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domingo, 16 de setembro de 2012

Zé Dú à procura do seu Putin





   José Eduardo dos Santos precisa de assegurar a imunidade e património da família e correligionários mais chegados na hora da sucessão, mas a empreitada mostra-se difícil.

   Boris Ieltsin confrontou-se com esse problema e se o sucessor escolhido em 1999 salvaguardou os interesses da parentela presidencial já dificilmente se poderá dizer que Vladimir Putin tenha sido complacente com boa parte da oligarquia ligada ao antecessor.

   Em qualquer regime oligárquico - independentemente das manias e fobias da elite, das tradições políticas e idiossincrasias clânicas - é impossível garantir uma transição de poder sem fazer rolar cabeças.

   Zé Dú – o líder do MPLA, algo diferente do Dos Santos dos "media" estrangeiros -- tem-se revelado implacável na promoção e defenestração de putativos sucessores, reservando exclusivamente para si o centro da teia do poder.

   O presidente deixou cair, entre outros, Marcolino Mouco, João Lourenço ou Fernando Nandó e promove agora Manuel Vicente, mas as intrigas no Futungo de Belas e agora no Palácio Presidencial da Cidade Alta dão prova sobretudo de instabilidade institucional.

   A "Moody’s" e a "Standard & Poor’s" nas notações de crédito da dívida angolana emitidas este mês destacam a chamada "fraqueza institucional" como factor de incerteza.

                              A cleptocracia do petróleo

   Presidente desde 1979, Santos tem consagrada a reeleição por mais cinco anos através da maioria simples ao alcance do seu partido nas eleições para a Assembleia Nacional nos termos da revisão constitucional de 2010.

   A concentração presidencial dos poderes fulcrais do estado é indissociável do controlo ao mais alto nível dos principais nós da rede de patrocínio e locupletação que condiciona a economia angolana.

   Altíssimos níveis de corrupção – a "Transparency International" coloca Angola em 168.º lugar entre 183 países no "Índice de Percepção de Corrupção" – aumentam custos de exploração e agravam a ineficiência e disfunções económicas no consenso de todos os estudos realizados por organizações internacionais.

   Os abusos nas concessões de petróleo e diamantes e a opacidade da Conta Geral do Estado têm criado problemas nas relações entre Luanda e o FMI e levantado problemas às empresas estrangeiras abrangidas por diversa legislação anti-corrupção.

   Luanda continuará dependente do petróleo, que representa 97% das exportações e três quartos das receitas do orçamento, e o controlo dessas rendas manter-se-á vital para a elite do poder tanto mais que Angola espera poder vir a ultrapassar a Nigéria como maior produtor africano saltando dos 1,6 milhões de barris/dia de 2011 para 3,5 milhões no final da década.

   Angola tem uma dívida pública equivalente a 31,5% do PIB e as significativas reservas em divisas (32,5 mil milhões de USD em Junho) podem absorver choques imediatos nas flutuações do preços dos hidrocarbonetos, mas a diversificação económica tarda.

   Os investimentos do pós-guerra em infra-estruturas na ordem de 150 mil milhões de USD mal começaram a criar as bases para redes de transportes, produção e distribuição de energia, que possam criar emprego no sector agrícola e nas indústrias não-extractivas.

                                     Muito dólar para muito poucos

   Um crescimento económico de 6,8% este ano e de 5% em 2013, na previsão do FMI, manterá um nível de desemprego superior aos 20% e Angola persistirá como um dos países com mais injusta repartição do rendimento (Índice Gini de 58,6 em 2009, sendo 0 igualdade absoluta e 100 desigualdade absoluta).

   O peso da pobreza - mesmo dando crédito às estatísticas governamentais que referem uma redução de 68% em 2002 para 36,6% em 2008/9 no número de pessoas subsistindo com menos de 2 USD/dia - relega Angola para o fundo da tabela no "Índice de Desenvolvimento Humano" da ONU (148.º lugar).

   A elevada concentração urbana (60% dos cerca de 20 milhões de habitantes, com perto de um 1/3 da população residente em Luanda) é de difícil gestão pelas autoridades dada a dificuldade em propiciar equipamentos básicos e emprego.

   O temor do retorno às violências que só pararam em 2002 tem sido um dos factores a limitar a contestação ao poder, mas a juvenilização da população (48% dos angolanos têm menos de 15 anos) está em vias de engrossar as fileiras dos desmemoriados da guerra e insatisfeitos com a cleptocracia do petróleo.

   Para obviar a conflitos internos o MPLA poderá sentir-se tentado a repetir os 82% de 2008, mas de pouco servirá para reforçar uma legitimidade política ameaçada por um vazio ideológico que não tem como esconder actos de rapina oligárquica.

