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domingo, 2 de setembro de 2012

Armas, poluição e muitos milhões

  

   Depois da China amargurar os Estados Unidos com reiteradas reticências quanto ao futuro do dólar como moeda de reserva internacional, esta semana foi a vez da Índia evidenciar a capacidade cada vez mais limitada dos Estados Unidos para fazerem vingar as suas opções estratégicas.

   Hillary Clinton conseguiu em Nova Delhi firmar acordos sobre defesa e cooperação nuclear civil a contento dos parceiros indianos e de empresas norte-americanas, mas fracassou na área ambiental e da não proliferação.

   A Índia comprometeu-se a não transferir ou revender a países terceiros equipamentos e tecnologias militares adquiridas aos Estados Unidos, nos termos da Lei de Controlo de Exportação de Armamentos, aprovada em Washington em 1996, abrindo assim o mercado indiano às firmas norte-americanas.

                                          Caças e contratos
    No âmbito do programa de modernização militar de Nova Delhi, orçado em 30 mil milhões de dólares para os próximos cinco anos, as empresas norte-americanas Lockheed Martin e Boeing entram de imediato na corrida para a venda de caças.

    Nova Delhi disponibilizou 11 mil milhões de dólares para adquirir 126 caças de última geração e conta já com ofertas de venda de aparelhos Mig 35 por parte da Rússia, Rafale, propostos pela Dassault francesa, Saab JAS 39 Gripen suecos, e Thyphoon do euroconsórcio britânico-alemão-espanhol-italiano.

    Para os exportadores de armamento norte-americanos e europeus o aumento de 23% nas despesas militares (não incluindo pensões, custos do programa militar nuclear, despesas correntes do Ministério da Defesa e Guarda Costeira) consagrado no orçamento apresentado este mês pelo governo de Manmohan Singh é uma oportunidade a não perder para entrarem num mercado que é dominado pela Rússia (70% das aquisições de equipamento indianas), seguida por Israel.

   Outro acordo desta semana permitirá ainda a venda à Índia de componentes para satélites civis, à semelhança do compromisso existente entre Washington e Pequim.

   Eventuais contratos para lançamento por parte da Índia de satélites comerciais norte-americanos ou de terceiros países com equipamentos de firmas dos Estados Unidos ficaram ainda salvaguardados.

    A Índia consagra agora 2,35% do PIB à Defesa - que compara com 5% do Paquistão e 7% da China - e a modernização de um exército de 1,1 milhões de homens, de uma força aérea obsoleta e de uma marinha aquém das necessidades de projecção de força no Índico face sobretudo à China, firme na aliança estabelecida com a Birmânia, é tida como um desiderato estratégico em Nova Delhi.

    Os diferendos com o Paquistão, o contencioso fronteiriço com a China sobre a soberania no estado de Arunachal Pradesh, vital para o controlo dos Himalaias e dos cursos de água do subcontinente, levam, no entanto, a que o renovado esforço de defesa da Índia tenha implicações que estão muito para além do interesse dos Estados Unidos em garantir um contrapeso a Pequim.

    Nova Delhi joga por sua própria conta frente à China (guarda as lições da derrota na guerra de 1962) e ao Paquistão e, por extensão, ao Afeganistão e ao Irão, onde os seus interesses de segurança não coincidem com os Estados Unidos.

                                     Uma contradição nuclear
  
    Na sequência do estatuto especial concedido pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) à Índia em Setembro de 2008 por pressão de Washington, os Estados Unidos levantaram o boicote que durava há 34 anos à venda de tecnologia e combustíveis para o programa nuclear civil de Nova Delhi.

   Depois da França e da Rússia terem assegurado a construção de reactores nucleares civis na Índia, Nova Delhi reservou agora dois locais nos estados de Gujarat e Andhra Pradesh para firmas norte-americanas apresentarem projectos que orçarão em cerca de 10 mil milhões de dólares.

    Os investimentos norte-americanos no nuclear civil (dependentes da ratificação por Nova Delhi de acordos internacionais para limitação da responsabilidade civil dos fornecedores em caso de acidentes) são uma componente essencial para o aumento das trocas comerciais bilaterais que actualmente rondam os 60 mil milhões de dólares, claudicando em particular nas áreas de serviços, como ficou patente no fracasso das negociações de Doha da Organização Mundial do Comércio.

