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domingo, 19 de agosto de 2012

Um Nobel por uma China democrática


Liu Xiaobo

The Nobel Peace Prize 2010

Liu Xiaobo




   Liu Xiaobo cumpre uma pena de onze anos numa prisão em Jinzhou; Hu Jia está detido em Pequim; o paradeiro de Gao Zhisheng é desconhecido, e é esta a sorte de três dos mais proeminentes activistas dos direitos humanos da China.

   O Comité de Oslo terá na sexta-feira oportunidade de, pela primeira vez, galardoar um cidadão da China e as autoridades de Pequim acentuaram nas últimas semanas as pressões e advertências quanto à atribuição do Prémio Nobel da Paz a algum dos subversivos que violam a Lei da República Popular.

   O Dalai Lama, premiado em 1989 pelos seus esforços pacíficos contra a ocupação chinesa do Tibete, é uma das vozes que se fizeram ouvir a favor do Nobel da Paz para Liu Xiaobo, o dissidente chinês mais falado para o galardão de 2010.

                                 Liu, um pacifista subversivo

   Liu é um professor de literatura de 54 anos que em Dezembro de 2008 promoveu um manifesto, conhecido como a Carta 08, à semelhança da Carta 77 dos dissidentes da Checoslováquia comunista, apelando ao respeito pela liberdade de expressão e os direitos humanos.

   Depois de ter participado nos protestos da Praça Tiananmen, em 1989, Liu foi detido diversas vezes e no dia de Natal de 2009 foi condenado a onze anos de prisão.

   A atribuição do Nobel da Paz a Liu foi também defendida pelo bispo Desmond Tutu, três figuras proeminentes da antiga dissidência checa - o ex-presidente Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova - e o presidente do PEN American Center, Anthony Appiah.

   A nomeação para o Nobel da Paz do antigo docente da Universidade Normal de Pequim e leitor convidado de diversas instituições de Ensino Superior no estrangeiro, incluindo a Universidade de Oslo e de Columbia, nos Estados Unidos, exasperou os dirigentes chineses.

   Desde o Verão que altos responsáveis de Pequim manifestaram o seu desagrado a membros do Instituto Nobel Norueguês e do governo de Oslo quanto a um eventual galardão para Liu.

   O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Jiang Yu foi peremptório no mês passado, ao declarar que Liu violara a Lei e as suas acções eram "totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz".

   Um "acto inamistoso" por parte da Noruega - considerando que o Nobel da Paz é escolhido por um comité de cinco eleitos pelo Parlamento de Oslo - teria consequências negativas para as relações bilaterais, no dizer de Pequim, que desde logo comprometeriam qualquer projecto na China da "Statoil" norueguesa, a maior empresa mundial de exploração de petróleo e gás "offshore".

   Um Nobel para Liu, ou para Hu Jia, empenhado em causas ambientais e no combate à Sida (cumpre pena de três anos e meio de prisão em Pequim), ou ainda Gao Zhisheng, advogado conhecido pela sua defesa de crentes católicos ou do Falun Gong, actualmente em paradeiro desconhecido, representaria um sinal de que a sorte de quem luta pelos direitos humanos na China não é ignorada.

                                      Paz, fraternidade e muito mais

   Ao Nobel de 2009 por declaração de intenções a Barack Obama, controverso e extemporâneo, ainda que passível de ser visto como respeitando o testamento de Alfred Nobel, bem poderia seguir-se esta semana um galardão virado para os direitos humanos, que foram pela última vez contemplados em 2003, na pessoa da iraniana Shirin Ebadi.

   O Nobel da Paz ultrapassou o intuito original de premiar esforços pela paz e fraternidade entre as nações, ainda que a consagração da Agência Internacional de Energia Atómica e do seu director-geral Mohamed Al Baradei, em 2005, tenha sido um dos últimos exemplos relativamente consensuais quanto a esse desiderato.

   O Instituto Nobel Norueguês passou também a premiar a luta pacífica pelos direitos humanos e causas independentistas (Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, representam um caso típico), além da sustentabilidade social, económica e ambiental (a queniana Wangari Maathai, em 2004, ou Grameen Bank do bengali Muhammad Yunus, em 2006).

