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domingo, 9 de setembro de 2012

Irão: a crise das estimativas


    Central Nuclear de Bushehr, Irão


   A possibilidade da administração Bush lançar um ataque militar contra o Irão está praticamente afastada depois das agências de informação dos Estados Unidos terem concluído com “alto grau de confiança” que Teerão “parou” no Outono de 2003 o seu programa nuclear militar.

   A estimativa das 16 agências norte-americanas reviu a análise de Maio de 2005 e considera, tendo em conta dados disponíveis até ao final de Outubro, poder afirmar com um grau de “confiança razoável” que o Irão só depois de 2015 terá capacidade para produzir urânio enriquecido em quantidade e qualidade suficientes para uma arma nuclear.

   A hipótese do Irão ter “importado” material físsil suficiente para produzir uma bomba nuclear é tida como improvável com um grau de “confiança razoável ou alto”, segundo a Estimativa Nacional de Inteligência.

   A eventual aquisição no estrangeiro de uma bomba nuclear não é descartada, mas as agências norte-americanas afirmam com um “grau de confiança razoável ou alto” que o Irão “não possui presentemente uma arma nuclear”.

   Para os analistas norte-americanos ,Teerão tem “capacidade científica, técnica e industrial para produzir futuramente armas nucleares”, caso seja tomada uma decisão política nesse sentido.

   A Estimativa adianta, com “grau de confiança razoável”, que dado a maioria dos líderes iranianos considerar a posse de armas nucleares essencial para a segurança nacional e os objectivos de política estrangeira de Teerão será “difícil” obviar à concretização futura de um programa nuclear militar.

   Finalmente, as agências de informação afirmam que a paragem do programa militar em 2003, devida alegadamente à “pressão internacional”, indicia que “as decisões de Teerão guiam-se por uma abordagem custo-benefício”.

   Não está, consequentemente, em curso “uma corrida para a obtenção de um arma independentemente dos custos políticos, económicos e militares”.

                                Um projecto militar racional

   Neste ponto, a Estimativa norte-americana faz-se eco de um relatório divulgado em Fevereiro pelo Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive.

   Esse estudo argumentava que a motivação iraniana para desenvolver um programa nuclear teria surgido como resposta à ameaça do Iraque sob Saddam Hussein e ao perigo que os Estados Unidos representam para a soberania e ambições regionais do Irão.

   Esses especialistas israelitas, contestando outras análises maioritárias entre as chefias militares e políticas de Telavive, apresentavam o programa nuclear de Teerão como integrado numa estratégia de dissuasão e, adiantavam que, apesar da retórica antijudaica de radicais como Ahmadinejad, o objectivo essencial iraniano não passava pela destruição do estado de Israel, mas, visaria apenas “uma capacidade de dissuasão de último recurso contra ameaças externas”.

   Os especialistas da Universidade de Telavive assumiam, ainda, existir um risco mínimo do Irão transferir para grupos terroristas armamento nuclear, questão que não é abordada na Estimativa divulgada esta segunda-feira em Washington.

   A alteração radical de posição sobre o risco militar a curto prazo de um Irão nuclear levanta questões delicadas.

   Em primeiro lugar, volta a fazer-se sentir a insuficiência de informações que permitiu a Teerão desenvolver um programa clandestino de enriquecimento de urânio desde 1985 – com recurso à rede de tráfico de centrifugadores do paquistanês Abdul Khan e só publicamente denunciado sete anos depois por um grupo da oposição iraniana – além das tentativas de aquisição de plutónio na Coreia do Norte.

                            Uma safra de análises contraditórias

   Caso esteja correcta a última análise das agências de Washington, os Estados Unidos orientaram a sua política para com o Irão a partir de estimativas erradas desde 2003, à semelhança das análises sobre a existência de armas de destruição no Iraque.

   A administração Bush terá, assim, subestimado a hipótese do Irão optar por suspender o seu programa nuclear militar meses após a invasão do Iraque por considerar, eventualmente, que o risco de retaliações era maior do que os ganhos a prazo da eliminação de Saddam Hussein e da criação de um centro de poder xiita no país vizinho.

   Se essa consideração se concretizou de facto é uma incógnita, apesar do novo “alto grau de confiança” dos analistas norte-americanos, mas ao que tudo indica prevalece agora em Washington a ideia de que não foi dada a devida atenção às possibilidades de políticas alternativas para conter as ambições iranianas, tal como foi ignorada a viragem, em última análise favorável a Teerão, provocada pelo ataque ao Afeganistão em 2001.

   As divergências no seio da liderança de Teerão quanto ao risco de sanções gravosas para uma economia iraniana dependente de importações de gasolina, equipamentos industriais e capitais, foram, igualmente, subestimadas.

   A eleição presidencial de Ahmadinejad em 2005 poderá ter distorcido ainda mais a avaliação da relação de forças em Teerão e levado a ignorar que o objectivo principal a curto prazo para o Irão é a criação de um Iraque sob controlo xiita e, consequentemente, não-hostil aos seus interesses.

