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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O pecaminoso banco da Torre Nicolau V




   Desde que Michele Sindona se associou, no final dos anos 60, ao Istituto Per Le Opere Di Religione (IPOR) para lavar os lucros do tráfico de heroína da família Gambino, o Vaticano nunca mais se livrou de fundadas suspeitas sobre o banco da Torre Nicolau V.

   O escândalo da falência do Banco Ambrosiano, onde o IPOR se relevou em toda a sua podridão, teve um grand finale mafioso com a descoberta a 17 de Junho de 1982 do cadáver de Roberto Calvi, bolsos atulhados de dinheiro, a baloiçar sob uma ponte de Londres.

   Décadas volvidas, o conflito em 2010 com as autoridades italianas sobre transferências ilícitas obrigou o JPMorgan Chase a cortar vínculos com a instituição financeira da Santa Sé e levou Bento XVI a criar uma entidade para “prevenir e combater a reciclagem de lucros de actividades criminosas e o financiamento do terrorismo”.

   A Autorità de Informazione Finanziaria, presidida pelo suíço René Brülhart, passou a supervisionar desde o início de 2011 o IPOR e a Administração do Património da Santa Sé, com o objectivo de compatibilizar as práticas da Igreja com as normas de transparência financeira exigidas pela OCDE.

   Em Fevereiro de 2011 o secretário de estado, Cardeal Tarcisio Bertone, solicitou a supervisão do MONEYVAL, o organismo do Conselho da Europa para combate à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.

   Um inquérito realizado em Novembro de 2001 e aprovado em Julho de 2012 pelo Conselho da Europa constatou uma “recente melhoria” nas práticas das duas instituições do Vaticano e destacou a necessidade de implementar mais medidas substanciais para um “regime efectivo” de transparência financeira.



   O Banco Central de Roma proibiu, entretanto, no final do ano passado o Deutsche Bank Italia de efectuar pagamentos electrónicos na Santa Sé por falta de conformidade do Vaticano com as directivas da União Europeia de combate à lavagem de dinheiro.

  Os pagamentos electrónicos nos museus, correios, farmácia e outros serviços do Vaticano só foram restabelecidos este mês através da empresa suíça Aduno.

   Uma guerra surda redundou, dois meses antes da aprovação pelo Conselho da Europa do inquérito do MONEYVAL, na demissão de Ettore Tedeschi.

   O seguidor do Opus Dei e alto quadro do grupo Santander, presidente do IPOR desde Setembro de 2009, foi afastado pela comissão de supervisão presidida por Bertone por falhar no cumprimento de “funções de primeira importância” e “irregularidades na sua gestão”.

   O economista, banqueiro e professor de ética, próximo de Bento XVI, viu-se ainda acusado de desvio de documentos e no mês seguinte os carabinieri no âmbito de uma investigação sobre corrupção que não envolve o Vaticano, confiscaram 47 arquivadores na posse de Tedeschi com documentos relativos a operações financeiras da Igreja.

   No final de Maio Paolo Gabrieli, mordomo de Bento XVI, era, por sua vez, detido por envolvimento na divulgação de documentos alegadamente comprometedores para o cardeal Bertone acusado de incúria e desmandos administrativos.

   Nas Vatileaks, orquestradas por um grupo não-identificado de altos responsáveis da Igreja, figurava com destaque uma missiva pessoal datada de Março de 2011 do secretário do Governatorato dello Stato Città del Vaticano, orgão do poder executivo, arcebispo Carlo Maria Viganò, a Bento XVI denunciando “corrupção e abuso de funções”.

  Em Agosto Viganò, que viu reconhecida pelo Vaticano a veracidade da carta a Bento XVI, foi afastado do cargo por Bertone que o enviou em Outubro como núncio para os Estados Unidos.

   A luta pelo controlo dos recursos financeiros do Vaticano em que o IPOR -- que contava com activos de 6,3 mil milhões de euros e 33 404 contas no final de Novembro de 2011 – assume papel crucial conheceram outra reviravolta quatro dias após a renúncia de Bento XVI.

