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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dilemas chineses





   Uma crise de liquidez no mercado interbancário gerada e mal gerida pelo Banco Central de Pequim e o lançamento de uma campanha de propaganda para reafirmar a liderança do partido comunista ilustram os dilemas que desde os anos 80 definem a política chinesa.

  O Banco Central reduziu no início de Junho a oferta de liquidez no mercado interbancário para forçar cortes no crédito, sobretudo ao sector informal financeiro, nominalmente regulado pelas administrações locais e regionais e equivalente a cerca de 10% do PIB, segundo estimativas conservadoras.

   Um inaudito aumento de 52% na concessão de crédito no mercado interno nos primeiros cinco meses deste ano em relação a idêntico período de 2012 lançara o alarme no Banco Central e levou à adopção de medidas extremas.

   Ao reduzir a injecção de liquidez, o Banco Central provocou uma alta histórica das taxas "overnight" e a sete dias viu-se confrontado com rumores sobre a insolvência do "Banco da China", um dos quatro maiores bancos comerciais do estado, enquanto os mercados internacionais reflectiam temores de uma crise de crédito na segunda economia mundial.

   Zhou Xiaochuan acabou por vir assegurar que o Banco Central prossegue uma política de regulação e ajustamento da liquidez para garantir a estabilidade dos mercados financeiros e de um sistema bancário sólido e solvente, mas, as declarações do governador não dissiparam dúvidas sobre a capacidade das autoridades para controlarem fluxos de crédito numa conjuntura de contracção da economia.

                             Imponderáveis do crédito

   O sector imobiliário, por exemplo, registou em Junho uma subida de preços de 7,4% em relação ao ano anterior – de acordo com dados de uma das maiores agências chinesas, a "SouFun" –, confirmando que os investidores encontraram formas de contornar as restrições ao crédito, designadamente a proibição de compra de segunda habitação.

  Após colapsos pontuais em 2011 – designadamente em Ordos, na Mongólia Interior, e em Wenzhou, na província costeira de Zhejiang, no sudeste da China – que puseram em causa a angariação de receitas pelos governos locais através de leilões de concessões de terra para construção e desencadearam falências em cadeia, o imobiliário é de novo visto como investimento rentável.

  A alta de preços num sector que representa 13% do PIB poderá, contudo, revelar-se de pouco dura a manterem-se restrições ao crédito para conter a dívida de administrações locais (equivalente a um montante próximo dos 25% a 36% do PIB) e obrigar os quatro maiores bancos do país (responsáveis por cerca de 40% do total de empréstimos) a fazerem provisões para obviar a maus devedores.

  A contracção do sector financeiro informal apresenta, por sua vez, o risco de asfixiar grande número de pequenas e médias empresas.

  Num universo de 40 milhões de PME 97% não têm acesso a crédito bancário, segundo dados do banco de investimentos de Pequim "CITIC" , vendo-se obrigadas a recorrer a agentes financeiros não regulados pelo poder central.

   O fim do ciclo de investimentos empreendidos sob tutela do estado entre 2008 e 2010, que beneficiou essencialmente as grandes empresas públicas, a impossibilidade de ampliar quotas nos mercados de exportação, associada ao aumento de custos salariais e à apreciação do reminbi, conjugam-se para uma redução da taxa de crescimento económico.

                                         Confiar no líder

   O objectivo oficial para este ano cifra-se em 7,5%, abaixo da média de crescimento de 10,5% da última década e justifica que Xi Jinping – presidente desde Março e líder do partido eleito em Novembro do ano passado – se tenha visto obrigado a uma nova campanha de propaganda.

   A legitimidade comunista deriva presentemente da capacidade para promover melhorias nas condições materiais de vida da população e o partido depara-se com crescentes dificuldades para evitar defraudar expectativas.

   A nova liderança é herdeira do Plano Quinquenal 2006-2010 que visava criar uma "sociedade harmoniosa" e dava por esgotado – devido ao envelhecimento populacional, degradação ambiental e crescentes assimetrias sociais e regionais – o modelo de desenvolvimento promovido pelas reformas de Deng Xiaoping no final da década de 70.

   Na herança ideológica de Xi encontra-se, ainda, a promoção do consumo interno e melhoria de qualidade de vida, destacada para o quinquénio 2011-2015, o que justifica que o líder venha agora declarar que o desempenho dos responsáveis do partido não deve apenas ser apreciado pelo seu papel na promoção do crescimento económico.

   Tal como os antecessores e na ressaca de sucessivos escândalos de corrupção – entre os celerados mais recentes destacam-se Bo Xilai, chefe do partido em Chongqing, e Liu Zhinjun, ministro dos transportes ferroviários – Xi apela à integridade e probidade dos 85 milhões de membros do partido e à confiança na liderança comunista.

   Um apelo à confiança e à crença no sonho de uma China próspera e influente é a mensagem, pouco substancial, que tem para oferecer um presidente que, preservando o monopólio do poder, pretende gerir reformas inadiáveis numa conjuntura de desaceleração do crescimento económico.


Jornal de Negócios
3 de Julho 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/dilemas_chineses.html

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma epidemia na China





   Uma década passada sobre a erupção da "Síndrome Respiratória Aguda Severa" (SARS) a China confronta-se com novo surto de epidemia aviária, mas as autoridades de Pequim estão desta feita a cooperar com a "Organização Mundial de Saúde" (OMS) para conter a propagação do vírus.

   O H7N9 tinha infectado 24 pessoas, oito das quais morreram, até terça-feira em Xangai e nas províncias de Zhejiang, Jiangsu e Anhui no leste do país.

  O vírus aparenta poder vir a ser transmitido de aves para mamíferos, como porcos, mas não sofreu mutações que propiciem a transmissão entre seres humanos.

  A primeira morte foi assinalada a 7 de Fevereiro, a segunda a 4 de Março, e a informação oficial da "Comissão para a Saúde Nacional e o Planeamento Familiar", entidade sucedânea do "Ministério da Saúde" desde o mês passado, foi divulgada a 31 de Março.

  Ao contrário do ocorrido quando a epidemia da SARS eclodiu no final de 2002 em Guangdong -- a província do Sul com forte concentração de explorações suínas e aviárias adjacente a Macau e Hong Kong -- as autoridades chinesas forneceram a informação disponível à OMS e a países vizinhos, incluindo Taiwan, tendo alertado a população para os riscos sanitários.

  A epidemia irrompeu precisamente quando a "Assembleia Nacional Popular" formalizava a nomeação como chefe de estado de Xi Jinping e coincidiu com um novo escândalo de saúde pública motivado pelo aparecimento de mais de 6 mil porcos mortos no Huangpu, rio que abastece Xangai.

   Tal como sucedeu noutros países atingidos por epidemias, caso da cólera no Peru ou de casos localizados de lepra na Índia nos anos 90, ou, ainda, da encefatopatia espongifrome bovina detectada na segunda metade da década de 80 no Reino Unido, as autoridades chineses mostraram-se muito relutantes em reconhecer a gravidade da SARS.

   A ocultação de informação e a falta de cooperação de Pequim com a OMS, que entre Março e Julho de 2003 conseguiu conter a epidemia, revelaram-se muito prejudiciais para a imagem e respeitabilidade da China.

   Em termos de saúde pública e credibilidade de Pequim, a epidemia da SARS -- que causou 774 mortes (cerca de 10% das pessoas infectadas) na esmagadora maioria na China e na Região Administrativa Especial de Hong Kong, além de prejuízos estimados em 40 mil milhões de dólares – foi o equivalente do Tchernobil soviético, obrigando o regime a adoptar maior abertura no tratamento noticioso em caso de crises sanitárias com repercussões internacionais.

  A presente epidemia levou ao encerramento de mercados aviários nas províncias afectadas, apesar de ainda não terem sido anunciadas medidas de compensação para os produtores, e levou Hong Kong, por exemplo, a introduzir testes veterinários de forma a obstar à importação de aves contaminadas.

