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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Guerras por procuração





   Armar a contragosto facções rebeldes para forçar Bashar al Assad a negociar um cessar-fogo e um acordo político que pacifique a Síria é um erro táctico a que Obama se conformou para aplacar pressões intervencionistas em Washington e que acabará por agudizar a guerra civil.

   Só o fornecimento de grandes quantidades de armas, incluindo mísseis anti-aéreos, poderia reforçar significativamente a capacidade militar do "Exército Livre Sírio" sob o comando de Salim Idriss, o general sunita que desertou há um ano e em que Washington aposta.

   Financiar e armar com parcimónia é ineficaz, acarreta custos políticos desproporcionados e mesmo assim o treino de combatentes e o controlo da distribuição de armas obrigará a uma maior presença no terreno de assessores militares e agentes secretos norte-americanos, britânicos e franceses.

   O desvio de armamento para forças indesejáveis aos olhos das potências ocidentais e da Turquia, mas apoiadas pela Arábia Saudita e o Qatar, é inevitável tanto mais que frentes islamitas radicais como "Ahrar al Sham" combatem em aliança ora com outros grupos islamitas do "Exército Livre Sírio", ora com os jihadistas da "Jahabat al Nusra".

   A criação de zonas seguras, sob o pretexto de protecção humanitária, pressupõe a imposição unilateral de zonas de exclusão aérea no Norte, a partir da Turquia, e no Sul, com bases na Jordânia, que darão pretexto à Rússia e ao Irão para aumentar as vendas de armas a Damasco.

   Zonas de exclusão aéreas implicam confrontos directos com forças governamentais muito para além das áreas destinadas a protecção e acarretam riscos de escalada militar regional e internacional.

  A alegada utilização pontual de armas químicas pelas forças fiéis a al Assad, pretexto em Washington, Paris e Londres para apoio militar directo a grupos da oposição, continua, entretanto, a gerar polémica.

   As divergências patentes na cimeira do G8 tornam claro que o confronto com russos e chineses no Conselho de Segurança dificultará uma eventual operação internacional com apoio da ONU caso se revele necessário intervir para neutralizar arsenais de armas químicas.

   Múltiplas e antagónicas forças integram frentes de oposição não-jihadistas – "Coligação Nacional", "Conselho Nacional", "Comité Nacional de Coordenação", "Exército Livre" – sem que ao terceiro ano de guerra tenham acordado um programa político mínimo para negociação com al Assad ou como plataforma de transição no caso de renúncia ou morte do líder alauíta.

   Num país ameaçado pela partilha territorial a entrada em combate ao lado das forças governamentais do "Hizballah" libanês acentuou o cunho étnico-religioso do conflito, seguindo-se a ruptura entre Damasco e o Cairo com o presidente Al Nusri a dar corpo a apelos de líderes dos "Irmãos Muçulmanos" para a criação de uma frente alargada sunita contra os apoiantes xiitas do herético regime alauíta.

   Os recentes ganhos das tropas de al Assad – a captura de Al Qusair consolidou o domínio dos acessos ao Líbano e às regiões costeiras – indiciam novas ofensivas governamentais para controlo das principais cidades, sobretudo de Aleppo, remetendo os opositores para regiões do Norte e Leste do país.

   Um pacto informal de não-agressão com as milícias curdas no nordeste permitirá, eventualmente, neutralizar mais uma ameaça ao regime que conseguiu estancar deserções militares e mobilizar novos contigentes de combate, ante grupos oposicionistas com desigual capacidade de combate e que carecem de coordenação.

   O ascendente militar de al Assad vai a par do temor pelas depredações e ameaças de grupos salafistas jihadistas que é cada vez maior entre as minorias cristã, druza, ismaialita, curda, e motivo de apreensão para muitos sunitas.

   A guerra civil síria é um conflito generalizado em que clivagens políticas são fortemente marcadas pelas identidades étnico-religiosas e vê agora acentuar-se o confronto por procuração.

   Sunitas anti-al Assad, salafistas do universo da jihad, potências ocidentais em busca de aliados ou clientes, confrontam-se com iranianos e russos, ante a não-interferência interessada de Israel apostada na debilitação de um estado rival e a crítica de chineses, indianos ou brasileiros ao unilateralismo intervencionista de Washington.

   Armar a contragosto facções rebeldes para forçar Bashar al Assad a negociar um cessar-fogo e um acordo político que pacifique a Síria é um erro táctico a que Obama se conformou para aplacar pressões intervencionistas em Washington e que acabará por agudizar a guerra civil.

   Só o fornecimento de grandes quantidades de armas, incluindo mísseis anti-aéreos, poderia reforçar significativamente a capacidade militar do "Exército Livre Sírio" sob o comando de Salim Idriss, o general sunita que desertou há um ano e em que Washington aposta.

   Financiar e armar com parcimónia é ineficaz, acarreta custos políticos desproporcionados e mesmo assim o treino de combatentes e o controlo da distribuição de armas obrigará a uma maior presença no terreno de assessores militares e agentes secretos norte-americanos, britânicos e franceses.

  O desvio de armamento para forças indesejáveis aos olhos das potências ocidentais e da Turquia, mas apoiadas pela Arábia Saudita e o Qatar, é inevitável tanto mais que frentes islamitas radicais como "Ahrar al Sham" combatem em aliança ora com outros grupos islamitas do "Exército Livre Sírio", ora com os jihadistas da "Jahabat al Nusra".