   A 15 de Fevereiro, numa marcação de terreno de contornos pouco claros e inopinada ao iniciar-se o processo de eleição do novo papa, os cardeais supervisores do IPOR davam por concluído o processo de selecção do novo presidente do banco e anunciavam a nomeação de Ernst von Freyberg.

   O empresário e gestor alemão veio assim para a ribalta numa luta que envolve Bertone, o seu antecessor Angelo Sodano, actual decano do Colégio de Cardeais, a cúria romana, interesses das igrejas nacionais, além de negócios licítos e ilícitos associados ao universo das instituições católicas.

   O papa alemão orquestrou os primeiros passos significativos para a regeneração do banco da Torre Nicolau V, malquisto e pecaminoso por acções e omissões desde a sua fundação em 1942 por Pio XII.

   Bento XVI, contudo, não conseguiu impor em tempo útil novas regras de funcionamento ao IPOR numa altura em que a Igreja sofre uma hemorragia financeira.

   Nos Estados Unidos -- principal fonte de receitas da Igreja a nível global -- 3,3 mil milhões de dólares foram pagos em indemnizações por abusos sexuais do clero desde os anos 90 e nos demais centros tradicionais de pujança financeira -- Alemanha, Itália e França – a diminuição de fiéis traduz-se numa significativa redução de recursos.

   O banco da Torre Nicolau V é uma das instituições que, por obrigação das suas transacções internacionais, terá de romper com os trâmites tradicionais da monarquia absoluta do Vaticano.

  O dinheiro é um dos nervos do poder e o rumo que o IPOR seguir nos próximos tempos muito irá revelar acerca dos destinos da Igreja Católica.

Jornal de Negócios

domingo, 16 de setembro de 2012

O crepúsculo dos cristãos do Levante

Le pape à Bkerké, le 15 septembre 2012, devant des dizaines de milliers de jeunes. REUTERS/Sharif Karim
Bkerké, 15 Setembro

“ Entre a potência
  E a existência
  Entre a essência
  E a descendência
  Tomba a Sombra

                Porque Teu é o Reino”


“Os Homens Ocos”, T. S. Elliot



   Crentes apreensivos, angustiados e divididos aguardam pela visita que Bento XVI inicia sexta-feira ao Líbano numa altura em que tudo conspira contra as comunidades cristãs do Levante.

   João Paulo II na sua peregrinação em Maio de 1997 teve a ousadia de apelar à reconciliação nacional e ao respeito pela soberania libanesa.

   Os cristãos ainda eram, então, uma força decisiva no confronto com a Síria que recusava retirar as tropas que em 1976 tinham intervido na guerra civil e com Israel que ocupava o sul do Líbano desde 1982.

   Bento XVI, pelo contrário, além da mensagem doutrinária católica e ecuménica e apelos de cunho humanitário, pouca margem de manobra terá para declarações abertamente políticas dadas as divisões entre igrejas e blocos políticos e a ameaça de retorno à guerra civil.

                                   Comunidades divididas

   Bechara Boutros Al Rahi -- patriarca dos maronitas, a maior confissão oriental em comunhão com a igreja católica -- tem evitado criticar abertamente o regime de Damasco e os seus apoiantes no Líbano, caso do general cristão Michael Aoun do Movimento Patriótico Livre aliado presentemente aos xiitas do Hizballah.

   Samir Geagea, outro líder histórico de milícias maronitas, mantem uma atitude de oposição radical ao regime de Bashar Al Assad, mas sem grande eco junto dos políticos cristãos, druzos, ou sunitas que aceitaram integrar a actual coligação governamental dominada pelo Hizballah.

   Os cristãos libaneses – maronitas, ortodoxos gregos, arménios, assírios, melquitas, ortodoxos siríacos e protestantes, entre as principais confissões – representam 30% a 40% da população, mas a comunidade xiita está em vias de assumir idêntico peso demográfico, deixando para trás os sunitas, cerca de 30%, e druzos, 5%.

   O último censo teve lugar em 1932 e os equilíbrios étnico-religiosos alteraram-se radicalmente.