  Alguns especialistas alertaram para o risco do H7N9 poder ser facilmente transmissível à imagem da estirpe do vírus aviário H5N1 que desde 2003 infectou mais de 600 pessoas causando a morte de 60% dos contaminados.

  A OMS considera, contudo, que, presentemente, se está longe de uma situação semelhante à das mutações do H1N1 de origem suína que ao mesclar-se com vírus humanos e aviários desencadeou a pandemia de gripe de 2009 responsável por 294 500 mortes.

   Investigações preliminares do Laboratório de Microbiologia Patogénica da "Academia de Ciências" de Pequim indicam que o vírus resulta de uma mistura de estripes encontradas em aves selvagens oriundas do Sul da península coreana e em galinhas e patos da região do delta do rio Yangtze.

   As populações suínas aparentemente não estão infectadas pelo H7N9, mas o vírus ao passar directamente de aves para seres humanos é altamente letal, segundo as informações divulgadas esta semana pelos especialistas chineses.

   Os riscos de alastramento da epidemia são difíceis de avaliar, mas um factor merece desde já ser salientado: pela primeira vez, as autoridades chinesas deram resposta expedita a uma crise sanitária capaz de afectar países vizinhos e enveredaram por uma cooperação plena com a OMS.


Jornal de Negócios
10 Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/uma_epidemia_na_china.html

Hipertensão nuclear




 
   A retórica de guerra na península coreana vai ter um impacto económico e financeiro na Europa que é perigosamente subestimado.

   A nova ronda de ameaças por parte de Pyongyang tem como pretexto imediato as manobras militares anuais das forças sul-coreanas e norte-americanas que Washington não pode deixar de realizar para fazer prova das suas garantias de segurança na península e em todas as regiões asiáticas onde se faz sentir o incremento da capacidade de projecção de força de Pequim.

   A adopção de mais sanções económicas e financeiras pela ONU após a realização do terceiro teste nuclear norte-coreano em Fevereiro e a necessidade do jovem Kim Jong-un, chegado ao poder em Dezembro de 2011, consolidar uma imagem de força entre os militares na tradição dinástica do avô Kim Il-sung e do pai Kim Jong-il, contam igualmente como factores agravantes da presente crise.

    Testar a nova presidente em Seul, Park Geun-ye - filha do antigo ditador militar Park Ghung-hee - eleita em Dezembro, é outra vertente da estratégia da liderança norte-coreana que se mostra cada vez perplexa ante os sinais que chegam do sul.

  Desde o início da democratização no Coreia do Sul no final dos anos 80 a política dos sucessivos presidentes tem variado entre a adopção de uma linha intransigente ante a ditadura nortenha e propostas de apaziguamento.

   O antigo dissidente Kim Dae-jung, depois de eleito chefe de estado em Dezembro de 1997, lançou a chamada política do "sol que brilha" inspirando-se nas longínquas fábulas do grego Esopo.

   O soprar de um vento forte nunca levará um homem desconfiado a largar o seu manto de abrigo, mas o sol que brilha acabará por convencê-lo a gozar o calor e desta fábula se partiu para uma tentativa de cooperação e criação de confiança mútua com a paranóica ditadura de Pyongyang herdeira de um complexo de taras das piores tradições racistas e nacionalistas coreanas, além de perversões ideológicas confucianas e stalinistas.

  A rápida expansão da economia sul-coreana que a partir da década de 70 deixou para trás o vizinho do norte, o colapso soviético, as reformas económicas na China, a crise de abastecimentos dos anos 90 desencadeando uma fome que vitimou mais de um milhão de norte-coreanos, davam algum sentido a esta inédita tentativa de aproximação desde o final das hostilidades em 1953.

  Um factor deitou por terra a iniciativa numa altura em que o cepticismo sobre a eventualidade da reunificação da península já predominava entre a maioria dos 50 milhões de sul-coreanos, sobretudo cidadãos com menos de 40 anos que rejeitam uma política de confronto, mas se desinteressam da sorte da população a norte, temendo os elevados custos da absorção de 24 milhões de compatriotas.

  Kim Jong-il nunca perdera de vista que só a posse de armas nucleares poderia evitar que os Estados Unidos voltassem a considerar a possibilidade do uso de bombas atómicas contra Pyongyang tal como o general Douglas MacArthur propusera ante o avanço das tropas norte-coreanas e chinesas durante a guerra iniciada em 1950 por Kim Il-sung para descontento do presidente Harry Truman que acabou por demitir o herói da Guerra do Pacífico em Abril de 1951.

   A ameaça nuclear de MacArthur, o bombardeamento arrasador do Norte da península, o arriscado exercício de manipulação das divergências entre os patronos chineses e russos, acentuaram os traços paranóicos da beligerância de Pyongyang e tiveram um papel essencial no desenvolvimento de um projecto militar nuclear, com cumplicidade da rede clandestina do paquistanês Abdul Khan, que culminou no teste de 2006.

  Desde então a Coreia do Norte é invulnerável a ameaças militares porque dispõe de capacidade de retaliação contra a Coreia do Sul e o Japão, sendo a diminuta dimensão do arsenal irrelevante ante a sua potencial e insuportável capacidade destrutiva.

   Tal como Israel, Índia e Paquistão, a Coreia do Norte ignorou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e tornou-se uma potência intratável que, apesar de depender da China para fornecimentos de combustível e alimentos, joga por sua própria conta exigindo que Washington assine um tratado de paz pondo termo ao estado técnico de guerra, retirando tropas e arsenais da península, provendo ajuda gratuita económica e financeira, além de garantias de segurança.

   O risco de escalada não é de subestimar porque, por exemplo, a presidente Park não pode arriscar oferecer uma imagem de inibição e temor de uso da força militar conforme sucedeu ao seu antecessor Lee Myung-bak na sequência do bombardeamento pelo Norte da ilha de Yeonpyeong em Novembro de 2010, e Kim III mal chegado aos trinta anos ainda tem de puxar lustro aos galões militares.

   A questão maior, contudo, nem se joga na península coreana, onde China, Rússia e Japão têm, também, todo o interesse em evitar um conflito militar, mas sim no Médio Oriente.

   A invulnerabilidade da Coreia do Norte é precisamente o estatuto a que aspira o Irão e esta nova vaga de ameaças no extremo-oriente é um baço vislumbre do que poderá acontecer de pior se Teerão concretizar a obtenção de armamento nuclear.

  Por vontade de ignorar as piores opções possíveis subestima-se o efeito altamente negativo que a retórica de guerra no extremo-oriente tem vindo a causar sobre outra intratável crise no Médio Oriente.

   Seja dentro em breve ou passe ainda mais um ano ou dois nem Israel, nem os Estados Unidos podem permitir-se acabar encurralados num impasse similar ao que ocorre na península coreana.

  Isso implica, em última análise, o uso da força militar e vai ter consequências muito negativas na Europa.

  Neste caso vale o "de te fabula narratur" com que o romano Horácio advertiu incautos alheios às consequências de tramas tenebrosas que lá longe os envolvem e arrastam.

  Este transe coreano fala de nós e vai custar-nos caro.


Jornal de Negócios
3 Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/hipertensao_nuclear.html

sábado, 29 de dezembro de 2012

Grandes Herdeiros






   A divulgação das fotografias na internet das gémeas em lingerie foi fatal para Qi Fang que acabou demitido no princípio de Dezembro por abuso de poder e corrupção.

   O chefe da polícia de Wusu, na província de Xinjiang, noroeste da China, mantinha à custa do erário público num apartamento de luxo as duas irmãs que faziam a inveja de camaradas e meros mortais.

   A malfeitoria levou os media oficiais a condenaram lapidarmente o camarada Qi e a uma rectificação: as jovens eram de facto irmãs, mas não se tratava de gémeas.

  A inesperada precisão não se perdeu entre as dezenas de escândalos sexuais e financeiros denunciados por blogues, redes sociais e na media sob controlo do estado após o Congresso do Partido Comunista (PCC) ter consagrado em Novembro a nova liderança de Xi Jinping.

