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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O yuan aos milhões perto de si

A China vai vender pela primeira vez no mercado de Hong Kong obrigações do tesouro em mais um passo para a convertibilidade e internacionalização do yuan, que vai fazendo o seu caminho à custa do dólar.

A oferta de obrigações, no montante de 6 mil milhões de yuans (879 milhões de dólares), a colocar a 28 de Setembro para compra por instituições e particulares, apesar de pouco representar num total de 950 mil milhões de yuans (139 mil milhões de dólares) a emitir por Pequim este ano, é um meio essencial para a criação de produtos de investimento na moeda chinesa em Hong Kong.

O plano para transformar a antiga colónia britânica no principal centro "off shore" para a moeda chinesa começou a tomar forma há dois anos quando cinco bancos estatais foram autorizados a emitir obrigações em yuans no mercado de Hong Kong.

Em Julho, empresas de Xangai e da província de Guangdong obtiveram, por sua vez, luz verde para realizar transacções comerciais em yuans com as Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau e os dez estados da Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Internacionalizar o yuan
Pequim está a negociar com Brasília um acordo para impulsionar o comércio bilateral assente nas moedas nacionais, à semelhança do programa já estabelecido com a Argentina, e efectuou empréstimos em yuans à Indonésia, Malásia e Coreia do Sul.

A estratégia de internacionalização do yuan passou, também, pela concretização na semana passada da subscrição de 32 mil milhões de Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI (equivalentes a 50 mil milhões de dólares), no âmbito do acordo do G20 de Abril para duplicação das reservas da instituição para 500 mil milhões de dólares, com os contributos da União Europeia e dos Estados Unidos e, eventualmente, do Brasil e da Rússia.

Pequim recorreu ao yuan para o aumento de capital do FMI, o que permitirá, nomeadamente, a países que obtenham empréstimos da instituição utilizarem a moeda chinesa para transacções comerciais com a China.

O Banco da China Lda., o terceiro maior do país, anunciava, por seu turno, no início deste mês ter recebido autorização das autoridades suíças para a sua unidade de banca privada, criada em Novembro em Genebra, gerir fundos de investimento em yuans, a par doutras divisas.

Menos dólares
Dos Estados Unidos chegavam em paralelo notícias de que o défice orçamental ultrapassou o trilião de dólares, cifrando-se em 1,27 triliões, a dois meses do termo do ano fiscal (30 de Setembro), enquanto o défice comercial continua a alimentar uma balança de pagamentos negativa, que obriga a injecções de capital estrangeiro na ordem dos mil milhões de dólares por dia para sustentar o valor da divisa norte-americana.

As cautelas de Pequim face aos riscos de inflação nos Estados Unidos e à depreciação do dólar levaram a China a reduzir este ano a exposição aos títulos de tesouro de Washington, mas ainda assim cerca de 60% dos 2.130 mil milhões de dólares das reservas chinesas em divisas é em moeda norte-americana.

A convertibilidade plena do yuan ainda está longe de se tornar uma realidade, mas os esforços de Pequim para internacionalizar a sua moeda seguem um curso bem definido.

As preocupações com a estabilidade do dólar obrigam a China a investir no aumento do papel do FMI como financiador internacional, reforçando a importância dos DES usados regular as transacções entre os 185 estados membros, ao mesmo tempo que promove o recurso a outras divisas, a começar pelo yuan, para reduzir o peso do dólar como moeda de reserva internacional.

Passo a passo, aguardando pela revisão dos direitos de voto no FMI, em que os 4% da China se confrontam com os 14% dos Estados Unidos, e a reformulação da partilha de lugares no comité executivo da instituição, Pequim tenta preparar um mundo em que o dólar tenha um peso cada vez mais reduzido.



