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domingo, 9 de setembro de 2012

Um presidente desconcertante e dois chefes de governo equivocados

 Bush e John Howard
                                                    Forum APEC, Hanói, 18 Novembro 2006


    A vontade de "êxito instantâneo" é, afinal, uma ilusão nefasta, o Iraque uma "tarefa morosa" e difícil, mas o que conta é a determinação porque o triunfo é possível a menos que se opte pela retirada, tal a lição que, trinta e um anos após a queda de Saigão, George W. Bush diz ter retirado da guerra do Vietname ao compará-la com a actual situação em terras de Mesopotâmia.

   À desconcertante tirada de Bush na presença do seu aliado australiano John Howard, no primeiro dia de visita a Hanói, veio juntar-se a admissão por Tony Blair de que a intervenção no Iraque foi "um desastre", mas não por erros de planeamento ou devido a qualquer erro estratégico.

   Mais articulado do que o presidente norte-americano, o chefe de governo britânico culpava "as dificuldades" por motivo da violência desencadeada pela Al Qaeda e os insurrectos sunitas, por um lado, e pelas milícias xiitas apoiadas pelo Irão, por outro, contra a vontade de paz da maioria dos iraquianos.

    Determinado a manter tropas no Iraque em apoio do governo de Bagdade, Blair na sua entrevista ao canal inglês da Al Jazeera, concluiu que a dificuldade da situação residia na acção dos mesmos "elementos estrangeiros" que alimentam o extremismo global e, consequentemente, só uma estratégia de pacificação abarcando todo o Médio Oriente e o Afeganistão poderá conter a ameaça de uma corrente minoritária islamita "perversa e aberrante".

                             Blair em busca de crédito e parceiros

   A "estratégia global" de Blair passa por promover "forças moderadas" e oferecer uma parceria para "uma solução construtiva" à Síria e ao Irão a partir do momento em que designadamente Teerão abdique do apoio ao terrorismo e cumpra as suas obrigações internacionais desistindo do programa militar nuclear.

   A recusa de cooperação por parte de sírios e iranianos implica o isolamento internacional dos dois regimes, na visão do chefe de governo britânico.
Ignorando as advertências de Blair, Damasco e Teerão rapidamente tomaram a iniciativa diplomática para alargarem a sua margem de manobra no conflito sem esperarem por eventuais convites para negociações.

   A Síria restabelecia as relações diplomáticas com Bagdade cortadas em 1982 e o presidente Ahmanidejad convidada os homólogos iraquiano e sírio para uma cimeira em Teerão.

   Confrontada com as manchetes sobre o "desastre iraquiano", Downing Street viu-se obrigada a rectificar o sentido das declarações de Blair, precisando que o derrube de Saddam Hussein e a formação de um governo democraticamente eleito em Bagdade só podiam considerar-se como evoluções positivas e que o primeiro-ministro se limitara a constatar "as dificuldades existentes".

   As precisões e rectificações dificilmente terão elevado o crédito político de Blair nas capitais do Médio Oriente que, para além do caos da invasão do Iraque, ainda estão longe de lhe perdoar o apoio concedido a Israel quando Londres se recusou a apelar a um cessar-fogo imediato, em Julho, na fase inicial do ataque ao Líbano.

   De volta a Hanói, Condoleezza Rice, contagiada pelo desconcerto do seu presidente, afirmava, na mesma altura em que Blair se esquivava à apreciação desastrosa, que os iraquianos tinham boas lições a receber dos vietnamitas.

   No entender da secretária de estado os iraquianos devem preservar a sua unidade estatal e tal como os vietnamitas assumiram "escolhas difíceis" sobre os seus "conflitos internos" (eufemismo para a guerra contra a França entre 1945 e 1954 e para o posterior conflito com os Estados Unidos e os seus aliados anticomunistas) e abriram a economia ao exterior (a partir de 1986) também os povos da Mesopotâmia se seguirem o exemplo dos comunistas de Hanói terão "um futuro de paz e oportunidades".

   À encomendação da "escolha difícil" da guerra sem quartel dos líderes comunistas do Vietname e das suas reformas económicas após anos de catástrofe por parte da antiga professor universitária de Stanford, seguiu-se a vez do chefe do governo australiano que veio negar a ocorrência qualquer desastre no Iraque.

