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domingo, 9 de setembro de 2012

Um descalabro estratégico no Líbano


 
 
   Eliminar o Hizballah como força militar com capacidade para atacar Israel é o objectivo imediato de Telavive na frente de guerra libanesa, mas as implicações políticas obrigam a rever os pressupostos sobre a segurança do estado judaico.

   A oportunidade para Telavive atacar o Hizballah surgiu quando o líder xiita Hassan Nasrallah abriu as hostilidades numa tentativa de criar uma frente alargada de luta contra Israel - cavalgando a onda de confrontos em Gaza - e de paralisar as veleidades anti-sírias do governo de Beirute que passavam pelo desarmamento das milícias xiitas.

   O patrocínio sírio - com Bashar Al Assad enfraquecido pela retirada forçada do Líbano no ano passado e sob inquirição da ONU no assassínio do chefe de governo libanês Rafic Hariri - e o apoio de Teerão, grata por mais uma carta negocial na questão nuclear, bastaram a Nasrallah para se lançar ao ataque.

   O Hizballah precisava, igualmente, de reforçar a sua posição face às crescentes críticas no governo de coligação de Beirute à recusa das milícias xiitas em desarmarem em contravenção à Resolução 1559 adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2004.

   Apesar de o Hizballah ter conseguido fazer reconhecer ainda no início deste ano o seu estatuto de «movimento de resistência legítimo» por parte do primeiro-ministro Fouad Siniora, a questão do desarmamento das milícias xiitas (mas, também, dos grupos palestinianos sunitas) e o alargamento do controlo governamental à totalidade do país (designadamente à zona fronteiriça com Israel) continuavam a ser levantadas pelos partidos druzos, sunitas e cristãos.

   A cooperação das forças de segurança de Beirute com o FBI no desmantelamento de uma célula terrorista alegadamente implicada no planeamento de um ataque terrorista a um túnel ferroviário entre Nova Jérsia e Manhattan (anunciado no início deste mês, mas resultando de uma operação que decorria desde o principio do ano) foi mais um sinal de que, a prazo, a coligação anti-síria poderia fazer perigar o estatuto especial reclamado pelo Hizballah.

   Nasrallah precisava de avançar e fazer valer as suas credenciais de único líder árabe que alguma vez conseguiu fazer frente a Israel, obrigando-a a retirar em 2000 e a aceitar quatro anos depois a libertação de 30 presos libaneses e 420 detidos palestinianos a troco dos cadáveres de três soldados israelitas e de um empresário judeu capturado no Líbano, além da entrega de mapas dos campos de minas estabelecidos por exército de Israel no sul do país.

   Libertar os presos árabes das cadeias israelitas e reforçar a aliança com o Hamas - que data de Dezembro de 1992 quando o Hizballah tomou a seu cargo a segurança dos 414 militantes islamitas palestinianos deportados por Israel para o sul do Líbano - foram os objectivos proclamados por Nasrallah que, assim, tentava, uma vez mais, transcender as limitações derivadas do carácter minoritário xiita do seu movimento.

                                   A impossível solução militar

   A reacção israelita, previsível no caso de um governo de coligação liderado por políticos sem credenciais militares e apostados num plano controverso de redefinição unilateral de fronteiras, acarretou uma escalada militar tanto mais irremediável quanto erros e insuficiências de informação e análise sobre as capacidades do Hizballah se fizeram sentir.

   O alegado «aventureirismo» do Hizballah, condenado pelas potências árabes sunitas, como a Arábia Saudita, tementes de mais uma derrocada dos frágeis equilíbrios políticos e comunitários que desde o início dos anos 90 poupam o Líbano à guerra civil, é justificado pela autoconfiança de uma força política que ganhou respeito para a desprezada comunidade xiita e que se orgulha de ter expulso contingentes norte-americanos e franceses em atentados terroristas nos anos oitenta e de bater-se vitoriosamente contra Israel.

