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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O adultério de Petraeus e a gestão de crises



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   A queda em desgraça do mais celebrado general das últimas guerras americanas tem um contraponto na falência das estratégias militares no Afeganistão e no Iraque, na conivência dos media com campanhas de propaganda e na degradação dos padrões éticos nas forças armadas.

   David Petraeus está no centro de um escândalo amoroso com avassaladoras ramificações políticas envolvendo o chefe do contingente norte-americano e multinacional no Afeganistão e indigitado comandante das forças da NATO na Europa, general John Allen.

   Paula Broadwell -- ex-oficial dos serviços militares de informações, investigadora de assuntos de Defesa, biógrafa e amante de Petraeus -- surge em destaque numa teia de amores e ciúmes cuja investigação degenerou numa guerra de competências e suspeitas entre o FBI, a CIA, o Pentágono, o Departamento de Justiça, a Casa Branca e o Congresso.

   O escândalo tem também como protagonista Jill Keely, voluntária dos serviços sociais na base da Flórida onde está instalado o quartel-general do Comando Central que supervisiona operações militares na Ásia Central e Médio Oriente, com ligações por esclarecer a um agente não-identificado do FBI e ao general Allen.

   As fugas de informação sobre adultério e posse não-autorizada de informação confidencial evidenciam comportamentos menos próprios numa altura em que inquéritos sobre abusos em todos os ramos das forças armadas traçam, por seu turno, um quadro inquietante das consequências da profissionalização do serviço militar e do uso crescente de empresas privadas em cenários de guerra.

   O choque entre a promoção ideológica das forças armadas como um corpo excepcional e derradeiro bastião do americanismo e liberdade e a realidade de sucessivas missões rotineiras ou brutais tem tirado lustre aos galões e às fardas.

   Petraeus tipifica as ilusões do pós-11 de Setembro e da busca de um herói redentor em guerras sem norte.

   A um dos mais brilhantes graduados de West Point, posteriormente licenciado pela Universidade de Princeton com um estudo sobre influência militar e uso da força na era pós-Vietname, coube assumir em Fevereiro de 2007 o comando das forças norte-americanos no Iraque quando a guerra civil estava ao rubro .

  Um reforço de 30 mil homens serviu para o general testar as suas teses sobre estratégia de contra-insurreição que apontavam, sobretudo, para a garantia de segurança e subsistência económica a núcleos populacionais cada vez mais amplos graças à presença constante de forças militares no terreno.

   A expulsão de sunitas na maior parte dos bairros de Bagdade, a cedência de Bassorá a milícias xiitas por parte das forças britânicas, a trégua negociada com o Exército do Mahdi do xiita Moqtad Al Sadr, a mobilização de tribos sunitas na província de Anbar contra a Al Qaeda, a não-interferência do governo central no Curdistão, vieram a conjugar-se no sentido de uma redução da violência para níveis que o Pentágono considerou “toleráveis”.

   Nenhum dos problemas criados pela intervenção ficou resolvido, mas Petraeus, aureolado “Pacificador do Iraque” graças a uma incessante campanha de autopromoção nos media, criou condições para George W. Bush puder anunciar o início da retirada norte-americana em Fevereiro de 2009 e a completar em 2011.

   Petraeus, após uma comissão como chefe do Comando Central a partir do final Outubro de 2008, foi nomeado por Barack Obama em Junho de 2010 comandante das forças no Afeganistão.

   A retórica sobre protecção de civis, cooperação acrescida com forças militares e policiais afegãs, combate à corrupção e apoio ao desenvolvimento económico, revelou-se um fracasso, mas serviu o objectivo do presidente.

  O general abandonou o Afeganistão em Julho de 2011 e deixou as forças armadas em Agosto, tendo cumprido a sua missão: dar cobertura para mais uma retirada ainda que nenhuma questão estratégica tenha sido resolvida a contento de Washington.

  Após assumir a direcção da CIA, em Setembro de 2011, Petraeus viu a sua exposição mediática reduzida ao mínimo, só voltando à ribalta devido à polémica em torno das versões oficiais contraditórias sobre o ataque terrorista ao consulado de Benghazi em Setembro deste ano.

   O teórico da contra-insurreição pela conquista da confiança de populações civis tinha-se, entretanto, transformado no patrono da militarização da CIA, do recurso ao assassínio sistemático de suspeitos estrangeiros de terrorismo através, sempre que possível, de veículos aéreos não-tripulados.

   O general que sempre apostou na promoção da imagem de estratego ímpar da sua geração, ainda que apenas tenha servido para dar cobertura a retiradas em guerras falhadas, terá agora de pagar por não passar de mais um mito de cuecas na mão.

Jornal de Negócios
14 Novembro 2012


domingo, 16 de setembro de 2012

O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Bismarck, as salsichas e Wikileaks



   Nada top secret surge nas mais de 250 mil comunicações diplomáticas dos Estados Unidos que começaram a ser reveladas por Wikileads e por publicações europeias e norte-americanas.

   Há, no entanto, informação muito relevante.

   Basta assinalar os esforços da administração Bush e Obama para isolar o Irão e a relutância de Washington em aceder a insistentes apelos de Israel e de estados árabes para lançar um ataque militar contra Teerão.

   Muitas das revelações vão criar sérios embaraços: é o caso da confirmação de que os Estados Unidos actuam militarmente contra terroristas islamitas no Iémen com acordo do governo local que sempre desmentiu apoio às operações norte-americanas.

  E como é que tudo isto veio a público?

  Porque depois dos atentados de 11 de Setembro foi alargado o sistema troca de dados entre as agências de informação e segurança dos Estados Unidos, forças armadas e o departamento de estado.

  Presentemente, segundo um estudo do Congresso de Washington, mais de três milhões de pessoas têm assim acesso a material classificado como secreto.

  Aparentemente um analista, um soldado de 22 anos, Bradley Manning, conseguiu fazer cópias de milhares de documentos sobre a guerra no Iraque, Afeganistão e estas comunicações diplomáticas e passou-as a Wikileaks.

  O resultado está à vista: graves complicações diplomáticas que vão obrigar a rever procedimentos de comunicação e partilha de informações.

  Já dizia o histórico chanceler alemão Otto von Bismarck nos finais do século 19 que não era nada bonito ver como são confeccionadas as salsichas ou negociada a feitura das leis.

   Vale o mesmo para a diplomacia.

TSF / O Mundo num Minuto
03 Dezembro 2010

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A hora do Plano México


 
   Os Estados Unidos e o México preparam-se para anunciar um programa orçado entre os 800 milhões e os mil milhões de dólares para combater nos próximos seis anos o narcotráfico.
 
  O acordo surge numa conjuntura de guerra aberta entre o governo mexicano e os cartéis da droga que se tornaram nos principais fornecedores do mercado de estupefacientes dos Estados Unidos.
 
   A altura é propícia porque os cartéis de estupefacientes digladiam-se pelo controlo de um mercado em baixa e procuram alternativas para rentabilizar as redes de tráfico.


                               Um mercado mundial estagnado

   A produção e consumo global de estupefacientes estagnaram, segundo o último relatório anual da Agência de Controlo da Droga e Prevenção do Crime divulgado em Junho.

   Apesar de 200 milhões de pessoas (5% da população mundial) terem consumido pontualmente algum tipo de estupefacientes em 2006, o número de consumidores dependentes, entre os 15 e os 64 anos, ronda os 25 milhões, ou seja 0,6 por cento da população do planeta.

   A única excepção na estagnação de um mercado que gera vendas anuais superiores a 300 mil milhões de euros advém da explosão na produção de ópio no Afeganistão que representava 92 por cento das 6610 toneladas métricas contabilizadas pelas Nações Unidas em 2006.

   Os aumentos no consumo de heroína, em contraste com as tendências de contenção ou redução no uso de estupefacientes noutras regiões nos últimos três anos, verificaram-se no Paquistão, Irão e países da Ásia Central, além da Rússia, Índia e certas áreas de África.

   Nos Estados Unidos, cujo mercado absorve 60 por cento das drogas ilegais, regista-se uma quebra nos níveis de consumo de todos os tipos de drogas, sendo particularmente sensível a diminuição do número de consumidores de cocaína.

   Os dados disponíveis, relativos a 2005, indicam que apenas 2,8 por cento da população norte-americana entre os 15 e os 64 anos consume cocaína o que mostra uma quebra de superior a 50 por cento nas duas últimas décadas.

   O orçamento do Office of  National Drug Control Policy  aumentou 34 por cento nos últimos seis anos, cifrando-se em cerca de 12,7 mil milhões de dólares, e aplica aproximadamente 65 por cento das verbas em programas de combate à produção e tráfico.

   A região andina concentra o grosso desses orçamentos: 721,5 milhões de dólares destinam-se a acções destinadas à redução da produção de cocaína.

