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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Afeganistão: à espera da Primavera

  Helmand, Afeganistão


   Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

   A ineficácia e corrupção da administração do presidente Hamid Karzai, a insuficiência de efectivos militares e de meios financeiros para a reconstrução de um país devastado por 30 anos de guerra conduziram a um impasse.

   Os aliados, com apenas cerca de 70 mil homens no terreno, não têm condições para assegurar o controlo das províncias de maioria pashtun do sul e leste do Afeganistão e ao optarem pelo recurso sistemático a ataques aéreos reforçaram a hostilidade das populações nas áreas mais sujeitas à presença dos talibans.

                           Uma guerra cada vez mais sangrenta

   A ONU estima que no ano passado, o mais sangrento desde a invasão de 2001, o número de vítimas civis tenha aumentado 39% em relação a 2007, cifrando-se em 2.119 mortes.

   Os talibans teriam causado 55% das baixas civis, mas os ataques aéreos da NATO e dos Estados Unidos seriam responsáveis por 455 mortes, apesar dos aliados reconhecerem apenas 237 vítimas.

  O agravamento da situação deu origem a críticas públicas de responsáveis norte-americanos e da NATO a Karzai, enquanto o presidente afegão exige que parem os ataques aéreos e as forças aliadas cooperem plenamente com os cerca de 80 mil homens do exército nacional não se envolvendo, designadamente, em buscas e interrogatórios não autorizados de civis.

  Numa altura em que se agrava a crise constitucional provocada pelo adiamento das eleições presidenciais para Agosto, quando o mandato de Karzai termina em Maio, o claro distanciamento entre os aliados e o presidente abriu caminho para a escolha de um sucessor que terá de ser aceitável para as tribos pashtun (cerca de 40% da população) e para as minorias tadjiques (aproximadamente 27% dos habitantes do Afeganistão), além de hazaras, uzbeques e turcomenos.

   Na expectativa de um recrudescimento dos combates no início da Primavera, as negociações políticas entre as facções afegãs e a recandidatura de Karzai estão dependentes da estratégia que os aliados venham a definir na cimeira da NATO de Abril.

                                            Irredutíveis pashtun

   Os talibans, nomeadamente a frente liderada pelo Mullah Omar e as forças comandadas por Jalauddin Haqqani, recusam quaisquer conversações, e só alguns comandantes islamitas isolados, designadamente na província de Helmand, aceitaram até agora tréguas a troco de assumirem o controlo das suas áreas de influência.

   Acordos pontuais fomentados, ora pelas forças aliadas, ora pelo governo de Cabul, têm permitido a milícias tribais e às forças dos chamados "senhores da guerra" controlarem vastas áreas territoriais.

   A produção de ópio diminuiu 19% no ano passado em relação a 2007, mas continua a ser suficiente para financiar o esforço de guerra dos talibans e alimentar a corrupção dos poderes públicos.

   Restrito presentemente a 12 das 34 províncias do país, o cultivo de ópio é também motivo de divergências entre os aliados (norte-americanos e britânicos consideram a erradicação um objectivo imediato ao contrário da maior parte dos demais contingentes da NATO) e as autoridades afegãs.

   Pelo menos 15% dos 32 milhões de afegãos dependem do cultivo de ópio e as políticas de substituição de culturas têm produzido resultados limitados, enquanto persistem desacordos sobre a viabilidade de programas de compra directa das colheitas aos produtores, legalizando a principal fonte de rendimento dos camponeses, sobretudo em Helmand e noutras províncias do sul.

   A irredutível resistência dos talibans pashtun no sul e no leste do Afeganistão é inseparável da rebelião islamita e tribal no Paquistão e o consenso entre os aliados é de que só acordos políticos, mitigando os apoios além fronteiriços, poderão evitar um agravamento da situação militar.

                                       O futuro da guerra

   Paquistaneses e indianos favorecem facções rivais no Afeganistão, mas, tal como a China e o Irão, têm interesse na viabilização de gasodutos, oleodutos e rotas comerciais que implicam a pacificação do território afegão.

   Negociações envolvendo paquistaneses, indianos, chineses e iranianos, além das repúblicas da Ásia Central onde a Rússia tem ascendente, são um pressuposto para a estabilização do Afeganistão, mas dependem da contenção dos talibans que no ano passado infligiram mais de 290 baixas aos aliados.

