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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um Nobel da Paz por declaração de intenções


   Um Nobel da Paz por declarações de intenção, é o mínimo que se pode dizer da decisão do Comité de Oslo.

   Obama terá criado um novo clima na política internacional.

   O presidente que ainda nem cumpriu um ano de mandato terá mostrado o seu empenho num mundo sem armas nucleares, advoga o reforço da diplomacia multilateral, o diálogo e negociações, dá atenção particular à democracia e aos direitos humanos, manifesta preocupação pelos efeitos das alterações climáticas.

   Obama é o oposto de Bush e a sua agenda política vale um Nobel.

   É a justificação do Comité de Oslo. É, pelo menos, prematura tamanha distinção.

  Quando noutras ocasiões recentes o Nobel foi para políticos com responsabilidades executivas tais premiados tinham já algo para mostrar.

   Frederik de Klerk e Nelson Mandela em 1993 tinham feito avançar o processo de desmantelamento pacífico do apartheid na África do Sul.

  No ano seguinte, em 1994, Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat estavam empenhados num processo negocial que poderia ou não vir a resultar. Compreende-se o prémio como uma tentativa de apoio a um esforço que, afinal, acabou num fracasso.

  Mikhail Gorbatchov ao receber o Nobel da Paz em 1990 tinha já cumprido uma missão histórica. Restava-lhe só um ano como presidente de uma União Soviética que iria desaparecer, mas muito fizera pelo fim da Guerra Fria.

   Agora, no caso de Barack Obama é caso para dizer que ainda mal se fez ao caminho.

   Além disso, premiar o chefe de estado de uma superpotência com interesses contraditórios em processos negociais por todo o globo é altamente problemático.

   Obama propõe-se reduzir os arsenais nucleares das grandes potências e reforçar o regime de não-proliferação, mas essas negociações mal começaram e basta lembrar que também Ronald Reagan propõs o mesmo a Gorbatchov em 1986.
   
    Para a Cimeira de Copenhaga do próximo mês de Dezembro ainda se falta saber o que vai, de facto, propor  Washington em matéria de combate ao aquecimento global, que concessões farão, que condições tem Obama nos Estados Unidos para avançar com cortes significativos nas emissões de gases com efeito de estufa.

  Quanto a Guantánamo não será sequer no prazo apontado, no final do ano, que se resolverá o destino dos presos e mais difícil ainda é prever o que possa vir a acontecer no Afeganistão, no Iraque.

  É incerto também o que resultará dos diferendos sobre os projectos nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

  Em suma, por melhores que sejam as intenções de Barack Obama, por mais que se leve à letra as suas declarações, é prematuro, muito prematuro, atribuir-lhe um Nobel da Paz. 

TSF / O Mundo num Minuto
9 Outubro 2009   

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Tibete e a próxima reencarnação



   Um sinal do que está para vir ocorreu em Maio de 1995 quando o Dalai Lama anunciou que um menino de seis anos era a décima primeira reencarnação do Pachen Lama, a segunda figura do budismo tibetano.

  A anterior reencarnação falecera em 1989 e Gedhun Choeky, o sucessor descoberto no sudeste do Tibete, foi imediatamente sequestrado pelas autoridades de Pequim

   Uma posterior busca da reencarnação orquestrada por monges coniventes com Pequim identificou, recorrendo a um sistema de sorteio decretado em 1792 pelo imperador chinês Qianlong para resolver disputas entre religiosos tibetanos, outra criança da mesma idade e região como o verdadeiro Pachen Lama.

  Gyancain Norbu é o Pachen Lama, crismado por Pequim e desprezado pelos tibetanos.

  O regime comunista estatuiu, posteriormente, em 2004, a obrigatoriedade de reconhecimento oficial por Pequim das reencarnações de monges eminentes.

   O Dalai Lama admitiu, entretanto, que a sua reencarnação possa vir a ser identificada através de um referendo entre os fiéis budistas tibetanos.

   O desconcerto é grande entre os seguidores do budismo tibetano já que o Dalai Lama é a própria encarnação humana da divindade da compaixão que renunciou ao nirvana para iluminar a humanidade.

  Tudo isto pode parecer estranho, mas é nesta lógica que se joga a questão do Tibete e o desconcerto vai muito para além de um boicote à cerimónia inaugural dos Jogos Olímpicos de Pequim.

                         Uma independência sem reconhecimento

   A queda da dinastia Qing na China foi a oportunidade para o Tibete proclamar a independência. Em 1913 o décimo terceiro Dalai Lama expulsou os dignitários e militares manchus e chineses que Pequim mantinha desde o início do século XVIII no Tibete.

  Os sucessores republicanos dos imperadores manchus em Pequim continuaram, no entanto, a reivindicar a soberania sobre o Tibete, apesar da longínqua província sempre ter mantido a sua autonomia administrativa e fiscal.

  Lhasa, contudo, emancipava-se, de facto, da relação de patrocínio que desde o século XII os senhores mongóis da China (dinastia Yuan) tinham estabelecido com a aristocracia e as hierarquias religiosas tibetanas de quem recebiam legitimidade canónica.

  À conquista do poder pelos comunistas em 1949 seguiu-se a tentativa de Mao Zedong levar os líderes tibetanos a aceitarem formalmente a integração do Tibete na China.

  A promessa de autonomia cultural, religiosa e administrativa por período indefinido foi recusada pelas elites de Lhasa que tentaram em vão obter o reconhecimento da independência por parte dos Estados Unidos, da Índia e da ONU.