   Desde os anos 80, com o patrocínio iraniano e, posteriormente, sírio, o Hizballah conseguiu transformar um movimento guerrilheiro num partido político armado e tutelar uma extensa rede assistencial e educativa, que tornam impossível o seu mero esmagamento militar, à semelhança do que se passa com o Hamas em Gaza.

   O sério risco de desagregação do regime de Bashar Al Assad - da perda do poder por parte da minoria alauíta e do previsível ajuste de contas dos Irmãos Muçulmanos sunitas em retaliação pelo massacre de Hama, em 1982 - garante ao Hizballah suficiente cobertura política da Síria que só conta no Líbano com o apoio de forças xiitas.

   Uma vez mais ao lado de Teerão, Damasco pode, por sua vez, contar com o Hizballah para recuperar capacidade negocial e surgir, outra vez, como mediador de uma crise libanesa e israelo-libanesa.

   A curto prazo o Hizballah sairá militarmente enfraquecido pela violência da retaliação militar israelita, mas, como exemplares islamitas, os militantes xiitas ganharão, uma vez mais, prestígio ante os sunitas palestinianos pela sua intransigência frente ao inimigo sionista e tornarão inviável qualquer tentativa de consenso político no Líbano dado que hegemonizam a comunidade xiita que representa cerca de 40 por cento dos quatro milhões de habitantes do país.

   Nenhum poder no Líbano será capaz, contra a Síria e a comunidade xiita, de desarmar as milícias do Hizballah e, reconhecendo esta realidade, as sugestões diplomáticas de Israel passam essencialmente pela exigência de retirada dos guerrilheiros da fronteira sul, contando com a eventual capacidade dos cerca de 60 mil homens do exército libanês para controlarem a região.

   A hipótese de reforço da UNIFIL, instituída em 1978, poderá criar uma zona desmilitarizada na fronteira com Israel, mas a presença de um contingente alargado da ONU com poderes para retaliar a eventuais ataques, só fará sentido se servir como etapa transitória para o exército libanês tomar controlo da região.

   Os equilíbrios políticos no Líbano tornar-se-ão, no entanto, ainda mais frágeis quer o Hizballah seja isolado e afastado da coligação governamental, quer reforce o seu peso após o cessar-fogo.

   O estado libanês e o seu exército correm sério risco de desagregação e o retorno dos confrontos comunitários poderá condenar o país ao papel tradicional de palco de conflito das potências regionais por peões interpostos.

                               O fim das retiradas unilaterais

   O retorno da questão libanesa e, por extensão, dos termos de acomodação com a Síria e retirados dos Montes Golã, obriga Israel a representar a sua estratégia regional.

   O plano de retirada unilateral da Cisjordânia, mesmo limitado a áreas onde residem 80 mil dos 240 mil colonos judeus, deixou de ter condições para avançar. O confronto em Gaza entre o Hamas e a Fatah e a impossibilidade de evitar ataques a partir do enclave já tinham posto em causa a ideia de que seria possível isolar Israel dos territórios palestinianos.

   Ainda assim, Ehud Olmert e os aliados trabalhistas pensavam ser possível avançar para uma segunda retirada cujos termos passavam por controlar militarmente o vale do Jordão de forma a isolar a Cisjordânia do reino haxemita e anexar os territórios onde se situam os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de outros núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron.

   A lógica de segurança implicava que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   Tornou-se claro para os estrategos de Telavive que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, podem oferecer garantias de segurança a Israel.

   Todas as tentativas nesse sentido falharam nos anos 80 e 90 no Líbano (apoio à Falange cristã maronita, criação do Exército do Sul do Líbano) e nunca tiveram qualquer hipótese de exequibilidade nos territórios palestinianos.