Jornal de Negócios
15 Setembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?id=386789&template=SHOWNEWS_V2

Hong Kong: a democracia pode esperar





   O regime de Pequim terá de tomar uma iniciativa para acelerar a democratização da cidade mais opulenta e livre da China, cujos 6,9 milhões de habitantes manifestam sistematicamente em todas as sondagens, desde os anos oitenta, o desejo de livre escolha do

   A antiga colónia britânica de Hong Kong tomou o gosto às grandes manifestações de rua quando, em 1989, mais de um milhão de pessoas marcharam em protesto contra a repressão militar na Praça de Tiannamen, e, desde então, a mobilização popular é um recurso constante para pressionar o governo local e, sobretudo, levar Pequim, a conceder maior autonomia política à Região Administrativa Especial.

   Em Julho de 2003 mais de meio milhão de manifestantes saíram às ruas opondo-se a uma proposta do governo de lei anti-subversão restritiva das liberdades civis e as manifestações, mais uma vez ordeiras, no ano seguinte contribuíram para a demissão do falhado chefe do executivo, o magnata Tung Chee-hwa, manchado pela sua submissão a Pequim, o fracasso no combate a epidemia do SARS e pela incapacidade em obviar aos efeitos gravosos da crise financeira asiática e da queda das receitas do mercado imobiliário.

   O seu sucessor, Donald Tsang, um dos mais distintos altos funcionários da administração britânica e responsável pelas finanças no pós-1997, confronta-se, agora, também, com a contestação.

   Nove meses depois de Tsang assumir a chefia do governo, mais de 80 mil pessoas, incluindo a antiga número dois do executivo, Anson Chan, convergiram para o centro da cidade a 4 de Dezembro, exigindo sufrágio universal e eleições directas.

   O impasse gira em torna da proposta de reforma do sistema político que será votada pelo Conselho Legislativo a 21 deste mês.

   Presentemente, o colégio eleitoral que escolhe o chefe do executivo é composto por 800 membros sujeitos à caução de Pequim e Tsang propõe duplicar o número destes eleitores.

   A eleição directa do chefe do executivo, em 2007, está excluída.

   O actual Conselho Legislativo, cujo mandato expira em 2008, tem, por sua vez, 60 deputados, metade dos quais eleitos por sufrágio universal.

   Tsang aventa aumentar para 35 o número de deputados escolhidos por voto directo universal dentro de três anos.

   Seria, também, aberta à eleição directa a escolha de 400 dos 529 membros dos conselhos distritais, responsáveis pela administração de serviços básicos e obras públicas.

   Para ser aprovada a proposta necessita de obter uma maioria de dois terços no Conselho Legislativo e os 25 deputados democratas, conforme a terminologia adoptada em Hong Kong, opõem-se terminantemente às alterações tidas por insuficientes para assegurar a livre escolha dos eleitores.

   Depois da manifestação de 4 de Dezembro, a primeira a contestar abertamente Donald Tsang, o primeiro-ministro chinês fez uma declaração inesperada apoiando as propostas do executivo de Hong Kong e considerando-as um passo no sentido da «futura implementação do sufrágio universal».

   Pequim, que assumiu em 2004 o direito de veto sobre eventuais reformas do sistema político, anunciara, em Abril, que as eleições para chefe do conselho executivo e para o Conselho legislativo não seriam por sufrágio universal.

   A Lei Básica, a constituição em vigor desde 1997, que assegura um «elevado grau de autonomia» e a preservação do sistema capitalista até 2047, refere apenas que a adopção do sufrágio universal em Hong Kong é o «desiderato final».

   Alterações à Lei Básica obrigam ao assentimento da Assembleia Nacional Popular da China e Pequim, além de se arrogar o «direito de interpretação» da Constituição, exclui a apresentação de propostas nesse sentido por parte dos órgãos legislativo e executivo de Hong Kong.

   O fracasso de Tsang em fazer aprovar a sua proposta ameaça retirar-lhe legitimidade e lançar Hong Kong num impasse político, tanto mais que a oposição pró-democracia, ciente das objecções de Pequim, tão pouco tem possibilidade de impor o princípio do sufrágio directo, mas não desiste de conseguir um compromisso formal quanto ao calendário de introdução da escolha universal dos órgãos executivo e legislativo.

