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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Israel confronta-se com a sua fragilidade






   Os parcos dividendos da ofensiva contra Gaza lançam as maiores dúvidas sobre a capacidade de Israel poder aventurar-se num ataque unilateral ao Irão sem sofrer um incomensurável desaire.

   Uma semana de bombardeamentos deixou a claro que, salvo uma inviável reocupação de Gaza temida pela própria população judia, Israel não conseguirá eliminar a ameaça dos mísseis do Hamas e de outras organizações islamitas.

   Uma trégua, implicando a suspensão do lançamento de mísseis a troco do aligeiramento do bloqueio imposto por Israel há cinco anos, não poderá obviar ao rearmamento do Hamas e demais organizações palestinianas.

   Os esforços israelitas para destruir redes de contrabando, como, por exemplo, os ataques ocorridos no Sudão, estão condenados ao fracasso dada a situação de insegurança na península do Sinai e o apoio do governo islamita do Cairo aos confrades do Hamas.

  Além da frente sul de Israel, sujeita a ser fustigada por mísseis de fraca precisão, também áreas do centro do país e mesmo Telavive e Jerusalém estão agora na mira de mísseis Fajr 5 de origem iraniana com um alcance de 75 quilómetros.

  A notória melhoria da capacidade do Hamas e da Jihad Islâmica no fabrico, montagem, armazenamento e lançamento de mísseis permitirá recuperar a curto prazo a degradação das suas capacidades ofensivas provocada pela actual investida israelita.

   Os inimigos em Gaza representam uma ameaça tão perigosa e destabilizadora quanto o Hizballah a norte, apesar da segurança relativa oferecida pelo sistema de defesa antimísseis Cúpula de Ferro.

   A constatação de Israel da impossibilidade de desalojar o Hamas fragiliza Mahmoud Abbas que aguarda o reconhecimento pela Assembleia Geral da ONU da Autoridade Palestiniana como estado observador.

   A ameaça de retaliações de Israel e dos Estados Unidos no caso de promoção do estatuto internacional palestiniano -- designadamente através do congelamento de contribuições e financiamentos à ONU e à Autoridade Palestiniana -- contribui para alienar os palestinianos da Cisjordânia que vêem os seus representantes incapazes de obter concessões.

   Nenhum avanço quanto ao estatuto de Jerusalém, o congelamento e desmantelamento de colonatos judaicos, o direito de retorno de refugiados e o controlo de recursos hídricos.

   Neste impasse aumenta o risco da Fatah perder o controlo da Cisjordânia e do ressentimento dos árabes israelitas -- 20% da população do estado hebraico -- extravassar em protestos de rua, enquanto na Jordânia se reforça as exigência dos Irmãos Muçulmanos que reclamam ao Rei Abdullah II o corte de relações com Israel.

   Na frente norte, onde a imponderabilidade da guerra civil na Síria condiciona o Hizballah e priva Israel de um inimigo fiável, o estado hebraico confronta-se com as consequências do fracasso estratégico do confronto de 2006 que consagrou os xiitas libaneses como irredutível força militar.

   A retaguarda israelita apresenta-se, portanto, muito insegura e a população judia acaba de sofrer novo choque psicológico ao ser confrontada com acrescida vulnerabilidade a ataques de mísseis.

   O risco de isolamento diplomático no caso de Israel enveredar por acções militares que resultem em significativas baixas civis entre o inimigo começa também a fazer-se sentir entre uma população que, na ausência de garantias credíveis de segurança, tenderá, no entanto, a votar em forças políticas que rejeitam qualquer compromisso territorial.

   Perdido o contrapeso estratégico que representava a Turquia o isolamento israelita no Médio Oriente é avassalador.

   A conjugação pontual de interesses contra o Irão com as monarquias sunitas do Golfo, o Arzebeijão e alguns grupos curdos não basta para Israel se lançar numa eventual acção militar com ou sem apoio prévio dos Estados Unidos.

   A extrema fragilidade da situação nas conflituosas fronteiras de Israel obriga a uma mobilização total de recursos e riscos generalizados para os civis judeus em caso de guerra com o Irão, nova ronda de confrontos em todas as frentes, e esta realidade só a pouco e pouco começa a ser compreendida.

Jornal de Negócios
21 Novembro 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Roteiro da Guerra no Médio Oriente

 
   Yasser Arafat considerava insensato comparar Ariel Sharon a Charles de Gaulle e o primeiro-ministro de Israel, por seu turno, classificava como um equívoco a analogia com o presidente francês porque, dizia, «a Argélia é aqui, os judeus não têm para onde partir e o estado de Israel é central para todas as comunidades judias dispersas pelo mundo».
 
   Por uma vez os dois inimigos concordavam numa apreciação crucial que justificou toda a carreira política de Sharon, ainda que, desde 1988, o político do Likud afirmasse ter começado a admitir a necessidade de descartar territórios que não fossem vitais à segurança do estado de Israel.

   Só em 2004, no entanto, Sharon começou a concretizar os planos de definição unilateral de fronteiras, mediante a neutralização militar e isolamento diplomático do adversário.

  Os objectivos que guiavam Sharon passavam por assegurar profundidade estratégia mínima, capacidade de dissuasão e projecção de força superiores a todos os estados vizinhos, coesão étnica e preservação da aliança com os Estados Unidos.

   A sua estratégia continha, no entanto, lapsos consideráveis para sustentar a pacificação regional.

   Os elementos mais óbvios das insuficiências do projecto a longo prazo de Sharon tinham a ver com a recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, a manutenção do carácter judaico e democrático do estado -  tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala - e, sobretudo, a viabilidade e estabilidade de um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia.

   O estratego desapareceu sem dar resposta a estas contradições, ainda que tenha enterrado definitivamente a quimera da «Grande Israel», e saiu de cena precisamente numa conjuntura em que sopram ventos de guerra no Médio Oriente.

   Evocar o pior cenário possível é uma questão de avaliação da magnitude e probabilidade dos riscos e implica uma conjunção e imbricação de variáveis a curto prazo.

  Precisamente por isso, falhado o objectivo do Roteiro de Paz, patrocinado pela ONU, União Europeia, Rússia e Estados Unidos, que apontava para uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, é altura de apurar os riscos de um Roteiro de Guerra.

   Incapazes de separar o estado de Israel da turbulência nos territórios palestinianos, os dirigentes israelitas, ainda que possam conter em limites toleráveis eventuais vagas terroristas, terão de coexistir com uma Autoridade Palestiniana em que o peso dos integristas do Hamas será cada vez maior.

   O cenário de um desfasamento acentuado de interesses imediatos entre os palestinianos da Cisjordânia e a anarquia de Gaza, implicando um comprometimento directo do Egipto, não obsta a que Israel tenha de definir a médio prazo as condições aceitáveis de viabilidade de uma entidade estatal árabe nas suas fronteiras.

   A anexação dos colonatos judeus próximos à linha de fronteira de 1967 na Cisjordânia só teria viabilidade se o estado palestiniano escapasse à lógica dos bantustões que a elite militar e política de Israel persiste em impor, ignorando, ainda, concessões simbólicas na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados palestinianos.

   Tendo em conta o imponderável da evolução do Hamas, que à semelhança do Hizballah no Líbano, nunca irá abdicar da componente armada, Israel viu falhar, para já, a opção Mahamoud Habbas.

  Tudo o que vier será para pior.

  Na fronteira norte, o regime do presidente Bashar Al Assad dificilmente sobreviverá à crise provocada pelo assassínio de Rafic Hariri, sendo o regresso à primeira linha dos Irmãos Muçulmanos e o ajuste de contas com a minoria alauíta dados incontornáveis.

  A questão adiada do retorno dos Montes Golã para efeitos de contenção da Síria e da neutralização do Líbano irá colocar-se a curto prazo aos dirigentes israelitas.

   Na frente interna, um futuro governo israelita não terá condições para levar a cabo o desmantelamento de colonatos na Cisjordânia, mesmo limitado a áreas envolvendo 80 mil dos 240 mil colonos, e, sobretudo, nunca poderá aventar argumentos de reforço de segurança em fronteiras definidas unilateralmente dada a degradação da autoridade da Fatah nos territórios palestinianos.