   Existem áreas susceptíveis de justificaram um alargamento do leque de potenciais galardoados, designadamente na promoção do diálogo religioso, prevenção e combate ao terrorismo, a par da protecção dos direitos cívicos, ou luta contra o narco-tráfico e tráfico de pessoas.

   Em 2010, o Comité norueguês registou 237 nomeados, entre eles 38 organizações.

   Dos nomes conhecidos, a esmagadora maioria merece a distinção, apesar de algumas causas e pessoas sobressaírem.

   Um Prémio Nobel pode garantir protecção adicional a pessoas perseguidas, e esse contributo nunca pode ser ignorado.

  Até mesmo o destino angustiante da birmanesa Aung San Suu Kyi, premiada em 1991 e que continua em prisão domiciliária, teria sido muito mais dramático, se é possível usar tal eufemismo, sem a distinção de um Nobel da Paz.

                               Apoiar quem pena e arrisca a vida

   O ginecologista congolês Denis Mukwege, ímpar no seu esforço em prol de vítimas de violações de guerra, ou a médica de etnia hazara Simar Samar, da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, são duas pessoas merecedoras dos maiores encómios e apoio, tal como o monge budista vietnamita Thich Quang Do ou o cubano Guilherme Fariñas.

   Organizações como Memorial, activa na Rússia e na Tchetchénia na defesa dos direitos cívicos, ou o Tribunal Especial para a Serra Leoa, pela acção na investigação de crimes de guerra na África Ocidental, merecem, igualmente, a distinção de um Nobel.

   Numa altura em que Pequim assume um peso cada vez maior nas questões internacionais - pela sua relevância económica, pela importância nas negociações sobre alterações climáticas -, seria, no entanto, de suma importância um apoio, mesmo que simbólico, a quem se bate pelos direitos do homem na China.

   Os chamados dissidentes chineses penam na cadeia e sofrem perseguições pela defesa de direitos que os países democráticos têm como a própria essência dos seus regimes.

   Liu Xiaobo, sem demérito para qualquer outro nomeado, seria um digno Prémio Nobel da Paz em 2010.

Jornal de Negócios
06 Outubro 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=447007

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Milhões para os Kim, embaraços em Delhi e Pequim



Tumen, Fronteira RPC/Coreia do Norte

   A China fornece cerca de 90 por cento da energia, perto de 80 por cento dos bens de consumo e quase metade dos artigos alimentares que a Coreia do Norte consume, é o principal suporte diplomático de Pyongyang e sustenta com créditos incobráveis um défice nas trocas comerciais bilaterais que supera os mil milhões de dólares.

   Enquanto Kim Jong Il encena em Pyongyang a transferência dinástica de poderes para o seu filho mais novo, outra incógnita surge quanto à política de Pequim face à Coreia do Norte.

   O regime norte-coreano tornou-se uma complicação de monta para a China depois da primeira explosão nuclear de Pyongyang em Outubro de 2006 a que se seguiu segundo teste em Maio do ano passado.

   A China fornece cerca de 90 por cento da energia, perto de 80 por cento dos bens de consumo e quase metade dos artigos alimentares que a Coreia do Norte consume, é o principal suporte diplomático de Pyongyang e sustenta com créditos incobráveis um défice nas trocas comerciais bilaterais que supera os mil milhões de dólares.

   Até agora todas as advertências e críticas que vão surgindo esporadicamente na imprensa chinesa quanto à necessidade de uma reforma da falida economia norte-coreana têm caído em saco roto.

   Por óbvios motivos estratégicos Pequim não pode permitir o colapso do regime de Pyongyang, mas a capacidade chinesa para forçar concessões por parte da Coreia do Norte quanto ao seu programa nuclear militar tem sido deveras limitada no âmbito das conversações em que participam ainda a Rússia, o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

    A China tem assistido impotente aos mais recentes desvarios de Kim Jong Il.

    O comportamento errático e provocatório de Pyongyang atingiu um ponto deveras perigoso com o ataque à corveta sul-coreana Cheonan em Março e o fracasso de uma bizarra reforma monetária no final do ano passado lançou dúvidas sobre a sanidade mental do Grande Líder.

   Pequim face aos riscos acrescidos do processo de transmissão de poderes para Kim Jong-un poderá ter adoptado uma estratégia de intervenção avantajada na Coreia do Norte.

