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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Israel confronta-se com a sua fragilidade






   Os parcos dividendos da ofensiva contra Gaza lançam as maiores dúvidas sobre a capacidade de Israel poder aventurar-se num ataque unilateral ao Irão sem sofrer um incomensurável desaire.

   Uma semana de bombardeamentos deixou a claro que, salvo uma inviável reocupação de Gaza temida pela própria população judia, Israel não conseguirá eliminar a ameaça dos mísseis do Hamas e de outras organizações islamitas.

   Uma trégua, implicando a suspensão do lançamento de mísseis a troco do aligeiramento do bloqueio imposto por Israel há cinco anos, não poderá obviar ao rearmamento do Hamas e demais organizações palestinianas.

   Os esforços israelitas para destruir redes de contrabando, como, por exemplo, os ataques ocorridos no Sudão, estão condenados ao fracasso dada a situação de insegurança na península do Sinai e o apoio do governo islamita do Cairo aos confrades do Hamas.

  Além da frente sul de Israel, sujeita a ser fustigada por mísseis de fraca precisão, também áreas do centro do país e mesmo Telavive e Jerusalém estão agora na mira de mísseis Fajr 5 de origem iraniana com um alcance de 75 quilómetros.

  A notória melhoria da capacidade do Hamas e da Jihad Islâmica no fabrico, montagem, armazenamento e lançamento de mísseis permitirá recuperar a curto prazo a degradação das suas capacidades ofensivas provocada pela actual investida israelita.

   Os inimigos em Gaza representam uma ameaça tão perigosa e destabilizadora quanto o Hizballah a norte, apesar da segurança relativa oferecida pelo sistema de defesa antimísseis Cúpula de Ferro.

   A constatação de Israel da impossibilidade de desalojar o Hamas fragiliza Mahmoud Abbas que aguarda o reconhecimento pela Assembleia Geral da ONU da Autoridade Palestiniana como estado observador.

   A ameaça de retaliações de Israel e dos Estados Unidos no caso de promoção do estatuto internacional palestiniano -- designadamente através do congelamento de contribuições e financiamentos à ONU e à Autoridade Palestiniana -- contribui para alienar os palestinianos da Cisjordânia que vêem os seus representantes incapazes de obter concessões.

   Nenhum avanço quanto ao estatuto de Jerusalém, o congelamento e desmantelamento de colonatos judaicos, o direito de retorno de refugiados e o controlo de recursos hídricos.

   Neste impasse aumenta o risco da Fatah perder o controlo da Cisjordânia e do ressentimento dos árabes israelitas -- 20% da população do estado hebraico -- extravassar em protestos de rua, enquanto na Jordânia se reforça as exigência dos Irmãos Muçulmanos que reclamam ao Rei Abdullah II o corte de relações com Israel.

   Na frente norte, onde a imponderabilidade da guerra civil na Síria condiciona o Hizballah e priva Israel de um inimigo fiável, o estado hebraico confronta-se com as consequências do fracasso estratégico do confronto de 2006 que consagrou os xiitas libaneses como irredutível força militar.

   A retaguarda israelita apresenta-se, portanto, muito insegura e a população judia acaba de sofrer novo choque psicológico ao ser confrontada com acrescida vulnerabilidade a ataques de mísseis.

   O risco de isolamento diplomático no caso de Israel enveredar por acções militares que resultem em significativas baixas civis entre o inimigo começa também a fazer-se sentir entre uma população que, na ausência de garantias credíveis de segurança, tenderá, no entanto, a votar em forças políticas que rejeitam qualquer compromisso territorial.

   Perdido o contrapeso estratégico que representava a Turquia o isolamento israelita no Médio Oriente é avassalador.

   A conjugação pontual de interesses contra o Irão com as monarquias sunitas do Golfo, o Arzebeijão e alguns grupos curdos não basta para Israel se lançar numa eventual acção militar com ou sem apoio prévio dos Estados Unidos.

   A extrema fragilidade da situação nas conflituosas fronteiras de Israel obriga a uma mobilização total de recursos e riscos generalizados para os civis judeus em caso de guerra com o Irão, nova ronda de confrontos em todas as frentes, e esta realidade só a pouco e pouco começa a ser compreendida.

Jornal de Negócios
21 Novembro 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

Blair das Arábias




   O barão Michael Abraham Levy termina hoje as funções de enviado especial do primeiro-ministro do Reino Unido para o Médio Oriente e o deputado trabalhista por Sedgefield, Anthony Charles Lynton Blair, prepara-se para assumir o cargo de enviado especial do Quarteto, o grupo negocial USA-UE-Rússia-ONU para a desordem israelo-palestiniana.

   Nada consta de útil quanto aos cinco anos de pretensa mediação levantina do empresário milionário da música pop britânica, líder da comunidade judaica em terras de Isabel II, angariador de fundos e influências por conta dos trabalhistas, elevado por Blair à Câmara dos Lordes em 1997, que continua a contas com a justiça por alegadas vendas de títulos nobiliárquicos em prol de sustento ao governo e ao partido.

   Muito consta, por outro lado, da maquinação da futura encarnação de Tony Blair fruto de meses de congeminações em Washington que desconcertaram as chancelarias.

   Desde que a nomeação de Blair começou a ser ventilada na semana passada por Condoleezza Rice passaram off the record para a imprensa votos de consternação da parte do ministro dos negócios estrangeiros alemão Frank-Walter Steinmeier que presentemente lidera a representação europeia no Quarteto.

   Reticências sérias chegaram também a público por via do denodado Javier Solana e o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov, após manifestar umas quantas objecções, optou por deixar correr o marfim.

   Gordon Brown fechou-se em copas e o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon viu-se reduzido à sua impotência que começa a tornar-se preocupante.

                       UM MEDIADOR DESCONCERTANTE

   O Quarteto foi criado em 2002 na sequência da declaração de Junho de George W. Bush a favor da criação de um estado palestiniano independente que oferecesse garantias de segurança a Israel.

   Em Abril de 2003, o Quarteto apresentou um plano: o Roteiro de Paz.

  Visava uma solução final e compreensiva do conflito israelo-palestiniano a concretizar-se em 2005. O objectivo passava pelo estabelecimento de um estado palestiniano democrático e independente e acordos de paz entre Israel e todos os estados árabes.

  Mahmoud Abbas tornou-se, em Março de 2003, primeiro-ministro de Yasser Arafat e o Quarteto apostou na institucionalização de um estado palestiniano.