   A administração Obama considera duplicar o contingente norte-americano com mais 30 mil homens (o máximo reforço possível dadas as limitações orçamentais e humanas das forças armadas de Washington e ainda assim dependente da redução da presença no Iraque), mas conta com escasso apoio dos aliados.

   Mesmo um reforço dos 1 100 homens do contingente australiano não compensará a retirada de tropas canadianas e holandesas, ao mesmo tempo que a maior parte dos membros da NATO dificilmente mobilizarão mais de 10 mil militares para o cenário de guerra no Afeganistão.

   Um total de 100 mil homens é ainda insuficiente.

   Treinar e financiar o exército afegão para que chegue aos previstos 130 mil efectivos, encetar acções ofensivas no sul e leste do país e manter simultaneamente condições de segurança para projectos de desenvolvimento (para os quais não existem verbas, nem meios humanos) são objectivos que ultrapassam os meios previsivelmente disponíveis.

  O objectivo essencial de um reforço militar parece assim limitar-se a conter o alastramento e intensificação das ofensivas talibans de forma a criar condições diplomáticas para envolver os países vizinhos em negociações.

   A deriva islamita dos pashtun no Paquistão não augura, no entanto, hipóteses de sucesso a curto prazo para a estabilização do Afeganistão mesmo numa variante minimalista em que o governo de Cabul seja reconhecido como autoridade simbólica nos principais centros urbanos e entre as minorias étnicas.

   Um reforço militar implica no imediato uma intensificação dos combates e um aumento das vítimas civis, sem contrapartida na melhoria na oferta de equipamentos e serviços às populações, e poderá contribuir para uma alienação ainda maior dos pashtun.

   O que acontecer esta Primavera determinará o futuro da guerra no Afeganistão.

   Se os Estados Unidos e a NATO não conseguirem conter a guerrilha taliban, a vontade política para prosseguir o esforço de guerra e investir na reconstrução do Afeganistão claudicará irremediavelmente.



Jornal de Negócios
18 Fevereiro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=355100

domingo, 19 de agosto de 2012

O "Irão terrorista"

Atiyah Al Rahman


   Depois de acabar com Bin Laden, em Maio, a Casa Branca riscou da lista dos terroristas mais procurados o principal chefe operacional da Al Qaeda, Atiyah Al Rahman, que terá sido morto no noroeste do Paquistão a 22 de Agosto.

   Um míssil disparado por um avião não-tripulado no norte do Waziristão eliminou, de acordo com informações oficiais norte-americanas, o líbio que nos últimos meses, antes de Bin Laden ser abatido em Abbottabad, conspirara com o líder da Al Qaeda para desencadear novos atentados nos Estados Unidos.

   Al Rahman, que já fora dado como morto em Outubro do ano passado, tinha a cabeça a prémio por um milhão de dólares, era, segundo Washington, o comandante das forças da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão e uma figura chave nos contactos com os jihadistas do Magrebe, no Iémen e demais núcleos ligados à organização.

   O homem que passara a número dois da Al Qaeda liderada pelo egípcio Aiman Al Zawahiri era, portanto, o mais proeminente responsável pela coordenação de operações e contactos nos círculos jidahistas.

                                         O canal iraniano

   Uma declaração emitida a 28 de Julho pelo Departamento do Tesouro de Washington nomeara, também, Al Rahman como um dos seis elementos de uma rede terrorista que operaria ao abrigo de "um acordo entre a Al Qaeda e o governo do Irão".

   A nota do governo norte-americano indicava, ainda, que Al Rahman fora designado, em data não especificada, por Bin Laden como "representante da Al Qaeda no Irão", uma posição que, alegadamente, lhe permitia entrar e sair da República Islâmica com autorização de Teerão.

   A Al Qaeda teria através deste acordo com Teerão garantido "um canal privilegiado" para fazer transitar "dinheiro, agentes de apoio e operacionais do Médio Oriente para o sul da Ásia".

   O Departamento do Tesouro arrestava consequentemente bens sob jurisdição norte-americana dos jihadistas e proibia contactos comerciais ou financeiros com todos os seis membros da Al Qaeda em trato com o Irão.