  A luta contra a corrupção foi apontada, à semelhança do que já ocorrera com o antecessor Hu Jintao, como uma prioridade por Xi na sequência de processos envolvendo altos dirigentes como o ministro dos transportes ferroviários, Liu Zhinjun, ou Bo Xilai, chefe do partido em Chongqing, membro da Comissão Política, filho de Bo Yibo, um dos grandes do pós-maoísmo.

  O ano passado terá visto agravar-se a corrupção que em 2011, segundo um relatório agora divulgado pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, levara à demissão de 4 843 quadros com funções a nível distrital ou superior.

  Conivências pessoais, redes alargadas de patrocínio, o tradicional guangxi, expandiram-se a todos os níveis da administração controlada pelo PCC, tornando extremamente difícil a erradicação de cliques corruptas, de acordo com investigadores chineses entrevistados recentemente pelo semanário O Observador Económico, de Pequim.

  A denúncia não-oficial de casos de corrupção, a par de actos de contestação política, expandiu-se de tal forma que obrigou as autoridades a adoptaram regras mais restritas de uso da internet por parte dos 538 milhões de utentes registados oficialmente no final do primeiro semestre de 2012.

  O retrato do guangxi comunista ficou, entretanto, muito mais preciso em 2012 graças a uma série de grandes investigações de orgãos de comunicação social norte-americanos cada vez mais empenhados em decifrar os fluxos de poder na China.

  The New York Times revelou em Outubro que familiares do primeiro-ministro Wen Jiabao, que abandonará o cargo em Março após uma década de governação, acumularam activos no valor de 2,7 mil milhões USD.

   O acesso ao jornal foi bloqueado na China tal como sucedeu ao serviço noticioso da Bloomberg depois de anunciar em Junho que familiares de Xi Jinping -- excluindo mulher e filha, mas com destaque para a sua irmã Qi Qiaoqiao – eram detentores de activos no montante de 376 milhões USD e propriedades em Hong Kong avaliadas em 55,6 milhões USD.

  A fechar o ano The Wall Street Journal apurava que os 75 milionários membros do Congresso Nacional do Povo tinham aumentado as suas fortunas mais rapidamente do que os demais confrades constantes da lista dos 1 024 chineses mais ricos compilada pelo Hurun Report, de Xangai.

  A riqueza dos 75 deputados, que detinham no conjunto activos superiores a mil milhões USD, aumentou 81% entre 2007 e 2012. Por comparação os activos de milionários sem cargos políticos registaram um acréscimo médio de 47%

  A Bloomberg apresentou, por sua vez, uma exaustiva investigação das fortunas de descendentes directos e seus cônjuges dos “Oito Anciãos”, o núcleo duro que em torno de Deng Xiaoping lançou as reformas económicas do pós-maoísmo.

   Entre os herdeiros dos “Oito Imortais” -- como por irrisão e em louvor da tradição popular taoísta dos “Oito Sábios” ficaram conhecidos os patriarcas comunistas – destacavam-se Wang Ju, He Ping e Chen Yuan que chegaram a controlar empresas estatais com activos no valor de 1,6 triliões USD no final de 2011, quase 1/5 do PIB da China.

  Entre estes 103 camaradas três estão actualmente no topo do poder.
  Xi Jianping e outros dois dirigentes dos sete membros do Comité Permanente da Comissão Política são filhos de Imortais e um quarto, Wang Qishan, é casado com a filha de um Imortal.

  A ascensão da aristocracia comunista desde o início das reformas nos anos 80 processou-se através do controlo de empresas estatais e de investimentos em Hong Kong e Macau que, posteriormente, alargaram os seus interesses ao estrangeiro.

  Numa segunda fase os Grandes Herdeiros, se assim se lhes pode chamar, apostaram no sector privado, sobretudo na área financeira e tecnológica, mas sempre com a rede protectora do guangxi.

  Filhos, filhas, netas e netos dos Imortais contam-se entre os maiores ganhadores das reformas que relançaram a fortuna da China e levaram cerca de 600 milhões de pessoas a escaparem a situações de probreza.

  O custo de uma acentuada desigualdade social em que, presentemente, um por cento da população detém 41,4 da riqueza nacional, tem uma vertente política em que poder partidário, administrativo, económico e financeiro se confundem sem remissão.


Jornal de Negócios
2 Janeiro 2013

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A ONU antes da Grande Guerra do Golfo





   O incontornável rosário de crises do Levante ao Hindu Kush assombra a Assembleia Geral da ONU que bem poderá revelar-se o último grande conclave internacional em Nova Iorque antes da Grande Guerra rebentar no Cáspio e no Golfo Pérsico.

   O desenvolvimento sustentado -- em vertentes como gestão ambiental ante mudanças climáticas e combate à pobreza, discutidas este Verão na Conferência Rio+20 – ou a reforma do Conselho de Segurança serão alguns dos temas sacrificados pela premente ameaça de guerra.

   A impossibilidade de instituições estatais multilaterais como a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica e a ONU mediarem pela via diplomática tréguas na guerra civil da Síria põe em relevo o confronto de políticas externas antagónicas que exacerbam um conflito com contornos étnicos e religiosos que extravassam além-fronteiras.

   A redes de alianças e interesses envolvendo e opondo estados como a Turquia, Arábia Saudita, Iraque e Irão, condenam a Síria a uma sangria sem fim à vista, mas que, inelutavelmente, levará à perdição a minoria alauíta no poder.

                                 Os meios necessários

    O impasse no Conselho de Segurança era previsível por Pequim e Moscovo considerarem que a NATO e seus aliados ultrapassaram os termos da resolução 1973 de Março de 2011 que autorizou o uso na Líbia de «todos os meios necessários», excepto «uma força de ocupação estrangeira», para proteger civis e áreas de povoamento civil.

   A intervenção militar da NATO, subsidiariamente apoiada pelo Qatar e Jordânia, foi vista na Rússia e na China como um acto abusivo e, consequentemente, inviabiliza a adopção de qualquer resolução do Conselho de Segurança que admita o recurso à força ao abrigo do Capítulo VII da Carta da ONU.

   Excepto na eventualidade de uso de armas químicas ou biológicas ou sua transferência para organizações terroristas é dificilmente concebível uma intervenção militar directa estrangeira na guerra civil síria, com ou sem sanção da ONU, que, em qualquer caso, tenderá a evitar na medida do possível a eventualidade de ocupação territorial.

   As últimas manifestações violentas de repúdio por ofensas perpretadas no Ocidente contra o Islão serviram, por seu turno, para relembrar o óbvio: é fruste a base social e limitadíssima a legitimação ideológica para uma ordem política incorporando princípios liberais e secularistas em países tão distintos quanto o Egipto ou o Paquistão.

   Na ressaca do fracasso estratégico e ideológico das intervenções no Iraque e no Afeganistão os protestos de militantes islamitas em manifestações do Sudão à Nigéria terão afastado para os tempos mais próximos quaisquer ilusões sobre o apoio com que possam contar acções militares dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais em países de maioria islâmica ou com significativas minorias de crentes na mensagem do Profeta.

   Para o resto do mundo a falta de discernimento e capacidade de intervenção estratégicas do bloco ocidental ficam ainda patentes no fracasso da tentativa de mediação da administração Obama no conflito israelo-palestiniano, independentemente do que vier a ocorrer se a Autoridade Palestiniana conseguir um voto por maioria na Assembleia Geral para obter o estatuto de “estado observador” na ONU.

                              O mau tempo e a política

     A meteorologia, entretanto, condiciona no curto prazo a próxima guerra.

   A chegada do Outono torna muito mais difícil para Israel missões ofensivas e de reconhecimento áereo, sobretudo nas regiões montanhosas e no noroeste do Irão e, independentemente das cumplicidades com que possa contar no Arzebeijão e Curdistão iraquiano, limita a capacidade operacional unilateral de Telavive.

   Adiar para a Primavera um ataque que obrigue, por via de retaliação iraniana, a envolvimento directo dos Estados Unidos, deixa o governo de Benjamin Netanyahu à mercê da Casa Branca e descredibiliza as ameaças de Israel, jogo por demais perigoso no Médio Oriente onde prevalece a lei da força.