                                              O Plano Colômbia

   Na Colômbia a área de cultivo de coca sofreu uma redução de 52 por cento entre 2000 e 2006, mas a produção de cocaína a nível regional manteve-se estável nos últimos três anos (1 008 toneladas métricas em 2004 e 984 no ano passado) devido ao uso de fertilizantes e pesticidas, inovações tecnológicas, e ao aumento das quotas da Bolívia e do Peru.

   O “Plano Colômbia” lançado em 1999 pelos presidentes Bill Clinton e Andrés Pastrana já mobilizou 4,7 mil milhões de dólares.

   A quase totalidade desse dinheiro destinou-se ao reforço das forças armadas colombianas e a acções de pulverização com herbicidas das plantações de coca, mas o país continua a prover mais de metade da cocaína que entra no mercado mundial.

   Os resultados são mitigados, pois a produção de coca persiste em 24 das 32 províncias da Colômbia e só em 2004 foram exportadas para os Estados Unidos cerca de 450 toneladas de cocaína.

   A violência diminuiu consideravelmente, mas os guerrilheiros das FARC ainda controlam extensos territórios, e as conivências de apoiantes do presidente Álvaro Uribe com os grupos de extrema-direita da UAC e os sucessivos assassínios de sindicalistas continuam a provocar críticas dos congressistas democratas em Washington que contestam a excessiva militarização do “Plano Colômbia” e recusam ratificar o acordo de livre-comércio entre os dois países.  
  
    O relativo fracasso do “Plano Colômbia” é, por sinal, mensurável através da análise dos preços de venda de cocaína nos Estados Unidos que são actualmente três vezes mais baixos do que em 1990.

   Acresce que 90 por cento da cocaína que entra nos Estados Unidos transita pelo México, que também viu aumentar significativamente a produção de meta-anfetaminas com destino ao vizinho do Norte, e, consequentemente, chegou agora a vez de centrar as atenções no “Plano México”.

                                    A ofensiva Mexicana

   A campanha desencadeada este ano pelo presidente Felipe Calderón para combater o narcotráfico levou a uma mobilização em força do exército. Mais de 20 mil militares mexicanos participam agora directamente em operações de combate ao narcotráfico em cooperação com a polícia federal.

   As reformas judiciárias e reestruturações das forças de seguranças em curso, a par das campanhas de erradicação de plantações de marijuana e desmantelamento de laboratórios de produção de meta-anfetaminas, além das extradições de traficantes para os Estados Unidos, têm vindo a dar novo ânimo ao combate ao narcotráfico, mas os resultados são, ainda, incertos.

   À corrupção das forças policiais e do sistema judiciário, sobretudo ao nível dos municípios e dos governos estaduais, junta-se a extrema violência dos cartéis na luta pelo controlo das rotas de tráfico do Pacífico e da costa do Golfo do México.

   Desde o início deste ano mais de 1 700 pessoas (contando-se cerca de duas centenas de polícias entre as vítimas) morreram em ataques de sicários.

   Os assassínios começaram a diminuir em Junho, mas, a atenuação da violência ficou a dever-se a um acordo de partilha territorial entre os principais cartéis.

   À ofensiva militar e policial contra os cartéis, após dois anos de violências inauditas por parte do crime organizado, que provocaram 1 600 mortes em 2005 e 2 200 vítimas em 2006, junta-se agora o reforço da cooperação com os Estados Unidos que se limitava essencialmente à recolha e partilha de informações e à formação de efectivos policiais mexicanos.

   O acordo entre Bush e Calderón exclui desde logo a participação directa de conselheiros militares e policiais norte-americanos em operações de vigilância e combate à produção e tráfico ao contrário do que acontece na Colômbia.
   Os Estados Unidos fornecerão ao México equipamentos de monitorização e vigilância, sistemas de escutas, e irão encarregar-se da formarão de pessoal especializado.

   Unidades mistas terão a seu cargo a vigilância dos 3 mil quilómetros de fronteira e acções de identificação de rotas marítimas e aéreas de tráfico.

   Por parte de Washington será reforçada a repressão dos grupos que a partir dos Estados Unidos fornecem armamento, componentes químicos para produção de estupefacientes, e procedem a financiamentos e lavagem de dinheiro.

   A administração Bush, enfraquecida na sua capacidade negocial com o México depois do Congresso ter rejeitado a reforma das leis de imigração, compromete-se, ainda, a incrementar programas de prevenção do consumo de drogas o que obriga a rever as estratégias do Office of National Drug Control Policy que reserva apenas 12 por cento do seu orçamento para esse efeito.

   A conjuntura é propícia à cooperação no combate ao narcotráfico, mas tudo vai depender da capacidade do estado mexicano concretizar reformas institucionais e judiciárias e de Washington reorientar a sua política anti-droga a nível global.

   Além de um aumento dos programas de prevenção que aproveitem a tendência de quebra no consumo de estupefacientes, os Estados Unidos terão de conciliar operações de combate à produção e tráfico com financiamentos a projectos de auxílio económico.

   A componente repressiva, essencial para promover condições de segurança e evitar a criminalização das estruturas do estado, terá de ir a par de programas de auxílio capazes de reforçar a coesão social e promover as economias dos países produtores e dos estados que se transformaram em plataformas de tráfico.

   Para não esquecer a enormidade e extrema dificuldade da tarefa basta mencionar dois países bem diferentes do México ou da Colômbia e sem solução à vista: o Afeganistão e a Guiné-Bissau.

Jornal de Negócios
22 Agosto 2007

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domingo, 9 de setembro de 2012

Um clima de desorientação

 Atentado Mesquita Buratha,
                                                       Bagdade, 7 Abril 2006
   Uma sucessão de impasses militares e diplomáticos está a provocar uma catadupa de iniciativas desconexas que revelam profunda desorientação e descoordenação face às crises que se agravam do Levante ao subcontinente indiano.

   A constatação de que o Irão não será sujeito a sanções económicas e financeiras gravosas, selada pelas declarações de Jacques Chirac acerca do diálogo imperativo com Teerão e agravada pela constatação da inviabilidade de um ataque militar norte-americano, evidenciou no imediato os riscos de proliferação nuclear.

   Gamal Mubarak, o filho e putativo herdeiro do presidente egípcio, elaborou, assim, acerca da necessidade do país enveredar por um programa de produção de energia nuclear para fins exclusivamente civis. O ministro da energia concretizou, anunciado de seguida que o Egipto investiria 1,5 mil milhões de dólares na construção de uma central de 1000 MW a inaugurar em 2015.

   A Turquia que, tal como o Egipto, é signatária do Tratado de Não- Proliferação mantém, por sua vez, o projecto de construção de três centrais até 2015, enquanto a Arábia Saudita guarda silêncio sobre eventuais opções nesse sentido.

   Nos últimos meses os estados do Golfo iniciaram, no entanto, discussões preliminares sobre a viabilidade de programas nucleares civis.

   Os riscos destes eventuais programas nucleares acabarem por incorporar componente militares são elevadíssimos face à prossecução dos projectos iranianos que ganhou esta semana novo alento com a confirmação por parte de Moscovo de que cumprirá as suas obrigações contratuais de forma à central de Busher entrar em funcionamento em Novembro de 2007.

   O interesse em obter garantias mútuas informais de não-agressão face às ameaças de Teerão e dos seus aliados explica, por seu lado, as fugas de informação sobre os primeiros contactos de alto nível entre representantes israelitas e sauditas.

   O entendimento entre Telavive e Riade esbarra, contudo, na impossibilidade presente de Israel oferecer concessões na questão palestiniana.

    O descalabro libanês e a recusa terminante do Hizballah em desarmar as suas milícias retirou margem de manobra ao governo de Ehud Olmert que abandonou os planos para uma retirada unilateral da Cisjordânia. As sondagens indicam uma acentuada viragem à direita do eleitorado israelita favorecendo o Likud de Benjamin Netanyahu em detrimento do Kadima de Olmert e dos trabalhistas de Amir Peretz.

   A incapacidade das facções da OLP que ainda aceitam a autoridade do presidente Mahmoud Abbas em imporem uma partilha de poderes ao Hamas em Gaza e o reconhecimento indirecto de Israel condenam, por seu turno, os palestinianos ao isolamento diplomático e à ruína financeira.

   Nesta conjuntura são vãs as esperanças de qualquer compromisso nos termos da proposta avançada pelos sauditas em 2002 que implicava o reconhecimento de Israel pelos estados árabes em troca da retirada dos territórios palestiniano e sírio ocupados em 1967, do estatuto de Jerusalém Oriental como capital de um estado independente e de uma vaga "solução justa" para os mais de quatro milhões de refugiados palestinianos.

                                     Uma guerra perdida

   À apreensão generalizada dos estados árabes sunitas, da Turquia e da Arménia de que Teerão conseguirá levar avante o seu programa e dotar-se de armas nucleares junta-se a constatação de que as possibilidades de pacificação do Iraque são praticamente nulas.