  Acresce que qualquer governo de Israel terá de dar provas de força para conter previsíveis actos terroristas ao mesmo tempo que tentará acelerar o ritmo de redução de importações de produtos e, sobretudo, de mão-de-obra palestiniana, agravando, necessariamente, a crise económica e social nos territórios.

  Finalmente, a questão mais gravosa e imponderável passa pela resposta a dar ao programa nuclear militar iraniano.

   As estimativas israelitas apontam para um ponto de não-retorno no programa nuclear de Teerão ainda este ano.

  A complexidade da situação foi agravada pela decisão norte-americana de vender a Israel, em Fevereiro do ano passado, 500 bombas convencionais de penetração capazes de atingir instalações subterrâneas, enquanto Moscovo acordava, em Dezembro, o fornecimento de 30 sistemas TOR-M1 de defesa anti-aérea a Teerão.

   A eventualidade de um ataque israelita a alvos iranianos é uma hipótese muito crível, tanto mais que os apoiantes do presidente Mahmoud Ahmadinejad se revelam avessos a qualquer compromisso diplomático, contando a seu favor com a dificuldade de êxito de uma acção militar e as gravosas consequências que acarretaria.

   Mesmo sem levar em linha de conta uma eventual guerra civil no Iraque, nem um atentado em larga escala da Al Qaeda, a concretização negativa de duas ou três situações de risco são mais do que suficientes para considerar muito crível o agravamento da situação no Médio Oriente, admitindo, mesmo, a probabilidade alta de confrontos militares.

  É o roteiro que poderá levar o barril de petróleo até aos cem dólares.   

Jornal de Negócios
11 Janeiro 2006

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domingo, 9 de setembro de 2012

Outro Verão de guerra no Médio Oriente


Mavi Marmara

   Já se vinha notando que o governo de Jerusalém não mede bem as consequências dos seus actos e o ataque aos navios que transportavam ajuda humanitária para Gaza é apenas mais um passo numa escalada que degenerará em grave dano para Israel.

   O ataque aos navios mobilizados por organizações pró-palestinianas, incluindo apoiantes do Hamas, teve um cunho acentuadamente violento, deixando perceber uma acção premeditada e previamente autorizada ao mais alto nível.

   A operação dos comandos israelitas, notoriamente mal montada com recurso essencialmente a forças helitransportadas, não excluía à partida o uso de força letal, no que pode ser entendido como uma acção exemplar de dissuasão.

   A alternativa de interceptar os navios na zona de bloqueio fora excluída, depois do movimento Free Gaza ter recusado entregar a carga em portos israelitas para posterior envio para Gaza sob supervisão israelita .

   Romper o bloqueio a Gaza era o objectivo declarado dos militantes pró-palestinianos e seus apoiantes que, desde o Verão de 2008, têm vindo a organizar o envio de ajuda humanitária por via marítima.

   As primeiras cinco iniciativas foram actos de pouca monta e chegaram a bom porto, mas depois dos confrontos no final de 2008 entre as forças israelitas e o Hamas, Israel passou a impedir a atracagem.

    A última investida a ter sucesso implicaria o risco de romper de vez o bloqueio marítimo e poderia dar lugar a novas iniciativas ainda mais espectaculares.

   O governo de Jerusalém optou por uma acção de força para salvaguardar um objectivo tido por essencial: o bloqueio do território controlado pelo Hamas.

    As autoridades israelitas violaram a lei internacional ao atacar e apreender os navios, seus tripulantes e passageiros, fora do limite de 20 milhas náuticas da águas territoriais de Gaza onde Israel impõe um bloqueio marítimo.

                                     Os Goyim que se danem!

   Os estrategos israelitas voltaram, contudo, a pecar por arrogância e deixaram-se levar por um crescente sentimento de impunidade derivado de anos de políticas de ocupação, segregação e ataques militares contra inimigos intratáveis (civis, militares ou terroristas, sem distinção) que aparentemente legitimam qualquer abuso desde que esteja assegurado o respaldo em último recurso dos Estados Unidos.

   O bloqueio a Gaza imposto após o golpe do Hamas contra a Fatah em 2007 não cumpre presentemente objectivos de segurança úteis.

   É uma punição colectiva a milhão e meio de palestinianos com gravíssimas consequências humanitárias.

   Israel permite alguns abastecimentos de forma limitada e com uma lógica estranha e medidas arbitrárias: são autorizadas, por exemplo, importações de chá, café, e canela, mas proíbe-se o chocolate, os coentros ou brinquedos de plástico.

   Para cimento ou artigos de metal são exigidas garantias de que não se destinem à construção de bunkers ou lançadores de mísseis para os combatentes do Hamas.

   O contrabando via Egipto, que abarca desde artigos de consumo corrente a armas e Mercedes, não obsta a que 10 por cento do milhão e meio de palestinianos de Gaza sofram de subnutrição e a economia local acumule "danos irreversíveis", segundo a ONU.

    O Hamas factura politicamente, não desarma, tem sempre em reserva a alternativa de lançar ataques que provoquem uma retaliação e, assim, limita as escassas alternativas da Fatah de Mahmoud Abbas acantonada na Cisjordânia.

   O governo de Benjamin Netanyahu ao afirmar que Israel exerceu um direito de autodefesa face a uma provocação política de apoiantes violentos de terroristas lançou mais achas à fogueira.
  
   Impera a ideia de que os Goyim, os gentios, já foram complacentes num Holocausto e nunca entenderão as necessidades de defesa de Israel contra a intransigência e vontade dos árabes (e persas) de aniquilarem todos os judeus.

   Israel fará o que tiver de ser feito e os Goyim que se danem!

                        Um calimero sem graça e sem norte

   Um pequeno estado, dependente de uma rede internacional de suporte, não pode deixar-se enlear numa imagem de intransigência e violência desproporcionada que aliena cada vez mais apoios políticos.

   Israel arrisca ser tido como um calimero nuclear; uma potência militar disposta a tudo, sempre de dedo no gatilho, e que se queixa de ser incompreendida.

   Em vez de cultivar alianças regionais e globais numa lógica de contenção pela força em último recurso, Israel enveredou pela prepotência em territórios ocupados, sob tutela e bloqueados, sem considerar qualquer hipótese negocial como se evidencia pela expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

    O calimero israelita, que tem todas as razões para temer o ódio dos vizinhos, recusa, no entanto, negociar concessões a qualquer potencial aliado ou entidade não-hostil e limita-se ao curto prazo quando a demografia, a começar pelo peso dos ultra ortodoxos judeus (que acentua o cunho étnico-religioso do estado) e dos árabes em Israel (cuja discriminação põe em causa o regime democrático), mostrar ser insustentável persistir nessa política.

   A degradação das relações com a Turquia governada pelos islamitas moderados de Recip Erdogan, que já se vinha acentuando desde os confrontos em Gaza em 2008, priva Israel do único aliado histórico que lhe restava no Médio Oriente depois do Irão passar a inimigo fatal com a revolução khomeinista de 1979.

   O Egipto terá cada vez maior dificuldade em justificar o seu próprio bloqueio a Gaza e sobram para árabes israelitas, 20 % da população, apelos a uma terceira Intifada.

   O Hizballah no Líbano e seus apoiantes iranianos ganham pretextos para vingar a invasão do Verão de 2006 que, aliás, se saldou por um malogro estratégico para Israel e degradou ainda mais a imagem de eficácia e superioridade militar e moral das forças armadas posta em xeque desde a guerra do Líbano de 1982 e da Intifada de 1987.

   Depois de ter hostilizado a administração Obama com a construção de novos colonatos pondo em causa aquilo que deveria ser, segundo suas próprias alegações, o objectivo fundamental de ganhar apoio diplomático para conter o programa militar nuclear do Irão, o governo de Jerusalém continua a disparar e disparatar em todas as frentes.

   Um destes dias alguém na Casa Branca poderá vir a retomar a tirada equívoca do general De Gaulle em 1967 crismando todo o povo judeu, confundido com a política momentâneo de certos governos, como nação segura de si e dominadora em detrimento de todos os outros.