   Para John Howard é inverosímil falar em desastre pois a intervenção revelou-se apenas "mais difícil do que o esperado" e duas eleições, um referendo e o julgamento de Saddam são prova do "heroísmo" e "perseverança" dos iraquianos.

   Num fim-de-semana em que a violência fazia mais de 150 mortos no Iraque as declarações de Bush, Blair e Howard parecem, pois, revelar incapacidade em reconhecer que a situação se caracteriza pela proliferação de poderes rivais locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como pela multiplicação de bandos criminosos armados, em consequência da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein, e que nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Constatar que o exército e as forças de segurança são permeáveis à acção de milícias desafectas ao governo central e reconhecer o fracasso do executivo de Bagdade em assegurar o mínimo de consenso entre partidos xiitas, curdos e sunitas, além de se mostrar incapaz de prover condições de segurança e serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento, é acto que tão pouco parece estar ao alcance dos actuais responsáveis em Washington, Londres e Camberra.
      
                            A pergunta que faziam a Baker

   O paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, condiciona qualquer iniciativa política e acabou por deixar os três políticos implicados no fracasso à espera das propostas que a comissão Baker-Hamilton venha a aventar para puderem alterar o rumo.

   Henry Kissinger já opinou junto da comissão bipartidária que uma retirada precipitada destabilizaria por muito tempo a região, admitindo, no entanto, que o governo de Bagdade não conseguirá impor a curto prazo a sua autoridade a todo o país e controlar a violência sectária.

   Para o velho estratego só uma grande conferência internacional, com participação obrigatória da Síria e do Irão poderá definir compromissos que permitam ultrapassar o impasse.

   Da parte de Bush e de Howard, o compromisso para com um calendário de retirada faseada parece, no entanto, ser a atitude mais previsível ante as recomendações que o painel de notáveis e o grupo de análise do Pentágono venham a apresentar.

   A opção de reforço do actual contingente militar é, notoriamente, de difícil execução, de valia duvidosa e praticamente impossível de aceitar pelas opiniões públicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

   Já Blair acalenta algumas esperanças de apoio à sua vaga "estratégia global" e à possível convocação de uma grande cimeira internacional à semelhança da Conferência de Madrid orquestrada por James Baker em Outubro de 1991 com a anuência de Gorbachev no rescaldo da Operação Escudo do Deserto que obrigou Saddam a retirar do Kuwait e garantiu a autonomia das regiões curdas na zona de exclusão no norte do Iraque.

   Antes do mais, o presidente desconcertante e os dois primeiros-ministros equivocados terão, contudo, de atentar nas razões que levam James Baker a contar para quem o quer ouvir como, depois de anos passados a ser constantemente interrogado sobre as razões que o levaram a apoiar a decisão de Bush pai de não derrubar Saddam Hussein em 1991, acabou por chegar uma altura em que já ninguém via necessidade de lhe perguntar tal coisa.

   Já ninguém pergunta ao antigo secretário de Estado o porquê de tão controversa decisão que tanto amargou aos xiitas.

   Ninguém o interpela sobre tal opção desde o final de 2003, meio ano depois de Bush filho ter proclamado o "fim de operações militares significativas" no Iraque a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln com a faixa em fundo de "Missão Cumprida", quando os crescentes ataques de insurrectos e terroristas sunitas e xiitas vieram juntar-se ao caos dos primeiros meses da ocupação.



Jornal de Negócios
22 Novembro 2006

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domingo, 2 de setembro de 2012

A União Europeia como número telefónico


 François-Xavier Ortoli
                         Presidente Comissão Europeia 1973-1977

   Nem sequer ter o número de telefone de quem mandasse, para ligar a impor as suas razões quando lhe diziam que a Comunidade Económica Europeia seria uma entidade política a ter em conta, era coisa que exasperava Henry Kissinger nos seus tempos como secretário de Estado de Richard Nixon e Gerald Ford.

   Ficou desses anos, entre os idos de 1973 e 1977, a sempre invocada interrogação sobre qual o número telefónico da Europa tão apócrifa que, por sinal, o próprio Kissinger dizia nem se lembrar ao certo de ter dito tal coisa.

  Kissinger veio a admitir, faz dois anos, que a conturbada questão telefónica ainda que apócrifa acabara afinal por se revelar uma tirada reveladora doutros tempos em que a Comissão Europeia pesava pouco e era presidida pelo esquecido gaulista corso François-Xavier Ortoli.

