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domingo, 2 de setembro de 2012

Ganhar uma guerra e perder-se na paz




   A vitória militar do governo de Colombo sobre os guerrilheiros Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE) levanta questões delicadas quanto às políticas a seguir para promover a efectiva pacificação do Sri Lanka e a compatibilização dos divergentes interesses das potências regionais e internacionais.

   No imediato, a União Europeia, os Estados Unidos e o Canadá pressionam o presidente Mahinda Rajapaksa a tomar medidas de auxílio aos mais de 250 mil refugiados causados pela derradeira fase dos combates no Norte do país e a pôr termo a abusos do exército e das forças de segurança contra civis.

   Bloquear um empréstimo de 1,9 mil milhões de dólares do FMI para obviar à escassez de divisas (as reservas de Colombo cobrem apenas seis semanas de importações) e a renegociação de direitos preferenciais de exportação por parte da União Europeia não são opções credíveis e arriscam diminuir ainda mais a capacidade de influência dos países ocidentais.

   As críticas à forma brutal como as forças armadas do Sri Lanka conduziram a fase final da guerra, em paralelo à tradicional utilização de civis como escudos de protecção pelos Tigres, não tiveram efeitos práticos a partir do momento em que a Índia deu o seu apoio tácito a uma investida contra a guerrilha e a China assumiu decisivamente o apoio ao governo de Rajapaksa.

                                       Pressões delicadas

   A Índia pressiona agora Colombo a concretizar o acordo firmado em 1987 entre o presidente Junius Jaywardene e o primeiro-ministro Rajiv Gandhi para reconhecimento político dos direitos das minorias tâmil (12 % dos 20 milhões de habitantes), muçulmana (8 %) e burgher (os cerca de 40 mil mestiços católicos de origem portuguesa, holandesa e britânica) e a revisão constitucional desse ano que garantiria maior autonomia às províncias do Leste e do Norte.

   Os mais de 60 milhões de tâmil do estado indiano de Tamil Nadu são particularmente susceptíveis à sorte dos seus congéneres no Sri Lanka, mas os principais partidos políticos locais não põem em causa a opção dos sucessivos governos em Nova Deli que depois de apoiarem os separatistas tâmil na década de setenta passaram a partir dos anos oitenta a tentar mediar o conflito, fomentando uma solução federal.

   O assassínio de Rajiv Gandhi em 1991 por uma terrorista suicida dos Tigres, um ano depois da retirada do contingente militar indiano que acabara envolvido em combates com os separatistas, levou Nova Deli a assumir uma atitude mais distanciada do conflito e a defender que só uma negociação política, após uma decisiva vitória militar, permitirá criar condições para levar a população tâmil a negar apoio a movimentos subversivos à semelhança do que aconteceu com os sikhs no Punjab nos anos 90.

   A China, o maior fornecedor militar e principal esteio diplomático e financeiro do Sri Lanka, junta-se à Líbia e ao Irão para apoiar economicamente Colombo e prepara-se para reforçar a influência na ilha que lhe permitirá alargar a sua margem de manobra estratégica no Oceano Índico.

                                      A arrogância da vitória

   A relutância da maioria cingalesa e em particular do clero budista em apoiar eventuais concessões políticas aos tâmil hindus cria, por seu turno, uma situação difícil ao presidente Rajapaksa que no final do ano se candidatará a um segundo mandato.

   Vítimas do chauvinismo virulento do nacionalismo cingalês, que desde a independência em 1948 perseguiu a minoria tida por favorecida durante a colonização britânica, cerca de metade dos tâmil, maioritários no Norte e Leste do velho Ceilão, habitam outras regiões do país onde a intolerância étnico-religiosa está à flor da pele.

   Os Tigres, sob a chefia de Vellupillai Prabhakaran, tinham aniquilado todos os movimentos rivais e imposto uma ditadura racista sem quartel nas áreas sob seu controlo até a ofensiva governamental iniciada em 2006 os condenar à derrota.

   A partir da segunda metade de 2007 os Tigres, que chegaram a controlar um terço da ilha, viram-se acantonados em posições estáticas defensivas e começaram a perder território, mas, apesar de batidos como força militar após 26 anos de guerra que provocaram mais de 70 mil mortos e brutalizaram o Sri Lanka, mantêm uma rede invulgar de apoio e financiamento entre a diáspora tâmil.

   A extorsão e contrabando são parte integrante dos esquemas de financiamento do LTTE e estimativas do "Jane's Intelligence Report" indicavam que em 2008 os Tigres conseguiam, apesar de proscritos como organização terrorista em 32 estados, angariar cerca de 200 milhões de euros por ano.

