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quarta-feira, 13 de março de 2013

A violência da História



Manifestação antigovernamental sunita
Falluja, 15 Fevereiro 2013


   Entalado entre a guerra civil síria e o temor do programa militar nuclear iraniano provocar um conflito generalizado do Golfo Pérsico ao Cáspio, o Iraque, dez anos depois da queda de Saddam Hussein, está longe de ser o “farol da democracia” prometido por George W. Bush.

  Tensões entre xiitas e as minorias sunita, curda e turcomena comprometem um sistema federalista imperfeito, toldam a negociação sobre repartição de recursos e a institucionalização de normas democráticas.

  Os níveis de violência atingidos entre 2006 e 2008 reduziram-se significativamente, mas, sobretudo nas áreas sunitas, impera a falta de segurança e é também entre a minoria arredada do poder que se faz sentir mais fortemente o peso do desemprego que atinge cerca de 40% dos iraquianos.

   Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por seu turno, confrontam-se com o passivo de uma invasão concebida sem medir as consequências e planeada com negligência criminosa que chegou a aproveitar aos extermicionistas terroristas da Al Qaeda sunita.

   As justificações invocadas para a guerra, designadamente a existência de arsenais de armas químicas e biológicas como ameaça iminente, revelaram-se falsas e demonstraram a sistemática manipulação de dados de valor duvidoso recolhidos e analisados por serviços de informação incapazes de assegurarem a sua autonomia face a preconceitos governamentais arreigados.

  A fraude das armas de destruição maciça – além da questão da insuficiência na recolha de informações sobre projectos militares clandestinos e confronto de análises contraditórias -- saparam a legitimidade para futuras intervenções unilaterais, sem cobertura da ONU, para alegadamente salvaguardar a paz e segurança internacionais.

  Nem o anúncio por Washington e Londres em Dezembro de 2003 de que Muammar Gadaffi renunciara a um programa militar nuclear clandestino de dimensões insuspeitas evitou o avolumar de críticas ao bem fundado da estratégia de Bush e Tony Blair.

   O patrocínio norte-americano da intrasigência israelita no conflito com palestinianos reforçou as alas islamitas e rejeicionistas de um acordo com o estado hebraico, que, por seu turno, persistentemente discrimina a população árabe.

   A duplicidade de critérios, patente na aliança com as monarquias sunitas autocráticas do Golfo Pérsico, retirou credibilidade à propalada “nova era de democratização” por todo o Médio Oriente e os abusos na “guerra contra o terrorismo” conjuraram-se para acentuar uma imagem altamente negativa dos Estados Unidos, e por arrasto dos seus aliados ocidentais, na maior parte dos países árabes e islâmicos.

  A ausência de planos, a falta de recursos militares e assistenciais civis, a desorientação na identificação de aliados locais para dar início a esforços necessariamente morosos e de resultados incerto de criação de entidades administrativas minimamente credíveis saldaram-se num estrondoso fracasso político, com elevadíssimos custos humanos para as populações do Iraque, como, ainda, do Afeganistão.

  A presunção de que não seria necessário mobilizar grandes contingentes militares para garantir a segurança no final das hostilidades, actos inanes como a decisão do líder da Autoridade Provisória Paul Bremer de desmantelar as forças armadas iraquianas e expulsar da administração pública todos os membros do antigo partido governamental Ba`ath, selaram o destino de uma intervenção mal concebida e pior concretizada.

   Barack Obama ao concretizar a retirada militar en 2012 deixou o Iraque como aliado incerto, sem conseguir mitigar as consequências estratégicas negativas da invasão de 2003.

   A guerra acelerou dinâmicas conflituais internas nos estados do Médio Oriente saídos da partilha anglo-francesa dos despojos do Império Otomano no final da I Guerra Mundial.

   Na Síria ou no Iraque os poderes de minorias étnico-confessionais, promovidas por Paris e Londres, foram irremediavelmente postos em causa e volatilizou-se a barreira de segurança das monarquias sunitas que representava o regime de Saddam contra o Irão xiita liderado por Khomeini.

