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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A beatificação de João Paulo II




   O Vaticano prepara-se para um grande evento neste ano de 2011: a beatificação de João Paulo II.

   A Igreja Católica está prestes a anunciar o reconhecimento de um milagre de cura de uma monja francesa por parte do antigo Papa.

   A cerimónia de beatificação, celebrando uma vida de santidade segundo os procedimentos da igreja católica, terá lugar no Vaticano.

   Uma data provável para o evento é o domingo de 16 de Outubro, altura em que se assinala a eleição de Karol Woytila como Papa em 1978.

  Depois do reconhecimento de um segundo milagre João Paulo II passará a ser venerado como santo. 

  A devoção da maioria dos crentes católicos deverá, no entanto, assumir desde logo o culto público generalizado de João Paulo II como santo.

  A beatificação e posterior canonização de João Paulo II nunca esteve em dúvida desde a morte deste Papa particularmente caristámico e popular em Abril de 2005.

  Nunca a Igreja Católica puderia prescindir do culto a João Paulo II, mas há aqui uma amarga ironia. 

  O seu sucessor Bento XVI tem tentado liderar o processo de limpar a Igreja de alguns dos piores pecados que se agravaram durante o pontificado de João Paulo II.

  Calhou a Bento XVI enfrentar os grandes escândalos de abuso sexual que revelaram o modo como João Paulo II e a cúria romana ignoraram sistematicamente as denúncias contra clérigos católicos.

 Os abusos na Legião de Cristo do mexicano Marcial Maciel, que Bento XVI acabou por afastar do sacerdócio, são um dos casos exemplares em que um preferido de João Paulo II terminou na ignomínia absoluta.

  A beatificação de João Paulo II vai ser pois um momento de controvérsia dentro da Igreja Católica.

  Estará em causa a forma como João Paulo II ignorou os abusos sexuais; serão discutidos o centralismo e conservadorismo do papa polaco e suas ideias sobre diálogo ecuménico. 

  Fora da Igreja Católica muitos retomarão as críticas que foram endereçadas contra João Paulo II durante o pontificado sobretudo em matéria de moral sexual e inevitavelmente os escândalos de abusos sexuais estarão na primeira linha.

  Ainda assim, isso pouco importará para a maioria dos crentes: mesmo antes de ser proclamado venerável, a um passo da beatificação, a caminho da celebração como santo, já muito antes de tudo isso, João Paulo II ganhara a devoção de muitos e muitos católicos.      

TSF / O Mundo num Minuto
05 Janeiro 2011

A cerimónia de beatificação teve lugar no Vaticano a 1 de Maio de 2011.
(Nota de Setembro 2012)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quem vai matar o Papa em Istambul?




   Pois será um jornalista ligado ao Opus Dei a mando dum cardeal seguidor de Josemaria Escrivá e da Loja Maçónica P2 na ficção tortuosa do escritor turco de romances policiais Yücel Kaya que não falha em trazer ao enredo radicais islamitas e oficiais de extrema-direita dos serviços secretos turcos apreensivos com a aproximação entre católicos e ortodoxos em terra de Islão.

  A ficção d’"O atentado contra o Papa", com a inevitável aparição no meio da intriga de Mehmet Ali Agca e a interrogação de choque em inglês para subtítulo publicitário, já era um êxito de vendas antes da polémica bizantina, mas com o avolumar da controvérsia tornou-se um omnioso sinal dos tempos.

   As autoridades turcas e o patriarca ecuménico e arcebispo de Constantinopla Bartolomeu I mantêm o convite para a visita do Papa no final de Novembro, por ocasião da festa do apóstolo Santo André, venerado por ortodoxos e católicos, ainda que o ambiente, já inquinado pelo assassinato de um missionário italiano e três ataques a clérigos católicos desde o início do ano, tenha ficado ainda mais pesado depois da controvérsia sobre as alegadas tiradas antimuçulmanas de Joseph Ratzinger.  

   Bento XVI é uma personalidade malquista nos círculos políticos e empresariais turcos pela sua oposição determinada à adesão da Turquia à União Europeia em nome das raízes e essência cristã da Europa.