  Na expectativa da retirada unilateral israelita de Gaza, concretizada em Agosto de 2005, o Quarteto nomeou, logo em Maio, o seu primeiro enviado especial: o antigo presidente do Banco Mundial, o australiano naturalizado norte-americano James Wolfensohn.

   O enviado nem um ano esteve no cargo. Wolfensohn demitiu-se em Abril de 2006, argumentando ser impossível instituir um estado palestiniano devido à vitória eleitoral do Hamas em Janeiro desse ano, aos crescentes conflitos políticos entre os palestinianos e às obstruções de Israel.

   Agora, o Quarteto não tem plano para relançar negociações e surge Blair por pressão de Bush.

   A credibilidade como mediador levantino do político que esta quarta-feira deixa a chefia do governo de Londres é quase nula. Blair foi com Bush o impulsionador da ocupação falhada no Iraque. No Verão do ano passado alinhou com Washington para atrasar uma trégua na guerra do Líbano de modo a dar tempo a Israel para tentar vencer o Hizballah.

   Não se vê que confiança Blair possa inspirar a palestinianos e aos estados árabes que são parte fundamental das negociações por mais que algum cínico avente que as possíveis conivências de Blair com as luvas pagas pela BAE Systems para venda de caças Eurofigher Typhoon à Arábia Saudita possam abrir portas em Riade.

   Israel tem, por sua vez, certas reservas porque Blair se opôs à expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia, mas, ainda assim, o primeiro-ministro Ehud Olmert vê com bons olhos a chegada de Blair às cercanias de Gaza.

   As pretensões israelitas de ocupação de territórios na Cisjordânia, contestadas por americanos, europeus, russos e a ONU, levantarão sempre questões delicadas seja quem for o mediador e não será por minudências que o governo de Telavive recusará um putativo mediador relativamente compreensivo.

                                 A AMBIÇÃO QUE TUDO CEGA

  No seio do Quarteto, a situação é igualmente complicada.

  A Rússia não tem confiança num chefe de governo que fez frente a Vladimir Putin e as tentativas frustradas de Moscovo para levar o Hamas a dialogar seriamente com Israel deixaram um amargo de boca ao Kremlin.

  Na União Europeia, Javier Solana verá a sua posição de mediador über alles comprometida com eventuais iniciativas paralelas de Blair e a maior parte dos estados membros duvidam da viabilidade de uma opção sustentada por Washington de apoio declarado à Fatah da Cisjordânia para isolar e levar à bancarrota o Hamas em Gaza.

  O sucessor Gordon Brown tem o mesmo problema, mas, pelos vistos, ninguém quer de momento opor-se a Bush.

  Boa parte dos parceiros europeus e a Rússia não parecem, aliás, alimentar qualquer esperança para próximos êxitos diplomáticos e preferem que outros se queimem em negociações condenadas ao fracasso.

  Tony Blair sai do governo com apenas 54 anos e tem compreensivelmente grandes ambições.

   O diálogo inter-religioso e civilizacional constam dos planos de um anglicano de simpatias católicas, o aquecimento global e suas consequências são motivação cara a político com um mínimo de discernimento, o desenvolvimento de África é outra questão a motivar iniciativas de estadista na reserva planetária.

   Agora, o avatar de enviado especial para o Médio Oriente por parte do Quarteto redunda num convite envenenado que russos e boa parte da burocracia e dos governos da União Europeia deixam sobrar para um político ambicioso que invoca o êxito negocial na Irlanda do Norte como exemplo para o Levante.

   O mais extraordinário é que o próprio Blair, já para não falar de Bush que é caso à parte, continua completamente cego quanto às nefastas consequências da invasão do Iraque para a sua credibilidade de estratego.

   O Médio Oriente, a Palestina e Israel, desorientam notoriamente até os políticos mais dotados, sobretudo, quando a folia do spin, do virar o bico ao prego, consomem vocações.


Jornal de Negócios
27 Junho 2007


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O milagre da ressurreição do Roteiro de Paz

Annapolis, 27 Novembro 2007


   Ressuscitar o Roteiro de Paz israelo-palestiniano, qual Lázaro morto e insepulto desde a sua apresentação oficial em Abril de 2003, requer um milagre à imagem de um Cristo.
   O Roteiro, traçado pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e ONU, propunha-se chegar a uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, mas nem sequer a primeira fase foi concretizada.
   Em Annapolis voltou assim a falar-se da renúncia mútua à violência e do reconhecimento do direito à existência de dois estados no território do antigo Mandato britânico da Palestina aprovado pela Liga das Nações em 1922.

   Reler os termos do Roteiro é um exercício elucidativo sobre tudo o que tem vindo a falhar.

   À Autoridade Palestiniana de Yasser Arafat cumpria fazer cessar todos os actos terroristas, reestruturar os serviços de segurança e reformar a administração para preparar a instauração de um estado independente.

   Israel, sob a liderança de Ariel Sharon, deveria, por sua vez, parar com todas as operações que ameaçassem a integridade dos civis palestinianos e adoptar medidas para normalizar a vida dos cidadãos dos territórios e, à medida que melhorassem os padrões de segurança e a cooperação com as autoridades palestinianas, retirar das áreas ocupadas desde Setembro de 2000 no auge da Segunda Intifada.

   Finalmente, de acordo com a primeira fase do Roteiro, seria congelada a expansão de colonatos judeus e Israel procederia, ainda, ao desmantelamento dos colonatos construídos desde 2000.

                                    Um roteiro esfrangalhado

   A retirada unilateral de Gaza decidida por Ariel Sharon em 2005, o subsequente triunfo do Hamas nas eleições legislativas palestinianas de Janeiro de 2006, a guerra entre os islamitas e a Fatah que culminou na expulsão cinco meses depois dos homens de Mahmoud Abbas de Gaza, transformaram irremediavelmente a situação no terreno.

   Israel, por seu turno, prosseguiu a expansão dos colonatos na Cisjordânia, com a intenção de anexar Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 250 mil residentes judeus nos territórios ocupados.

   O fracasso da ofensiva israelita contra o Hizballah no Verão de 2006 afastou a hipótese de futuras retiradas unilaterais ao levar à admissão por parte de Telavive de que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, poderiam oferecer garantias de segurança a Israel.

   A neutralização de risco militar por parte dessas entidades clientares, graças a uma capacidade de dissuasão esmagadora por parte de Israel, implicava, ainda, que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   A administração norte-americana ante o impasse tentou desde a tomada do poder pelo Hamas em Gaza convocar um encontro internacional, à imagem da Cimeira de Madrid organizada em 1991, após a primeira guerra do Golfo, de forma a assumir alguma iniciativa diplomática e obviar à erosão provocada pela desordem no Iraque.

