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domingo, 2 de setembro de 2012

A Rússia apresenta a conta a Obama


   A administração Obama definiu um entendimento com a Rússia como a primeira das reorientações estratégicas viáveis, mas ainda não apurou devidamente os custos das concessões que terá de fazer a Moscovo.

   O primeiro objectivo russo, partilhado por todas as tendências políticas em Moscovo, é pôr termo ao alargamento da NATO a Leste e reduzir a presença norte-americana na Ásia Central.

   A decisão da NATO de retomar os contactos com Moscovo, suspensos desde 19 de Agosto, foi feita à custa de ignorar a exigência expressa pública e formalmente de que russos e georgianos teriam de retirar para as posições que ocupavam antes do eclodir da guerra.

                            Preponderância russa no Cáucaso

  Moscovo mantém a sua presença militar na Abkázia e na Ossétia do Sul, mas os Estados Unidos convenceram os aliados mais renitentes, caso dos estados bálticos, da República Checa e da Polónia, a aceitarem sem contrapartidas a reactivação do Conselho Rússia-NATO.

   A promessa de uma futura adesão da Geórgia à NATO mantém-se em agenda, mas basta constatar que os aliados não forneceram até agora o apoio prometido a Tiblissi para a reconstrução de infra-estruturas civis e muito menos ajuda militar para concluir que, de facto, a entrada georgiana na aliança foi posta de lado.

   Uma eventual adesão da Geórgia foi sempre contestada devido aos contenciosos fronteiriços entre Tiblissi e Moscovo. O aventureirismo do presidente Mikhail Saakashvili persuadiu a maioria dos membros da NATO de que os riscos não compensavam o apoio ao radicalismo georgiano.

   No caso da Ucrânia a instabilidade política e ausência de consenso interno sobre a adesão à NATO justificavam, por sua vez, todas as objecções a uma expansão da aliança a Leste, aliás sem fito estratégico visível.

   Moscovo conseguiu, assim, o primeiro dos seus desideratos e a questão da instalação de sistemas de radar e anti-mísseis norte-americanos na República Checa e na Polónia, de dúbia utilidade, tornou-se uma questão secundária que serve apenas a Moscovo para negociar concessões no quadro da sua inviável proposta de segurança pan-europeia.

                                 Desunião europeia, ganho russo

    Sobra a Iniciativa de Parceria a Leste da União Europeia, envolvendo a Ucrânia, Moldova, Geórgia, Arménia, Azerbeijão e, eventualmente, a Bielorrússia, que almeja oferecer, em prazo indefinido, termos comerciais favoráveis, isenção de vistos e cooperação energética a estes estados que não reúnem condições nem económicas, nem políticas para negociarem a entrada no bloco europeu.

   A inexistência de uma estratégia comum dos 27 em matéria energética dificulta, ainda mais, a concretização de projectos que estimulem as economias dos estados incluídos na Parceira a emanciparem-se da área de influência da Rússia.

   A Alemanha vetou a concessão de financiamentos da União Europeia para o gasoduto Nabucco, apesar da Comissão considerá-lo de interesse estratégico para diversificar os fornecimentos através do acesso ao Mar Cáspio, e a concorrência entre os gasodutos Nord Stream, no Báltico e de interesse especial para Berlim, e South Stream no Mar Negro, com patrocínio russo e da Itália, garantem a Moscovo o domínio incontestado nos abastecimentos.

    O comportamento errático dos políticos ucranianos confirma, por seu turno, os limites de cooperação com estados que alimentam contenciosos potencialmente explosivos com a Rússia.

   Moscovo conseguiu, com o beneplácito de Washington, ver reconhecida na prática a sua área de influência no Leste europeu e no Cáucaso, vê travada a expansão da NATO e confirma a preponderância nas importações europeias de gás natural.


                            Trunfos fortes na Ásia Central

   Na Ásia Central, o Kremlin, depois de levar o Quirguistão a negar a utilização da base aérea de Manas pelos Estados Unidos e os seus aliados, ofereceu os bons serviços da rede ferroviária russa para canalizar, via Cazaquistão, abastecimentos da NATO enviados da Letónia para as forças no Afeganistão.

   O próximo passo russo é fazer valer a sua influência no Tadjiquistão onde a base aérea indiana de Farkhor, a única estrutura militar que Nova Deli tem no estrangeiro, ganhou importância acrescida para o esforço de guerra no Afeganistão, e facilitar as negociações entre Dushambé e Washington para o trânsito de material não letal destinado à NATO.

   Apesar de a Rússia ter de contrabalançar os seus interesses na Ásia Central com os da China e da Índia, a crescente crise do Paquistão obriga os Estados Unidos a procurar alternativas e apoios na região e Moscovo passa a contar com mais trunfos negociais.