   A degradação da situação em Gaza e a ascensão do Hamas retiraram qualquer fundamento à ilusão de que seria possível isolar os territórios e reduzir o recurso à mão-de-obra palestiniana, sem que a crise política, económica e social transbordasse em actos de violência além das linhas de fronteira impostas por Israel.

   Fracassou, assim, o plano de Ariel Sharon de definir unilateralmente fronteiras mediante a neutralização militar e o isolamento diplomático do inimigo palestiniano.

   Tal como o Hizballah, também os militantes palestinianos apresentam o risco de em devido tempo virem a armar-se de mísseis com alcance suficiente para bombardear os principais centros urbanos de Israel.

   A garantia defensiva de profundidade estratégica mínima não faz sentido para o estado judaico ante inimigos determinados e apostados numa guerra de atrito de baixa intensidade.

   O Hizballah, expressão islamita das reivindicações xiitas no Líbano, e o Hamas, alternativa islamita sunita ao fracasso do nacionalismo laico palestiniano, representam uma cultura de violência e de rejeição ideológica que Israel não pode extirpar por recurso exclusivo à força, como fez no passado.

                                     Retomar as negociações

   Outros elementos que guiavam o pensamento estratégico de Sharon permanecem válidos como sejam a manutenção de uma capacidade de dissuasão e projecção de força superior a todos os estados vizinhos, incluindo a componente nuclear, a coesão étnica e a preservação da aliança com os Estados Unidos, mas todas as óbvias insuficiências da política do mentor de Olmert são, também, mais claras do nunca.

   Nenhum projecto de preservação do estado judaico num contexto regional essencialmente hostil pode assentar na recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, e ignorar que a manutenção do carácter judaico e democrático do estado obriga a integrar com direito plenos a minoria árabe, tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala.

   Um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia humilhado e ofendido pela recusa de concessões na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados nunca será consolo nem para um povo que se crê espoliado, nem para os judeus que se sentem ameaçados.

   A reabertura da frente libanesa veio mostrar que a questão palestiniana condiciona todo o contexto regional e obriga Israel, após afastar as ameaças terroristas mais imediatas, a retomar negociações e avançar com concessões políticas que possam vir a permitir a pouco e pouco a emergência de forças alternativas aos movimentos islamistas e rejeicionistas apostados no recurso à violência.



Jornal de Negócios
19 Julho 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=279516

Tudo se desmorona

Hassan Nasrallah, Líder Hizballah


   Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, denunciando o embargo europeu ao enclave, reconhecido apenas por Ancara e o Arzebeijão, já comandos turcos faziam missões de reconhecimento nas montanhas Kandil, no Curdistão iraquiano.

   Ancara, em pleno braço de ferro com Bruxelas sobre o estatuto de Chipre, ameaça desencadear uma ofensiva contra as bases dos guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em retaliação pelos ataques que os separatistas curdos têm vindo a lançar a partir do norte do Iraque.

   A Turquia denuncia, ainda, a complacência do governo do Iraque ao permitir a abertura de centros de propaganda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em Kirkuk e Bagdade e exorta a União Europeia, os Estados Unidos e a NATO a apoiarem uma acção militar contra uma organização tida por terrorista nas capitais ocidentais.

   Paralelamente, a Turquia negocia a sua eventual participação numa força multinacional para o Líbano graças às boas relações que mantém com Israel e ao seu estatuto de membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica.

   A ameaça de intervenção militar turca - que deve evocar em Washington más recordações por via da recusa de Ancara em permitir a abertura de uma frente norte contra Saddam Hussein na campanha militar de 2003 - junta-se à vaga de atentados terroristas que nos últimos dois meses têm vindo a abalar Kirkuk, a capital petrolífera do norte do Iraque, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   O plano de reconciliação nacional do primeiro-ministro iraquiano Nuri al Malik revela-se, por sua vez, um fracasso e o Pentágono viu-se obrigado a transferir 3 200 homens de Mosul, no norte do país, para Bagdade num esforço para estancar a violência entre sunitas e xiitas na capital.