  Os 27 eram então 9 Estados longe das coesões que Jacques Delors viria a promover potencializando o eixo Paris-Berlim.

Questões de peso
   Agora, com o Tratado de Lisboa, outra secretária de Estado em Washington ainda não encontrará sequer um código de telefone europeu (apenas 27 indicativos), mas terá na agenda os números, além dos de chefes de Estado e governo de Londres a Roma, do presidente da Comissão, doutro presidente do Conselho Europeu, do Alto Representante para a Política Externa, que também será vice-presidente da Comisão Europeia, e, ainda, do presidente do Parlamento Europeu.

   Tanto número é um dos argumentos para que o presidente do Conselho seja, efectivamente, uma personalidade revelante, mas os equívocos equilíbrios do novo arranjo institucional vão ser postos à prova com as nomeação de políticos que, convém não esquecê-lo, terão em conta desde logo possíveis reconduções pela própria natureza das relações de poder.

   Tony Blair, com o argumento impecável do seu ex-protegido e actual chefe da diplomacia britânica David Milliband de que é homem com prestígio suficiente para ser ouvido em Washington, Moscovo ou Pequim - apesar do Iraque e do improfícuo interregno como mediador internacional no vespeiro israelo-palestiniano - surge como um candidato irrevogável aos dois anos e meio de presidente da Comissão.

   Pouco consensual, o ex-primeiro-ministro de Londres é rejeitado pela própria oposição conservadora britânica, que com toda a probabilidade chegará ao poder no próximo ano, e em alternativa um democrata-cristão como o holandês Jan Peter Balkenende ou um social-democrata como o finlandês Paavo Lipponen são hipóteses a considerar.

Um exercício de equilibrismo
  Todos os eventuais candidatos serão avaliados pelos equilíbrios a definir entre famílias políticas e blocos regionais o que exclui à partida um presidente proveniente de um país do sul da Europa.

  A nomeação de uma mulher apresentaria a vantagem de reforçar a vertente de representatividade democrática, conforme alega a diplomacia sueca, mas, tirando a ex-presidente irlandesa Mary Robison, nenhuma personalidade parece ter condições políticas para ocupar o cargo.

  A liberal sueca Cecilia Malmström ou a ex-presidente da Letónia Vaira Vike-Freiberga apresentam, no entanto, credenciais suficientes para chefiar a diplomacia europeia ainda que o facto do dinamarquês Anders Rasmussen liderar a NATO possa servir de objecção a candidaturas nórdicas como seria ainda o caso doutro finlandês, o actual comissário para o alargamento Olli Rehn.

  Na óptica, defendida pelo governo polaco, por exemplo, uma interpretação minimalista das possíveis competências e, sobretudo, capacidade de iniciativa do presidente do Conselho, obriga a um esforço de consensos sem liderança de destaque, passe a contradição dos termos, que levaria à opção por personalidades como o burocrático e mui-federalista primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker, de centro-direita.

  Um democrata-cristão austríaco, Wolfang Schüssel, é outra solução em carteira para os adeptos de uma gestão cautelosa e arredia a exuberâncias políticas, enquanto Estados como a Holanda, Bélgica e Luxemburgo propõem um presidente que seja oriundo de um país que integre simultaneamente a Zona Euro e o espaço Schengen, excluindo expressamente a candidatura de Blair.

  Para pesos-médios de Portugal à Polónia e outros países que eventualmente entre os 27 se mostrem mais preocupados com equilíbrios entre presidente do Conselho, Alto Representante para a Política Externa e Segurança Comum, além do relacionamento complexo com a Comissão Barroso, a negociação em curso está demasiado inquinada.

  Há demasiadas condicionantes a ter em conta e a nova arquitectura institucional desfavorece os países mais pequenos.

  Independentemente das capacidades de negociação e persuasão dos futuros presidente do Conselho e chefe da diplomacia de Bruxelas, todos têm presente que serão as pessoas escolhidos quem dará efectivamente corpo e peso político aos novos cargos.

  São dois cargos que obrigam a pensar uma estratégia única que tem a ver com a imagem e capacidade de intervenção externa da União Europeia e simultaneamente com a coesão e equilíbrios institucionais.

  Líderes fracos ou protagonismo excessivo arriscam deriva ou confronto e arriscam acabar mal.

Jornal de Negócios
29 Outubro 2009

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