    O investimento no nuclear civil indiano está, contudo, em contradição com o compromisso assumido pelos Estados Unidos na última cimeira do G8 de que estados que rejeitem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear devem ser excluídos de tecnologias de enriquecimento e reprocessamento.

    Nova Delhi mantém a recusa em assinar os Tratados de Não-Proliferação, de 1968, e de Interdição Total de Testes Nucleares, de 1996, que Obama, por sua vez, prometeu levar ao Senado de Washington para ratificação.

    Os últimos testes nucleares da Índia ocorreram a 11 e 13 de Maio de 1998, 24 anos depois da primeira explosão, tendo o Paquistão ripostado com o seu teste de estreia no final desse mês.

    O argumento de que a Índia nunca transferiu tecnologias, combustíveis ou equipamentos para países terceiros serviu à administração Bush para fazer aprovar um estatuto especial para Nova Delhi, que ficou sujeita a uma supervisão limitada por parte da AIEA, permitindo, de facto, a libertação de recursos para o seu programa militar nuclear.

    As declarações de intenções da administração Obama sobre o reforço do regime de não proliferação e limitação da produção de matérias físseis chocam com o estatuto especial da Índia.

                                        Um diferendo climático
    Em Junho, a Câmara de Representantes de Washington aprovou legislação, que aguarda votação no Senado, para reduções de 17% em relação a 2005 das emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e de 80% até 2050.

    A lei consagra a penalização de importações de países que não se comprometam com reduções substanciais das suas emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e o governo indiano já se manifestou publicamente contra tal eventualidade.

   A posição de Nova Delhi em relação a quotas obrigatórias para redução das emissões de gases com efeito de estufa, a discutir na conferência de Copenhaga em Dezembro, mantém-se inalterável.

    A Índia é responsável por apenas 4,6% das emissões globais (20,9% é a quota norte-americana recentemente ultrapassada pela China) e em termos per capita a sua contribuição para o aquecimento global é irrelevante.

    500 milhões de indianos não têm sequer acesso ao mercado comercial de energia, segundo declarou a Hillary Clinton o ministro do Ambiente Jairam Ramesh, vincando publicamente as divergências.

    O governo do Partido do Congresso e as oposições em Nova Delhi concordam que o desenvolvimento da Índia não se compadece com as restrições que os mais antigos estados industrializados pretendem da parte de economias emergentes.

    Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos em matéria de combate às alterações climáticas chocam, também, com a posição de princípio da Índia.

    Depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos encontraram na Índia - que as reformas económicas encetadas por Manmohan Singh começavam a libertar dos espartilhos estatistas herdados da era Nehru - um parceiro potencial.

    Agora, numa altura em que o declínio relativo e absoluto do poderio norte-americano é cada vez mais evidente, a Índia surge como um parceiro incontornável dos Estados Unidos, mas afirma-se, também, como uma potência que assume plenamente claras divergências de interesses.


Jornal de Negócios
22 Julho 2009

domingo, 19 de agosto de 2012

A síndrome nuclear

"Átomos pela Paz" assim se chamava o programa lançado por Dwight Eisenhower no final de 1953 para apaziguar temores ante a estratégia nuclear norte-americana no dealbar da Guerra Fria.
Do discurso presidencial na ONU, que reiterou a capacidade de retaliação devastadora dos Estados Unidos, ficou uma promessa de mobilização e partilha de recursos para a exploração pacífica planetária da energia atómica.

A "Agência Internacional de Energia Atómica" (AIEA) foi criada em 1957 na sequência da iniciativa de Eisenhower, mas o programa de promoção da indústria nuclear civil teve ainda o efeito perverso de facilitar projectos militares clandestinos em países como Israel, Índia, Paquistão ou a África do Sul.

Uma indústria aquém das promessas
Petróleo e carvão baratos limitaram a expansão da indústria até ao final dos anos 60. Objectivos de redução da dependência energética do estrangeiro através do recurso ao nuclear tiveram sorte diversa nos Estados Unidos, França, Alemanha Federal e Japão, enquanto a União Soviética, apesar de auto-suficiente em hidrocarbonetos, prosseguia a expansão do seu sector civil.

O petróleo persistiu, no entanto, como fonte quase exclusiva de combustível para meios de transporte.

O desastre de Three Mile Island, em 1979, na Pensilvânia, cancelou novos projectos nos Estados Unidos, mas a retracção do sector foi provocada sobretudo por custos acrescidos de construção, atrasos na conclusão de projectos, falhas de segurança e variações nos preços de outras fontes de energia.