   A predominância política cristã no Líbano, propiciada pela França após a partilha dos despojos do Império Otomano, perdeu-se no rescaldo da guerra civil de 1975-1990 que marcou a ascensão dos xiitas.

   A perda de poder político no Líbano foi a par de uma diminuição genérica da presença cultural cristã no Levante depois do papel de relevo que clérigos, intelectuais e artistas cristãos desempenharam na Renascença Árabe (Al Nahda) desde meados do século XIX.

   No século passado George Antonius, oriundo de uma família egípcio-libanesa cristão-ortodoxa, ainda viria a ser nos anos 30 um dos expoentes do nacionalismo árabe.

   O grego-ortodoxo Michel Aflaq, nascido em Damasco, surgiria como teórico maior do nacionalismo e panarabismo de veia socialista na década de 40 e fundaria o partido Ba`ath (Resurgimento) que viria a tomar o poder na Síria e no Iraque.

                          Perda de influência e enquistamento

   À medida que surtos nacionalistas ou comunitários assumiram maior cunho religioso os cristãos do Levante e Médio Oriente acabaram por perder a protecção de regimes autocráticos que os usavam como contrapeso político conforme as conveniências.

   No Iraque boa parte dos fiéis assírios e caldeus (cerca de 3% da população) fugiu às violências que eclodiram após o derrube do regime minoritário sunita de Saddam Hussein.

   Idêntico cenário está em vias de se repetir na Síria onde a minoria cristã (10% da população) apostou desde os anos 60 numa convergência de interesses com o regime alauíta a braços com a revolta da maioria sunita.

   Igualmente debilitadas pela emigração e contracção demográfica que levaram os cristãos a as minorias cristãs na Palestina, Israel e Jordânia só representam cerca de 3% da população e veêm-se subordinadas aos interesses conflituosos das maiorias sunitas e judaicas.

   No grande baluarte cristão do Levante os coptas, sensivelmente 10% dos 84 milhões de egípcios, viram desaparecer a salvaguarda do regime de Hosni Mubarak e enfrentam agora o revivalismo islamita.

   O enquistamento dos coptas, acentuando o conservadorismo religioso e social numa tentativa de preservar valores identitários num ambiente hostil, é uma reacção que se poderá repetir noutras comunidades cristãs do Levante sem condições para acalentarem revisionismos radicais.

   As comunidades cristãs representavam cerca de 20% da população do Médio Oriente no início do século XX e presentemente não ultrapassam os 5%, sensivelmente 12 milhões de almas.

   A emigração, a subordinação ou impotência políticas, a perda de dinamismo cultural marcam as novas gerações de cristãos levantinos tementes a perseguições e discriminações.

   A viagem de Bento XVI ao Líbano numa altura em que a guerra civil síria ameaça toda a região irá ilustrar pela sua incapacidade de assumir atitudes de ruptura ou protesto esta impotência genérica que assombra os fiéis, essa perda de viço que há décadas atormenta as comunidades cristãs do Levante.



Jornal de Negócios
12 Setembro 2012

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A beatificação de João Paulo II




   O Vaticano prepara-se para um grande evento neste ano de 2011: a beatificação de João Paulo II.

   A Igreja Católica está prestes a anunciar o reconhecimento de um milagre de cura de uma monja francesa por parte do antigo Papa.

   A cerimónia de beatificação, celebrando uma vida de santidade segundo os procedimentos da igreja católica, terá lugar no Vaticano.

   Uma data provável para o evento é o domingo de 16 de Outubro, altura em que se assinala a eleição de Karol Woytila como Papa em 1978.

  Depois do reconhecimento de um segundo milagre João Paulo II passará a ser venerado como santo. 

  A devoção da maioria dos crentes católicos deverá, no entanto, assumir desde logo o culto público generalizado de João Paulo II como santo.

  A beatificação e posterior canonização de João Paulo II nunca esteve em dúvida desde a morte deste Papa particularmente caristámico e popular em Abril de 2005.

  Nunca a Igreja Católica puderia prescindir do culto a João Paulo II, mas há aqui uma amarga ironia. 