   Perigam os planos de retirada gradual do contingente norte-americano ante a persistência da insurreição nas províncias de maioria sunita, enquanto Londres e Washington se resignam à crescente afirmação das milícias xiitas no sul do Iraque, temendo a destabilização do Curdistão iraquiano como a machadada final na periclitante unidade do estado iraquiano.

   Totalmente ignaros face às realidades do Médio Oriente políticos norte-americanos, como o presidente do Partido Democrático Howard Dean, acabam a denunciar Nuri al Malik como anti-semita pelo facto do primeiro-ministro xiita recusar denunciar o terrorismo do Hizballah e acusar Israel de crimes de guerra no Líbano.

                            Um mistério dentro de um enigma

   Condoleezza Rice e seus assessores perderam-se, entretanto, na quimera da mais estranha das campanhas militares israelitas dando cobertura política a uma ofensiva que, alegadamente, propiciaria um golpe devastador contra um aliado regional do eixo maligno sírio-iraniano.

   Em boa verdade, o ataque ao Líbano revelou-se mais incoerente do que a investida israelita de 1956 contra o Suez, apoiada por Londres e Paris, e menos determinado do que as invasões de 1978 e 1982 para extirpar os guerrilheiros palestinianos.

   Por razões enigmáticas, mas em que o amargo de duas décadas de intervenção directa Líbano pesou muito, o Estado-Maior de Telavive optou por uma campanha de bombardeamentos aéreos, sem a correlativa ofensiva terrestre, com o objectivo inicial de escorraçar a componente guerrilheira - dotada de arsenais de mísseis subestimados - de um movimento islamita fortemente implantado nas comunidades xiitas do sul do Líbano.

   A ofensiva militar israelita falhou em toda a linha, reforçando a posição política do Hizballah. Uma acção de contra-guerrilha com ocupação territorial do sul do Líbano implicava aceitar baixas consideráveis por parte de Israel e obrigava a uma ocupação prolongada para a qual não existiam garantias diplomáticas.

   O objectivo de isolar o Hizballah das demais forças políticas libanesas era necessariamente incompatível com a devastação do país. Nada resultou e Telavive entrega-se, agora, à inaudita negociação sobre a eventual presença de forças multinacionais no sul do Líbano para garantia de uma zona desmilitarizada a prazo.

   A investida terrestre à terceira semana de guerra já só serve para delimitar território que venha eventualmente a ser ocupado por uma força militar internacional.

   O corolário político é, ainda, mais gravoso.

   A capacidade de dissuasão de Israel falhou: nem degradou significativamente a capacidade de flagelação do Hizballah, nem concretizou uma ocupação territorial para erradicar focos de guerrilha.

   O simples facto de o Hizballah ter resistido à ofensiva e continuar a flagelar Israel com os seus mísseis é motivo suficiente para Hassan Nasrallah reivindicar vitória.

   Não há político em Israel que não compreenda as implicações assustadoras do fracasso. Depois das Intifadas, após a vaga islamita, Israel mostrou-se incapaz de aplacar pela força os movimentos que põem em causa a sua existência como estado, ora as fronteiras impostas nas guerras de 1967 e 1973.

   Retiradas unilaterais ficam assim fora de questão sem acordos políticos com parceiros negociais reconhecidos internacionalmente. É um beco sem saída e, portanto, só resta a Telavive contar com a ameaça nuclear iraniana para recuperar margem de manobra diplomática.

                                    Trunfos de Teerão


  Ora, se houve potência regional capaz de capitalizar com a crise libanesa foi, precisamente, o Irão.

  Viu desfazer-se a inicial convergência dos estados sunitas na condenação do aventureirismo do Hizballah, cavalgou a vaga de repulsa anti-americana pelo apoio à ofensiva israelita e guardou-se para o confronto de Agosto.

