaram 1,6 milhões de quilómetros quadrados -, mas agravou as consequências da seca.

As exportações de cereais russas foram suspensas de 15 de Agosto até ao final do ano, apesar da medida poder ser revista em função dos resultadas das colheitas de Outono.

É, no entanto, improvável que tal aconteça, pois, em 2009, a Rússia, com um consumo interno de 75 milhões de toneladas métricas de cereais, produziu 97,1 milhões de toneladas, mas para este ano a última previsão do Ministério da Agricultura aponta para uma colheita entre 60 a 65 milhões de toneladas, sendo as actuais reservas de 24 milhões de toneladas.

Até os media controlados pelo Estado não conseguem sufocar um número crescente de críticas ao governo. Geógrafos, silvicultores, economistas e ecologistas expressam uma opinião unânime: o Estado demitiu-se das suas responsabilidades.

O colapso da prevenção
O sistema soviético de vigilância florestal entrou em colapso no final dos anos 80, quando silvicultores e guardas-florestais sucumbiram à crise.

A maior parte do corpo de 70 mil guardas-florestais passou a subsistir ou fazer fortuna à custa do abate de árvores nas áreas sob sua supervisão.

A corrupção generalizada levou à adopção de medidas radicais para reconverter o sector industrial, mas à custa da preservação dos 800 milhões de hectares de florestas que cobrem 47% da superfície da Federação Russa.

Nenhum ministério ou departamento federal tem actualmente a tutela efectiva da protecção das florestas, e um código adoptado em 2007 atribuiu tal responsabilidade aos governos regionais e a concessionários de explorações florestais.

O desaparecimento de um sistema federal de protecção, incluindo o corpo de guardas-florestais reduzido a 12 mil vigilantes com esporádica presença no terreno, prejudicou sobretudo as regiões europeias, que contam com um quarto da cobertura florestal do país e onde as actividades industriais do sector têm menos importância do que na Sibéria e no Extremo-Oriente.

Nas regiões de exploração florestal intensiva siberianas e do Extremo-Oriente, apesar do abate ilegal e do contrabando, os interesses privados e das autoridades locais permitiram a manutenção de recursos mínimos para prevenção de fogos.

Os sistemas de vigilância e controlo de fogos claudicam por falta de pessoal (existem apenas 51 mil efectivos do corpo de bombeiros em permanência diária, segundo dados oficiais), monitorização (a cobertura área e via satélite é mínima e sujeita a concorrência comercial) e equipamento (o Ministério para as Situações de Emergência conta somente com quatro aviões anfíbios de grande capacidade para combate a fogos, os Beriev Be-200).

A perversão das trufas
O regime putinista, ao centralizar o poder político, designadamente através da nomeação dos governadores regionais, acabou por desarticular instituições inter-regionais ou federais que pudessem vir a revelar-se como contrapesos ao Kremlin.

À excepção de algumas indústrias estratégicas, sobretudo de hidrocarbonetos e militares, os poderes económicos acabaram por ficar muito mais dispersos e a capacidade de coordenação central na área de protecção de recursos naturais diminuiu significativamente.

As turfeiras que ardem nos arredores de Moscovo são um exemplo acabado de uma política agrícola e florestal perversa que começou no tzarismo, passou pelas agruras do sovietismo, degradou-se ainda mais durante a perestroika e acabou em ruína, no putinismo.

Os níveis freáticos de pauis e pântanos reduziram-se drasticamente desde o século XIX, pondo em risco ecossistemas mais vastos.

A secagem de zonas húmidas palustres não teve, na maior parte dos casos, aproveitamento agrícola ou industrial.

Criaram-se, assim, vastas zonas secas e ao abandono, e a exploração das turfeiras é actualmente residual, sem que tenham sido salvaguardados os sistemas tradicionais de controlo de fogos.

O cheiro da turfa a arder sopra nos Verões no centro da Rússia e não poupa o Kremlin de Vladimir Putin e Dmitri Medvedev.
Jornal de Negócios
11 Agosto 2010

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