  O seu sucessor Bento XVI tem tentado liderar o processo de limpar a Igreja de alguns dos piores pecados que se agravaram durante o pontificado de João Paulo II.

  Calhou a Bento XVI enfrentar os grandes escândalos de abuso sexual que revelaram o modo como João Paulo II e a cúria romana ignoraram sistematicamente as denúncias contra clérigos católicos.

 Os abusos na Legião de Cristo do mexicano Marcial Maciel, que Bento XVI acabou por afastar do sacerdócio, são um dos casos exemplares em que um preferido de João Paulo II terminou na ignomínia absoluta.

  A beatificação de João Paulo II vai ser pois um momento de controvérsia dentro da Igreja Católica.

  Estará em causa a forma como João Paulo II ignorou os abusos sexuais; serão discutidos o centralismo e conservadorismo do papa polaco e suas ideias sobre diálogo ecuménico. 

  Fora da Igreja Católica muitos retomarão as críticas que foram endereçadas contra João Paulo II durante o pontificado sobretudo em matéria de moral sexual e inevitavelmente os escândalos de abusos sexuais estarão na primeira linha.

  Ainda assim, isso pouco importará para a maioria dos crentes: mesmo antes de ser proclamado venerável, a um passo da beatificação, a caminho da celebração como santo, já muito antes de tudo isso, João Paulo II ganhara a devoção de muitos e muitos católicos.      

TSF / O Mundo num Minuto
05 Janeiro 2011

A cerimónia de beatificação teve lugar no Vaticano a 1 de Maio de 2011.
(Nota de Setembro 2012)

sábado, 8 de setembro de 2012

A inquietação turca

 Linha Verde, Chipre
   Em meados deste mês as intrincadas negociações para a eventual adesão da Turquia à União Europeia poderão chegar a um beco sem saída depois de Ancara ter recusado cumprir a promessa feita em Julho do ano passado de abrir os seus portos e aeroportos ao tráfego oriundo de Chipre.

   A suspensão das negociações abertas em Outubro de 2005 é uma possibilidade em aberto, ainda que remota, se a Turquia não ceder e os parceiros europeus falharem na tentativa de compromisso que levaria ao levantamento do bloqueio comercial à República Turca do Norte de Chipre.

   Os cipriotas gregos, que em Abril de 2004 rejeitaram em referendo o plano de reunificação proposto por Kofi Annan (73 por cento de votos não) – ao contrário dos cipriotas turcos que o aprovaram com uma maioria de 65 por cento –, bloqueiam quaisquer concessões que possam implicar o reconhecimento tácito da República Turca do Norte do Chipre.

   Em Julho o governo de Tassos Papadopoulos vetou mesmo um pacote de ajudas da União ao norte do Chipre de 139 milhões de euros.

   Desde a entrada de Chipre na União, um mês após o fracassado referendo de 2004, persiste o impasse de uma ilha dividida.

   Os 780 mil habitantes da parte grega gozam dos privilégios da pertença à União e os 260 mil turcos do norte da ilha vivem no limbo de um estado presidido por Mehmet Ali Talat que apenas é reconhecido por Ancara.

   Alargar a Chipre a União Aduaneira estabelecida com a União Europeia no final de 1995 sem assegurar liberdade de circulação e comércio para a minoria turca na ilha é uma impossibilidade política para o governo de Recep Erdogan e receita segura para uma derrota nas eleições legislativas do próximo ano.

                                       Negociações espinhosas

   A questão cipriota é o ponto mais candente das negociações, mas representa apenas uma das questões nomeadas no relatório desde ano da Comissão Europeia em a Turquia foi criticada por alegadas limitações das liberdades religiosa, de expressão, ensino e sindical, discriminação das mulheres e da minoria curda, além de alegações de recurso à tortura, de interferências dos militares em questões políticas, juntando-se ainda ao cadastro o bloqueio fronteiriço imposto à Arménia desde 1993.