  Tudo somado estamos perante um impasse muito similar ao criado pela Coreia do Norte, mas, enquanto Pyongyang prosseguiu um programa nuclear militar clandestino num contexto de escassez extrema de recursos e por exclusiva estratégia de unificação nacional sob a tutela do confucionismo-estalinista da dinastia de Kim Il Sung, o Irão optou, na senda do Xá Pahlevi, por dotar-se de capacidades de dissuasão, ou ofensivas, capazes de garantirem a sua hegemonia regional.

   Teerão guarda os trunfos de influência entre os xiitas do Iraque, apesar das reticências de Ali al Sistani, o principal ayatollah iraquiano, mas, sobretudo, joga com as dissenções entre as potências do Conselho de Segurança da ONU para ganhar tempo para o seu programa nuclear.

   Quando, a 22 de Agosto, Teerão, a meio termo das negociações sobre a crise libanesa, rejeitar as injunções da ONU e anunciar a prossecução do seu programa nuclear, cavará um fosso entre a Rússia, a China e os demais estados do Conselho de Segurança.

  Após as primeiras sanções, interditando designadamente transferências de tecnologia com possível uso militar, dificilmente haverá consenso para adoptar medidas que degradem sensivelmente a economia iraniana.

   Então, desfeita a quimera de uma vaga de democratização no Médio Oriente que a intervenção no Iraque alegadamente propiciaria, Washington terá de ponderar seriamente a possibilidade de um ataque militar ao Irão.


Jornal de Negócios
02 Agosto 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=280221

Do Líbano à desgraça



 
   Duas semanas depois do início da ofensiva israelita no Líbano é patente o fracasso de Telavive.

   Os bombardeamentos aéreos e incursões limitadas no terreno não conseguiram eliminar a ameaça militar do Hizballah, esgotou-se o prazo de cobertura diplomática e chegou o momento de negociar um cessar-fogo.

   O general da força aérea Dan Halutz, que desde a sua nomeação em Junho de 2005 para chefe do estado-maior general das forças armadas aguardava uma oportunidade para erradicar a ameaça dos mísseis do Hizballah, optou por uma guerra a meio gás sem mobilizar forças para uma investida rápida e massiva contra as posições das milícias xiitas no sul do Líbano, no vale de Beeka e em Beirute.

   A má memória das invasões de 1978 e 1982 inibiu os estrategos israelitas que, desta feita, nem contavam com putativos aliados entre as facções libanesas, mas, ainda assim, jogaram na hipótese de isolamento político do Hezbollah, com a consequente degradação da capacidade de iniciativa militar das milícias.

   Seguras de si e dominadoras, para lembrar a controversa tirada de De Gaulle, as elites políticas e militares israelitas partiram do princípio de que a destruição de parte significativa das infra-estruturas libanesas seria mais do que suficiente para levar a maioria não xiita (cerca de 60 por cento da população) a contestar os custos da persistência do Hezbollah como força militar num estado liberto ainda há apenas um ano da tutela militar síria.

   Surpreendidas e ambíguas em relação à subestimação das capacidades das milícias xiitas, as forças armadas israelitas viram-se incapazes de ocupar sequer a faixa de território do sul do Líbano que se estende até ao rio Litani e de impor um tampão de segurança numa área cobrindo trinta quilómetros a norte da sua fronteira.

   Inconclusivas e perplexas, as últimas estimativas israelitas apontam para uma degradação importante das capacidades militares do Hizballah, mas, admitem, que seriam necessárias semanas para obliterar os arsenais das milícias xiitas - capazes de flagelar Israel a distâncias fora do alcance da actual ofensiva - e obviar ao seu reabastecimento por parte da Síria e do Irão.

   Em conclusão: Israel não eliminou a capacidade do Hizballah lançar mísseis contra o seu território, sofreu baixas significativas em confrontos directos com as milícias xiitas, hostilizou as demais comunidades libanesas, e ver-se-á obrigada a aceitar um cessar-fogo que fragilizará os delicados equilíbrios do Líbano conseguidos após o final da guerra civil em 1990 e reintegrará a Síria como parceiro negocial.