                                  Outra guerra vinha a calhar

   Uma das tentações para sair do impasse passa por exacerbar tensões de modo a provocar uma vaga de atentados terroristas ou ataques militares contra Israel - sempre justificados na lógica de extermínio anti-judaico prevalecente entre islamistas, largo espectro de nacionalistas árabes e em Teerão - que legitime uma retaliação em força.

   Uma guerra eventualmente bem sucedida, ao contrário do que ocorreu no Líbano em 2006, ou repetidas vezes em Gaza, permitiria no curto prazo a Israel ganhar fôlego ainda que a noção estratégica de coexistência no Médio Oriente tivesse de aguardar por melhores dias.

   Tem um problema: os judeus preservaram tradições para reinventarem uma ideia de nação que suscitou um projecto de estado reivindicado pela força e através de uma ocupação de tipo colonial no século XX não podem limitar-se a expedientes de curto prazo.

   Ameaça-os uma solidão temível ao perderem o norte e remeterem-se a expedientes de guerra num meio hostil.




Jornal de Negócios
02 Junho 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=428593

Blair das Arábias




   O barão Michael Abraham Levy termina hoje as funções de enviado especial do primeiro-ministro do Reino Unido para o Médio Oriente e o deputado trabalhista por Sedgefield, Anthony Charles Lynton Blair, prepara-se para assumir o cargo de enviado especial do Quarteto, o grupo negocial USA-UE-Rússia-ONU para a desordem israelo-palestiniana.

   Nada consta de útil quanto aos cinco anos de pretensa mediação levantina do empresário milionário da música pop britânica, líder da comunidade judaica em terras de Isabel II, angariador de fundos e influências por conta dos trabalhistas, elevado por Blair à Câmara dos Lordes em 1997, que continua a contas com a justiça por alegadas vendas de títulos nobiliárquicos em prol de sustento ao governo e ao partido.

   Muito consta, por outro lado, da maquinação da futura encarnação de Tony Blair fruto de meses de congeminações em Washington que desconcertaram as chancelarias.

   Desde que a nomeação de Blair começou a ser ventilada na semana passada por Condoleezza Rice passaram off the record para a imprensa votos de consternação da parte do ministro dos negócios estrangeiros alemão Frank-Walter Steinmeier que presentemente lidera a representação europeia no Quarteto.

   Reticências sérias chegaram também a público por via do denodado Javier Solana e o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov, após manifestar umas quantas objecções, optou por deixar correr o marfim.

   Gordon Brown fechou-se em copas e o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon viu-se reduzido à sua impotência que começa a tornar-se preocupante.

                       UM MEDIADOR DESCONCERTANTE

   O Quarteto foi criado em 2002 na sequência da declaração de Junho de George W. Bush a favor da criação de um estado palestiniano independente que oferecesse garantias de segurança a Israel.

   Em Abril de 2003, o Quarteto apresentou um plano: o Roteiro de Paz.

  Visava uma solução final e compreensiva do conflito israelo-palestiniano a concretizar-se em 2005. O objectivo passava pelo estabelecimento de um estado palestiniano democrático e independente e acordos de paz entre Israel e todos os estados árabes.

  Mahmoud Abbas tornou-se, em Março de 2003, primeiro-ministro de Yasser Arafat e o Quarteto apostou na institucionalização de um estado palestiniano.

  Na expectativa da retirada unilateral israelita de Gaza, concretizada em Agosto de 2005, o Quarteto nomeou, logo em Maio, o seu primeiro enviado especial: o antigo presidente do Banco Mundial, o australiano naturalizado norte-americano James Wolfensohn.

   O enviado nem um ano esteve no cargo. Wolfensohn demitiu-se em Abril de 2006, argumentando ser impossível instituir um estado palestiniano devido à vitória eleitoral do Hamas em Janeiro desse ano, aos crescentes conflitos políticos entre os palestinianos e às obstruções de Israel.

   Agora, o Quarteto não tem plano para relançar negociações e surge Blair por pressão de Bush.

   A credibilidade como mediador levantino do político que esta quarta-feira deixa a chefia do governo de Londres é quase nula. Blair foi com Bush o impulsionador da ocupação falhada no Iraque. No Verão do ano passado alinhou com Washington para atrasar uma trégua na guerra do Líbano de modo a dar tempo a Israel para tentar vencer o Hizballah.

   Não se vê que confiança Blair possa inspirar a palestinianos e aos estados árabes que são parte fundamental das negociações por mais que algum cínico avente que as possíveis conivências de Blair com as luvas pagas pela BAE Systems para venda de caças Eurofigher Typhoon à Arábia Saudita possam abrir portas em Riade.

   Israel tem, por sua vez, certas reservas porque Blair se opôs à expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia, mas, ainda assim, o primeiro-ministro Ehud Olmert vê com bons olhos a chegada de Blair às cercanias de Gaza.

   As pretensões israelitas de ocupação de territórios na Cisjordânia, contestadas por americanos, europeus, russos e a ONU, levantarão sempre questões delicadas seja quem for o mediador e não será por minudências que o governo de Telavive recusará um putativo mediador relativamente compreensivo.

                                 A AMBIÇÃO QUE TUDO CEGA

  No seio do Quarteto, a situação é igualmente complicada.

  A Rússia não tem confiança num chefe de governo que fez frente a Vladimir Putin e as tentativas frustradas de Moscovo para levar o Hamas a dialogar seriamente com Israel deixaram um amargo de boca ao Kremlin.

  Na União Europeia, Javier Solana verá a sua posição de mediador über alles comprometida com eventuais iniciativas paralelas de Blair e a maior parte dos estados membros duvidam da viabilidade de uma opção sustentada por Washington de apoio declarado à Fatah da Cisjordânia para isolar e levar à bancarrota o Hamas em Gaza.

  O sucessor Gordon Brown tem o mesmo problema, mas, pelos vistos, ninguém quer de momento opor-se a Bush.

  Boa parte dos parceiros europeus e a Rússia não parecem, aliás, alimentar qualquer esperança para próximos êxitos diplomáticos e preferem que outros se queimem em negociações condenadas ao fracasso.

  Tony Blair sai do governo com apenas 54 anos e tem compreensivelmente grandes ambições.

   O diálogo inter-religioso e civilizacional constam dos planos de um anglicano de simpatias católicas, o aquecimento global e suas consequências são motivação cara a político com um mínimo de discernimento, o desenvolvimento de África é outra questão a motivar iniciativas de estadista na reserva planetária.

   Agora, o avatar de enviado especial para o Médio Oriente por parte do Quarteto redunda num convite envenenado que russos e boa parte da burocracia e dos governos da União Europeia deixam sobrar para um político ambicioso que invoca o êxito negocial na Irlanda do Norte como exemplo para o Levante.

   O mais extraordinário é que o próprio Blair, já para não falar de Bush que é caso à parte, continua completamente cego quanto às nefastas consequências da invasão do Iraque para a sua credibilidade de estratego.

   O Médio Oriente, a Palestina e Israel, desorientam notoriamente até os políticos mais dotados, sobretudo, quando a folia do spin, do virar o bico ao prego, consomem vocações.


Jornal de Negócios
27 Junho 2007


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Atolados de Gaza ao Jordão

 Faixa de Gaza


   É a última quimera nas chancelarias europeias e de Washington: apoiar um governo da Fatah na Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, e isolar Gaza com a ajuda do Egipto e a cumplicidade das monarquias sunitas do Médio Oriente.

   A melhoria das condições de vida dos dois milhões e meio de palestinianos da Cisjordânia, graças à eficiência e lisura administrativas da Fatah e à boa vontade de Israel, será, neste cálculo, o factor decisivo para provar a existência de uma alternativa credível aos habitantes de Gaza que acabarão por repudiar o Hamas.

   Os progressos nas negociações entre a Autoridade Palestiniana e Israel acabarão neste cenário por selar o isolamento e impotência dos islamitas a quem serão negadas quaisquer concessões políticas. Ao Hamas apenas será concedido o acesso a ajuda humanitária de emergência, fluxos mínimos de abastecimentos – electricidade, água, combustíveis – e trocas comerciais para obviar ao colapso de Gaza.

   Num primeiro momento Israel aceitou desbloquear cerca de 400 milhões de dólares de impostos e taxas devidos à Autoridade Palestiniana.