   A tentativa de Obama de ganhar o apoio de Teerão para o esforço de guerra no Afeganistão, a troco da participação directa dos Estados Unidos nas negociações sobre o dossiê nuclear iraniano, passa também por Moscovo.

   A Rússia, tal como o Irão, nada tem a ganhar com uma derrota da NATO no Afeganistão, mas ver os Estados Unidos em apuros numa guerra sem saída é um magnífico cenário negocial.

   A administração Obama solicitou ao Kremlin que suspendesse o contrato com Teerão para envio de mísseis anti-aéreos de longo alcance S-300, depois de há dois anos ter fornecido mísseis anti-aéreos Tor-M1 de curto alcance, mas a Rússia parece ter concluído que, salvo um impraticável ataque militar norte-americano, o programa nuclear militar iraniano é irreversível.

   A cooperação russo-iraniana no nuclear civil, patente na central de Busher, fornece, aliás, a Moscovo argumentos para o seu plano de desnuclearização militar do Médio Oriente que servirá para conter a proliferação após a mais que provável conclusão com êxito do projecto armamentista de Teerão.

   A Rússia defende a cooperação internacional em programas nucleares civis através do fornecimento de urânio não enriquecido a países que o requeiram para fins pacíficos sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica.

   O acordo nuclear entre os Estados Unidos e a Índia, apesar de Nova Deli não ter assinado os Tratados de Interdição de Testes Nucleares e de Não-Proliferação, retirou boa parte dos argumentos de Washington para se opor às iniciativas da Rússia.

                           Concessões nos armamentos estratégicos
 
   Os Estados Unidos e a Rússia estão em consonância para a assinatura de um novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas que substitua o acordo de 1991, que expira em Dezembro, mas Moscovo tem duas exigências que Washington terá de acomodar.

   O Kremlin pretende que o novo acordo não se limite à redução das ogivas nucleares, mas contemple, também, meios de transporte, designadamente mísseis intercontinentais balísticos, além de propor a interdição de estacionamento de armas ofensivas estratégicas fora dos territórios nacionais da Rússia e dos Estados Unidos.

   Para Washington mais concessões estão na calha quanto à exigência russa de limitar ou suspender o desenvolvimento unilateral de sistemas de mísseis anti-balísticos e face à proposta conjunta de Moscovo e Pequim para limitar ou interditar a utilização de armas espaciais.

  Obama vai pagar uma pesada factura para relançar as relações com a Rússia.

Jornal de Negócios
11 Março 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=358342


Um imbróglio separatista no Cáucaso

 
 
  Uma aparente excentricidade de vasto alcance político é definição que melhor abarca o referendo em que a pequeníssima república da Ossétia do Sul confirmou a sua reivindicação de independência face à Geórgia.

  A maioria dos 55 mil residentes ossetas pronunciou-se pela independência, tal como em 1992, enquanto os cerca de 15 mil georgianos que habitam a região ignoraram a consulta e organizaram uma votação paralela em defesa da sua autonomia e, por extensão, da preservação dos vínculos administrativos com Tbilissi.

   O objectivo do exercício, condenado pela Geórgia, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, o Conselho da Europa e os Estados Unidos, é, como confessa o presidente Edvard Kokoity a quem se desloca a Tskhinvali, a delapidada capital da região, criar condições para que pelo menos Moscovo venha a reconhecer a independência do território ou a incorporá-lo, eventualmente, na república russa da Ossétia do Norte.

   O bizarro referendo osseta segue-se a idêntica iniciativa da Abkházia (250 mil habitantes) que a 18 de Outubro aprovou um pedido para que o parlamento de Moscovo "legitime a independência", aprovada num referendo ignorado pela comunidade internacional em 1999.

   A reintegração da Ossétia do Sul, separada de facto de Tbilissi desde 1992, e da Abkházia, que em 1993 seguiu idêntico destino também sob a protecção de Moscovo, é um dos objectivos prosseguidos por Mikhail Saakashvili desde a sua eleição em 2004 e motivo de confronto com a Rússia.

   Enquanto não for decidido o destino das duas repúblicas e dos 250 mil georgianos desalojados após os confrontos militares de 1992-1993 na Abkházia está fora de questão que a NATO possa vir a aprovar um pedido de adesão da Geórgia o que explica o apoio de Moscovo aos separatistas de Tskhinvali e Sukhumi.

Braço-de-ferro entre russos e georgianos

   O risco de novos confrontos militares à semelhança dos ocorridos no início dos anos 90 durante a conturbada implosão da União Soviética aumenta à medida que se agrava o conflito entre a Rússia e a Geórgia, apesar dos recentes sinais de apaziguamento por parte de Tbilissi entre os quais se contam o afastamento do irredutível anti-russo Irakli Okruashvili da pasta da Defesa e o abandono das ameaças de veto à adesão da Rússia à Organização Mundial de Comércio.