   Aos 70 anos Zé Dú, no pináculo do poder e da riqueza, olha em redor e está só.


Jornal de Negócios
29 Agosto 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=575313

Resultados das eleições de 31 de Agosto:

MPLA 72%, UNITA 19%,  CASA-CE 6%, PRS 2%, FNLA 1%
Abstenção 40%

(Nota de Setembro 2012)

O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=308548

Um Iraque ainda demasiado perigoso

Rumaila
   O primeiro concurso para a exploração de petróleo e gás no Iraque desde a nacionalização de 1972 ficou marcado pelas cautelas e reticências da maior parte das empresas estrangeiras.

   O consórcio da British Petroleum e da China National Petroleum Co. aceitou os termos estabelecidos pelo governo de Bagdade para a exploração das jazidas de Rumaila, as maiores do país, que têm 17,8 mil milhões de barris em reservas provadas.

   A troco de um prémio de 2 dólares por barril a partir do momento em que a produção passe do nível actual de 1,1 milhões de barris/dia para mais de 1,75 milhões de barril/dia, o contrato de serviços aceite pelo consórcio para a maior das jazidas iraquianas não é particularmente atractivo, mas abre a porta para uma presença lucrativa em futuros concursos.

  Para além da única arrematação conclusiva entre as seis jazidas petrolíferas e dois campos de gás em leilão, é significativo que nenhuma das 35 empresas aceites a concurso tenha apresentado propostas para o gás de Mansuryia.

   Situada na província de Dyiala, uma das mais violentas do Iraque, a jazida tem uma capacidade potencial de produção de 330 milhões de metros cúbicos/dia, mas os riscos de investimento num contrato de prestação de serviços afastaram investidores.

                            Grandes reservas e imensas dúvidas

   Numa indústria em que 80% das reservas mundiais provadas de petróleo são controladas por empresas estatais, a abertura do Iraque a investidores estrangeiros é uma oportunidade única, sobretudo quando no final deste ano forem a concurso jazidas nunca exploradas.

   As metas estabelecidas pelo governo de Bagdade de aumentar a actual produção de 2,4 milhões de barris/dia (ainda abaixo da média de 2,7 milhões de barris/dia nas já pouco favoráveis condições de exploração dos anos 2001/2002) para mais de 4 milhões de barris/dia nos próximos cinco anos são, muito provavelmente, pouco credíveis.

   As reservas provadas do Iraque, as terceiras maiores do mundo após a Arábia Saudita e o Irão, cifram-se em 115 mil milhões de barris, mas o desinvestimento e a delapidação de estruturas que se registavam antes da invasão de 2003 e se agravaram subsequentemente não permitem uma rápida exploração destes recursos.

   As condições de investimento não se mostram particularmente propícias por não permitirem, nomeadamente, que as empresas estrangeiras averbem as suas quotas de hidrocarbonetos iraquianos nos activos, os actuais contratos a leilão, com duração de 20 anos, são contestados por grande número de parlamentares em Bagdade e as próximas eleições legislativas de Janeiro poderão obrigar a uma revisão dos acordos.

   Os partidos iraquianos não chegaram a consenso sobre os termos de exploração e repartição dos lucros dos hidrocarbonetos e arrasta-se o diferendo entre Bagdade e o governo regional do Curdistão, agravado pela indefinição do estatuto de Kirkuk, reivindicada por curdos, árabes e turcomenos.

   As principais empresas internacionais evitaram até agora assinar contratos de exploração no Curdistão, não reconhecidos pelo governo central, apesar das boas condições de segurança e baixos custos operacionais.

                                     Incerteza no investimento

   Esperar para ver como o governo central vai gerir a segurança nos centros urbanos depois da retirada das forças de combate norte-americanas é o teste crucial dos próximos meses, que condicionará quaisquer perspectivas de investimento.

   O primeiro-ministro, Nuri Al Maliki, afirma que os cerca de 700 mil homens das forças de segurança e do exército iraquianos são capazes de evitar confrontos entre as comunidades rivais, prevenir actos terroristas e fazer cumprir o acordo para a retirada do contingente de 130 mil militares dos Estados Unidos até ao final de 2011.

   A forte presença xiita nas forças militares e policiais é, no entanto, vista com desconfiança nas regiões centrais de maioria sunita e as forças autónomas curdas mantêm o controlo no Norte do país, nas suas províncias de Erbil, Suleymanyia e Dehook.

   Um eventual recrudescer da violência (cerca de 1.800 mortos desde o início deste ano, ainda assim, três vezes menos vítimas do que em igual período de 2008) seria um fracasso fatal para as ambições de Al Maliki e poria em causa o acordo de retirada firmado com George W. Bush em Novembro de 2008.

   Numa fase de transição em que os imponderáveis do Irão pesam sobre o destino do Iraque, nem mesmo os cobiçados gás e petróleo são um investimento garantido.