  Este braço-de-ferro levou, em Outubro de 1950, o Exército de Libertação Popular a invadir Chamdo, a região oriental do Tibete, e o Dalai Lama, refugiado em Yadong, junto à fronteira com a Índia, viu-se forçado a enviar uma delegação a Pequim para negociar o “Acordo em 17 Pontos para a Libertação Pacífica do Tibete”.

   Assinado em Maio de 1951, o acordo reconhecia a soberania chinesa sobre o Tibete, enquanto Pequim admitia que o Dalai Lama, então com 16 anos, mantivesse o sistema tradicional de governo até os tibetanos admitirem a adopção de reformas.

   A partir de 1956, revoltas de camponeses tibetanos no Kham (na província chinesa de Sichuan) contra a colectivização deram origem a acções de guerrilha (pouco flageladores, mas com apoio da CIA até finais dos anos 60) e culminaram na contestação generalizada à presença chinesa.

   A insurreição de Lhasa a 10 de Março de 1959 obrigou à fuga do Dalai Lama para a Índia e ao êxodo de mais de 80 mil refugiados.

  A partir de então Pequim impôs o programa de colectivização e desmantelamento do sistema monástico tibetano que atingiu o auge na campanha anti-religiosa da Revolução Cultural.

                                   Negociação impossível

   Deng Xiaoping no final dos anos 70 lançou uma nova política para o Tibete.

   À campanha anti-religiosa sucedeu a autorização para reabertura limitada de mosteiros, uso da escrita tibetana e promoção de quadros administrativos locais, enquanto o governo central começava a investir nas infra-estruturas da região autónoma e eliminava as medidas de colectivização de agricultores e pastores nómadas.

   Em 1982 e 1984 tiveram lugar conversações entre as autoridades chinesas e o governo tibetano no exílio.

   O Dalai Lama, que fizera aprovar em 1963 uma “Constituição Democrática” para o seu governo no exílio de Dharamsala, insistiu no direito ao autogoverno à semelhança do modelo “um país, dois sistemas” que Deng aventava para Hong Kong, Macau e Taiwan.

   Os negociadores do Dalai Lama reclamaram, ainda, a dissolução da Região Autónoma do Tibete, criada em 1965, de forma a agregar sob sua administração autónoma todas as áreas de povoamento tibetano no Qinghai, Gansu, Sichuan e Yunnan, apesar de o governo de Lhasa ter perdido o controlo efectivo da maior parte dessas regiões (Kham e Amdo) no século XVIII.

  Para Deng Xiaoping o modelo “um país, dois sistemas” nunca poderia ser aplicado a uma região tida por parte integrante da China e o controlo do Partido Comunista não estava sujeito a discussão.

   O fracasso das negociações levou o Dalai Lama a adoptar uma nova estratégia, assumindo o papel de líder político ante as opiniões públicas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão.

  Na primeira declaração relevante, em Washington, em 1987, o Dalai Lama reiterou o carácter ilegal da ocupação, apelou à desmilitarização de todo o Tibete (incluindo as regiões de Kham e Amdo) e à saída de emigrantes chineses, ao mesmo tempo que propunha “negociações francas e realistas” com Pequim.


  No ano seguinte, no Parlamento Europeu, o Dalai Lama precisava que o Tibete, englobando as províncias históricas de Kham e Amdo, se deveria tornar numa “entidade democrática autónoma” associada à China.

   Pequim manteria no Tibete apenas um número limitado de instalações militares para fins exclusivamente defensivos e manteria a responsabilidade pela política externa.

                            Direitos humanos e realismo estratégico

   O Dalai Lama abandonava a reivindicação de independência, presumia a eventual negociação de autonomia, mas foi confrontado com críticas entre os tibetanos exilados à chamada “via intermédia”.

  Em 1989, o Dalai Lama recebia o Prémio Nobel da Paz pelos esforços em prol de “soluções pacíficas assentes na tolerância e respeito mútuo de forma a preservar a herança histórica e cultural do seu povo”.

   Mas ao mesmo tempo que o Tibete ganhava estatuto internacional como questão fulcral de direitos humanos, a contestação separatista em todas as áreas de povoamento tibetano sob controlo chinês subia de tom desde 1987, culminando em motins em Lhasa em 1998 e 1989.

   Em Março de 1989, três meses antes do massacre de Tiananmen, a China via-se obrigada a impor a lei marcial no Tibete que iria vigorar durante um ano. De então para cá, tornou-se claro para os dirigentes comunistas que o irredentismo tibetano só poderia ser contido a longo prazo.

                                   O pavão voa para ocidente

   Daí resultou a adopção, em 2000, da política de “Grande Desenvolvimento do Ocidente”, abrangendo além do Tibete outras quatro regiões autónomas.

   O objectivo essencial foi definido como uma “profunda transformação social” que permita integrar economicamente regiões atrasadas na economia nacional e preservar a unidade e segurança do estado.

   A emigração chinesa, e no caso do Tibete de muçulmanos hui de língua chinesa, passou a ser apresentada como uma das componentes de “convergência nacional”, mas, até agora, os efeitos têm sido perversos.

   O censo de 1990 referenciava 80 837 chineses com autorização de residência na Região Autónoma do Tibete, mas dez anos depois esse número subira para 155.300, numa população total de 2,62 milhões de habitantes.