   Apesar de ser membro associado da Comunidade Europeia desde 1963 as perspectivas da Turquia vir a conseguir tornar-se estado de pleno direito do clube de Bruxelas dentro de 15 ou 20 anos apresentam-se cada vez mais dúbias.

   O agravamento dos conflitos ideológicos e culturais sobre a integração das comunidades islâmicas residentes nos países europeus é um dos principais factores a reforçar a crescente má vontade das opiniões públicas, sobretudo em estados como a Alemanha, a Áustria e a França, em relação a uma possível entrada turca.

   Os equilíbrios demográficos da União, que conta presentemente com 20 milhões de residentes muçulmanos (4 por cento dos seus 462 milhões de habitantes), seriam significativamente alterados pois a percentagem de muçulmanos subiria para 17 por cento.

   As projecções demográficas apontam, também, no sentido dos actuais 73 milhões de turcos virem a ultrapassar em meados do século a presente população do maior estado europeu, a Alemanha com 82 milhões de habitantes, entre eles 2,2 milhões de origem turca.

   A "associação privilegiada" entre Ancara e Bruxelas como forma de cercear financiamentos (o PIB per capita do país é cerca de 1/3 do português e ronda os 27 por cento da média europeia), limitar a liberdade de circulação de cidadãos turcos e, sobretudo, a participação de pleno direito na tomada de decisões por parte da Turquia, é uma ideia aventada por políticos franceses, alemães e austríacos que tenderá a ganhar cada vez mais aderentes.

   As vantagens estratégicas da entrada turca, seja no domínio de acesso facilitado a mercados fornecedores de gás e petróleo (de que é exemplo o oleoduto aberto este ano que atravessa a Geórgia, ligando Baku ao porto turco de Ceyhan) ou da capacidade de intervenção europeia no Médio Oriente, no Cáucaso e na Ásia Central, tendem a ceder face aos temores provocados pelos imponderáveis da orientação política que poderá originar a presença nas instâncias decisórias da União Europeia de um estado tão nacionalista quanto a Polónia e em que apesar há mais de 80 anos imperar um regime laicista de matriz jacobina a quase totalidade da população mantêm-se fiel à fé islâmica ainda que sem laivos de radicalismo religioso.

   Um número crescente de turcos define-se a sua identidade prioritariamente como muçulmana – entre 51 a 46 por cento, segundo os inquéritos mais recentes –, mas cada vez menos, apenas 9 por cento, se declaram a favor da adopção da lei islâmica tradicional, a sharia.

   O peso da tradicional orientação de esquerda entre a discriminada comunidade alevi, um ramo oriundo do xiismo que agrega entre 20 a 30 por cento dos muçulmanos turcos, contribui para esta contenção do islamismo político em terras da Anatólia e da Trácia.

                                         Desilusões turcas

   A extrema dificuldade nas negociações, as reticências expressas por políticos como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy ou a atitude de Ségolène Royale, que se limita a afirmar que acatará a vontade do povo francês em eventual referendo sobre a adesão turca, o impasse cipriota, a polémica em torno do genocídio arménio de 1915, têm assim provocado um constante declinar do entusiasmo da opinião pública na Turquia quanto ao projecto europeu.

   As elites políticas e o mundo dos negócios continuam a apoiar os esforços de adesão, mas em termos gerais a frustração é cada vez maior.

    Os inquéritos do German Marshall Fund mostram a percentagem de turcos que consideram positiva a adesão à União Europeia a diminuir de ano para ano, caindo de 73 por cento em 2004 para 54 por cento dois anos depois, enquanto outras sondagens apontam para níveis de apoio ao projecto europeu inferiores a 40 por cento.

   O incómodo pela presença de Bento XVI na Turquia é apenas mais uma manifestação deste desencanto agravado pelas recentes críticas do papa ao que considera ser o literalismo do Islão, a sua ideia da Palavra Incriada de Deus e o anseio totalitário de submeter toda a sociedade a uma lei que ignora as esferas distintas do político e do religioso.

   Tal patologia visceral chega a justificar a violência como acto religioso no entender de Bento XVI que exige o reconhecimento de direitos de liberdade religiosa e proselitismo às minorias cristãs em terras de Islão como condição fundamental para um diálogo essencialmente intercultural.