   O que aguarda confirmação são, assim, as notícias que começaram a circular este mês de que bancos e empresas chinesas estão prestes a assinar um acordo com uma recém-criada entidade de cooperação da Coreia do Norte: a Agência de Investimento Internacional Taepung.

   O montante aventado aponta para um pacote de investimentos chineses na ordem dos 10 mil milhões de dólares. A concretizar-se esta injecção de capital seria equivalente a cerca de 70 por cento do Produto Interno Bruto da Coreia do Norte e implicaria a criação de empresas mistas e zonas económicas especiais.

   Há lógica nestas notícias que foram veiculadas a partir de Pequim.

   A China, pesando as suas opções, pode bem ter decidido investir em força na Coreia do Norte para forçar pelo menos as grandes linhas de uma reforma económica que permita a sobrevivência do regime, contenha o seu comportamento agressivo e leve a algumas concessões na questão nuclear.



      
                               O EMBARAÇO DE NOVA DELHI

   Deve ser grande o gaúdio em Pequim com as agruras da Índia.

   Os meios de comunicação social indianos são, aliás, os primeiros a destacar o embaraço e vergonha nacionais provocados pela desordem que rodeia os Jogos da Commonwealth que abrem este domingo em Nova Delhi.

   É a primeira vez que a Índia organiza os Jogos, que tiveram o seu primeiro avatar como British Empire Games em 1930, e os custos, sobre os quais ninguém se entende, estabelecem um recorde.

   Em 2003, quando foi atribuida à Índia a organização dos Jogos, o governo indiano estimou em 500 milhões de dólares os custos de construção e modernização de infraestruturas desportivas, acessos, fornecimentos de água e energia.

    Pelas últimas contas esta factura chegou aos 4,6 mil milhões de dólares.

    A construção de um novo terminal no aeroporto internacional Indira Ghandi orçou, por sua vez, em 2,7 mil milhões de dólares.

   A décima nona edição dos Jogos está já marcada por casos de corrupção (16 projectos de construção no montante de 508 milhões de dólares estão sob investigação), incompetência crassa, desorganização, deficiências e atrasos na edificação e recuperação de centros desportivos e instalações de acolhimento aos atletas e à comunicação social, e um rol de desacertos que obrigaram à intervenção de emergência do primeiro-ministro Manmohan Sing para salvar a honra da casa.

   Um inquérito do Hindustan Times relevava, entretanto, que 68 por cento dos habitantes de Nova Delhi sentia “vergonha” pelo que está a acontecer, enquanto 17 por cento se mostrava “indiferente” e 15 por cento de optimistas a toda a prova diziam ter “orgulho” na organização dos Jogos.

   O que irá acontecer entre 3 e 14 de Outubro na capital indiana é uma incógnita, mas o facto da Lloyd’s ter recusado segurar empresas envolvidas na venda de bilhetes, merchandising, ou direitos de transmissão televisiva e radiofónica no caso de cancelamento, adiamentos, atrasos ou incidentes durante os Jogos não augura nada de bom.

   A Lloyd’s alegou falta de informação sobre riscos de segurança e qualidade das infraestruturas e acabou por ter de ser o governo indiano a garantir os seguros aumentando em mais 200 milhões a 250 milhões de dólares os custos imparáveis da organização dos Jogos que rondam os 10 mil milhões de dólares.

   Descontando os riscos sanitários (este ano foram registados oficialmente 400 casos de dengue), o fiasco da venda de bilhetes (cerca de 200 mil contra uma previsão inicial de 1,7 milhões) e os temores de atentados as 71 selecções presentes nestes Jogos competem em Nova Delhi com o coração na boca.

   Os custos da publicidade negativa que rodeia os Jogos de Nova Delhi não estão contabilizados, mas a imagem da Índia leva um rombo colossal.

   A boa educação obriga e têm rareado os comentários na comunicação social estatal chinesa sobre as desgraças do rival asiático, mas a comparação entre as Olímpiadas de Pequim e os Jogos de Nova Delhi cedo ou tarde fará o seu caminho.

   Ofuscando o embaraço do vizinho foram, portanto, outros acontecimentos maiores a merecer destaque nos media oficiais: a visita de Dmitri Medvedev a Pequim e a inauguração do primeiro oleoduto sino-russo que fornecerá à China 300 mil barris/dia de petróleo russo, o conflito com o Japão sobre as ilhas Diaoyu/Sensuku e os diferendos comerciais e monetários com os Estados Unidos que irão agravar-se à medida que se aproximam as eleições de Novembro para o Congresso de Washington.






