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domingo, 19 de agosto de 2012

O mito do século XXI



   "Terrorista antimuçulmano" - é o enquadramento político sumário para Anders Breivik e nesta lapidar definição resume-se muito da ideologia do assassino norueguês.

   Uma análise preliminar do heteróclito manifesto de Breivik revela que o anti-islamismo tem uma função equivalente nas elucubrações do norueguês às tiradas de anti-judaísmo de um ideólogo do nazismo como Alfred Rosenberg.

   Para o alemão, oriundo da Estónia e autor do devastador "O mito do século XX" (1930), o ódio ao judeu era a pedra de toque do racismo extermicionista teutónico e no caso do norueguês, nascido em Londres, a expulsão dos muçulmanos surge como a essência do contra-ataque à ameaça da "jihad".

                                      Às portas de Viena

   A ameaça apocalíptica muçulmana surgiu quando Maomé "começou a massacrar judeus e cristãos" e a guerra dura desde então no universo maniqueísta de Breivik.

   O manifesto de justificação ideológica de Breivik leva por título "2083 - Uma declaração europeia de independência".

    A data assinala 400 anos sobre o triunfo das hostes cristãs lideradas pelos Habsburg contra os otomanos no cerco de Viena e surge como símbolo de uma arrastada "Reconquista".

   A conivência de capitalistas que exploram mão-de-obra barata, a corrupção moral de entidades supranacionais como a União Europeia ou as Nações Unidas, além da decadência das elites multiculturalistas e marxistas abriram, entretanto, as portas da Europa à invasão dos emigrantes do Islão.

   Os sustentáculos do chamado "multiculturalismo marxista", sobretudo entidades estatais e partidos "traidores do cristianismo europeu", surgem, consequentemente, como alvos prioritários na actual fase de combate aos crentes de Alá.

   Foram mortos os primeiros traidores ou coniventes em Oslo e na ilha de Utoeya num acto simbólico de propaganda pelo acto, à velha maneira anarquista, chacinando, sobretudo, jovens apoiantes do partido dominante.

    Matar o trabalhista é, na Noruega, o primeiro passo para aniquilar a ameaça muçulmana.

                                 Totalitarismo nacionalista

   A fantasmagoria genocidária do norueguês assenta na ideia de "homogeneidade da nação" e, por isso, o ideólogo dos fiordes louva a Coreia do Sul e o Japão, e, em menor medida, Taiwan.

   Tais estados asiáticos representariam uma entidade "monocultural, cientificamente avançada, com uma economia progressiva e desenvolvida, dotada de um nível excepcional de regalias sociais".

    À vertente antimuçulmana junta-se, assim, a ideia reaccionária de homogeneidade étnica, protecção da raça contra miscigenações indesejadas e autarcia económica.

   Uma "nova zona económica" privilegiando a Europa, os Estados Unidos, a Rússia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Israel, a par de uma política proteccionista e interdição de deslocalização de actividades empresariais, é o objectivo final para sustento da Cristandade e de seus aliados.

                                 A crueldade necessária

   Para lá chegar o extermínio de minorias promotoras de valores e políticas corruptores de valores cristãos (em Portugal, por exemplo, contam-se a 10 807 prevaricadores, segundo o ideólogo norueguês) é "uma crueldade necessária".

   O norueguês é herdeiro de conflituosas tradições europeias que, além do extermínio assumido de raças inferiores em conquistas coloniais, abarcam, por exemplo, certas correntes anarquistas.

   O francês Émile Henry no início dos anos 90 do século XIX recorria ao atentado bombista indiscriminado em Paris para fazer "a burguesia inteira expiar os crimes" de "exploração dos infelizes" e, posteriormente, comunistas e nazis irão justificar o terror em massa contra inimigos de classe e da nação.

    Aos 32 anos Breivik pensa ser um representante típico de uma geração traumatizado pela "tirania islâmica e multiculturalista", mas, de facto, é antes filho do ressentimento e das tradições de culpabilização genérica de classes grupos étnicos ou religiosos.

    Presentemente, 11,4% da população da Noruega é constituída por imigrantes e refugiados de primeira ou segunda geração e, apesar, de recorrentes sondagens assinalarem reticências quanto à integração de estrangeiros a expressão de sentimentos xenófobos tem vindo a diminuir.

