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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Massacres em catadupa





   A entrada em combate na Síria das milícias xiitas do "Hizballah" libanês ao lado das forças de Bashar al Assad acaba de marcar o momento em que o conflito étnico-religioso entrou numa fase irreversível de guerra total.

  Os militantes do "Hizballah" desde o fim-de-semana que lutam com as forças governamentais em Al Qusair, uma cidade a menos de 20 quilómetros da fronteira libanesa nas mãos de combatentes sunitas nominalmente fiéis ao "Exército Livre da Síria".

  A luta por Al Qusair visa o controlo do acesso à fronteira nordeste do Líbano e a Tartus e Latakia, províncias costeiras onde predomina a minoria alauíta de al Assad e palco de recentes massacres de alegados opositores sunitas.

  O alastrar das violências a Tartus e Latakia é sinal de que os alauítas -- grupo étnico-religioso seguidor de uma variante esotérica do xiismo, representando cerca de 10% da população -- pretendem garantir um bastião seguro no caso do clã al Assad perder o controlo da capital e de Aleppo, a maior cidade do país.

   O "Hizballah", aliado político de Damasco e Teerão, tem vindo a denunciar os massacres de que têm sido alvo xiitas e alauítas em Al Qusair e ao intervir nos combates assume uma clara solidariedade étnico-religiosa que ultrapassa a tradicional aliança política com Damasco e Teerão.

   O risco do "Hizballah" se envolver irremediavelmente na guerra civil síria arrasta, por sua vez, a maioria da comunidade xiita libanesa para nova situação de confronto com os seus conterrâneos sunitas, druzos e cristãos.

   No terceiro ano de guerra a radicalização acentua-se igualmente entre os sunitas -- mais de 70% da população --, alienando cristãos, druzos, ismaelitas e curdos, comunidades que cada vez mais alimentam o fluxo de refugiados em busca da ajuda dos correlegionários nos países vizinhos.

                                     O temor das minorias

   As minorias mostram-se temerosas do peso esmagador das facções islamitas ligadas aos "Irmãos Muçulmanos" e da crescente influência de organizações salafistas jihadistas como a "Jahabat al Nusra" ("Frente para a Vitória do Povo Sírio") capazes de virem a replicar as violências ocorridas no vizinho Iraque.

  O sistema de patrocínio imposto pelos alauítas a partir dos anos 60 e envolvendo as minorias e parte da burguesia sunita, além de tribos de filiação sunita como os Hadidyn ou os Shammar, foi destruído pela guerra.

   Só os curdos podem considerar uma remota possibilidade de autonomia territorial no nordeste da Síria, apesar de a comunidade estar profundamente dividida entre o "Partido da União Democrática", ligado ao "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" -- inimigo número um de Ancara -- e o "Conselho Nacional Curdo", uma coligação apoiada pelo governo regional do Curdistão iraquiano.

   No campo sunita as centenas de milícias nominalmente agregadas no "Exército Livre da Síria" não acatam de facto orientações políticas da heteróclita "Coligação Nacional Síria", presidida a prazo pelo sunita Mouaz Al Kathib, o que retira eficácia ao apoio diplomático e militar de norte-americanos, britânicos, franceses ou turcos.

   O fracasso de uma frente unitária, multiétnica e plurireligiosa da oposição é agravado pelo apoio financeiro do Qatar e da Arábia Saudita a grupos islamitas com o objectivo de derrubar al Assad e fazer claudicar o único aliado regional do Irão.

                                  Veleidades estrangeiras

  Os ataques israelitas revelam, por sua vez, a limitadíssima capacidade de influência externa numa guerra civil que se arrastará até à capitulação ou extermínio dos alauítas às mãos de milícias sunitas.

   Depois, será a vez das facções vencedoras medirem forças e, consciente de que terá de aproveitar esta oportunidade em que a desagregação do estado sírio impede uma retaliação convencional, Telavive limita-se a precaver enquanto possível a transferência de armamento sírio e iraniano para o "Hizballah".

  Israel terá, contudo, de conter as suas intervenções militares e limitá-las a casos extremos de transferências de armas convencionais ou químicas para o "Hizballah" ou grupos terroristas de forma a evitar que o conflito alastre a partir da fronteira sul do Líbano.

   As polémicas sobre eventual recurso pontual a armas químicas por parte de forças governamentais ou grupos rebeldes irão prosseguir dada a impossibilidade de inspecção conclusiva no terreno por especialistas da ONU.

   Os diferendos estratégicos entre Washington, Moscovo, Pequim e Nova Delhi condicionarão, ainda, uma eventual intervenção militar para salvaguarda dos arsenais de armas químicas que implicará inicialmente o envio para grande número de localidades na Síria de dezenas de milhares de soldados (75 mil homens, num cenário posto a circular pelo Pentágono) e centenas de especialistas.

  Capitulação por exaustão e acantonamento nas montanhas da costa do Mediterrâneo ante ameaça de extermínio e remoção forçada de populações é o destino dos alauítas.

  Refúgio junto de comunidades congéneres nos países vizinhos ou aceitação de estatuto subordinado ou automonia muito limitada é o que se vislumbra para as minorias ante a expectativa de uma vitória sunita que obrigará a um acerto de contas entre jihadistas, salafistas, islamitas conservadores e as quase extintas facções secularistas árabes.


Jornal de Negócios
8 de Maio 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/massacres_em_catadupa.html

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Israel confronta-se com a sua fragilidade






   Os parcos dividendos da ofensiva contra Gaza lançam as maiores dúvidas sobre a capacidade de Israel poder aventurar-se num ataque unilateral ao Irão sem sofrer um incomensurável desaire.

   Uma semana de bombardeamentos deixou a claro que, salvo uma inviável reocupação de Gaza temida pela própria população judia, Israel não conseguirá eliminar a ameaça dos mísseis do Hamas e de outras organizações islamitas.

   Uma trégua, implicando a suspensão do lançamento de mísseis a troco do aligeiramento do bloqueio imposto por Israel há cinco anos, não poderá obviar ao rearmamento do Hamas e demais organizações palestinianas.

   Os esforços israelitas para destruir redes de contrabando, como, por exemplo, os ataques ocorridos no Sudão, estão condenados ao fracasso dada a situação de insegurança na península do Sinai e o apoio do governo islamita do Cairo aos confrades do Hamas.

  Além da frente sul de Israel, sujeita a ser fustigada por mísseis de fraca precisão, também áreas do centro do país e mesmo Telavive e Jerusalém estão agora na mira de mísseis Fajr 5 de origem iraniana com um alcance de 75 quilómetros.

  A notória melhoria da capacidade do Hamas e da Jihad Islâmica no fabrico, montagem, armazenamento e lançamento de mísseis permitirá recuperar a curto prazo a degradação das suas capacidades ofensivas provocada pela actual investida israelita.

   Os inimigos em Gaza representam uma ameaça tão perigosa e destabilizadora quanto o Hizballah a norte, apesar da segurança relativa oferecida pelo sistema de defesa antimísseis Cúpula de Ferro.

   A constatação de Israel da impossibilidade de desalojar o Hamas fragiliza Mahmoud Abbas que aguarda o reconhecimento pela Assembleia Geral da ONU da Autoridade Palestiniana como estado observador.