                       O NOBEL DA PAZ DE LIU XIABAO

   Pode acontecer é que Pequim esteja prestes a passar por um embaraço que supere noutro plano as agruras de Nova Delhi.

   As pressões e ameaças da China contra a Noruega e a União Europeia, advertindo para as consequências negativas que teria a eventual atribuição do Prémio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiabao, estão a ser muitos mal recebidas e arriscam ter o efeito contrário ao desejado por Pequim.

    Geir Lundestad, director do Instituto Nobel Norueguês e secretário-permanente do Comité Nobel Norueguês, revelou esta semana que o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Gu Ying o advertiu no Verão em Oslo contra a atribuição do Nobel da Paz a Liu.

   Liu Xiabao, detido desde Dezembro 2008 pelos seus apelos subversivos à democratização da China, condenado no dia de Natal de 2009 a onze anos de prisão, é, efectivamente, um sério candidato ao Nobel da Paz.

   Três figuras gratas da resistência democrática na Checoslováquia comunista – o antigo presidente checo Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova – apelaram publicamente à atribuição do Nobel da Paz a Liu Xiabao num artigo publicado a 20 de Setembro no The New York Times/International Herald Tribune.

   Após as ameaças à porta fechada, a resposta pública chegou pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

   Jiang Yu declarou peremptório em Pequim que Liu violara a lei e que as suas acções eram “totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz”.

   Depois do Dalai Lama, premiado no fatídico ano de 1989, a China arrisca contar com mais uma pedra no sapato.

   A bola de neve das críticas à pressões chinesas começou a rolar e só se saberá se Pequim escapará ao pior quando a 8 de Outubro for anunciada em Oslo a decisão dos cinco membros do Comité Nobel eleitos pelo Parlamento norueguês.


HojeMacau
30 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=3241

Comunismo não é palavra vã



Liu Xiaobo





   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica” da China.

   Relembrando aos mais desatentos que comunismo não é palavra vã os líderes de Pequim reagiram como seria de esperar à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo.

   O problema para os comunistas de Pequim é que a China não se pode comportar como o regime militar da Birmânia que mantém Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária ou os ayathollas do Irão que obrigaram ao exílio Shirin Ebadi.

   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica”.

   Do coro elogios a Liu e da chuva de críticas à censura chinesa dissidiram de forma igualmente prevísivel os comunistas portugueses que viram no Nobel de Liu “um golpe na credibilidade” do galardão e uma manobra “inseparável das pressões dos Estados Unidos à República Popular da China”.

   Outro caso a assinalar tem a ver com o inefável teórico dos “valores asiáticos” Kishore Mahbubani que na véspera do anúncio do Nobel para Liu, quando ía alta nas bolsas das apostas a candidatura do preso de Jinzhou, advertiu desde logo que o Comité Nobel de Oslo reflecte a visão do mundo ocidental.

   O académico e ex-diplomata de Singapura afirmou que tal viés explica que um líder que contribuiu para retirar 600 milhões de pessoas da pobreza como Deng Xiaoping não tenha recebido o Nobel.

   No que respeita à Ásia o Nobel está reservado para dissidentes.

  Pessoas respeitáveis como Suu Kyi ou o coreano Kim Dae Jung, mas, ainda assim, meros dissidentes, no entender de Mahbubani.

   O racícionio tortuoso de Mahbubani deve ter agradado em Pequim, mas tem o senão de ignorar que Suu Kyi em 1991 era a vencedora de uma eleição popular anulada por uma junta militar e Kim Dae Jung foi premiado não apenas pela sua carreira de luta pelos direitos humanos, mas também e sobretudo pelos esforços “em prol da paz e reconciliação com a Coreia do Norte”.

   No longínquo ano de 1974, quando a virtuosa China passava pela Revolução Cultural, o Nobel da Paz foi partilhado pelo irlandês Sean Mac Bride e Eisaku Sato, tendo o primeiro-ministro japonês sido escolhido pela promoção de uma política pacifista e de cooperação internacional, e no ano anterior Henry Kissinger e Lu Duc Tho tinham sido galardoados pela êxito na negociação de um cessar-fogo no Vietname.