                            A conjuntura não propicia milagres
 
   Annapolis seria à primeira vista um bom ponto de partida dada a presença de todos os estados da Liga Árabe.

   O encontro no Maryland representava, sobretudo, uma oportunidade para Washington agregar estados árabes, em particular a Síria, a uma neutralização e pacificação do Iraque ao mesmo tempo que isolava o Hamas, o Hizballah e o Irão, a troco da promessa de apoio a Mahmoud Abbas e pressão sobre Israel. 

   Os 22 estados árabes foram, no entanto, a Annapolis na base do plano saudita de 2002 para normalização das relações com Israel a troco da retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967 e de uma solução justa para a questão dos refugiados palestinianos. Os objectivos árabes são, ademais, muito díspares.

   Riade tenta essencialmente evitar um isolamento total do Hamas e o alastrar da guerra civil palestiniana. Uma radicalização sunita islamita da Palestina ao Egipto é capaz de ameaçar a própria Arábia Saudita e oferece oportunidades ao Irão xiita para destabilizar a dinastia de Saud.

   O risco de retorno da guerra civil libanesa, com a consequente influência acrescida de Teerão, obriga, também, os sauditas a tentar levar Washington a empenhar-se numa mediação que, além de obrigar Israel a concessões, garanta, pelo menos, o status quo no Líbano.

   Para a Síria, a oportunidade de recolocar na agenda a questão dos Montes Golã poderá permitir o reforço da sua posição negocial no Líbano, atormentada pela implicação de Damasco no assassínio do primeiro-ministro Rafic Hariri em 2005, e, em termos ainda pouco claros, obter garantias de segurança depois do mal esclarecido ataque aéreo israelita a instalações militares sírias em Setembro.

   Todos os cálculos possíveis para um relançamento de negociações de paz esbarram, contudo, com a impossibilidade de Abbas ou Ehud Olmert puderem fazer concessões significativas.

                           Negociadores sem sustento político

   Abbas não tem condições para avançar nas negociações sem que Israel levante os controlos militares na Cisjordânia e aceite no mínimo discutir na base dos termos mediados por Bill Clinton há sete anos.

   Incapaz de se impor ao Hamas, Abbas só pode aceitar negociações que compreendam a redefinição de fronteiras, cabendo aos palestinianos pelo menos 94 por cento do território da Cisjordânia, a partilha de Jerusalém e compensações para os mais de 4 milhões de refugiados de forma a poder vir limitar a prazo a reivindicação do direito de retorno aos territórios de uma Palestina independente.

   Olmert, cuja principal preocupação passa pela militarização nuclear do Irão, verá a sua coligação governamental desfazer-se, com a saída dos ultra-ortodoxos do Shas e dos nacionalistas de Yisrael Beitenu, caso conceda negociar nestes termos e, limitado ao apoio parlamentar dos partidos árabes e do Meretz, de centro-esquerda, terá, ainda, de enfrentar as ambições de Ehud Barak, à frente dos trabalhistas, e do líder do Likud, Benjamin Nethanyau.

    A hipótese de até ao final do mandato de George Bush palestinianos e israelitas alcançarem qualquer acordo viável é, consequentemente, nula.

   As expectativas de mero relançamento de negociações criadas em Annapolis são insuficientes para criar uma nova dinâmica política e o agudizar da crise sobre o programa nuclear iraniano no próximo ano arruinará qualquer esperança de uma mediação norte-americana que possa levar Israel a concessões capazes de reforçarem a periclitante posição de Mahmoud Abbas.


Jornal de Negócios
28 Novembro 2007

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Atolados de Gaza ao Jordão

 Faixa de Gaza


   É a última quimera nas chancelarias europeias e de Washington: apoiar um governo da Fatah na Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, e isolar Gaza com a ajuda do Egipto e a cumplicidade das monarquias sunitas do Médio Oriente.

   A melhoria das condições de vida dos dois milhões e meio de palestinianos da Cisjordânia, graças à eficiência e lisura administrativas da Fatah e à boa vontade de Israel, será, neste cálculo, o factor decisivo para provar a existência de uma alternativa credível aos habitantes de Gaza que acabarão por repudiar o Hamas.

   Os progressos nas negociações entre a Autoridade Palestiniana e Israel acabarão neste cenário por selar o isolamento e impotência dos islamitas a quem serão negadas quaisquer concessões políticas. Ao Hamas apenas será concedido o acesso a ajuda humanitária de emergência, fluxos mínimos de abastecimentos – electricidade, água, combustíveis – e trocas comerciais para obviar ao colapso de Gaza.

   Num primeiro momento Israel aceitou desbloquear cerca de 400 milhões de dólares de impostos e taxas devidos à Autoridade Palestiniana.

  Abbas reiterou, por sua vez, o compromisso de reconhecimento dos acordos estabelecidos entre a Autoridade Palestiniana e Israel. A União Europeia comprometeu-se a retomar a ajuda financeira embargada desde a formação do governo do Hamas em Março de 2006 e Washington pronunciou-se no mesmo sentido.

                                    A Fatah das quimeras

   Em Ramallah a nomeação para chefe de governo de Salam Fayyad, ministro das finanças entre 2002 e 2005, foi a solução encontrada dar uma nota de seriedade a um executivo sem figuras de peso político.

   Fayyad, que terá também a seu cargo as pastas dos negócios estrangeiros e das finanças, é, no entanto, apenas a face aceitável para uma reaproximação às capitais ocidentais. Os seus apoios políticos derivam do exterior, a sua margem de manobra está condicionada pelos interesses das facções da Fatah.

   O afastamento do antigo homem forte da Fatah em Gaza, Mohammed Dalan, foi entretanto consumado com a dissolução do Conselho Nacional de Segurança e a reorganização das forças de segurança ficou confiada a Abd Al Yahia, velho adversário de Arafat e falhado ministro do Interior nos idos de 2002.

   Al Yahia, que aos 78 anos é outra vez cara nova num sector fulcral da governação, reconheceu imediatamente não ter qualquer ideia de como impor em Gaza a ilegalização das milícias do Hamas, enquanto a Fatah prosseguia o desmantelamento das instituições ligadas aos islamitas na Cisjordânia.