  Abbas reiterou, por sua vez, o compromisso de reconhecimento dos acordos estabelecidos entre a Autoridade Palestiniana e Israel. A União Europeia comprometeu-se a retomar a ajuda financeira embargada desde a formação do governo do Hamas em Março de 2006 e Washington pronunciou-se no mesmo sentido.

                                    A Fatah das quimeras

   Em Ramallah a nomeação para chefe de governo de Salam Fayyad, ministro das finanças entre 2002 e 2005, foi a solução encontrada dar uma nota de seriedade a um executivo sem figuras de peso político.

   Fayyad, que terá também a seu cargo as pastas dos negócios estrangeiros e das finanças, é, no entanto, apenas a face aceitável para uma reaproximação às capitais ocidentais. Os seus apoios políticos derivam do exterior, a sua margem de manobra está condicionada pelos interesses das facções da Fatah.

   O afastamento do antigo homem forte da Fatah em Gaza, Mohammed Dalan, foi entretanto consumado com a dissolução do Conselho Nacional de Segurança e a reorganização das forças de segurança ficou confiada a Abd Al Yahia, velho adversário de Arafat e falhado ministro do Interior nos idos de 2002.

   Al Yahia, que aos 78 anos é outra vez cara nova num sector fulcral da governação, reconheceu imediatamente não ter qualquer ideia de como impor em Gaza a ilegalização das milícias do Hamas, enquanto a Fatah prosseguia o desmantelamento das instituições ligadas aos islamitas na Cisjordânia.

   Independentemente do executivo nomeado por Abbas não ser reconhecido por um parlamento dominado pelo Hamas, cujos deputados são invariavelmente detidos por Israel, do presidente usurpar poderes e de ser impossível convocar eleições, a questão essencial tem a ver com a existência de uma efectiva dualidade de poderes: Gaza está nas mãos dos islamitas e a Cisjordânia sob controlo da Fatah.

   As duas forças não renegam o princípio de uma única entidade palestiniana, mas, na prática, agrava-se o fosso entre os habitantes de Gaza e da Cisjordânia.

   O primeiro problema para a Fatah será criar uma estrutura administrativa e de segurança na Cisjordânia expurgada de elementos do Hamas e gerir a ajuda internacional sem dar a impressão de que abandona à sua sorte os palestinianos de Gaza.

   A derrocada militar em Gaza não propicia grande confiança para o eventual esforço de apoio bélico à Fatah por parte de Israel, dos Estados Unidos e dos regimes árabes sunitas seus aliados.

   Práticas de boa governança são, por outro lado, impossíveis de criar num território sob controlo militar externo e dependente economicamente de Israel. Certas áreas da Cisjordânia – Nablus, por exemplo, onde o Hamas é maioritário – são tão ingovernáveis quanto Gaza.

   A segunda questão premente passa por Abbas conseguir que Israel liberte presos palestinianos, em particular o influente Marwan Barghouti, condenado a cinco penas de prisão perpétua, como sinal de boa vontade negocial.

   Dificilmente Israel cederá neste ponto e caso Barghouti voltasse a Ramallah constituir-se-ia à sua volta uma nova frente política capaz de agregar os descontentes da Fatah e islamitas próximos do Hamas e da Jihad Islâmica.

   Em terceiro lugar, os termos de eventuais negociações com Israel são absolutamente desfavoráveis à Fatah e condenam Abbas ao fracasso.

                            Israel sem interesse em concessões

   A esmagadora maioria dos israelitas recusa concessões territoriais que levem ao desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, que albergam 450 mil judeus, e apoia a manutenção da barreira de segurança e a fixação unilateral de fronteiras.

   Todas as sondagens indicam, ainda, que em Israel, após o fracasso da retirada unilateral de Gaza, o descalabro militar no Líbano e ante a persistência de ataques terroristas intermitentes oriundos dos territórios palestinianos, não existem condições políticas para negociações.

   Nem a partilha de Jerusalém é aceite, nem compensações aos quatro milhões de refugiados palestinianos estão em agenda.

   Transformar a Fatah numa entidade clientelar e subordinada numa Cisjordânia enxameada de colonatos e controlos militares israelitas é uma tentação impossível dado o irredentismo palestiniano.

   Após as primeiras tentativas de conversações Israel tentará convencer os seus aliados de que Abbas não reúne quaisquer condições para fazer valer compromissos de segurança e controlo administrativo na Cisjordânia.

   Israel terá ainda de negociar com o Hamas os controlos fronteiriços de Gaza e a passagem de boa parte da ajuda internacional que sustenta 85 por cento dos 1,4 milhões de palestinianos do enclave.

   Da parte do Cairo não se poderá esperar muito para evitar o contrabando e entrada de armamento em Gaza em contrapeso à ajuda internacional pois uma cooperação declarada com Israel não seria de bom-tom para o regime de Mubarak apostado no combate aos islamitas egípcios, parceiros do Hamas, mas necessitado da legitimidade que só a alegada solidariedade árabe confere.

   O Egipto, tal como a Jordânia ou a Arábia Saudita não podem, além disso, cortar as pontes com os islamitas palestinianos pois caber-lhes-á a curto prazo a tentativa de relançar negociações entre a Fatah e o Hamas.

                                         O crescente verde

   Os islamitas de Ismail Haniya em Gaza tenderão no imediato, por força da necessidade de negociar directamente com Israel, a evitar confrontos com o exército de Telavive e deixarão provavelmente a retórica de rejeição da existência do estado judaico para os seus correligionários exilados em Damasco sob a chefia de Khaleed Meshall a quem coube já, também, os primeiros sinais de abertura para negociações com Abbas.

   O sucesso da islamização de Gaza é uma incógnita e a possibilidade de actos de provocação e de acções terroristas a partir do enclave deixa em aberto a eventualidade de ataques israelitas que tenderão a ficar aquém da reocupação, apesar de Israel poder optar por estabelecer zonas tampão no norte e no sul do enclave.

   Os equilíbrios que vierem a ser conseguidos nas próximas semanas estarão dependentes de saber quem quebrará primeiro e da instável situação no Líbano.

   De um lado, o Hamas que caso se veja incapaz de administrar Gaza poderá optar por lançar novas ofensivas contra Israel.

   Do outro, Abbas que impotente para se afirmar como líder nacionalista capaz de arrancar concessões a Israel arrisca ver ruir o domínio da Fatah na Cisjordânia.

   Seja como for um nacionalismo palestiniano com uma vertente acentuadamente islamita tenderá a afirmar-se cada vez mais.

  Até porque por parte de Israel não se justifica presentemente fazer concessões aos palestinianos e nenhuma pressão norte-americana nesse sentido se fará sentir nos tempos mais próximos.



Jornal de Negócios
20 Junho 2007

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Um clima de desorientação

 Atentado Mesquita Buratha,
                                                       Bagdade, 7 Abril 2006
   Uma sucessão de impasses militares e diplomáticos está a provocar uma catadupa de iniciativas desconexas que revelam profunda desorientação e descoordenação face às crises que se agravam do Levante ao subcontinente indiano.

   A constatação de que o Irão não será sujeito a sanções económicas e financeiras gravosas, selada pelas declarações de Jacques Chirac acerca do diálogo imperativo com Teerão e agravada pela constatação da inviabilidade de um ataque militar norte-americano, evidenciou no imediato os riscos de proliferação nuclear.

   Gamal Mubarak, o filho e putativo herdeiro do presidente egípcio, elaborou, assim, acerca da necessidade do país enveredar por um programa de produção de energia nuclear para fins exclusivamente civis. O ministro da energia concretizou, anunciado de seguida que o Egipto investiria 1,5 mil milhões de dólares na construção de uma central de 1000 MW a inaugurar em 2015.

   A Turquia que, tal como o Egipto, é signatária do Tratado de Não- Proliferação mantém, por sua vez, o projecto de construção de três centrais até 2015, enquanto a Arábia Saudita guarda silêncio sobre eventuais opções nesse sentido.

   Nos últimos meses os estados do Golfo iniciaram, no entanto, discussões preliminares sobre a viabilidade de programas nucleares civis.