  A pecha de cruzado que é agora assacada ao Papa vai juntar-se às apreensões generalizadas na Turquia sobre um preconceito anti-islâmico e anti-turco prevalecente nas opiniões públicas e entre os governos da União.

 As decepções nas atribuladas negociações com Bruxelas já se reflectem nas últimas sondagens na Turquia que indicam uma quebra significativa – mas salvaguardando um apoio ainda maioritário – ao projecto de adesão à União Europeia.

  Em véspera da sua primeira visita a um país maioritariamente muçulmano, ainda que justificada pelo diálogo ecuménico com os ortodoxos, o que poderia levar o Papa a proferir um discurso com uma extensa citação que inevitavelmente exacerbaria os ânimos dos crentes muçulmanos?

                                     Uma citação nada inocente

  Um erudito de inteligência superior como é o caso do teólogo Ratzinger não escolheu por acaso a figura trágica de Manuel II, um dos derradeiros imperadores da dinastia dos Paleólogos, para elaborar sobre um dos temas fulcrais da sua doutrina.

  O sultão otomano Bayezid, que o teve como vassalo e refém, entre 1390 e 1391, elogiou em termos célebres o porte imperial do bizantino.

  Muitos em Veneza, Londres e Paris se comiseraram com a longa e infrutífera viagem que o senhor do Império Romano do Oriente encetou a 10 de Dezembro de 1399 em busca de alianças na Cristandade Romana contra os otomanos e ficou para a história a advertência que deixou no leito de morte ao filho João VIII em como seriam vãs as esperanças de qualquer submissão eclesiástica ao papa de Roma a troco de apoio na luta contra os turcos.

   Na agonia dos Paleólogos e na convulsa vida de Manuel II o alívio que deu a Bizâncio a investida das hostes mongóis de Tamerlão contra os inimigos otomanos foi sol de pouca dura que se eclipsou em Maio de 1453 quando o sultão Maomé II conquistou Constantinopla.

   Desses tempos em que o Império era hostilizado a Ocidente e cedia frente aos otomanos ficou célebre a disputa de Manuel II sobre os fundamentos da fé com um imaginário erudito persa em que o bizantino aceita considerar as Leis de Moisés, de Jesus e de Maomé num mesmo plano intemporal e sinóptico.

   É dessa discussão que o teólogo Ratzinger cita a passagem em que o bizantino apostrofa o muçulmano por Maomé ter trazido ao mundo "coisas maléficas e inumanas, como o mandamento de expandir a fé pela espada", ignorando que a violência é "incompatível com a natureza de Deus e da Alma" que se regram pela Razão.

   Na alocução de Bento XVI na sua antiga universidade de Ratisbona esta tirada foi pretexto para expandir, entre outros argumentos, a tese de que o Islão ignora o império da Razão que fundamenta, a contrario, toda a tradição cristã assente no amor de Deus.

    Na linha das suas teses tradicionais, condenando "a ditadura do relativismo" e o cientismo positivista sem sustento ético, Ratzinger concluiu que "uma razão surda ao divino e que relega a religião para o âmbito das subculturas é incapaz de entrar no diálogo das culturas".

   De um discurso sobre o compromisso entre fé e razão, caracterizado por interpretações essencialistas e excessivas omissões históricas em que, nomeadamente, as escolas racionalistas islâmicas foram remetidas à obscuridade, o que ficou para notícia foi precisamente, a condenação pelo bizantino do irremediável irracionalismo do Islão como pretexto de violência.

                            A teologia determina a política

   Esta questão preocupa de há muito Ratzinger que vê o Islão marcado pelo literalismo de uma ideia errada da Palavra Incriada de Deus e pelo anseio totalitário de submeter toda a sociedade a uma lei que ignora as esferas distintas do político e do religioso.
  
  É esta patologia visceral que justifica a violência como acto religioso e que Ratzinger, enquanto teólogo e Papa, traz propositadamente à ribalta. Como a teologia determina a política Bento XVI vê de forma totalmente diferente de João Paulo II o diálogo interreligioso com o Islão. 
 
   Para o Papa o reconhecimento de direitos de liberdade religiosa e proselitismo às minorias cristãs em terras de Islão é matéria fundamental para o diálogo possível, assente na reciprocidade, e centrado, essencialmente, em questões de ordem cultural e direitos legais.