   Todos os partidos curdos e xiitas continuam a aumentar as exigências de autonomia à custa do governo central e a decisão de adiar por dois anos a criação legal de regiões tem sobretudo a ver com o cálculo por parte dos xiitas de que os Estados Unidos ver-se-ão obrigados até lá a retirar do Iraque. Só os curdos pela voz do presidente Talabani expressam interesse público em albergar tropas norte-americanas.

   Uma sondagem encomendada pelo Pentágono e revelada esta semana pela BBC expressa em toda a sua extensão a impossibilidade de conter a insurreição e o terrorismo dos grupos sunitas e a escalada de ataques e retaliações das milícias xiitas.

   Encurralada e politicamente impotente a minoria de cinco milhões de sunitas aparenta agora apoiar esmagadoramente a insurreição armada contra as tropas da coligação norte-americana e britânica.

   Se em 2003 apenas 14 por cento dos sunitas inquiridos manifestavam apoio aos ataques presentemente esse número subiu para 75 por cento, segundo o estudo encomendado pelo Departamento de Defesa de Washington. 

   Fracassado o projecto de democratização no Iraque aumentam as preocupações pelo efeito mobilizador que o conflito tem causado entre radicais sunitas e xiitas seduzidos pela propaganda islamita.

   A estimativa conjunta das 16 agências de informação dos Estados Unidos de que a guerra no Iraque tem aumentado a base de recrutamento de grupos terroristas no Médio Oriente, a nível internacional e junto das comunidades de imigrantes muçulmanos e seus descendentes segue-se a idêntica análise feita no início do ano pelos serviços secretos britânicos.

                                       Um pacto com o diabo

   O panorama fica mais negro pelo fracasso do contingente multinacional em assegurar a segurança nas regiões rurais do Afeganistão que retornou ao padrão tradicional de sustento de milícias tribais pela produção e tráfico de ópio e heroína.

   O Paquistão, por seu turno, acaba de agravar a periclitante situação do governo de Hamid Karzai, que se encontra confinado a Cabul, ao mesmo tempo que vê deteriorem-se as relações com Nova Delhi que alega cumplicidade de Islamabade em grande número de ataques terroristas na Índia.

   O acordo selado entre os líderes tribais do Waziristão e Islamabade para retirada das tropas governamentais da província é uma cedência dos militares na esperança de evitar que a crescente radicalização dos pashtun provocada pelo reforço do movimento taliban acabe por fragilizar ainda mais o regime de Pervez Musharraf.

   O cálculo de que a liberdade de movimentos dos taliban no Waziristão confinará as suas investidas ao território do Afeganistão poderá, no entanto, revelar-se errado em detrimento quer do governo de Cabul, quer de Islamabade se prosseguir a radicalização dos 40 milhões de pashtun que representam mais de 15 por cento da população do Paquistão e cerca de 40 por cento dos alegados súbditos do estado afegão.

   A região fronteiriça é assim refúgio natural para dirigentes da Al Qaeda que continua muito activa ainda que de forma mais descentralizada. Desde Setembro de 2001 os fiéis de Bin Laden dirigiram, financiaram ou participaram directamente em 30 ataques em 12 países que causaram 2060 feridos e 440 mortos, de acordo com um estudo da Rand Corporation para a Agência de Segurança Interna dos Estados Unidos.

   A estes ataques da responsabilidade da Al Qaeda juntam-se os atentados perpetrados no Iraque e as acções de grupos radicais islamitas independentes que se tornaram mais letais nos últimos cinco anos do que em qualquer período precedente.

   No encadeamento de todas estas crises surge um elemento comum.

   A administração Bush mostra-se incapaz de articular iniciativas diplomáticas coerentes em pelo menos quatro questões fulcrais: o programa nuclear iraniano, a guerra do Iraque, o conflito israelo-palestiniano-árabe, além do Afeganistão.

    Os Estados Unidos em vez de promoverem ou coordenarem iniciativas diplomáticas estão assim cada vez mais sujeitos aos riscos das acções que os seus aliados e parceiros decidem assumir unilateralmente.


Jornal de Negócios
27 Setembro 2006

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Tiros nos pés da diplomacia espanhola

M
 
Carme Chacón na base militar de Djakoviva, Kosovo
 
 
   Madrid conseguiu em poucos dias indispor os seus aliados da NATO e, em particular os Estados Unidos, com o anúncio intempestivo da retirada do contingente espanhol do Kosovo num caso exemplar de incompetência diplomática.

   A ministra da Defesa Carme Chacón anunciou na passada quinta-feira, durante uma visita às tropas espanholas no Kosovo, que os militares estariam de regresso a casa antes de acabar o próximo Verão.

   No dia seguinte, o Departamento de Estado norte-americano declarou-se "profundamente desapontado" e em Bruxelas o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, lamentou que a Espanha não tivesse procedido a consultas com os demais 25 aliados.

                           Retirar sem olhar a consequências
   O anúncio de retirada unilateral foi confirmado segunda-feira com a precisão de que "o grosso do contingente" de 632 militares abandonaria o Kosovo até final de Setembro e que a saída das tropas seria coordenada com os outros Estados da NATO presentes no território no âmbito da missão da KFOR (apenas a Islândia não se encontra representada).

   O governo de Madrid justificou a retirada por não se considerar vinculado a tarefas de criação e consolidação de instituições de defesa de um Estado cuja declaração de independência unilateral de Fevereiro de 2008 não reconhece.

   O chefe da diplomacia espanhola Miguel Moratinos tinha, contudo, reiterado a 5 deste mês que a Espanha manteria a sua presença no Kosovo e que participaria nas discussões sobre uma eventual redução da missão da KFOR (que conta com cerca de 15.450 militares) de forma a contribuir para um consenso sobre a matéria na próxima cimeira da NATO agendada para 3 e 4 de Abril.

   A reviravolta espanhola colocou numa situação delicada a Roménia, a Grécia e a Eslováquia que, apesar de também não reconhecerem a independência do Kosovo participam na KFOR, e rompeu com o consenso de que uma redução da missão da NATO só seria considerada caso as condições políticas e de segurança no território fossem tidas por satisfatórias.

   À KFOR, presente no Kosovo desde Junho de 1999 ao abrigo da Resolução 1244 do Conselho de Segurança, veio juntar-se em Dezembro último, também com aval da ONU, a missão da União Europeia, a EULEX (sem participação da Espanha), essencialmente administrativa, policial e judiciária, que conta já com 1.687 membros e emprega 806 funcionários locais.

                                     Um impasse para durar
   Independentemente de outras mudanças de posição, caso de Portugal que em Outubro do ano passado decidiu reconhecer a independência do Kosovo, a antiga província controlada por Belgrado ainda só estabeleceu relações diplomáticas com 56 países.

   Treze meses passados sobre a declaração de independência mantém-se a oposição de Estados como a Rússia, a China, o Brasil, a África do Sul e a maioria dos países islâmicos ao reconhecimento do Kosovo.

   A esperada decisão não-vinculativa do Tribunal Internacional de Justiça sobre a legalidade da declaração, votada por iniciativa da Sérvia pela assembleia-geral da ONU em Outubro de 2008 (a Espanha foi um dos 77 Estados a votar a favor e Portugal um dos 74 que se abstiveram), não deverá trazer alterações de maior à actual relação de forças, tanto mais que a tensão entre a minoria sérvia e a maioria albanesa no Kosovo não dá sinais de diminuir.

   A iniciativa espanhola foi criticada internamente pelos principais partidos da oposição devido à forma inesperada, descoordenada (sem informação prévia sequer à embaixada em Washington) e ao arrepio de compromissos anteriores que caracterizou a actuação dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.

   O governo de Madrid acabou por tornar inopinadamente um assunto menor e relativamente consensual - o Partido Popular deplorou a independência unilateral que só contou com o apoio de nacionalistas bascos e catalães - num caso de discórdia partidária.

   Para piorar as coisas e à procura de alguma forma de compensação o governo de José Luis Zapatero veio, entretanto, afirmar a disponibilidade para reforçar a sua presença no Afeganistão, onde tem 800 militares, se os Estados Unidos lhe endereçarem um pedido nesse sentido, apesar de ter repetidamente afirmado em ocasiões anteriores que estava fora de questão reforçar o contingente na Ásia Central.

   O anúncio da retirada do Kosovo, apesar de ter um significado diferente da saída das tropas espanholas do Iraque em 2004 depois da vitória eleitoral socialista, veio pôr em causa a credibilidade da diplomacia espanhola que não mediu as consequências da sua decisão, desprezou os interesses de diversos estados aliados e ignorou os procedimentos de consultas no seio da NATO. Um verdadeiro tiro no pé que Madrid irá pagar caro.
 
Jornal de Negócios
25 Março 2009
 
 
 

domingo, 2 de setembro de 2012

Que fazer com esta fraude?