   O regime de Pequim terá, assim, de tomar uma iniciativa para acelerar a democratização da cidade mais opulenta e livre da China, cujos 6,9 milhões de habitantes manifestam sistematicamente em todas as sondagens, desde os anos oitenta, o desejo de livre escolha dos representantes políticos.

   A grande e vexatória questão para o regime comunista tem a ver com a impossibilidade de fazer concessões que possam sugerir estar a ceder a manifestações de rua e a protestos orquestrados por deputados no Conselho Legislativo de Hong Kong.

   A crescente instabilidade social, patente na repressão dos protestos da semana passada na aldeia Dongzhou, na província de Guangdong, onde se situa Hong Kong, é vista pelos dirigentes comunistas como razão maior para não adoptar iniciativas que possam ser entendidas como cedências políticas.

   A vizinha Macau, próspera na monocultura do jogo, é muitas vezes apontada em vão por Pequim como um exemplo de estabilidade possível numa democracia mitigada.

   Só que as exigências de Hong Kong revelam-se intratáveis e num ambiente de impasse político será difícil à Região Administrativa Especial adoptar estratégias minimamente consensuais para se afirmar como um centro de serviços, sobretudo na área legal, financeira e de logística.

   Apesar dos riscos, ceder em Hong Kong, do ponto de vista dos comunistas de Pequim, seria alimentar aspirações à autonomia em Xangai ou em províncias como Zhejiang e atiçar as tentações independentistas em Taiwan.

   Portanto, a democracia pode esperar.

Jornal de Negócios
14 Dezembro 2005

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Macau: um sorvedouro


 Isidoro Guimarães

   Poucos o recordam e até em Macau mal lhe sobrou uma rua, para os lados do velho Porto Interior, mas foi o governador Isidoro Guimarães quem, nos idos das décadas de 50 e 60 do século XIX, licenciou o jogo para sustentar o orçamento da Província de Macau, Timor e Solor.

   Face à usurpação colonial de Hong Kong pelo Reino Unido, em 1842, a cidade do Santo Nome de Deus em vias de perder seus tratos comerciais no sul da China encontrou pela mão do futuro Visconde da Praia Grande de Macau uma nova vocação.

   Da exploração pelos bandos tradicionais do submundo chinês, as tríades, até ao monopólio firmado com Stanley Ho em 1962, passando pela entrada em 2002 de competidores de Las Vegas, o jogo foi sempre - a par de contrabandos diversos, caso do auge do tráfico de ouro, após a guerra no Pacífico - a razão de ser de Macau onde à fruste administração portuguesa sucedeu a soberania de Pequim.

                                      O esplendor do jogo

   Regulamentar o jogo, velho vício chinês, encontrou logo na legislação de Isidoro Guimarães a sua justificação como fonte de receitas para projectos sociais e financiamento de infra-estruturas, e tal foi a lógica que levou das primeiras salas licenciadas no Porto Interior e na Rua da Felicidade aos esplendores dos actuais omnipresentes casinos que, superando desde 2006 as receitas de Las Vegas, contribuem para mais de 80% do orçamento da Região Administrativa Especial da República Popular da China, estabelecida em 1999.

    Hoje, como desde os anos 60 do século pretérito, os casinos são a imagem de marca de Macau e qualquer miragem de diversificação económica, fantasiada pelos últimos governadores portugueses e outra vez reiterada pelo novel hierarca da Região, Chui Sai Hon, com beneplácito do presidente chinês Hu Jintao, perde-se insane.

    Macau com pouco mais de 28 quilómetros quadrados no eixo da grande província de Guangdong, face aos primores de Hong Kong, Shenzhen, Zhuhai e Cantão, não apresenta quaisquer vantagens competitivas.