   Entre os galardoados asiáticos o Dalai Lama, em 1989, ano de Tiannamen, Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, e Shirin Ebadi, em 2003, enquadram-se na categoria “dissidentes” ou “independentistas subversivos”, mas quanto a Madre Teresa de Calcutá, albanesa de nascimento, mas consagrada em 1979 por obras de caridade na Índia, ou ao bengali Muhammad Yunnus e o Banco Grameen de micro-crédito, premiados em 2006, dificilmente a alegação do ideólogo dos “valores asiáticos” faz qualquer sentido.

   O decano da Escola Lee Kuan Yew de Política Pública aventou uma linha de defesa fraudulenta, mas coerente com as alegadas idiosincracias asiáticas, que os propagandistas de Pequim nem sequer tentaram ainda explorar ficando-se pelas teses de uma cabala estrangeira desrespeitosa da honra chinesa.

   Entre os sinólogos, no entanto, não foi perdido de vista que o Nobel de Liu Xiaobo poderá vir a ter uma influência crucial no debate das elites chinesas sobre reformas políticas.

   Aos decisores políticos e económicos estrangeiros chegam ecos de experiências frustadas de votações com candidaturas diversas para delegados a congressos do Partido Comunista a nível distrital ou eleições directas para conselhos administrativos de aldeias.

   As minudências dos debates teóricos sobre valores universais e mediação de interesses contraditórios versus valores específicos chineses de harmonia social num quadro hierárquico controlado pelo partido/estado já são, contudo, mais difíceis de apreciar.

   Liu e outros promotores da Carta 08, como Zhang Zuhua ou Zhiang Qisheng, contribuíram para definir como objectivo político a atingir por via pacífica uma democracia constitucional que incorpore valores e práticas como eleições multipartidárias, salvaguarda dos direitos humanos e liberdades fundamentais de expressão, crença e associação, além de divisão e equílibrio entre poderes legislativo, executivo e judicial.

   A Carta 08 representa, assim, um passo significativo para ultrapassar as limitações das discussões entre a intelectualidade chinesa sobre os modelos de “democracia socialista” que de uma forma ou de outra tentam perservar um papel liderante para o Partido Comunista.

   Na tormentosa história da China moderna intelectuais acabaram por ver as suas propostas vanguardistas marcarem uma época.

   Os nomes de Wang Tao, Kang Youwei, Cai Yuanpei, Sun Yatzen ou a menção a um dos primeiros comunistas chineses como Li Dazhao são exemplos que não escapam aos hierarcas de Pequim de como uma centelha pode incendiar a pradaria.

   O risco de Liu Xiaobo vir juntar-se a esta lista é, pois, assinalável e a comoção e embaraço em Pequim perfeitamente compreensíveis.

                                        DIVIDIR PELO YUAN

   Os diferendos sobre política monetária estão ao rubro e um académico chinês teve o mérito de preto no branco explicitar publicamente uma possível estratégia de actuação para a China.

   Um artigo de Wang Yong, professor de um instituto de Zhengzhou, província de Hennan, despertou as atenções. O académico defendeu que Pequim não deve permitir uma apreciação superior a 3 por cento do yuan este ano.

   A melhor forma da China evitar a formação de uma coligação liderada por Washington para pressionar uma valorização perniciosa do yuan seria cavar uma clivagem entre a União Europeia, o Japão e os Estados Unidos.

   Para tal a compra de obrigações japonesas de longo prazo, vendendo simultaneamente obrigações nipónicas de curto prazo, permitiria evitar a apreciação do iene temida por Tóquio e ganhar logo aqui um aliado.

   Outra vertente passaria por aplicações para aliviar a crise de dívida soberana na União Europeia.

    Neste particular a compra de títulos de dívida pública de Portugal, Grécia, Irlanda e Itália são, no entender, de Wang Yong, uma estratégia recomendável.

   O artigo só surprendeu pela sua clareza e se por alguns momentos deu mais alguns momentos de satisfação ao atormentado ministro Teixeira dos Santos — por estranho que pareça ainda diz de entrevista em entrevista estar bem com a sua consciência — logo tudo caiu por terra ante os comentários da imprensa especializada chamando a atenção para alegadas práticas predatórias e mercantilistas de Pequim.

