O casamento de conveniência entre Hamid Karzai e os seus patronos ocidentais passará quinta-feira por mais um transe difícil com uma eleição presidencial aquém dos interesses e objectivos dos países que se encontram militarmente envolvidos no Afeganistão.
As ofensivas lançadas esta Primavera pelos militares dos Estados Unidos e da NATO estão longe de cumprir o objectivo de desalojar os taliban de vastas áreas rurais do Sul e do Leste do país.
A diminuição do recurso a ataques aéreos não evitou o aumento do número de vítimas civis e as baixas das forças ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, cresce sem que tenha sido conseguido um controlo efectivo das regiões mais densamente povoadas do Sul e do Leste, e tão pouco a pacificação das províncias centrais.
O exército afegão, 88 mil homens, e as forças da polícia nacional, 82 mil efectivos, não preenchem os requisitos para garantir a segurança dos principais centros urbanos, e projectos essenciais de reconstrução de infra-estruturas, como a rede de estradas ligando as maiores cidades, sofrem atrasos e danos consideráveis face às ameaças da guerrilha e do banditismo, mesmo em regiões tidas por seguras no Norte do Afeganistão. Praticamente metade do país é tida por insegura e os atentados terroristas não poupam a própria capital.
Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 62 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não estão a conseguir criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã e a nova opção de ataque às redes de tráfico de drogas revela-se incapaz de pôr cobro ao principal negócio do país que movimenta mais de 4 mil milhões de dólares anualmente.
Karzai e os seus
A administração do presidente Karzai degenerou nos últimos quatro anos numa rede de patrocínios, envolvendo potentados locais em acordos com o governo de Cabul, oleada pela corrupção e desvio de fundos da assistência internacional (cerca de 63 mil milhões de dólares investidos até hoje), sem que mais de 40% dos 30 milhões de afegãos consiga escapar A eleição presidencial e a votação para os conselhos das 34 províncias de Afeganistão surgem como um teste à viabilidade do esforço de guerra internacional, aos programas de reconstrução e à legitimidade das administrações provinciais e central. Os indicadores são tendencialmente negativos.
Karzai para assegurar a reeleição, que poderá exigir uma segunda volta em Outubro, forjou alianças com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população). Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobrem um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se junta o contributo do uzbeque Rashid Dostum.
O peso destes líderes, de cadastros confrangedores para os patronos ocidentais, augura a persistência de poderes locais e respectivos grupos armados em detrimento do governo central que se centra na figura do presidente.
Uma eleição no fio da navalha
Um indicador seguro do real estado de coisas passa pela participação eleitoral num processo que, pela primeira vez, é organizado exclusivamente pelas autoridades afegãs, ainda que financiado por doadores internacionais.
Nas presidenciais de Outubro de 2004, antes do recrudescimento da guerrilha taliban, registaram-se cerca de 10 milhões de eleitores e Karzai obteve 4,3 milhões dos 8,1 milhões de votos expressos, vencendo em 21 províncias.
Para a votação de quinta-feira - que exclui mais de 800 mil refugiados no Irão e milhão e meio de deslocados no Paquistão -, o número de recenseados atinge os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres. Como a inscrição nos cadernos eleitorais é efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaram o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, é elevado o número de eleitores-fantasma e omnipresente a eventualidade de fraude. Só a análise dos resultados oficiais, com divulgação prevista para 17 de Setembro, permitirá apurar os níveis de real participação e de fraude eleitoral.
Ao invés do que aconteceu em 2004, os taliban tentam desta vez impedir a votação e o primeiro e mais óbvio sinal da força da guerrilha terá a ver com o número de locais de voto que venham a funcionar. Na véspera da votação, a Comissão Eleitoral de Cabul previa que cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, não conseguissem reunir condições de segurança.
As eleições correm o risco de vir a dar uma nova vida a uma administração ineficaz, corrupta e disfuncional, assente na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais, que em nada facilitará um esforço de guerra ocidental capaz de conter os taliban ou grupos islamitas como a Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hekmatyar.
