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domingo, 16 de setembro de 2012

Zé Dú à procura do seu Putin





   José Eduardo dos Santos precisa de assegurar a imunidade e património da família e correligionários mais chegados na hora da sucessão, mas a empreitada mostra-se difícil.

   Boris Ieltsin confrontou-se com esse problema e se o sucessor escolhido em 1999 salvaguardou os interesses da parentela presidencial já dificilmente se poderá dizer que Vladimir Putin tenha sido complacente com boa parte da oligarquia ligada ao antecessor.

   Em qualquer regime oligárquico - independentemente das manias e fobias da elite, das tradições políticas e idiossincrasias clânicas - é impossível garantir uma transição de poder sem fazer rolar cabeças.

   Zé Dú – o líder do MPLA, algo diferente do Dos Santos dos "media" estrangeiros -- tem-se revelado implacável na promoção e defenestração de putativos sucessores, reservando exclusivamente para si o centro da teia do poder.

   O presidente deixou cair, entre outros, Marcolino Mouco, João Lourenço ou Fernando Nandó e promove agora Manuel Vicente, mas as intrigas no Futungo de Belas e agora no Palácio Presidencial da Cidade Alta dão prova sobretudo de instabilidade institucional.

   A "Moody’s" e a "Standard & Poor’s" nas notações de crédito da dívida angolana emitidas este mês destacam a chamada "fraqueza institucional" como factor de incerteza.

                              A cleptocracia do petróleo

   Presidente desde 1979, Santos tem consagrada a reeleição por mais cinco anos através da maioria simples ao alcance do seu partido nas eleições para a Assembleia Nacional nos termos da revisão constitucional de 2010.

   A concentração presidencial dos poderes fulcrais do estado é indissociável do controlo ao mais alto nível dos principais nós da rede de patrocínio e locupletação que condiciona a economia angolana.

   Altíssimos níveis de corrupção – a "Transparency International" coloca Angola em 168.º lugar entre 183 países no "Índice de Percepção de Corrupção" – aumentam custos de exploração e agravam a ineficiência e disfunções económicas no consenso de todos os estudos realizados por organizações internacionais.

   Os abusos nas concessões de petróleo e diamantes e a opacidade da Conta Geral do Estado têm criado problemas nas relações entre Luanda e o FMI e levantado problemas às empresas estrangeiras abrangidas por diversa legislação anti-corrupção.

   Luanda continuará dependente do petróleo, que representa 97% das exportações e três quartos das receitas do orçamento, e o controlo dessas rendas manter-se-á vital para a elite do poder tanto mais que Angola espera poder vir a ultrapassar a Nigéria como maior produtor africano saltando dos 1,6 milhões de barris/dia de 2011 para 3,5 milhões no final da década.

   Angola tem uma dívida pública equivalente a 31,5% do PIB e as significativas reservas em divisas (32,5 mil milhões de USD em Junho) podem absorver choques imediatos nas flutuações do preços dos hidrocarbonetos, mas a diversificação económica tarda.

   Os investimentos do pós-guerra em infra-estruturas na ordem de 150 mil milhões de USD mal começaram a criar as bases para redes de transportes, produção e distribuição de energia, que possam criar emprego no sector agrícola e nas indústrias não-extractivas.

                                     Muito dólar para muito poucos

   Um crescimento económico de 6,8% este ano e de 5% em 2013, na previsão do FMI, manterá um nível de desemprego superior aos 20% e Angola persistirá como um dos países com mais injusta repartição do rendimento (Índice Gini de 58,6 em 2009, sendo 0 igualdade absoluta e 100 desigualdade absoluta).

   O peso da pobreza - mesmo dando crédito às estatísticas governamentais que referem uma redução de 68% em 2002 para 36,6% em 2008/9 no número de pessoas subsistindo com menos de 2 USD/dia - relega Angola para o fundo da tabela no "Índice de Desenvolvimento Humano" da ONU (148.º lugar).

   A elevada concentração urbana (60% dos cerca de 20 milhões de habitantes, com perto de um 1/3 da população residente em Luanda) é de difícil gestão pelas autoridades dada a dificuldade em propiciar equipamentos básicos e emprego.