     Uma companhia de comandos partirá para o Afeganistão em 2010 para integrar a "Força de Reacção Rápida" do contingente internacional e os custos da participação portuguesa, iniciada em 2002 e centrada sobretudo no treino da polícia e exército afegãos, superarão os 80 milhões de euros no final deste ano.

   Os 150 comandos irão juntar-se a 143 militares portugueses que têm vindo a participar em diversas missões da "Força Internacional de Assistência à Segurança" e, tal como os seus camaradas fuzileiros, duas dezenas de homens que este mês reforçaram as unidade de protecção bem se podem interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central.

   A guerra corre mal aos ocidentais, que se revelam incapazes de conter grupos talibã ou movimentos islamitas como o Hiz-e-Islami, de Gulbunddin Hekmatyar. Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 65 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não conseguiram criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã em mais de um terço do país.

   O que existe da administração central do presidente Hamid Karzai são estruturas ineficazes, corruptas e disfuncionais que assentam na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais.

Uma eleição viciada
   A eleição presidencial de Agosto deveria, num contexto de redefinição estratégica da presença militar estrangeira, legitimar o governo de Cabul e criar condições para um assumir crescente por parte das entidades administrativas centrais e dos conselhos da 34 províncias de responsabilidades de segurança e coordenação de projectos sanitários e de desenvolvimento.

   Tudo se gorou e a votação de 20 de Agosto redundou numa fraude grotesca depois de Karzai ter forjado acordos com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população).

  Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobriam, por sua vez, um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se juntava o contributo do uzbeque Rashid Dostum, num bloco eleitoral de políticos e senhores da guerra com cadastros confrangedores.

   A eleição foi, pela primeira vez, organizada pelas autoridades afegãs da "Comissão Eleitoral Independente", com apoio técnico estrangeiro e financiamento internacional.

   O número de recenseados atingiu os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres, sendo excluídos mais de milhão e meio de deslocados no Paquistão e 800 mil refugiados no Irão. Como a inscrição nos cadernos eleitorais fora efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaravam o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, tornava-se evidente o peso dos eleitores-fantasma e a eventualidade de fraude.

  Além das precárias condições de segurança que à partida poderiam excluir do processo eleitoral cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, outros locais vieram a revelar-se problemáticos pois na ausência de monitores estrangeiros recrudesceram as dúvidas sobre a idoneidade de boa parte dos representantes da "Comissão Eleitoral Independente", encarregue do recenseamento, organização da eleição e escrutínio.

Perda de credibilidade da ONU
   Os resultados preliminares deram 55% dos votos a Karzai e 28% ao antigo ministro dos negócios estrangeiros Abdullah Abdullah e de imediato surgiram alegações de fraude generalizada a somarem-se às irregularidades no próprio dia da votação (cartões de recenseamento à venda, compra aberta de votos, etc.).

   Observadores da União Europeia manifestaram as suas suspeitas em relação à validade de pelo menos 1,5 milhões de votos (entre eles 1,1 milhões obtidos por Karzai) e, à medida que crescia a polémica, o número dois da missão da ONU, o norte-americano Peter Galbraith, acusou publicamente o seu chefe, o norueguês Kai Eide, de ter falhado na prevenção de actos fraudulentos e de esconder provas de fraude generalizada a favor de Karzai.

  As acusações de Galbraith levaram o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon a demiti-lo a 30 de Setembro, mas Eide acabou por reconhecer no passado domingo a ocorrência de fraudes significativas nas regiões do Sul e do Sudeste, áreas de maioria pashtun favoráveis a Karzai.

  Documentos internos da ONU, entretanto vindos a público, constatam fraudes gravíssimas como, por exemplo, na província de Paktika, área maioritariamente pashtun no Sudeste do país. Os funcionários das Nações Unidas estimaram o número de votantes em cerca de 35 mil, mas a "Comissão Eleitoral Independente" registou 206.886 votos, dos quais 193.541 para Karzai.

Na guerra sem parceiro
  Uma fraude generalizada impossível de contabilizar foi o veredicto de Eide, que remeteu a prova dos factos para a "Comissão Eleitoral de Apelo", uma entidade presidida pelo canadiano Grant Kippen e onde se contam dois representantes afegãos, um norte-americano e um holandês.

  A Comissão invalidara a votação em 83 centros de voto devido a fraudes, e a 15 de Setembro declarou que os boletins de 2.516 locais de voto (10% do total) seriam recontados devido a suspeitas de irregularidades graves.

  Enquanto se aguarda para esta semana o veredicto da "Comissão Eleitoral de Apelo", logo na segunda-feira um dos seus elementos, o juiz afegão Maulawi Barakzai, demitia-se alegando "interferências estrangeiras inaceitáveis".

  Se a Comissão anular um número de votos que faça cair a votação em Karzai abaixo dos 50%, será necessário realizar uma segunda volta entre o actual presidente e Abdullah, de ascendência mista pashtun e tadjique.

   A nova votação teria lugar três semanas após a publicação dos resultados finais sem que haja tempo ou vontade para reformar as práticas corruptas da "Comissão Eleitoral Independente" e já sob a ameaça de isolamento de grande parte das zonas rurais do Centro e do Norte do Afeganistão devido a nevões.

   Caso Karzai veja confirmada a vitória, a legitimidade do presidente será contestada e, depois das próprias Nações Unidas verem a sua credibilidade posta em causa na monitorização e denúncia de fraudes, mais difícil ainda será aos estados empenhados militarmente no Afeganistão negociarem com um governo central saído de uma imensa tramóia eleitoral.

  Prosseguir um esforço de guerra sem ter parceiros credíveis nas próprias instituições oficiais afegãs é perder o norte e condenar-se ao fracasso.

  Não serão só os 40 mil militares que Barack Obama possa vir a destacar como reforço do contingente dos Estados Unidos, como pede insistentemente o seu comandante no Afeganistão, o general Stanley McChrystal, que acabarão por se interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central. Também as tropas portuguesas dificilmente compreenderão o que se quer nesta guerra.




Jornal de Negócios
14 Outubro 2009

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A caminho da pior das derrotas



Ponte da Amizade
Afeganistão-Rep. Socialista Soviética do Uzbequistão
1 Fevereiro de 1989

     O mais difícil, quando tudo estiver acabado, vai ser encenar qualquer coisa que tente iludir a desgraça à imagem do que foi a partida do último soldado soviético do Afeganistão, protagonizada pelo general Boris Gromov ao atravessar a ponte sobre o Amu Darya para o Uzbequistão ao sol de um meio-dia de Fevereiro de 1989.

  A mais poderosa aliança militar do mundo, os seus aliados australianos, sul-coreanos e demais envolvidos caminham inexoravelmente para um fracasso militar e uma catástrofe política no Afeganistão, numa guerra que, passados oito anos, falha nos objectivos e se revela equívoca na estratégia e tácticas.

                                        Guerra para quê?

   Firmar um governo em Cabul suficientemente forte para impedir que o Afeganistão reverta a favor de investidas radicais islamitas na Ásia Central e covil de organizações terroristas é, agora, sacrificadas a realidades intratáveis a democratização ou os direitos das mulheres, o objectivo da NATO.

  Limitar a produção e tráfico de drogas, desviando, na medida do possível, os seus proventos do financiamento de actividades subversivas e terrorristas, surge, subsidiariamente, como condição muito necessária, mas não impreterível, para a NATO e aliados virem a conformar-se com uma autoridade autocrática em Cabul capaz de evitar a desagregação do estado afegão por via de acordos com potentados regionais e senhores da guerra.

   Barack Obama acabou de selar o compromisso de mais tropas no terreno e maior compromisso na formação de militares e polícias afegãos na expectativa de dentro de quatro a cinco anos poder iniciar uma retirada gradual de tropas.

   Em números redondos, os Estados Unidos contarão, em meados de 2010, com 100 mil militares no Afeganistão e os seus aliados somarão outros 40 mil homens, chegando, assim, a níveis de presença no terreno superiores aos cerca de 120 mil homens que a União Soviética mobilizou ao apogeu da intervenção que se arrastou por uma década desde o final de 1979.

   Afeganizar a guerra, duplicando os actuais efectivos do exército para 240 mil homens e da polícia para 160 mil, afigura-se difícil de conseguir a curto prazo.

   As actuais taxas de deserção no exército rondam um para quatro e os efectivos mal chegam aos 134 mil homens. A desproporção étnica, dada a dificuldade de recrutamento entre a maioria pashtun (40% da população), é, ainda, perigosa, dado que os tadjiques (um quarto da população) representam 41% dos efectivos e dominam as chefias militares e do ministério da defesa.

   Baixas civis e militares muito aquém das provocadas pelas tácticas de terra queimada e gente massacrada da URSS, legitimação internacional por obra de mandatos da ONU, distinguem, no imediato, a guerra da NATO da invasão soviética.

   Os investimentos em infra-estrutruras e desenvolvimento rural claudicam, no entanto, ainda mais do que os tentados durante a intervenção soviética, e a corrupção administrativa é tão endémica e pervasiva quanto a dos anos oitenta e surge potenciada pelo tráfico de drogas, que ronda, presentemente, os 4 mil milhões de dólares por ano.