   Os registos oficiais admitiam, no entanto, que o número de emigrantes chineses sem autorização de residência ascendia recentemente a mais de 100 mil pessoas em Lhasa e a 50 mil em Shigatse.

   As principais cidades do Tibete têm presentemente maioria chinesa e a emigração acelera desde a inauguração em 2006 da ligação ferroviária entre Lhasa e Golmund, no Qinghai.

   As estatísticas oficiais de investimentos recorde no Tibete (mais 13 mil milhões de dólares foram previstos para 2007-2010) resultaram num crescimento económico de 14 por cento no ano passado. Entre a população tibetana impera, contudo, a mágoa de que a melhoria da sua situação material fica aquém dos ganhos dos emigrantes chineses han e hui.

   O pavão voa para ocidente, conforme o dito com que Li Dezhu, o responsável de Pequim pela política face às minorias, apresentou a estratégia de integração nacional em 2000.

   O pavão voa sobre o Tibete, é chinês por cultura, e faz ninho de comunista de mercado.

                                     Um outro mundo

   O décimo quarto Dalai Lama na sua actual encarnação dobrou sereno e amargurado a sétima década de vida neste mundo.

   A “via intermédia” e a “não-violência”, estão longe de cativar a maioria dos 130 mil exilados e pouco sentido fazem ante a alienação cultural dos mais de cinco milhões de tibetanos sob controlo chinês, na região autónoma e nas províncias fronteiras.

   “Palavras de Verdade” é o título de um poema que o jovem Dalai Lama lavrou em 1960, pouco depois de começar o grande exílio tibetano. Uma exortação que ainda hoje é evocada como património da piedade budista.

Piedoso povo da Terra das Neves
à mercê da impiedosa destruição das hordas bárbaras
ao serviço das trevas.
Que o poder da compaixão possa, sem demora,
conter o sangue e as lágrimas.


   Ante a contestação violenta dos tibetanos em toda a China e a frustração do exílio um ciclo político está a chegar ao fim e o décimo quarto Dalai Lama fracassa na via da “não-violência”.
   Afora devotos, ninguém reconhecerá à criança que reencarnar o actual Dalai Lama o prestígio que o antecessor averbou e é com isso que os comunistas de Pequim contam, mesmo que ignorem o que seja a compaixão budista que é um querer não perder a virtude de salvar outrem.

  Outro mundo, por certo, que pouco tem a ver com a política pura e dura.

Jornal de Negócios
27 Março 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=314140

domingo, 19 de agosto de 2012

A política do Nobel da Paz


Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Albert Arnold (Al) Gore Jr.

The Nobel Peace Prize 2007

Intergovernmental Panel on Climate Change , Al Gore



   O anúncio, a 15 de Outubro de 1990, da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Mikhail Gorbatchov pela sua contribuição para a pacificação da cena internacional foi recebido com ironia na União Soviética e isto para atendermos apenas às raras apreciações positivas.

   À ironia juntaram-se os relatórios que prontamente o KGB, dirigido por Vladimir Kryuthckov, um dos conspiradores do golpe fatal de Agosto de 1991, fez chegar ao Kremlin dando conta do repúdio da maioria da população pela distinção concedida a “um traidor”, um “vende-pátrias”.

   Nas memórias de seis anos como assessor do secretário-geral do Partido Comunista, Anatoli Tchernaiev considera mesmo que o Prémio de Oslo foi um sinal de que “o feito histórico de Gorbatchov” começava a ser devidamente apreciado no estrangeiro precisamente na altura em que na Rússia, na Ucrânia, na Lituânia e por toda a União Soviética o chão lhe fugia depois dos pés.

   A distinção de Gorbatchov foi um caso em que o Comité de Oslo distinguiu um estadista com o destino traçado, sem que o Prémio pudesse valer-lhe como capital político, mas o Nobel de 1990 marcou, também, a esperança de que o fim da Guerra abrisse novas perspectivas para a resolução pacífica de conflitos. 
  
                                      A paz depois da guerra fria

   Desde então, independentemente das diversas orientações políticas dos cinco membros do Comité eleitos pelo parlamento norueguês, o Nobel da Paz foi atribuído com a intenção de valorizar personalidades empenhadas em lutas incertas pela democracia e direitos humanos ou mesmo processos de emancipação nacional.

   Estão nesse caso os Prémios de Aung San Suu Kyi (1991), Rigoberta Menchú (1992), Ximenes Belo e Ramos-Horta (1996), Shririn Ebadi (2003).   

   O Comité destacou também, numa linha mais tradicional, políticos envolvidos em negociações de paz regionais ou nacionais.

   Entre os premiados do período pós-Guerra-Fria contam-se, assim, Nelson Mandela e William de Klerk (1993), Yasser Arafat, Shimon Peres e Yitzhak Rabin (1994), John Hume e David Trimble (1998), Kim Dae Jung (2000). 

   Campanhas pelo desarmamento voltaram igualmente a ser distinguidas nos anos de 1995, Joseph Rotblat e as Conferências Pugwash, 1997, Jody Williams e a Campanha para Erradicação das Minas Anti-Pessoais, bem como os esforços da Agência Internacional de Energia Atómica e do seu director Mohamed El Baradei para utilização pacífica da indústria nuclear, em 2005.
  
  Acções de mediação internacional e humanitária foram contempladas nos Prémios concedidos aos Médicos Sem Fronteiras (1999), à ONU e a Kofi Annan (2001) e a Jimmy Carter (2002).
 