   A ameaça de retaliações de Israel e dos Estados Unidos no caso de promoção do estatuto internacional palestiniano -- designadamente através do congelamento de contribuições e financiamentos à ONU e à Autoridade Palestiniana -- contribui para alienar os palestinianos da Cisjordânia que vêem os seus representantes incapazes de obter concessões.

   Nenhum avanço quanto ao estatuto de Jerusalém, o congelamento e desmantelamento de colonatos judaicos, o direito de retorno de refugiados e o controlo de recursos hídricos.

   Neste impasse aumenta o risco da Fatah perder o controlo da Cisjordânia e do ressentimento dos árabes israelitas -- 20% da população do estado hebraico -- extravassar em protestos de rua, enquanto na Jordânia se reforça as exigência dos Irmãos Muçulmanos que reclamam ao Rei Abdullah II o corte de relações com Israel.

   Na frente norte, onde a imponderabilidade da guerra civil na Síria condiciona o Hizballah e priva Israel de um inimigo fiável, o estado hebraico confronta-se com as consequências do fracasso estratégico do confronto de 2006 que consagrou os xiitas libaneses como irredutível força militar.

   A retaguarda israelita apresenta-se, portanto, muito insegura e a população judia acaba de sofrer novo choque psicológico ao ser confrontada com acrescida vulnerabilidade a ataques de mísseis.

   O risco de isolamento diplomático no caso de Israel enveredar por acções militares que resultem em significativas baixas civis entre o inimigo começa também a fazer-se sentir entre uma população que, na ausência de garantias credíveis de segurança, tenderá, no entanto, a votar em forças políticas que rejeitam qualquer compromisso territorial.

   Perdido o contrapeso estratégico que representava a Turquia o isolamento israelita no Médio Oriente é avassalador.

   A conjugação pontual de interesses contra o Irão com as monarquias sunitas do Golfo, o Arzebeijão e alguns grupos curdos não basta para Israel se lançar numa eventual acção militar com ou sem apoio prévio dos Estados Unidos.

   A extrema fragilidade da situação nas conflituosas fronteiras de Israel obriga a uma mobilização total de recursos e riscos generalizados para os civis judeus em caso de guerra com o Irão, nova ronda de confrontos em todas as frentes, e esta realidade só a pouco e pouco começa a ser compreendida.

Jornal de Negócios
21 Novembro 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A ONU antes da Grande Guerra do Golfo





   O incontornável rosário de crises do Levante ao Hindu Kush assombra a Assembleia Geral da ONU que bem poderá revelar-se o último grande conclave internacional em Nova Iorque antes da Grande Guerra rebentar no Cáspio e no Golfo Pérsico.

   O desenvolvimento sustentado -- em vertentes como gestão ambiental ante mudanças climáticas e combate à pobreza, discutidas este Verão na Conferência Rio+20 – ou a reforma do Conselho de Segurança serão alguns dos temas sacrificados pela premente ameaça de guerra.

   A impossibilidade de instituições estatais multilaterais como a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica e a ONU mediarem pela via diplomática tréguas na guerra civil da Síria põe em relevo o confronto de políticas externas antagónicas que exacerbam um conflito com contornos étnicos e religiosos que extravassam além-fronteiras.

   A redes de alianças e interesses envolvendo e opondo estados como a Turquia, Arábia Saudita, Iraque e Irão, condenam a Síria a uma sangria sem fim à vista, mas que, inelutavelmente, levará à perdição a minoria alauíta no poder.

                                 Os meios necessários

    O impasse no Conselho de Segurança era previsível por Pequim e Moscovo considerarem que a NATO e seus aliados ultrapassaram os termos da resolução 1973 de Março de 2011 que autorizou o uso na Líbia de «todos os meios necessários», excepto «uma força de ocupação estrangeira», para proteger civis e áreas de povoamento civil.

   A intervenção militar da NATO, subsidiariamente apoiada pelo Qatar e Jordânia, foi vista na Rússia e na China como um acto abusivo e, consequentemente, inviabiliza a adopção de qualquer resolução do Conselho de Segurança que admita o recurso à força ao abrigo do Capítulo VII da Carta da ONU.

   Excepto na eventualidade de uso de armas químicas ou biológicas ou sua transferência para organizações terroristas é dificilmente concebível uma intervenção militar directa estrangeira na guerra civil síria, com ou sem sanção da ONU, que, em qualquer caso, tenderá a evitar na medida do possível a eventualidade de ocupação territorial.

   As últimas manifestações violentas de repúdio por ofensas perpretadas no Ocidente contra o Islão serviram, por seu turno, para relembrar o óbvio: é fruste a base social e limitadíssima a legitimação ideológica para uma ordem política incorporando princípios liberais e secularistas em países tão distintos quanto o Egipto ou o Paquistão.

   Na ressaca do fracasso estratégico e ideológico das intervenções no Iraque e no Afeganistão os protestos de militantes islamitas em manifestações do Sudão à Nigéria terão afastado para os tempos mais próximos quaisquer ilusões sobre o apoio com que possam contar acções militares dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais em países de maioria islâmica ou com significativas minorias de crentes na mensagem do Profeta.

   Para o resto do mundo a falta de discernimento e capacidade de intervenção estratégicas do bloco ocidental ficam ainda patentes no fracasso da tentativa de mediação da administração Obama no conflito israelo-palestiniano, independentemente do que vier a ocorrer se a Autoridade Palestiniana conseguir um voto por maioria na Assembleia Geral para obter o estatuto de “estado observador” na ONU.

                              O mau tempo e a política

     A meteorologia, entretanto, condiciona no curto prazo a próxima guerra.

   A chegada do Outono torna muito mais difícil para Israel missões ofensivas e de reconhecimento áereo, sobretudo nas regiões montanhosas e no noroeste do Irão e, independentemente das cumplicidades com que possa contar no Arzebeijão e Curdistão iraquiano, limita a capacidade operacional unilateral de Telavive.

   Adiar para a Primavera um ataque que obrigue, por via de retaliação iraniana, a envolvimento directo dos Estados Unidos, deixa o governo de Benjamin Netanyahu à mercê da Casa Branca e descredibiliza as ameaças de Israel, jogo por demais perigoso no Médio Oriente onde prevalece a lei da força.

   No caso de Obama ser reeleito a Casa Branca não admitirá ser constrangida por Telavive, apesar do evidente fracasso das tentativas de levar o Irão a suspender ou renunciar a um programa nuclear militar.

   Na menos provável hipótese de vitória republicana Mitt Romney ainda mal terá rodado a sua equipa e o fervor ideológico já terá sido submetido ao confronto com realidades comezinhas como, por exemplo, a vulnerabilidade do Japão e da Coreia do Sul a cortes nos fornecimentos de petróleo.

   As probabilidades de erro de cálculo por parte de tão grande número de intervenientes são tamanhas que a eclosão da guerra é o mais provável.

   A ONU não voltará a ser a mesma entidade multilateral caso se mostre incapaz de impedir mais uma guerra com risco de escalada dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
26 Setembro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=580531&pn=1

domingo, 16 de setembro de 2012

A quinta dimensão da guerra






   Uma campanha de condicionamento do eleitorado e de decisores aliados e inimigos da Casa Branca tem vindo a promover fugas concertadas de informação sobre acções dos seus serviços secretos que, por definição, não devem ser objecto de discussão pública.