   O temor do retorno às violências que só pararam em 2002 tem sido um dos factores a limitar a contestação ao poder, mas a juvenilização da população (48% dos angolanos têm menos de 15 anos) está em vias de engrossar as fileiras dos desmemoriados da guerra e insatisfeitos com a cleptocracia do petróleo.

   Para obviar a conflitos internos o MPLA poderá sentir-se tentado a repetir os 82% de 2008, mas de pouco servirá para reforçar uma legitimidade política ameaçada por um vazio ideológico que não tem como esconder actos de rapina oligárquica.

   Aos 70 anos Zé Dú, no pináculo do poder e da riqueza, olha em redor e está só.


Jornal de Negócios
29 Agosto 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=575313

Resultados das eleições de 31 de Agosto:

MPLA 72%, UNITA 19%,  CASA-CE 6%, PRS 2%, FNLA 1%
Abstenção 40%

(Nota de Setembro 2012)

A arrogância da oligarquia angolana



   A imprensa governamental de Luanda nunca se fez rogada nas críticas à real ou alegada conivência de políticos e jornalistas portugueses com inimigos do regime ou meros críticos do estado de coisas em Angola.

   Agora tem vindo a subir de tom nas críticas, enquanto por cá se faz de conta que não se passa nada.

   Mas passa e à medida que aumentam os investimentos angolanos em Portugal os círculos governamentais de Luanda exigem abertamente declarações indiscutíveis de apoio ao regime.

   Basta este exemplo.

   Um editorial do muito oficial Jornal de Angola denunciava a 6 de Março de 2011 ameaças reais à paz e estabilidade no país que marcha rumo à democracia e ao progresso.

("A Palavra do Director", de José Ribeiro pode ser lida aqui

    Lamentava o director José Ribeiro, condenando "os insaciáveis da desgraça", que nenhum país ocidental tivesse manifestado solidariedade ao governo de Luanda.

   Acusava um político do partido do governo de Lisboa de insultar o Presidente José Eduardo dos Santos e vaticinar a queda do presidente angolano.

  Deplorava o Jornal de Angola que ninguém na cena política portuguesa se tivesse demarcado e condenado graves incitações ao golpismo contra o governo de Luanda.

  Diz taxativo o jornal governamental que os angolanos são atacados e insultados. 

  Pior ainda: Portugal e outros países ocidentais que se dizem amigos, mergulham num silêncio sepulcral face a esta falta de respeito.

  Tudo um sinal de que há muita gente que não esconde estar preparada para aproveitar o menor sinal de fraqueza dos angolanos.

  Afinal muitos dos que se dizem amigos estão ansiosos pelo mais pequeno fracasso.

  Todo este arrazoado do director do Jornal de Angola por causa de apelos a uma manifestação em Luanda contra o governo.

  É claro como água que em Luanda se exige da parte do governo português, da oposição portuguesa, de todos os portugueses, declarações inabaláveis de apoio ao regime. Menos que isso é visto como um insulto.

 Está a claro a arrogância da elite que enriqueceu com os diamantes e o petróleo.  

TSF / O Mundo num Minuto
07 Março 2011

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Palocci em rio de piranha


   O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, comparece hoje no Congresso de Brasília e vai ter de se explicar quanto às acusações de corrupção enquanto perfeito de Ribeirão Preto entre 2000 e 2002, defender-se das suspeitas de angariação de financiamentos ilícitos para a campanha de Lula à presidência e negar as alegações de favorecimento a empresários como membro do governo.

   Lula tem vindo a repetir que não alterará a política económico-financeira, nem demitirá Palocci, mas na segunda-feira (véspera de feriado no Brasil) os mercados bolsista e cambial já davam mostras de inquietação face à possível saída do ministro.

   Nas bandas da oposição a maioria dos dirigentes do Partido da Frente Liberal e do Partido da Social Democracia Brasileira admite que a demissão de Palocci poderá por em causa a estabilidade financeira.

   Na frente governamental o presidente teve de fazer calar a ministra-chefe da sua Casa Civil, Dilma Rousseff, que criticou a política fiscal do responsável da Fazenda, com o aplauso solícito do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e do vice-presidente José Alencar.