   O pacto de 1943 entre Franklin Roosevelt e o rei Saud ainda define as garantias de segurança de Washington a Riade e os Estados Unidos, apesar da sua cada vez maior autonomia energética, precisam de assegurar o livre fluxo de petróleo e gás do Médio Oriente para os mercados mundiais.

   Independemente de uma capacidade única de projecção de força, Washington perde influência política à medida que a contestação, com forte pendor islamita, derruba regimes autocráticos no Médio Oriente.

   A arrogância e inépcia de Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Blair e demais coniventes, o despotismo torcionário de Saddam apostado num confronto insustentável, a deriva terrorista dos salafistas sunitas, a vingança xiita e curda, ficam como um exemplo dos malefícios da ignorância e da violência da história.

Jornal de Negócios
13 Fevereiro 2013

domingo, 16 de setembro de 2012

Terrorismo Olímpico





    Há sete anos, Tony Blair regozijava-se com a atribuição a Londres dos Jogos da XXX Olimpíada, mas na manhã seguinte, 7 de Julho, quatro bombistas suicidas atacavam o sistema de transportes da capital provocando 52 mortos e mais de 700 feridos.

   Nestes Jogos de Verão paira sobre Londres o espectro dos atentados perpetrados por três islamistas de origem paquistanesa e jamaicana, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, e criados em Inglaterra.

   Da Conspiração da Pólvora, de 1605, para fazer explodir a Casa dos Lordes e matar o rei Jaime I, aos ataques do IRA Provisório, entre 1973 e 1997, Londres tem uma longa história de atribulações terroristas e retaliações governamentais, mas estas Olimpíadas batem recordes de preocupações securitárias.

   A magnitude dos atentados da Al Qaeda contra os Estados Unidos, em 2001, acarretou o reforço de medidas de segurança e legislação securitária e nos Jogos Olímpicos de Atenas e Pequim, ainda que sob regimes políticos diversos, os custos de protecção de pessoas e bens dispararam.

   Nas Olimpíadas gregas a factura de segurança terá rondado 1,24 mil milhões de euros e em Londres essas despesas deverão duplicar, correspondendo a 15% ou 20% dos custos totais.

   A candidatura de Londres foi apresentada como um projecto de baixo custo (2,37 mil milhões de libras/3,02 mil milhões de euros), capaz de reabilitar zonas degradadas do "East End", e destinado a projectar uma imagem de cidade aberta e inovadora.

   Os custos para o erário público ascendem, no entanto, a 11 mil milhões de libras, segundo apurou uma comissão parlamentar, sendo altamente duvidoso um retorno positivo deste investimento.

   Além do previsível congestionamento do sistema de transportes público e da circulação rodoviária, ferroviária e aérea, o terrorismo representa a principal ameaça a "Londres 2012", de acordo com a estimativa oficial de riscos que contempla ainda actos de violência ligados ao crime organizado ou a extremistas britânicos, alterações da ordem pública, acidentes e desastres naturais.

    A hipermediatização dos Jogos Olímpicos, em crescendo desde as emissões televisivas de Roma em 1960 para 21 países, transforma o evento num pólo de atracção para acções de propaganda oficial e contra-propaganda, actos de protesto pacífico e atentados terroristas.

   O historial terrorista das Olimpíadas resume-se, contudo, ao assassinato de onze atletas e treinadores israelitas por um comando palestiniano do "Setembro Negro" em Munique, em 1972, e à morte de dois espectadores em Atlanta, em 1996, na explosão de uma bomba colocada por um extremista de direita em protesto contra o "socialismo global".

   O "Comité Olímpico Internacional", por sua vez, só a partir de 2004 passou a subscrever apólices de seguro contra o cancelamento parcial ou total dos eventos desportivos devido a actos de terrorismo.