   No caso de Obama ser reeleito a Casa Branca não admitirá ser constrangida por Telavive, apesar do evidente fracasso das tentativas de levar o Irão a suspender ou renunciar a um programa nuclear militar.

   Na menos provável hipótese de vitória republicana Mitt Romney ainda mal terá rodado a sua equipa e o fervor ideológico já terá sido submetido ao confronto com realidades comezinhas como, por exemplo, a vulnerabilidade do Japão e da Coreia do Sul a cortes nos fornecimentos de petróleo.

   As probabilidades de erro de cálculo por parte de tão grande número de intervenientes são tamanhas que a eclosão da guerra é o mais provável.

   A ONU não voltará a ser a mesma entidade multilateral caso se mostre incapaz de impedir mais uma guerra com risco de escalada dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
26 Setembro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=580531&pn=1

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nenhuma nação é uma ilha




    Na iminência de uma eleição que poderá custar cara ao “Partido Democrático do Japão” (PDJ) o governo de Yoshihiko Noda optou por nacionalizar três ilhas do arquipélago de Senkaku na posse de um empresário nipónico, abrindo o mais virulento confronto com a China desde a normalização das relações diplomáticas em 1972.

   A soberania nipónica sobre estas cinco ilhas e três rochedos é contestada pela China, que denomina o arquipélago Diaoyu, além de Taiwan, tendo o diferendo propiciado diversos incidentes desde os anos 90.

   Uma proposta de subscrição pública para a municipalidade de Tóquio adquirir as ilhas, administradas pela prefeitura de Okinawa, foi lançada este ano pelo governador da capital, Shintaro Ishihara, um nacionalista de direita proponente do reforço das capacidades militares do Japão.

                              Duas guerras e o mar imenso


   O arquipélago desabitado está na posse de Tóquio desde a vitória japonesa sobre a China na guerra de 1894-95 que viu Pequim perder Taiwan e o controlo da Coreia.

   A partir de 1945 as ilhas ficaram sob administração dos Estados Unidos que as reverteram para o Japão em 1971, tendo os sucessivos governos de Tóquio impedido até agora a presença no arquipélago de cidadãos nipónicos sem autorização oficial.


 

   O PDJ, no poder desde 2009, tem, no entanto, sido alvo de críticas pela oposição de centro-direita do “Partido Liberal-Democrático” por complacência e fraqueza ante as pretensões chinesas.

   Em Setembro de 2010 a detenção da tripulação de um arrastão chinês ao colidir em águas do arquipélago com dois navios-patrulha nipónicos provocou uma grave crise diplomática -- coincidente com uma disputa sobre exportações de minérios raros da China para o Japão – cuja resolução deixou na maioria da opinião pública nipónica a ideia de que PDJ não soubera assumir uma posição de força.

    O recente reavivar de disputas com a Coreia do Sul quanto a indemnizações de guerra e a soberania sobre as ilhotas e rochedos de Dokdo/Takeshima, controladas por Seul desde 1952, contribuiu, juntamente com a campanha de Ishihara e o temor de perdas eleitorais, para a decisão de Noda de comprar as três ilhas de Senkaku por 2,05 mil milhões de ienes (19,87 milhões de euros).

   A nacionalização de 11 de Setembro, uma semana antes do aniversário do início da invasão da China pelo Japão em 1931, foi pretexto para mais uma vaga de manifestações anti-nipónicas que, até ao momento, as autoridades de Pequim têm controlado em função dos seus interesses tal como aconteceu com os protestos depois do bombardeamento pela NATO da embaixada chinesa em Belgrado em 1999.


   O confronto sino-japonês surge, por sinal, num momento pouco auspicioso para Pequim em que a consagração de novos dirigentes no Congresso do Partido Comunista se vê abalada por graves escândalos de corrupção, abuso de poder e diferendos sobre estratégia económica.

                        Dinâmicas de confronto


   A imbricação entre a segunda maior economia do mundo (a China desde 2010) e a terceira maior economia conterá o conflito, malgrado o risco de uma escalada a curto prazo por via de provocações e desafios de parte a parte, mas não resolverá a questão de fundo.

   A China é o principal parceiro comercial do Japão, representando 21% das suas trocas comerciais e investimentos superiores a 83 mil milhões de dólares desde 1996.

   O Japão é, por sua vez, o quarto destino das exportações da China, e as trocas entre os dois estados equivalem a 9% do total da balança comercial de Pequim.

   As dinâmicas de poder são, contudo, pouco propícias a entendimentos a médio prazo.

   Antes do dobrar da metade do século o Japão encontrar-se-á em retracção demográfica aparentemente irreversível e a China terá uma população activa em redução acelerada ainda antes de o rendimento médio per capita ultrapassar os níveis próprios de um país em vias de desenvolvimento.

   As disputas pelo controlo de rotas marítimas e a projecção de poder militar, confundem-se com conflitos por recursos piscícolas, jazidas de petróleo e gás natural e estendem-se por uma vasta área em que a China reivindica direitos soberanos.

   O Mar do Sul da China é palco de acrimónia insolúvel entre a China, Vietname, Taiwan, Filipinas, Brunei e Malásia e -- tal como outros confrontos envolvendo Tóquio, Pequim e Seul – envolve, além de mitos nacionais, amargas memórias de guerras desencadeadas pelo Japão a partir do final do século XIX.

   O conflito entre a Rússia e o Japão sobre as Curilas cabe numa categoria diferente de diferendos sobre apropriações territorias no rescaldo da derrota do Império japonês em 1945, mas condiciona qualquer governo em Tóquio obrigando a não ceder nas disputas com a China ou a Coreia do Sul por questão de princípio.

   O sistema de alianças centrado em Washington acaba, finalmente, por envolver os Estados Unidos em todos os conflitos regionais.

   As disputas sobre ilhas, ilhotas e rochedos nos mares asiáticos do Pacífico são sinais de problemas que se avolumam.

Jornal de Negócios
18 Setembro 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

O pacote chinês

 
 
   O pacote de relançamento económico de 4 biliões de yuans (456 mil milhões de euros) anunciado domingo em Pequim visa evitar que o crescimento económico chinês caia abaixo de 8%, mas dificilmente conseguirá criar os 24 milhões de postos de trabalho necessários para absorver a mão-de-obra que todos os anos entra para o mercado laboral.
 
   O plano de alocação de verbas para os próximos dois anos, equivalente a cerca de 15% do PIB, privilegia a construção social, infra-estruturas em áreas rurais e o sector de transportes, além de contemplar um aumento das compras de cereais pelo estado para obviar à depreciação de preços e cortes fiscais para aquisições de bens de investimento.

   Apenas cerca de 1,5 biliões de yuans representam de facto verbas adicionais dado que os restantes investimentos estavam já previstos, como era o caso de um bilião de yuans para reconstrução das áreas devastadas no sudoeste da China pelo terramoto de Maio, enquanto as medidas de apoio aos sectores agrícolas e às indústrias exportadores já tinham sido já anunciadas.

   Os investimentos no sector da habitação, infra-estruturas e transportes só farão sentir os seus efeitos no final do próximo ano, mas opções de política fiscal e monetária em aberto para Pequim poderão contribuir para conter o abrandamento económico.

                                  O difícil aumento do consumo

   O Banco Central reduziu três vezes desde Setembro a taxa de juro de referência para empréstimos a 12 meses que se cifra presentemente em 6,66%.

   A queda da taxa de inflação para 4,6% em Setembro e 4% em Outubro (o nível mais baixo em 17 meses) possibilita novos cortes de juros e o levantamento de limites ao crédito bancário, cujo aumento não tem excedido os 12% ao ano, contribuirá para financiar novos investimentos.

   Uma alteração do regime de IVA para estimular o consumo de particulares e o investimento de empresas em bens de capital será ainda anunciada até ao final do ano.