   Os riscos destes eventuais programas nucleares acabarem por incorporar componente militares são elevadíssimos face à prossecução dos projectos iranianos que ganhou esta semana novo alento com a confirmação por parte de Moscovo de que cumprirá as suas obrigações contratuais de forma à central de Busher entrar em funcionamento em Novembro de 2007.

   O interesse em obter garantias mútuas informais de não-agressão face às ameaças de Teerão e dos seus aliados explica, por seu lado, as fugas de informação sobre os primeiros contactos de alto nível entre representantes israelitas e sauditas.

   O entendimento entre Telavive e Riade esbarra, contudo, na impossibilidade presente de Israel oferecer concessões na questão palestiniana.

    O descalabro libanês e a recusa terminante do Hizballah em desarmar as suas milícias retirou margem de manobra ao governo de Ehud Olmert que abandonou os planos para uma retirada unilateral da Cisjordânia. As sondagens indicam uma acentuada viragem à direita do eleitorado israelita favorecendo o Likud de Benjamin Netanyahu em detrimento do Kadima de Olmert e dos trabalhistas de Amir Peretz.

   A incapacidade das facções da OLP que ainda aceitam a autoridade do presidente Mahmoud Abbas em imporem uma partilha de poderes ao Hamas em Gaza e o reconhecimento indirecto de Israel condenam, por seu turno, os palestinianos ao isolamento diplomático e à ruína financeira.

   Nesta conjuntura são vãs as esperanças de qualquer compromisso nos termos da proposta avançada pelos sauditas em 2002 que implicava o reconhecimento de Israel pelos estados árabes em troca da retirada dos territórios palestiniano e sírio ocupados em 1967, do estatuto de Jerusalém Oriental como capital de um estado independente e de uma vaga "solução justa" para os mais de quatro milhões de refugiados palestinianos.

                                     Uma guerra perdida

   À apreensão generalizada dos estados árabes sunitas, da Turquia e da Arménia de que Teerão conseguirá levar avante o seu programa e dotar-se de armas nucleares junta-se a constatação de que as possibilidades de pacificação do Iraque são praticamente nulas.

   Todos os partidos curdos e xiitas continuam a aumentar as exigências de autonomia à custa do governo central e a decisão de adiar por dois anos a criação legal de regiões tem sobretudo a ver com o cálculo por parte dos xiitas de que os Estados Unidos ver-se-ão obrigados até lá a retirar do Iraque. Só os curdos pela voz do presidente Talabani expressam interesse público em albergar tropas norte-americanas.

   Uma sondagem encomendada pelo Pentágono e revelada esta semana pela BBC expressa em toda a sua extensão a impossibilidade de conter a insurreição e o terrorismo dos grupos sunitas e a escalada de ataques e retaliações das milícias xiitas.

   Encurralada e politicamente impotente a minoria de cinco milhões de sunitas aparenta agora apoiar esmagadoramente a insurreição armada contra as tropas da coligação norte-americana e britânica.

   Se em 2003 apenas 14 por cento dos sunitas inquiridos manifestavam apoio aos ataques presentemente esse número subiu para 75 por cento, segundo o estudo encomendado pelo Departamento de Defesa de Washington. 

   Fracassado o projecto de democratização no Iraque aumentam as preocupações pelo efeito mobilizador que o conflito tem causado entre radicais sunitas e xiitas seduzidos pela propaganda islamita.

   A estimativa conjunta das 16 agências de informação dos Estados Unidos de que a guerra no Iraque tem aumentado a base de recrutamento de grupos terroristas no Médio Oriente, a nível internacional e junto das comunidades de imigrantes muçulmanos e seus descendentes segue-se a idêntica análise feita no início do ano pelos serviços secretos britânicos.

                                       Um pacto com o diabo

   O panorama fica mais negro pelo fracasso do contingente multinacional em assegurar a segurança nas regiões rurais do Afeganistão que retornou ao padrão tradicional de sustento de milícias tribais pela produção e tráfico de ópio e heroína.

   O Paquistão, por seu turno, acaba de agravar a periclitante situação do governo de Hamid Karzai, que se encontra confinado a Cabul, ao mesmo tempo que vê deteriorem-se as relações com Nova Delhi que alega cumplicidade de Islamabade em grande número de ataques terroristas na Índia.

   O acordo selado entre os líderes tribais do Waziristão e Islamabade para retirada das tropas governamentais da província é uma cedência dos militares na esperança de evitar que a crescente radicalização dos pashtun provocada pelo reforço do movimento taliban acabe por fragilizar ainda mais o regime de Pervez Musharraf.

   O cálculo de que a liberdade de movimentos dos taliban no Waziristão confinará as suas investidas ao território do Afeganistão poderá, no entanto, revelar-se errado em detrimento quer do governo de Cabul, quer de Islamabade se prosseguir a radicalização dos 40 milhões de pashtun que representam mais de 15 por cento da população do Paquistão e cerca de 40 por cento dos alegados súbditos do estado afegão.

   A região fronteiriça é assim refúgio natural para dirigentes da Al Qaeda que continua muito activa ainda que de forma mais descentralizada. Desde Setembro de 2001 os fiéis de Bin Laden dirigiram, financiaram ou participaram directamente em 30 ataques em 12 países que causaram 2060 feridos e 440 mortos, de acordo com um estudo da Rand Corporation para a Agência de Segurança Interna dos Estados Unidos.

   A estes ataques da responsabilidade da Al Qaeda juntam-se os atentados perpetrados no Iraque e as acções de grupos radicais islamitas independentes que se tornaram mais letais nos últimos cinco anos do que em qualquer período precedente.

   No encadeamento de todas estas crises surge um elemento comum.

   A administração Bush mostra-se incapaz de articular iniciativas diplomáticas coerentes em pelo menos quatro questões fulcrais: o programa nuclear iraniano, a guerra do Iraque, o conflito israelo-palestiniano-árabe, além do Afeganistão.

    Os Estados Unidos em vez de promoverem ou coordenarem iniciativas diplomáticas estão assim cada vez mais sujeitos aos riscos das acções que os seus aliados e parceiros decidem assumir unilateralmente.


Jornal de Negócios
27 Setembro 2006

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Um descalabro estratégico no Líbano


 
 
   Eliminar o Hizballah como força militar com capacidade para atacar Israel é o objectivo imediato de Telavive na frente de guerra libanesa, mas as implicações políticas obrigam a rever os pressupostos sobre a segurança do estado judaico.

   A oportunidade para Telavive atacar o Hizballah surgiu quando o líder xiita Hassan Nasrallah abriu as hostilidades numa tentativa de criar uma frente alargada de luta contra Israel - cavalgando a onda de confrontos em Gaza - e de paralisar as veleidades anti-sírias do governo de Beirute que passavam pelo desarmamento das milícias xiitas.

   O patrocínio sírio - com Bashar Al Assad enfraquecido pela retirada forçada do Líbano no ano passado e sob inquirição da ONU no assassínio do chefe de governo libanês Rafic Hariri - e o apoio de Teerão, grata por mais uma carta negocial na questão nuclear, bastaram a Nasrallah para se lançar ao ataque.

   O Hizballah precisava, igualmente, de reforçar a sua posição face às crescentes críticas no governo de coligação de Beirute à recusa das milícias xiitas em desarmarem em contravenção à Resolução 1559 adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2004.

   Apesar de o Hizballah ter conseguido fazer reconhecer ainda no início deste ano o seu estatuto de «movimento de resistência legítimo» por parte do primeiro-ministro Fouad Siniora, a questão do desarmamento das milícias xiitas (mas, também, dos grupos palestinianos sunitas) e o alargamento do controlo governamental à totalidade do país (designadamente à zona fronteiriça com Israel) continuavam a ser levantadas pelos partidos druzos, sunitas e cristãos.

   A cooperação das forças de segurança de Beirute com o FBI no desmantelamento de uma célula terrorista alegadamente implicada no planeamento de um ataque terrorista a um túnel ferroviário entre Nova Jérsia e Manhattan (anunciado no início deste mês, mas resultando de uma operação que decorria desde o principio do ano) foi mais um sinal de que, a prazo, a coligação anti-síria poderia fazer perigar o estatuto especial reclamado pelo Hizballah.