   A grande novidade dos últimos anos tem sido, no entanto, o alargamento da noção de esforço de paz a actividades que ultrapassam a prevenção e mediação de conflitos armados, a acção humanitária ou a defesa de direitos humanos.

  Os precedentes de 1949, com consagração do escocês Boyd Orr, primeiro director-geral da Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO), e de 1970, quando o Comité de Oslo galardoou o pai da Revolução Verde, o norte-americano Norman Borlaug, foram dois casos isolados que não puseram em causa a orientação tradicional do Comité de Oslo desde 1901.

                           Um prémio cada vez mais abrangente

  Os Prémios à ecologista queniana Wangari Maathai, em 2004, destacando em particular o seu contributo ao “desenvolvimento sustentado” e o combate à desflorestação, e, no ano passado, ao Grameen Bank de Muhammad Yunus pela “criação de oportunidades de promoção económica e social dos pobres e das mulheres, em particular”, representam, contudo, um alargamento significativo do “conceito de paz”.
  
   A sustentabilidade social, económica e ambiental passou a ser tida pelo Comité norueguês como factor de relevo para a pacificação de sociedades em crise.
  
   Este ano, numa altura em que estão em negociação programas de combate ao aquecimento global, nomeadamente a Conferência da ONU agendada para Bali em Dezembro, é assim natural que as questões ambientais possam vir a ser contempladas com o Nobel da Paz. 
 
   Pelo seu impacto mediático destaca-se a candidatura conjunta de Al Gore, “o homem que ia ser presidente dos Estados Unidos”, e da activista inuit canadiana Sheila Watt-Cloutier, mas personalidades como o “Papa Verde”, o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, também poderão ser galardoadas.
 
    Novas áreas como a prevenção, combate ao terrorismo e protecção de direitos cívicos, o controlo da natalidade ou a aplicação para campanhas de paz de tecnologias de ponta são de momento demasiado genéricas e problemáticas para reunir consenso no Comité de Oslo, apesar do luta contra o narcotráfico poder vir a merecer um Nobel a curto prazo.
  
    Nas vertentes tradicionais de mediação ou intervenção humanitária os conflitos do Darfur, do Médio Oriente, do Afeganistão, Caxemira, do Sri Lanka ou do Kosovo oferecem ampla margem de escolha ao Comité norueguês.
  
   A um ano dos Jogos Olímpicos de Pequim as questões ambientais e de direitos humanos na China são, igualmente, uma aposta possível do Nobel da Paz, sem esquecer figuras e organizações empenhadas em reformas democráticas na Rússia ou em Cuba.
 
   Das 181 nomeações, entre as quais 46 organizações, que o Comité de Oslo acolheu para o ano de 2007, poderá sair um Prémio relativamente consensual ou controverso, mas, a confirmarem-se as novas tendências, as questões do ambiente mais cedo ou mais tarde terão a consagração de um Nobel da Paz.

Jornal de Negócios
10 Outubro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=303667

Um Nobel por uma China democrática


Liu Xiaobo

The Nobel Peace Prize 2010

Liu Xiaobo




   Liu Xiaobo cumpre uma pena de onze anos numa prisão em Jinzhou; Hu Jia está detido em Pequim; o paradeiro de Gao Zhisheng é desconhecido, e é esta a sorte de três dos mais proeminentes activistas dos direitos humanos da China.

   O Comité de Oslo terá na sexta-feira oportunidade de, pela primeira vez, galardoar um cidadão da China e as autoridades de Pequim acentuaram nas últimas semanas as pressões e advertências quanto à atribuição do Prémio Nobel da Paz a algum dos subversivos que violam a Lei da República Popular.

   O Dalai Lama, premiado em 1989 pelos seus esforços pacíficos contra a ocupação chinesa do Tibete, é uma das vozes que se fizeram ouvir a favor do Nobel da Paz para Liu Xiaobo, o dissidente chinês mais falado para o galardão de 2010.

                                 Liu, um pacifista subversivo

   Liu é um professor de literatura de 54 anos que em Dezembro de 2008 promoveu um manifesto, conhecido como a Carta 08, à semelhança da Carta 77 dos dissidentes da Checoslováquia comunista, apelando ao respeito pela liberdade de expressão e os direitos humanos.

   Depois de ter participado nos protestos da Praça Tiananmen, em 1989, Liu foi detido diversas vezes e no dia de Natal de 2009 foi condenado a onze anos de prisão.

   A atribuição do Nobel da Paz a Liu foi também defendida pelo bispo Desmond Tutu, três figuras proeminentes da antiga dissidência checa - o ex-presidente Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova - e o presidente do PEN American Center, Anthony Appiah.

   A nomeação para o Nobel da Paz do antigo docente da Universidade Normal de Pequim e leitor convidado de diversas instituições de Ensino Superior no estrangeiro, incluindo a Universidade de Oslo e de Columbia, nos Estados Unidos, exasperou os dirigentes chineses.

   Desde o Verão que altos responsáveis de Pequim manifestaram o seu desagrado a membros do Instituto Nobel Norueguês e do governo de Oslo quanto a um eventual galardão para Liu.

   O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Jiang Yu foi peremptório no mês passado, ao declarar que Liu violara a Lei e as suas acções eram "totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz".