   Lula a um ano de eleições ignorou até agora os apelos do novo presidente do Partido dos Trabalhadores, Ricardo Berzoini, que exige uma diminuição das taxas de juro e do esforço fiscal em 2006.

   A inflação abaixo dos 5 por cento, a balança comercial com saldo positivo, mas a taxa de juro base nos 19 por cento e uma perspectiva de crescimento económico inferior ao objectivo de 3,5 no final do ano, representam o balanço algo contraditório, mas muito estimável, da gestão Palocci.

   O drama passa pela implicação deste ex-trotskista convertido à ortodoxia do equilíbrio fiscal em toda a malha de escândalos que é a imagem de marca do sistema partidário e político do Brasil.

   Os casos e inquéritos ditos do mensalão, dos bingos, dos correios, com um rol de abusos de dinheiros públicos, subornos, financiamentos ilegais de partidos, contratos de empresas do estado a favor de familiares e gentes do governo, incluindo um filho do presidente, para não falar do misterioso assassinato do perfeito petista de Santo André, Celso Daniel, alastram e continuam a fazer mossa.

   A última denúncia em data atravessou o Atlântico e implica Marcos Valério, o pivot dos financiamentos ilegais, no pagamento de 2,7 milhões de dólares em luvas (passando por contas do BIC, em Lisboa) ao ministro das Finanças de Luanda, José Pedro de Morais, e ao presidente do Banco Nacional de Angola, Amadeu Maurício, com retorno de suspeitas diversas de favores de empresários angolanos aos círculos dos PT e de vantagens oferecidas a homens de negócios brasileiros em Angola com conhecimento de Palocci.

  Palocci, tal como José Dirceu, o defenestrado número dois de Lula, surge irremediavelmente como agente, conivente ou, na mais ingénua das hipóteses, político displicente em matéria de actos ilícitos.
  
  Agora, politicamente condenado e moralmente suspeito, só lhe resta atentar no ditado e, qual jacaré em rio de piranha, nadar de costas. Não adianta é tentar fazer-se passar por cordeirinho sacrificado pela devoção ao saneamento das finanças públicas.

Jornal de Negócios
16 Novembro 2005

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De volta a Angola




Armando Cruz Neto - MPLA - (esq.) Abreu "Kamorteiro" -UNITA  



   Faz hoje 10 anos, em Luena, na capital do Moxico, as chefias militares do Mpla e da Unita assinavam um acordo de cessar-fogo que ponha fim à guerra civil.

  No final de Fevereiro Jonas Savimbi fora emboscado e morto em Lucusse também no Moxico, na grande província do Leste.

   A guerra estava definitivamente perdida para a Unita.

   À parte incidentes esporádicos em Cabinda, Angola passou a viver em paz.

   Poucos se impressionam com alguns massacres que vão ocorrendo nas zonas de garimpo de diamantes nas Lundas.

   Na ostentação típica de novos ricos as elites angolanas gozam as fortunas que o poder alimenta.

  Ao cheiro dos negócios que as rendas do petróleo e dos diamantes sustentam o português ruma em força de volta a Angola.

   Lá chegado descobre que, de Washinton a Pequim, Luanda conta agora com muitos outros parceiros poderosos na sua qualidade de potência regional influente e segundo maior produtor africano de petróleo.

  Portugal oferece, no entanto, uma vantagem extraordinária: é o país ideal para investir proventos imensos de origem incerta.

   De resto, a nível internacional o cunho autoritário do regime e a corrupção institucional não arranham consciências.

   Teme-se que possam vir a gerar instabilidade política ou façam sangrar feridas dos anos de guerra, mas, por enquanto, é deixar correr o marfim.

   Investimentos de novos ricos e de parceiros estrangeiros começaram a orientar-se para a agricultura, pecuária, pescas, sectores que continuam muito aquém do seu potencial.

   Entre 18 milhões de angolanos metade ainda subsiste na pobreza, apesar da situação ser incomparavelmente melhor do que nos anos de guerra civil.

  A mortalidade infantil diminuiu, mas Angola ainda apresenta dos piores índices de saúde do mundo e níveis de educação rudimentares.

  A abertura de novas estradas, a recuperação de portos, tudo impressiona.