   Raramente a especificidade de Macau foi potenciada, até por falta de quadros qualificados no funcionalismo público e escassez de oferta cultural, mas, mesmo a melhor das estratégias de promoção nunca poderia escapar à míngua do que ver.

   Bastam, em regra, 24 horas para saciar um turista com o património arquitectural e culinário herdado das tradições luso-malaio-chinesas e impera a visita de curta duração visando os casinos.

   Mais de metade dos visitantes de Macau, rondando quase dois milhões de entradas por mês, é oriunda da República Popular da China, que permitiu as visitas individuais ao seus cidadãos em 2003, e todos embicam aos casinos.

   O fluxo de perdedores no jogo varia consoante as autorizações de entradas permitidas por Pequim e o volume de receitas segue de perto os altos e baixos da República Popular, sobretudo na vizinha província de Guangdong, pelo que os lucros dos casinos flutuam em função das entradas de jogadores da China.

   A propaganda sugere que três mil milhões de apostadores asiáticos rondam por ali sôfregos por casinos num arco de cinco horas de voo, mas basta o mercado chinês que, subsidiariamente, é capaz de sustentar centros de jogo em Singapura, Coreia do Sul ou Camboja, para não deixar esgotar o maná de Macau.

                                           Lavar dinheiro

   E, no entanto, sobra um magno problema.

   Nem tem a ver com a apatia política de uma população de pouco mais de meio milhão pessoas, maioritamente vinda da China, sequer, ainda, com reivindicações de justificada representação política por parte de grupos minoritários, clamando contra a crescente desigualdade social.

   A representação política (de mediocridade assombrosa, conforme ilustram os debates ignaros na Assembleia Legislativa) deixa necessariamente de fora uma série de reivindicações sociais, apesar da crescente contestação ao emprego de emigrantes não-qualificados da China (cerca de 80 mil, segundo dados oficiais).

   Os abusos perenes de corrupção (de que os governadores português, por sinal, nunca se penitenciaram) atingiram o auge no caso de um antigo governante, Ao Man Long, que, na tutela das Obras Públicas e Transportes, superou ao longo de sete anos abusos velhos, apropriando-se de quase 100 milhões de euros, até ter sido condenado em 2008 a 27 anos de prisão.

   Ao Man Long e quatro familiares acabaram vítimas exemplares e solitárias de um sistema enraizado de compadrio e a prová-lo está a permanência da ex-auditora do governo, Fátima Choi, e do antigo Comissário Contra a Corrupção, Cheong U, em cargos governamentais com Chui Sai On, apesar de terem falhado em toda a linha no exercício das suas funções no executivo de Edmund Ho.

   Nada disto importa sobremaneira a um Partido Comunista que, por exemplo, ainda no ano passado, deu luz verde a 18 anos de cadeia para o antigo homem forte de Xangai, Chen Liangyu, por razões (corrupção, tráfico de influências, etc.) que qualquer residente de Macau facilmente compreenderia.

   A maior dúvida que sobra tem a ver com a forma como os dirigentes chineses irão nos próximos tempos lidar com os esquemas de lavagem de dinheiro que empresas e particulares da República Popular praticam assiduamente nos casinos de Macau quando se sabe que 90% dos grandes apostadores nos casinos são oriundos da China.

   A fuga e a fraude via Macau terão necessariamente de encontrar os seus limites.

   As autoridades de Pequim anunciaram este mês ter recuperado 1 500 milhões de dólares desviados só no último semestre por funcionários públicos e não é segredo para ninguém que parte significativa desse dinheiro seria cedo ou tarde reciclada através de Macau.

   Jogar os yuans chineses para os trocar em dólares de Hong Kong ou patacas, livremente convertíveis, é coisa que se nota em excesso e não pode durar toda a vida.

Jornal de Negócios
24 Dezembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=402143

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um problema chinês



Bo Xilai



   A queda em desgraça de uma das principais figuras do Partido Comunista e a caótica campanha para a eleição do chefe do executivo de Hong Kong evidenciam as disfunções do sistema político da China.