   O consumo doméstico, inferior a 55% do PIB chinês, dificilmente aumentará sem que o estado garanta uma rede de assistência social e protecção ao desemprego, extremamente difícil de concretizar num país onde 300 milhões de pessoas subsistem com menos de 1 dólar/dia em termos de Paridade de Poder de Compra, de acordo com estimativas do Banco Mundial de 2007.

   O crescimento económico desacelerou pelo quinto trimestre consecutivo e caiu para 9% no terceiro trimestre de 2008, o nível mais baixo dos últimos cinco anos.

  O FMI, que previra uma taxa de crescimento de 9,7 % para 2008, depois de 11,9% em 2007, reduziu a sua estimativa para 8,5 %.

   A quebra nas exportações tenderá, no entanto, a reduzir as previsões, pois, segundo o Banco Central, as vendas ao estrangeiro que contribuíram para 21,5 % do crescimento em 2007, representaram apenas 4,9% no primeiro semestre deste ano.

   A decisão de suster a valorização do yuan desde Julho não conseguiu evitar uma forte contracção nas exportações de têxteis e brinquedos devido à diminuição da procura internacional, sobretudo nos Estados Unidos.

O crescimento de apenas 19,2% das exportações em Outubro, o mais baixo dos últimos quatro meses, foi alcançado graças a indústrias com menor componente de trabalho intensivo o que agrava a situação do mercado de trabalho.

                                            O risco do desemprego

   A taxa oficial de desemprego atingia 9,5% no ano passado e os investimentos em infra-estruturas que, de acordo com as estatísticas oficiais, registaram uma média anual de crescimento de 20% desde a década de 1980, quando se iniciaram as reformas económicas de Deng Xiaoping, não conseguiram até agora absorver os excedentes de mão-de-obra rural.

   O investimento doméstico terá contribuído para 4% ou 6% do crescimento económico médio de 10% das últimas três décadas, mas não integrou no mercado formal de trabalho cerca de 150 milhões de trabalhadores migrantes excedentários na economia rural.

   O pacote de relançamento económico é, consequentemente, um reformular das medidas previstas no plano quinquenal 2006-2010 para obviar à crescente desigualdade e conflitualidade sociais, sendo axiomático em Pequim que um crescimento abaixo dos 8% fará disparar o desemprego para níveis socialmente incomportáveis.

   Reduzir a dependência do comércio externo, superar a subalternidade tecnológica (menos de 1/5 das exportações são classificadas como produtos de alta tecnologia) e diminuir assimetrias regionais e sociais eram os objectivos expressos no plano quinquenal que admitia ser insustentável o modelo de desenvolvimento seguido desde os anos 80.

    O reforço de medidas de assistência social obrigará o governo de Pequim a abandonar o seu objectivo de manter o défice orçamental em 1,1% do PIB e elevará a dívida pública, estimada oficialmente em apenas 20% do PIB, para níveis muito mais altos.

   É o custo da estabilidade social e um imperativo para o regime de Pequim.



Jornal de Negócios
12 Novembro 2008

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O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Política da catástrofe

Bogaly, Birmânia, Maio 2008
   Na madrugada de 26 de Julho de 1976 um terramoto arrasou Tangshan.
   Todo o norte da China foi sacudido pelo sismo que devastou a cidade das minas de carvão e das porcelanas.
   Nunca se soube ao certo quantas pessoas morreram. Só em 1988 foi divulgado um balanço oficial de 242 419 vítimas, ainda que outras estimativas apontem para mais de 600 mil votos.
   Por mais de um ano Tangshan foi uma cidade entregue às almas penadas e a catástrofe que se fez sentir desde Pequim ao porto de Tianjin tornou-se em mais um dos segredos sinistros da Grande Revolução Cultural Proletária.

   Era o sempre temido Ano do Dragão, prenhe de ameaças, e o abalo de Tangshan foi visto como signo de desgraças maiores.

   Depois, a 9 de Setembro, morria o Grande Timoneiro e a luta entre o Bando dos Quatro e Deng Xiaoping atingia o paroxismo.

   O pequeno homem de Sichuan levaria a melhor no mês seguinte e com a prisão da viúva de Mao, Jiang Qing e dos restantes três “entes maléficos” chegava o princípio do fim do maoísmo.

   O grande terramoto de Tangshan fora mesmo o sinal da derrocada do mandato do céu maoísta.
  
                                    Evitar mais erros

   Neste auspicioso Ano do Rato a terra voltou a tremer em Sichuan.

   Temeu-se que a Barragem das Três Gargantas, a 760 quilómetros do epicentro, tivesse sido atingida, mas as águas do Yangtzé não assolaram as regiões mais férteis da China.

   Os herdeiros de Deng entre Novembro de 2002 e Abril de 2003 tentaram ocultar a dimensão da epidemia da Síndrome de Doença Aguda Respiratória (SARS) que eclodira no sul da China e no início deste ano foram surpreendidos pela gravidade das tempestades de neve no país.

   Nem o primeiro-ministro Wen Jiabao, nem o presidente Hu Jintao podiam claudicar desta feita e a rede regional de emergências, criada o ano passado e reportando directamente ao governo de Pequim, foi activada imediatamente, sem que a censura tivesse ocultado a dimensão do desastre, apesar de evitar referências às deficiências de construção da maior parte de edifícios e infra-estruturas numa região de grande risco sísmico.

   Gratos pelas ofertas de ajuda internacional os dirigentes chineses estão confiantes na sua capacidade para prover assistência às vítimas e conter as consequências gravosas do terramoto.

   Evitada a catástrofe na maior barragem hidroeléctrica do mundo o sismo de Sichuan afectará essencialmente a economia da província e das regiões limítrofes do sudoeste da China.

   O impacto do sismo, tendo em conta que a província Sichuan e o adjacente centro manufactureiro do município de Chongqing representam apenas 3,5 % da capacidade industrial instalada da China, será menor do que a carga negativa dos nevões de Janeiro e Fevereiro que, aliás, apenas afectaram ligeiramente a taxa de crescimento económico.

   A economia chinesa teve uma expansão de 10,6 % no primeiro trimestre deste ano, comparada com os 11,2% registados entre Janeiro e Março de 2007.

   Sichuan contribui com 9 % das colheitas chinesas de arroz e, neste particular, bem como na previsível redução das produções regionais de milho, soja, carnes de vaca e de porco, acrescidos os custos de reconstrução, far-se-ão sentir efeitos inflacionários indesejados numa altura em que a alta de preços anual ronda os 10 %.

   Toda a catástrofe natural põe à prova a eficácia administrativa de um regime político.

   No Ano do Rato reina em Pequim certa confiança de que o grande terramoto de Sichuan não insinue sinais de convulsão política.

                                       A desgraça no delta

   A meio caminho entre Rangoon e Mandalay, as duas maiores cidades da Birmânia, a junta militar contempla uma catástrofe sem comoção de maior.

   Acantonados na sua fantasmagórica capital de Nay Pyi Taw, poupada pelo tufão Nargis, os generais mostram-se indiferentes à calamidade do Delta do Irrauádi.

  Em Setembro do ano passado os militares puseram termo pela força aos protestos liderados por monges budistas nas regiões de maioria birmanesa, seguros da indiferença das minorias étnicas que constituem 30% dos 56 milhões de habitantes da Birmânia, e da conivência dos seus aliados e parceiros comerciais.

   Agora, a Junta abandonou à desgraça mais de milhão e meio de pessoas no Delta por considerar, correctamente, que a presença no terreno de agências estrangeiras, organizações internacionais, especialistas civis e militares em auxílio de emergência, colocaria em causa as estruturas militares de controlo e administração.

   O auxílio internacional, que começou por chegar de países como a China, a Índia, a Tailândia e a Indonésia, foi, assim, entregue à tutela directa das forças armadas birmanesas que recusaram a presença de especialistas estrangeiros.

   O desastre no Delta do Irrauádi vai, no entanto, custar caro ao regime porque na região atingida pelo Nargis se situam os maiores arrozais, bancos de pesca e explorações de aquicultura da Birmânia.