Jornal de Negócios
01 Julho 2009

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domingo, 9 de setembro de 2012

Uma crise a doer


Beirute
Julho 2006


   Daqui por uma semana o barril de petróleo vai atingir preços inauditos.

   A recusa do Irão em acatar as advertências do Conselho de Segurança da ONU e o mais que provável anúncio subsequente da sua renúncia ao Tratado de Não Proliferação Nuclear irão juntar-se aos demais descalabros de Agosto.

   O arco de crises é vasto. Parte dos conflitos sanguinários em curso são aceites como eventos sem consequências estratégicas gravosas a curto prazo.

   A guerra civil do Sri Lanka e a crise genocidária do Darfur quadram-se nesta perspectiva. A investida islamita na Somália levanta problemas doutro tipo ao implicar a Etiópia e a Eritreia e, por acréscimo, o risco de novos focos terroristas no Corno de África.

   Outros confrontos ruinosos como a guerrilha do Delta do Níger e a instabilidade crónica do Congo são tidos como choques absorvíveis pelos mercados na ausência de qualquer hipótese próxima de regulação dos conflitos.

   Crises candentes como a miséria militarizada da Birmânia passam por questões adiadas até que o desmoronamento do regime venha a envolver os interesses directos da Índia, da China e, por extensão, a segurança da navegação no Estreito de Malaca.

   Caxemira, a turbulência paquistanesa e as sucessivas tentativas de assassinato do presidente Pervez Musharraf estão num limbo aceite como aposta desesperada no princípio de que Islamabade e Nova Deli não arriscarão uma escalada militar até às últimas consequências, apesar da virulência dos atentados terroristas na Índia.

   A estabilização falhada do Afeganistão conforma-se a um compasso de espera alimentado pela produção e tráfico de ópio e heroína. A Coreia do Norte continua, por sua vez, a ser assimilada a uma ameaça nuclear regional e excêntrica.

   Aceite uma trégua no Líbano, as consequências do fracasso militar e político israelita face a um movimento islamita com fortes apoios na comunidade xiita libanesa, demorarão a ser compreendidas.

   O descalabro estratégico de Telavive implica maiores dificuldades para as hipóteses negociais na questão palestiniana, reforça a ala negacionista do Hamas e reavive as possibilidades de um retomar das guerras comunitárias no Líbano.

  O Iraque, em plena guerra civil, surge, agora, sobretudo, como questão eleitoral nas eleições norte-americanas de Novembro que arriscam saldar-se pela perda do controlo republicano do Congresso.

   Aliados como a autocracia presidida por Hosni Mubarak no Egipto ou a composta incumbência integrista da Arábia Saudita quase que fazem desesperar do velho dito de Winston Churchill de que pior do que lutar com aliados só mesmo combater sem eles.

                                           A mão negra

  A mão negra do terrorista sérvio Gravilo Princip, cujo atentado de Saravejo, em Junho de 1914, foi pretexto da Primeira Grande Guerra, ecoa como um espectro num mundo em que imperam as tácticas terroristas de atentados em larga escala vitimando civis.

  Para os estados da União Europeia a questão essencial tem a ver com o isolamento dos núcleos totalitários islamitas entre as comunidades islâmicas, ainda que nem isso os proteja de conspirações alimentadas do exterior, do Médio Oriente ao subcontinente indiano.

   O nível de alienação face aos valores civilizacionais e constitucionais dos países de acolhimento é particularmente assustador em estados como a Grã-Bretanha, França e Holanda. A União Europeia, à parte a cooperação nas áreas de Justiça e Segurança, remete para os estados membros a definição de políticas quanto à integração das comunidades islâmicas.

   Ainda continua a ser possível na União Europeia, pretextando o respeito por convicções religiosas, promover publicamente ideários contrários às instituições constitucionais democráticas.

   As tentativas ditas de promoção de diálogos civilizacionais, intercomunitários e religiosos levadas a cabo em França ou na Grã-Bretanha têm-se saldado, sobretudo, pelo reconhecimento de um estatuto especial para as comunidades islâmicas que abre caminho a todo o tipo de justificações para a xenofobia e intolerância promovidas pelos sectores radicais.

   A retaliação ideológica em torno de alegados privilégios comunitários alimenta, por seu turno, a xenofobia anti-islâmica, racista e nacionalista em muitos países europeus.

   A prédica de organizações como a Jamaat Al Tabligh, visando criar uma contra-sociedade assente nos princípios corânicos, encontra, assim, terreno fértil entre os cerca de doze milhões de muçulmanos residentes na União Europeia.

   A impossibilidade de conter a curto prazo os fluxos de emigração clandestina - meio milhão de entradas por ano - é uma dificuldade acrescida para a integração social de muçulmanos e demais minorias na ausência de uma política comum de imigração.