              UM VELHO SUBVERSIVO EDITADO EM PEQUIM

   Coisa estranha e subversiva será a próxima edição pela editora CITIC de Pequim de “Conversas comigo mesmo”.

   É uma compilação de documentos conservados pela Fundação Nelson Mandela e tem como objectivo, segundo os organizadores, desmistificar a imagem do líder sul-africano.

   É um propósito político bem claro para obviar a manipulações do legado de Mandela e incentivar a discussão sobre a história trágica e o futuro incerto da África do Sul.

   Mandela sempre tentou resguardar a sua privacidade, mas neste livro surgem cartas e rascunhos da sua autobiografia inacabada que abordam questões muito pessoais e frequentemente dolorosas.

   Um tópico fica bem patente: o reconhecimento de erros e falhas.

   Mandela afirma ter sido um jovem que escondia as suas fraquezas adoptando uma atitude arrogante.

   Surge como um líder político, preso em Robben Island, que se mostra preocupado com a imagem enganosa de que os outros o possam ver um santo.

   Nunca fui um santo, escreveu Mandela na prisão.

   Nem mesmo atendendo à velha definição de que um pecador é alguém tenta superar seus erros e defeitos, escreveu ainda para reforçar uma preocupação que foi aumentado ao longo de 27 anos de prisão.

   Numa nota após um encontro em 1991 com Arthur Miller, um ano depois de sair da prisão, Mandela refere ter gostado da entrevista com o dramaturgo norte-americano.

   Escreve que Arthur Miller como pessoa de valor e mérito se mostra naturalmente modesto e atento aos outros. Enfim, como se personificasse aquilo que Mandela considera essencial.

   Também por isso Mandela afirma ter gostado de Isabel II. Encontrou uma rainha, que, além de todas as formalidades, se mostrou uma mulher franca, simples, divertida e com uma apreciação aguda das grandes questões.

   Em suma, Mandela aos 92 anos dá a conhecer parte dos seus arquivos pessoais para deixar uma mensagem muito simples: nunca mitifiquem um líder político. Todos temos momentos de fraqueza, erro, angústia, medo e egoísmo.

   Barack Obama assina o prefácio destas notas pessoais de Mandela, sublinhado a ideia de que o líder sul-africano nunca foi um santo, nunca quis ser visto como um santo, mas nem por isso deixa de ser uma das personalidades mais dignas e inspiradoras em tempos difíceis.

   No ocaso de uma vida cheia Mandela ainda luta para deixar uma advertência: não mitifiquem os políticos, discutam tudo, atentam aos erros e fraquezas de quem lidera.

   Isto dito por Nelson Mandela assume uma relevância que mais ninguém pode igualar e tem tanto de subversivo que ainda haverá quem se venha a arrepender de permitir que possa ser publicado em Pequim.

HOJEMACAU
14 Outubro 2010

A Ordem da Liberdade prospera em Pequim





   Um dos mais famosos artistas chineses, Ai Weiwei, conseguiu em menos de duas semanas reunir uma soma superior a nove milhões de yuans (um milhão de euros) para contestar um processo de execução fiscal graças a donativos particulares.

   Ai Weiwei, conhecido internacionalmente pela sua contribuição como designer para a concepção do estádio em forma de ninho onde tiveram lugar as cerimónias de abertura e encerramento das Olimpíadas de Pequim, foi intimado a pagar 15 milhões de yuans (1,7 milhões de euros) em impostos atrasados, coimas e multas.

   O escultor fora detido em Abril durante 81 dias por alegados "crimes económicos" e ao receber no início deste mês a intimação do fisco de Pequim denunciou o processo como "acto de perseguição política".

   A angariação de fundos dinamizada através da internet levou a que começassem imediatamente a chegar milhares de contributos ao estúdio de Ai Weiwei na capital chinesa.

                                        Solidariedade e contestação

   Ao pagar uma caução de 8,45 milhões de yuans (981 000 euros) na data limite de 15 de Novembro Ai Weiwei passou a poder contestar, em princípio, as exigências do fisco, ainda que tenha declarado publicamente não acreditar que as autoridades venham a aceitar as alegações dos seus advogados.

   O artista solicitou que cessassem as ofertas de dinheiro – que já mobilizaram mais de 30 mil doadores, segundo afirmou – e prometeu devolver todos os contributos identificados de forma, aliás, a evitar um processo por "angariação ilegal de fundos".