Chernobil em 1986 acentuou essa tendência global que só começou a ser contrariada na última década à medida que aumentaram as necessidades energéticas de países como a China ou a Índia e a busca de fontes de energia capazes de obviar ao aquecimento global.

Presentemente estão em construção 62 reactores e 158 em fase de projecto e é de esperar que a revisão de normas de segurança implique custos financeiros acrescidos e atrasos.

A China (27 reactores em construção e 50 previstos) e a Índia (5 em curso e 18 em projecto), países com crescentes carências de energia, sendo que no subcontinente 40% da população não dispõe de abastecimento regular de electricidade, destacam-se na opção nuclear.

Independentemente dos custos que possam implicar revisões por imperativos de segurança Nova Delhi e Pequim afirmam-se dispostas a manter a aposta no nuclear, mas a situação é menos clara em países como a Indonésia ou Bangladesh ( dois reactores em projecto em ambos os casos) em que alto risco sísmico e de inundações levantam problemas de difícil resolução.

Derrapagens e atrasos
Os atrasos de construção e derrapagens orçamentais que sempre afligiram uma indústria matricialmente dependente de subsídios estatais continuam, por sua vez, a fazer-se sentir.
O exemplo mais gritante surge com os reactores de terceira geração de água pressurizada desenvolvidos por firmas francesas e alemãs.

Os dois reactores em construção em Olkiluoto, Finlândia, e em Flamanville, França, registam atrasos e custos acrescidos.

No caso de Olkiluoto a construção iniciou-se no Verão de 2005, tinha um custo estimado de 3,7 mil milhões de euros, prazo de entrada em funcionamento em 2009 e uma capacidade de produção de 1600 MWe.

A última previsão aponta para a entrada em funcionamento do reactor em 2013 e os custos adicionais superam os 2,7 mil milhões de euros.

Nuclear e crise ambiental
A possibilidade da indústria nuclear (14% da produção total de electricidade) contribuir para uma diminuição célere do aquecimento global confronta-se com dois problemas fundamentais: elevados custos de construção, sobretudo se comparados com estações de última geração abastecidas a gás natural, e prazos dilatados de construção (uma média de 15 anos entre decisão política e conclusão de obra, segundo a AIEA).

O crise ambiental traduz-se na necessidade de reduzir em 25% as emissões de gases com efeito de estufa nesta década e em 80% até 2050, enquanto as projecções apontam, por exemplo, para uma duplicação em 2030 do consumo global de electricidade.

Uma projecção minimalista, de 2008, da "Agência Internacional de Energia" admitia que a produção de electricidade gerada pela indústria nuclear poderia atingir os 475 GWe em 2030, pressupondo a construção de 4,5 reactores por ano.

Nesse cenário a contribuição do nuclear diminuiria para 11% da produção global de energia.
Uma revisão desta projecção em baixa é a partir de agora a hipótese mais provável.

Reactores em funcionamento não contribuem com emissões de dióxido de carbono para o aquecimento global, mas as vantagens comparativas do nuclear em relação a fontes de energia fósseis (sobretudo gás natural) ou renováveis (eólica, geotérmica, solar, biocombustíveis, etc.) continuam a ser contestadas.

A eventualidade de novos sistemas de armazenamento e distribuição de electricidade se tornarem técnica e economicamente viáveis a médio prazo joga igualmente contra a indústria nuclear.

O nuclear sempre foi diferente
Questões de sempre como o uso do nuclear civil para fins militares, riscos de segurança ante desastres naturais, acidentes, avarias ou terrorismo, além de deficiências na supervisão do sector e da problemática gestão de resíduos radioactivos continuam a suscitar preocupação.

Todas as indústrias apresentam riscos e a exploração petrolífera e mineira provocaram um rol de vítimas mortais e desastres ambientais sem comparação com o sector nuclear civil.
A diferença essencial é que a percepção do nuclear surge inevitavelmente associada aos cogumelos atómicos de Hiroxima e Nagasaqui e os "átomos pela paz" nunca dissiparam os temores ante um poder superlativo e incontrolável.

A catástrofe nos reactores de Fukushima, com suas insuficiências de segurança ante um devastador terramoto e maremoto, são o último sinal de uma síndrome nuclear.

Jornal de Negócios
16 Março 2011