  A recente mobilização de recursos policiais e militares pela Agência de Controlo das Fronteiras Exteriores da UE para estancar a emigração clandestina do norte de África e dos países subsarianos terá, reconhecidamente, resultados mitigados enquanto persistirem as assimetrias sociais e demográficas.

                                          Sem opção militar

   Os interesses divergentes das potências europeias em questões problemáticas, como os diversos conflitos israelo-árabes, o Iraque ou o programa nuclear iraniano, e a impossibilidade de articular políticas negociais credíveis com a actual administração republicana em Washington promovem um impasse que neste final de Agosto assumirá consequências dramáticas.

   O falhanço da campanha aérea israelita no Líbano obriga a repensar as hipóteses de um ataque contra o Irão por parte dos Estados Unidos.

   A eventualidade de um bombardeamento a instalações suspeitas era de difícil execução por insuficiências de informação operacional e devido à impossibilidade de evitar, simultaneamente, o colapso total no Iraque, conseguir garantir os fornecimentos de petróleo, sem referir as objecções da Rússia, da China e da Índia.

  A necessidade de mobilizar tropas para região, inviável nas condições presentes, para conter retaliações a um ataque aéreo naval ao Irão, impossíveis de conseguir por bombardeamentos estratégicos e tácticos, é um das conclusões mais óbvias da frustrada campanha israelita no Líbano.

   Teerão depois de bloquear pela sua intransigência a via negocial, concluirá, necessariamente, que a curto e médio prazo só tem a arriscar sanções económicas, tecnológicas e financeiras, relativamente toleráveis.

   Para a maior parte dos estados europeus e para a Rússia restará apenas um imenso impasse, em que os interesses económicos prevenirão a imposição de sanções generalizadas.

  A desorientação diplomática acentuar-se-á tanto quanto os Estados Unidos não conseguirem articular uma ameaça militar credível em contraponto às vias negociais.

  O impasse será, no entanto, pretexto mais do que suficiente para galvanizar a propaganda de guerra islamita na Europa e para levar o petróleo à escalada dos 100 dólares/barril.


Jornal de Negócios
16 Agosto 2006

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domingo, 2 de setembro de 2012

O pico da polémica

 Oil sands open-pit mines, Alberta, Canada

   O consenso mínimo foi expresso pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que aponta para cenários em que as temperaturas poderão subir de 1,1 a 6,4 graus no final do século.

   As reduções necessárias nas emissões de gases com efeito de estufa até 2020, ou mesmo 2050, para tentar evitar uma alta de temperatura superior a 2 graus irão coincidir com o declínio da produção de petróleo e a transição para uma economia que terá de superar a dependência dos hidrocarbonetos.

   As estimativas dos especialistas da ONU sobre mudança climática vão a par da contínua polémica sobre o pico do petróleo, o momento em que a exploração dos recursos disponíveis entrará em declínio.

Dentro em breve ou daqui por 40 anos
   Os estudos recentes apresentam perspectivas contraditórias e têm implicações substanciais para as estratégias de combate ao aquecimento global.

   O Centro de Pesquisa de Energia do Reino Unido conclui pelo crescente declínio da produção de petróleo convencional (excluindo combustíveis líquidos extraídos de areias e xitos betuminosos, carvão, gás natural e biomassa).

   Mais de dois terços da presente capacidade de produção terão de ser substituídos até 2030 para manter o actual nível de extracção, o que implica, por seu turno, um incremento anual rondando os 3 milhões de barris/dia (a Arábia Saudita produz presentemente 3,8 milhões de barris/dia).

   A possibilidade do declínio irreversível da produção, ou, na melhor das hipóteses, da estagnação por alguns anos seguida de queda abrupta, ocorrer antes de 2030 é tida como provável e a ocorrência de uma quebra nos níveis de extracção ainda antes da década de 2020 surge como "um risco significativo".

   O relatório pode ser consultado aqui:
http://www.ukerc.ac.uk/support/Global%20Oil%20Depletion
   Já os consultores da IHS Cambridge, liderados por Daniel Yergin, consideram possível um crescimento da produção sustentada de 92 milhões de barris/dia em 2009 para cerca de 115 milhões de barris/dia até 2030, podendo manter-se esse nível durante duas décadas.

   A recente crise provocou cortes de 19% nos investimentos no sector petrolífero e do gás natural em 2009, em relação ao ano anterior, mas o previsível aumento da procura obrigará ao retomar do investimento tecnológico para explorar novas jazidas, as areias betuminosas de Alberta, no Canadá, etc., porque, apesar da aposta em fontes renováveis, o petróleo satisfaz 40% das necessidades de energia.