   Os Jogos de Londres vão decorrer sob o risco de atentado terrorista "muito provável", na terminologia oficial, a que acresce o alojamento de participantes e a realização de grande número de eventos desportivos numa zona do leste da cidade caracterizada por altas taxas de criminalidade.

   Os exercícios com mísseis anti-aéreos em parques, nos terraços e telhados de edifícios públicos e residenciais foram apenas um dos mais perturbantes episódios das vastas medidas de segurança em curso e evidenciam o temor a atentados.

   De "lobos solitários" de extrema-direita a acções coordenadas por organizações islamitas terroristas da Somália, Iémen ou Paquistão a lista de potenciais atacantes é extensa, mas o maior risco advém do confronto entre Israel e o Irão.

   Após o atentado na semana passada em Burgas, que provocou a morte a cinco turistas israelitas e a um motorista búlgaro, a polícia de Nova Iorque fez chegar aos "media" um estudo indicando que os "Guardas Revolucionários" do Irão ou seus agentes teriam estado envolvidos em nove tentativas de ataques a alvos judeus na Bulgária, Tailândia, Índia, Quénia, Geórgia, Arzebeijão e Chipre.

   O porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou, por seu turno, agentes iranianos e do "Hizballah" libanês de envolvimento directo em 20 ataques terroristas contra israelitas no estrangeiro ocorridos no último ano.

   Qualquer atentado em Londres que possa ser atribuído, justificadamente ou não, a agentes a soldo de Teerão será um passo mais no caminho da guerra aberta entre Israel e o Irão com inevitável envolvimento norte-americano.


  
Jornal de Negócios
25 Julho 2012

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

The Sun faz a cama a Gordon Brown



   Por cá os jornais metem-se em muitas embrulhadas, mas não apoiam em regra candidatos à chefia do governo.
 
   Quanto mais não seja porque o mercado é pequeno. Seria quase fatal para um jornal declarar apoio a um partido e arriscar perder leitores.

  Noutros países a tradição é bem diferente.

  Na Grã-Bretanha, por exemplo, o apoio declarado de um tablóide como The Sun, o jornal de maior circulação no país, é em regra crucial.

 The Sun não são só as manchetes assassinas, as historietas e escândalos das celebridades do momento, a modelo meio nua na terceira página.

 É mais do que isso: é uma enorme influência política e sendo feito para vender e vender muito, porque vende mais de três milhões de exemplares por dia, tem um faro especial para seguir as tendências do eleitorado. 

  Apesar de evidentes sinais de mau gosto e chauvinismo ou então por causa disso este sol que alumia o Reino de Isabel II é um sucesso: foi fundado em 1964 e cinco anos depois passou para as mãos do australiano Rupert Murdoch.

  O barão dos media tornou The Sun no rei dos tablóides.

  O jornal começou por apoiar os trabalhistas, mas em 1979 apaixonou-se por Margaret Tatcher.

  Só voltou a conhecer paixão tamanha quando descobriu Tony Blair nos idos da eleição de 1997 e ficou assim neste enlevo ao lado dos trabalhistas até hoje.

  Porque esta quarta-feira assassinou o primeiro-ministro Gordon Brown.

  Reza a manchete: depois de 12 longos anos no poder este governo perdeu o norte e agora também perdeu o apoio do Sun.

  Não podia ser pior para o sucessor de Blair.

  Na véspera Brown apelara aos militantes na conferência anual dos trabalhistas para não perderem a esperança. Disse para acreditarem numa vitória nas eleições do próximo ano, mas, de facto, acontece que a crise económica é terrível e os trabalhistas foram clamorosamente derrotados nas últimas votações para o Parlamento Europeu e os conselhos locais.

  As sondagens são do mais desanimador possível: em intenções de voto estão muito abaixo dos conservadores de David Cameron, são mesmo ultrapassados pelos democratas-liberais.

  Agora, Brown levou uma facada do Sun.

  Para pôr a coisa em pratos limpos pode bem dizer-se à boa maneira tablóide: The Sun acaba de fazer a cama a Gordon Brown.    