   Tendo em conta que outras avaliações da Agência Internacional de Energia Atómica, de especialistas independentes e dos serviços de informação dos Estados Unidos, de Israel e da Rússia se revelaram problemáticas no passado – caso da incapacidade generalizada para prever, por exemplo, os testes militares indianos realizados em Maio de 1974 e em Maio de 1998 – é de admitir que as dificuldades de análise de dados esparsos e contraditórios impliquem uma grande margem de incerteza quanto à determinação política de um estado ao desenvolver programas nucleares.

   Mesmo considerando as análises da Agência Internacional de Energia Atómica ou eventuais elementos fornecidos pela fuga para a Turquia no final de 2006 do antigo vice-ministro da Defesa de Teerão Ali Reza Asgari – que no entanto colaboraria com a espionagem turca desde meados dos anos 90 – a revisão empreendida pelos serviços de informação norte-americanos é demasiado radical e abrupta para não ter sido motivada por considerações políticas que levaram a encarar com novos olhos os dados disponíveis.

                     Uma bomba a prazo e uma guerra suspensa

   Desde que Robert Gates substituiu no ano passado Donald Rumsfeld no Pentágono que se faziam ouvir os comentários públicos das chefias das forças armadas contra a opção de um ataque militar favorecida por políticos como o vice-presidente Dick Cheney.

   A opção pelo reforço de sanções económicas e financeiras e a negociação diplomática encontrou, assim, a sua consagração na nova Estimativa.

   Agora admite-se a possibilidade de uma “combinação de ameaças de escrutínio e pressão internacionais acrescidas, a par de oportunidades para o Irão alcançar os seus objectivos de segurança, prestígio e influência regional poderem, caso os líderes de Teerão as considerem credíveis” levar à manutenção da actual suspensão do programa nuclear.

   A reorientação proposta pela Estimativa Nacional de Segurança exclui, portanto, salvo crise inopinada, um ataque militar.

   Toda a política regional norte-americana, marcada pela contenção do Irão, terá de ser reavaliada e novas dificuldades vão surgir para levar o Conselho de Segurança da ONU a adoptar sanções mais gravosas contra Teerão apesar de serem justificadas pelo programa em curso de enriquecimento de urânio à revelia da Agência Internacional de Energia Atómica.

   Israel mantém oficialmente a sua estimativa de que Teerão alcançará uma capacidade militar nuclear em 2009/2010, mas perdeu qualquer cobertura política de Washington para lançar um ataque ao Irão.

   O ministro da Defesa Ehud Barack admitiu, após a divulgação da Estimativa norte-americana, que em meados de 2003 Teerão poderá ter suspendido temporariamente o seu programa clandestino, mas apenas para o retomar mais tarde através de meios difíceis de avaliar pelos serviços de espionagem de Washington, mas, aparentemente, identificados por Israel.

   Por mais certa que seja a afirmação de Barack de que as avaliações dos serviços de informações, designadamente norte-americanos, decorrem “num clima de grande incerteza”, certo é que a questão nuclear iraniana, a bomba a prazo, passou já para as mãos do sucessor ou da sucessora de Bush na Casa Branca.

Jornal de Negócios
06 Dezembro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=307155

Tudo se desmorona

Hassan Nasrallah, Líder Hizballah


   Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, denunciando o embargo europeu ao enclave, reconhecido apenas por Ancara e o Arzebeijão, já comandos turcos faziam missões de reconhecimento nas montanhas Kandil, no Curdistão iraquiano.

   Ancara, em pleno braço de ferro com Bruxelas sobre o estatuto de Chipre, ameaça desencadear uma ofensiva contra as bases dos guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em retaliação pelos ataques que os separatistas curdos têm vindo a lançar a partir do norte do Iraque.

   A Turquia denuncia, ainda, a complacência do governo do Iraque ao permitir a abertura de centros de propaganda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em Kirkuk e Bagdade e exorta a União Europeia, os Estados Unidos e a NATO a apoiarem uma acção militar contra uma organização tida por terrorista nas capitais ocidentais.

   Paralelamente, a Turquia negocia a sua eventual participação numa força multinacional para o Líbano graças às boas relações que mantém com Israel e ao seu estatuto de membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica.

   A ameaça de intervenção militar turca - que deve evocar em Washington más recordações por via da recusa de Ancara em permitir a abertura de uma frente norte contra Saddam Hussein na campanha militar de 2003 - junta-se à vaga de atentados terroristas que nos últimos dois meses têm vindo a abalar Kirkuk, a capital petrolífera do norte do Iraque, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   O plano de reconciliação nacional do primeiro-ministro iraquiano Nuri al Malik revela-se, por sua vez, um fracasso e o Pentágono viu-se obrigado a transferir 3 200 homens de Mosul, no norte do país, para Bagdade num esforço para estancar a violência entre sunitas e xiitas na capital.

   Perigam os planos de retirada gradual do contingente norte-americano ante a persistência da insurreição nas províncias de maioria sunita, enquanto Londres e Washington se resignam à crescente afirmação das milícias xiitas no sul do Iraque, temendo a destabilização do Curdistão iraquiano como a machadada final na periclitante unidade do estado iraquiano.