                                          Pior do que antes

  Um dos factos alarmantes resume-se a isto: sem apoios estrangeiros significativos (como o arco que uniu Washington, Islamabade, Riade e Pequim contra Moscovo) ou equipamento militar de ponta (caso dos fatais mísseis Stinger, que fizeram claudicar o domínio aéreo soviético), a insurreição taliban no Sul e Leste do Afeganistão, além da guerrilha de históricos radicais islamitas como Gulbuddin Hekmatyar, e revoltas locais alastrando além das áreas de maioria pashtun, replicam para pior o impasse que levou à derrota soviética.

  Desta feita, o pecado original não advém de um erro de cálculo estratégico ao desencadear a invasão, como ocorreu com a intervenção soviética de Dezembro de 1979, apesar de desde os idos de Outubro de 2001 a investida militar liderada pelos Estados Unidos esbarrar contra as resistências dos tradicionalismos locais e, sobretudo, claudicar ante algo que implica pensar estratégia.

   Um governo afegão alinhado com a Índia (alvo de sucessivos atentados à sua representação diplomática em Cabul desde que Nova Deli apostou em Hamid Karzai ou quem seja poder na capital afegã e se mostre adverso a submter-se ao Paquistão) será sempre tido em Islamabade como um risco estratégico.

   A contenção dos riscos de subversão radical islamita nas províncias pashtun na fronteira do Afeganistão nunca será tida em Islamabade como algo que valha contrição militar face à Índia e, pelo lado do Paquistão, o vizinho da Ásia Central pode ir ardendo a fogo lento.

                                                  Nada ajuda

   A acrescer risco ao compromisso de Obama, advém o crescendo de tensão com o Irão, as dificuldades previsíveis para cumprir o calendário de retirada do Iraque, e os custos da guerra num clima pouco propício, sem que o governo de Cabul releve lisura ou eficácia administrativas.

  Custos de 3,6 mil milhões de dólares/mês, quase mil mortos norte-americanos até agora, outros 30 mil milhões de dólares por ano para pagar o reforço de efectivos no Afeganistão, tornam cada vez mais difícil de fazer aceitar uma guerra por um eleitorado que dentro de um ano decidirá as maiorias no Congresso de Washington.

  As contas estão feitas e as realidades no terreno obrigariam a um muito maior investimento em tropas e ajuda económica efectiva que são inaceitáveis para os eleitorados ocidentais.

  Quando a guerra e os caixões retornarem em força, passado o Inverno no Afeganistão, e se aproximarem as eleições gerais britânicas e as votações para o Congresso de Washington no final de 2010, pouco haverá para apresentar de positivo da investida militar.

   A partir daí será o princípio do fim, a busca afogueada de compromissos para uma retirada, sem que se possa presumir o que venham a ser as consequências globais da pior das derrotas possíveis: a que nem se pode assumir como tal.



Jornal de Negócios
02 Dezembro 2009

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No Afeganistão até que a morte nos separe

   O casamento de conveniência entre Hamid Karzai e os seus patronos ocidentais passará quinta-feira por mais um transe difícil com uma eleição presidencial aquém dos interesses e objectivos dos países que se encontram militarmente envolvidos no Afeganistão.
   As ofensivas lançadas esta Primavera pelos militares dos Estados Unidos e da NATO estão longe de cumprir o objectivo de desalojar os taliban de vastas áreas rurais do Sul e do Leste do país.

   A diminuição do recurso a ataques aéreos não evitou o aumento do número de vítimas civis e as baixas das forças ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, cresce sem que tenha sido conseguido um controlo efectivo das regiões mais densamente povoadas do Sul e do Leste, e tão pouco a pacificação das províncias centrais.

  O exército afegão, 88 mil homens, e as forças da polícia nacional, 82 mil efectivos, não preenchem os requisitos para garantir a segurança dos principais centros urbanos, e projectos essenciais de reconstrução de infra-estruturas, como a rede de estradas ligando as maiores cidades, sofrem atrasos e danos consideráveis face às ameaças da guerrilha e do banditismo, mesmo em regiões tidas por seguras no Norte do Afeganistão. Praticamente metade do país é tida por insegura e os atentados terroristas não poupam a própria capital.

   Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 62 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não estão a conseguir criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã e a nova opção de ataque às redes de tráfico de drogas revela-se incapaz de pôr cobro ao principal negócio do país que movimenta mais de 4 mil milhões de dólares anualmente.

Karzai e os seus


  A administração do presidente Karzai degenerou nos últimos quatro anos numa rede de patrocínios, envolvendo potentados locais em acordos com o governo de Cabul, oleada pela corrupção e desvio de fundos da assistência internacional (cerca de 63 mil milhões de dólares investidos até hoje), sem que mais de 40% dos 30 milhões de afegãos consiga escapar A eleição presidencial e a votação para os conselhos das 34 províncias de Afeganistão surgem como um teste à viabilidade do esforço de guerra internacional, aos programas de reconstrução e à legitimidade das administrações provinciais e central. Os indicadores são tendencialmente negativos.

  Karzai para assegurar a reeleição, que poderá exigir uma segunda volta em Outubro, forjou alianças com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população). Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobrem um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se junta o contributo do uzbeque Rashid Dostum.

  O peso destes líderes, de cadastros confrangedores para os patronos ocidentais, augura a persistência de poderes locais e respectivos grupos armados em detrimento do governo central que se centra na figura do presidente.

Uma eleição no fio da navalha


  Um indicador seguro do real estado de coisas passa pela participação eleitoral num processo que, pela primeira vez, é organizado exclusivamente pelas autoridades afegãs, ainda que financiado por doadores internacionais.

  Nas presidenciais de Outubro de 2004, antes do recrudescimento da guerrilha taliban, registaram-se cerca de 10 milhões de eleitores e Karzai obteve 4,3 milhões dos 8,1 milhões de votos expressos, vencendo em 21 províncias.

  Para a votação de quinta-feira - que exclui mais de 800 mil refugiados no Irão e milhão e meio de deslocados no Paquistão -, o número de recenseados atinge os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres. Como a inscrição nos cadernos eleitorais é efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaram o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, é elevado o número de eleitores-fantasma e omnipresente a eventualidade de fraude. Só a análise dos resultados oficiais, com divulgação prevista para 17 de Setembro, permitirá apurar os níveis de real participação e de fraude eleitoral.

  Ao invés do que aconteceu em 2004, os taliban tentam desta vez impedir a votação e o primeiro e mais óbvio sinal da força da guerrilha terá a ver com o número de locais de voto que venham a funcionar. Na véspera da votação, a Comissão Eleitoral de Cabul previa que cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, não conseguissem reunir condições de segurança.

  As eleições correm o risco de vir a dar uma nova vida a uma administração ineficaz, corrupta e disfuncional, assente na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais, que em nada facilitará um esforço de guerra ocidental capaz de conter os taliban ou grupos islamitas como a Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hekmatyar. 

Jornal de Negócios
19 Agosto 2009

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Iraque: missão inconclusiva

  
American soldiers carry their belongings to be inspected at Camp Virginia, north of Kuwait City, before flying back to the US after their tour of duty in Iraq. The Stryker brigade is the last combat unit returning from Iraq. Photograph: Gustavo Ferrari/AP

   Até ao final de Agosto, os Estados Unidos vão reduzir para 50 mil militares o seu contingente no Iraque e, mais de sete anos passados sobre a invasão, Washington arrisca ver diminuir drasticamente a sua capacidade de influência política em Bagdad.

Barack Obama considerou ter-se entrado numa nova fase, marcada por um esforço civil para a reconstrução do Iraque suportado por meios diplomáticos, cabendo aos militares dos Estados Unidos que restam no país missões de apoio e treino às forças armadas iraquianas, além de participarem em operações contraterroristas e de segurança.

A Casa Branca congratula-se por o contingente residual representar, a partir de Setembro, cerca de um terço das tropas destacadas para o Iraque quando Obama tomou posse, em Janeiro de 2009, e considera que no final de 2011 poderá completar a retirada.

Os termos da presença norte-americana após a retirada final, acordada em Novembro de 2008, ainda não são claros, apesar de Washington prever o controlo efectivo do espaço aéreo e a parte de leão no fornecimento de equipamento, munições e treino das forças armadas iraquianas.

Um risco incontornável
O que claudica nestes planos é ponderar a reacção que uma eventual acção militar contra o Irão possa vir a provocar e a sustentabilidade da actual partilha de poderes ante um previsível aumento da violência a curto prazo.

Politicamente, a influência norte-americana caiu a pico nos anos de maior violência de guerra civil e terrorismo, entre 2006 e 2007, ao mesmo tempo que aumentava o peso político do Irão, que, entretanto, se tornou no principal parceiro comercial do Iraque.