   O estudo, que estima as reservas totais em 4,8 triliões de barris e a produção, até à data, em 1,1 triliões, está disponível aqui:

http://www.cera.com/aspx/cda/client/report/report.aspx?KID=5&CID=10720#top
   A Agência Internacional de Energia admite, por seu turno, que a produção petrolífera chegue aos 106 milhões de barris/dia em 2030, enquanto especialistas das universidades de Uppsala, Adelaide e Liverpool
(cf. http://www.tsl.uu.se/uhdsg/Publications/PeakOilAge.pdf) calculam que a extracção já entrou em declínio e o nível máximo ficará pelos 75 milhões de barris/dia dentro de duas décadas.

Uma transição turbulenta

  O petróleo e demais combustíveis fósseis são apenas um dos factores, num contexto de aumento dos consumos de energia, que, numa projecção da Agência Internacional de Energia, poderão, na ausência de medidas governamentais de contenção, crescer 40% nas duas próximas décadas em relação aos níveis de 2007, ao mesmo tempo que se torna necessário reduzir os custos ambientais energéticos.

   A conjugação de riscos geopolíticos, impedindo a exploração de reservas provadas, prováveis e potenciais de petróleo (questão menos premente para o gás natural, que poderá prover ao consumo até pelo menos 2060), os custos de perturbações nos fornecimentos de energia reduzindo a produção e comercialização de alimentos, a escassez de água, tornam ainda mais difícil acertar políticas globais de redução das emissões de gases com efeitos de estufa.

   O petróleo, no entanto, é o combustível político por excelência e uma das matérias-primas mais sensíveis à especulação financeira potenciada nos últimos anos pelo declínio do dólar.

   Para a OPEP, que representa 40% da produção, a conjuntura é animadora. O barril entre os 75 e os 80 dólares é preço presentemente aceitável para os 12 estados produtores. Significativas reservas de crude nos principais consumidores, em particular nos Estados Unidos, e um aumento lento da procura auguram para os primeiros meses de 2010 um mercado petrolífero longe das convulsões de 2008 e 2009.

   Mas a Cimeira de Copenhaga vai acabar por marcar mais um passo na transição para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis e a competição pelo acesso a um recurso escasso irá agravar-se no imediato e, aqui, o petróleo jogará um papel fundamental.

   Toda a eventual melhoria ambiental acabará por ser feita à custa dos produtores de petróleo e muito rapidamente o estatuto político desses países irá degradar-se e pagar boa parte da factura dos custos da transição. As repercussões financeiras e a turbulência, sobretudo no Médio Oriente, na Rússia e entre os produtores africanos, não vão tardar a fazer-se sentir.

Jornal de Negócios
09 Dezembro 2009

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma nacionalização arriscada





   O presidente Evo Morales concretizou a prometida nacionalização do gás e do petróleo bolivianos, mas ao impor condições excessivas aos investidores estrangeiros arrisca-se a um braço de ferro que poderá sair-lhe muito caro.

   O decreto presidencial, cujos termos precisos ainda não são totalmente conhecidos, obriga as empresas estrangeiras a entregar a totalidade da produção de petróleo e gás à companhia estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos e a renegociar os contratos no prazo máximo de seis meses.

   A empresa estatal boliviana passará a controlar a comercialização de hidrocarbonetos, estabelecendo as condições, volumes de vendas e preços para os mercados interno e externo.

   O estado boliviano assumirá a maioria do capital accionista, à semelhança do modelo de empresas mistas seguido por Hugo Chávez na Venezuela.

    La Paz pretende, ainda, realizar auditorias às petrolíferas estrangeiras para determinar os reais custos de investimentos, amortizações, de operação e a rentabilidade das empresas.

   As companhias que exploram as duas jazidas com maior capacidade de produção, neste caso a brasileira Petrobras e a espanhola Repsol, deverão entregar ao estado 82 por cento do valor gerado nestas explorações, em vez dos 50 por cento estabelecidos o ano passado.

   A empresa estatal pagará nos restantes casos 50 por cento do valor da produção às companhias estrangeiras que ficarão relegadas para o estatuto de operadoras.

   A assunção pelo estado da propriedade dos hidrocarbonetos privatizados em 1996 é o prelúdio a medidas do mesmo teor para todos os recursos naturais, segundo afirmou Morales, que promete a próxima repartição de terras, sobretudo no leste do país onde prospera o cultivo de soja.

   As vendas de gás e petróleo cifraram-se em 1,3 mil milhões de dólares no ano passado, o equivalente a metade das exportações bolivianas e neste braço de ferro do governo de La Paz com as companhias estrangeiras, 26 no total, Morales não conta com trunfos fortes.