   O Islão tornou-se a segunda maior religião do país, com mais de 160 mil fiéis, mas a sociedade norueguesa, tal como acontece nos demais países nórdicos, revela forte coesão social e cultural.

   A conflitualidade provocada pela chegada de estrangeiros, sobretudo de religião muçulmana, acentuou-se, no entanto, a partir dos anos 90 e foi o caldo de cultura para a proliferação de grupos xenófobos.

    Além do ódio a uma entidade genericamente definida como o Islão ou a "Jihad", o estado e instituições multinacionais surgem como inimigos a abater o que explica a influência em Breivik do norte-americano Ted Kaczynski que durante duas décadas até à sua prisão em 1996 recorreu ao terrorismo contra o "sistema técnico-industrial".

                                   Os testículos ou as crianças

   O autoproposto redentor de uma futura ordem templária - o típico corpo de elite capaz de suportar o insuportável como advogaria Heinrich Himmler para os seus SS - explora recursos sectários e secretos para iludir o inimigo levando às últimas consequências a retórica anti-muçulmana.

   A ideologia jihadista do salafismo islamita encontra em Breivik o seu exacto oposto quando o norueguês admite o recurso a armas de destruição maçica.

   Exigindo prova irrefutável de devoção ao massacre, Breivik medita sobre os termos em que possa ser feita confiança num templário para cometer um atentado com armas atómicas, bombas radioactivas ou substâncias químicas e biológicas.

   Melhor não lhe ocorre, num universo macho, como garantia e aconchego ideológico, do que a exigência da ablação dos testículos e pénis do devoto matador antes de lhe serem confiadas as armas para o extermínio.

   Uma alternativa poderia também passar pelo assassínio a sangue-frio de crianças por parte do cruzado anti-muçulmano de forma a fazer prova da sua fidelidade à causa e disposição ao martírio.

   É a paranóia megalómana de um assassino sistemático e ideologicamente justificado pelo essencialismo de uma nação cristã em guerra contra as trevas do islão.

    Rosenberg encontrou em Breivik um sucessor ideológico; outro mito para o século XXI.


Jornal de Negócios

Um Nobel por uma China democrática


Liu Xiaobo

The Nobel Peace Prize 2010

Liu Xiaobo




   Liu Xiaobo cumpre uma pena de onze anos numa prisão em Jinzhou; Hu Jia está detido em Pequim; o paradeiro de Gao Zhisheng é desconhecido, e é esta a sorte de três dos mais proeminentes activistas dos direitos humanos da China.

   O Comité de Oslo terá na sexta-feira oportunidade de, pela primeira vez, galardoar um cidadão da China e as autoridades de Pequim acentuaram nas últimas semanas as pressões e advertências quanto à atribuição do Prémio Nobel da Paz a algum dos subversivos que violam a Lei da República Popular.

   O Dalai Lama, premiado em 1989 pelos seus esforços pacíficos contra a ocupação chinesa do Tibete, é uma das vozes que se fizeram ouvir a favor do Nobel da Paz para Liu Xiaobo, o dissidente chinês mais falado para o galardão de 2010.

                                 Liu, um pacifista subversivo

   Liu é um professor de literatura de 54 anos que em Dezembro de 2008 promoveu um manifesto, conhecido como a Carta 08, à semelhança da Carta 77 dos dissidentes da Checoslováquia comunista, apelando ao respeito pela liberdade de expressão e os direitos humanos.

   Depois de ter participado nos protestos da Praça Tiananmen, em 1989, Liu foi detido diversas vezes e no dia de Natal de 2009 foi condenado a onze anos de prisão.

   A atribuição do Nobel da Paz a Liu foi também defendida pelo bispo Desmond Tutu, três figuras proeminentes da antiga dissidência checa - o ex-presidente Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova - e o presidente do PEN American Center, Anthony Appiah.

   A nomeação para o Nobel da Paz do antigo docente da Universidade Normal de Pequim e leitor convidado de diversas instituições de Ensino Superior no estrangeiro, incluindo a Universidade de Oslo e de Columbia, nos Estados Unidos, exasperou os dirigentes chineses.