A composição étnico-religiosa do Iraque implicava necessariamente a subordinação da minoria sunita a partir do momento em que o regime de Saddam Hussein fosse derrubado, e, na violência da guerra, as grandes linhas de repartição do poder ficaram praticamente definidas para o futuro próximo, apesar de persistir o impasse quanto a Kirkuk disputada por curdos, árabes e turcomenos.

Desde as eleições de Março que os partidos xiitas, curdos e sunitas não conseguem chegar a acordo para a formação de um governo, e o impasse tem propiciado um incremento da violência e do terrorismo políticos.

A retirada de forças norte-americanas das áreas urbanas não conseguiu obstar a uma dinâmica de violência motivada por confrontos internos, e a presença militar no país tornou-se irrelevante para potenciar pressões políticas do interesse de Washington.

A capacidade de mediação dos Estados Unidos revela-se diminuta e rivaliza com interesses díspares dos mais influentes estados vizinhos, nomeadamente o Irão e a Turquia, a par das monarquias sunitas do Golfo Pérsico, com a Arábia Saudita em primeiro lugar.

A retaliação contra alguns aliados norte-americanos, por outro lado, já começou e afigura-se sangrenta, sendo este um dos raros casos em que a manutenção de tropas dos Estados Unidos ainda pesa para adiar ajustes de contas.

Na primeira linha, esperando uma sorte igual à que coube aos Hmong do Laos, mobilizados pela CIA na guerra da Indochina, encontram-se as tribos sunitas que a partir de 2005 passaram a cooperar com os Estados Unidos na luta contra a Al Qaeda, além de mais de 3 mil guerrilheiros iranianos da Organização dos Combatentes do Povo acantonados em Ashraf, a Norte de Bagdad.

Com petróleo e sem electricidade
A economia iraquiana continuará, por seu turno, dependente do petróleo, que representa 95% das receitas do orçamento, mas o sector passou a estar aberto ao investimento estrangeiro.

Os níveis de extracção ainda não atingiram os valores anteriores à invasão de Março de 2003 (2,3 milhões de barris/dia em Julho) e os recentes investimentos de empresas petrolíferas estrangeiras, responsáveis pelo crescimento económico superior a 7% no corrente ano, são limitados pelas condições de insegurança e por um regime legal pouco claro.

O desemprego afecta cerca de 40% da população e a actividade económica ressente-se do clima generalizado de corrupção que delapidou parte apreciável, e dificilmente quantificável, dos 53 mil milhões de dólares que Washington disponibilizou para a reconstrução e formação de forças militares e de segurança.

Crédito caro, carências de quadros fugidos do país desde 2003 (cerca de 1,7 milhões de iraquianos vivem actualmente no estrangeiro, sobretudo na Síria e na Jordânia) e a omnipresente falta de electricidade, com fornecimentos limitados entre duas a quatro horas diárias, configuram um quadro de morosa e errática recuperação económica, mas, também, neste caso a retirada militar norte-americana pouco pesa.

A ameaça da próxima guerra
A Casa Branca procurará apresentar uma retirada ordenada como um sucesso e proclamará ter contribuído para a pacificação e democratização do Iraque, eliminando ameaças terroristas a nível regional e internacional.

Outro objectivo foi conseguido a médio prazo, mas não é assumido publicamente: erradicar um Iraque expansionista capaz de ameaçar militarmente as monarquias sunitas, ainda que à custa da perda do contrapeso ao Irão que representava o anterior regime de Saddam apoiado na minoria sunita.

Contar, no futuro, com o Iraque como parceiro ou, pelo menos, estado não-hostil, independentemente de uma deriva autoritária do regime ou da preservação de normas democráticas, é, contudo, mais difícil de garantir.

O desinvestimento no esforço militar no Iraque corre paralelo ao incremento no número de tropas na desventurada guerra do Afeganistão e a projecção de força na região será assegurada pela presença da V Esquadra, suportada pela instalações navais e aéreas norte-americanas no Bahrain, Kuwait e Qatar.

Em Julho contavam-se 81 mil militares norte-americanos no Iraque e 87 mil no Afeganistão. Em Setembro, saídos 31 mil homens da Mesopotâmia, o contingente dos Estados Unidos no Afeganistão chegará os 96 mil militares, mais do triplo das forças mobilizadas à data da tomada de posse de Obama.

Um eventual ataque israelita ao Irão, com obrigatória luz verde de Washington, ou uma acção unilateral militar norte-americana contra Teerão terão como resultado inevitável a convulsão do Iraque e uma recaída na guerra civil que poderá levar ao desmembramento do estado.

O sucesso da retirada militar norte-americana do Iraque e dos objectivos estratégicos de Washington na Mesopotâmia, mesmo minimalistas, está ainda longe de ser uma realidade.
Tudo está preso por fios e dependente do desenlace do conflito com o Irão.




Jornal de Negócios
04 Agosto 2010

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Afeganistão: à espera da Primavera

  Helmand, Afeganistão


   Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

   A ineficácia e corrupção da administração do presidente Hamid Karzai, a insuficiência de efectivos militares e de meios financeiros para a reconstrução de um país devastado por 30 anos de guerra conduziram a um impasse.

   Os aliados, com apenas cerca de 70 mil homens no terreno, não têm condições para assegurar o controlo das províncias de maioria pashtun do sul e leste do Afeganistão e ao optarem pelo recurso sistemático a ataques aéreos reforçaram a hostilidade das populações nas áreas mais sujeitas à presença dos talibans.

                           Uma guerra cada vez mais sangrenta

   A ONU estima que no ano passado, o mais sangrento desde a invasão de 2001, o número de vítimas civis tenha aumentado 39% em relação a 2007, cifrando-se em 2.119 mortes.

   Os talibans teriam causado 55% das baixas civis, mas os ataques aéreos da NATO e dos Estados Unidos seriam responsáveis por 455 mortes, apesar dos aliados reconhecerem apenas 237 vítimas.

  O agravamento da situação deu origem a críticas públicas de responsáveis norte-americanos e da NATO a Karzai, enquanto o presidente afegão exige que parem os ataques aéreos e as forças aliadas cooperem plenamente com os cerca de 80 mil homens do exército nacional não se envolvendo, designadamente, em buscas e interrogatórios não autorizados de civis.

  Numa altura em que se agrava a crise constitucional provocada pelo adiamento das eleições presidenciais para Agosto, quando o mandato de Karzai termina em Maio, o claro distanciamento entre os aliados e o presidente abriu caminho para a escolha de um sucessor que terá de ser aceitável para as tribos pashtun (cerca de 40% da população) e para as minorias tadjiques (aproximadamente 27% dos habitantes do Afeganistão), além de hazaras, uzbeques e turcomenos.

   Na expectativa de um recrudescimento dos combates no início da Primavera, as negociações políticas entre as facções afegãs e a recandidatura de Karzai estão dependentes da estratégia que os aliados venham a definir na cimeira da NATO de Abril.

                                            Irredutíveis pashtun

   Os talibans, nomeadamente a frente liderada pelo Mullah Omar e as forças comandadas por Jalauddin Haqqani, recusam quaisquer conversações, e só alguns comandantes islamitas isolados, designadamente na província de Helmand, aceitaram até agora tréguas a troco de assumirem o controlo das suas áreas de influência.

   Acordos pontuais fomentados, ora pelas forças aliadas, ora pelo governo de Cabul, têm permitido a milícias tribais e às forças dos chamados "senhores da guerra" controlarem vastas áreas territoriais.

   A produção de ópio diminuiu 19% no ano passado em relação a 2007, mas continua a ser suficiente para financiar o esforço de guerra dos talibans e alimentar a corrupção dos poderes públicos.

   Restrito presentemente a 12 das 34 províncias do país, o cultivo de ópio é também motivo de divergências entre os aliados (norte-americanos e britânicos consideram a erradicação um objectivo imediato ao contrário da maior parte dos demais contingentes da NATO) e as autoridades afegãs.

   Pelo menos 15% dos 32 milhões de afegãos dependem do cultivo de ópio e as políticas de substituição de culturas têm produzido resultados limitados, enquanto persistem desacordos sobre a viabilidade de programas de compra directa das colheitas aos produtores, legalizando a principal fonte de rendimento dos camponeses, sobretudo em Helmand e noutras províncias do sul.

   A irredutível resistência dos talibans pashtun no sul e no leste do Afeganistão é inseparável da rebelião islamita e tribal no Paquistão e o consenso entre os aliados é de que só acordos políticos, mitigando os apoios além fronteiriços, poderão evitar um agravamento da situação militar.

                                       O futuro da guerra

   Paquistaneses e indianos favorecem facções rivais no Afeganistão, mas, tal como a China e o Irão, têm interesse na viabilização de gasodutos, oleodutos e rotas comerciais que implicam a pacificação do território afegão.