   Independentemente do executivo nomeado por Abbas não ser reconhecido por um parlamento dominado pelo Hamas, cujos deputados são invariavelmente detidos por Israel, do presidente usurpar poderes e de ser impossível convocar eleições, a questão essencial tem a ver com a existência de uma efectiva dualidade de poderes: Gaza está nas mãos dos islamitas e a Cisjordânia sob controlo da Fatah.

   As duas forças não renegam o princípio de uma única entidade palestiniana, mas, na prática, agrava-se o fosso entre os habitantes de Gaza e da Cisjordânia.

   O primeiro problema para a Fatah será criar uma estrutura administrativa e de segurança na Cisjordânia expurgada de elementos do Hamas e gerir a ajuda internacional sem dar a impressão de que abandona à sua sorte os palestinianos de Gaza.

   A derrocada militar em Gaza não propicia grande confiança para o eventual esforço de apoio bélico à Fatah por parte de Israel, dos Estados Unidos e dos regimes árabes sunitas seus aliados.

   Práticas de boa governança são, por outro lado, impossíveis de criar num território sob controlo militar externo e dependente economicamente de Israel. Certas áreas da Cisjordânia – Nablus, por exemplo, onde o Hamas é maioritário – são tão ingovernáveis quanto Gaza.

   A segunda questão premente passa por Abbas conseguir que Israel liberte presos palestinianos, em particular o influente Marwan Barghouti, condenado a cinco penas de prisão perpétua, como sinal de boa vontade negocial.

   Dificilmente Israel cederá neste ponto e caso Barghouti voltasse a Ramallah constituir-se-ia à sua volta uma nova frente política capaz de agregar os descontentes da Fatah e islamitas próximos do Hamas e da Jihad Islâmica.

   Em terceiro lugar, os termos de eventuais negociações com Israel são absolutamente desfavoráveis à Fatah e condenam Abbas ao fracasso.

                            Israel sem interesse em concessões

   A esmagadora maioria dos israelitas recusa concessões territoriais que levem ao desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, que albergam 450 mil judeus, e apoia a manutenção da barreira de segurança e a fixação unilateral de fronteiras.

   Todas as sondagens indicam, ainda, que em Israel, após o fracasso da retirada unilateral de Gaza, o descalabro militar no Líbano e ante a persistência de ataques terroristas intermitentes oriundos dos territórios palestinianos, não existem condições políticas para negociações.

   Nem a partilha de Jerusalém é aceite, nem compensações aos quatro milhões de refugiados palestinianos estão em agenda.

   Transformar a Fatah numa entidade clientelar e subordinada numa Cisjordânia enxameada de colonatos e controlos militares israelitas é uma tentação impossível dado o irredentismo palestiniano.

   Após as primeiras tentativas de conversações Israel tentará convencer os seus aliados de que Abbas não reúne quaisquer condições para fazer valer compromissos de segurança e controlo administrativo na Cisjordânia.

   Israel terá ainda de negociar com o Hamas os controlos fronteiriços de Gaza e a passagem de boa parte da ajuda internacional que sustenta 85 por cento dos 1,4 milhões de palestinianos do enclave.

   Da parte do Cairo não se poderá esperar muito para evitar o contrabando e entrada de armamento em Gaza em contrapeso à ajuda internacional pois uma cooperação declarada com Israel não seria de bom-tom para o regime de Mubarak apostado no combate aos islamitas egípcios, parceiros do Hamas, mas necessitado da legitimidade que só a alegada solidariedade árabe confere.

   O Egipto, tal como a Jordânia ou a Arábia Saudita não podem, além disso, cortar as pontes com os islamitas palestinianos pois caber-lhes-á a curto prazo a tentativa de relançar negociações entre a Fatah e o Hamas.

                                         O crescente verde

   Os islamitas de Ismail Haniya em Gaza tenderão no imediato, por força da necessidade de negociar directamente com Israel, a evitar confrontos com o exército de Telavive e deixarão provavelmente a retórica de rejeição da existência do estado judaico para os seus correligionários exilados em Damasco sob a chefia de Khaleed Meshall a quem coube já, também, os primeiros sinais de abertura para negociações com Abbas.

   O sucesso da islamização de Gaza é uma incógnita e a possibilidade de actos de provocação e de acções terroristas a partir do enclave deixa em aberto a eventualidade de ataques israelitas que tenderão a ficar aquém da reocupação, apesar de Israel poder optar por estabelecer zonas tampão no norte e no sul do enclave.

   Os equilíbrios que vierem a ser conseguidos nas próximas semanas estarão dependentes de saber quem quebrará primeiro e da instável situação no Líbano.

   De um lado, o Hamas que caso se veja incapaz de administrar Gaza poderá optar por lançar novas ofensivas contra Israel.

   Do outro, Abbas que impotente para se afirmar como líder nacionalista capaz de arrancar concessões a Israel arrisca ver ruir o domínio da Fatah na Cisjordânia.

   Seja como for um nacionalismo palestiniano com uma vertente acentuadamente islamita tenderá a afirmar-se cada vez mais.

  Até porque por parte de Israel não se justifica presentemente fazer concessões aos palestinianos e nenhuma pressão norte-americana nesse sentido se fará sentir nos tempos mais próximos.



Jornal de Negócios
20 Junho 2007

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domingo, 2 de setembro de 2012

Nada de bom em Gaza


 
 
   Resta pouco tempo a Israel para declarar vitória e retirar de Gaza.
  
   A destruição da maior parte dos túneis de contrabando entre Gaza e o Egipto ainda não foi conseguida e, apesar dos ataques de mísseis do Hamas terem diminuído, o sul de Israel continua debaixo de fogo.
  
   Os combates em áreas urbanas e o arrastamento da ofensiva tornarão mais difícil a posição israelita e darão um peso político acrescido ao Hamas.

   O essencial dos termos de uma trégua é claro. Israel quer uma presença internacional no sul de Gaza para impedir o rearmamento do Hamas através do Egipto. Em troca aliviará o bloqueio a Gaza, permitindo fornecimentos de energia e bens essenciais, e, posteriormente, movimento de pessoas, desde que o Hamas pare com os lançamentos de mísseis.

   Para o Hamas o fundamental é ser reconhecido na prática como autoridade efectiva em Gaza, independentemente de europeus e norte-americanos classificarem a organização como terrorista, e assegurar o levantamento do bloqueio.

   Na negociação de uma trégua os islamitas poderão ainda aceitar libertar o cabo Gilad Shalit (capturado em Junho de 2006) e militares israelitas que venham a ser eventualmente feitos prisioneiros durante a presente guerra, caso Israel e a Autoridade Palestiniana concedam a liberdade a detidos do Hamas.