   No intuito de reforçar a imagem de Obama como presidente sem pejo em recorrer à força, altos responsáveis da administração civil e militar reforçaram este ano os esforços para elucidar a alegada eficácia e acerto de duas vertentes essenciais da estratégia de segurança dos Estados Unidos.

   O programa de assassinato de suspeitos de terrorismo com recurso a veículos aéreos não-tripulados e operações ofensivas de guerra digital são apresentados como um legado da administração Bush que Obama desenvolveu e alargou com claro êxito.

   Deixando na sombra programas de militarização do espaço -- outra dimensão vital que na segunda metade do século XX veio ampliar as tradicionais frentes de combate terrestres, marítimas e aéreas – a Casa Branca centrou mais recentemente os seus esforços de propaganda e desinformação na guerra cibernética.

   Para contenção de danos, intimidação e desorientação de adversários os EUA assumiram oficiosamente a responsabilidade pelo lançamento do vírus "Stuxnet" desenvolvido a partir de 2006 em parceria com Israel.

   O sucesso do programa que atacou, aparentemente a partir de 2008, as centrifugadoras da central de Natanz teria alegadamente atrasado o programa nuclear iraniano por um período de 18 a 24 meses.

   Outras informações indiciam, contudo, que Teerão recuperou rapidamente dos danos acelerando o programa de enriquecimento de urânio.

   A propagação do vírus no espaço digital, no Verão de 2010, levou à identificação do seu código e abriu a porta a eventuais usos por organizações terroristas ou criminosas.

   A complexidade do "Stuxnet", concebido para provocar avarias a componentes específicos de um sistema computorizado de controlo de processos industriais, levou os especialistas a concluírem tratar-se de um projecto da responsabilidade de um estado.

   No final de Maio, tornou-se entretanto pública a existência de um novo programa de complexidade ainda maior que só poderia ser desenvolvido por um estado ou por raras empresas especializadas de grande dimensão.

   O "Flame" visa a espionagem por controlo remoto directo e destruição de dados e estará activo há pelo menos dois anos em computadores de instituições da indústria petrolífera do Irão.

    O vírus foi igualmente referenciado noutros países, de Israel à Hungria, passando pelos Estados Unidos, Sudão ou Reino Unido, e a sua origem e controladores não foram identificados.

    O programa poderá ter sido activado a partir de 2008 e apresenta tal complexidade que o seu desenvolvimento teria necessariamente de implicar centros especializados de países como a Alemanha, Reino Unido, Japão, Taiwan, China ou Rússia, apesar das suspeitas recaírem sobre os Estados Unidos e Israel.

    Desta feita, apesar de algumas fugas de informação desencontradas apontarem nesse sentido, Washington não assumiu oficiosamente a responsabilidade pela difusão de um vírus com um código relativamente fácil de copiar por especialistas em informática e cuja proliferação pode ter efeitos altamente funestos.

   O facto de o Irão – que requeriu assistência à "União Internacional de Telecomunicações", agência especializada da ONU, para identificar o "Flame" – ter sido alvo dos principais ataques dá credibilidade às suspeitas de que os EUA estão envolvidos.

    O acerto da discussão pública dos méritos estratégicos e operacionais de acções secretas ofensivas no espaço digital – independentemente das suas vertentes de desinformação – é muito duvidoso.

   As vantagens políticas e eleitorais que Obama possa retirar de acções de propaganda sobre vertentes clandestinas de acções letais e de ataques a sistemas informáticos são irrelevantes perante as percepções que se possam vir a criar acerca do activismo militar cibernético dos EUA.

   A dimensão digital da guerra tem vindo a aumentar desde a invasão do Iraque, em 2003, até ao conflito russo-georgiano de 2008, passando por operações promovidas por organizações terroristas e hackers ao serviço de diversos estados, e levanta questões de difícil resolução.

   O risco de ataques em cascata a sistemas computorizados de infra-estruturas civis a nível nacional e internacional é elevadíssimo, a identificação atempada do atacante impossível, a definição de agressão é vaga, os termos de retaliação estão indefinidos e faltam tratados internacionais sobre a codificação da dimensão digital da guerra.

   Nas areias movediças da guerra digital é má política assumir acções ofensivas que se deveriam manter "sub rosa" até porque arruina as vantagens da ambiguidade estratégica, prejudica negociações diplomáticas e inquina irremediavelmente a confiança entre estados.





Jornal de Negócios
05 Junho 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=561045

Uma nova era nuclear no Médio Oriente

Mohamed El Baradei, Director-Geral AIEA


   No próximo dia 24 de Novembro, a Agência Internacional de Energia Atómica vai, com toda a probabilidade, remeter para o Conselho de Segurança das Nações Unidas a decisão sobre eventuais sanções contra o Irão por violação dos protocolos do Tratado de Não-Proliferação (TNP).

   O Irão terá ao longo de 18 anos desenvolvido actividades no sentido de produzir plutónio e enriquecer urânio, passíveis de eventual utilização militar, à revelia das inspecções da Agência.

   Três anos de tentativas de mediação diplomática da Alemanha, Grã-Bretanha e França redundaram num fracasso e Teerão não dá mostras de pretender suspender o seu programa nuclear e aceder a inspecções da AIEA.

   Os Estados Unidos pressionam o Conselho de Segurança para impor sanções diplomáticas, económicas, tecnológicas e militares ao Irão, mas confrontam-se com reticências de Moscovo, Pequim e, também, de Nova Delhi.

  A Rússia é o principal parceiro nos projectos nucleares civis iranianos, a China já conta com Teerão para mais de 14 por cento das importações de petróleo e a Índia acordou em Janeiro a compra anual até 2035 de 7,5 milhões de toneladas de gás natural ao Irão, além de estudar a construção de um gasoduto através do Paquistão para assegurar os fornecimentos.

   O programa nuclear de construção de 15 reactores para produção de electricidade e dois de pesquisa é justificado por Teerão pela necessidade de atender às necessidades energéticas do país, presentemente asseguradas a 91 por cento por recursos fósseis, e goza de amplo consenso nacional.

   O eventual isolamento internacional do segundo maior exportador da OPEP, detentor de 10 por cento das reservas mundiais de petróleo e 16 por cento das reservas de gás natural, é de difícil persecução e sobra o exemplo da África do Sul do «apartheid» que, com a cumplicidade de Israel e num contexto de guerra fria, conseguiu, ainda assim, desenvolver com sucesso um programa militar nuclear.

   As estimativas das capacidades autónomas humanas e tecnológicas iranianas para levar a bom termo a produção de armas nucleares apontam para prazos de dois a quatro anos.

  Teerão dispõe de mísseis Shihab 3 com alcance de 1 300 Km, estando a desenvolver uma nova classe com alcance de 3 000 Km, capaz de atingir a Europa Central e Oriental, que podem ser adaptados ao transporte de ogivas nucleares.

   A posse de armas nucleares é tida em Teerão como a única forma de salvaguardar a independência do Irão face aos Estados Unidos e a uma eventual ameaça de ataque israelita ou iraquiano.

   Esta posição de recurso às armas nucleares como factor de dissuasão reforçou-se nos anos oitenta devido ao apoio internacional ao esforço de guerra iraquiano contra o regime de Khomeini.