   Nasrallah precisava de avançar e fazer valer as suas credenciais de único líder árabe que alguma vez conseguiu fazer frente a Israel, obrigando-a a retirar em 2000 e a aceitar quatro anos depois a libertação de 30 presos libaneses e 420 detidos palestinianos a troco dos cadáveres de três soldados israelitas e de um empresário judeu capturado no Líbano, além da entrega de mapas dos campos de minas estabelecidos por exército de Israel no sul do país.

   Libertar os presos árabes das cadeias israelitas e reforçar a aliança com o Hamas - que data de Dezembro de 1992 quando o Hizballah tomou a seu cargo a segurança dos 414 militantes islamitas palestinianos deportados por Israel para o sul do Líbano - foram os objectivos proclamados por Nasrallah que, assim, tentava, uma vez mais, transcender as limitações derivadas do carácter minoritário xiita do seu movimento.

                                   A impossível solução militar

   A reacção israelita, previsível no caso de um governo de coligação liderado por políticos sem credenciais militares e apostados num plano controverso de redefinição unilateral de fronteiras, acarretou uma escalada militar tanto mais irremediável quanto erros e insuficiências de informação e análise sobre as capacidades do Hizballah se fizeram sentir.

   O alegado «aventureirismo» do Hizballah, condenado pelas potências árabes sunitas, como a Arábia Saudita, tementes de mais uma derrocada dos frágeis equilíbrios políticos e comunitários que desde o início dos anos 90 poupam o Líbano à guerra civil, é justificado pela autoconfiança de uma força política que ganhou respeito para a desprezada comunidade xiita e que se orgulha de ter expulso contingentes norte-americanos e franceses em atentados terroristas nos anos oitenta e de bater-se vitoriosamente contra Israel.

   Desde os anos 80, com o patrocínio iraniano e, posteriormente, sírio, o Hizballah conseguiu transformar um movimento guerrilheiro num partido político armado e tutelar uma extensa rede assistencial e educativa, que tornam impossível o seu mero esmagamento militar, à semelhança do que se passa com o Hamas em Gaza.

   O sério risco de desagregação do regime de Bashar Al Assad - da perda do poder por parte da minoria alauíta e do previsível ajuste de contas dos Irmãos Muçulmanos sunitas em retaliação pelo massacre de Hama, em 1982 - garante ao Hizballah suficiente cobertura política da Síria que só conta no Líbano com o apoio de forças xiitas.

   Uma vez mais ao lado de Teerão, Damasco pode, por sua vez, contar com o Hizballah para recuperar capacidade negocial e surgir, outra vez, como mediador de uma crise libanesa e israelo-libanesa.

   A curto prazo o Hizballah sairá militarmente enfraquecido pela violência da retaliação militar israelita, mas, como exemplares islamitas, os militantes xiitas ganharão, uma vez mais, prestígio ante os sunitas palestinianos pela sua intransigência frente ao inimigo sionista e tornarão inviável qualquer tentativa de consenso político no Líbano dado que hegemonizam a comunidade xiita que representa cerca de 40 por cento dos quatro milhões de habitantes do país.

   Nenhum poder no Líbano será capaz, contra a Síria e a comunidade xiita, de desarmar as milícias do Hizballah e, reconhecendo esta realidade, as sugestões diplomáticas de Israel passam essencialmente pela exigência de retirada dos guerrilheiros da fronteira sul, contando com a eventual capacidade dos cerca de 60 mil homens do exército libanês para controlarem a região.

   A hipótese de reforço da UNIFIL, instituída em 1978, poderá criar uma zona desmilitarizada na fronteira com Israel, mas a presença de um contingente alargado da ONU com poderes para retaliar a eventuais ataques, só fará sentido se servir como etapa transitória para o exército libanês tomar controlo da região.

   Os equilíbrios políticos no Líbano tornar-se-ão, no entanto, ainda mais frágeis quer o Hizballah seja isolado e afastado da coligação governamental, quer reforce o seu peso após o cessar-fogo.

   O estado libanês e o seu exército correm sério risco de desagregação e o retorno dos confrontos comunitários poderá condenar o país ao papel tradicional de palco de conflito das potências regionais por peões interpostos.

                               O fim das retiradas unilaterais

   O retorno da questão libanesa e, por extensão, dos termos de acomodação com a Síria e retirados dos Montes Golã, obriga Israel a representar a sua estratégia regional.

   O plano de retirada unilateral da Cisjordânia, mesmo limitado a áreas onde residem 80 mil dos 240 mil colonos judeus, deixou de ter condições para avançar. O confronto em Gaza entre o Hamas e a Fatah e a impossibilidade de evitar ataques a partir do enclave já tinham posto em causa a ideia de que seria possível isolar Israel dos territórios palestinianos.

   Ainda assim, Ehud Olmert e os aliados trabalhistas pensavam ser possível avançar para uma segunda retirada cujos termos passavam por controlar militarmente o vale do Jordão de forma a isolar a Cisjordânia do reino haxemita e anexar os territórios onde se situam os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de outros núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron.

   A lógica de segurança implicava que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   Tornou-se claro para os estrategos de Telavive que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, podem oferecer garantias de segurança a Israel.

   Todas as tentativas nesse sentido falharam nos anos 80 e 90 no Líbano (apoio à Falange cristã maronita, criação do Exército do Sul do Líbano) e nunca tiveram qualquer hipótese de exequibilidade nos territórios palestinianos.

   A degradação da situação em Gaza e a ascensão do Hamas retiraram qualquer fundamento à ilusão de que seria possível isolar os territórios e reduzir o recurso à mão-de-obra palestiniana, sem que a crise política, económica e social transbordasse em actos de violência além das linhas de fronteira impostas por Israel.

   Fracassou, assim, o plano de Ariel Sharon de definir unilateralmente fronteiras mediante a neutralização militar e o isolamento diplomático do inimigo palestiniano.

   Tal como o Hizballah, também os militantes palestinianos apresentam o risco de em devido tempo virem a armar-se de mísseis com alcance suficiente para bombardear os principais centros urbanos de Israel.

   A garantia defensiva de profundidade estratégica mínima não faz sentido para o estado judaico ante inimigos determinados e apostados numa guerra de atrito de baixa intensidade.

   O Hizballah, expressão islamita das reivindicações xiitas no Líbano, e o Hamas, alternativa islamita sunita ao fracasso do nacionalismo laico palestiniano, representam uma cultura de violência e de rejeição ideológica que Israel não pode extirpar por recurso exclusivo à força, como fez no passado.

                                     Retomar as negociações

   Outros elementos que guiavam o pensamento estratégico de Sharon permanecem válidos como sejam a manutenção de uma capacidade de dissuasão e projecção de força superior a todos os estados vizinhos, incluindo a componente nuclear, a coesão étnica e a preservação da aliança com os Estados Unidos, mas todas as óbvias insuficiências da política do mentor de Olmert são, também, mais claras do nunca.

   Nenhum projecto de preservação do estado judaico num contexto regional essencialmente hostil pode assentar na recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, e ignorar que a manutenção do carácter judaico e democrático do estado obriga a integrar com direito plenos a minoria árabe, tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala.

   Um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia humilhado e ofendido pela recusa de concessões na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados nunca será consolo nem para um povo que se crê espoliado, nem para os judeus que se sentem ameaçados.

   A reabertura da frente libanesa veio mostrar que a questão palestiniana condiciona todo o contexto regional e obriga Israel, após afastar as ameaças terroristas mais imediatas, a retomar negociações e avançar com concessões políticas que possam vir a permitir a pouco e pouco a emergência de forças alternativas aos movimentos islamistas e rejeicionistas apostados no recurso à violência.



Jornal de Negócios
19 Julho 2006

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domingo, 2 de setembro de 2012

Israel: uma angústia sombria

 
   Uma guinada à direita em Israel, numa eleição marcada pela angústia sobre a segurança do estado judaico, bloqueou para os tempos mais próximos qualquer hipótese de negociação com as divididas facções palestinianas de Gaza e da Cisjordânia.

   Um sistema eleitoral votado à pulverização - 17 partidos estavam representados na última legislatura -, e uma crescente descrença na viabilidade de acordos com radicais islamitas e nacionalistas palestinianos, condena a próxima coligação governamental à impossibilidade negocial.