                                     A cartada terrorista

   O tesouro de guerra dos Tigres, apenas superado pelas receitas da cocaína das também exangues Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (FARC), é assegurado junto da emigração tâmil (cerca de um quarto da comunidade que se expatriou para o Canadá, Índia, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Suíça e Austrália) e será mais do suficiente para sustentar uma campanha terrorista.

   A tradição terrorista do LTTE, com fortíssima componente suicidária feminina e masculina, permitirá aos separatistas manter vivo o conflito e se o governo de Rajapaska alimentar, conforme fez até agora, o triunfalismo dos nacionalistas cingaleses e não souber neutralizar politicamente as consequências dos previsíveis atentados, a longa guerra do Sri Lanka continuará a deixar um rasto de mortes.

   Num cenário em que só a China se pode arrogar como aliado indefectível de Colombo e em que o nacionalismo cingalês clama vitória qualquer pressão precipitada por parte de indianos, norte-americanos, canadianos ou europeus, mesmo bem-intencionadas sugestões dos esforçados mediadores noruegueses que em 2002 conseguiram negociar uma trégua, revelar-se-á contraproducente.

   Impor uma vez mais uma política racista, frustrando e desesperando a minoria tâmil, seria, por sua vez, a pior atitude possível por parte dos políticos e religiosos cingaleses, mas na história do Sri Lanka já muitas vitórias se transmutaram em guerras fatais.


Jornal de Negócios
20 Maio 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=368802

domingo, 19 de agosto de 2012

A lenta ascensão da Índia




   A viagem à Índia de Cavaco Silva e de nutrida delegação empresarial vale bem a pena, sobretudo este ano, depois de Lisboa e Nova Delhi terem perdido tanto tempo em declarações de intenções falhadas e contenciosos que nem pouparam as comemorações da chegada de Vasco da Gama a Calecute.
  
   O tempo é propício depois doutro ano se ter passado em que a Índia acusou Islamabade de cumplicidade em actos terroristas, reavivando o risco de nova guerra com o Paquistão, tal como em 1999 e em 2001, no que seria o quarto conflito militar desde a Partilha do Raj em 1947.

   Os ventos correm de feição pois 2006 foi, também, o ano em que a Índia brilhou no Fórum de Davos, reforçou as relações económicas com o Irão, viu com agrado o triunfo de expatriados como Lakshmi Mittal ainda que bem mais importantes tenham sido os êxitos de empresas como a Tata Motors e a Infosys Technologies.

   Pequim e Nova Delhi relançaram, igualmente, no preciso ano em que os Estados Unidos reconhecerem o estatuto de potência militar nuclear da Índia, a cooperação económica e resolveram os principais diferendos fronteiriços, que provocaram uma guerra em 1962.

   A coligação liderada por Manmohan Singh chega assim a 2007 com uma considerável rede internacional de protecção – apesar dos imprevisíveis confrontos com o Paquistão, a crise iraniana, a destabilização crescente do Bangladesh e o recrudescer da guerra civil no Sri Lanka – que oferece boas perspectivas para sustentar o boom económico que desde o início da liberalização em 1991 tem possibilitado à Índia um crescimento anual na ordem dos sete por cento.

                              O crescimento pelo lado de dentro

   O modelo indiano de desenvolvimento prosseguido na última década e meia tem assentado essencialmente na mobilização do capital privado interno tanto mais que o investimento directo estrangeiro representa menos de 1 por cento do Produto Interno Bruto, que está prestes a atingir os 930 mil milhões de dólares, sendo inclusivamente ultrapassado pelas remessas dos emigrantes.   

   A percentagem das trocas comerciais com o exterior já superou os 30 por cento do PIB, com as importações a ultrapassarem as exportações, mas o consumo interno é o motor da economia, equivalendo a mais de 60 por cento de toda a riqueza gerada no país.

   A fraca criação de emprego, na ordem de um por cento ao ano, a par dos persistentes défices orçamentais, é a maior pecha do desenvolvimento indiano e o tão dinâmico sector das indústrias de serviços, cujas exportações representam mais de 30 por cento das vendas ao exterior (metade por via de produção de software), absorve no subsector das tecnologias de informação apenas 1,3 milhões dos 400 milhões de almas que constituem a força laboral do país. 

   Apesar de 70 por cento dos 1,13 mil milhões de indianos residirem em áreas rurais o contributo do sector agrícola para o PIB queda-se pelos 22 por cento e a indústria (27 por cento do PIB) revela-se incapaz de absorver mão-de-obra excedentária.