   A criação de zonas seguras, sob o pretexto de protecção humanitária, pressupõe a imposição unilateral de zonas de exclusão aérea no Norte, a partir da Turquia, e no Sul, com bases na Jordânia, que darão pretexto à Rússia e ao Irão para aumentar as vendas de armas a Damasco.

  Zonas de exclusão aéreas implicam confrontos directos com forças governamentais muito para além das áreas destinadas a protecção e acarretam riscos de escalada militar regional e internacional.

  A alegada utilização pontual de armas químicas pelas forças fiéis a al Assad, pretexto em Washington, Paris e Londres para apoio militar directo a grupos da oposição, continua, entretanto, a gerar polémica.

  As divergências patentes na cimeira do G8 tornam claro que o confronto com russos e chineses no Conselho de Segurança dificultará uma eventual operação internacional com apoio da ONU caso se revele necessário intervir para neutralizar arsenais de armas químicas.

  Múltiplas e antagónicas forças integram frentes de oposição não-jihadistas – "Coligação Nacional", "Conselho Nacional", "Comité Nacional de Coordenação", "Exército Livre" – sem que ao terceiro ano de guerra tenham acordado um programa político mínimo para negociação com al Assad ou como plataforma de transição no caso de renúncia ou morte do líder alauíta.

  Num país ameaçado pela partilha territorial a entrada em combate ao lado das forças governamentais do "Hizballah" libanês acentuou o cunho étnico-religioso do conflito, seguindo-se a ruptura entre Damasco e o Cairo com o presidente Al Nusri a dar corpo a apelos de líderes dos "Irmãos Muçulmanos" para a criação de uma frente alargada sunita contra os apoiantes xiitas do herético regime alauíta.

  Os recentes ganhos das tropas de al Assad – a captura de Al Qusair consolidou o domínio dos acessos ao Líbano e às regiões costeiras – indiciam novas ofensivas governamentais para controlo das principais cidades, sobretudo de Aleppo, remetendo os opositores para regiões do Norte e Leste do país.

   Um pacto informal de não-agressão com as milícias curdas no nordeste permitirá, eventualmente, neutralizar mais uma ameaça ao regime que conseguiu estancar deserções militares e mobilizar novos contigentes de combate, ante grupos oposicionistas com desigual capacidade de combate e que carecem de coordenação.

   O ascendente militar de al Assad vai a par do temor pelas depredações e ameaças de grupos salafistas jihadistas que é cada vez maior entre as minorias cristã, druza, ismaialita, curda, e motivo de apreensão para muitos sunitas.

   A guerra civil síria é um conflito generalizado em que clivagens políticas são fortemente marcadas pelas identidades étnico-religiosas e vê agora acentuar-se o confronto por procuração.

   Sunitas anti-al Assad, salafistas do universo da jihad, potências ocidentais em busca de aliados ou clientes, confrontam-se com iranianos e russos, ante a não-interferência interessada de Israel apostada na debilitação de um estado rival e a crítica de chineses, indianos ou brasileiros ao unilateralismo intervencionista de Washington.

Jornal de Negócios
19 Junho 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/guerras_por_procuracao_na_siria.html#.UcLJnTvtORU.facebook

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Massacres em catadupa





   A entrada em combate na Síria das milícias xiitas do "Hizballah" libanês ao lado das forças de Bashar al Assad acaba de marcar o momento em que o conflito étnico-religioso entrou numa fase irreversível de guerra total.

  Os militantes do "Hizballah" desde o fim-de-semana que lutam com as forças governamentais em Al Qusair, uma cidade a menos de 20 quilómetros da fronteira libanesa nas mãos de combatentes sunitas nominalmente fiéis ao "Exército Livre da Síria".

  A luta por Al Qusair visa o controlo do acesso à fronteira nordeste do Líbano e a Tartus e Latakia, províncias costeiras onde predomina a minoria alauíta de al Assad e palco de recentes massacres de alegados opositores sunitas.

  O alastrar das violências a Tartus e Latakia é sinal de que os alauítas -- grupo étnico-religioso seguidor de uma variante esotérica do xiismo, representando cerca de 10% da população -- pretendem garantir um bastião seguro no caso do clã al Assad perder o controlo da capital e de Aleppo, a maior cidade do país.

   O "Hizballah", aliado político de Damasco e Teerão, tem vindo a denunciar os massacres de que têm sido alvo xiitas e alauítas em Al Qusair e ao intervir nos combates assume uma clara solidariedade étnico-religiosa que ultrapassa a tradicional aliança política com Damasco e Teerão.

   O risco do "Hizballah" se envolver irremediavelmente na guerra civil síria arrasta, por sua vez, a maioria da comunidade xiita libanesa para nova situação de confronto com os seus conterrâneos sunitas, druzos e cristãos.

   No terceiro ano de guerra a radicalização acentua-se igualmente entre os sunitas -- mais de 70% da população --, alienando cristãos, druzos, ismaelitas e curdos, comunidades que cada vez mais alimentam o fluxo de refugiados em busca da ajuda dos correlegionários nos países vizinhos.

                                     O temor das minorias

   As minorias mostram-se temerosas do peso esmagador das facções islamitas ligadas aos "Irmãos Muçulmanos" e da crescente influência de organizações salafistas jihadistas como a "Jahabat al Nusra" ("Frente para a Vitória do Povo Sírio") capazes de virem a replicar as violências ocorridas no vizinho Iraque.

  O sistema de patrocínio imposto pelos alauítas a partir dos anos 60 e envolvendo as minorias e parte da burguesia sunita, além de tribos de filiação sunita como os Hadidyn ou os Shammar, foi destruído pela guerra.