  Também impressiona e muito o cultivo da língua portuguesa porque é a língua de união nacional.

  Por isso cultiva-se o português com cuidados que por cá se ignoram.

  Numa década de paz Angola prosperou, mas ficou aquém do que poderia ter conseguido se apostasse mais no combate à pobreza.

  O presidente Eduardo dos Santos é louvado e enaltecido, os críticos mal se fazem ouvir.

  Há um preço exorbitante a pagar, mas a paz é hoje o que cala mais fundo no coração dos angolanos.

O mundo num minuto / TSF
04 Abril 2012

Os receios pelo Mundial da África do Sul



8 Janeiro 2010



   O ataque contra a selecção do Togo na floresta do Maiombe teve o efeito perverso de relançar a polémica sobre as condições de segurança em que terá lugar o Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul.

   As autoridades sul-africanas defendem-se, alegando não enfrentarem ameaças separatistas e fazem notar que o país nem sequer foi alvo até agora de atentados promovidos por redes terroristas internacionais, mas as dúvidas, sobretudo na Europa, sobre a segurança do primeiro Mundial de Futebol num país africano são vivazes.

                                   Um ataque na pior altura

   Cabinda é um caso muito especial no contexto angolano.

   O "Memorando para a Paz e Reconciliação" assinado em 2006 entre Luanda e a Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda - Renovada de António Bembe, deixou de fora facções dissidentes do movimento formado em 1963.

   Desde então separatistas no norte do enclave raptaram um técnico chinês ao serviço da Sonangol em Novembro de 2009 e nos dois anos anteriores cinco pessoas morreram em ataques terroristas.

   O enclave é uma área altamente militarizada contando-se 30 mil militares para cerca de 300 mil habitantes e dado que a exploração petrolífera se concentra em "off shores", produzindo 70 % do petróleo angolano, os esporádicos, mas persistentes, ataques terroristas não afectam a actividade económica.

   Às históricas reivindicações separatistas sucedeu-se após o "boom" petrolífero a contestação sobre a partilha de recursos entre o governo central e a província, mas o conflito de baixa intensidade em Cabinda não põe em causa a integridade do estado angolano.

   Um ataque a uma selecção participante num evento tão popular como o Campeonato Africano das Nações apenas contribui para o descrédito dos separatistas de Cabinda e obriga necessariamente os demais países do continente a expressarem a sua solidariedade com Luanda.

   O embaraço do governo angolano, que arriscou colocar a cidade de Cabinda a par de Luanda, Benguela e Lubango como um local dotado de condições de segurança e infra-estruturas desportivas capazes de promover uma competição internacional, será compensado a prazo pela renovada solidariedade política que os países africanos terão de mostrar no combate aos separatistas.

                                   Esperanças da África do Sul

   Razão têm os sul-africanos em relembrar que o país já organizou grande competições internacionais como os campeonatos mundiais de cricket, em 2003, e de rugby, em 1995, que, por sinal, Nelson Mandela aproveitou inteligentemente para promover a reconciliação nacional através do apoio que manifestou aos "Springboks", que de selecção elitista e desprezada pelos negros, se tornou em símbolo maior da nação arco-íris, sagrando-se vencedora na final com a Nova Zelândia.

   Esvanecidas tentações secessionistas dos zulus da província de Natal a África do Sul não enfrenta de facto quaisquer ameaças à sua integridade territorial.

    A pobreza é, efectivamente, o problema maior do país e não será o Mundial de Futebol a trazer grande contributo para aliviar as desigualdades sociais.

   Jacob Zuma ao tomar posse como presidente em Maio passado prometeu criar meio milhão de postos de trabalho até ao final de 2009, mas o ano foi-se com a taxa de desemprego de 23,2 por cento registada em 2008, a aumentar para 24,5 por cento.

   Em 2009 a crise de que a África do Sul só começou a sair no último trimestre, com um crescimento de 0,9 por cento, destruiu um milhão de postos de trabalho e a recuperação será lenta e agravada pelo final das obras de construção civil relacionadas com o Mundial de Futebol ao acabar o primeiro semestre deste ano.