As ofensivas lançadas esta Primavera pelos militares dos Estados Unidos e da NATO estão longe de cumprir o objectivo de desalojar os taliban de vastas áreas rurais do Sul e do Leste do país.
A diminuição do recurso a ataques aéreos não evitou o aumento do número de vítimas civis e as baixas das forças ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, cresce sem que tenha sido conseguido um controlo efectivo das regiões mais densamente povoadas do Sul e do Leste, e tão pouco a pacificação das províncias centrais.
O exército afegão, 88 mil homens, e as forças da polícia nacional, 82 mil efectivos, não preenchem os requisitos para garantir a segurança dos principais centros urbanos, e projectos essenciais de reconstrução de infra-estruturas, como a rede de estradas ligando as maiores cidades, sofrem atrasos e danos consideráveis face às ameaças da guerrilha e do banditismo, mesmo em regiões tidas por seguras no Norte do Afeganistão. Praticamente metade do país é tida por insegura e os atentados terroristas não poupam a própria capital.
Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 62 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não estão a conseguir criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã e a nova opção de ataque às redes de tráfico de drogas revela-se incapaz de pôr cobro ao principal negócio do país que movimenta mais de 4 mil milhões de dólares anualmente.
Karzai e os seus
A administração do presidente Karzai degenerou nos últimos quatro anos numa rede de patrocínios, envolvendo potentados locais em acordos com o governo de Cabul, oleada pela corrupção e desvio de fundos da assistência internacional (cerca de 63 mil milhões de dólares investidos até hoje), sem que mais de 40% dos 30 milhões de afegãos consiga escapar A eleição presidencial e a votação para os conselhos das 34 províncias de Afeganistão surgem como um teste à viabilidade do esforço de guerra internacional, aos programas de reconstrução e à legitimidade das administrações provinciais e central. Os indicadores são tendencialmente negativos.
Karzai para assegurar a reeleição, que poderá exigir uma segunda volta em Outubro, forjou alianças com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população). Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobrem um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se junta o contributo do uzbeque Rashid Dostum.
O peso destes líderes, de cadastros confrangedores para os patronos ocidentais, augura a persistência de poderes locais e respectivos grupos armados em detrimento do governo central que se centra na figura do presidente.
Uma eleição no fio da navalha
Um indicador seguro do real estado de coisas passa pela participação eleitoral num processo que, pela primeira vez, é organizado exclusivamente pelas autoridades afegãs, ainda que financiado por doadores internacionais.
Nas presidenciais de Outubro de 2004, antes do recrudescimento da guerrilha taliban, registaram-se cerca de 10 milhões de eleitores e Karzai obteve 4,3 milhões dos 8,1 milhões de votos expressos, vencendo em 21 províncias.
Para a votação de quinta-feira - que exclui mais de 800 mil refugiados no Irão e milhão e meio de deslocados no Paquistão -, o número de recenseados atinge os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres. Como a inscrição nos cadernos eleitorais é efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaram o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, é elevado o número de eleitores-fantasma e omnipresente a eventualidade de fraude. Só a análise dos resultados oficiais, com divulgação prevista para 17 de Setembro, permitirá apurar os níveis de real participação e de fraude eleitoral.
Ao invés do que aconteceu em 2004, os taliban tentam desta vez impedir a votação e o primeiro e mais óbvio sinal da força da guerrilha terá a ver com o número de locais de voto que venham a funcionar. Na véspera da votação, a Comissão Eleitoral de Cabul previa que cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, não conseguissem reunir condições de segurança.
As eleições correm o risco de vir a dar uma nova vida a uma administração ineficaz, corrupta e disfuncional, assente na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais, que em nada facilitará um esforço de guerra ocidental capaz de conter os taliban ou grupos islamitas como a Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hekmatyar.
Jornal de Negócios
19 Agosto 2009
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