   A contracção económica será particularmente severa e agravará a miséria dos cerca de 18 milhões de birmaneses que subsistem com menos de um dólar por dia.

   Para a junta a degradação económica é questão de somenos enquanto os mais de 400 mil militares que consomem 40 % dos recursos orçamentais continuarem a ter condições para manter o controlo político do país que se arrasta desde 1962 e foi, outra vez, consagrado na nova constituição em referendo.

   Os generais birmaneses dão como adquirida a não hostilização por parte da China, principal parceiro comercial, maior investidor e fornecedor de equipamento militar, vitalmente interessada no acesso ao Oceano Índico e em manter as suas bases de vigilância electrónica nas ilhas Coco, no Golfo de Bengala.

   A abertura a investimentos estrangeiros iniciada nos anos 90 para exploração das jazidas off shore de gás natural (que asseguram mais de metade das receitas das exportações legais, sendo desconhecidas os proventos do contrabando, designadamente de madeiras e tráfico de ópio e anfetaminas) deu, ainda, novo fôlego ao regime e implica interesses da Índia, além da Coreia do Sul, Tailândia e Malásia.

   Acresce que países vizinhos como a Índia, Bangladesh, China e Tailândia têm presente que o colapso da junta militar apresenta o risco de desagregação do estado birmanês, uma entidade ameaçada desde a independência em 1948 pelos conflitos entre as etnias birmanesa, karen, kachin, shan, chin, só para nomear as principais comunidades.

                                     Sofrer até mais não

   A hipótese de forçar o fornecimento de ajuda internacional manu militari ao abrigo do princípio de “responsabilidade pela protecção”, adoptado pela Assembleia Geral da ONU (sem carácter vinculativo) desde 2005 para casos de “genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade”, não se aplica à situação na Birmânia.

   A necessária autorização do Conselho de Segurança para uma acção de assistência forçada deparar-se-ia com o veto da China e da Rússia e não colhe o apoio de estados tão diversos como a Grã-Bretanha, a Indonésia ou a África do Sul.

   A abertura pela força de um corredor aéreo implicaria riscos de segurança e seria ineficaz para distribuição de água, alimentos, medicamentos e mosqueteiros.

    Para mais só a presença no terreno de pessoal especializado permitiria instalar equipamentos sanitários e de purificação de água e prestar assistência à população.

   Não existem interesses políticos, nem justificações jurídicas para legitimar uma intervenção pela força.

   Acresce que, a prazo, a Birmânia com um sector de serviços incipiente, comércio internacional diminuto e concentrado nas trocas regionais, turismo pouco significativo, é um estado que, salvo corte drástico das trocas com a China, se pode considerar imune a boicotes e sanções internacionais.

   A primeira regra de regimes ditatoriais face a catástrofes naturais é preservar as estruturas de segurança e administrativas em que assenta o poder.

   Por vezes, a resposta pode revelar-se eficaz, como está a acontecer na China, país em que os fluxos de informação, a liberdade de movimentos e o crescimento económico já não permitem esconder a dimensão dos desastres naturais e ignorar a sorte das vítimas.

   Noutros casos, à imagem da Coreia da Norte, os interesses de preservação de regimes ao abrigo de pressões exteriores decisivas, geram uma reacção corrupta e brutal, conforme se assiste na Birmânia.

   A brutalidade e incúria da Junta birmanesa poderão provocar tal degradação da situação social no sul do país que leve a uma eventual perda de controlo por parte dos militares.

   A degradação, sofrimento e apatia de populações esmagadas sob o peso da fome e da miséria são, contudo, outro cenário bem conhecido da ditadura birmanesa.

   No Delta do Irrauádi é sofrer até mais não.



Jornal de Negócios
14 Maio 2008

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sábado, 8 de setembro de 2012

O grandeza minguada dos fusos horários da Rússia




  
   No domingo com o horário de Verão os russos vão perder um dos seus motivos de orgulho nacional: desaparecem dois fusos horários.

   Dos onze fusos horários sobram nove.

   No Extremo-Oriente a Tchuckotka e a península da Kamchatka passam a alinhar pelo fuso de Magadan na Sibéria Oriental.

   Nos confins da planície europeia desaparece também o fuso horário de Samara.

   É uma medida promovida pelo presidente Dmitri Medvedev para facilitar contactos administrativos e comerciais ao longo dos 7 mil e 400 quilómetros que vão do enclave de Kaliningrad no Mar Báltico até à costa do Pacífico.

  Os onze fusos horários eram um dos orgulhos da Rússia.

   O maior país do mundo não era de facto o que ostentatava maior número de fusos horários.

   A França é recordista: conta com 12 fusos horarios por causa dos seus territórios e colectividades ultramarinos nas Caraíbas, América do Sul e do Norte, no Índico e no Pacífico.

   Mas a Rússia com a sua imensa massa nos continentes asiático e europeu revia-se na grandeza dos seus onze fusos horários continuos.

  Estavam em vigor desde 1919. Eram mais um dos sinais da grandeza soviética e depois, mais minguada, da grandeza russa.

  Eram bem mais dos que os seis fusos dos Estados Unidos, com Alasca incluindo e descontando outros três para ilhas do Pacífico.

   Mais do que o Canadá que também se reparte por seis fusos horários. 

   Em prol da racionalização administrativa Moscovo opta, pois, pela redução dos fusos horários que poderá já no próximo ano vir a apertar ainda mais as diferenças de hora entre as várias regiões, sobretudo nos Urais e na Sibéria.

   Cada vez mais perto do fuso de Moscovo enquanto a oriente todos se levantam mais cedo.

    Não chega ao exagero da China ou da Índia que subsistem com um único fuso horário, mas a reforma avança.

   Está também em estudo abandonar a diferença entre Hora de Verão e de Inverno que só foi introduzida tardiamente em 1981, ainda existia a União Soviética. 

   Parece coisa pouca isto dos dois fusos horários que se esvanecem na imensidão do maior país do mundo. Mas para muitos russos é como se a pátria perdesse um pouco mais da sua grandeza.    



TSF / O Mundo num Minuto
26 Março 2010

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917506&audio_id=1529257

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Um massacre anunciado

   No auge das manifestações de protesto na Birmânia, o general Thura Myint Maung falou e disse: uma conspiração de “elementos destrutivos internos e externos” ameaça “o desenvolvimento e a estabilidade nacionais”.
   O ultimato do ministro dos assuntos religiosos, exigindo que a hierarquia budista condene os monges envolvidos nas manifestações anti-governamentais, é o primeiro passo para o início da contra-ofensiva da Junta Militar.

   O cenário mais provável é a partir de agora a repressão em larga escala dos protestos à semelhança da investida militar que provocou cerca de três mil mortes em Setembro de 1988.

                            Yangon, Myanmar, Setembro 2007

   Tal como há duas décadas um decreto inopinado e actos de brutalidade policial propiciaram os pretextos para as manifestações.

   Desta feita, a Junta Militar, sem recursos para manter os subsídios estatais ao consumo de combustíveis, decretou a 15 de Agosto aumentos que duplicaram o preço do diesel e quintuplicaram o custo do gás butano.

   Uma semana depois, treze activistas da oposição foram presos por organizarem acções de protesto contra a alta de preços. A rede clandestina da oposição birmanesa conseguiu apesar das detenções realizar manifestações esporádicas em diversas cidades e monges budistas juntaram-se no início de Setembro aos protestos.

   Detenções e espancamentos de monges e noviços radicalizaram membros do clero que passaram a exigir desculpas públicas por parte do governo. Apanhada de surpresa a Junta militar hesitou em reprimir as manifestações lideradas por monges que a 17 de Setembro passaram a recusar aceitar oferendas por parte de membros da Junta, seus familiares e associados.

   Ao acto de desafio de parte significativa do clero, negando a benevolência da busca de mérito essencial às crenças budistas, seguiu-se um crescendo das manifestações que assumiram um cunho declaradamente antigovernamental e atingiram dimensões semelhantes às das jornadas de Agosto e Setembro de 1988.
  