   Negociações envolvendo paquistaneses, indianos, chineses e iranianos, além das repúblicas da Ásia Central onde a Rússia tem ascendente, são um pressuposto para a estabilização do Afeganistão, mas dependem da contenção dos talibans que no ano passado infligiram mais de 290 baixas aos aliados.

   A administração Obama considera duplicar o contingente norte-americano com mais 30 mil homens (o máximo reforço possível dadas as limitações orçamentais e humanas das forças armadas de Washington e ainda assim dependente da redução da presença no Iraque), mas conta com escasso apoio dos aliados.

   Mesmo um reforço dos 1 100 homens do contingente australiano não compensará a retirada de tropas canadianas e holandesas, ao mesmo tempo que a maior parte dos membros da NATO dificilmente mobilizarão mais de 10 mil militares para o cenário de guerra no Afeganistão.

   Um total de 100 mil homens é ainda insuficiente.

   Treinar e financiar o exército afegão para que chegue aos previstos 130 mil efectivos, encetar acções ofensivas no sul e leste do país e manter simultaneamente condições de segurança para projectos de desenvolvimento (para os quais não existem verbas, nem meios humanos) são objectivos que ultrapassam os meios previsivelmente disponíveis.

  O objectivo essencial de um reforço militar parece assim limitar-se a conter o alastramento e intensificação das ofensivas talibans de forma a criar condições diplomáticas para envolver os países vizinhos em negociações.

   A deriva islamita dos pashtun no Paquistão não augura, no entanto, hipóteses de sucesso a curto prazo para a estabilização do Afeganistão mesmo numa variante minimalista em que o governo de Cabul seja reconhecido como autoridade simbólica nos principais centros urbanos e entre as minorias étnicas.

   Um reforço militar implica no imediato uma intensificação dos combates e um aumento das vítimas civis, sem contrapartida na melhoria na oferta de equipamentos e serviços às populações, e poderá contribuir para uma alienação ainda maior dos pashtun.

   O que acontecer esta Primavera determinará o futuro da guerra no Afeganistão.

   Se os Estados Unidos e a NATO não conseguirem conter a guerrilha taliban, a vontade política para prosseguir o esforço de guerra e investir na reconstrução do Afeganistão claudicará irremediavelmente.



Jornal de Negócios
18 Fevereiro 2009

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A outra crise intratável




   Dia após dia, Barack Obama e seus relutantes aliados europeus, canadianos e australianos, vão somando reveses na frente de guerra afegã e deparam-se ante uma crise insanável e cada vez mais alarmante no Paquistão.

   Obama, os presidentes do Afeganistão, Hamid Karzai, e do Paquistão, Asaf Ali Zardari, respectivas chefias militares e dos serviços secretos, estão reunidos em Washington numa cimeira de emergência que vai por à prova a nova estratégia norte-americana para o arco de crises que vai do Médio Oriente, passa pela Ásia Central e culmina no subcontinente indiano.

   A tentativa americana e europeia de afastar Karzai nas eleições presidenciais de Agosto falhou e, na ausência de alternativas, a Casa Branca e a NATO vão ter de continuar a negociar com um governo em Cabul que não poderão deixar cair.

   Karzai tem deixado bem claro, ao jogar com os interesses de russos, iranianos e indianos no Afeganistão, que sabe usar contrapesos à dependência dos seus reticentes patronos ocidentais.

                                      Uma mão sem ás pashtun

   A insurreição, que mobiliza boa parte dos pashtun (40% da população afegã), e a produção de ópio, nervo da guerra, estão para durar e a estratégia de contenção por parte da NATO arrisca o fracasso à medida em que os taliban ganham força no Paquistão e consolidam a sua presença no sul do país e leste do Afeganistão.

    A incapacidade do exército paquistanês para obstar às investidas taliban para além das áreas tribais nas regiões fronteiriças com o Afeganistão, levanta cada vez maiores dúvidas sobre a capacidade do governo de Islamabade para garantir a integridade do Estado sem recorrer ao tradicional recurso de confronto com a Índia.

   As dúvidas expressas publicamente por altos responsáveis norte-americanos sobre a segurança das instalações nucleares militares e civis paquistanesas são, mais do que mera manobra de propaganda, expressão de uma real incerteza acerca dos riscos potenciais que o Paquistão representa em termos de eventual desvio de materiais capazes de produzir bombas sujas para não falar da reactivação de redes de proliferação clandestina como ocorreu com o bando de Abdul Khan nos anos noventa.

   Reforçar a ajuda militar dos Estados Unidos ao Paquistão (mil milhões de dólares anuais desde os atentados de 2001) com pretexto de apoiar acções anti-terroristas e contra-insurreição, além de verbas para o sistema de ensino (num país que apresenta deploráveis níveis educacionais com mais de metade da população analfabeta), não colhe presentemente grande favor no Congresso de Washington dado os parcos resultados obtidos até hoje.

   Um novo pacote de ajuda económica a Islamabade de 7,5 mil milhões de dólares em cinco anos proposto pela Casa Branca enfrenta resistência no Congresso e nem sequer a hipótese do líder da oposição conservadora Nawaz Sharif integrar um governo de salvação nacional servirá de contrapartida aceitável dada a ineficácia e corrupção da administração civil no Paquistão.

   Ao contrário do que sucede no Afeganistão as organizações taliban paquistanesas ultrapassam o grupo étnico pashtun (15% da população) e começaram a expandir-se pelas províncias do Punjab e de Sind, apesar de não terem presença significativa em cidades como Lahore e Karachi.

   Para o exército paquistanês, uma campanha militar em larga escala contra os taliban não é uma prioridade estratégica (80% dos efectivos continuam concentrados na fronteira com a Índia) e na região do noroeste a implantação dos integristas continuará a sustentar a insurreição dos pashtun afegãos ao mesmo tempo que alarma cada vez aliados tradicionais como a China e a Arábia Saudita.

                                           Póquer com a Índia

   Face à urgência aflitiva em Cabul e Islamabade, surge a Índia que usa o Afeganistão como frente de batalha para fragilizar o Paquistão e impor-se como parceiro preferencial dos Estados Unidos, potência pacificadora da Ásia Central e no Oceano Índico frente à China.

   O acordo nuclear de 2008 patrocinado por Washington - que permite à Índia adquirir tecnologias, equipamentos e combustíveis para fins civis sob supervisão limitada da Agência Internacional de Energia Atómica, libertando recursos para o programa nuclear militar, sem que Nova Delhi, tal como o Paquistão, tenha subscrito o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, ou o Tratado de Interdição Completa de Testes Nucleares de 1996 - não se traduziu de momento num realinhamento estratégico.

   A prazo um entendimento entre Nova Delhi e os Estados Unidos à custa de Islamabade é, no entanto, uma alternativa cada vez mais viável à medida em que o esforço de guerra no Afeganistão fica comprometido pela presença taliban no Paquistão.

   De momento, Obama e os seus averbam derrotas tácticas que comprometem projectos de estabilização na Ásia Central e no Paquistão e tudo isso dá asas ao governo que advir das eleições indianos e imensa margem de manobra ao Irão.

   Para quem tiver de jogar no xadrez da geopolítica, tudo isto é muito pior do que os dramas da General Motors e os activos tóxicos de Wall Street.



Jornal de Negócios
06 Maio 2009

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Adeus e lutai!

Dois anos depois de uma grandiloquente cimeira, em Lisboa, o encontro da NATO, em Chicago, serviu para constatar o fracasso da intervenção no Afeganistão, a degradação das relações com a Rússia e as crescentes dificuldades provocadas por falta de recursos financeiros.

O anúncio de que o projecto anti-mísseis na Europa terá atingido uma "capacidade interina de defesa" não esconde que, na prática, tudo se reduz a uma estrutura de comando em Ramstein, na Alemanha, à disponibilização de intercessores em vasos de guerra norte-americanos no Mediterrâneo e a instalações de radar na Turquia.

Moscovo opõe-se em absoluto ao escudo anti-mísseis balísticos, aprovado em Lisboa, em Novembro de 2010 para obstar a eventual ameaça iraniana, por considerar que degrada a capacidade de dissuasão nuclear russa.

A eficácia do sistema, que deverá ficar operacional em 2020, está por demonstrar, e os custos previstos (apenas 200 milhões de euros a partilhar pelos 28 estados membros) aparentam pecar por defeito, enquanto a polémica com Moscovo se acentua.

Partilha e eficácia

Constrangimentos financeiros levaram, entretanto, a aliança a optar por um sistema dito "defesa inteligente" para partilha de custos no desenvolvimento e aplicação de sistemas e equipamentos militares.

À medida que os Estados Unidos contribuem para 75% das despesas de defesa da aliança e, somente cinco estados cumprem a meta de investimento de 2% do PIB em gastos militares, a viabilidade de muitos projectos fica em causa.

A partilha de equipamentos, instalações e pessoal corre também o risco de ser prejudicada por eventual veto de algum estado a acções militares ou mera recusa em participar em operações como sucedeu com a Polónia ou a Holanda na Líbia em 2011.