Duas Palestinas e um presidente desacreditado
   Em qualquer cenário o Hamas continuará a controlar Gaza e a capacidade negocial de Mahmoud Abbas, cujo mandato como presidente da Autoridade Palestiniana expira esta quinta-feira, será praticamente nula e confinada a áreas da Cisjordânia sob tutela efectiva do exército israelita.

   O Hamas poderá, ainda, jogar a cartada de não reconhecer Abbas como “presidente da Palestina”, uma eleição orquestrada pelo Conselho Central da OLP em Novembro de 2008, e recusar-se a participar nas eleições legislativas que deveriam ter lugar este ano, acentuado, assim, a divisão política entre Gaza e a Cisjordânia.

   A questão política de criação de um estado palestiniano viável e fora da órbita islamita não terá solução sem o desmantelamento da maior parte dos colonatos israelitas na Cisjordânia, a partilha de Jerusalém, um acordo sobre indemnização a cerca de quatro milhões de refugiados e a gestão concertada dos recursos de água.

   A divisão entre palestinianos, a experiência fracassada da administração da Fatah e a rejeição pelo Hamas do direito à existência do estado de Israel não auguram avanços nas negociações.

   Do lado de Israel, enquanto os Estados Unidos mantiverem a política seguida pelas recentes administrações democráticas e republicanas de fechar os olhos à expansão de colonatos, nenhum governo afrontará os colonos e muito menos aceitará negociar sem garantias efectivas de segurança.

Perspectivas negras

   O bloqueio no conflito israelo-palestiniano que condiciona, por sua vez, as negociações de paz com a Síria para retorno a Damasco dos Montes Golan, poderá vir a conhecer um desenvolvimento ainda mais negativo no caso da sucessão de Hosni Mubarak mergulhar o Egipto numa crise em que os islamitas venham a impor-se como uma das principais forças políticas.

   O crescente islamita, que a partir dos anos 80 começou a explorar o fracasso dos regimes e movimentos nacionalistas árabes, não será desbaratado tão cedo e, mais do que uma ameaça militar nuclear do Irão, é o principal desafio às monarquias do Golfo e da Jordânia, às autocracias do Egipto e da Síria, e um factor de destabilização do Líbano.

   Seguindo o exemplo de resistência dos xiitas libaneses do Hizballah na guerra do Verão de 2006 o Hamas tudo fará para chegar a um cessar-fogo como força política incontornável, independentemente da degradação das suas capacidades militares imediatas pela ofensiva israelita.

   A destruição de infraestruturas em Gaza e as baixas civis são irrelevantes para o Hamas na medida em que a devastação da guerra apenas aumenta a dependência da população face aos islamitas na falta de outras alternativas políticas.

   Os apoios políticos internacionais aos islamitas sunitas do Hamas podem resumir-se ao baluarte da minoria alauíta em Damasco, aos xiitas libaneses do Hizballah e ao Irão, mas se desta guerra a imagem do movimento sair fortalecida como um bastião da resistência anti-israelita então as consequências serão bem gravosas.

   No ataque ao Líbano em 2006 Israel viu posta em causa a sua capacidade de dissuasão militar convencional. Nesta ofensiva Israel arrisca perder capital político, alienando os aliados árabes dos Estados Unidos, retirando credibilidade a Mahmoud Abbas, agravando a hostilidade da sua minoria de cidadãos árabes (20% da população) e nada conseguido de melhor do que um triunfo militar sem futuro em Gaza.

A tenaz do Hamas e do Hizballah
   A ameaça dos mísseis Qassam, Grad, Katiusha e Fajr e o risco do Hamas aumentar a sua capacidade de fogo e alargar o raio de alcance dos ataques obriga qualquer governo israelita a empenhar-se em acções militares.
  
   As forças armadas israelitas não podem permitir que o sul do país – incluindo cidades como o centro industrial de Ashkelon ou Ashdod, o maior porto do país – seja alvo de ataques que, no pior dos cenários, podem vir a ser coordenados com o Hizballah, capaz de atingir, por sua vez, a maior parte do Norte e do Centro de Israel.

   Incapaz de esmagar militarmente o Hamas em Gaza, salvo mediante uma reocupação do território abandonado em 2005, Israel precisa de garantir que os islamitas não possam recuperar rapidamente a sua capacidade de
montagem e armazenamento de mísseis.
   Na impossibilidade de ocupar a faixa fronteiriça com o Egipto e sem poder contar com a cooperação do Cairo para evitar o contrabando de armamento e munições Israel não dispõe de soluções a prazo.

   Se o eleitorado israelita presumir que a guerra em Gaza não traz uma garantia real de segurança contra ataques de mísseis a guinada à direita nas eleições de 10 de Fevereiro será inevitável e o Likud de Benjamin Netanyahu tornar-se-á o parceiro indesejável de Barack Obama em qualquer tentativa de negociações no Médio Oriente.

   Uma paz podre em Gaza, um governo palestiniano desprestigiado na Cisjordânia, outra fronteira insegura no Líbano, novo impasse nas negociações com a Síria, um Egipto trémulo à espera da sucessão de Mubarak e, ao longe, a ameaça do Irão, tudo conspira para mais um ano terrível no Médio Oriente.


Jornal de Negócios
07 Janeiro 2009

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

A ilusão da paz

  (Saeb Erekat)


  A Fatah, de Mahmoud Abbas, e Israel estão enredados numa teia de ilusões sobre negociações de paz e a divulgação de documentos secretos pela Al Jazeera apenas veio confirmar a inviabilidade de qualquer acordo.
 
   Os documentos relativos a propostas palestinianas apresentadas ao longo da última década não contêm qualquer revelação significativa, mas embaraçam a Fatah ao contradizerem as posições públicas assumidas pela liderança da Autoridade Palestiniana acantonada na Cisjordânia.

Os líderes palestinianos não tomaram até agora iniciativas para preparar a sua opinião pública para eventuais concessões territoriais e sobre retorno de refugiados.

Tal como sucessivos governos israelitas, os negociadores palestinianos assumem que um acordo final, com apoio de Washington, seria apresentado como um documento não sujeito a discussão e meramente passível de ratificação por via parlamentar ou através de referendo.

A fuga de informações sobre propostas ou consensos pontuais acarreta necessariamente a mobilização de todos os opositores às inevitáveis cedências num acordo de paz e um avolumar das críticas à forma como são conduzidas as negociações.