   Morales não dispõe de uma significativa quota de mercado num sector estratégico, como é o caso de Hugo Chávez com o petróleo, já que a Bolívia apesar de possuir as segundas maiores reservas de gás natural da América Latina - 1,38 mil milhões de metros cúbicos - não se conta sequer entre os vinte maiores produtores mundiais e tem um peso exclusivamente regional.

   O estado boliviano não conta com meios financeiros, nem humanos para investir e gerir o sector cuja exploração começou apenas em 1994 e a aliada Venezuela não está em condições de prover técnicos ainda que possa, no imediato, fornecer ajuda financeira de emergência no caso de um redução importante das operações das empresas estrangeiras.
                         
                                       Investimento em queda

    O investimento estrangeiro no sector energético cifra-se em 3,5 mil milhões de dólares, mas está em queda devido à instabilidade política.

     Os dois grandes parceiros negociais são a Repsol, com quase mil milhões de euros de investimentos desde 1995, e a Petrobras.

   Ora, desde a eleição de Morales, em Dezembro último, a Petrobras suspendeu um plano de investimentos de 5 mil milhões de dólares e a Repsol projectos no montante de 476 milhões de dólares.

   Enquanto eram aguardados os termos da nacionalização outros planos para o sector energético foram postos de lado, como a hipótese de venda de gás boliviano ao Chile - reavivando-se, paralelamente, o diferendo sobre os territórios da costa do Pacífico perdidos por La Paz, em 1884 - sem que esteja sequer definido o programa de tratamento industrial e distribuição de gás para o mercado interno.

   A empresa brasileira com investimentos um pouco superiores ao da companhia espanhola controla as duas refinarias bolivianas que produzem a totalidade da gasolina do país e 70 por cento do diesel.

   Coube, ainda, à Petrobras o investimento adicional de 2 mil milhões de dólares no gasoduto que aprovisiona presentemente cerca de 60 por cento do gás natural consumido no mercado brasileiro: 25 milhões de metros cúbicos/dia.

    A Petrobras é, assim, a maior empresa da Bolívia, gerando entre 19 por cento do PIB e a atitude negativa do governo brasileiro, com Lula empenhado na reeleição presidencial, vai obrigar Evo Morales a ceder e baixar as expectativas com consequências políticas imprevisíveis.

   O trunfo com que conta o líder aymara resume-se ao cálculo de que nenhum investidor estrangeiro está interessado em perder o acesso às reservas de gás e petróleo na Bolívia.

    A Repsol é a mais companhia mais exposta pois, apesar de ter revisto em Janeiro, em baixa as suas reservas provadas de gás na Bolívia, estas ainda representam 18 por cento do total das reservas da empresa espanhola.

   No entanto, apesar de ter investido quase mil milhões de euros na Bolívia as operações da Repsol no país contribuíram apenas para 3 por cento dos resultados líquidos no ano passado.

   O gás e petróleo boliviano representam muito menos em termos de reservas provadas para os restantes grandes investidores: 4 por cento para a Bristish Gas, 2,8 por cento para a Petrobas e menos de 1 por cento para a BP e a Total.

    Assim sendo, as probabilidades dos investidores brasileiros e espanhóis recusarem as condições de Morales são bastante fortes, tanto mais que nenhum concorrente está em condições de se lhes substituir a curto prazo.

   Depois de ter mobilizado a maioria índia com um programa indigenista e nacionalista, Morales não se pode arriscar a baixar as expectativas sob risco de a Bolívia reverter à crise política e institucional dos últimos anos e não serão nem a legalização do cultivo da coca, nem a parceria com a Venezuela e Cuba na Alternativa Bolivariana das Américas a oferecer uma saída em caso de um eventual fracasso no braço de ferro com as companhias estrangeiras.

Jornal de Negócios
03 Maio 2006

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Um embargo arriscado




   A reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.
  
   Os efeitos contraproducentes do embargo petrolífero da União Europeia ao Irão deverão fazer-se sentir ainda antes do Verão e da imposição plena das sanções comerciais, económicas e financeiras dos Estados Unidos e de outros aliados como a Austrália.

   Obrigar Teerão a regressar às negociações sobre o programa nuclear é o objectivo declarado do embargo, mas, mesmo que as conversações sejam retomadas (sem garantias de obtenção de acordo satisfatório) a reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.

   O Irão terá de compensar a perda do mercado da UE (20% do total das exportações de crude) e, desde logo, interessa-lhe que os preços não caiam abaixo dos 100 USD/barril para aliviar perdas das receitas na ordem dos 70 mil milhões de dólares (metade do orçamento de estado) que obtém com vendas de petróleo.

   A Arábia Saudita ou a Rússia, dois exportadores com necessidade de financiarem dispendiosos programas sociais por motivos de segurança interna, partilham o mesmo interesse.