   Só os curdos podem considerar uma remota possibilidade de autonomia territorial no nordeste da Síria, apesar de a comunidade estar profundamente dividida entre o "Partido da União Democrática", ligado ao "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" -- inimigo número um de Ancara -- e o "Conselho Nacional Curdo", uma coligação apoiada pelo governo regional do Curdistão iraquiano.

   No campo sunita as centenas de milícias nominalmente agregadas no "Exército Livre da Síria" não acatam de facto orientações políticas da heteróclita "Coligação Nacional Síria", presidida a prazo pelo sunita Mouaz Al Kathib, o que retira eficácia ao apoio diplomático e militar de norte-americanos, britânicos, franceses ou turcos.

   O fracasso de uma frente unitária, multiétnica e plurireligiosa da oposição é agravado pelo apoio financeiro do Qatar e da Arábia Saudita a grupos islamitas com o objectivo de derrubar al Assad e fazer claudicar o único aliado regional do Irão.

                                  Veleidades estrangeiras

  Os ataques israelitas revelam, por sua vez, a limitadíssima capacidade de influência externa numa guerra civil que se arrastará até à capitulação ou extermínio dos alauítas às mãos de milícias sunitas.

   Depois, será a vez das facções vencedoras medirem forças e, consciente de que terá de aproveitar esta oportunidade em que a desagregação do estado sírio impede uma retaliação convencional, Telavive limita-se a precaver enquanto possível a transferência de armamento sírio e iraniano para o "Hizballah".

  Israel terá, contudo, de conter as suas intervenções militares e limitá-las a casos extremos de transferências de armas convencionais ou químicas para o "Hizballah" ou grupos terroristas de forma a evitar que o conflito alastre a partir da fronteira sul do Líbano.

   As polémicas sobre eventual recurso pontual a armas químicas por parte de forças governamentais ou grupos rebeldes irão prosseguir dada a impossibilidade de inspecção conclusiva no terreno por especialistas da ONU.

   Os diferendos estratégicos entre Washington, Moscovo, Pequim e Nova Delhi condicionarão, ainda, uma eventual intervenção militar para salvaguarda dos arsenais de armas químicas que implicará inicialmente o envio para grande número de localidades na Síria de dezenas de milhares de soldados (75 mil homens, num cenário posto a circular pelo Pentágono) e centenas de especialistas.

  Capitulação por exaustão e acantonamento nas montanhas da costa do Mediterrâneo ante ameaça de extermínio e remoção forçada de populações é o destino dos alauítas.

  Refúgio junto de comunidades congéneres nos países vizinhos ou aceitação de estatuto subordinado ou automonia muito limitada é o que se vislumbra para as minorias ante a expectativa de uma vitória sunita que obrigará a um acerto de contas entre jihadistas, salafistas, islamitas conservadores e as quase extintas facções secularistas árabes.


Jornal de Negócios
8 de Maio 2013
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O transe da guerra




Aleppo, Agosto 2012
(Foto Nicole Tung)


  Na Síria Bashar al Assad resiste após quase três anos de protestos e combates, mas é já impossível evitar o pior que inevitavelmente irá pesar sobre levantinos e europeus.

  A guerra civil assumiu um irremediável cunho sectário, opondo comunidades tribais, étnicas e religiosas, e, assim, tornaram-se extraordinariamente difíceis compromissos políticos que preservem a integridade do estado.

  Na frente militar o regime de al Assad concentra esforços no controlo da capital, de Aleppo, a urbe mais populosa, e outras cidades estratégicas como Homs e Hama, ainda que ao custo de perder temporariamente o domínio para forças rebeldes de bairros e subúrbios nestes centros urbanos.

  A província de Lakatia na costa do Mediterrâneo surge cada vez mais como o derradeiro reduto da minoria alauíta, uma variante esotérica e heterodoxa do xiismo que nos anos 60 arrebatou o poder político e militar na antiga província do Império Otomano, posteriormente mandato francês até 1946.

  A hegemonia política alauíta (cerca de 10% da população), graças ao assentimento da oligarquia de negócios sunita e de minorias, como cristãos ou druzos, finou-se e a balança do poder pende agora para a maioria sunita que engloba 70% dos sírios.

  A rede de alianças com tribos árabes sunitas – caso dos Hadidyn, Shammar e Tay – que Hafez al Assad consolidou a partir dos anos 70 é cada vez mais frágil, sobretudo a partir do momento em que outras tribos, como os al Neim, entraram em ruptura com os alauítas.

  A virulência dos combates numa guerra essencialmente urbana, com combates pelo efectivo controlo territorial e de populações, deixa escassa margem para compromissos.

  Face à superioridade militar convencional do regime os grupos rebeldes optaram por tácticas que implicam o sacrifício de grande número de civis, além de actos terroristas, o que, contudo, não obstou ao contínuo fluxo de armamento e financiamentos por parte de estados como o Qatar, a França ou os Estados Unidos, além da vizinha Turquia.

  A brutalidade da repressão do regime do partido Ba´ath reforçou a militância islamita que predomina entre os grupos combatentes propensos, por seu turno, à prática de atrocidades exemplares.

  Soou a hora da vingança pelo massacre dos revoltosos dos Irmãos Muçulmanos em 1979 e 1982.

  Os curdos, 250 mil almas entre 22 milhões de sírios, depois de al Assad ter-lhes reconhecido no ano passado a nacionalidade síria que fora retirada em 1962, enquistaram-se, por sua vez, nas suas regiões do norte do país opondo-se a árabes e outras minorias.

  Para desconcerto e preocupação de Damasco, Ancara e dos xiitas no poder em Bagdade a minoria curda síria joga agora por sua própria conta.