   Moscovo tem vindo a impor embargos sucessivos às exportações georgianos – vinhos, águas minerais, frutas –, suspendeu as ligações postais, marítimas, aéreas e terrestres, além de desencadear uma campanha sistemática de hostilização dos cerca de 500 mil georgianos residentes na Federação Russa.

   A ameaça mais recente cifra-se no anunciado aumento do preço do gás natural fornecido pela Gazprom. O monopólio russo pretende aumentar no próximo ano a factura do gás natural comprado por Tbilissi de 110 dólares para 230 dólares por mil metros cúbicos.

   Tal como sucedeu no Inverno passado com a Ucrânia, a Gazprom propõe soluções de compromisso na condição da Geórgia ceder o controlo de parte da sua infra-estrutura de gasodutos à imagem do acordo que a empresa russa acaba de celebrar com a Arménia.

   A demonstrar os contornos políticos da revisão de preços a Gazprom iniciou no final de Outubro a construção de um gasoduto de apenas 163 quilómetros de extensão para a partir da Ossétia do Norte fornecer combustível a preços subsidiados ao território da Ossétia do Sul, tal como sucede na república da Transdniestria onde os abastecimentos de gás russo ajudam a sustentar as aspirações separatistas frente à Moldova.

  A reiterada chantagem energética sustenta, por sinal, as objecções dos governos, com Varsóvia à cabeça, que pretendem, contra a opinião da maioria dos parceiros comunitários, subordinar a revisão da "Parceira Estratégica entre a Rússia e a União Europeia" ao prévio respeito pelo "Acordo sobre a Carta de Energia", assinado em Lisboa em 1994, que contempla a abertura da infra-estrutura russa de gasodutos e oleodutos russa a empresas estrangeiras e o fim da posição monopolista da Gazprom.

O fim dos conflitos congelados

   A estratégia russa de apoio às reivindicações separatistas na Moldova e na Geórgia, bem como o apoio à Arménia no conflito com o Arzebaijão sobre o enclave de Nagorno-Karbakh (situado em território azeri e dominado pelos arménios desde 1994) cumpre, assim, os objectivos tradicionais de controlo das redes de oleodutos e gasodutos e de oposição a eventuais fugas da órbita de influência política de Moscovo. No mínimo deve considerar-se até agora como uma estratégia muito bem sucedida.

   A própria expressão consagrada pela linguagem diplomática que qualifica como "conflitos congelados" confrontos de teor distinto (população russófona versus estado moldovo na Transniestria, maiorias regionais étnicas contra estado georgiano na Abkházia e na Ossétia do Sul e guerras para imposição de territórios nacionais contínuos e etnicamente homogéneos entre os estados arménio e azeri) é sinal do êxito da estratégia de Moscovo.

   Vladimir Putin criou no entanto uma situação paradoxal ao considerar que as negociações em curso em Viena sobre o estatuto do Kosovo deverão conduzir a um compromisso que implique o respeito por "princípios únicos e universais" na resolução de conflitos étnico-nacionais.

   O fito de Putin ao fazer estas declarações em Fevereiro era, aparentemente, continuar a garantir a conivência ocidental face ao apoio de Moscovo aos separatistas na Moldova e na Geórgia e, subsidiariamente, pressionar os governos da Estónia, Letónia e Lituânia quanto ao estatuto das minorias russas, enquanto excluía a Tchetchénia, alegando tratar-se de um caso de combate ao banditismo e ao terrorismo islamita.

   O plano proposto pelas potências ocidentais e a Rússia para a província albanesa obrigará a criar instituições de segurança e judiciais sob supervisão externa, interdita a possibilidade de eventual confederação, federação ou integração com a Albânia e prevê a manutenção da integridade territorial do Kosovo de forma a obstar a um efeito dominó de partilha étnica na Macedónia e na Bósnia-Herzegovina.

  No entanto, após um período de "soberania limitada" que dê provas de respeito pelos direitos da minoria sérvia, o Kosovo poderá aceder à independência e, em última análise, é este o argumento que alguns sectores radicais entre os separatistas abkházes e ossetas começam a brandir e a ameaça que uma larga facção dos nacionalistas georgianos mais teme.

  O equívoco apoio de Moscovo a movimentos separatistas na Moldova e na Geórgia que reivindicam a independência em associação com a Rússia de territórios e populações cujo controlo é irrelevante de um ponto de vista económico e militar arrisca-se a agudizar os conflitos locais e inquina as relações com os estados ocidentais e os países vizinhos.

  A fase bem sucedida da estratégia de "congelamento dos conflitos" na Moldova e na Geórgia pode assim estar perto de chegar ao fim sem que a Rússia tenha conseguido definir uma política de boa vizinhança com as ex-repúblicas soviéticas que, significativamente, Moscovo denomina como "estrangeiro próximo".



Jornal de Negócios
15 Novembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=285823