Muitas cedências, imensa intransigência

Os documentos publicitados pela cadeia do Qatar e o diário londrino "The Guardian" foram obtidos com toda a probabilidade junto de antigos colaboradores da Unidade de Apoio às Negociações, criada em 1999 com juristas palestinianos formados no estrangeiro para assessorar juridicamente a Organização de Libertação da Palestina e o seu principal negociador, Saeb Erekat.

As concessões palestinianas referenciadas nos documentos fazem cair por terra as pretensões israelitas de que não conta com um parceiro negocial e demonstram que em 2008 e 2009 a Fatah se mostrou disposta a aceitar a maior parte dos colonatos judaicos em Jerusalém Oriental e a soberania israelita sobre os bairros judeu e parte do bairro arménio da Cidade Velha.

No final de Outubro de 2009, já depois da queda do governo de Ehud Olmert e do retorno ao poder em Março de Benjamin Netanyahu, o principal negociador palestiniano propõe mesmo a título particular aos mediadores norte-americanos a hipótese de uma comissão internacional supervisionar os lugares santos da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo, tal como admitiria a possibilidade de um estado palestiniano desmilitarizado.

Das actas e comunicações relativas às conversações fica também clara que o governo de Olmert aventou trocas territoriais que lhe permitissem manter os colonatos na Cisjordânia de Gush Etzion, Maale Adumin, Givat Zeev e Ariel, além de permutas de população, que acabarem por ser rejeitadas pela parte palestiniana.

Abbas e Erekat concederam, entretanto, no retorno simbólico de mais de 5 milhões de refugiados e seus descendentes das guerras de 1948 e 1967.

Os números avançados para um retorno simbólico, em regra entre 10 mil a 15 mil pessoas, referidos nestes documentos confirmam relatos avançados por outras fontes.

Relevantes são, no entanto, diversas declarações de Erekat rejeitando peremptoriamente que os refugiados palestinianos em estados árabes, designadamente no Líbano e na Jordânia, pudessem vir a participar num referendo sobre a ratificação de um eventual acordo de paz.

Para a liderança da Fatah, ainda antes de perder o controlo de Gaza para o Hamas, em 2007, qualquer hipótese de referendo seria limitada aos palestinianos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza.

Esta é, juntamente com as negociações sobre os lugares santos de Jerusalém/Al Quds, uma das questões mais controversas em que a retórica oficial da Fatah entra em completa contradição com a realidade das negociações diplomáticas.

A eventualidade de um estado palestiniano desmilitarizado foi de igual forma considerada por Erekat em contactos com os mediadores de Washington em 2009 numa fase em que o colapso negocial atingira um ponto de não retorno que as posteriores tentativas da Administração Obama não conseguiram desbloquear.

O Estado fantasma

Mais documentação irá nos próximos dias aportar novos dados quanto à conivência da Fatah com Israel no combate aos islamitas do Hamas, mas o essencial da controvérsia mostra claramente que, ante sucessivos governos israelitas que nunca abandonaram uma política expansionista na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a estratégia de concessões esteve desde sempre condenada ao fracasso.

Habbas, cuja mandato presidencial terminou em Janeiro de 2009 e tem sido prorrogado entre grande disputa jurídica, está agora confinado a uma estratégia de alcance limitado.

O primeiro-ministro Salam Fayyad prossegue, por um lado, uma política de consolidação de estruturas administrativas e de promoção económica na Cisjordânia que até agora registou alguns êxitos, sobretudo na criação de emprego, mas dependente da ajuda internacional e do interesse securitário de Israel.

A nível diplomático, a Autoridade Palestiniana tenta obter um reconhecimento diplomático internacional no quadro das linhas de fronteira de 1967 que, mesmo redundando numa proclamação de independência, em nada alterará as realidades no terreno.
Para Israel, o "status quo" serve perfeitamente e a consolidação dos colonatos assume um carácter irreversível.

O efeito perverso

Enquanto as relações de força não se alterarem em Israel, não há possibilidade de retomar negociações e a crise de legitimidade da Autoridade Palestiniana, reduzida a um controlo limitado de 40% da Cisjordânia e confrontada com uma alternativa islamita em Gaza, inviabiliza conversações.

Por fim, quando nova ronda de crises e confrontos obrigar ao retomar de negociações, sobrará um efeito perverso da publicação da documentação palestiniana sobre uma década de conversações falhadas.

Todos os negociadores palestinianos terão de assumir que a parte israelita irá exigir como ponto de partida negocial as maiores cedências que a Fatah admitiu em vão ao longo da última década.

Jornal de Negócios
26 Janeiro 2011

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Outra aposta falhada na Palestina