  A alienação dos curdos, bem como a diminuta influência sobre as operações militares no terreno, é um dos factores a retirar credibilidade à Coligação Nacional Síria, liderada pelo sunita Mouaz al Kathib, apesar do reconhecimento concedido por Washington, a Turquia, a União Europeia e as monarquias sunitas do Golfo.

  Numa fase da guerra em que grupos sunitas islamitas predominam na liderança das acções militares conta al Assad, ignorando promessas de mediação diplomática, as milícias salafistas mostram-se, por sua vez, particularmente activas no norte e noroeste, designadamente nas províncias de Aleppo e Idlib.

  Grupos como Jahbat al Nusra, (“Frente para a Vitória do Povo Sírio”) mobilizando confrades sunitas iraquianos, afirmam-se irredutíveis na luta pela reconstituição do califado no estrito rigor dos ensinamentos do Profeta.

  Estes islamitas radicais, presentemente apresentados como herdeiros do manto da Al Qaeda e denunciados como terroristas por Washington, dispersam-se na prática por várias organizações e, pelo recurso sistemático a tácticas de terror, estão apostados em sangrar a Síria por muitos anos.

  Chegados ao Ano III da Guerra as peripécias e atrocidades que irão marcar a era pós-al Assad deixam antever uma devastação que torna a paz improvável pelos tempos mais próximos.

  Enleada em todos os conflitos do Levante a Síria atormentará países vizinhos, será palco de confrontos de influências entre potências longínquas e potentados regionais e na iminência de um conflito mais vasto do Mar Cáspio ao Golfo Pérsico marcará o ano 2013 como um factor de imensa instabilidade.

  Uma guerra longínqua pouco ou nada aparenta ter a ver com as superação da crise portuguesa e europeia, mas, por mais que a queiram ignorar, muito pesará no cálculo de custos estratégicos.

Jornal de Negócios
26 Dezembro 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A ONU antes da Grande Guerra do Golfo





   O incontornável rosário de crises do Levante ao Hindu Kush assombra a Assembleia Geral da ONU que bem poderá revelar-se o último grande conclave internacional em Nova Iorque antes da Grande Guerra rebentar no Cáspio e no Golfo Pérsico.

   O desenvolvimento sustentado -- em vertentes como gestão ambiental ante mudanças climáticas e combate à pobreza, discutidas este Verão na Conferência Rio+20 – ou a reforma do Conselho de Segurança serão alguns dos temas sacrificados pela premente ameaça de guerra.

   A impossibilidade de instituições estatais multilaterais como a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica e a ONU mediarem pela via diplomática tréguas na guerra civil da Síria põe em relevo o confronto de políticas externas antagónicas que exacerbam um conflito com contornos étnicos e religiosos que extravassam além-fronteiras.

   A redes de alianças e interesses envolvendo e opondo estados como a Turquia, Arábia Saudita, Iraque e Irão, condenam a Síria a uma sangria sem fim à vista, mas que, inelutavelmente, levará à perdição a minoria alauíta no poder.

                                 Os meios necessários

    O impasse no Conselho de Segurança era previsível por Pequim e Moscovo considerarem que a NATO e seus aliados ultrapassaram os termos da resolução 1973 de Março de 2011 que autorizou o uso na Líbia de «todos os meios necessários», excepto «uma força de ocupação estrangeira», para proteger civis e áreas de povoamento civil.

   A intervenção militar da NATO, subsidiariamente apoiada pelo Qatar e Jordânia, foi vista na Rússia e na China como um acto abusivo e, consequentemente, inviabiliza a adopção de qualquer resolução do Conselho de Segurança que admita o recurso à força ao abrigo do Capítulo VII da Carta da ONU.

   Excepto na eventualidade de uso de armas químicas ou biológicas ou sua transferência para organizações terroristas é dificilmente concebível uma intervenção militar directa estrangeira na guerra civil síria, com ou sem sanção da ONU, que, em qualquer caso, tenderá a evitar na medida do possível a eventualidade de ocupação territorial.

   As últimas manifestações violentas de repúdio por ofensas perpretadas no Ocidente contra o Islão serviram, por seu turno, para relembrar o óbvio: é fruste a base social e limitadíssima a legitimação ideológica para uma ordem política incorporando princípios liberais e secularistas em países tão distintos quanto o Egipto ou o Paquistão.

   Na ressaca do fracasso estratégico e ideológico das intervenções no Iraque e no Afeganistão os protestos de militantes islamitas em manifestações do Sudão à Nigéria terão afastado para os tempos mais próximos quaisquer ilusões sobre o apoio com que possam contar acções militares dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais em países de maioria islâmica ou com significativas minorias de crentes na mensagem do Profeta.

   Para o resto do mundo a falta de discernimento e capacidade de intervenção estratégicas do bloco ocidental ficam ainda patentes no fracasso da tentativa de mediação da administração Obama no conflito israelo-palestiniano, independentemente do que vier a ocorrer se a Autoridade Palestiniana conseguir um voto por maioria na Assembleia Geral para obter o estatuto de “estado observador” na ONU.

                              O mau tempo e a política

     A meteorologia, entretanto, condiciona no curto prazo a próxima guerra.

   A chegada do Outono torna muito mais difícil para Israel missões ofensivas e de reconhecimento áereo, sobretudo nas regiões montanhosas e no noroeste do Irão e, independentemente das cumplicidades com que possa contar no Arzebeijão e Curdistão iraquiano, limita a capacidade operacional unilateral de Telavive.