                                           Negociar mal

   Se o governo de coligação em Beirute de Fouad Siniora, de que o Hizballah faz parte, escapar a esta crise, a sua estratégia negocial irá obrigá-lo a retomar algumas exigências altamente penosas para Israel.

   Em primeiro lugar, o executivo de Beirute terá de concretizar uma troca de prisioneiros libaneses e palestinianos pelos soldados israelitas em poder do Hizballah.

   No topo da lista libanesa figurará Samir al Kantar. É o guerrilheiro da Frente Popular de Libertação da Palestina que, aos 17 anos, foi detido, em 1979, num ataque à cidade israelita de Nahariya que custou a vida a um polícia, um civil e uma criança israelitas. Condenado a 542 ano de prisão, este druzo é um dos três presos libaneses que Hassan Nasrallah jurou libertar no discurso de 25 de Maio último, Dia da Resistência e Libertação, que celebra a retirada israelita do sul do país há seis anos.

   A sua libertação, com a de detidos palestinianos, será celebrada como uma indubitável vitória pelo Hizballah, tão transcendente quanto a resistência que levou à retirada israelita do Líbano em 2000.

   Em segundo lugar, a coligação de Beirute proporá a retirada de Israel da região de Sheeba, os 25 quilómetros quadrados nos contrafortes dos montes Golan cuja soberania o Líbano reivindica, mas Telavive afirma integrarem território sírio que, por sinal, ocupa desde 1967.

   A questão de Sheeba é particularmente relevante pois sustenta o argumento aventado pelo primeiro-ministro Fouad Siniora para legitimar politicamente o desarmamento do Hizballah, retirando-lhe o estatuto de movimento de resistência à ocupação israelita.

   Neste momento, ainda antes sequer que sejam discutidas indemnizações pelos danos provocados pelos confrontos, a Síria surgirá como parceiro negocial, não só pelo seu estatuto como estado possidente dos Montes Golã ocupados na guerra de 1967, mas, também, como factor de estabilização do Líbano.

   A contrapartida à boa-vontade de Damasco em suspender os fornecimentos militares ao Hezbollah passará pelo pressuposto de evitar que as conclusões do inquérito da ONU acerca do assassinato de ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, em Fevereiro de 2005, impliquem sanções ao regime de Damasco que, além disso, poderá manifestar a sua disponibilidade para obstar a infiltrações terroristas no Iraque.

                                       Uma presença indesejada

   A partir do momento em que for invocada a aplicação da Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, adoptada em Setembro de 2004, que obriga ao desarmamento das milícias do Hezbollah, passar-se-á logicamente à discussão dos termos de outras resoluções - 242, de 1967, e 338, de 1973, que obrigam Israel a devolver os Montes Golã à Síria - e Damasco reentrará no jogo diplomático.

   O cessar-fogo, que fará de novo recair as atenções sobre a questão palestiniana, reforçará o papel político do Hezbollah, será visto por largas faixas das populações árabes, sunitas e xiitas, de que só o recurso à força obriga Israel a concessões e condicionará a actuação da força de interposição internacional.

   Um mandato da ONU para forças multinacionais visará impor a desmilitarização do sul do Líbano. Funcionará como um compasso de espera antes que o exército libanês (de maioria xiita, apesar da forte presença cristã nos postos de comando) imponha a soberania do estado e do governo de Beirute.

   Parte-se aqui do princípio etéreo de que o exército do Líbano é uma entidade alheia aos confrontos confessionais do país e ignora-se que as forças armadas sempre foram mantidas propositadamente fracas para evitar a sua instrumentalização pelas diversas facções políticas como ocorreu no passado.