   Totalmente ignaros face às realidades do Médio Oriente políticos norte-americanos, como o presidente do Partido Democrático Howard Dean, acabam a denunciar Nuri al Malik como anti-semita pelo facto do primeiro-ministro xiita recusar denunciar o terrorismo do Hizballah e acusar Israel de crimes de guerra no Líbano.

                            Um mistério dentro de um enigma

   Condoleezza Rice e seus assessores perderam-se, entretanto, na quimera da mais estranha das campanhas militares israelitas dando cobertura política a uma ofensiva que, alegadamente, propiciaria um golpe devastador contra um aliado regional do eixo maligno sírio-iraniano.

   Em boa verdade, o ataque ao Líbano revelou-se mais incoerente do que a investida israelita de 1956 contra o Suez, apoiada por Londres e Paris, e menos determinado do que as invasões de 1978 e 1982 para extirpar os guerrilheiros palestinianos.

   Por razões enigmáticas, mas em que o amargo de duas décadas de intervenção directa Líbano pesou muito, o Estado-Maior de Telavive optou por uma campanha de bombardeamentos aéreos, sem a correlativa ofensiva terrestre, com o objectivo inicial de escorraçar a componente guerrilheira - dotada de arsenais de mísseis subestimados - de um movimento islamita fortemente implantado nas comunidades xiitas do sul do Líbano.

   A ofensiva militar israelita falhou em toda a linha, reforçando a posição política do Hizballah. Uma acção de contra-guerrilha com ocupação territorial do sul do Líbano implicava aceitar baixas consideráveis por parte de Israel e obrigava a uma ocupação prolongada para a qual não existiam garantias diplomáticas.

   O objectivo de isolar o Hizballah das demais forças políticas libanesas era necessariamente incompatível com a devastação do país. Nada resultou e Telavive entrega-se, agora, à inaudita negociação sobre a eventual presença de forças multinacionais no sul do Líbano para garantia de uma zona desmilitarizada a prazo.

   A investida terrestre à terceira semana de guerra já só serve para delimitar território que venha eventualmente a ser ocupado por uma força militar internacional.

   O corolário político é, ainda, mais gravoso.

   A capacidade de dissuasão de Israel falhou: nem degradou significativamente a capacidade de flagelação do Hizballah, nem concretizou uma ocupação territorial para erradicar focos de guerrilha.

   O simples facto de o Hizballah ter resistido à ofensiva e continuar a flagelar Israel com os seus mísseis é motivo suficiente para Hassan Nasrallah reivindicar vitória.

   Não há político em Israel que não compreenda as implicações assustadoras do fracasso. Depois das Intifadas, após a vaga islamita, Israel mostrou-se incapaz de aplacar pela força os movimentos que põem em causa a sua existência como estado, ora as fronteiras impostas nas guerras de 1967 e 1973.

   Retiradas unilaterais ficam assim fora de questão sem acordos políticos com parceiros negociais reconhecidos internacionalmente. É um beco sem saída e, portanto, só resta a Telavive contar com a ameaça nuclear iraniana para recuperar margem de manobra diplomática.

                                    Trunfos de Teerão


  Ora, se houve potência regional capaz de capitalizar com a crise libanesa foi, precisamente, o Irão.

  Viu desfazer-se a inicial convergência dos estados sunitas na condenação do aventureirismo do Hizballah, cavalgou a vaga de repulsa anti-americana pelo apoio à ofensiva israelita e guardou-se para o confronto de Agosto.

  Tudo somado estamos perante um impasse muito similar ao criado pela Coreia do Norte, mas, enquanto Pyongyang prosseguiu um programa nuclear militar clandestino num contexto de escassez extrema de recursos e por exclusiva estratégia de unificação nacional sob a tutela do confucionismo-estalinista da dinastia de Kim Il Sung, o Irão optou, na senda do Xá Pahlevi, por dotar-se de capacidades de dissuasão, ou ofensivas, capazes de garantirem a sua hegemonia regional.

   Teerão guarda os trunfos de influência entre os xiitas do Iraque, apesar das reticências de Ali al Sistani, o principal ayatollah iraquiano, mas, sobretudo, joga com as dissenções entre as potências do Conselho de Segurança da ONU para ganhar tempo para o seu programa nuclear.

   Quando, a 22 de Agosto, Teerão, a meio termo das negociações sobre a crise libanesa, rejeitar as injunções da ONU e anunciar a prossecução do seu programa nuclear, cavará um fosso entre a Rússia, a China e os demais estados do Conselho de Segurança.

  Após as primeiras sanções, interditando designadamente transferências de tecnologia com possível uso militar, dificilmente haverá consenso para adoptar medidas que degradem sensivelmente a economia iraniana.

   Então, desfeita a quimera de uma vaga de democratização no Médio Oriente que a intervenção no Iraque alegadamente propiciaria, Washington terá de ponderar seriamente a possibilidade de um ataque militar ao Irão.


Jornal de Negócios
02 Agosto 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=280221