TSF / O Mundo num Minuto
30 Setembro 2009

Um primeiro-ministro irascível





    Chatarrão, maçudo, desajeitado, sem grandes dotes para cativar simpatias, tais são algumas das pechas assacadas a Gordon Brown desde que saltou para a ribalta ao assumir, em Maio de 1997, a tutela das finanças da Grã-Bretanha e, agora, juntaram-se-lhe acusações de irascibilidade e intimidação do pessoal menor em Downing Street.

   Nunca foi cativante a imagem pública do sucessor de Tony Blair e quando finalmente chegou a primeiro-ministro, em Junho de 2007, depois de muita acrimónia nos bastidores, Brown desperdiçou o seu capital político ao hesitar nesse Outono em convocar eleições antecipadas.

   Ninguém lhe negava qualidades intelectuais para enfrentar o negrume de 2008-2009, que Brown classifica como "a primeira crise da globalização", mas a economia do Reino Unido sofreu no ano passado uma contracção de 4,8%.

   Seis trimestres recessivos (uma quebra de 6% do PIB) saldaram-se por sucessivos desaires eleitorais para os trabalhistas, e o fim da mais longa recessão desde o pós-guerra no derradeiro trimestre de 2009 (com um magro crescimento de 0,1%) deixa em aberto previsões de crescimento para este ano que não ultrapassam os 1,4%, enquanto o défice orçamental superará os 12 %.

                                         Humilhado e persistente
   Ainda assim, Gordon Brown resistiu às humilhações nas eleições locais de Maio de 2008 e nas europeias de Junho do ano passado, torneou desafios à sua liderança, aguentou as reticências de grande número de deputados trabalhistas e segurou o seu ministro das finanças Alistair Darling nas tormentas da falência do banco Northern Rock, do extravio de dados pessoais de 25 milhões de beneficiários de abonos de família e no fiasco da taxa da redução dos impostos sobre rendimentos.

   Com eleições à porta, provavelmente a 6 de Maio, os trabalhistas só este mês começaram a vislumbrar alguma esperança nas sondagens sobre intenção de voto.

   O "The Guardian" e o "The Sun" publicaram, na terça-feira, sondagens que podem vir a negar aos conservadores uma maioria no parlamento. 37% para os conservadores de David Cameron, 30% para os trabalhistas e 20% para os democratas-liberais de Nick Clegg, segundo "The Guardian/ICM" e 39%, 33% e 17%, na mesma ordem, de acordo com "The Sun/YouGov".

   Estes inquéritos, que põem em causa uma consistente vantagem dos conservadores, que chegaram a ultrapassar em 21 pontos os trabalhistas no Verão de 2008, não reflectem a polémica aberta pela publicação no domingo no semanário "The Observer" de excertos de um livro do jornalista Andrew Rawnsley, The end of the party, com alegações de um cadastro de intimidações a subordinados e funcionários de Downing Street por parte do primeiro-ministro.

   Abusos verbais, acessos de ira, muita papelada e objectos vários pelos ares, afora pormenores deveras caricatos, constam do relato do bem informado Rawnsley, que, mais significativamente, não traz dados novos sobre as disputas entre Brown e outras luminárias trabalhistas como Jack Straw, David Miliband ou Alistair Darling, e, sobretudo, é omisso quanto a desacatos mais graves e politicamente comprometedores.

                                          Irado em má altura
   Em poucos dias sucederam-se a inevitável manchete "The Prime Monster", do "The Sun", ou comentários mais cordatos, como o do colunista principal do "The Times", Daniel Finkelstein, que optou por concluir que Brown "não é, de forma alguma, má pessoa, apenas se comporta mal".

   Cameron exigiu um inquérito, gerou-se confusão sobre alegações imprecisas de queixas de funcionários de Downing Street, ouviram-se desmentidos oficiais e chegaram revelações de um estudo do gabinete do primeiro-ministro indicando que um terço dos seus 1 270 funcionários pretendem deixar o emprego queixando-se de um ambiente malsão.