   Há dois anos, em plena polémica sobre a referência às "raízes cristãs" da Europa no malogrado projecto de Constituição da União, o então cardeal Ratzinger afirmou publica e reiteradamente que a missão da Turquia deveria resumir-se a "ponte cultural com os países árabes" por via dos seus valores identitários muçulmanos em "contraste permanente" com o ideário europeu de matriz cristã.

   A entrada da Turquia na União Europeia seria, consequentemente, "anti-histórica" e um "grande erro", dizia o Perfeito para a Congregação da Doutrina da Fé.

   Tais profissões de fé críticas do islamismo e da possível adesão da Turquia à União Europeia só poderiam levar a grande maioria dos turcos a ver em Bento XVI um líder religioso que ao fim e ao cabo expressa sem pejo a imensa reticência dos cristãos europeus, para não falar de agnósticos e ateus, frente ao seu país e à sua herança cultural.

   O Vaticano veio a público, entretanto, considerar a questão da adesão da Turquia matéria política acerca da qual se afirma neutral, segundo adiantou recentemente o secretário de estado, Tarcisio Bertone.

   O cardeal italiano afirmou, no entanto "ter esperança de que a Turquia consiga cumprir as condições para entrada na União Europeia", enquanto "o respeito da liberdade religiosa das minorias cristãs" foi referido pelo secretário para as relações com os estados, arcebispo Dominique Mamberti, como requisito fundamental para a integração europeia de Ancara.

   As precisões e rectificações da nova equipa diplomática de Bento XVI, chegam tarde para alterar as percepções prevalecentes na Turquia que, de acordo com uma sondagem do Pew Research Center de Washington realizada em Abril, se traduzem numa apreciação negativa dos cristãos por parte de 71% dos inquiridos. E isto ainda antes da alocução de Bento XVI em Rastibona em Setembro último.

   Papa malquisto na Turquia, dificilmente Bento XVI poderá cumprir o objectivo que atribuiu à sua viagem de "empenhamento na compreensão e diálogo entre culturas".

   Quer o Vaticano, quer a União Europeia alimentam presentemente uma imensa inquietação e desencanto na Turquia.



Jornal de Negócios
29 Novembro 2006

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quem vai matar o Papa em Istambul?




   Pois será um jornalista ligado ao Opus Dei a mando dum cardeal seguidor de Josemaria Escrivá e da Loja Maçónica P2 na ficção tortuosa do escritor turco de romances policiais Yücel Kaya que não falha em trazer ao enredo radicais islamitas e oficiais de extrema-direita dos serviços secretos turcos apreensivos com a aproximação entre católicos e ortodoxos em terra de Islão.

  A ficção d’"O atentado contra o Papa", com a inevitável aparição no meio da intriga de Mehmet Ali Agca e a interrogação de choque em inglês para subtítulo publicitário, já era um êxito de vendas antes da polémica bizantina, mas com o avolumar da controvérsia tornou-se um omnioso sinal dos tempos.

   As autoridades turcas e o patriarca ecuménico e arcebispo de Constantinopla Bartolomeu I mantêm o convite para a visita do Papa no final de Novembro, por ocasião da festa do apóstolo Santo André, venerado por ortodoxos e católicos, ainda que o ambiente, já inquinado pelo assassinato de um missionário italiano e três ataques a clérigos católicos desde o início do ano, tenha ficado ainda mais pesado depois da controvérsia sobre as alegadas tiradas antimuçulmanas de Joseph Ratzinger.  

   Bento XVI é uma personalidade malquista nos círculos políticos e empresariais turcos pela sua oposição determinada à adesão da Turquia à União Europeia em nome das raízes e essência cristã da Europa.

  A pecha de cruzado que é agora assacada ao Papa vai juntar-se às apreensões generalizadas na Turquia sobre um preconceito anti-islâmico e anti-turco prevalecente nas opiniões públicas e entre os governos da União.