  A presença norte-americana no Iraque e no Afeganistão, as pressões sobre Damasco, o único aliado regional de Teerão, as concessões feitas por Washington ao reconhecer Nova Delhi como «potência nuclear responsável» apesar de a Índia nem sequer aderir ao TNP, e a posição de força adoptada pela Coreia do Norte graças à chantagem nuclear, incentivam o Irão à rápida aquisição de meios de dissuasão.

   As divergências em Teerão quanto ao ritmo de desenvolvimento do programa nuclear militar incidem apenas sobre o impacte interno destabilizador de eventuais sanções, tendo em conta que os principais parceiros comerciais do Irão são a União Europeia (35 %), o Japão (12%) e a China (9%).

   As vendas de petróleo representam entre 80 a 90 por cento das exportações e cobrem sensivelmente metade do orçamento.

    O PIB tem crescido ao ritmo de cerca de 6 por cento nos últimos cinco anos, mas apesar de uma baixa do desemprego para 11,5 por cento, metade das raparigas e um quarto dos jovens com menos de 25 anos não encontram colocação no mercado de trabalho.
  
   O regime irá gastar este ano 7,7 mil milhões de dólares em subsídios a combustíveis e produtos agrícolas, tem conseguido dinamizar a agricultura que emprega 20 por cento da população, mas fracassado nas áreas de serviços e das indústrias não energéticas.

   A curto prazo, Teerão não enfrenta movimentos destabilizadores de contestação social e a província de maioria árabe do Kuzistão (produtora de 80 por cento do petróleo iraniano), apesar de actos terroristas esporádicos, está sob controlo do governo central.

   As autoridades não dão, no entanto, provas de capacidade de mobilização e o sistema de poderes paralelos promove iniciativas políticas desconexas.

   O triunfo eleitoral dos radicais liderados pelo presidente Ahmadinejad foi contrabalançado pela decisão do líder supremo Ali Khamenei de alargar os poderes do Conselho de Discernimento, chefiado pelo ex-presidente Ali Rafsanjani, para controlo das opções governamentais macroeconómicas e de política nuclear.

   O perigo de bombardeamentos israelitas contra as instalações nucleares iranianas é limitado.

   Um ataque israelita teria de contar com apoio norte-americano e a dispersão e inacessibilidade de muitos dos alvos produziria no melhor dos cenários possíveis danos em apenas três quartos das instalações nucleares.

   Os custos políticos seriam insustentáveis para os aliados de Israel e a radicalização antiocidental no mundo árabe e islâmico inevitável.

   A possibilidade de retaliação iraniana sobre os estados dos Golfo e o encerramento do estreito de Ormuz por onde passam 2/5 das exportações mundiais de petróleo são outras razões mais do que suficientes para obviar à opção militar contra o Irão.

   A maioria dos dirigentes iranianos pode, pois, mostrar-se confiante em persistir na opção pelas armas nucleares como factor de dissuasão, mesmo que os Estados Unidos declarem que qualquer ataque não-convencional iraniano contra estados da região será considerado motivo suficiente para uma retaliação em larga escala. 

   A nuclearização do Irão provocará iniciativas idênticas por parte de outros estados – caso da Arábia Saudita ou do Egipto – e Israel, a actual potência nuclear regional, terá de passar a integrar estes condicionalismos na sua estratégia.

   A dissuasão nuclear no Médio Oriente é, no entanto, muito pouco fiável devido à instabilidade e radicalização política da maior parte dos estados da região e a lógicas por demais antagónicas sobre cálculos de perdas e ganhos previsíveis por parte dos diversos actores.

   Consoante a evolução interna do Irão nos próximos dois anos e a conjuntura regional não é assim de descartar a possibilidade de o próximo presidente dos Estados Unidos chegar à Casa Branca e ter de decidir sobre um eventual ataque ao Irão.



Jornal de Negócios
02 Novembro 2005

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Roteiro da Guerra no Médio Oriente

 
   Yasser Arafat considerava insensato comparar Ariel Sharon a Charles de Gaulle e o primeiro-ministro de Israel, por seu turno, classificava como um equívoco a analogia com o presidente francês porque, dizia, «a Argélia é aqui, os judeus não têm para onde partir e o estado de Israel é central para todas as comunidades judias dispersas pelo mundo».
 
   Por uma vez os dois inimigos concordavam numa apreciação crucial que justificou toda a carreira política de Sharon, ainda que, desde 1988, o político do Likud afirmasse ter começado a admitir a necessidade de descartar territórios que não fossem vitais à segurança do estado de Israel.

   Só em 2004, no entanto, Sharon começou a concretizar os planos de definição unilateral de fronteiras, mediante a neutralização militar e isolamento diplomático do adversário.

  Os objectivos que guiavam Sharon passavam por assegurar profundidade estratégia mínima, capacidade de dissuasão e projecção de força superiores a todos os estados vizinhos, coesão étnica e preservação da aliança com os Estados Unidos.

   A sua estratégia continha, no entanto, lapsos consideráveis para sustentar a pacificação regional.

   Os elementos mais óbvios das insuficiências do projecto a longo prazo de Sharon tinham a ver com a recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, a manutenção do carácter judaico e democrático do estado -  tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala - e, sobretudo, a viabilidade e estabilidade de um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia.

   O estratego desapareceu sem dar resposta a estas contradições, ainda que tenha enterrado definitivamente a quimera da «Grande Israel», e saiu de cena precisamente numa conjuntura em que sopram ventos de guerra no Médio Oriente.

   Evocar o pior cenário possível é uma questão de avaliação da magnitude e probabilidade dos riscos e implica uma conjunção e imbricação de variáveis a curto prazo.

  Precisamente por isso, falhado o objectivo do Roteiro de Paz, patrocinado pela ONU, União Europeia, Rússia e Estados Unidos, que apontava para uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, é altura de apurar os riscos de um Roteiro de Guerra.

   Incapazes de separar o estado de Israel da turbulência nos territórios palestinianos, os dirigentes israelitas, ainda que possam conter em limites toleráveis eventuais vagas terroristas, terão de coexistir com uma Autoridade Palestiniana em que o peso dos integristas do Hamas será cada vez maior.

   O cenário de um desfasamento acentuado de interesses imediatos entre os palestinianos da Cisjordânia e a anarquia de Gaza, implicando um comprometimento directo do Egipto, não obsta a que Israel tenha de definir a médio prazo as condições aceitáveis de viabilidade de uma entidade estatal árabe nas suas fronteiras.

   A anexação dos colonatos judeus próximos à linha de fronteira de 1967 na Cisjordânia só teria viabilidade se o estado palestiniano escapasse à lógica dos bantustões que a elite militar e política de Israel persiste em impor, ignorando, ainda, concessões simbólicas na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados palestinianos.

   Tendo em conta o imponderável da evolução do Hamas, que à semelhança do Hizballah no Líbano, nunca irá abdicar da componente armada, Israel viu falhar, para já, a opção Mahamoud Habbas.

  Tudo o que vier será para pior.

  Na fronteira norte, o regime do presidente Bashar Al Assad dificilmente sobreviverá à crise provocada pelo assassínio de Rafic Hariri, sendo o regresso à primeira linha dos Irmãos Muçulmanos e o ajuste de contas com a minoria alauíta dados incontornáveis.