   Adiar para a Primavera um ataque que obrigue, por via de retaliação iraniana, a envolvimento directo dos Estados Unidos, deixa o governo de Benjamin Netanyahu à mercê da Casa Branca e descredibiliza as ameaças de Israel, jogo por demais perigoso no Médio Oriente onde prevalece a lei da força.

   No caso de Obama ser reeleito a Casa Branca não admitirá ser constrangida por Telavive, apesar do evidente fracasso das tentativas de levar o Irão a suspender ou renunciar a um programa nuclear militar.

   Na menos provável hipótese de vitória republicana Mitt Romney ainda mal terá rodado a sua equipa e o fervor ideológico já terá sido submetido ao confronto com realidades comezinhas como, por exemplo, a vulnerabilidade do Japão e da Coreia do Sul a cortes nos fornecimentos de petróleo.

   As probabilidades de erro de cálculo por parte de tão grande número de intervenientes são tamanhas que a eclosão da guerra é o mais provável.

   A ONU não voltará a ser a mesma entidade multilateral caso se mostre incapaz de impedir mais uma guerra com risco de escalada dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
26 Setembro 2012

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domingo, 16 de setembro de 2012

O crepúsculo dos cristãos do Levante

Le pape à Bkerké, le 15 septembre 2012, devant des dizaines de milliers de jeunes. REUTERS/Sharif Karim
Bkerké, 15 Setembro

Entre a potência
  E a existência
  Entre a essência
  E a descendência
  Tomba a Sombra

                Porque Teu é o Reino”


Os Homens Ocos”, T. S. Elliot



   Crentes apreensivos, angustiados e divididos aguardam pela visita que Bento XVI inicia sexta-feira ao Líbano numa altura em que tudo conspira contra as comunidades cristãs do Levante.

   João Paulo II na sua peregrinação em Maio de 1997 teve a ousadia de apelar à reconciliação nacional e ao respeito pela soberania libanesa.

   Os cristãos ainda eram, então, uma força decisiva no confronto com a Síria que recusava retirar as tropas que em 1976 tinham intervido na guerra civil e com Israel que ocupava o sul do Líbano desde 1982.

   Bento XVI, pelo contrário, além da mensagem doutrinária católica e ecuménica e apelos de cunho humanitário, pouca margem de manobra terá para declarações abertamente políticas dadas as divisões entre igrejas e blocos políticos e a ameaça de retorno à guerra civil.

                                   Comunidades divididas

   Bechara Boutros Al Rahi -- patriarca dos maronitas, a maior confissão oriental em comunhão com a igreja católica -- tem evitado criticar abertamente o regime de Damasco e os seus apoiantes no Líbano, caso do general cristão Michael Aoun do Movimento Patriótico Livre aliado presentemente aos xiitas do Hizballah.

   Samir Geagea, outro líder histórico de milícias maronitas, mantem uma atitude de oposição radical ao regime de Bashar Al Assad, mas sem grande eco junto dos políticos cristãos, druzos, ou sunitas que aceitaram integrar a actual coligação governamental dominada pelo Hizballah.

   Os cristãos libaneses – maronitas, ortodoxos gregos, arménios, assírios, melquitas, ortodoxos siríacos e protestantes, entre as principais confissões – representam 30% a 40% da população, mas a comunidade xiita está em vias de assumir idêntico peso demográfico, deixando para trás os sunitas, cerca de 30%, e druzos, 5%.

   O último censo teve lugar em 1932 e os equilíbrios étnico-religiosos alteraram-se radicalmente.

   A predominância política cristã no Líbano, propiciada pela França após a partilha dos despojos do Império Otomano, perdeu-se no rescaldo da guerra civil de 1975-1990 que marcou a ascensão dos xiitas.

   A perda de poder político no Líbano foi a par de uma diminuição genérica da presença cultural cristã no Levante depois do papel de relevo que clérigos, intelectuais e artistas cristãos desempenharam na Renascença Árabe (Al Nahda) desde meados do século XIX.

   No século passado George Antonius, oriundo de uma família egípcio-libanesa cristão-ortodoxa, ainda viria a ser nos anos 30 um dos expoentes do nacionalismo árabe.

   O grego-ortodoxo Michel Aflaq, nascido em Damasco, surgiria como teórico maior do nacionalismo e panarabismo de veia socialista na década de 40 e fundaria o partido Ba`ath (Resurgimento) que viria a tomar o poder na Síria e no Iraque.

                          Perda de influência e enquistamento

   À medida que surtos nacionalistas ou comunitários assumiram maior cunho religioso os cristãos do Levante e Médio Oriente acabaram por perder a protecção de regimes autocráticos que os usavam como contrapeso político conforme as conveniências.

   No Iraque boa parte dos fiéis assírios e caldeus (cerca de 3% da população) fugiu às violências que eclodiram após o derrube do regime minoritário sunita de Saddam Hussein.

   Idêntico cenário está em vias de se repetir na Síria onde a minoria cristã (10% da população) apostou desde os anos 60 numa convergência de interesses com o regime alauíta a braços com a revolta da maioria sunita.

   Igualmente debilitadas pela emigração e contracção demográfica que levaram os cristãos a as minorias cristãs na Palestina, Israel e Jordânia só representam cerca de 3% da população e veêm-se subordinadas aos interesses conflituosos das maiorias sunitas e judaicas.

   No grande baluarte cristão do Levante os coptas, sensivelmente 10% dos 84 milhões de egípcios, viram desaparecer a salvaguarda do regime de Hosni Mubarak e enfrentam agora o revivalismo islamita.