   Uma política industrial ainda orientada para a promoção não-concorrencial de pequenas e médias empresas nacionais e leis laborais de protecção de emprego dos dez por cento de trabalhadores cobertos pelo sistema herdado dos anos 50 excluem do mercado de trabalho entre três a cinco por cento da população.

   Ainda que os padrões de desigualdade social na Índia sejam inferiores aos registados na China ou no Brasil, o baixíssimo rendimento per capita anual de 830 dólares e a subsistência de 380 milhões de pessoas com menos de um dólar disponível por dia condenam o país a um longo e penoso calvário de miséria.

   Os cerca de 250 milhões de indianos tidos como pertencentes às classes médias serão factor de inovação e promotores de novos padrões de consumo, mas a outra Índia é um travão ao desenvolvimento.

   Um sistema partidário em que os dois grandes partidos – Congresso e Bharatiya Janata – estão condenados a coligações pulverizadas pelos interesses de forças regionais, uma burocracia omnipresente, infra-estruturas e serviços básicos inadequados são outras pechas da sociedade indiana que limitam sensivelmente as aspirações das elites de Nova Deli, Mumbai ou Chennai.

                                 A democracia e outras vantagens

   A Índia conta, contudo, com vantagens de maior que eventualmente lhe podem vir a garantir um futuro bem mais auspicioso do que o reservado ao único país que se lhe pode comparar em peso histórico e demográfico.

   Em primeiro lugar, a Índia apresenta uma dinâmica demográfica mais favorável.

    Em 2020, a idade média será de 29 anos, contra 37 anos na China e 45 anos na Europa Ocidental para termo de comparação.

   A Índia, que ultrapassará antes de meados do século a massa humana da China, não se confrontará assim com o problema de sustentabilidade de uma população envelhecida, apesar de ter de resolver rapidamente a crescente quebra no rácio mulheres-homens provocada pelo infanticídio e aborto de bebés do sexo feminino.

   Em segundo lugar, o descalabro ambiental que avassala a China está longe de se fazer sentir com semelhante acuidade na Índia (devido em parte ao menor crescimento industrial) que conta, ainda, com padrões de povoamento mais equilibrados.

   Em terceiro lugar, a prevalência do inglês como língua veicular das elites e dos meios de negócios facilita grandemente a integração económica global da Índia, apesar da mediocridade do sistema de ensino público.   

   Finalmente, uma imprensa livre, tribunais independentes e um sistema democrático que ultrapassou o sobressalto da "Emergência" imposta por Indira Ghandi em 1975 e continua a resistir a confrontos religiosos, guerrilhas maoístas e separatistas, banditismo e níveis de corrupção inauditos em estados como Bihar ou conflitos de castas virulentos, representam, por si só, por maiores que sejam as suas insuficiências, um valor inestimável para o desenvolvimento da Índia.

Jornal de Negócios
10 Janeiro 2007

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A China ao longe - Jialong e Zheng He





   O Jialong tem capacidade para mergulhar até 7000 metros de profundidade, batendo assim o submersível japonês Shinkai 6500 que conforme o nome indica consegue chegar aos 6500 metros de profundidade e é o modelo mais avançado em todo o mundo, superando os rivais russo, norte-americanos e franceses.

   A exemplo dos russos, que em Agosto de 2007 colocaram uma bandeira no leito de uma zona contestada do Oceano Ártico, também os chineses anunciaram ter mergulhado a 3759 metros para cravar a sua bandeira nas profundezas do Mar do Sul da China.

   O submersível Jiaolong, em honra do mítico dragão das águas, com três técnicos a bordo do Centro de Pesquisa Científica de Construção Naval e apoio logístico da Marinha chinesa, efectou o seu mergulho em Julho perto de águas territoriais das Filipinas, mas o êxito do teste só foi divulgado no final de Agosto.

   O Jialong tem capacidade para mergulhar até 7000 metros de profundidade, batendo assim o submersível japonês Shinkai 6500 que conforme o nome indica consegue chegar aos 6500 metros de profundidade e é o modelo mais avançado em todo o mundo, superando os rivais russo, norte-americanos e franceses, asseverou a maior parte da imprensa.

   As revistas de oceonagrafia e os institutos especializados rectificaram de imediato estes dados sem que lhes tenha sido prestada a atenção devida, mas já lá vamos.

   Os testes do Jialong começaram o ano passado e em 2011 o submersível deverá atingir os 5000 metros de profundidade antes de em 2012 testar a sua capacidade máxima.

   Ao chegar às páginas de "The New York Times", precisamente no fatídico dia 11 de Setembro, quase duas semanas depois de ter sido notícia em Hong Kong e nos órgãos oficiais chineses, a novidade sobre os testes do Jialong suscitou de imediato comentários contraditórios sobre as reivindicações territoriais de Pequim no Mar do Sul da China e o crescente poderio da marinha de guerra chinesa.