   À primeira vista assiste-se a pequena tempestade irrelevante quando os trabalhistas tentavam relançar a imagem de um Brown simpático e tão preocupado com a fome em África quanto com a sorte do eleitor mais próximo versus um aristocrático David Cameron sem experiência governativa, menos de nove anos de parlamento e líder da oposição desde Dezembro de 2005, acusado, ainda por cima, de falta de competência para as complexidades da recuperação económica.

    Contudo, apesar da chamada de atenção feita terça-feira pelo governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, para as incertezas que rodeiam uma frágil recuperação económica e a necessidade de apresentar rapidamente um plano consistente de redução do défice orçamental e reestruturação do sistema bancário e financeiro, muito da próxima eleição vai jogar-se em questões de carácter.

                                   Um parlamento sem maioria
   Frente a um Cameron, de ar gentil e conhecido pelas suas andanças de bicicleta, clamando que chegou a alternativa conservadora para reduzir um défice orçamental recorde, nada convém a Brown a imagem de chefe de governo irascível e enredado em intermináveis complots com os seus pares trabalhistas.

   E, no entanto, pela primeira vez, Brown, desajeitado, maçudo, chatarrão, assolado por acessos de fúria, vislumbra alguma esperança de evitar um desaire eleitoral. Se confirmar a reviravolta nas tendências de intenção de voto, poderá, pelo menos, aspirar a um parlamento sem maiorias absolutas.

   O exemplo não é, contudo, demasiado inspirador.

   Na eleição de Fevereiro de 1974, o conservador Edward Heath perdeu a maioria absoluta, não conseguiu acordar um governo de coligação, e o Labour de Harold Wilson acabou por formar um executivo minoritário.

   O líder trabalhista convocaria novas eleições em Outubro e arrancaria então a maioria com mais três deputados.

   Aconteceu em 1974 e o irascível Brown bem pode agora controlar acessos de fúria para, pelo menos, pensar numa coligação.

Jornal de Negócios
24 Fevereiro 2010

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domingo, 9 de setembro de 2012

Blair das Arábias




   O barão Michael Abraham Levy termina hoje as funções de enviado especial do primeiro-ministro do Reino Unido para o Médio Oriente e o deputado trabalhista por Sedgefield, Anthony Charles Lynton Blair, prepara-se para assumir o cargo de enviado especial do Quarteto, o grupo negocial USA-UE-Rússia-ONU para a desordem israelo-palestiniana.

   Nada consta de útil quanto aos cinco anos de pretensa mediação levantina do empresário milionário da música pop britânica, líder da comunidade judaica em terras de Isabel II, angariador de fundos e influências por conta dos trabalhistas, elevado por Blair à Câmara dos Lordes em 1997, que continua a contas com a justiça por alegadas vendas de títulos nobiliárquicos em prol de sustento ao governo e ao partido.

   Muito consta, por outro lado, da maquinação da futura encarnação de Tony Blair fruto de meses de congeminações em Washington que desconcertaram as chancelarias.

   Desde que a nomeação de Blair começou a ser ventilada na semana passada por Condoleezza Rice passaram off the record para a imprensa votos de consternação da parte do ministro dos negócios estrangeiros alemão Frank-Walter Steinmeier que presentemente lidera a representação europeia no Quarteto.

   Reticências sérias chegaram também a público por via do denodado Javier Solana e o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov, após manifestar umas quantas objecções, optou por deixar correr o marfim.

   Gordon Brown fechou-se em copas e o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon viu-se reduzido à sua impotência que começa a tornar-se preocupante.

                       UM MEDIADOR DESCONCERTANTE

   O Quarteto foi criado em 2002 na sequência da declaração de Junho de George W. Bush a favor da criação de um estado palestiniano independente que oferecesse garantias de segurança a Israel.

   Em Abril de 2003, o Quarteto apresentou um plano: o Roteiro de Paz.