   O sírio Ezedin Abdel Aziz Khalil, sedeado no Irão, seria o chefe da rede - ainda que Al Rahman fosse alegadamente o representante não-residente junto dos iranianos - que abrangia jihadistas no Kuwait, Qatar e Paquistão.

   Nenhum iraniano era identificado no comunicado que, de acordo com o subsecretário David Cohen, com o pelouro da "intelligence" sobre terrorismo e finanças, esclarecia "o apoio sem paralelo do Irão ao terrorismo".

   O subscretário de Barack Obama declarava taxativamente que "o Irão é, actualmente, o principal estado apoiante do terrorismo".

                                        Atavismos políticos

   Dez anos passados sobre os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos a retórica que serviu a George W. Bush como um dos pretextos para justificar a invasão do Iraque ressurge sob a Administração Obama.

   O Irão é, agora, o estado tido como patrono da Al Qaeda numa altura em que Teerão, aparentemente em vias de recuperar dos danos provocados no ano passado pelo vírus informático "Stuxnet", tem vindo a aumentar a capacidade de produção de urânio enriquecido passível de utilização militar.

   A conjuntura económica e financeira não se apresenta propícia a uma eventual operação norte-americana contra o Irão, as previstas retiradas de efectivos militares do Iraque e do Afeganistão desaconselham hostilizar directamente Teerão, mas à entrada de um ano eleitoral é previsível que as tiradas contra os inimigos dos Estados Unidos subam de tom.

   Divergências de apreciação sobre os riscos do programa nuclear militar do Irão ou ameaças de redes terroristas são expressas abertamente por responsáveis da administração democrática e neste caso do alegado acordo Al Qaeda-Teerão podem redundar numa escalada retórica de consequências políticas dificilmente controláveis.

                                            Inimigos e expedientes

   Os líderes xiitas do Irão encontram-se num pólo religioso rigorosamente oposto aos safalistas sunitas da Al Qaeda.

   Teerão opõs-se aos taliban sunitas e de etnia pashtun do Afeganistão desde meados da década de 90 e, tal como Washington ou Nova Deli, apoiou em 2001 a "Aliança do Norte" na luta contra os homens do mullah Omar e Bin Laden.

   Alguns dirigentes da Al Qaeda, caso do egípcio Saif Al Abdel, terão, presumivelmente, encontrado abrigo no Irão após a queda dos taliban.

   As autoridades de Teerão restringiram as suas actividades ou colocaram pessoas ligadas a Bin Laden sob prisão domiciliária, segundo informações admitidas inclusivamente pelos serviços de informações norte-americanos, para as utilizarem em eventuais trocas de prisioneiros.

   A extradição para o Irão dos guerrilheiros "Mujaedin e-Khalq" baseados no Iraque e anteriormente apoiados por Saddam Hussein foi, por exemplo, um dos objectivos frustrados de negociações entre Teerão e Washington em que elementos da Al Qaeda serviriam como moeda de troca.

   Independentemente de contactos e conivências em operações de tráfico clandestino de armas, informações e financiamentos, os objectivos estratégicos de Teerão nada têm em comum com a Al Qaeda excepto no que possa vir a fazer valer os interesses iranianos ou prejudicar inimigos em comum sem dano de maior para o Irão.

                                             Os cadastrados

   Qualquer apoio ou condescendência de Teerão em relação à Al Qaeda, que sob a liderança do jordano Abu Al Zarqawi entre 2004 e 2006 lançou uma campanha de massacre dos xiitas no Iraque, só pode ser encarada como um expediente táctico.

   Quando Obama permite declarações peremptórias acusando Teerão de cumplicidade no planeamento de actos terroristas contra os Estados Unidos aumenta o risco de uma escalada retórica e propagandística face a um estado hostil que acabará por restringir as opções da Casa Branca.

   Pouco ou nada recomenda o regime iraniano, mas, tendo em conta o cadastro da administração Bush na justificação infundada de uma intervenção militar contra o Iraque, que, aliás, poderia ser considerada por outras razões e sobretudo conduzida de forma diferente, o mínimo a esperar de Obama era um pouco mais de sensatez ao permitir que um subsecretário arrisque a tirada do "Irão terrorista".

Jornal de Negócios
31 Agosto 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=503813