  A questão adiada do retorno dos Montes Golã para efeitos de contenção da Síria e da neutralização do Líbano irá colocar-se a curto prazo aos dirigentes israelitas.

   Na frente interna, um futuro governo israelita não terá condições para levar a cabo o desmantelamento de colonatos na Cisjordânia, mesmo limitado a áreas envolvendo 80 mil dos 240 mil colonos, e, sobretudo, nunca poderá aventar argumentos de reforço de segurança em fronteiras definidas unilateralmente dada a degradação da autoridade da Fatah nos territórios palestinianos.

  Acresce que qualquer governo de Israel terá de dar provas de força para conter previsíveis actos terroristas ao mesmo tempo que tentará acelerar o ritmo de redução de importações de produtos e, sobretudo, de mão-de-obra palestiniana, agravando, necessariamente, a crise económica e social nos territórios.

  Finalmente, a questão mais gravosa e imponderável passa pela resposta a dar ao programa nuclear militar iraniano.

   As estimativas israelitas apontam para um ponto de não-retorno no programa nuclear de Teerão ainda este ano.

  A complexidade da situação foi agravada pela decisão norte-americana de vender a Israel, em Fevereiro do ano passado, 500 bombas convencionais de penetração capazes de atingir instalações subterrâneas, enquanto Moscovo acordava, em Dezembro, o fornecimento de 30 sistemas TOR-M1 de defesa anti-aérea a Teerão.

   A eventualidade de um ataque israelita a alvos iranianos é uma hipótese muito crível, tanto mais que os apoiantes do presidente Mahmoud Ahmadinejad se revelam avessos a qualquer compromisso diplomático, contando a seu favor com a dificuldade de êxito de uma acção militar e as gravosas consequências que acarretaria.

   Mesmo sem levar em linha de conta uma eventual guerra civil no Iraque, nem um atentado em larga escala da Al Qaeda, a concretização negativa de duas ou três situações de risco são mais do que suficientes para considerar muito crível o agravamento da situação no Médio Oriente, admitindo, mesmo, a probabilidade alta de confrontos militares.

  É o roteiro que poderá levar o barril de petróleo até aos cem dólares.   

Jornal de Negócios
11 Janeiro 2006

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domingo, 9 de setembro de 2012

Outro Verão de guerra no Médio Oriente


Mavi Marmara

   Já se vinha notando que o governo de Jerusalém não mede bem as consequências dos seus actos e o ataque aos navios que transportavam ajuda humanitária para Gaza é apenas mais um passo numa escalada que degenerará em grave dano para Israel.

   O ataque aos navios mobilizados por organizações pró-palestinianas, incluindo apoiantes do Hamas, teve um cunho acentuadamente violento, deixando perceber uma acção premeditada e previamente autorizada ao mais alto nível.

   A operação dos comandos israelitas, notoriamente mal montada com recurso essencialmente a forças helitransportadas, não excluía à partida o uso de força letal, no que pode ser entendido como uma acção exemplar de dissuasão.

   A alternativa de interceptar os navios na zona de bloqueio fora excluída, depois do movimento Free Gaza ter recusado entregar a carga em portos israelitas para posterior envio para Gaza sob supervisão israelita .

   Romper o bloqueio a Gaza era o objectivo declarado dos militantes pró-palestinianos e seus apoiantes que, desde o Verão de 2008, têm vindo a organizar o envio de ajuda humanitária por via marítima.

   As primeiras cinco iniciativas foram actos de pouca monta e chegaram a bom porto, mas depois dos confrontos no final de 2008 entre as forças israelitas e o Hamas, Israel passou a impedir a atracagem.

    A última investida a ter sucesso implicaria o risco de romper de vez o bloqueio marítimo e poderia dar lugar a novas iniciativas ainda mais espectaculares.

   O governo de Jerusalém optou por uma acção de força para salvaguardar um objectivo tido por essencial: o bloqueio do território controlado pelo Hamas.

    As autoridades israelitas violaram a lei internacional ao atacar e apreender os navios, seus tripulantes e passageiros, fora do limite de 20 milhas náuticas da águas territoriais de Gaza onde Israel impõe um bloqueio marítimo.

                                     Os Goyim que se danem!

   Os estrategos israelitas voltaram, contudo, a pecar por arrogância e deixaram-se levar por um crescente sentimento de impunidade derivado de anos de políticas de ocupação, segregação e ataques militares contra inimigos intratáveis (civis, militares ou terroristas, sem distinção) que aparentemente legitimam qualquer abuso desde que esteja assegurado o respaldo em último recurso dos Estados Unidos.

   O bloqueio a Gaza imposto após o golpe do Hamas contra a Fatah em 2007 não cumpre presentemente objectivos de segurança úteis.

   É uma punição colectiva a milhão e meio de palestinianos com gravíssimas consequências humanitárias.

   Israel permite alguns abastecimentos de forma limitada e com uma lógica estranha e medidas arbitrárias: são autorizadas, por exemplo, importações de chá, café, e canela, mas proíbe-se o chocolate, os coentros ou brinquedos de plástico.

   Para cimento ou artigos de metal são exigidas garantias de que não se destinem à construção de bunkers ou lançadores de mísseis para os combatentes do Hamas.

   O contrabando via Egipto, que abarca desde artigos de consumo corrente a armas e Mercedes, não obsta a que 10 por cento do milhão e meio de palestinianos de Gaza sofram de subnutrição e a economia local acumule "danos irreversíveis", segundo a ONU.

    O Hamas factura politicamente, não desarma, tem sempre em reserva a alternativa de lançar ataques que provoquem uma retaliação e, assim, limita as escassas alternativas da Fatah de Mahmoud Abbas acantonada na Cisjordânia.

   O governo de Benjamin Netanyahu ao afirmar que Israel exerceu um direito de autodefesa face a uma provocação política de apoiantes violentos de terroristas lançou mais achas à fogueira.
  
   Impera a ideia de que os Goyim, os gentios, já foram complacentes num Holocausto e nunca entenderão as necessidades de defesa de Israel contra a intransigência e vontade dos árabes (e persas) de aniquilarem todos os judeus.

   Israel fará o que tiver de ser feito e os Goyim que se danem!

                        Um calimero sem graça e sem norte

   Um pequeno estado, dependente de uma rede internacional de suporte, não pode deixar-se enlear numa imagem de intransigência e violência desproporcionada que aliena cada vez mais apoios políticos.

   Israel arrisca ser tido como um calimero nuclear; uma potência militar disposta a tudo, sempre de dedo no gatilho, e que se queixa de ser incompreendida.

   Em vez de cultivar alianças regionais e globais numa lógica de contenção pela força em último recurso, Israel enveredou pela prepotência em territórios ocupados, sob tutela e bloqueados, sem considerar qualquer hipótese negocial como se evidencia pela expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

    O calimero israelita, que tem todas as razões para temer o ódio dos vizinhos, recusa, no entanto, negociar concessões a qualquer potencial aliado ou entidade não-hostil e limita-se ao curto prazo quando a demografia, a começar pelo peso dos ultra ortodoxos judeus (que acentua o cunho étnico-religioso do estado) e dos árabes em Israel (cuja discriminação põe em causa o regime democrático), mostrar ser insustentável persistir nessa política.