   O enquistamento dos coptas, acentuando o conservadorismo religioso e social numa tentativa de preservar valores identitários num ambiente hostil, é uma reacção que se poderá repetir noutras comunidades cristãs do Levante sem condições para acalentarem revisionismos radicais.

   As comunidades cristãs representavam cerca de 20% da população do Médio Oriente no início do século XX e presentemente não ultrapassam os 5%, sensivelmente 12 milhões de almas.

   A emigração, a subordinação ou impotência políticas, a perda de dinamismo cultural marcam as novas gerações de cristãos levantinos tementes a perseguições e discriminações.

   A viagem de Bento XVI ao Líbano numa altura em que a guerra civil síria ameaça toda a região irá ilustrar pela sua incapacidade de assumir atitudes de ruptura ou protesto esta impotência genérica que assombra os fiéis, essa perda de viço que há décadas atormenta as comunidades cristãs do Levante.



Jornal de Negócios
12 Setembro 2012

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Uma guerra para perdedores


 
   Ao lançar na madrugada de domingo o mais mortífero ataque de guerrilha desde o recomeço das hostilidades em 2004 junto à aldeia de Daglica, a apenas cinco quilómetros da fronteira com o Iraque, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) atingiu um objectivo estratégico prioritário: obrigar os Estados Unidos e a União Europeia a intervirem junto de Ancara para evitar uma invasão do Curdistão iraquiano.
 

   As pressões norte-americanas e europeias sobre Ancara para negociar com as autoridades de Bagdad e do Curdistão iraquiano vão obrigar, na óptica do PKK, a que uma eventual incursão militar turca assuma duração e dimensões limitadas.

  Para Murat Karayilan, o actual líder dos separatistas, o governo turco teria, ainda, de aceitar incluir o PKK em conversações sobre o estatuto das províncias curdas do sudeste da Turquia.

                                 Erradicar bases separatistas

   Para os estrategos turcos a lógica e utilidade de qualquer incursão militar obrigam à erradicação das bases militares do PKK.

   Se a abertura política na Turquia e os investimentos nas províncias curdas do sudeste permitem encarar a possibilidade de secar os apoios a uma guerrilha dependente de bases no exterior, o êxito de uma intervenção militar no Iraque é, no entanto, altamente duvidoso.
 
   Desta feita, ao contrário das operações dos anos 90, o exército turco não contará com apoio das milícias peshmerga dos dois principais partidos do Curdistão iraquiano (Partido Democrático, de Massoud Barzani, e União Popular, de Jalal Talabani).

   Os separatistas ao retomarem as hostilidades no Verão de 2004, após cinco anos de tréguas que se seguiram à captura do seu líder Adullah Öcalam, encetaram acções de guerrilha no sudeste da Turquia e uma campanha terrorista nas províncias ocidentais contra alvos económicos, sobretudo da indústria turística, a partir de bases no norte do Iraque.

   As principais bases do PKK ficam nas montanhas de Qandil, no nordeste do Iraque, junto à fronteira com o Irão, e os militares turcos, sem possibilidade de arriscarem uma ocupação com infantaria, limitar-se-ão a bombardeá-las com caças F-16, recorrendo a unidades de forças especiais apoiadas por helicópteros de ataque Cobra para operações de limpeza.

   As bases avançadas do PKK nas montanhas ao longo dos 350 quilómetros de fronteira servem apenas para incursões na Turquia, têm escassas infras-estruturas e albergam unidades com grande mobilidade.

   Uma incursão militar antes que o Inverno tombe sobre o Curdistão só fará sentido se conseguir provocar grandes baixas aos cerca de 3 mil guerrilheiros do PKK e gerar capturas de material de tal modo significativas que impeçam os separatistas de retomarem de imediato na Primavera uma contra-ofensiva na Turquia.

                               Poucos trunfos para a Turquia

   Nos poucos meses que um eventual êxito militar (independentemente das elevadas baixas que as forças armadas turcas parecem estar dispostas a aceitar) ofereça para negociações diplomáticas (que terão de envolver o Irão em guerra contra os separatistas curdos do PEJAK, aliados do PKK) a Turquia tentaria exigir garantias por parte dos Estados Unidos e das autoridades de Curdistão iraquiano, nomeadamente do presidente do governo regional Massoud Barzani, de acções para pôr cobro a qualquer actividade separatista.

   Ao contrário da ameaça de guerra lançada por Ancara contra Damasco em 1998, que levou a Síria a expulsar Öcalam, capturado no ano seguinte em Nairobi para pôr fim à primeira fase da guerrilha separatista, desta feita os trunfos turcos são menos expressivos.

   Pouco prováveis concessões dos partidos curdos iraquianos para bloquearem acções do PKK obrigariam em troca Ancara a reconhecer os desígnios curdos sobre Kirkuk, a capital petrolífera em disputa no norte do Iraque.

   Além de sacrificar os interesses da minoria turcomena, a Turquia jogaria nesse caso o seu peso a favor dos curdos na partilha do poder no Iraque e criaria um foco de agregação para as populações curdas também potencialmente destabilizador para o Irão e a Síria.

   Uma incursão militar seria incapaz de criar uma zona tampão no norte do Iraque contra a vontade das autoridades curdas iraquianas e teria consequências negativas para a economia do sudeste da Turquia.

   Tal efeito negativo deitaria a perder os apoios ao governo de Ancara que se fazem sentir precisamente numa altura em que as populações curdas começam a reconhecer os resultados das políticas dos governos do Partido Justiça e Desenvolvimento desde 2002, conforme demonstraram os resultados dos islamitas de Recip Erdogan nas últimas eleições nas circunscrições de maioria curda.