   Um "acto inamistoso" por parte da Noruega - considerando que o Nobel da Paz é escolhido por um comité de cinco eleitos pelo Parlamento de Oslo - teria consequências negativas para as relações bilaterais, no dizer de Pequim, que desde logo comprometeriam qualquer projecto na China da "Statoil" norueguesa, a maior empresa mundial de exploração de petróleo e gás "offshore".

   Um Nobel para Liu, ou para Hu Jia, empenhado em causas ambientais e no combate à Sida (cumpre pena de três anos e meio de prisão em Pequim), ou ainda Gao Zhisheng, advogado conhecido pela sua defesa de crentes católicos ou do Falun Gong, actualmente em paradeiro desconhecido, representaria um sinal de que a sorte de quem luta pelos direitos humanos na China não é ignorada.

                                      Paz, fraternidade e muito mais

   Ao Nobel de 2009 por declaração de intenções a Barack Obama, controverso e extemporâneo, ainda que passível de ser visto como respeitando o testamento de Alfred Nobel, bem poderia seguir-se esta semana um galardão virado para os direitos humanos, que foram pela última vez contemplados em 2003, na pessoa da iraniana Shirin Ebadi.

   O Nobel da Paz ultrapassou o intuito original de premiar esforços pela paz e fraternidade entre as nações, ainda que a consagração da Agência Internacional de Energia Atómica e do seu director-geral Mohamed Al Baradei, em 2005, tenha sido um dos últimos exemplos relativamente consensuais quanto a esse desiderato.

   O Instituto Nobel Norueguês passou também a premiar a luta pacífica pelos direitos humanos e causas independentistas (Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, representam um caso típico), além da sustentabilidade social, económica e ambiental (a queniana Wangari Maathai, em 2004, ou Grameen Bank do bengali Muhammad Yunus, em 2006).

   Existem áreas susceptíveis de justificaram um alargamento do leque de potenciais galardoados, designadamente na promoção do diálogo religioso, prevenção e combate ao terrorismo, a par da protecção dos direitos cívicos, ou luta contra o narco-tráfico e tráfico de pessoas.

   Em 2010, o Comité norueguês registou 237 nomeados, entre eles 38 organizações.

   Dos nomes conhecidos, a esmagadora maioria merece a distinção, apesar de algumas causas e pessoas sobressaírem.

   Um Prémio Nobel pode garantir protecção adicional a pessoas perseguidas, e esse contributo nunca pode ser ignorado.

  Até mesmo o destino angustiante da birmanesa Aung San Suu Kyi, premiada em 1991 e que continua em prisão domiciliária, teria sido muito mais dramático, se é possível usar tal eufemismo, sem a distinção de um Nobel da Paz.

                               Apoiar quem pena e arrisca a vida

   O ginecologista congolês Denis Mukwege, ímpar no seu esforço em prol de vítimas de violações de guerra, ou a médica de etnia hazara Simar Samar, da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, são duas pessoas merecedoras dos maiores encómios e apoio, tal como o monge budista vietnamita Thich Quang Do ou o cubano Guilherme Fariñas.

   Organizações como Memorial, activa na Rússia e na Tchetchénia na defesa dos direitos cívicos, ou o Tribunal Especial para a Serra Leoa, pela acção na investigação de crimes de guerra na África Ocidental, merecem, igualmente, a distinção de um Nobel.

   Numa altura em que Pequim assume um peso cada vez maior nas questões internacionais - pela sua relevância económica, pela importância nas negociações sobre alterações climáticas -, seria, no entanto, de suma importância um apoio, mesmo que simbólico, a quem se bate pelos direitos do homem na China.

   Os chamados dissidentes chineses penam na cadeia e sofrem perseguições pela defesa de direitos que os países democráticos têm como a própria essência dos seus regimes.

   Liu Xiaobo, sem demérito para qualquer outro nomeado, seria um digno Prémio Nobel da Paz em 2010.

Jornal de Negócios
06 Outubro 2010

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Milhões para os Kim, embaraços em Delhi e Pequim



Tumen, Fronteira RPC/Coreia do Norte

   A China fornece cerca de 90 por cento da energia, perto de 80 por cento dos bens de consumo e quase metade dos artigos alimentares que a Coreia do Norte consume, é o principal suporte diplomático de Pyongyang e sustenta com créditos incobráveis um défice nas trocas comerciais bilaterais que supera os mil milhões de dólares.

   Enquanto Kim Jong Il encena em Pyongyang a transferência dinástica de poderes para o seu filho mais novo, outra incógnita surge quanto à política de Pequim face à Coreia do Norte.

   O regime norte-coreano tornou-se uma complicação de monta para a China depois da primeira explosão nuclear de Pyongyang em Outubro de 2006 a que se seguiu segundo teste em Maio do ano passado.

   A China fornece cerca de 90 por cento da energia, perto de 80 por cento dos bens de consumo e quase metade dos artigos alimentares que a Coreia do Norte consume, é o principal suporte diplomático de Pyongyang e sustenta com créditos incobráveis um défice nas trocas comerciais bilaterais que supera os mil milhões de dólares.

   Até agora todas as advertências e críticas que vão surgindo esporadicamente na imprensa chinesa quanto à necessidade de uma reforma da falida economia norte-coreana têm caído em saco roto.

   Por óbvios motivos estratégicos Pequim não pode permitir o colapso do regime de Pyongyang, mas a capacidade chinesa para forçar concessões por parte da Coreia do Norte quanto ao seu programa nuclear militar tem sido deveras limitada no âmbito das conversações em que participam ainda a Rússia, o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

    A China tem assistido impotente aos mais recentes desvarios de Kim Jong Il.