                     Gastos desmesurados em tempos difíceis

   A construção de cinco estádios e a renovação de outros cinco recintos saiu cara: a conta vai presentemente em mais de seis mil milhões de euros e ocorreram os tradicionais gastos desmesurados.

    Sinal emblemático de gastos alucinados provocados pela organização do Mundial é o estádio Mbombela para 43 500 espectadores construído junto ao Parque Kruger no nordeste do país numa região particularmente pobre onde os 120 milhões de euros dispendidos bem podem espantar os habitantes dos bairros de lata vizinhos.

   Na Cidade do Cabo o novo estádio onde Portugal jogará a 21 de Junho com a Coreia do Norte custou mais de 500 milhões de euros e verá depois do campeonato a sua capacidade reduzida de 69 mil para 55 mil espectadores. Mesmo assim a viabilidade económica da exploração do recinto é duvidosa e a complicar a situação o município viu-se sem dinheiro para completar um projectado sistema de autocarros rápidos que deveria servir os três milhões e meio de habitantes da metrópole.

    O Mundial do país do arco-íris ficará inevitavelmente marcado por alguns crimes violentos, ou não registe a África do Sul mais de 18 mil assassínios por ano, ainda que a mobilização de cerca de 50 mil polícias para segurança das nove cidades onde se realizarão os jogos possa conter a violência do dia-a-dia.

   A ameaça de ataques terroristas não será, no entanto, maior do que nos recentes mundiais da Coreia do Sul/Japão e Alemanha.

   Infelizmente, para os mais de 15 milhões de sul-africanos que subsistem com menos de 2 dólares/dia o Mundial 2010 não trará alívio de maior e a sua selecção, a rapaziada ("Bafana, Bafana"), está longe do talento dos "Springboks".

   Pese-se tudo isto e apesar dos dispêndios excessivos em tempo de crise o Mundial da África do Sul merece melhor imprensa do a que tem tido nos últimos dias.


Jornal de Negócios
13 Janeiro 2010

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Petróleo e Pizza





   A exploração de minérios raros foi descurada a partir dos anos 90, sobretudo nos Estados Unidos, quando a China aumentou a produção esmagando a maior parte da concorrência.

   Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.

   A incúria estratégica tem o seu preço.

   Uma daquelas estatísticas que passaram em claro nos idos de Agosto referia isto: pela primeira vez a Agência Internacional de Energia assinalava que o consumo de petróleo superara no segundo trimestre de 2009 os tradicionais níveis recorde dos meses de Janeiro a Março.

   Até agora o Inverno nas economias desenvolvidas do Hemisfério Norte justificava um consumo acrescido, mas, as importações crescentes de países em desenvolvimento como a China e o Brasil, no Hemisfério Sul, alteraram os padrões.

   No caso da China as celebrações do Ano Novo, entre Janeiro e Fevereiro, levam a um abrandamento da actividade económica, mas, desta feita, os níveis de consumo de petróleo indiciam que as economias em desenvolvimento, sobretudo a chinesa, estão prestes a modificar um padrão tradicional.

   Poderia ser coisa conjuntural de somenos importância, consequência da retracção económica a Ocidente, mas, contando com outras economias, como a indiana ou indonésia, que divergem dos padrões sazonais de consumo norte-americanos e europeus, alguma coisa está a mudar.

   Em rigor está em causa até a lógica de velhas regras que obrigam, por exemplo, a ponderar evitar atacar o Irão durante o pico invernoso de consumo de petróleo no Hemisfério Norte.

                                            ANGOLARES

  O aumento do consumo doméstico de matérias-primas torna ainda mais premente para Pequim a garantia de que os fluxos de importações de petróleo não podem de forma alguma ficar dependentes de interesses alheios.

   Um caso exemplar tem a ver com Angola.

   Pequim tornou-se no maior parceiro comercial de Luanda desde 2006 e adquire 29% das exportações de petróleo angolano.

   Angola, a caminho de superar a Nigéria como maior produtor africano, provavelmente dentro de quatro anos, é o segundo maior fornecedor de petróleo à China (15,5%) a seguir à Arábia Saudita (19,8%).