                                        Petróleo caro

   A procura global de petróleo deverá rondar este ano entre os 90 a 89 milhões de barris/dia, de acordo com projecções da "Agência Internacional de Energia" e da "Organização dos Países Exportadores de Petróleo", e a médio prazo o consumo continuará a superar a oferta.

   O Irão extrai actualmente cerca de 3,5 milhões barris/dia e a capacidade de produção extra da OPEP cifra-se em 2,85 milhões barris/dia (75% assegurada pelos sauditas), segundo a AIE, chegando aos 3,8 milhões barris/dia se forem considerados Iraque, Nigéria, Venezuela e Líbia.

   Caberá a Riade, além do Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos, assegurar a estabilidade do mercado, independentemente de eventuais acréscimos na produção iraquiana e líbia.

   A capacidade extra das monarquias do Golfo equivale praticamente às exportações iranianas que rondam os 2,5 milhões barris/dia e teoricamente estabilizará os preços, podendo-se negligenciar a valorização de variedades de crude próximas da qualidade iraniana como o "Urals" russo em relação ao "Brent" do Mar do Norte.

   O Irão deverá conformar-se com a redução a curto prazo das compras de outros importantes clientes como o Japão e a Coreia do Sul (17% e 9% das exportações, respectivamente), mas procura obviar a maiores perdas mantendo ou alargando as quotas de venda à China (20%) e Índia (17%).

                                     Um óbice estratégico

   Pequim adquiriu em 2011 ao Irão 557 000 barris/dia (um aumento de 30% em relação a 2010 ano em que as compras chinesas de crude no mercado internacional subiram 6,1%) e desde Dezembro as suas companhias pressionam Teerão para maiores descontos.

   Além dos investimentos no sector de hidrocarbonetos iraniano a China dificilmente poderá reduzir drasticamente a quota de vendas do seu terceiro maior fornecedor após a Arábia Saudita e Angola.

   A Índia, longe da diversidade de fornecedores conseguida pela China graças às compras em África e na América Latina, depende do Irão para 11% das suas necessidades de petróleo e 70% das suas importações provêm do Médio Oriente.

   As duas potências asiáticas, independentemente da avaliação que façam dos seus interesses estratégicos nas relações com Washington e em menor medida com a União Europeia, não podem ficar excessivamente dependentes de fornecimentos de petróleo das monarquias do Golfo.

   Nem a Pequim, nem a Nova Delhi interessa uma dependência energética sujeita à garantia de defesa e segurança em última instância dos Estados Unidos.

    Teerão irá tentar obviar aos danos do cerco norte-americano e europeu através de acordos de troca directa, da negociação de preços favoráveis - sobretudo a empresas chinesas e indianas - contornando o sistema bancário sujeito a sanções e por via do mercado negro.

   As eleições legislativas de Março irão demonstrar se as sanções reforçaram uma dinâmica política mais nacionalista e intransigente no Irão como é de esperar.

   A subida gradual dos preços do petróleo pode, entretanto, ser dada como  adquirida porque não é possível tentar excluir o quarto maior produtor do mercado mundial sem arriscar uma agitação dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2012

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O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Petróleo e Pizza





   A exploração de minérios raros foi descurada a partir dos anos 90, sobretudo nos Estados Unidos, quando a China aumentou a produção esmagando a maior parte da concorrência.

   Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.

   A incúria estratégica tem o seu preço.

   Uma daquelas estatísticas que passaram em claro nos idos de Agosto referia isto: pela primeira vez a Agência Internacional de Energia assinalava que o consumo de petróleo superara no segundo trimestre de 2009 os tradicionais níveis recorde dos meses de Janeiro a Março.

   Até agora o Inverno nas economias desenvolvidas do Hemisfério Norte justificava um consumo acrescido, mas, as importações crescentes de países em desenvolvimento como a China e o Brasil, no Hemisfério Sul, alteraram os padrões.

   No caso da China as celebrações do Ano Novo, entre Janeiro e Fevereiro, levam a um abrandamento da actividade económica, mas, desta feita, os níveis de consumo de petróleo indiciam que as economias em desenvolvimento, sobretudo a chinesa, estão prestes a modificar um padrão tradicional.

   Poderia ser coisa conjuntural de somenos importância, consequência da retracção económica a Ocidente, mas, contando com outras economias, como a indiana ou indonésia, que divergem dos padrões sazonais de consumo norte-americanos e europeus, alguma coisa está a mudar.

   Em rigor está em causa até a lógica de velhas regras que obrigam, por exemplo, a ponderar evitar atacar o Irão durante o pico invernoso de consumo de petróleo no Hemisfério Norte.

                                            ANGOLARES

  O aumento do consumo doméstico de matérias-primas torna ainda mais premente para Pequim a garantia de que os fluxos de importações de petróleo não podem de forma alguma ficar dependentes de interesses alheios.