   A degradação das relações com a Turquia governada pelos islamitas moderados de Recip Erdogan, que já se vinha acentuando desde os confrontos em Gaza em 2008, priva Israel do único aliado histórico que lhe restava no Médio Oriente depois do Irão passar a inimigo fatal com a revolução khomeinista de 1979.

   O Egipto terá cada vez maior dificuldade em justificar o seu próprio bloqueio a Gaza e sobram para árabes israelitas, 20 % da população, apelos a uma terceira Intifada.

   O Hizballah no Líbano e seus apoiantes iranianos ganham pretextos para vingar a invasão do Verão de 2006 que, aliás, se saldou por um malogro estratégico para Israel e degradou ainda mais a imagem de eficácia e superioridade militar e moral das forças armadas posta em xeque desde a guerra do Líbano de 1982 e da Intifada de 1987.

   Depois de ter hostilizado a administração Obama com a construção de novos colonatos pondo em causa aquilo que deveria ser, segundo suas próprias alegações, o objectivo fundamental de ganhar apoio diplomático para conter o programa militar nuclear do Irão, o governo de Jerusalém continua a disparar e disparatar em todas as frentes.

   Um destes dias alguém na Casa Branca poderá vir a retomar a tirada equívoca do general De Gaulle em 1967 crismando todo o povo judeu, confundido com a política momentâneo de certos governos, como nação segura de si e dominadora em detrimento de todos os outros.

                                  Outra guerra vinha a calhar

   Uma das tentações para sair do impasse passa por exacerbar tensões de modo a provocar uma vaga de atentados terroristas ou ataques militares contra Israel - sempre justificados na lógica de extermínio anti-judaico prevalecente entre islamistas, largo espectro de nacionalistas árabes e em Teerão - que legitime uma retaliação em força.

   Uma guerra eventualmente bem sucedida, ao contrário do que ocorreu no Líbano em 2006, ou repetidas vezes em Gaza, permitiria no curto prazo a Israel ganhar fôlego ainda que a noção estratégica de coexistência no Médio Oriente tivesse de aguardar por melhores dias.

   Tem um problema: os judeus preservaram tradições para reinventarem uma ideia de nação que suscitou um projecto de estado reivindicado pela força e através de uma ocupação de tipo colonial no século XX não podem limitar-se a expedientes de curto prazo.

   Ameaça-os uma solidão temível ao perderem o norte e remeterem-se a expedientes de guerra num meio hostil.




Jornal de Negócios
02 Junho 2010

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Blair das Arábias




   O barão Michael Abraham Levy termina hoje as funções de enviado especial do primeiro-ministro do Reino Unido para o Médio Oriente e o deputado trabalhista por Sedgefield, Anthony Charles Lynton Blair, prepara-se para assumir o cargo de enviado especial do Quarteto, o grupo negocial USA-UE-Rússia-ONU para a desordem israelo-palestiniana.

   Nada consta de útil quanto aos cinco anos de pretensa mediação levantina do empresário milionário da música pop britânica, líder da comunidade judaica em terras de Isabel II, angariador de fundos e influências por conta dos trabalhistas, elevado por Blair à Câmara dos Lordes em 1997, que continua a contas com a justiça por alegadas vendas de títulos nobiliárquicos em prol de sustento ao governo e ao partido.

   Muito consta, por outro lado, da maquinação da futura encarnação de Tony Blair fruto de meses de congeminações em Washington que desconcertaram as chancelarias.

   Desde que a nomeação de Blair começou a ser ventilada na semana passada por Condoleezza Rice passaram off the record para a imprensa votos de consternação da parte do ministro dos negócios estrangeiros alemão Frank-Walter Steinmeier que presentemente lidera a representação europeia no Quarteto.

   Reticências sérias chegaram também a público por via do denodado Javier Solana e o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov, após manifestar umas quantas objecções, optou por deixar correr o marfim.

   Gordon Brown fechou-se em copas e o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon viu-se reduzido à sua impotência que começa a tornar-se preocupante.

                       UM MEDIADOR DESCONCERTANTE

   O Quarteto foi criado em 2002 na sequência da declaração de Junho de George W. Bush a favor da criação de um estado palestiniano independente que oferecesse garantias de segurança a Israel.

   Em Abril de 2003, o Quarteto apresentou um plano: o Roteiro de Paz.

  Visava uma solução final e compreensiva do conflito israelo-palestiniano a concretizar-se em 2005. O objectivo passava pelo estabelecimento de um estado palestiniano democrático e independente e acordos de paz entre Israel e todos os estados árabes.

  Mahmoud Abbas tornou-se, em Março de 2003, primeiro-ministro de Yasser Arafat e o Quarteto apostou na institucionalização de um estado palestiniano.

  Na expectativa da retirada unilateral israelita de Gaza, concretizada em Agosto de 2005, o Quarteto nomeou, logo em Maio, o seu primeiro enviado especial: o antigo presidente do Banco Mundial, o australiano naturalizado norte-americano James Wolfensohn.

   O enviado nem um ano esteve no cargo. Wolfensohn demitiu-se em Abril de 2006, argumentando ser impossível instituir um estado palestiniano devido à vitória eleitoral do Hamas em Janeiro desse ano, aos crescentes conflitos políticos entre os palestinianos e às obstruções de Israel.

   Agora, o Quarteto não tem plano para relançar negociações e surge Blair por pressão de Bush.

   A credibilidade como mediador levantino do político que esta quarta-feira deixa a chefia do governo de Londres é quase nula. Blair foi com Bush o impulsionador da ocupação falhada no Iraque. No Verão do ano passado alinhou com Washington para atrasar uma trégua na guerra do Líbano de modo a dar tempo a Israel para tentar vencer o Hizballah.

   Não se vê que confiança Blair possa inspirar a palestinianos e aos estados árabes que são parte fundamental das negociações por mais que algum cínico avente que as possíveis conivências de Blair com as luvas pagas pela BAE Systems para venda de caças Eurofigher Typhoon à Arábia Saudita possam abrir portas em Riade.

   Israel tem, por sua vez, certas reservas porque Blair se opôs à expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia, mas, ainda assim, o primeiro-ministro Ehud Olmert vê com bons olhos a chegada de Blair às cercanias de Gaza.

   As pretensões israelitas de ocupação de territórios na Cisjordânia, contestadas por americanos, europeus, russos e a ONU, levantarão sempre questões delicadas seja quem for o mediador e não será por minudências que o governo de Telavive recusará um putativo mediador relativamente compreensivo.

                                 A AMBIÇÃO QUE TUDO CEGA

  No seio do Quarteto, a situação é igualmente complicada.

  A Rússia não tem confiança num chefe de governo que fez frente a Vladimir Putin e as tentativas frustradas de Moscovo para levar o Hamas a dialogar seriamente com Israel deixaram um amargo de boca ao Kremlin.

  Na União Europeia, Javier Solana verá a sua posição de mediador über alles comprometida com eventuais iniciativas paralelas de Blair e a maior parte dos estados membros duvidam da viabilidade de uma opção sustentada por Washington de apoio declarado à Fatah da Cisjordânia para isolar e levar à bancarrota o Hamas em Gaza.

  O sucessor Gordon Brown tem o mesmo problema, mas, pelos vistos, ninguém quer de momento opor-se a Bush.