   As linhas de crédito abertas por Pequim a Luanda superam os 14,5 mil milhões de dólares, uma superlativa aposta em África, mas os investimentos das empresas chinesas no sector petrolífero em Angola ainda claudicam ante interesses ocidentais da Chevron-Texaco, Total e BP.

   A Sinopec adquiriu a sua primeira participação num bloco de exploração em 2004, mas as operações da petrolífera chinesa tem passado por dificuldades na relação com a Sonangol.

   Luanda, no entanto, acaba de dar luz verde para a Sinopec concorrer à exploração de novos blocos que irão a leilão em 2011.

  É a forma de ultrapassar a debilidade da participação chinesa na indústria petrolífera de Angola.

                             UM MONOPÓLIO CHINÊS

   Uma questão estratégica mexe com os minerais raros.

   A China controla 97 % da produção global e Pequim anunciou em Julho uma redução de 72% nas exportações de minerais raros até ao final do ano.

   Japoneses e norte-americanos admitem apresentar queixa na Organização Mundial de Comércio, mas as autoridades chineses justificam a decisão por razões ambientais, valor estratégico e necessidades de consumo doméstico.

   Essenciais para produtos de alta tecnologia civil e militar este conjunto de 17 minerais (disprósio, xenótimo, érbio, etc.) encontram-se em muitas regiões, do Brasil à África do Sul, concentrando-se os maiores depósitos na Mongólia Interior, Califórnia e Austrália Ocidental.

   A exploração de minérios raros foi descurada a partir dos anos 90, sobretudo nos Estados Unidos, quando a China aumentou a produção esmagando a maior parte da concorrência.

   Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.

   A incúria estratégica tem o seu preço.

                            ALEMÃO DE OLHO NA CHINA

   Agrura de Verão tem sido coisa que veio para ficar.

   As economias da Zona Euro andam arrimadas à expansão da Alemanha, mas a recuperação alemã assenta no sector exportador e depende cada vez mais das vendas à China.

   Em Portugal não escasseou quem notasse que o próprio impulso das exportações nacionais para a Alemanha (aumentaram 7,9 % entre Janeiro e Maio em relação ao mesmo período de 2009), dada a anemia dos Estados Unidos, está, em última instância, dependente do acréscimo do consumo chinês.

   Berlim continua a ter nos parceiros da União Europeia o seu principal mercado de exportação: dois terços dos 800 mil milhões de euros anuais de vendas ao estrangeiro ficam-se pela Europa comunitária.

   As exportações alemãs para a China são, no entanto, a vertente mais dinâmica tendo aumentado cerca de 60 % este ano, mas é insustentável esperar que se mantenha este ritmo.
 
   A Volskwagen vende na China um de cada quatro veículos que produz e já está a estudar formas de minimizar a previsível quebra de receitas que possa ocorrer se as vendas abrandarem no mercado chinês.

   Empresas como a Siemens ou a BASF começam, por outra lado, a ver com inquietação crescente rivais chinesas em vias de se tornarem competidoras nas áreas de alta tecnologia.

   Por enquanto, somam-se apenas indícios, mas histórias atrás de histórias acerca de inovações chinesas em certos sectores, tecnologia do vidro ou células solares, por exemplo, começam a gerar perplexidades sobre riscos futuros.

   China concorrente e China compradora, estão, portanto, à vista e à légua.
                            
                                   PIZZA E PAUZINHOS

   Há, também, coisa diferente, e não menos significativa.

   A empresa espanhola Telepizza firmou acordo com investidores chineses para avançar a partir de Xangai, China afora.

   A Telepizza tem 600 estabelecimentos em Espanha e mais de 400 no estrangeiro, metade dos quais na América Latina.

    No ano passado 23 % da facturação de 500 milhões de euros foi assegurada pelas operações no estrangeiro e a China surge agora como grande aposta da empresa espanhola.

   O montante do investimento para a joint-venture em partes iguais com a Christine de Xangai, a maior empresa chinesa de panificação e pastelaria, não foi revelado, mas a Telepizza está certa de que encontrará um modelo de êxito adaptado ao mercado da China antes de alargar operações a Macau, Hong Kong e Taiwan.

   Quanto vale uma Telepizza ante a magnificência das grandes tradições da culinária chinesa?

HOJE MACAU
2 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=1802