    O comportamento errático e provocatório de Pyongyang atingiu um ponto deveras perigoso com o ataque à corveta sul-coreana Cheonan em Março e o fracasso de uma bizarra reforma monetária no final do ano passado lançou dúvidas sobre a sanidade mental do Grande Líder.

   Pequim face aos riscos acrescidos do processo de transmissão de poderes para Kim Jong-un poderá ter adoptado uma estratégia de intervenção avantajada na Coreia do Norte.

   O que aguarda confirmação são, assim, as notícias que começaram a circular este mês de que bancos e empresas chinesas estão prestes a assinar um acordo com uma recém-criada entidade de cooperação da Coreia do Norte: a Agência de Investimento Internacional Taepung.

   O montante aventado aponta para um pacote de investimentos chineses na ordem dos 10 mil milhões de dólares. A concretizar-se esta injecção de capital seria equivalente a cerca de 70 por cento do Produto Interno Bruto da Coreia do Norte e implicaria a criação de empresas mistas e zonas económicas especiais.

   Há lógica nestas notícias que foram veiculadas a partir de Pequim.

   A China, pesando as suas opções, pode bem ter decidido investir em força na Coreia do Norte para forçar pelo menos as grandes linhas de uma reforma económica que permita a sobrevivência do regime, contenha o seu comportamento agressivo e leve a algumas concessões na questão nuclear.



      
                               O EMBARAÇO DE NOVA DELHI

   Deve ser grande o gaúdio em Pequim com as agruras da Índia.

   Os meios de comunicação social indianos são, aliás, os primeiros a destacar o embaraço e vergonha nacionais provocados pela desordem que rodeia os Jogos da Commonwealth que abrem este domingo em Nova Delhi.

   É a primeira vez que a Índia organiza os Jogos, que tiveram o seu primeiro avatar como British Empire Games em 1930, e os custos, sobre os quais ninguém se entende, estabelecem um recorde.

   Em 2003, quando foi atribuida à Índia a organização dos Jogos, o governo indiano estimou em 500 milhões de dólares os custos de construção e modernização de infraestruturas desportivas, acessos, fornecimentos de água e energia.

    Pelas últimas contas esta factura chegou aos 4,6 mil milhões de dólares.

    A construção de um novo terminal no aeroporto internacional Indira Ghandi orçou, por sua vez, em 2,7 mil milhões de dólares.

   A décima nona edição dos Jogos está já marcada por casos de corrupção (16 projectos de construção no montante de 508 milhões de dólares estão sob investigação), incompetência crassa, desorganização, deficiências e atrasos na edificação e recuperação de centros desportivos e instalações de acolhimento aos atletas e à comunicação social, e um rol de desacertos que obrigaram à intervenção de emergência do primeiro-ministro Manmohan Sing para salvar a honra da casa.

   Um inquérito do Hindustan Times relevava, entretanto, que 68 por cento dos habitantes de Nova Delhi sentia “vergonha” pelo que está a acontecer, enquanto 17 por cento se mostrava “indiferente” e 15 por cento de optimistas a toda a prova diziam ter “orgulho” na organização dos Jogos.

   O que irá acontecer entre 3 e 14 de Outubro na capital indiana é uma incógnita, mas o facto da Lloyd’s ter recusado segurar empresas envolvidas na venda de bilhetes, merchandising, ou direitos de transmissão televisiva e radiofónica no caso de cancelamento, adiamentos, atrasos ou incidentes durante os Jogos não augura nada de bom.

   A Lloyd’s alegou falta de informação sobre riscos de segurança e qualidade das infraestruturas e acabou por ter de ser o governo indiano a garantir os seguros aumentando em mais 200 milhões a 250 milhões de dólares os custos imparáveis da organização dos Jogos que rondam os 10 mil milhões de dólares.

   Descontando os riscos sanitários (este ano foram registados oficialmente 400 casos de dengue), o fiasco da venda de bilhetes (cerca de 200 mil contra uma previsão inicial de 1,7 milhões) e os temores de atentados as 71 selecções presentes nestes Jogos competem em Nova Delhi com o coração na boca.

   Os custos da publicidade negativa que rodeia os Jogos de Nova Delhi não estão contabilizados, mas a imagem da Índia leva um rombo colossal.

   A boa educação obriga e têm rareado os comentários na comunicação social estatal chinesa sobre as desgraças do rival asiático, mas a comparação entre as Olímpiadas de Pequim e os Jogos de Nova Delhi cedo ou tarde fará o seu caminho.

   Ofuscando o embaraço do vizinho foram, portanto, outros acontecimentos maiores a merecer destaque nos media oficiais: a visita de Dmitri Medvedev a Pequim e a inauguração do primeiro oleoduto sino-russo que fornecerá à China 300 mil barris/dia de petróleo russo, o conflito com o Japão sobre as ilhas Diaoyu/Sensuku e os diferendos comerciais e monetários com os Estados Unidos que irão agravar-se à medida que se aproximam as eleições de Novembro para o Congresso de Washington.






                       O NOBEL DA PAZ DE LIU XIABAO

   Pode acontecer é que Pequim esteja prestes a passar por um embaraço que supere noutro plano as agruras de Nova Delhi.

   As pressões e ameaças da China contra a Noruega e a União Europeia, advertindo para as consequências negativas que teria a eventual atribuição do Prémio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiabao, estão a ser muitos mal recebidas e arriscam ter o efeito contrário ao desejado por Pequim.