  Boa parte dos parceiros europeus e a Rússia não parecem, aliás, alimentar qualquer esperança para próximos êxitos diplomáticos e preferem que outros se queimem em negociações condenadas ao fracasso.

  Tony Blair sai do governo com apenas 54 anos e tem compreensivelmente grandes ambições.

   O diálogo inter-religioso e civilizacional constam dos planos de um anglicano de simpatias católicas, o aquecimento global e suas consequências são motivação cara a político com um mínimo de discernimento, o desenvolvimento de África é outra questão a motivar iniciativas de estadista na reserva planetária.

   Agora, o avatar de enviado especial para o Médio Oriente por parte do Quarteto redunda num convite envenenado que russos e boa parte da burocracia e dos governos da União Europeia deixam sobrar para um político ambicioso que invoca o êxito negocial na Irlanda do Norte como exemplo para o Levante.

   O mais extraordinário é que o próprio Blair, já para não falar de Bush que é caso à parte, continua completamente cego quanto às nefastas consequências da invasão do Iraque para a sua credibilidade de estratego.

   O Médio Oriente, a Palestina e Israel, desorientam notoriamente até os políticos mais dotados, sobretudo, quando a folia do spin, do virar o bico ao prego, consomem vocações.


Jornal de Negócios
27 Junho 2007


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O milagre da ressurreição do Roteiro de Paz

Annapolis, 27 Novembro 2007


   Ressuscitar o Roteiro de Paz israelo-palestiniano, qual Lázaro morto e insepulto desde a sua apresentação oficial em Abril de 2003, requer um milagre à imagem de um Cristo.
   O Roteiro, traçado pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e ONU, propunha-se chegar a uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, mas nem sequer a primeira fase foi concretizada.
   Em Annapolis voltou assim a falar-se da renúncia mútua à violência e do reconhecimento do direito à existência de dois estados no território do antigo Mandato britânico da Palestina aprovado pela Liga das Nações em 1922.

   Reler os termos do Roteiro é um exercício elucidativo sobre tudo o que tem vindo a falhar.

   À Autoridade Palestiniana de Yasser Arafat cumpria fazer cessar todos os actos terroristas, reestruturar os serviços de segurança e reformar a administração para preparar a instauração de um estado independente.

   Israel, sob a liderança de Ariel Sharon, deveria, por sua vez, parar com todas as operações que ameaçassem a integridade dos civis palestinianos e adoptar medidas para normalizar a vida dos cidadãos dos territórios e, à medida que melhorassem os padrões de segurança e a cooperação com as autoridades palestinianas, retirar das áreas ocupadas desde Setembro de 2000 no auge da Segunda Intifada.

   Finalmente, de acordo com a primeira fase do Roteiro, seria congelada a expansão de colonatos judeus e Israel procederia, ainda, ao desmantelamento dos colonatos construídos desde 2000.

                                    Um roteiro esfrangalhado

   A retirada unilateral de Gaza decidida por Ariel Sharon em 2005, o subsequente triunfo do Hamas nas eleições legislativas palestinianas de Janeiro de 2006, a guerra entre os islamitas e a Fatah que culminou na expulsão cinco meses depois dos homens de Mahmoud Abbas de Gaza, transformaram irremediavelmente a situação no terreno.

   Israel, por seu turno, prosseguiu a expansão dos colonatos na Cisjordânia, com a intenção de anexar Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 250 mil residentes judeus nos territórios ocupados.

   O fracasso da ofensiva israelita contra o Hizballah no Verão de 2006 afastou a hipótese de futuras retiradas unilaterais ao levar à admissão por parte de Telavive de que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, poderiam oferecer garantias de segurança a Israel.

   A neutralização de risco militar por parte dessas entidades clientares, graças a uma capacidade de dissuasão esmagadora por parte de Israel, implicava, ainda, que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   A administração norte-americana ante o impasse tentou desde a tomada do poder pelo Hamas em Gaza convocar um encontro internacional, à imagem da Cimeira de Madrid organizada em 1991, após a primeira guerra do Golfo, de forma a assumir alguma iniciativa diplomática e obviar à erosão provocada pela desordem no Iraque.

                            A conjuntura não propicia milagres
 
   Annapolis seria à primeira vista um bom ponto de partida dada a presença de todos os estados da Liga Árabe.

   O encontro no Maryland representava, sobretudo, uma oportunidade para Washington agregar estados árabes, em particular a Síria, a uma neutralização e pacificação do Iraque ao mesmo tempo que isolava o Hamas, o Hizballah e o Irão, a troco da promessa de apoio a Mahmoud Abbas e pressão sobre Israel. 

   Os 22 estados árabes foram, no entanto, a Annapolis na base do plano saudita de 2002 para normalização das relações com Israel a troco da retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967 e de uma solução justa para a questão dos refugiados palestinianos. Os objectivos árabes são, ademais, muito díspares.

   Riade tenta essencialmente evitar um isolamento total do Hamas e o alastrar da guerra civil palestiniana. Uma radicalização sunita islamita da Palestina ao Egipto é capaz de ameaçar a própria Arábia Saudita e oferece oportunidades ao Irão xiita para destabilizar a dinastia de Saud.

   O risco de retorno da guerra civil libanesa, com a consequente influência acrescida de Teerão, obriga, também, os sauditas a tentar levar Washington a empenhar-se numa mediação que, além de obrigar Israel a concessões, garanta, pelo menos, o status quo no Líbano.

   Para a Síria, a oportunidade de recolocar na agenda a questão dos Montes Golã poderá permitir o reforço da sua posição negocial no Líbano, atormentada pela implicação de Damasco no assassínio do primeiro-ministro Rafic Hariri em 2005, e, em termos ainda pouco claros, obter garantias de segurança depois do mal esclarecido ataque aéreo israelita a instalações militares sírias em Setembro.

   Todos os cálculos possíveis para um relançamento de negociações de paz esbarram, contudo, com a impossibilidade de Abbas ou Ehud Olmert puderem fazer concessões significativas.

                           Negociadores sem sustento político

   Abbas não tem condições para avançar nas negociações sem que Israel levante os controlos militares na Cisjordânia e aceite no mínimo discutir na base dos termos mediados por Bill Clinton há sete anos.

   Incapaz de se impor ao Hamas, Abbas só pode aceitar negociações que compreendam a redefinição de fronteiras, cabendo aos palestinianos pelo menos 94 por cento do território da Cisjordânia, a partilha de Jerusalém e compensações para os mais de 4 milhões de refugiados de forma a poder vir limitar a prazo a reivindicação do direito de retorno aos territórios de uma Palestina independente.

   Olmert, cuja principal preocupação passa pela militarização nuclear do Irão, verá a sua coligação governamental desfazer-se, com a saída dos ultra-ortodoxos do Shas e dos nacionalistas de Yisrael Beitenu, caso conceda negociar nestes termos e, limitado ao apoio parlamentar dos partidos árabes e do Meretz, de centro-esquerda, terá, ainda, de enfrentar as ambições de Ehud Barak, à frente dos trabalhistas, e do líder do Likud, Benjamin Nethanyau.

    A hipótese de até ao final do mandato de George Bush palestinianos e israelitas alcançarem qualquer acordo viável é, consequentemente, nula.