   Qualquer acerto de alianças por parte do Likud de Benyamin Netanyahu ou do Kadima de Tzipi Livni está fortemente condicionado pela subida do Yisrael Beteinu (Nossa Casa de Israel) de Avigdor Lieberman.

   Mesmo a eventual participação governamental dos trabalhistas de Ehud Barak num governo de unidade nacional obriga a compromissos com partidos religiosos que descartam a possibilidade de iniciativas aceitáveis pela debilitada Fatah de Mahmud Abbas.

   A partilha de Jerusalém, a suspensão da expansão ou desmantelamento dos colonatos judaicos na Cisjordânia estão fora do alcance de eventuais coligações, que englobem partidos incontornáveis como os ultra-ortodoxos do Shas do rabino Ovadia Yosef, e são rejeitadas pelo Likud e a extrema-direita.

O não à partilha territorial
   O contexto político traduz-se na contestação de que concessões territoriais, conforme a retirada unilateral de Gaza conduzida por Ariel Sharon em 2005, não foram tidas pelo eleitorado judaico como condizentes a garantias de segurança, e antes abriram caminho aos islamitas do Hamas.

   O teor das propostas eleitorais, desde a redefinição de fronteiras proposta por Lieberman para troca de áreas de maioria árabe em território israelita levando ao alargamento dos colonatos judaicos na Cisjordânia, até à do líder trabalhista para cavar um túnel entre Gaza e as áreas vagamente controladas pela Autoridade Palestiniana de Abbas de forma a permitir passagem de pessoas e mercadorias, indiciam claramente um repúdio total da hipótese de viabilidade de um estado palestiniano independente.

  Ante a guerra civil entre os islamistas do Hamas e a Fatah é dado adquirido para qualquer futuro eixo governamental israelita de direita a inviabilidade de negociações de partilha territorial.

   O peso crescente da extrema-direita laica liderada pelo moldavo Lieberman acentua ainda mais a alienação da minoria palestiniana israelita (cerca de 20% da população) cuja participação nestas eleições poderá ter caído abaixo dos 50%.

   O Yisrael Beteinu, fundado em 1999, já nas últimas eleições alargara a sua base inicial centrada nos imigrantes oriundos da ex-União Soviética, 1,25 milhões de "russófonos" entre 7,5 milhões de cidadãos de Israel, ou seja 20% da população judia.

   Um terço dos votantes que deram a Lieberman 11 deputados no Knesset em 2006 não pertencia à imigração pós-soviética e nestas eleições a sua percentagem terá aumentado motivada pela marcada intolerância face a palestinianos e árabes israelitas, pelo apoio entre os mais de 400 mil colonos judeus na Cisjordânia e pela campanha laica em prol do casamento civil.

Paz com a Síria para atacar o Irão
   Sobra para uma coligação liderada por Netanyahu, quer englobe ou não o Kadima, a possibilidade de negociar um acordo de paz com a Síria que leve à devolução dos Montes Golan.

   Um acordo neste contencioso, que se arrasta desde 1967, poderá ser visto em Telavive como uma forma de romper a conjunção de interesses entre Damasco e Teerão. A guinada à direita levanta, no entanto, a questão essencial da atitude estratégica de Israel em relação ao programa militar nuclear do Irão.

   Netanyahu poderá manifestar alguma maleabilidade táctica, tal como ocorreu durante a sua chefia do governo entre 1996 e 1999 em aliança com dois partidos religiosos ultra-ortodoxos ao retirar de Hebron, mas a opção militar contra o programa nuclear iraniano é tida por inevitável no eixo de direita e tão pouco é contestada pelo Kadima e os trabalhistas.

   Uma coligação instável dominada pela direita dificilmente terá condições para cumprir um mandato de quatro anos e a tensão com Washington será uma constante, quer pela recusa em negociar uma partilha territorial, inviabilizada ademais pela cisão entre o Hamas e a Fatah, quer pela urgência israelita em tentar forçar um ataque contra o Irão, mesmo que sem apoio declarado dos Estados Unidos.


Jornal de Negócios
11 Fevereiro 2009

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Nada de bom em Gaza


 
 
   Resta pouco tempo a Israel para declarar vitória e retirar de Gaza.
  
   A destruição da maior parte dos túneis de contrabando entre Gaza e o Egipto ainda não foi conseguida e, apesar dos ataques de mísseis do Hamas terem diminuído, o sul de Israel continua debaixo de fogo.
  
   Os combates em áreas urbanas e o arrastamento da ofensiva tornarão mais difícil a posição israelita e darão um peso político acrescido ao Hamas.

   O essencial dos termos de uma trégua é claro. Israel quer uma presença internacional no sul de Gaza para impedir o rearmamento do Hamas através do Egipto. Em troca aliviará o bloqueio a Gaza, permitindo fornecimentos de energia e bens essenciais, e, posteriormente, movimento de pessoas, desde que o Hamas pare com os lançamentos de mísseis.

   Para o Hamas o fundamental é ser reconhecido na prática como autoridade efectiva em Gaza, independentemente de europeus e norte-americanos classificarem a organização como terrorista, e assegurar o levantamento do bloqueio.

   Na negociação de uma trégua os islamitas poderão ainda aceitar libertar o cabo Gilad Shalit (capturado em Junho de 2006) e militares israelitas que venham a ser eventualmente feitos prisioneiros durante a presente guerra, caso Israel e a Autoridade Palestiniana concedam a liberdade a detidos do Hamas.

Duas Palestinas e um presidente desacreditado
   Em qualquer cenário o Hamas continuará a controlar Gaza e a capacidade negocial de Mahmoud Abbas, cujo mandato como presidente da Autoridade Palestiniana expira esta quinta-feira, será praticamente nula e confinada a áreas da Cisjordânia sob tutela efectiva do exército israelita.

   O Hamas poderá, ainda, jogar a cartada de não reconhecer Abbas como “presidente da Palestina”, uma eleição orquestrada pelo Conselho Central da OLP em Novembro de 2008, e recusar-se a participar nas eleições legislativas que deveriam ter lugar este ano, acentuado, assim, a divisão política entre Gaza e a Cisjordânia.

   A questão política de criação de um estado palestiniano viável e fora da órbita islamita não terá solução sem o desmantelamento da maior parte dos colonatos israelitas na Cisjordânia, a partilha de Jerusalém, um acordo sobre indemnização a cerca de quatro milhões de refugiados e a gestão concertada dos recursos de água.

   A divisão entre palestinianos, a experiência fracassada da administração da Fatah e a rejeição pelo Hamas do direito à existência do estado de Israel não auguram avanços nas negociações.

   Do lado de Israel, enquanto os Estados Unidos mantiverem a política seguida pelas recentes administrações democráticas e republicanas de fechar os olhos à expansão de colonatos, nenhum governo afrontará os colonos e muito menos aceitará negociar sem garantias efectivas de segurança.

Perspectivas negras

   O bloqueio no conflito israelo-palestiniano que condiciona, por sua vez, as negociações de paz com a Síria para retorno a Damasco dos Montes Golan, poderá vir a conhecer um desenvolvimento ainda mais negativo no caso da sucessão de Hosni Mubarak mergulhar o Egipto numa crise em que os islamitas venham a impor-se como uma das principais forças políticas.

   O crescente islamita, que a partir dos anos 80 começou a explorar o fracasso dos regimes e movimentos nacionalistas árabes, não será desbaratado tão cedo e, mais do que uma ameaça militar nuclear do Irão, é o principal desafio às monarquias do Golfo e da Jordânia, às autocracias do Egipto e da Síria, e um factor de destabilização do Líbano.

   Seguindo o exemplo de resistência dos xiitas libaneses do Hizballah na guerra do Verão de 2006 o Hamas tudo fará para chegar a um cessar-fogo como força política incontornável, independentemente da degradação das suas capacidades militares imediatas pela ofensiva israelita.

   A destruição de infraestruturas em Gaza e as baixas civis são irrelevantes para o Hamas na medida em que a devastação da guerra apenas aumenta a dependência da população face aos islamitas na falta de outras alternativas políticas.