   O desarmamento dos guerrilheiros do Hizballah, que terá de ser assumido pelo contingente estrangeiro, implica o sério risco das forças internacionais serem vistas como uma entidade ao serviço de Israel sobretudo se Telavive não ceder na questão de Sheeba.

   Basta lembrar os atentados ocorridos nos anos oitenta contra forças francesas e norte-americanas no Líbano para ponderar os riscos de uma presença militar internacional no sul do país sem que estejam reunidas as condições políticas para um acordo de paz formal entre Beirute e Telavive.

   Entretanto, dado que o Eixo do Mal sírio e iraniano, reentrou na negociação diplomática por via do conflito libanês, Teerão terá aqui uma dos seus grandes trunfos quando no fatídico dia 22 de Agosto anunciar formalmente a persecução do seu programa nuclear, advertindo que se retirará, se necessário, do Tratado de Não Proliferação Nuclear, a exemplo do que a Coreia do Norte fez em 2003.

Jornal de Negócios
26 Julho 2006

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Uma crise a doer


Beirute
Julho 2006


   Daqui por uma semana o barril de petróleo vai atingir preços inauditos.

   A recusa do Irão em acatar as advertências do Conselho de Segurança da ONU e o mais que provável anúncio subsequente da sua renúncia ao Tratado de Não Proliferação Nuclear irão juntar-se aos demais descalabros de Agosto.

   O arco de crises é vasto. Parte dos conflitos sanguinários em curso são aceites como eventos sem consequências estratégicas gravosas a curto prazo.

   A guerra civil do Sri Lanka e a crise genocidária do Darfur quadram-se nesta perspectiva. A investida islamita na Somália levanta problemas doutro tipo ao implicar a Etiópia e a Eritreia e, por acréscimo, o risco de novos focos terroristas no Corno de África.

   Outros confrontos ruinosos como a guerrilha do Delta do Níger e a instabilidade crónica do Congo são tidos como choques absorvíveis pelos mercados na ausência de qualquer hipótese próxima de regulação dos conflitos.

   Crises candentes como a miséria militarizada da Birmânia passam por questões adiadas até que o desmoronamento do regime venha a envolver os interesses directos da Índia, da China e, por extensão, a segurança da navegação no Estreito de Malaca.

   Caxemira, a turbulência paquistanesa e as sucessivas tentativas de assassinato do presidente Pervez Musharraf estão num limbo aceite como aposta desesperada no princípio de que Islamabade e Nova Deli não arriscarão uma escalada militar até às últimas consequências, apesar da virulência dos atentados terroristas na Índia.

   A estabilização falhada do Afeganistão conforma-se a um compasso de espera alimentado pela produção e tráfico de ópio e heroína. A Coreia do Norte continua, por sua vez, a ser assimilada a uma ameaça nuclear regional e excêntrica.

   Aceite uma trégua no Líbano, as consequências do fracasso militar e político israelita face a um movimento islamita com fortes apoios na comunidade xiita libanesa, demorarão a ser compreendidas.

   O descalabro estratégico de Telavive implica maiores dificuldades para as hipóteses negociais na questão palestiniana, reforça a ala negacionista do Hamas e reavive as possibilidades de um retomar das guerras comunitárias no Líbano.

  O Iraque, em plena guerra civil, surge, agora, sobretudo, como questão eleitoral nas eleições norte-americanas de Novembro que arriscam saldar-se pela perda do controlo republicano do Congresso.

   Aliados como a autocracia presidida por Hosni Mubarak no Egipto ou a composta incumbência integrista da Arábia Saudita quase que fazem desesperar do velho dito de Winston Churchill de que pior do que lutar com aliados só mesmo combater sem eles.

                                           A mão negra

  A mão negra do terrorista sérvio Gravilo Princip, cujo atentado de Saravejo, em Junho de 1914, foi pretexto da Primeira Grande Guerra, ecoa como um espectro num mundo em que imperam as tácticas terroristas de atentados em larga escala vitimando civis.