   Aos alertas sobre as ambições da China para explorar riquezas minerais nos leitos dos oceanos, além do alarme sobre o risco de Pequim poder vir a obter informação classificada espiando cabos submarinos ou recuperando material militar de outros países, juntaram-se as lamentações sobre a perda de liderança dos Estados Unidos na investigação de ponta.

   As litanias dos pessimistas, deprimidos pela forma como os Estados Unidos cedem passo à China na investigação de energias alternativas, designadamente painéis solares, ignorou mesmo os feitos tecnológicos de uma das principais instituições de estudos oceanográficos do país.

  O "Woods Hole Institute" de Massachusetts desenvolveu um submersível não-tripulado para exploração de profundidades além dos 4000 metros.

   O Nereus, neste caso baptizado em honra do senhor da águas do Mar Egeu da mitologia grega, em Maio do ano passado mergulhou a 10 092 metros na Fossa da Marianas e, ao custo de 8 milhões de dólares por unidade, não presentemente rival.

   Afinal, mesmo nas profundezas dos oceanos, nem tudo está perdido para os Estados Unidos.

 



                                           AS ÁGUAS DO ÍNDICO

   Em Nova Delhi agravou-se, entretanto, a preocupação com mais um desaire na disputa estratégia com Pequim.

   No contencioso contam-se disputas fronteiriças com a China nos contrafortes dos Himalaias, o apoio de Pequim aos projectos nucleares civis do Paquistão e o risco de agravamento de tensões quando se iniciar o processo de reincarnação do Dalai Lama, mas para a Índia o mais assustador nos últimos anos tem sido a crescente presença chinesa no Oceano Índico.

   Em Julho a Índia recebeu o líder da junta militar da Birmânia, ignorou protestos contra o regime ditatorial do general Than Shwe, assinou acordos de cooperação económica e protocolos de segurança contra movimentos separatistas dos estados de Nagaland, Manipur e Mizoran, além de obter novas promessas de acesso ao gás natural que irá ser extraído no Golfo de Bengala.

   Pequim facturou, no entanto, muito mais ao receber este mês o general Shwe.

   Tal como a Índia a China tomou nota da convocação de eleições para Novembro pela junta e não contestou os planos dos militares para se perpetuarem no poder.

   Para trás ficaram também os desentendimentos que resultaram da fuga para a China de mais de 30 mil refugiados na sequência de uma ofensiva militar em Agosto de 2009 contra guerrilheiros de etnia Wa, Kachin, Shan e Kokang.

   Pequim comprometeu-se a controlar os separatistas dispersos ao longo da fronteira com Yunnan que combatem os militares de Naypyidaw.

   Garantida a necessária estabilidade fronteiriça pode continuar a avançar a construção de oleodutos e gasodutos do porto de Kyaukpru até à província de Yunan.

   O volume previsto de compras chinesas através destes oleodutos e gasodutos está estimado em 22 milhões de toneladas de crude e 12 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano.

   De resto empresas chinesas já investiram este ano na Birmânia mais de 8 mil milhões dólares em projectos ligados sobretudo ao sector da energia.
Em matéria de acesso aos recursos naturais da Birmânia a China bate por completo a Índia.

   O pior para os indianos é, contudo, a cooperação naval entre Pequim e a junta militar.

   Dois navios de guerra chineses aportaram este mês, pela primeira vez, num porto da Birmânia, perto de Rangoon, na viagem de retorno de missões anti-pirataria ao largo da Somália.

   A China coopera na construção de diversos portos de águas profundas na Birmânia e, face às apreensões de Nova Delhi, argumenta pretender apenas vir a utilizar essas instalações para fins comerciais.

   Gás natural ou petróleo importados do Golfo Pérsico ou da África Ocidental poderão ser canalizados através dos portos birmaneses para os oleodutos e gasodutos ligados a Yunnan, permitindo encurtar as viagens entre seis a sete dias ao eliminarem a necessidade de utilizar a rota dos Estreitos de Malaca.

   Para a Índia o que está em curso é a concretização de estratégia de presença naval chinesa no Índico que vai muito além da vertente comercial.

   Pequim não só investe na construção ou requalificação de portos na Birmânia, mas também no Bangladesh, em Chittagong, no Paquistão, em Gwadar, e este ano o governo do Sri Lanka acordou com Pequim a reconstrução do porto de Hambatota.

   A Índia desespera e a China evoca o grande almirante Zheng He que no início do século XV chegou a Ormuz e Melinde.


HOJEMACAU
16 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=2521