   Os apoios políticos internacionais aos islamitas sunitas do Hamas podem resumir-se ao baluarte da minoria alauíta em Damasco, aos xiitas libaneses do Hizballah e ao Irão, mas se desta guerra a imagem do movimento sair fortalecida como um bastião da resistência anti-israelita então as consequências serão bem gravosas.

   No ataque ao Líbano em 2006 Israel viu posta em causa a sua capacidade de dissuasão militar convencional. Nesta ofensiva Israel arrisca perder capital político, alienando os aliados árabes dos Estados Unidos, retirando credibilidade a Mahmoud Abbas, agravando a hostilidade da sua minoria de cidadãos árabes (20% da população) e nada conseguido de melhor do que um triunfo militar sem futuro em Gaza.

A tenaz do Hamas e do Hizballah
   A ameaça dos mísseis Qassam, Grad, Katiusha e Fajr e o risco do Hamas aumentar a sua capacidade de fogo e alargar o raio de alcance dos ataques obriga qualquer governo israelita a empenhar-se em acções militares.
  
   As forças armadas israelitas não podem permitir que o sul do país – incluindo cidades como o centro industrial de Ashkelon ou Ashdod, o maior porto do país – seja alvo de ataques que, no pior dos cenários, podem vir a ser coordenados com o Hizballah, capaz de atingir, por sua vez, a maior parte do Norte e do Centro de Israel.

   Incapaz de esmagar militarmente o Hamas em Gaza, salvo mediante uma reocupação do território abandonado em 2005, Israel precisa de garantir que os islamitas não possam recuperar rapidamente a sua capacidade de
montagem e armazenamento de mísseis.
   Na impossibilidade de ocupar a faixa fronteiriça com o Egipto e sem poder contar com a cooperação do Cairo para evitar o contrabando de armamento e munições Israel não dispõe de soluções a prazo.

   Se o eleitorado israelita presumir que a guerra em Gaza não traz uma garantia real de segurança contra ataques de mísseis a guinada à direita nas eleições de 10 de Fevereiro será inevitável e o Likud de Benjamin Netanyahu tornar-se-á o parceiro indesejável de Barack Obama em qualquer tentativa de negociações no Médio Oriente.

   Uma paz podre em Gaza, um governo palestiniano desprestigiado na Cisjordânia, outra fronteira insegura no Líbano, novo impasse nas negociações com a Síria, um Egipto trémulo à espera da sucessão de Mubarak e, ao longe, a ameaça do Irão, tudo conspira para mais um ano terrível no Médio Oriente.


Jornal de Negócios
07 Janeiro 2009

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

A ilusão da paz

  (Saeb Erekat)


  A Fatah, de Mahmoud Abbas, e Israel estão enredados numa teia de ilusões sobre negociações de paz e a divulgação de documentos secretos pela Al Jazeera apenas veio confirmar a inviabilidade de qualquer acordo.
 
   Os documentos relativos a propostas palestinianas apresentadas ao longo da última década não contêm qualquer revelação significativa, mas embaraçam a Fatah ao contradizerem as posições públicas assumidas pela liderança da Autoridade Palestiniana acantonada na Cisjordânia.

Os líderes palestinianos não tomaram até agora iniciativas para preparar a sua opinião pública para eventuais concessões territoriais e sobre retorno de refugiados.

Tal como sucessivos governos israelitas, os negociadores palestinianos assumem que um acordo final, com apoio de Washington, seria apresentado como um documento não sujeito a discussão e meramente passível de ratificação por via parlamentar ou através de referendo.

A fuga de informações sobre propostas ou consensos pontuais acarreta necessariamente a mobilização de todos os opositores às inevitáveis cedências num acordo de paz e um avolumar das críticas à forma como são conduzidas as negociações.

Muitas cedências, imensa intransigência

Os documentos publicitados pela cadeia do Qatar e o diário londrino "The Guardian" foram obtidos com toda a probabilidade junto de antigos colaboradores da Unidade de Apoio às Negociações, criada em 1999 com juristas palestinianos formados no estrangeiro para assessorar juridicamente a Organização de Libertação da Palestina e o seu principal negociador, Saeb Erekat.

As concessões palestinianas referenciadas nos documentos fazem cair por terra as pretensões israelitas de que não conta com um parceiro negocial e demonstram que em 2008 e 2009 a Fatah se mostrou disposta a aceitar a maior parte dos colonatos judaicos em Jerusalém Oriental e a soberania israelita sobre os bairros judeu e parte do bairro arménio da Cidade Velha.

No final de Outubro de 2009, já depois da queda do governo de Ehud Olmert e do retorno ao poder em Março de Benjamin Netanyahu, o principal negociador palestiniano propõe mesmo a título particular aos mediadores norte-americanos a hipótese de uma comissão internacional supervisionar os lugares santos da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo, tal como admitiria a possibilidade de um estado palestiniano desmilitarizado.

Das actas e comunicações relativas às conversações fica também clara que o governo de Olmert aventou trocas territoriais que lhe permitissem manter os colonatos na Cisjordânia de Gush Etzion, Maale Adumin, Givat Zeev e Ariel, além de permutas de população, que acabarem por ser rejeitadas pela parte palestiniana.

Abbas e Erekat concederam, entretanto, no retorno simbólico de mais de 5 milhões de refugiados e seus descendentes das guerras de 1948 e 1967.

Os números avançados para um retorno simbólico, em regra entre 10 mil a 15 mil pessoas, referidos nestes documentos confirmam relatos avançados por outras fontes.

Relevantes são, no entanto, diversas declarações de Erekat rejeitando peremptoriamente que os refugiados palestinianos em estados árabes, designadamente no Líbano e na Jordânia, pudessem vir a participar num referendo sobre a ratificação de um eventual acordo de paz.

Para a liderança da Fatah, ainda antes de perder o controlo de Gaza para o Hamas, em 2007, qualquer hipótese de referendo seria limitada aos palestinianos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza.

Esta é, juntamente com as negociações sobre os lugares santos de Jerusalém/Al Quds, uma das questões mais controversas em que a retórica oficial da Fatah entra em completa contradição com a realidade das negociações diplomáticas.

A eventualidade de um estado palestiniano desmilitarizado foi de igual forma considerada por Erekat em contactos com os mediadores de Washington em 2009 numa fase em que o colapso negocial atingira um ponto de não retorno que as posteriores tentativas da Administração Obama não conseguiram desbloquear.

O Estado fantasma

Mais documentação irá nos próximos dias aportar novos dados quanto à conivência da Fatah com Israel no combate aos islamitas do Hamas, mas o essencial da controvérsia mostra claramente que, ante sucessivos governos israelitas que nunca abandonaram uma política expansionista na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a estratégia de concessões esteve desde sempre condenada ao fracasso.

Habbas, cuja mandato presidencial terminou em Janeiro de 2009 e tem sido prorrogado entre grande disputa jurídica, está agora confinado a uma estratégia de alcance limitado.

O primeiro-ministro Salam Fayyad prossegue, por um lado, uma política de consolidação de estruturas administrativas e de promoção económica na Cisjordânia que até agora registou alguns êxitos, sobretudo na criação de emprego, mas dependente da ajuda internacional e do interesse securitário de Israel.

A nível diplomático, a Autoridade Palestiniana tenta obter um reconhecimento diplomático internacional no quadro das linhas de fronteira de 1967 que, mesmo redundando numa proclamação de independência, em nada alterará as realidades no terreno.
Para Israel, o "status quo" serve perfeitamente e a consolidação dos colonatos assume um carácter irreversível.

O efeito perverso

Enquanto as relações de força não se alterarem em Israel, não há possibilidade de retomar negociações e a crise de legitimidade da Autoridade Palestiniana, reduzida a um controlo limitado de 40% da Cisjordânia e confrontada com uma alternativa islamita em Gaza, inviabiliza conversações.

Por fim, quando nova ronda de crises e confrontos obrigar ao retomar de negociações, sobrará um efeito perverso da publicação da documentação palestiniana sobre uma década de conversações falhadas.

Todos os negociadores palestinianos terão de assumir que a parte israelita irá exigir como ponto de partida negocial as maiores cedências que a Fatah admitiu em vão ao longo da última década.

Jornal de Negócios
26 Janeiro 2011

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