  Estamos muito longe da abrangência em torno da ideia de boa vontade que levou João Paulo II a congregar, em Assis, em Outubro de 1986, representantes de todas as religiões no "Dia mundial de oração pela paz".
 
   Não foi pois falta de tacto diplomático que levou o Papa a citar o bizantino.

   Foi antes um imperativo de contestar legitimidade ao ateísmo, ao cientismo positivista, à religiosidade difusa e filantrópica, antes preferindo Ratzinger uma Igreja minoritária, mas fiel e firme nos seus princípios.
 
   Foi, sobretudo, a intenção de trazer para primeiro plano a legitimidade da Igreja no confronto ideológico em que, tal como no século XIV, uma certa ideia de religião sustentada na Revelação histórica e na razão traça argumentos contra a violência justificada em nome do Islão.
  
   Daí que o Papa lamente e manifeste tristeza pelas reacções a algumas passagens da alocução de Ratisbona, mas de forma alguma dê sinal de abdicar das suas teses fundamentais sobre a natureza do Islão, os pressupostos do diálogo de culturas e da reciprocidade de liberdade religiosa.
Porque para Bento XVI a Igreja é o lugar da fé verdadeira.

  Ser católico é para Bento XVI professar a indissociabilidade entre a fé em Deus e no seu Filho Jesus Cristo feito homem.

  É o Logos, a palavra do início, a razão e o amor criadores, que define a imagem cristã de Deus.

  É esta a fé de Ratzinger, a sua razão de ser, e a matriz que define toda a sua prédica.

  Sempre o disse, sempre o escreveu, sempre o pregou.


Jornal de Negócios
20 Setembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=282433

O pontificado de Bento XVI




  Quanto tempo mais poderá durar o pontificado de Bento XVI?

  Joseph Ratzinger foi precisamente o primeiro pontífice a assumir publicamente que não hesitaria em resignar.

  Renunciaria no caso de sentir não ter condições fisícas, psiquícas ou espirituais para desempenhar as suas obrigações.
  
   Renúncia de um papa só por duas vezes aconteceu; a última há seiscentos anos por Gregório XII nas querelas do Grande Cisma do Ocidente.
 
  João Paulo II, antecessor de Bento XVI, fez questão de carregar a sua cruz até ao fim numa agonia que foi testemunhada por todo o mundo.
 
  Mas o pontífice alemão que hoje faz 85 anos é bem diferente na sua abordagem e bem menos emotivo que o papa polaco.

  Os ventos não lhe foram favoráveis.

   Desde a eleição em 2005 tem tentado impor a sua ortodoxia, mas foi atingido em cheio pelos pecados mortais da igreja.

   Não conseguiu dar uma resposta pública convicente, nem impor punições exemplares aos clérigos responsáveis por milhares de crimes de pedófila que justamente abomina.
  
   Por outro lado, Bento XVI pouco dado às manifestações ecuménicas efusivas de João Paulo II que considerava falhas de substância doutrinal cometeu erros de palmatória nas relações com muçulmanos e judeus que inquinaram o chamado diálogo das religiões.

  A abordagem altamente culta e racionalista de temas teológicos, uma longa vida de intervenção sobre questões de valores, deixam marcas nos debates intelectuais, mas dizem pouco aos crentes.
  
   Na Europa e na América do Norte a influência da igreja é cada vez menor e a Ásia não é o continente de eleição do catolicismo.

   Pela América Latina o catolicismo continua a ceder terreno às correntes do cristianismo evangélico.

  Em África, o outro continente onde a igreja de Bento XVI ainda cresce, certas atitudes conservadoras do clero que agradam ao Vaticano vão a par de práticas muito heterodoxas.      
 
  Contudo, não virá nem de África, nem das Américas o sucessor de Bento XVI. Será quase por certo italiano, pois a tal conduzem os equilíbrios no colégio cardinalício.
 
  Bento XVI é já um dos papas mais velhos da longa história cristã.

  É respeitado, mas está longe de despertar paixões.

  E as paixões são do que mais importa em matéria de fé.

O Mundo num Minuto / TSF

18 Abril 2012