  Visava uma solução final e compreensiva do conflito israelo-palestiniano a concretizar-se em 2005. O objectivo passava pelo estabelecimento de um estado palestiniano democrático e independente e acordos de paz entre Israel e todos os estados árabes.

  Mahmoud Abbas tornou-se, em Março de 2003, primeiro-ministro de Yasser Arafat e o Quarteto apostou na institucionalização de um estado palestiniano.

  Na expectativa da retirada unilateral israelita de Gaza, concretizada em Agosto de 2005, o Quarteto nomeou, logo em Maio, o seu primeiro enviado especial: o antigo presidente do Banco Mundial, o australiano naturalizado norte-americano James Wolfensohn.

   O enviado nem um ano esteve no cargo. Wolfensohn demitiu-se em Abril de 2006, argumentando ser impossível instituir um estado palestiniano devido à vitória eleitoral do Hamas em Janeiro desse ano, aos crescentes conflitos políticos entre os palestinianos e às obstruções de Israel.

   Agora, o Quarteto não tem plano para relançar negociações e surge Blair por pressão de Bush.

   A credibilidade como mediador levantino do político que esta quarta-feira deixa a chefia do governo de Londres é quase nula. Blair foi com Bush o impulsionador da ocupação falhada no Iraque. No Verão do ano passado alinhou com Washington para atrasar uma trégua na guerra do Líbano de modo a dar tempo a Israel para tentar vencer o Hizballah.

   Não se vê que confiança Blair possa inspirar a palestinianos e aos estados árabes que são parte fundamental das negociações por mais que algum cínico avente que as possíveis conivências de Blair com as luvas pagas pela BAE Systems para venda de caças Eurofigher Typhoon à Arábia Saudita possam abrir portas em Riade.

   Israel tem, por sua vez, certas reservas porque Blair se opôs à expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia, mas, ainda assim, o primeiro-ministro Ehud Olmert vê com bons olhos a chegada de Blair às cercanias de Gaza.

   As pretensões israelitas de ocupação de territórios na Cisjordânia, contestadas por americanos, europeus, russos e a ONU, levantarão sempre questões delicadas seja quem for o mediador e não será por minudências que o governo de Telavive recusará um putativo mediador relativamente compreensivo.

                                 A AMBIÇÃO QUE TUDO CEGA

  No seio do Quarteto, a situação é igualmente complicada.

  A Rússia não tem confiança num chefe de governo que fez frente a Vladimir Putin e as tentativas frustradas de Moscovo para levar o Hamas a dialogar seriamente com Israel deixaram um amargo de boca ao Kremlin.

  Na União Europeia, Javier Solana verá a sua posição de mediador über alles comprometida com eventuais iniciativas paralelas de Blair e a maior parte dos estados membros duvidam da viabilidade de uma opção sustentada por Washington de apoio declarado à Fatah da Cisjordânia para isolar e levar à bancarrota o Hamas em Gaza.

  O sucessor Gordon Brown tem o mesmo problema, mas, pelos vistos, ninguém quer de momento opor-se a Bush.

  Boa parte dos parceiros europeus e a Rússia não parecem, aliás, alimentar qualquer esperança para próximos êxitos diplomáticos e preferem que outros se queimem em negociações condenadas ao fracasso.

  Tony Blair sai do governo com apenas 54 anos e tem compreensivelmente grandes ambições.

   O diálogo inter-religioso e civilizacional constam dos planos de um anglicano de simpatias católicas, o aquecimento global e suas consequências são motivação cara a político com um mínimo de discernimento, o desenvolvimento de África é outra questão a motivar iniciativas de estadista na reserva planetária.

   Agora, o avatar de enviado especial para o Médio Oriente por parte do Quarteto redunda num convite envenenado que russos e boa parte da burocracia e dos governos da União Europeia deixam sobrar para um político ambicioso que invoca o êxito negocial na Irlanda do Norte como exemplo para o Levante.

   O mais extraordinário é que o próprio Blair, já para não falar de Bush que é caso à parte, continua completamente cego quanto às nefastas consequências da invasão do Iraque para a sua credibilidade de estratego.