   A demissão de Bo Xilai, chefe do PC em Chongqing, trouxe à luz do dia as divisões no topo do partido com condenações públicas da linha neo-maoísta.

   Bo mantém-se entre os 24 elementos da Comissão Política, mas o seu afastamento será concretizado quando o vice-presidente Xi Jinping se tornar secretário-geral.

    O primeiro-ministro Wen Jiabao liderou as críticas ao ex-líder do município autónomo do sudoeste da China – metrópole com mais de 30 milhões de habitantes – que proclamava o privilégio de empresas estatais e a mobilização popular com palavras de ordem maoístas.

                                  Desgraça de um neo-maoísta


   Filho de uma eminência da era de Deng Xiaoping, Bo Yibo, o homem--forte de Chongqing cultivava uma irreverente imagem populista de inimigo da corrupção e das desigualdades sociais.

   A campanha sem precedentes de promoção pública de Bo visava conseguir no Congresso de Outubro um lugar entre os nove membros da Comissão Política Permanente, o principal órgão decisório.

   Tal como nas mais recentes defenestrações da Comissão Política – Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão – acusações de corrupção recaem sobre Bo e familiares próximos, denúncias de regra nas querelas políticas pós-maoístas.

   Na transição ordeira de poder para a "quinta geração de líderes" aos dirigentes comunistas importa evitar dissensões ao mais alto nível capazes de propiciarem ou potenciarem contestações ao partido conforme ocorreu em 1989.

   O "luan", o caos e desordem sociais temidas por gerações de senhores da China, não ameaça de momento o regime, apesar das dificuldades de ajustamento ao abrandamento do crescimento económico e à contracção demográfica.

   Greves, motins e revoltas – como a ocorrida no final de 2011 na aldeia de Wukan, na província sulista de Guangdong – não põem em causa o direito a governar das autoridades centrais, mas, ao agitarem a maioria han alimentam uma potencial crise de legitimidade e representam uma ameaça maior do que o irredentismo separatista de minorias como os muçulmanos do Xinjiang ou tibetanos.

   O "mandato do céu" comunista assenta no crescimento económico e melhoria contínua de condições de vida, mas confronta-se com a impossível partilha do poder político.

                          Uma eleição ou coisa que o valha

   Tung Chee Wa, um magnata dos transportes marítimos salvo da bancarrota por Pequim, tornou-se em 1997 no primeiro chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong.

   Medíocre político Tung foi alvo da contestação ao conluio entre a oligarquia local de negócios e um PC empenhado em garantir a prosperidade da ex-colónia e obviar a tentações autonomistas capazes de alinharem com independentistas de Taiwan.

   Em Março de 2005 Tung demitiu-se no terceiro ano do seu segundo mandato e foi substituído pelo número dois do governo Donald Tsang que transitara da administração colonial.

   A salvaguarda de liberdades e direitos e a manutenção do sistema capitalista, acordadas com Londres por um período de 50 anos, não obrigam Pequim à eleição por sufrágio universal do chefe do governo e a escolha cabe a um Comité Eleitoral de 1 200 representantes de interesses corporativos.

   Para obstar à reivindação de eleições directas as diversas instâncias do poder central têm tentado evitar afrontar directamente a opinião pública que entre os 7 milhões de habitantes se manifesta através de manifestações e protestos, sismograficamente registados em sondagens.

   A eleição deste ano redundou, no entanto, num caos.

   Tsang terminou o segundo mandato crivado de acusações de favorecimento a interesses empresariais e os candidatos com experiência administrativa aceitáveis por Pequim envolveram-se numa acrimoniosa troca de acusações.

   O principal candidato, Henry Tang, oriundo de uma família de empresários têxteis, caiu a pique nas sondagens depois de admitir adultério e a construção ilegal de um complexo subterrâneo numa propriedade da mulher.