  Os protestos de há duas décadas seguiram um curso semelhante.
  
                              Rangoon, Birmânia, Setembro 1988

   Em Setembro de 1987, o general Ne Win, que tomara o poder em 1962 instaurando o socialismo búdico, decretou sem valor 56 por cento da massa monetária.

   A conhecida devoção astrológica do general pelo mágico número 9 retirou de circulação as notas de denominação mais alta de 75, 35 e 25 kyat.

   Na impossibilidade de trocar as velhas notas, sem acesso ao sector bancário, a maioria da população viu o dinheiro volatilizar-se num passe de mágica.

   O temor às novas notas de 90 e 45 kyat e o medo de novo confisco levou a uma corrida a bens tangíveis que fez disparar a inflação.

   A partir de então manifestações pontuais passaram a marcar o quotidiano da Birmânia até que uma brutal intervenção policial em Março de 1988, na sequência de distúrbios numa das tradicionais casas de chá de Rangoon junto ao Instituto de Tecnologia, redundou na morte de 41 estudantes.       

  A capital foi abalada por gigantescas manifestações. As brutalidades militares em Agosto provocaram mais de mil vítimas em Rangoon e, então, Aung San Suu Kyi – filha do general Aung San, o herói martirizado da independência em 1947 – assumiu a liderança da contestação.

   Em 18 de Setembro, uma Junta Militar, com o general Ne Win na sombra, decretou o estado de emergência e no dia seguinte começou o massacre. Suu Kyi foi colocada em prisão domiciliária.

   Dois anos mais tarde, em Maio de 1990, eleições organizadas pelos militares resultaram na conquista pela Liga Nacional para a Democracia, liderada por Suu Kyi, de 392 dos 484 lugares em disputa.

   A Junta ignorou os resultados, prendeu dirigentes e militantes da Liga Nacional para a Democracia e demais partidos desafectos ao regime e persistiu até hoje numa política ditatorial.

                              Um regime intratável e indiferente

   A construção de uma nova capital em Nay Pyi Taw, a meio caminho entre Rangoon e Mandalay, as duas principais cidades do país, a convocação de uma fantasmagórica Convenção Constitucional (a reserva da presidência e dos principais ministérios para os generais é um dos pontos fortes da constituição) e o retomar das ofensivas militares contra os rebeldes da minoria Karen no leste do país foram os últimos passos da Junta.

   A estratégia de “negociações construtivas” com a Birmânia que justificou a sua entrada na Associação das Nações do Sudeste Asiático em 1997 de nada valeu aos demais nove Estados da organização.

   O golpe militar do ano passado na Tailândia retirou ainda mais legitimidade às críticas pontuais que se vão fazendo ouvir contra o regime birmanês por parte de alguns parceiros regionais, sobretudo a Indonésia, a Malásia e as Filipinas. 
   
   Na última década, o incremento das relações com Pequim transformou, por seu turno, a China no principal parceiro comercial da Birmânia, maior investidor e fornecedor de equipamentos militares, além de recurso diplomático de última instância.

   Os investimentos para exploração das jazidas off shore de gás natural (que asseguram mais de metade das receitas das exportações legais, sendo desconhecidas os proventos do contrabando, designadamente de madeiras e tráfico de ópio e anfetaminas) deram novo fôlego ao regime e implicam ainda interesses da vizinha Índia, além da Coreia do Sul, Tailândia e Malásia.

   A capacidade de pressão internacional sobre a Birmânia é, no entanto, muito limitada devido ao escasso peso que as trocas comerciais têm num país com um PIB que não ultrapassa os dez mil milhões de dólares.

   A agricultura (essencialmente produção de arroz), a pecuária, as pescas e a exploração de madeiras representam mais de metade do PIB, contribuindo as indústrias e manufacturas, em que as empresas estatais controladas por militares também predominam, com outros 15 por cento.

   Um sector de serviços incipiente, um comércio internacional diminuto e concentrado nas trocas regionais, turismo pouco significativo, acrescem para tornar a Birmânia um caso peculiar: é um estado que, salvo corte drástico do comércio com a China, se pode considerar imune a boicotes e sanções internacionais.   

   Os cerca de 400 mil militares poderão, assim, continuar a consumir 40 por cento do orçamento e quase 30 por cento dos 56 milhões de habitantes da Birmânia terão de subsistir com menos de um euro por dia.

   A presente onda de protestos recebeu alguns apoios de líderes de partidos e movimentos das minorias étnicas que representam 30 por cento da população, mas, tal como em 1988, concentra-se nas regiões de maioria birmanesa.
Indiferente às condenações e sanções que possam advir do Conselho de Segurança da ONU, caso a China não opte por as vetar, a Junta do general Than Shwe prepara-se, com toda a probabilidade, para esmagar com mão de ferro as manifestações antigovernamentais. 

É 1988 outra vez.



Jornal de Negócios
27 Setembro 2007

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A China suja



  
   As autoridades chinesas não olharam a meios: fecharam fábricas, reduziram drasticamente a circulação automóvel, encerraram estaleiros de obras, mas, mesmo assim, a poluição atmosférica arrisca atingir níveis demasiado elevados durante os Jogos Olímpicos.
   A qualidade do ar em Pequim é bastante má e, apesar dos esforços das autoridades chinesas terem conseguido reduzir os níveis de dióxido de enxofre e monóxido de carbono, a concentração de partículas encontra-se duas vezes acima dos padrões considerados aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde.

   Os níveis elevados de concentração de ozono também poderão obrigar o Comité Olímpico Internacional a cancelar algumas provas.

                                         Ao sabor dos ventos

    Pequim é uma cidade muito quente e húmida no Verão e quando os ventos sopram de sul as partículas vindas das regiões onde é maior a concentração populacional e industrial degradam consideravelmente a qualidade do ar.

    Se soprar vento forte das estepes da Mongólia, a poluição diminui consideravelmente, mas o regime de ventos é instável e são frequentes os dias de Agosto sem uma brisa, em que pairam sobre a cidade nuvens cinzentas, reduzindo a visibilidade a escassas dezenas de metros.

    As medidas tomadas desde 2006 – encerramento das unidades industriais mais poluentes, utilização de gás natural em autocarros públicos, expansão das linhas de metro e, a partir de Julho, o regime de circulação limitada de carros particulares e veículos oficiais, por exemplo – permitiram aumentar o número de dias de "céu limpo", de 100 em 1998, para 246 no ano passado, ainda que as autoridades ignorem outros indicadores relativos a concentrações de partículas finas poluentes e a níveis de ozono.

    As chuvas de Verão serão bem-vindas para aclarar os céus, mas as variações bruscas na qualidade do ar em Pequim escapam ao controlo das autoridades e estão ao sabor dos ventos.

   Para além dos efeitos a curto prazo das medidas de urgência adoptadas para Agosto e dos Jogos Paralímpicos de Setembro, Pequim continuará a ser uma capital com péssima qualidade ambiental.

   Os cerca de 17 mil milhões de dólares de investimentos directos em medidas anti-poluição para Pequim, sem contabilizar custos de suspensão de actividades industriais, comerciais e da circulação de veículos durante períodos consideráveis, ficam aquém do necessário e resta ainda saber por quanto tempo será possível manter em vigor medidas excepcionais de controlo ambiental.

                                    A poluição insuportável

   Em 2004 o Banco Mundial classificava Pequim como a décima terceira cidade mais poluída do planeta numa listagem que, aliás, colocava 16 urbes chinesas entre as 20 metrópoles mais poluídas do mundo.

    Estudos oficiais indicavam, por sua vez, que 70 por cento da poluição na capital era provocada por emissões industriais e circulação automóvel nas províncias vizinhas de Pequim.

   As previsões optimistas, argumentando que o problema da poluição não porá em causa o modelo de desenvolvimento económico e que, tal como o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan, também a China conseguirá ultrapassar os efeitos ambientais negativos de uma rápida industrialização, subestimam a amplitude da catástrofe ecológica.