    Geir Lundestad, director do Instituto Nobel Norueguês e secretário-permanente do Comité Nobel Norueguês, revelou esta semana que o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Gu Ying o advertiu no Verão em Oslo contra a atribuição do Nobel da Paz a Liu.

   Liu Xiabao, detido desde Dezembro 2008 pelos seus apelos subversivos à democratização da China, condenado no dia de Natal de 2009 a onze anos de prisão, é, efectivamente, um sério candidato ao Nobel da Paz.

   Três figuras gratas da resistência democrática na Checoslováquia comunista – o antigo presidente checo Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova – apelaram publicamente à atribuição do Nobel da Paz a Liu Xiabao num artigo publicado a 20 de Setembro no The New York Times/International Herald Tribune.

   Após as ameaças à porta fechada, a resposta pública chegou pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

   Jiang Yu declarou peremptório em Pequim que Liu violara a lei e que as suas acções eram “totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz”.

   Depois do Dalai Lama, premiado no fatídico ano de 1989, a China arrisca contar com mais uma pedra no sapato.

   A bola de neve das críticas à pressões chinesas começou a rolar e só se saberá se Pequim escapará ao pior quando a 8 de Outubro for anunciada em Oslo a decisão dos cinco membros do Comité Nobel eleitos pelo Parlamento norueguês.


HojeMacau
30 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=3241

Comunismo não é palavra vã



Liu Xiaobo





   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica” da China.

   Relembrando aos mais desatentos que comunismo não é palavra vã os líderes de Pequim reagiram como seria de esperar à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo.

   O problema para os comunistas de Pequim é que a China não se pode comportar como o regime militar da Birmânia que mantém Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária ou os ayathollas do Irão que obrigaram ao exílio Shirin Ebadi.

   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica”.

   Do coro elogios a Liu e da chuva de críticas à censura chinesa dissidiram de forma igualmente prevísivel os comunistas portugueses que viram no Nobel de Liu “um golpe na credibilidade” do galardão e uma manobra “inseparável das pressões dos Estados Unidos à República Popular da China”.

   Outro caso a assinalar tem a ver com o inefável teórico dos “valores asiáticos” Kishore Mahbubani que na véspera do anúncio do Nobel para Liu, quando ía alta nas bolsas das apostas a candidatura do preso de Jinzhou, advertiu desde logo que o Comité Nobel de Oslo reflecte a visão do mundo ocidental.

   O académico e ex-diplomata de Singapura afirmou que tal viés explica que um líder que contribuiu para retirar 600 milhões de pessoas da pobreza como Deng Xiaoping não tenha recebido o Nobel.

   No que respeita à Ásia o Nobel está reservado para dissidentes.

  Pessoas respeitáveis como Suu Kyi ou o coreano Kim Dae Jung, mas, ainda assim, meros dissidentes, no entender de Mahbubani.

   O racícionio tortuoso de Mahbubani deve ter agradado em Pequim, mas tem o senão de ignorar que Suu Kyi em 1991 era a vencedora de uma eleição popular anulada por uma junta militar e Kim Dae Jung foi premiado não apenas pela sua carreira de luta pelos direitos humanos, mas também e sobretudo pelos esforços “em prol da paz e reconciliação com a Coreia do Norte”.

   No longínquo ano de 1974, quando a virtuosa China passava pela Revolução Cultural, o Nobel da Paz foi partilhado pelo irlandês Sean Mac Bride e Eisaku Sato, tendo o primeiro-ministro japonês sido escolhido pela promoção de uma política pacifista e de cooperação internacional, e no ano anterior Henry Kissinger e Lu Duc Tho tinham sido galardoados pela êxito na negociação de um cessar-fogo no Vietname.

   Entre os galardoados asiáticos o Dalai Lama, em 1989, ano de Tiannamen, Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, e Shirin Ebadi, em 2003, enquadram-se na categoria “dissidentes” ou “independentistas subversivos”, mas quanto a Madre Teresa de Calcutá, albanesa de nascimento, mas consagrada em 1979 por obras de caridade na Índia, ou ao bengali Muhammad Yunnus e o Banco Grameen de micro-crédito, premiados em 2006, dificilmente a alegação do ideólogo dos “valores asiáticos” faz qualquer sentido.

   O decano da Escola Lee Kuan Yew de Política Pública aventou uma linha de defesa fraudulenta, mas coerente com as alegadas idiosincracias asiáticas, que os propagandistas de Pequim nem sequer tentaram ainda explorar ficando-se pelas teses de uma cabala estrangeira desrespeitosa da honra chinesa.

   Entre os sinólogos, no entanto, não foi perdido de vista que o Nobel de Liu Xiaobo poderá vir a ter uma influência crucial no debate das elites chinesas sobre reformas políticas.

   Aos decisores políticos e económicos estrangeiros chegam ecos de experiências frustadas de votações com candidaturas diversas para delegados a congressos do Partido Comunista a nível distrital ou eleições directas para conselhos administrativos de aldeias.

   As minudências dos debates teóricos sobre valores universais e mediação de interesses contraditórios versus valores específicos chineses de harmonia social num quadro hierárquico controlado pelo partido/estado já são, contudo, mais difíceis de apreciar.