   As expectativas de mero relançamento de negociações criadas em Annapolis são insuficientes para criar uma nova dinâmica política e o agudizar da crise sobre o programa nuclear iraniano no próximo ano arruinará qualquer esperança de uma mediação norte-americana que possa levar Israel a concessões capazes de reforçarem a periclitante posição de Mahmoud Abbas.


Jornal de Negócios
28 Novembro 2007

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A guerra em busca de cobertura política

Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left, and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007. Mullen arrived in Israel on Sunday, as a guest of the Israel Defence Forces.
Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left,
and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007
                     
 
 
   O almirante Mike Mullen, chefe do estado-maior conjunto das forças armadas dos Estados Unidos, vetou um ataque de Israel ao Irão até a próxima administração de Washington formular uma estratégia para o Médio Oriente.
 
   A oposição do Pentágono foi expressa durante uma visita de Mullen a Israel no final de Junho depois das manobras conjuntas das forças aéreas de Telavive e de Atenas no Mediterrâneo oriental para testar a capacidade operacional israelita de desencadear acções ofensivas a longo distância.

   A opção dos comandos militares norte-americanos e da administração Bush passa, presentemente, pela via negocial e o aumento da pressão sobre Teerão através de sanções comerciais e financeiras.

   Até meados de Março, altura em que a próxima administração norte-americana estará plenamente operacional, a possibilidade de um confronto militar com o Irão está posta de lado, salvo alguma ocorrência excepcional e independentemente de declarações provocatórias vindas de Teerão por ocasião do 30º aniversário da Revolução Islâmica em Fevereiro.

                                      O impasse israelita

   O veto norte-americano cria uma situação delicada a Israel.

   A maior parte dos decisores políticos e militares israelitas rejeita a ideia de que o programa militar nuclear iraniano vise a obtenção de uma capacidade de dissuasão de último recurso contra ameaças externas.

    As análises do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, considerando que a motivação iraniana para desenvolver um programa nuclear clandestino derivou da ameaça do Iraque de Saddam Hussein e do perigo que os Estados Unidos representam à soberania e ambições regionais do Irão, foram consideradas infundadas.

    As estimativas de existência de risco mínimo de transferência para grupos terroristas de armamento nuclear ou de materiais radioactivos para produção de uma “bomba suja”, aventadas no estudo publicado no ano passado em Telavive, são igualmente rejeitadas pelos decisores israelitas.

   Em Israel a possibilidade do Irão se dotar de capacidade militar nuclear, ainda que mínima, é encarada como uma alteração radical das relações de força e uma ameaça à existência do estado judaico que não tem dimensão territorial para sustentar as perdas provocadas por um potencial ataque.

   O monopólio nuclear de Israel no Médio Oriente ficaria comprometido e o novo estatuto iraniano implicaria a busca de meios equivalentes por parte de estados como a Turquia, o Egipto ou a Arábia Saudita.

   As estimativas israelitas, assumindo o pior cenário possível, apontam, ainda, para a obtenção de capacidade militar nuclear por parte do Irão (’stocks’ de urânio enriquecido e miniaturização de ogivas) no prazo de dois anos.

   Um ataque israelita visando as estruturas envolvidas no programa nuclear e, eventualmente, instalações militares e petrolíferas implicaria a cooperação dos Estados Unidos.

   O lançamento de mísseis de longo alcance da classe Jericó, o recurso aos três submarinos Dolphin ao dispor de Israel, as sucessivas vagas de bombardeamentos de caças F 15 e F 16, obrigam a autorização dos Estados Unidos que controlam o espaço aéreo do Iraque e mantém a Quinta Esquadra, baseada no Bahrain.

   Um ataque, que teria de se prolongar por vários dias, poderia na melhor das hipóteses destruir parte das instalações nucleares dispersas por todo o Irão e matar quadros técnicos essenciais ao projecto militar de Teerão.

   A questão política essencial agravar-se-ia, no entanto, pois um Irão sujeito a um ataque massivo optaria a prazo, independentemente das opções ideológicas dos seus dirigentes, por dotar-se de garantias de segurança que passam necessariamente por meios militares nucleares.

   Israel, ainda que recorra exclusivamente a meios convencionais, está manietada pela presença militar norte-americana no Golfo Pérsico.

                                 Os dilemas do sucessor de Bush
   Washington mesmo que não participasse directamente num ataque pagaria o preço de uma acção militar israelita, alegadamente unilateral, e a retaliação iraniana contra a navegação comercial no Golfo Pérsico obrigaria à intervenção da Quinta Esquadra.

   O próximo presidente norte-americano terá de tomar logo no início do mandato uma série de decisões vitais.

    Primeiro, será necessário avaliar se a imposição de sanções é suficiente para impedir a nuclearização militar do Irão.

   O eventual fornecimento ao Irão de sistemas de mísseis anti-aéreos S-300 por parte da Rússia poderá revelar-se igualmente crucial para aferir a viabilidade de isolamento diplomático de Teerão.

   Em segundo lugar, a situação política no Irão, após as eleições presidenciais de Maio, deverá fornecer dados sobre as possibilidades negociais, ainda que a determinação iraniana em obter capacidade de dissuasão nuclear dificilmente possa ser posta em causa.

   Por fim, ante o provável fracasso do recurso a sanções e negociações, o sucessor de Bush terá de considerar se a mais que provável obtenção de capacidade nuclear militar por parte de Teerão é, de facto, casus belli.

   A alternativa de oferta, por parte dos Estados Unidos, de um “chapéu nuclear” através de garantias formais e públicas de segurança aos estados da região, implicando uma retaliação não convencional em caso de ataque iraniano, dificilmente será crível e, consequentemente, revelar-se-á insuficiente para impedir uma escalada ‘armamentista’ e o colapso do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

                             Um ataque com garantias políticas
   Uma operação militar exclusivamente norte-americana contra as instalações nucleares do Irão, sem apoio do Conselho de Segurança da ONU, poderá reduzir significativamente as capacidades do Irão retomar um programa militar, mas deixará em aberto a questão política de desnuclearização do Golfo Pérsico.

   A ponderação dos custos de destabilização generalizada do Líbano ao Afeganistão, passando pelo Iraque, e da interrupção e redução de fornecimentos petrolíferos acaba por estar subordinada às possíveis vantagens que apresente uma efectiva neutralização nuclear do Irão.

   Os riscos de escalada militar poderão ser contidos, mas, mesmo no melhor dos cenários possíveis, a questão política nunca terá solução sem o concurso da Rússia e da China para um compromisso regional que não poderá deixar de lado um acordo de paz entre Israel e um estado palestiniano.

    Os custos de uma acção militar de Washington sem ter assegurado com os estados aliados, a Rússia e a China os termos de um compromisso regional para desnuclearizar parcialmente o Médio Oriente, mantendo o arsenal israelita, são demasiado pesados e imprevisíveis.

   Estes dilemas vão condicionar os passos do sucessor de Bush e do lado de Israel, considerando o pior cenário possível que para Telavive passa pela eleição de Barack Obama, vai aumentar a pressão política e diplomática para forçar um ataque ao Irão.

   Um ataque norte-americano, que não envolva Israel, necessita de uma cobertura política que terá de começar a ser negociada logo nos primeiros dias do mandato do sucessor de Bush.


Jornal de Negócios
09 Julho 2008

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