   A China já está a par dos Estados Unidos na emissão de gases com efeito de estufa, os seus níveis de eficiência energética são baixíssimos e, infelizmente, persiste o cenário que aqui traçámos há um ano.

   As águas de 70 por cento dos rios do país estão poluídas, 300 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e apenas 25 por cento das águas residuais domésticas são tratadas. As reservas de água serão insuficientes para prover às necessidades em 2030, quando a população total atingir 1,6 mil milhões de pessoas.

   As chuvas ácidas atingem um terço do país. A desflorestação e erosão dos solos afectam 37 por cento do território. A superfície de terras aráveis é cada vez menor e aproxima-se perigosamente dos 120 milhões de hectares, absolutamente insuficientes para prover às necessidades agrícolas.

   Os danos ambientais, segundo estudos diversos, podem corresponder a valores entre 7 e 20 por cento do PIB.

   O objectivo estabelecido pelo governo de Pequim para 2006 previa uma redução de 4 por cento do consumo de energia por unidade do PIB, mas, apesar de ter sido conseguida pela primeira vez uma diminuição de gastos energéticos, esta não chegou a ultrapassar os 1,2 por cento.

   O desiderato de uma redução de 20 por cento estabelecido no plano quinquenal 2006-2010 é assim cada vez mais difícil de alcançar e a prevista diminuição de 2 por cento nas emissões poluentes em 2006 revelou-se outro desiderato falhado.

    A catástrofe ecológica da China, a par do envelhecimento drástico da população, tornou insustentável o modelo de desenvolvimento seguido desde os anos 80.

    Por muito bem que corram os Jogos Olímpicos, mesmo que os ventos do norte ajudem a limpar os céus da capital, as imagens que vão chegar de Pequim nas próximas semanas servirão para lembrar a muita gente os imensos dramas com que se confronta a China.



Jornal de Negócios
30 Julho 2008

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A complexidade cordial da China

 

   No exterior predomina a imagem de uma China em ascensão irresistível, mas os dirigentes comunistas confrontam-se com o espectro mais persistente da história do Império do Meio: a ameaça do luan, a desordem e o caos que arruína as gentes e derruba os poderes instituídos

   Um contrato para compra de 70 aviões à Boeing no montante de cerca de 4 mil milhões de dólares, a promessa de maior empenho na protecção dos direitos de propriedade intelectual e de prossecução da reforma monetária, além de cooperação acrescida no combate à gripe aviária, resumem os ganhos públicos da estada de George W. Bush em Pequim.

   Os apelos do presidente norte-americano em prol de maior liberdade política e religiosa foram censurados pela comunicação social chinesa e Bush concluiu as conversações com Hu Jintao admitindo a complexidade da relação tida por cordial entre os dois países.

   Na frente económica e financeira a China, com reservas em divisas no montante de 750 mil milhões de dólares, é, presentemente, o segundo maior credor dos Estados Unidos. Em Setembro, Pequim detinha 252,2 mil milhões de dólares da dívida dos Estados Unidos (Tóquio é credor de 687,3 mil milhões de dólares), financiando, assim, os 114 mil milhões de dólares de importações norte-americanas da China, em 2004, metade das quais vendas de multinacionais dos Estados Unidos instaladas no país. As exportações dos Estados Unidos para a China não ultrapassaram os 34,7 mil milhões de dólares no ano passado.

   Terceiro parceiro comercial de Washington, após o Canadá e o México, a China recebeu desde os anos oitenta 29 mil milhões de dólares em investimentos directos oriundos dos Estados Unidos, enquanto o total dos investimentos chineses no exterior se quedava por 35 mil milhões de dólares.

   Em Julho, Pequim valorizou em 2 por cento o yuan, mas apesar da promessa de valorizações progressivas de 0,3 por cento ao dia, chegou-se a Novembro com uma alta adicional de apenas 0,3 por cento da moeda chinesa.

   A veia proteccionista do Congresso de Washington, atormentado pelo défice comercial e pelo apetite aparentemente insaciável do dragão que já representa 12 por cento da procura mundial de energia, alia-se às apreensões do Pentágono quanto à modernização e expansão das capacidades militares de Pequim que, por enquanto, não permitem uma projecção de forças convencionais para além da periferia da China.

   Os temores e impasses de Washington são um exemplo maior dos problemas levantados pela ascensão pacífica da China para usar a terminologia oficial de Pequim e, no entanto, os dirigentes chineses dão, sobretudo, sinais de crescente preocupação com a estabilidade social e política.

   O plano quinquenal 2006-2010, aprovado em Outubro, visa reorientar a economia para promover a prosperidade colectiva, outra forma de referir o combate às crescentes desigualdades.
  
   As regiões costeiras, onde começaram as reformas de Deng, congregam 300 milhões de habitantes e produzem 70 por cento da riqueza nacional. É aí que se concentram 80 por cento dos depósitos bancários detidos por 20 por cento da população que não mostra particular confiança num sistema bancário em que mais de 20 por cento do crédito é tido de cobrança duvidosa ou impossível.

   O rendimento anual de 60 por cento da população chinesa dispersa pelas zonas rurais é, em contraste, inferior a 300 dólares. De pouco lhes vale a intenção oficial de duplicar até 2020 o rendimento per capita para os 3 mil dólares. As autoridades reconhecem que 3 milhões de pessoas participaram em incidentes violentos nas zonas rurais em 2004 e tentam reorientar investimentos para o interior, ante a oposição declarada de regiões avançadas como Xangai, Zhejiang e Jiangsu.

   As assimetrias têm-se agravado à medida que diminui a produtividade agrícola, principal responsável pelo feito histórico de arrancar mais de 300 milhões de chineses à situação de pobreza absoluta nas décadas de 80 e 90.

   Com 120 milhões de trabalhadores migrantes, excedentários na economia rural, e menos de 1/5 da mão-de-obra empregada nas indústrias de transformação, extracção mineira e na construção, o governo de Pequim confronta-se com as projecções que apontam para um crescimento da população urbana dos actuais 520 milhões para 800 ou 900 milhões em 2020.

   A implicação mais imediata é o aumento do consumo de energia. Nos dois últimos anos as taxas de crescimento económico na ordem dos 9 por cento levaram a um aumento do consumo energético em 15 por cento, o dobro no caso do petróleo, sendo 75 por cento da electricidade produzida a partir do carvão com danos ambientais insustentáveis.

   A desflorestação e erosão dos solos afectam 37 por cento do território chinês e se 300 milhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável, apenas 25 por cento das águas residuais domésticas são tratadas. As reservas de água serão insuficientes para prover às necessidades em 2030 quando a população total atingir 1,6 mil milhões de pessoas, segundo os estudos oficiais.

   São estes números e a exasperação provocada pela crescente conflitualidade social e as expectativas frustradas das regiões deprimidas que preocupam os dirigentes comunistas.

   O comércio externo representa 37 por cento do PIB, mas menos de 1/5 das exportações podem ser classificadas como produtos de alta tecnologia e, em qualquer dos casos, 85 por cento dos artigos de alto valor acrescentado são produzidos por empresas estrangeiras.

   A criação de emprego para 900 milhões de pessoas em idade laboral, segundo as previsões para 2020, não pode ser assegurada pelo sector exportador (ainda que a percentagem da China nas exportações mundiais ronde, actualmente, apenas os 6 por cento) e é preocupante que o peso do consumo interno no crescimento económico tenha vindo a baixar nos últimos vinte anos, cifrando-se, em 2004, em 53,6 por cento.

   Os deploráveis níveis de saúde pública, o baixo investimento na educação, a diminuta inovação tecnológica e a corrupção endémica são outros desafios reconhecidos pelo regime autoritário de Pequim.

   É paradoxal, mas enquanto no exterior predomina a imagem de uma China em ascensão irresistível, os dirigentes comunistas confrontam-se com o espectro mais persistente da história do Império do Meio: a ameaça do luan, a desordem e o caos que arruína as gentes e derruba os poderes instituídos.


Jornal de Negócios
23 Novembro 2005