   A hostilização declarada aos Estados Unidos, dependentes do apoio da Turquia para 70 por cento das suas linhas logísticas no Iraque, não é opção para Ancara numa altura em Washington se prepara para um possível conflito com Teerão.

   A irritação provocada pela discussão na Câmara de Representantes de Washington de uma moção sobre o genocídio arménio em 1915 veio complicar a manobra diplomática e o antiamericanismo crescente da opinião pública turca embaraça o governo de Erdogan que não pode ignorar os apelos a uma retaliação militar contra os separatistas.

                                Falhar em demasiadas frentes

   As difíceis negociações de adesão à União Europeia, as conversações sobre o estatuto de Chipre, serão seriamente prejudicadas por uma intervenção militar turca que gere retaliações por parte das autoridades curdas no norte do Iraque e acabe por destabilizar a região menos turbulenta da Mesopotâmia.

   Esta instabilidade em várias frentes, muito mais do que o agravamento das sabotagens no oleoduto Kirkuk – Ceyhan ou a possibilidade de ataques nas províncias turcas ao oleoduto Baku – Ceyhan, conta-se como um dos factores para a alta do petróleo.
         
   Para a Turquia, todas as saídas para esta crise redundam em perdas

   Uma intervenção militar não destruirá a capacidade guerrilheira e terrorista do PKK na falta de um apoio decisivo dos partidos curdos iraquianos.

  A impunidade de um santuário terrorista num estado vizinho é intolerável para a Turquia e potencia crises político-militares internas.

   Uma operação militar pontual com apoio dos Estados Unidos e a condescendência dos partidos curdos iraquianos será ineficaz para erradicar as bases do PKK.

   Um compromisso vago de empenhamento dos partidos curdos do Iraque para controlarem as actividades do PKK é uma das saídas menos más para a Turquia desde que permita estancar acções terroristas e de guerrilha até à Primavera, mas representa, apenas, um adiar do problema.

Jornal de Negócios
25 Outubro 2007

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Roteiro da Guerra no Médio Oriente

 
   Yasser Arafat considerava insensato comparar Ariel Sharon a Charles de Gaulle e o primeiro-ministro de Israel, por seu turno, classificava como um equívoco a analogia com o presidente francês porque, dizia, «a Argélia é aqui, os judeus não têm para onde partir e o estado de Israel é central para todas as comunidades judias dispersas pelo mundo».
 
   Por uma vez os dois inimigos concordavam numa apreciação crucial que justificou toda a carreira política de Sharon, ainda que, desde 1988, o político do Likud afirmasse ter começado a admitir a necessidade de descartar territórios que não fossem vitais à segurança do estado de Israel.

   Só em 2004, no entanto, Sharon começou a concretizar os planos de definição unilateral de fronteiras, mediante a neutralização militar e isolamento diplomático do adversário.

  Os objectivos que guiavam Sharon passavam por assegurar profundidade estratégia mínima, capacidade de dissuasão e projecção de força superiores a todos os estados vizinhos, coesão étnica e preservação da aliança com os Estados Unidos.

   A sua estratégia continha, no entanto, lapsos consideráveis para sustentar a pacificação regional.

   Os elementos mais óbvios das insuficiências do projecto a longo prazo de Sharon tinham a ver com a recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, a manutenção do carácter judaico e democrático do estado -  tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala - e, sobretudo, a viabilidade e estabilidade de um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia.

   O estratego desapareceu sem dar resposta a estas contradições, ainda que tenha enterrado definitivamente a quimera da «Grande Israel», e saiu de cena precisamente numa conjuntura em que sopram ventos de guerra no Médio Oriente.

   Evocar o pior cenário possível é uma questão de avaliação da magnitude e probabilidade dos riscos e implica uma conjunção e imbricação de variáveis a curto prazo.

  Precisamente por isso, falhado o objectivo do Roteiro de Paz, patrocinado pela ONU, União Europeia, Rússia e Estados Unidos, que apontava para uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, é altura de apurar os riscos de um Roteiro de Guerra.

   Incapazes de separar o estado de Israel da turbulência nos territórios palestinianos, os dirigentes israelitas, ainda que possam conter em limites toleráveis eventuais vagas terroristas, terão de coexistir com uma Autoridade Palestiniana em que o peso dos integristas do Hamas será cada vez maior.

   O cenário de um desfasamento acentuado de interesses imediatos entre os palestinianos da Cisjordânia e a anarquia de Gaza, implicando um comprometimento directo do Egipto, não obsta a que Israel tenha de definir a médio prazo as condições aceitáveis de viabilidade de uma entidade estatal árabe nas suas fronteiras.

   A anexação dos colonatos judeus próximos à linha de fronteira de 1967 na Cisjordânia só teria viabilidade se o estado palestiniano escapasse à lógica dos bantustões que a elite militar e política de Israel persiste em impor, ignorando, ainda, concessões simbólicas na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados palestinianos.

   Tendo em conta o imponderável da evolução do Hamas, que à semelhança do Hizballah no Líbano, nunca irá abdicar da componente armada, Israel viu falhar, para já, a opção Mahamoud Habbas.

  Tudo o que vier será para pior.

  Na fronteira norte, o regime do presidente Bashar Al Assad dificilmente sobreviverá à crise provocada pelo assassínio de Rafic Hariri, sendo o regresso à primeira linha dos Irmãos Muçulmanos e o ajuste de contas com a minoria alauíta dados incontornáveis.