 As decepções nas atribuladas negociações com Bruxelas já se reflectem nas últimas sondagens na Turquia que indicam uma quebra significativa – mas salvaguardando um apoio ainda maioritário – ao projecto de adesão à União Europeia.

  Em véspera da sua primeira visita a um país maioritariamente muçulmano, ainda que justificada pelo diálogo ecuménico com os ortodoxos, o que poderia levar o Papa a proferir um discurso com uma extensa citação que inevitavelmente exacerbaria os ânimos dos crentes muçulmanos?

                                     Uma citação nada inocente

  Um erudito de inteligência superior como é o caso do teólogo Ratzinger não escolheu por acaso a figura trágica de Manuel II, um dos derradeiros imperadores da dinastia dos Paleólogos, para elaborar sobre um dos temas fulcrais da sua doutrina.

  O sultão otomano Bayezid, que o teve como vassalo e refém, entre 1390 e 1391, elogiou em termos célebres o porte imperial do bizantino.

  Muitos em Veneza, Londres e Paris se comiseraram com a longa e infrutífera viagem que o senhor do Império Romano do Oriente encetou a 10 de Dezembro de 1399 em busca de alianças na Cristandade Romana contra os otomanos e ficou para a história a advertência que deixou no leito de morte ao filho João VIII em como seriam vãs as esperanças de qualquer submissão eclesiástica ao papa de Roma a troco de apoio na luta contra os turcos.

   Na agonia dos Paleólogos e na convulsa vida de Manuel II o alívio que deu a Bizâncio a investida das hostes mongóis de Tamerlão contra os inimigos otomanos foi sol de pouca dura que se eclipsou em Maio de 1453 quando o sultão Maomé II conquistou Constantinopla.

   Desses tempos em que o Império era hostilizado a Ocidente e cedia frente aos otomanos ficou célebre a disputa de Manuel II sobre os fundamentos da fé com um imaginário erudito persa em que o bizantino aceita considerar as Leis de Moisés, de Jesus e de Maomé num mesmo plano intemporal e sinóptico.

   É dessa discussão que o teólogo Ratzinger cita a passagem em que o bizantino apostrofa o muçulmano por Maomé ter trazido ao mundo "coisas maléficas e inumanas, como o mandamento de expandir a fé pela espada", ignorando que a violência é "incompatível com a natureza de Deus e da Alma" que se regram pela Razão.

   Na alocução de Bento XVI na sua antiga universidade de Ratisbona esta tirada foi pretexto para expandir, entre outros argumentos, a tese de que o Islão ignora o império da Razão que fundamenta, a contrario, toda a tradição cristã assente no amor de Deus.

    Na linha das suas teses tradicionais, condenando "a ditadura do relativismo" e o cientismo positivista sem sustento ético, Ratzinger concluiu que "uma razão surda ao divino e que relega a religião para o âmbito das subculturas é incapaz de entrar no diálogo das culturas".

   De um discurso sobre o compromisso entre fé e razão, caracterizado por interpretações essencialistas e excessivas omissões históricas em que, nomeadamente, as escolas racionalistas islâmicas foram remetidas à obscuridade, o que ficou para notícia foi precisamente, a condenação pelo bizantino do irremediável irracionalismo do Islão como pretexto de violência.

                            A teologia determina a política

   Esta questão preocupa de há muito Ratzinger que vê o Islão marcado pelo literalismo de uma ideia errada da Palavra Incriada de Deus e pelo anseio totalitário de submeter toda a sociedade a uma lei que ignora as esferas distintas do político e do religioso.
  
  É esta patologia visceral que justifica a violência como acto religioso e que Ratzinger, enquanto teólogo e Papa, traz propositadamente à ribalta. Como a teologia determina a política Bento XVI vê de forma totalmente diferente de João Paulo II o diálogo interreligioso com o Islão. 
 
   Para o Papa o reconhecimento de direitos de liberdade religiosa e proselitismo às minorias cristãs em terras de Islão é matéria fundamental para o diálogo possível, assente na reciprocidade, e centrado, essencialmente, em questões de ordem cultural e direitos legais.