   Outro candidato aceitável por Pequim, mas rejeitado pelo muito influente lobbie imobiliário, Leung Chun Ying, viu-se acusado de ligações ao crime organizado e de ter proposto numa reunião de executivo que as manifestações de 2003 contra uma lei anti-subversão, de que o governo acabou por desistir, fossem reprimidas pela polícia de choque.

   As sondagens indicam simpatias maioritárias por Leung, mas a maioria do Comité Eleitoral aguarda instruções de Pequim quanto à orientação de voto.

   Em Hong Kong, no domínio mais liberal da vasta China, uma eleição ou coisa que o valha é um quebra-cabeças.


Jornal de Negócios
21 Março 2012

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O alvoroço com a China


   As estatísticas revelaram-se confrangedoras e o terceiro trimestre consecutivo de crescimento económico japonês quedou-se por uma taxa de 0,4 % em ritmo anual, mas o que chamou a atenção foi o simbolismo de Tóquio reconhecer que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China ultrapassou o do Japão.

   Ao divulgar segunda-feira que o PIB nominal da China no segundo trimestre fora de 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares do Japão o governo de Tóquio dourou a pílula referindo que no conjunto do primeiro semestre deste ano a dimensão da economia japonesa ainda se mostrava maior do que a chinesa e apenas inferior à dos Estados Unidos.

   Depois de ter ultrapassado a Alemanha em 2007, já nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, não houve grande alvoroço.

                                Cai o Japão, sobe a China

   Agora, ao contrário da reconhecida superior dimensão da economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.

   A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares e nem precisa de contabilizar dados de Hong Kong e de Macau.

   A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.

   Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o PIB nipónico correspondia a 80% do norte-americano.

   O "crash" imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica assolada pela deflação, uma dívida pública rondando os 200% do PIB, um consumo privado estagnado e dificuldades em recuperar o dinamismo exportador das indústrias electrónicas, de construção naval, automóvel e de equipamentos industriais.

   Tóquio contabiliza, ainda, os efeitos da contracção demográfica, que deverá levar a população dos actuais 127 milhões de habitantes para 89 milhões em 2055, e particularmente deprimentes são as estimativas que chegam quanto a uma antiga colónia.

   A Coreia do Sul poderá ultrapassar o rendimento "per capita" do Japão dentro de duas décadas, segundo projecção do IHS Global Insigth, mas, tal como no caso de outras estimativas e indicadores tudo isto só conta parte da história e o que suceder com a Coreia do Norte pode virar tudo do avesso.

   Uma tendência de fundo é, contudo, certa: na segunda metade do século os dois países mais populosos, a China e a Índia, irão recuperar a posição de maiores economias mundiais que tinham perdido na sequência da Revolução Industrial.

                                 Envelhecer antes de enriquecer

   Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em termos de poder de paridade de compra, segundo o FMI, e, presentemente, as estatísticas do Banco Mundial referem, ainda nos mesmos termos, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.

   Desde então, no entanto, com a aceleração do consumo chinês de matérias-primas, crescimento das reservas de divisas e investimentos no estrangeiro a influência de Pequim na economia mundial aumentou significativamente.

   A China continua, ainda assim, relegada numa base "per capita" para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37.870 doláres do Japão ou os 47.240 dos Estados Unidos.

   O peso do atraso e das assimetrias regionais levará décadas a ultrapassar.

   O modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se e a degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água.

   O incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.

   As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia, apesar de nos últimos trinta anos cerca de 300 milhões de chineses terem ultrapassado o limiar da pobreza.

   O efeito perverso da política de filho único, introduzida em 1978, vai começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado e algumas das consequêcias notam-se já na quebra brusca dos efectivos da faixa etária entre os 15 e os 29 anos.

   A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos). O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.

   As projecções da ONU, na variante intermédia, cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

   Por essa altura é bem possível que em termos nominais a China seja a maior economia mundial, mas será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.

Jornal de Negócios
18 Agosto 2010

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