   Desde o Verão que altos responsáveis de Pequim manifestaram o seu desagrado a membros do Instituto Nobel Norueguês e do governo de Oslo quanto a um eventual galardão para Liu.

   O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Jiang Yu foi peremptório no mês passado, ao declarar que Liu violara a Lei e as suas acções eram "totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz".

   Um "acto inamistoso" por parte da Noruega - considerando que o Nobel da Paz é escolhido por um comité de cinco eleitos pelo Parlamento de Oslo - teria consequências negativas para as relações bilaterais, no dizer de Pequim, que desde logo comprometeriam qualquer projecto na China da "Statoil" norueguesa, a maior empresa mundial de exploração de petróleo e gás "offshore".

   Um Nobel para Liu, ou para Hu Jia, empenhado em causas ambientais e no combate à Sida (cumpre pena de três anos e meio de prisão em Pequim), ou ainda Gao Zhisheng, advogado conhecido pela sua defesa de crentes católicos ou do Falun Gong, actualmente em paradeiro desconhecido, representaria um sinal de que a sorte de quem luta pelos direitos humanos na China não é ignorada.

                                      Paz, fraternidade e muito mais

   Ao Nobel de 2009 por declaração de intenções a Barack Obama, controverso e extemporâneo, ainda que passível de ser visto como respeitando o testamento de Alfred Nobel, bem poderia seguir-se esta semana um galardão virado para os direitos humanos, que foram pela última vez contemplados em 2003, na pessoa da iraniana Shirin Ebadi.

   O Nobel da Paz ultrapassou o intuito original de premiar esforços pela paz e fraternidade entre as nações, ainda que a consagração da Agência Internacional de Energia Atómica e do seu director-geral Mohamed Al Baradei, em 2005, tenha sido um dos últimos exemplos relativamente consensuais quanto a esse desiderato.

   O Instituto Nobel Norueguês passou também a premiar a luta pacífica pelos direitos humanos e causas independentistas (Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, representam um caso típico), além da sustentabilidade social, económica e ambiental (a queniana Wangari Maathai, em 2004, ou Grameen Bank do bengali Muhammad Yunus, em 2006).

   Existem áreas susceptíveis de justificaram um alargamento do leque de potenciais galardoados, designadamente na promoção do diálogo religioso, prevenção e combate ao terrorismo, a par da protecção dos direitos cívicos, ou luta contra o narco-tráfico e tráfico de pessoas.

   Em 2010, o Comité norueguês registou 237 nomeados, entre eles 38 organizações.

   Dos nomes conhecidos, a esmagadora maioria merece a distinção, apesar de algumas causas e pessoas sobressaírem.

   Um Prémio Nobel pode garantir protecção adicional a pessoas perseguidas, e esse contributo nunca pode ser ignorado.

  Até mesmo o destino angustiante da birmanesa Aung San Suu Kyi, premiada em 1991 e que continua em prisão domiciliária, teria sido muito mais dramático, se é possível usar tal eufemismo, sem a distinção de um Nobel da Paz.

                               Apoiar quem pena e arrisca a vida

   O ginecologista congolês Denis Mukwege, ímpar no seu esforço em prol de vítimas de violações de guerra, ou a médica de etnia hazara Simar Samar, da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, são duas pessoas merecedoras dos maiores encómios e apoio, tal como o monge budista vietnamita Thich Quang Do ou o cubano Guilherme Fariñas.

   Organizações como Memorial, activa na Rússia e na Tchetchénia na defesa dos direitos cívicos, ou o Tribunal Especial para a Serra Leoa, pela acção na investigação de crimes de guerra na África Ocidental, merecem, igualmente, a distinção de um Nobel.

   Numa altura em que Pequim assume um peso cada vez maior nas questões internacionais - pela sua relevância económica, pela importância nas negociações sobre alterações climáticas -, seria, no entanto, de suma importância um apoio, mesmo que simbólico, a quem se bate pelos direitos do homem na China.

   Os chamados dissidentes chineses penam na cadeia e sofrem perseguições pela defesa de direitos que os países democráticos têm como a própria essência dos seus regimes.

   Liu Xiaobo, sem demérito para qualquer outro nomeado, seria um digno Prémio Nobel da Paz em 2010.

Jornal de Negócios
06 Outubro 2010

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