Incapaz de contestar a legitimidade do Hamas em matéria de lisura administrativa e combate à corrupção, o sucessor de Arafat tem tentado preservar poderes sobre as forças de segurança e impor-se, sem sucesso, como mediador face ao boicote ocidental e isra
Chegará domingo e a derradeira tentativa de Mahmoud Abbas para salvaguardar a sua autoridade presidencial claudicará numa confusão de propostas, documentos desencontrados, compromissos vagos e confrontos armados mortais que, a prazo, acabarão muito provavelmente por redundar na sua demissão.
Incapaz de contestar a legitimidade do Hamas em matéria de lisura administrativa e combate à corrupção, o sucessor de Arafat tem tentado preservar poderes sobre as forças de segurança e impor-se, sem sucesso, como mediador face ao boicote ocidental e israelita ao governo dos islamitas.
Valeu-se este mês da ameaça de convocação de um referendo para obviar à recusa do Hamas em reconhecer o estado judaico, mas basta considerar o documento que Abbas se propõe invocar para escrutinar a vontade dos palestinianos em negociar com Israel para desmascarar o bluff.
O chamado Documento de Reconciliação Nacional tem na sua origem uma primeira jogada para pôr Abbas em causa que teve lugar em Janeiro, pouco antes da bancarrota eleitoral da Fatah, quando as autoridades israelitas acederam a que Marwan Barghouti concedesse uma entrevista na penitenciária de Haridim.
Barghouti, líder das brigadas militares da Fatah, apelou, então, em declarações às cadeias televisivas Al Jazeera e Al Arabiya, à formação de um governo de salvação nacional com a participação de todas as forças políticas, incluindo o Hamas.
Sem se comprometer com Abbas e a liderança da Fatah em Gaza e na Cisjordânia, Barghouti - que purga desde 2004 cinco penas de prisão perpétua e se apresenta como líder alternativo às chefias tradicionais da OLP - reivindicou como plataforma de unidade política a criação de um estado palestiniano com capital em Jerusalém Oriental, no respeito pelas fronteiras anteriores à guerra de 1967, e defendeu o direito de retorno de mais de quatro milhões de refugiados.
Consumado o colapso da Fatah, Barghouti, na qualidade de secretário-geral da Fatah, surgiu de novo entre os signatários do Documento dos Presos de Haridim divulgado este mês, a par de outros detidos como o dirigente do Hamas Abdel Khalek Al Natsheh, Abdel Rahim Malouh, por parte da Frente Popular para a Libertação da Palestina, Mustafa Badarneh, pela Frente Democrática para a Libertação da Palestina e o xeique Sheikh Bassam AL Sa’di, da Jihad Islâmica.
A proposta dos presos de Haridim, que o presidente palestiniano sugere levar a referendo, retoma o plano avançado pela Liga Árabe em 2002, que toma por base em matéria de acertos territoriais a Resolução 242 da ONU, obrigando Israel à retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967.
No essencial propõe a criação de um Conselho Nacional que recupere em detrimento da Fatah a legitimidade perdida da Organização para a Libertação da Palestina, não reconhece explicitamente a existência do estado de Israel, reitera o direito de retorno e indemnização de mais de quatro milhões de refugiados, sem especificar, no entanto, se está em causa a sua eventual residência na totalidade dos territórios do Mandato Britânico.
Os líderes palestinianos no cativeiro apelam, ainda, à instituição de uma Frente de Resistência para coordenar politicamente acções militares nos territórios ocupados. É o consenso mínimo de facções nacionalistas e islamitas para salvaguardar um programa que permita manter a Autoridade Palestiniana como parceiro negocial de Israel e ante a comunidade internacional antes que se dilacere numa guerra civil.
Israel ganha tempo
Do lado israelita tudo isto é visto como uma oportunidade única para roubar definitivamente qualquer crédito à Autoridade Palestiniana. Não por acaso o estado israelita acedeu este mês à entrega de armas ligeiras à guarda pessoal do presidente Habbas, não condenou à partida a ideia de um referendo sobre eventuais fronteiras de um estado palestiniano, mas, tão pouco, renegou da política de definição unilateral de ocupação territorial na Cisjordânia.
A estratégia do governo israelita é clara: impor fronteiras unilaterais na Cisjordânia, anexando os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 200 mil residentes judeus nos territórios ocupados.
O objectivo estratégico israelita, independentemente da presença militar na Cisjordânia, pode resumir-se em termos de consagração da separação unilateral e é tão equívoco que se arroga ignorar o destino da minoria árabe em Israel, que em 2025 representará 22 por cento da população do estado hebraico, e a própria viabilidade económica de um estado independente palestiniano.
Segura do apoio de Washington, certa de que os equívocos e desacertos árabes obstam a iniciativas diplomáticas exequíveis, Israel conforta-se na ideia de que a imposição de fronteiras acabará por ser aceite como uma realidade no terreno e de que um eventual referendo palestiniano apenas agudizará o confronto entre islamitas e nacionalistas, sem que o Hamas se veja obrigado a reconhecer explicitamente o estado hebraico.
O braço de ferro entre a Fatah e o Hamas, seja na frente diplomática como ficou demonstrado esta semana na conferência ministerial, em Kuala Lumpur, do Movimento dos Não Alinhados, passando pela impotência do governo islamita em pôr cobro aos ataques da Jihad Islâmica a partir de Gaza e pela incapacidade em pagar os vencimentos dos seus 165 mil funcionários, alimentam nos círculos políticos e militares israelitas a ideia de que o colapso ou paralisia da Autoridade Palestiniana lhe dão tempo a ganhar para impor fronteiras unilaterais.
Daqui por uma semana, depois do Hamas pôr em xeque o referendo proposto por Abbas, recusando a sua realização ou negando-lhe qualquer significado em termos de reconhecimento do estado hebraico, será relembrado em Telavive e Jerusalém o acerto do dito do antigo chefe da diplomacia israelita Abba Eban que, nas conversações falhadas de 1973, sofismava que «os árabes nunca perdem uma oportunidade de perderem uma oportunidade».
Dramático e triste é que do lado israelita tal dito faça, também, todo o sentido porque a tentativa de compromisso interno entre facções palestinianas, condenada à partida devido aos objectivos radicalmente incompatíveis do Hamas e da Fatah, está a ser apenas aproveitada para demonstrar a ausência de parceiro negocial.
O consolo de Israel de que mais algum tempo será ganho para impor-se pela força no terreno é um desacerto a prazo porque a ocupação de territórios palestinianos não faz sentido estratégico, o traçado de fronteiras só será validado por via negocial, e o próprio ente democrático do estado israelita está condenado por negar direitos aos cidadãos árabes.

Jornal de Negócios
31 Maio 2006

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O crescente verde na Palestina

 
 
   A bancarrota política da Fatah, depois de quatro décadas de liderança do movimento nacionalista palestiniano, consuma-se hoje nas eleições legislativas que marcam a ascendência dos islamitas do Hamas.

   A ocupação e cerco por parte de Israel, uma cultura de corrupção, nepotismo, autoritarismo, violência, e a emergência, durante as intifadas desencadeadas em 1987 e em 2000, de líderes e grupos armados radicais e islamitas em desafio à velha guarda da Fatah culminam numa votação praticamente imposta pelos Estados Unidos para obviar a uma degradação ainda mais brusca da situação da Autoridade Palestiniana.

   Sucessivos adiamentos das eleições agudizaram as divergências entre as facções da Fatah e desqualificaram a liderança de Mahmoud Abbas e do ex-primeiro-ministro Ahmed Qurei.

   As pressões de Washington levaram Israel a ter de aceitar a participação eleitoral do Hamas, enquanto a Abbas foram negados mais pretextos para adiar a votação que deveria ter tido lugar em Julho.

   A Autoridade Palestiniana não conseguiu capitalizar a nível interno a retirada unilateral israelita de Gaza e, sem apoios diplomáticos, nem sequer esboçou uma resposta às iniciativas políticas de Sharon que ignoraram sistematicamente os líderes da Fatah.

   Um ano depois de suceder a Arafat, Abbas é um presidente falhado que ora admite demitir-se antes de terminar o mandato em 2008 por impossibilidade de cumprir qualquer programa de reformas coerente, ora especula sobre a possibilidade do ex-ministro das finanças Sallam Fayad conseguir formar um governo capaz de satisfazer as facções da Fatah, ganhar apoios internacionais e, quiçá, chegar a negociar com Israel.