   O Médio Oriente, a Palestina e Israel, desorientam notoriamente até os políticos mais dotados, sobretudo, quando a folia do spin, do virar o bico ao prego, consomem vocações.


Jornal de Negócios
27 Junho 2007


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Um presidente desconcertante e dois chefes de governo equivocados

 Bush e John Howard
                                                    Forum APEC, Hanói, 18 Novembro 2006


    A vontade de "êxito instantâneo" é, afinal, uma ilusão nefasta, o Iraque uma "tarefa morosa" e difícil, mas o que conta é a determinação porque o triunfo é possível a menos que se opte pela retirada, tal a lição que, trinta e um anos após a queda de Saigão, George W. Bush diz ter retirado da guerra do Vietname ao compará-la com a actual situação em terras de Mesopotâmia.

   À desconcertante tirada de Bush na presença do seu aliado australiano John Howard, no primeiro dia de visita a Hanói, veio juntar-se a admissão por Tony Blair de que a intervenção no Iraque foi "um desastre", mas não por erros de planeamento ou devido a qualquer erro estratégico.

   Mais articulado do que o presidente norte-americano, o chefe de governo britânico culpava "as dificuldades" por motivo da violência desencadeada pela Al Qaeda e os insurrectos sunitas, por um lado, e pelas milícias xiitas apoiadas pelo Irão, por outro, contra a vontade de paz da maioria dos iraquianos.

    Determinado a manter tropas no Iraque em apoio do governo de Bagdade, Blair na sua entrevista ao canal inglês da Al Jazeera, concluiu que a dificuldade da situação residia na acção dos mesmos "elementos estrangeiros" que alimentam o extremismo global e, consequentemente, só uma estratégia de pacificação abarcando todo o Médio Oriente e o Afeganistão poderá conter a ameaça de uma corrente minoritária islamita "perversa e aberrante".

                             Blair em busca de crédito e parceiros

   A "estratégia global" de Blair passa por promover "forças moderadas" e oferecer uma parceria para "uma solução construtiva" à Síria e ao Irão a partir do momento em que designadamente Teerão abdique do apoio ao terrorismo e cumpra as suas obrigações internacionais desistindo do programa militar nuclear.

   A recusa de cooperação por parte de sírios e iranianos implica o isolamento internacional dos dois regimes, na visão do chefe de governo britânico.
Ignorando as advertências de Blair, Damasco e Teerão rapidamente tomaram a iniciativa diplomática para alargarem a sua margem de manobra no conflito sem esperarem por eventuais convites para negociações.

   A Síria restabelecia as relações diplomáticas com Bagdade cortadas em 1982 e o presidente Ahmanidejad convidada os homólogos iraquiano e sírio para uma cimeira em Teerão.

   Confrontada com as manchetes sobre o "desastre iraquiano", Downing Street viu-se obrigada a rectificar o sentido das declarações de Blair, precisando que o derrube de Saddam Hussein e a formação de um governo democraticamente eleito em Bagdade só podiam considerar-se como evoluções positivas e que o primeiro-ministro se limitara a constatar "as dificuldades existentes".

   As precisões e rectificações dificilmente terão elevado o crédito político de Blair nas capitais do Médio Oriente que, para além do caos da invasão do Iraque, ainda estão longe de lhe perdoar o apoio concedido a Israel quando Londres se recusou a apelar a um cessar-fogo imediato, em Julho, na fase inicial do ataque ao Líbano.

   De volta a Hanói, Condoleezza Rice, contagiada pelo desconcerto do seu presidente, afirmava, na mesma altura em que Blair se esquivava à apreciação desastrosa, que os iraquianos tinham boas lições a receber dos vietnamitas.

   No entender da secretária de estado os iraquianos devem preservar a sua unidade estatal e tal como os vietnamitas assumiram "escolhas difíceis" sobre os seus "conflitos internos" (eufemismo para a guerra contra a França entre 1945 e 1954 e para o posterior conflito com os Estados Unidos e os seus aliados anticomunistas) e abriram a economia ao exterior (a partir de 1986) também os povos da Mesopotâmia se seguirem o exemplo dos comunistas de Hanói terão "um futuro de paz e oportunidades".