   Liu e outros promotores da Carta 08, como Zhang Zuhua ou Zhiang Qisheng, contribuíram para definir como objectivo político a atingir por via pacífica uma democracia constitucional que incorpore valores e práticas como eleições multipartidárias, salvaguarda dos direitos humanos e liberdades fundamentais de expressão, crença e associação, além de divisão e equílibrio entre poderes legislativo, executivo e judicial.

   A Carta 08 representa, assim, um passo significativo para ultrapassar as limitações das discussões entre a intelectualidade chinesa sobre os modelos de “democracia socialista” que de uma forma ou de outra tentam perservar um papel liderante para o Partido Comunista.

   Na tormentosa história da China moderna intelectuais acabaram por ver as suas propostas vanguardistas marcarem uma época.

   Os nomes de Wang Tao, Kang Youwei, Cai Yuanpei, Sun Yatzen ou a menção a um dos primeiros comunistas chineses como Li Dazhao são exemplos que não escapam aos hierarcas de Pequim de como uma centelha pode incendiar a pradaria.

   O risco de Liu Xiaobo vir juntar-se a esta lista é, pois, assinalável e a comoção e embaraço em Pequim perfeitamente compreensíveis.

                                        DIVIDIR PELO YUAN

   Os diferendos sobre política monetária estão ao rubro e um académico chinês teve o mérito de preto no branco explicitar publicamente uma possível estratégia de actuação para a China.

   Um artigo de Wang Yong, professor de um instituto de Zhengzhou, província de Hennan, despertou as atenções. O académico defendeu que Pequim não deve permitir uma apreciação superior a 3 por cento do yuan este ano.

   A melhor forma da China evitar a formação de uma coligação liderada por Washington para pressionar uma valorização perniciosa do yuan seria cavar uma clivagem entre a União Europeia, o Japão e os Estados Unidos.

   Para tal a compra de obrigações japonesas de longo prazo, vendendo simultaneamente obrigações nipónicas de curto prazo, permitiria evitar a apreciação do iene temida por Tóquio e ganhar logo aqui um aliado.

   Outra vertente passaria por aplicações para aliviar a crise de dívida soberana na União Europeia.

    Neste particular a compra de títulos de dívida pública de Portugal, Grécia, Irlanda e Itália são, no entender, de Wang Yong, uma estratégia recomendável.

   O artigo só surprendeu pela sua clareza e se por alguns momentos deu mais alguns momentos de satisfação ao atormentado ministro Teixeira dos Santos — por estranho que pareça ainda diz de entrevista em entrevista estar bem com a sua consciência — logo tudo caiu por terra ante os comentários da imprensa especializada chamando a atenção para alegadas práticas predatórias e mercantilistas de Pequim.

              UM VELHO SUBVERSIVO EDITADO EM PEQUIM

   Coisa estranha e subversiva será a próxima edição pela editora CITIC de Pequim de “Conversas comigo mesmo”.

   É uma compilação de documentos conservados pela Fundação Nelson Mandela e tem como objectivo, segundo os organizadores, desmistificar a imagem do líder sul-africano.

   É um propósito político bem claro para obviar a manipulações do legado de Mandela e incentivar a discussão sobre a história trágica e o futuro incerto da África do Sul.

   Mandela sempre tentou resguardar a sua privacidade, mas neste livro surgem cartas e rascunhos da sua autobiografia inacabada que abordam questões muito pessoais e frequentemente dolorosas.

   Um tópico fica bem patente: o reconhecimento de erros e falhas.

   Mandela afirma ter sido um jovem que escondia as suas fraquezas adoptando uma atitude arrogante.

   Surge como um líder político, preso em Robben Island, que se mostra preocupado com a imagem enganosa de que os outros o possam ver um santo.

   Nunca fui um santo, escreveu Mandela na prisão.

   Nem mesmo atendendo à velha definição de que um pecador é alguém tenta superar seus erros e defeitos, escreveu ainda para reforçar uma preocupação que foi aumentado ao longo de 27 anos de prisão.

   Numa nota após um encontro em 1991 com Arthur Miller, um ano depois de sair da prisão, Mandela refere ter gostado da entrevista com o dramaturgo norte-americano.

   Escreve que Arthur Miller como pessoa de valor e mérito se mostra naturalmente modesto e atento aos outros. Enfim, como se personificasse aquilo que Mandela considera essencial.

   Também por isso Mandela afirma ter gostado de Isabel II. Encontrou uma rainha, que, além de todas as formalidades, se mostrou uma mulher franca, simples, divertida e com uma apreciação aguda das grandes questões.

   Em suma, Mandela aos 92 anos dá a conhecer parte dos seus arquivos pessoais para deixar uma mensagem muito simples: nunca mitifiquem um líder político. Todos temos momentos de fraqueza, erro, angústia, medo e egoísmo.

   Barack Obama assina o prefácio destas notas pessoais de Mandela, sublinhado a ideia de que o líder sul-africano nunca foi um santo, nunca quis ser visto como um santo, mas nem por isso deixa de ser uma das personalidades mais dignas e inspiradoras em tempos difíceis.

   No ocaso de uma vida cheia Mandela ainda luta para deixar uma advertência: não mitifiquem os políticos, discutam tudo, atentam aos erros e fraquezas de quem lidera.

   Isto dito por Nelson Mandela assume uma relevância que mais ninguém pode igualar e tem tanto de subversivo que ainda haverá quem se venha a arrepender de permitir que possa ser publicado em Pequim.

HOJEMACAU
14 Outubro 2010