   Obrigada a convocar eleições dez anos depois das primeiras legislativas, só um compromisso de última hora permitiu evitar a divisão da Fatah e a apresentação de uma lista anti-velha guarda, liderada por Marwan Barghouti - o pequeno Napoleão de Ramallah, detido em Abril de 2002 e condenado, dois anos depois, por Israel a cinco penas de prisão perpétua -, e pelos principais homens-forte das forças de segurança palestinianas, Mohammed Dahlan e Jibril Rajoub.

   O compromisso guindou Barghouti a cabeça-de-lista da Fatah e incorporou militantes das Brigadas de Al Aqsa como candidatos do movimento de Mahmoud Abbas que, assim, desfazia qualquer dúvida que ainda restasse acerca da efectiva vontade das forças de segurança palestinianas em desarmarem e controlarem as milícias.

   As intrincadas concessões, apresentadas como um primeiro passo para o rejuvenescimento do aparelho político, levaram mais de 130 membros da Fatah a apresentarem-se como independentes e outros dirigentes com grande peso a nível local a recusarem candidatar-se.

    As possibilidades da Fatah voltar a dominar o Conselho Nacional Palestiniano são, ainda, prejudicadas pela adopção de um sistema eleitoral misto para a eleição dos 132 lugares em disputa.

   Metade dos mandatos será atribuída na votação por maioria para o candidato e partido a nível de distrito; os restantes 66 serão definidos por critério de representação proporcional na escolha de listas de partido a nível nacional.

   As sondagens indicam que, num cenário muito favorável, a Fatah possa recolher quase mais dez por cento dos votos do que o Hamas, cabendo o restante a organizações de dissidentes do antigo movimento de Yasser Arafat e a independentes.

    Os islamitas têm garantida não só uma forte representação nacional, mas deverão ganhar mais mandatos do que os previstos pelas sondagens dado o seu peso dos seus candidatos a nível distrital, designadamente em cidades como Gaza, Tulkarm ou Hebron.

   A vantagem política do Hamas e da sua lista «Mudança e Reforma» é tal que a organização optou por privilegiar como principais temas de propaganda as questões de assistência social, educação e manutenção da ordem, áreas onde o fracasso da Autoridade Palestiniana é patente, sem ter necessidade de proclamar abertamente a negação do direito à existência do estado de Israel ou frisar o não envolvimento em actos de corrupção dos seus candidatos.

   Após a vitória nas eleições municipais de Maio e Dezembro ter alargada a sua influência, designadamente em cidades da Cisjordânia como Nablus, o Hamas, que controla municípios onde reside quase um terço dos 3,6 milhões de palestinianos dos territórios, tem evitado impor a sua agenda integrista em matéria de proibição de vendas de álcool ou de segregação das mulheres.

   O Hamas dá alguns sinais de procurar escusar-se a confrontos imediatos com os sectores mais secularizados da sociedade palestiniana que apesar de aceitarem a justificação religiosa dos atentados terroristas suicidas como «actos de martírio», se mostram renitentes à islamização forçada em matérias de práticas quotidianas.

   Os dirigentes islamitas revelam-se, igualmente, pragmáticos quanto à impossibilidade de alcançar a médio prazo o objectivo de libertação da totalidade da Palestina, destruindo o estado de Israel.

   Alguns líderes do Hamas admitem a possibilidade de um prolongamento da suspensão dos ataques a Israel por tempo indefinido, enquanto se reservam o direito de manter operacional o braço armado da organização, as brigadas Azadin El Kassan.

   A revelação de que Estados Unidos investiram cerca de dois milhões de dólares desde Novembro em projectos de desenvolvimento local e eventos desportivos de forma a melhorar a imagem de eficácia administrativa da Autoridade Palestiniana em detrimento de áreas controladas por eleitos do Hamas veio reforçar ainda mais as credenciais nacionalistas dos islamitas.

   Os esforços de última hora para reforçar a posição de Abbas e da Fatah, as interdições de actos de campanha dos islamitas redundaram num derradeiro cálculo falhado da parte dos Estados Unidos, com apoio da União Europeia, apesar dos mediadores europeus serem cada vez mais cépticos quanto à capacidade de regeneração da Autoridade Palestiniana.

   Israel, preocupada com a escalada de apoio ao Hamas, cedeu às pressões de Washington e permitiu que Barghouti, cada vez mais visto como um interlocutor incontornável, desse no domingo a sua primeira entrevista na penitenciária de Haridim para difusão nos canais difundidos por via satélite Al-Jazeera e Al-Arabiya.

   O líder palestiniano, que aos 47 anos não esconde a pretensão de assumir a presidência de um estado independente, acabou por apelar à formação de um governo de salvação nacional com a participação de todas as forças políticas, incluindo o Hamas.

   Reivindicando a criação de um estado palestiniano com capital em Jerusalém Oriental, no respeito pelas fronteiras anteriores à guerra de 1967, e o direito de retorno de mais de quatro milhões de refugiados, Barghouti defendeu, ainda, o recurso à resistência armada com única forma de forçar Israel a concessões.

   Barghouti acabou por não apelar sequer ao voto na lista conjunta da Fatah e subiu a parada, apresentando-se como o líder acima de todas as facções, crítico dos erros da velha liderança personificada no sucessor de Arafat.

   O preso de Haridim opôs-se, assim, abertamente à linha política defendida pela velha guarda que pela voz do vice-primeiro-ministro Nabil Shaat ainda tenta convencer a comunidade internacional de que tem capacidade para governar ignorando o Hamas.

   Barghouti já está a jogar na hipótese de, mesmo que a Fatah consiga meia centena de mandatos, a sua mediação vir a ser necessária para agregar as facções, captar independentes e abrir algumas portas para o diálogo com o Hamas.

   Do colapso da Fatah sobressaem, agora, as ironias.

   Barghouti, o terrorista das cinco penas de prisão perpétua que se revelou nas intifadas e ganhou o respeito do Hamas e da Jihad Islâmica, está em vias de ser tornar no único interlocutor possível de Israel.

   Os islamitas, cuja ascensão foi discretamente promovida por Israel nos anos 80 para dividir os palestinianos, provaram a sua força terrorista ante o estado judaico e a sua influência social e militar em Gaza, depois alargada à Cisjordânia, e entram agora no sistema político palestiniano.

   Nada pode ser feito contra eles, nem sem eles. O tempo em que os eventuais interlocutores do lado palestiniano eram apenas nacionalistas laicos passou irremediavelmente.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2006

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