A redução generalizada de investimentos na defesa, a reorientação estratégica para a Ásia de Washington levantam, igualmente, dificuldades crescentes à compatibilização de capacidades operacionais dos Estados Unidos com os aliados europeus.

Entre a retirada e a debandada

François Hollande reafirmou, em Chicago, que as tropas francesas abandonarão missões de combate no Afeganistão até Dezembro à revelia do calendário da NATO que aponta para o final de 2014, seguindo o exemplo da Holanda que retirou em Dezembro de 2010.

Os Estados Unidos com cerca de 100 mil efectivos representam o grosso dos 130 mil militares estrangeiros presentes no Afeganistão e a transição de missões de combate para acções de treino e assistência em meados de 2013 promete revelar-se difícil.

Obama reconheceu que, após a retirada em 2014, a situação não será a desejável, baixando a fasquia do objectivo estratégico da intervenção iniciada no final de 2001.

Obstar a que o Afeganistão propicie de novo bases para acções terroristas de âmbito regional e internacional é presentemente o desiderato minimalista de Washington que não consegue chegar a acordo com o Paquistão sobre o papel que possam vir a desempenhar os talibã.

Os conflituosos interesses de chefias militares e lideranças políticas paquistanesas convergem num consenso sobre a necessidade de salvaguardar uma retaguarda de segurança apoiada na maioria pashtun no Afeganistão, sobretudo na eventualidade de novo confronto militar com a Índia.

O exército e forças de segurança afegãs, que venham a sustentar um governo em Cabul a partir de 2014, dificilmente conseguirão impor-se em todo o país e as clivagens étnicas nos corpos militares, sobretudo entre tadjiques e pashtun, nada auguram de bom para a estabilidade do país.

O candeeiro de Cabul

O plano da NATO de manter apenas 15 mil a 20 mil militares no Afeganistão por um período de dez anos após 2014, com custos anuais de 4,1 mil milhões de dólares, releva da quimera.

Obama assegura que os Estados Unidos nunca irão abandonar os controversos aliados de Cabul à sua sorte, mas no Afeganistão toda a gente sabe da sorte de Mohammad Najibullah, o Hamid Karzai de Moscovo.

Najibullah ainda resistiu depois dos soviéticos retirarem em Fevereiro de 1989, mas viu-se cercado em Cabul e, ao acabar abandonado pela Rússia em 1992, foi varrido pela guerra civil.

De Najibullah sabe-se ainda que penou os últimos anos refugiado na missão da ONU em Cabul e acabou castrado e enforcado num candeeiro quando os talibã tomaram a capital em Setembro de 1996.

Jornal de Negócios
23 Maio 2012

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domingo, 19 de agosto de 2012

O "Irão terrorista"

Atiyah Al Rahman


   Depois de acabar com Bin Laden, em Maio, a Casa Branca riscou da lista dos terroristas mais procurados o principal chefe operacional da Al Qaeda, Atiyah Al Rahman, que terá sido morto no noroeste do Paquistão a 22 de Agosto.

   Um míssil disparado por um avião não-tripulado no norte do Waziristão eliminou, de acordo com informações oficiais norte-americanas, o líbio que nos últimos meses, antes de Bin Laden ser abatido em Abbottabad, conspirara com o líder da Al Qaeda para desencadear novos atentados nos Estados Unidos.

   Al Rahman, que já fora dado como morto em Outubro do ano passado, tinha a cabeça a prémio por um milhão de dólares, era, segundo Washington, o comandante das forças da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão e uma figura chave nos contactos com os jihadistas do Magrebe, no Iémen e demais núcleos ligados à organização.

   O homem que passara a número dois da Al Qaeda liderada pelo egípcio Aiman Al Zawahiri era, portanto, o mais proeminente responsável pela coordenação de operações e contactos nos círculos jidahistas.

                                         O canal iraniano

   Uma declaração emitida a 28 de Julho pelo Departamento do Tesouro de Washington nomeara, também, Al Rahman como um dos seis elementos de uma rede terrorista que operaria ao abrigo de "um acordo entre a Al Qaeda e o governo do Irão".

   A nota do governo norte-americano indicava, ainda, que Al Rahman fora designado, em data não especificada, por Bin Laden como "representante da Al Qaeda no Irão", uma posição que, alegadamente, lhe permitia entrar e sair da República Islâmica com autorização de Teerão.

   A Al Qaeda teria através deste acordo com Teerão garantido "um canal privilegiado" para fazer transitar "dinheiro, agentes de apoio e operacionais do Médio Oriente para o sul da Ásia".

   O Departamento do Tesouro arrestava consequentemente bens sob jurisdição norte-americana dos jihadistas e proibia contactos comerciais ou financeiros com todos os seis membros da Al Qaeda em trato com o Irão.

   O sírio Ezedin Abdel Aziz Khalil, sedeado no Irão, seria o chefe da rede - ainda que Al Rahman fosse alegadamente o representante não-residente junto dos iranianos - que abrangia jihadistas no Kuwait, Qatar e Paquistão.

   Nenhum iraniano era identificado no comunicado que, de acordo com o subsecretário David Cohen, com o pelouro da "intelligence" sobre terrorismo e finanças, esclarecia "o apoio sem paralelo do Irão ao terrorismo".

   O subscretário de Barack Obama declarava taxativamente que "o Irão é, actualmente, o principal estado apoiante do terrorismo".

                                        Atavismos políticos

   Dez anos passados sobre os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos a retórica que serviu a George W. Bush como um dos pretextos para justificar a invasão do Iraque ressurge sob a Administração Obama.

   O Irão é, agora, o estado tido como patrono da Al Qaeda numa altura em que Teerão, aparentemente em vias de recuperar dos danos provocados no ano passado pelo vírus informático "Stuxnet", tem vindo a aumentar a capacidade de produção de urânio enriquecido passível de utilização militar.

   A conjuntura económica e financeira não se apresenta propícia a uma eventual operação norte-americana contra o Irão, as previstas retiradas de efectivos militares do Iraque e do Afeganistão desaconselham hostilizar directamente Teerão, mas à entrada de um ano eleitoral é previsível que as tiradas contra os inimigos dos Estados Unidos subam de tom.

   Divergências de apreciação sobre os riscos do programa nuclear militar do Irão ou ameaças de redes terroristas são expressas abertamente por responsáveis da administração democrática e neste caso do alegado acordo Al Qaeda-Teerão podem redundar numa escalada retórica de consequências políticas dificilmente controláveis.

                                            Inimigos e expedientes

   Os líderes xiitas do Irão encontram-se num pólo religioso rigorosamente oposto aos safalistas sunitas da Al Qaeda.

   Teerão opõs-se aos taliban sunitas e de etnia pashtun do Afeganistão desde meados da década de 90 e, tal como Washington ou Nova Deli, apoiou em 2001 a "Aliança do Norte" na luta contra os homens do mullah Omar e Bin Laden.

   Alguns dirigentes da Al Qaeda, caso do egípcio Saif Al Abdel, terão, presumivelmente, encontrado abrigo no Irão após a queda dos taliban.

   As autoridades de Teerão restringiram as suas actividades ou colocaram pessoas ligadas a Bin Laden sob prisão domiciliária, segundo informações admitidas inclusivamente pelos serviços de informações norte-americanos, para as utilizarem em eventuais trocas de prisioneiros.

   A extradição para o Irão dos guerrilheiros "Mujaedin e-Khalq" baseados no Iraque e anteriormente apoiados por Saddam Hussein foi, por exemplo, um dos objectivos frustrados de negociações entre Teerão e Washington em que elementos da Al Qaeda serviriam como moeda de troca.

   Independentemente de contactos e conivências em operações de tráfico clandestino de armas, informações e financiamentos, os objectivos estratégicos de Teerão nada têm em comum com a Al Qaeda excepto no que possa vir a fazer valer os interesses iranianos ou prejudicar inimigos em comum sem dano de maior para o Irão.

                                             Os cadastrados

   Qualquer apoio ou condescendência de Teerão em relação à Al Qaeda, que sob a liderança do jordano Abu Al Zarqawi entre 2004 e 2006 lançou uma campanha de massacre dos xiitas no Iraque, só pode ser encarada como um expediente táctico.

   Quando Obama permite declarações peremptórias acusando Teerão de cumplicidade no planeamento de actos terroristas contra os Estados Unidos aumenta o risco de uma escalada retórica e propagandística face a um estado hostil que acabará por restringir as opções da Casa Branca.

   Pouco ou nada recomenda o regime iraniano, mas, tendo em conta o cadastro da administração Bush na justificação infundada de uma intervenção militar contra o Iraque, que, aliás, poderia ser considerada por outras razões e sobretudo conduzida de forma diferente, o mínimo a esperar de Obama era um pouco mais de sensatez ao permitir que um subsecretário arrisque a tirada do "Irão terrorista".

Jornal de Negócios
31 Agosto 2011

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