  Estamos muito longe da abrangência em torno da ideia de boa vontade que levou João Paulo II a congregar, em Assis, em Outubro de 1986, representantes de todas as religiões no "Dia mundial de oração pela paz".
 
   Não foi pois falta de tacto diplomático que levou o Papa a citar o bizantino.

   Foi antes um imperativo de contestar legitimidade ao ateísmo, ao cientismo positivista, à religiosidade difusa e filantrópica, antes preferindo Ratzinger uma Igreja minoritária, mas fiel e firme nos seus princípios.
 
   Foi, sobretudo, a intenção de trazer para primeiro plano a legitimidade da Igreja no confronto ideológico em que, tal como no século XIV, uma certa ideia de religião sustentada na Revelação histórica e na razão traça argumentos contra a violência justificada em nome do Islão.
  
   Daí que o Papa lamente e manifeste tristeza pelas reacções a algumas passagens da alocução de Ratisbona, mas de forma alguma dê sinal de abdicar das suas teses fundamentais sobre a natureza do Islão, os pressupostos do diálogo de culturas e da reciprocidade de liberdade religiosa.
Porque para Bento XVI a Igreja é o lugar da fé verdadeira.

  Ser católico é para Bento XVI professar a indissociabilidade entre a fé em Deus e no seu Filho Jesus Cristo feito homem.

  É o Logos, a palavra do início, a razão e o amor criadores, que define a imagem cristã de Deus.

  É esta a fé de Ratzinger, a sua razão de ser, e a matriz que define toda a sua prédica.

  Sempre o disse, sempre o escreveu, sempre o pregou.


Jornal de Negócios
20 Setembro 2006

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O pontificado de Bento XVI




  Quanto tempo mais poderá durar o pontificado de Bento XVI?

  Joseph Ratzinger foi precisamente o primeiro pontífice a assumir publicamente que não hesitaria em resignar.

  Renunciaria no caso de sentir não ter condições fisícas, psiquícas ou espirituais para desempenhar as suas obrigações.
  
   Renúncia de um papa só por duas vezes aconteceu; a última há seiscentos anos por Gregório XII nas querelas do Grande Cisma do Ocidente.
 
  João Paulo II, antecessor de Bento XVI, fez questão de carregar a sua cruz até ao fim numa agonia que foi testemunhada por todo o mundo.
 
  Mas o pontífice alemão que hoje faz 85 anos é bem diferente na sua abordagem e bem menos emotivo que o papa polaco.

  Os ventos não lhe foram favoráveis.

   Desde a eleição em 2005 tem tentado impor a sua ortodoxia, mas foi atingido em cheio pelos pecados mortais da igreja.

   Não conseguiu dar uma resposta pública convicente, nem impor punições exemplares aos clérigos responsáveis por milhares de crimes de pedófila que justamente abomina.
  
   Por outro lado, Bento XVI pouco dado às manifestações ecuménicas efusivas de João Paulo II que considerava falhas de substância doutrinal cometeu erros de palmatória nas relações com muçulmanos e judeus que inquinaram o chamado diálogo das religiões.

  A abordagem altamente culta e racionalista de temas teológicos, uma longa vida de intervenção sobre questões de valores, deixam marcas nos debates intelectuais, mas dizem pouco aos crentes.
  
   Na Europa e na América do Norte a influência da igreja é cada vez menor e a Ásia não é o continente de eleição do catolicismo.

   Pela América Latina o catolicismo continua a ceder terreno às correntes do cristianismo evangélico.

  Em África, o outro continente onde a igreja de Bento XVI ainda cresce, certas atitudes conservadoras do clero que agradam ao Vaticano vão a par de práticas muito heterodoxas.      
 
  Contudo, não virá nem de África, nem das Américas o sucessor de Bento XVI. Será quase por certo italiano, pois a tal conduzem os equilíbrios no colégio cardinalício.
 
  Bento XVI é já um dos papas mais velhos da longa história cristã.

  É respeitado, mas está longe de despertar paixões.

  E as paixões são do que mais importa em matéria de fé.

O Mundo num Minuto / TSF

18 Abril 2012