   A campanha de solidariedade para com Ai Weiwei – a par de acções em apoio ao advogado invisual Chen Guangcheng em prisão domiciliária em Dongshigu, no leste da China, por denúncias de abusos de poder contra cidadãos da sua província natal de Shandong – assinala uma nova vaga de contestação promovida por círculos intelectuais.

   Ai Weiwei, cada vez mais estridente na crítica e escárnio dos poderes vigentes, é um caso paradigmático da alienação de crescente número de intelectuais face ao regime.

                                   Filho da desgraça e do privilégio

   Nascido em Pequim, em 1957, o artista partilhou o exílio com os pais nas províncias de Heilongjiang e Xinjiang, os extremos nordeste e noroeste da China.

   O seu pai, o poeta comunista Ai Qing, um dos introdutores do verso livre em chinês, caíra em desgraça em 1958 numa campanha de perseguição a intelectuais arredios ao maoísmo.

   Ai Qing regressaria a Pequim depois da queda do "Bando dos Quatro" em 1976 e voltaria a publicar poesia a partir de 1978, tornando-se uma figura grada do regime liderado por Deng Xiaoping até morrer em 1996 rodeado de honras de estado.

   A bem do entendimento com Pequim e por via de interesses de Macau, o poeta seria, aliás, inopinadamente agraciado com a Ordem da Liberdade da República Portuguesa em Janeiro de 1990, numa altura em que a liderança chinesa era execrada no rescaldo da repressão de Tiannanmen.




   Mário Soares, já durante o seu segundo mandato, imporia finalmente, durante uma visita oficial a Pequim em 1995, as insígnias de Oficial da Ordem da Liberdade a Ai Qing, o único cidadão chinês distinguido por Portugal por "serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade".

   O estatuto privilegiado de Ai Qing – "um fóssil vivo" que ansiava por "agir, mexer-se, expandir-se", conforme escreveu num dos seus primeiros poemas após o regresso do exílio – permitiu ao filho inscrever-se em 1978 na Academia de Cinema de Pequim, onde começou a destacar-se nos círculos de arte de vanguarda, e prosseguir estudos entre 1981 e 1993 nos Estados Unidos.

                                   Os dissidentes são criminosos

   Da escultura à fotografia Ai Aweiwei impôs-se como um dos mais reputados artistas da cena internacional, mas a sua intervenção política colocou-o em rota de choque com as autoridades comunistas.

   Após o terramoto de 2008 na província de Sichuan, no centro-sul da China, que provocou mais de 60 mil mortos, Ai Weiwei foi uma das vozes mais proeminentes na denúncia da corrupção e incúria administrativas responsáveis pela deficiente qualidade de construção que agravou a catástrofe.

   As críticas crescentes de Ai Weiwei ganharam expressão nas suas permanentes intervenções no universo digital e um bom exemplo do tom do artista encontra-se na recente colectânea editada nos Estados Unidos (Lee Ambrozy, ed., "Ai Weiwi`s Blog: Writings, Interviews, and Digital Rants, 2006-2009", MIT Press, Cambridge, Ma.) em que se pode ler esta tirada de Fevereiro de 2010:

"1. Os dissidentes são criminosos;
2. Só os criminosos têm opiniões dissidentes;

3. Os criminosos distinguem-se dos não-criminosos por partilharem opiniões dissidentes;

4. Se pensas que a China tem dissidentes és um criminoso;

5. A razão da não-existência de dissidentes na China reside no facto de tais pessoas serem efectivamente criminosos;

6. Alguém expressa opinião dissidente em relação à minha afirmação?"

                                                Sem remissão

   O filho do poeta Ai Qing é agora um dissidente sem remissão tal como o crítico literário Liu Xiaobo (Prémio Nobel da Paz 2010), detido por "incitamento à subversão", e tantas outras figuras da intelectualidade chinesa.

    A nova vaga de repressão, na sequência de temores agitados pelas revoltas árabes, acentua a crise de legitimidade política na China na altura em que uma nova geração de dirigentes comunistas se prepara para assumir as mais altas instâncias do poder.

    Por ironia do destino o filho dissidente de um poeta do regime agraciado por Mário Soares com a Ordem da Liberdade presta agora serviços relevantes à causa da Liberdade.


Jornal de Negócios
16 Novembro 2011

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