  Para os estados da União Europeia a questão essencial tem a ver com o isolamento dos núcleos totalitários islamitas entre as comunidades islâmicas, ainda que nem isso os proteja de conspirações alimentadas do exterior, do Médio Oriente ao subcontinente indiano.

   O nível de alienação face aos valores civilizacionais e constitucionais dos países de acolhimento é particularmente assustador em estados como a Grã-Bretanha, França e Holanda. A União Europeia, à parte a cooperação nas áreas de Justiça e Segurança, remete para os estados membros a definição de políticas quanto à integração das comunidades islâmicas.

   Ainda continua a ser possível na União Europeia, pretextando o respeito por convicções religiosas, promover publicamente ideários contrários às instituições constitucionais democráticas.

   As tentativas ditas de promoção de diálogos civilizacionais, intercomunitários e religiosos levadas a cabo em França ou na Grã-Bretanha têm-se saldado, sobretudo, pelo reconhecimento de um estatuto especial para as comunidades islâmicas que abre caminho a todo o tipo de justificações para a xenofobia e intolerância promovidas pelos sectores radicais.

   A retaliação ideológica em torno de alegados privilégios comunitários alimenta, por seu turno, a xenofobia anti-islâmica, racista e nacionalista em muitos países europeus.

   A prédica de organizações como a Jamaat Al Tabligh, visando criar uma contra-sociedade assente nos princípios corânicos, encontra, assim, terreno fértil entre os cerca de doze milhões de muçulmanos residentes na União Europeia.

   A impossibilidade de conter a curto prazo os fluxos de emigração clandestina - meio milhão de entradas por ano - é uma dificuldade acrescida para a integração social de muçulmanos e demais minorias na ausência de uma política comum de imigração.

  A recente mobilização de recursos policiais e militares pela Agência de Controlo das Fronteiras Exteriores da UE para estancar a emigração clandestina do norte de África e dos países subsarianos terá, reconhecidamente, resultados mitigados enquanto persistirem as assimetrias sociais e demográficas.

                                          Sem opção militar

   Os interesses divergentes das potências europeias em questões problemáticas, como os diversos conflitos israelo-árabes, o Iraque ou o programa nuclear iraniano, e a impossibilidade de articular políticas negociais credíveis com a actual administração republicana em Washington promovem um impasse que neste final de Agosto assumirá consequências dramáticas.

   O falhanço da campanha aérea israelita no Líbano obriga a repensar as hipóteses de um ataque contra o Irão por parte dos Estados Unidos.

   A eventualidade de um bombardeamento a instalações suspeitas era de difícil execução por insuficiências de informação operacional e devido à impossibilidade de evitar, simultaneamente, o colapso total no Iraque, conseguir garantir os fornecimentos de petróleo, sem referir as objecções da Rússia, da China e da Índia.

  A necessidade de mobilizar tropas para região, inviável nas condições presentes, para conter retaliações a um ataque aéreo naval ao Irão, impossíveis de conseguir por bombardeamentos estratégicos e tácticos, é um das conclusões mais óbvias da frustrada campanha israelita no Líbano.

   Teerão depois de bloquear pela sua intransigência a via negocial, concluirá, necessariamente, que a curto e médio prazo só tem a arriscar sanções económicas, tecnológicas e financeiras, relativamente toleráveis.

   Para a maior parte dos estados europeus e para a Rússia restará apenas um imenso impasse, em que os interesses económicos prevenirão a imposição de sanções generalizadas.

  A desorientação diplomática acentuar-se-á tanto quanto os Estados Unidos não conseguirem articular uma ameaça militar credível em contraponto às vias negociais.

  O impasse será, no entanto, pretexto mais do que suficiente para galvanizar a propaganda de guerra islamita na Europa e para levar o petróleo à escalada dos 100 dólares/barril.


Jornal de Negócios
16 Agosto 2006

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