   Um caso exemplar tem a ver com Angola.

   Pequim tornou-se no maior parceiro comercial de Luanda desde 2006 e adquire 29% das exportações de petróleo angolano.

   Angola, a caminho de superar a Nigéria como maior produtor africano, provavelmente dentro de quatro anos, é o segundo maior fornecedor de petróleo à China (15,5%) a seguir à Arábia Saudita (19,8%).

   As linhas de crédito abertas por Pequim a Luanda superam os 14,5 mil milhões de dólares, uma superlativa aposta em África, mas os investimentos das empresas chinesas no sector petrolífero em Angola ainda claudicam ante interesses ocidentais da Chevron-Texaco, Total e BP.

   A Sinopec adquiriu a sua primeira participação num bloco de exploração em 2004, mas as operações da petrolífera chinesa tem passado por dificuldades na relação com a Sonangol.

   Luanda, no entanto, acaba de dar luz verde para a Sinopec concorrer à exploração de novos blocos que irão a leilão em 2011.

  É a forma de ultrapassar a debilidade da participação chinesa na indústria petrolífera de Angola.

                             UM MONOPÓLIO CHINÊS

   Uma questão estratégica mexe com os minerais raros.

   A China controla 97 % da produção global e Pequim anunciou em Julho uma redução de 72% nas exportações de minerais raros até ao final do ano.

   Japoneses e norte-americanos admitem apresentar queixa na Organização Mundial de Comércio, mas as autoridades chineses justificam a decisão por razões ambientais, valor estratégico e necessidades de consumo doméstico.

   Essenciais para produtos de alta tecnologia civil e militar este conjunto de 17 minerais (disprósio, xenótimo, érbio, etc.) encontram-se em muitas regiões, do Brasil à África do Sul, concentrando-se os maiores depósitos na Mongólia Interior, Califórnia e Austrália Ocidental.

   A exploração de minérios raros foi descurada a partir dos anos 90, sobretudo nos Estados Unidos, quando a China aumentou a produção esmagando a maior parte da concorrência.

   Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.

   A incúria estratégica tem o seu preço.

                            ALEMÃO DE OLHO NA CHINA

   Agrura de Verão tem sido coisa que veio para ficar.

   As economias da Zona Euro andam arrimadas à expansão da Alemanha, mas a recuperação alemã assenta no sector exportador e depende cada vez mais das vendas à China.

   Em Portugal não escasseou quem notasse que o próprio impulso das exportações nacionais para a Alemanha (aumentaram 7,9 % entre Janeiro e Maio em relação ao mesmo período de 2009), dada a anemia dos Estados Unidos, está, em última instância, dependente do acréscimo do consumo chinês.

   Berlim continua a ter nos parceiros da União Europeia o seu principal mercado de exportação: dois terços dos 800 mil milhões de euros anuais de vendas ao estrangeiro ficam-se pela Europa comunitária.

   As exportações alemãs para a China são, no entanto, a vertente mais dinâmica tendo aumentado cerca de 60 % este ano, mas é insustentável esperar que se mantenha este ritmo.
 
   A Volskwagen vende na China um de cada quatro veículos que produz e já está a estudar formas de minimizar a previsível quebra de receitas que possa ocorrer se as vendas abrandarem no mercado chinês.

   Empresas como a Siemens ou a BASF começam, por outra lado, a ver com inquietação crescente rivais chinesas em vias de se tornarem competidoras nas áreas de alta tecnologia.

   Por enquanto, somam-se apenas indícios, mas histórias atrás de histórias acerca de inovações chinesas em certos sectores, tecnologia do vidro ou células solares, por exemplo, começam a gerar perplexidades sobre riscos futuros.

   China concorrente e China compradora, estão, portanto, à vista e à légua.
                            
                                   PIZZA E PAUZINHOS

   Há, também, coisa diferente, e não menos significativa.

   A empresa espanhola Telepizza firmou acordo com investidores chineses para avançar a partir de Xangai, China afora.

   A Telepizza tem 600 estabelecimentos em Espanha e mais de 400 no estrangeiro, metade dos quais na América Latina.

    No ano passado 23 % da facturação de 500 milhões de euros foi assegurada pelas operações no estrangeiro e a China surge agora como grande aposta da empresa espanhola.

   O montante do investimento para a joint-venture em partes iguais com a Christine de Xangai, a maior empresa chinesa de panificação e pastelaria, não foi revelado, mas a Telepizza está certa de que encontrará um modelo de êxito adaptado ao mercado da China antes de alargar operações a Macau, Hong Kong e Taiwan.

   Quanto vale uma Telepizza ante a magnificência das grandes tradições da culinária chinesa?

HOJE MACAU
2 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=1802