   À encomendação da "escolha difícil" da guerra sem quartel dos líderes comunistas do Vietname e das suas reformas económicas após anos de catástrofe por parte da antiga professor universitária de Stanford, seguiu-se a vez do chefe do governo australiano que veio negar a ocorrência qualquer desastre no Iraque.

   Para John Howard é inverosímil falar em desastre pois a intervenção revelou-se apenas "mais difícil do que o esperado" e duas eleições, um referendo e o julgamento de Saddam são prova do "heroísmo" e "perseverança" dos iraquianos.

   Num fim-de-semana em que a violência fazia mais de 150 mortos no Iraque as declarações de Bush, Blair e Howard parecem, pois, revelar incapacidade em reconhecer que a situação se caracteriza pela proliferação de poderes rivais locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como pela multiplicação de bandos criminosos armados, em consequência da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein, e que nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Constatar que o exército e as forças de segurança são permeáveis à acção de milícias desafectas ao governo central e reconhecer o fracasso do executivo de Bagdade em assegurar o mínimo de consenso entre partidos xiitas, curdos e sunitas, além de se mostrar incapaz de prover condições de segurança e serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento, é acto que tão pouco parece estar ao alcance dos actuais responsáveis em Washington, Londres e Camberra.
      
                            A pergunta que faziam a Baker

   O paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, condiciona qualquer iniciativa política e acabou por deixar os três políticos implicados no fracasso à espera das propostas que a comissão Baker-Hamilton venha a aventar para puderem alterar o rumo.

   Henry Kissinger já opinou junto da comissão bipartidária que uma retirada precipitada destabilizaria por muito tempo a região, admitindo, no entanto, que o governo de Bagdade não conseguirá impor a curto prazo a sua autoridade a todo o país e controlar a violência sectária.

   Para o velho estratego só uma grande conferência internacional, com participação obrigatória da Síria e do Irão poderá definir compromissos que permitam ultrapassar o impasse.

   Da parte de Bush e de Howard, o compromisso para com um calendário de retirada faseada parece, no entanto, ser a atitude mais previsível ante as recomendações que o painel de notáveis e o grupo de análise do Pentágono venham a apresentar.

   A opção de reforço do actual contingente militar é, notoriamente, de difícil execução, de valia duvidosa e praticamente impossível de aceitar pelas opiniões públicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

   Já Blair acalenta algumas esperanças de apoio à sua vaga "estratégia global" e à possível convocação de uma grande cimeira internacional à semelhança da Conferência de Madrid orquestrada por James Baker em Outubro de 1991 com a anuência de Gorbachev no rescaldo da Operação Escudo do Deserto que obrigou Saddam a retirar do Kuwait e garantiu a autonomia das regiões curdas na zona de exclusão no norte do Iraque.

   Antes do mais, o presidente desconcertante e os dois primeiros-ministros equivocados terão, contudo, de atentar nas razões que levam James Baker a contar para quem o quer ouvir como, depois de anos passados a ser constantemente interrogado sobre as razões que o levaram a apoiar a decisão de Bush pai de não derrubar Saddam Hussein em 1991, acabou por chegar uma altura em que já ninguém via necessidade de lhe perguntar tal coisa.

   Já ninguém pergunta ao antigo secretário de Estado o porquê de tão controversa decisão que tanto amargou aos xiitas.

   Ninguém o interpela sobre tal opção desde o final de 2003, meio ano depois de Bush filho ter proclamado o "fim de operações militares significativas" no Iraque a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln com a faixa em fundo de "Missão Cumprida", quando os crescentes ataques de insurrectos e terroristas sunitas e xiitas vieram juntar-se ao caos dos primeiros meses da ocupação.



Jornal de Negócios
22 Novembro 2006

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