  A questão adiada do retorno dos Montes Golã para efeitos de contenção da Síria e da neutralização do Líbano irá colocar-se a curto prazo aos dirigentes israelitas.

   Na frente interna, um futuro governo israelita não terá condições para levar a cabo o desmantelamento de colonatos na Cisjordânia, mesmo limitado a áreas envolvendo 80 mil dos 240 mil colonos, e, sobretudo, nunca poderá aventar argumentos de reforço de segurança em fronteiras definidas unilateralmente dada a degradação da autoridade da Fatah nos territórios palestinianos.

  Acresce que qualquer governo de Israel terá de dar provas de força para conter previsíveis actos terroristas ao mesmo tempo que tentará acelerar o ritmo de redução de importações de produtos e, sobretudo, de mão-de-obra palestiniana, agravando, necessariamente, a crise económica e social nos territórios.

  Finalmente, a questão mais gravosa e imponderável passa pela resposta a dar ao programa nuclear militar iraniano.

   As estimativas israelitas apontam para um ponto de não-retorno no programa nuclear de Teerão ainda este ano.

  A complexidade da situação foi agravada pela decisão norte-americana de vender a Israel, em Fevereiro do ano passado, 500 bombas convencionais de penetração capazes de atingir instalações subterrâneas, enquanto Moscovo acordava, em Dezembro, o fornecimento de 30 sistemas TOR-M1 de defesa anti-aérea a Teerão.

   A eventualidade de um ataque israelita a alvos iranianos é uma hipótese muito crível, tanto mais que os apoiantes do presidente Mahmoud Ahmadinejad se revelam avessos a qualquer compromisso diplomático, contando a seu favor com a dificuldade de êxito de uma acção militar e as gravosas consequências que acarretaria.

   Mesmo sem levar em linha de conta uma eventual guerra civil no Iraque, nem um atentado em larga escala da Al Qaeda, a concretização negativa de duas ou três situações de risco são mais do que suficientes para considerar muito crível o agravamento da situação no Médio Oriente, admitindo, mesmo, a probabilidade alta de confrontos militares.

  É o roteiro que poderá levar o barril de petróleo até aos cem dólares.   

Jornal de Negócios
11 Janeiro 2006

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domingo, 9 de setembro de 2012

Iraque: a guerra acabou

 
Anbar, Janeiro 2007
 
 
    Toda a guerra tem um objectivo e a investida norte-americana no Iraque perdeu o norte.
 
   A guerra continuará nas terras da Mesopotâmia, mas os objectivos estratégicos de Washington esvaíram-se sem que tenha sido definida até agora uma alternativa por parte dos Estados Unidos.

   A “Estratégia Nacional para a Vitória no Iraque”, aventada em Novembro de 2005 pela Casa Branca, definia como objectivos a curto prazo a consolidação de instituições democráticas em Bagdad, sustentadas por forças de segurança próprias capazes de deter ameaças terroristas.

   O plano estratégico implicava a médio e longo prazo a instituição de um estado unitário capaz de integrar uma “parceria global de combate ao terrorismo”, com autonomia económica assente na exploração dos recursos petrolíferos.

   Quatro anos depois da intervenção militar os Estados Unidos confrontam-se com um fracasso estratégico e, independentemente de considerações tácticas acerca da condução de operações militares, chegou a hora de redefinir as alternativas de Washington no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.
    
                                  A retirada pela Primavera

   Quando chegarmos à Primavera, será altura de iniciar a retirada de algumas brigadas a menos que a Casa Branca opte pela mobilização de efectivos da Guarda Nacional ou de reservas.

  Tal opção é inviável de um ponto de vista político e, consequentemente, na falta de efectivos mobilizáveis assistir-se-á a uma redução no actual contingente militar de 160 mil homens.

   A contenção de acções de guerrilha ligadas à Al Qaeda, através de acordos pontuais com tribos sunitas em Anbar, é notoriamente insuficiente para uma pacificação que implique um acordo político entre diversos grupos políticos nas províncias de maioria sunita. Acresce que as tréguas concertadas com as tribos sunitas em Anbar foram realizadas à revelia do governo central.

   Os confrontos em Bassorá entre milícias xiitas pelo controlo das principais jazidas de petróleo do Iraque, bem como a tensão entre curdos, árabes e turcomenos sobre o estatuto de Kirkuk no norte do país escapam, igualmente, à mediação do governo central e à intervenção das forças norte-americanas.

   O exército e as forças policiais iraquianas continuam a revelar-se divididas nas suas lealdades sectárias e impotentes para garantir condições de segurança, ao passo que as milícias xiitas e curdas mantêm as suas estruturas autónomas pondo em causa a autoridade do governo de Bagdad.

   A partilha dos recursos petrolíferos e a autonomia provincial e regional não fazem consenso entre os partidos políticos e minam a eficácia do executivo de coligação, enquanto o acantonamento por filiação étnica se estendeu a todo o país.

   Na capital, o êxodo da população sunita converteu a cidade numa metrópole de incontestável maioria xiita. Os bairros do noroeste de Bagdade foram, por exemplo, abandonados pelos habitantes sunitas e os xiitas constituem presentemente 75 por cento da população da maior cidade iraquiana.

   A maioria dos fundos disponibilizados até Junho pelos Estados Unidos (44,5 mil milhões de dólares) e por doadores internacionais (18,2 mil milhões de dólares), além dos 36,8 mil milhões de dólares investidos pelo governo iraquiano, não tiveram aplicações que se traduzissem na recuperação de infra-estruturas e a produção de petróleo mantém-se abaixo dos níveis de 2003.

   À excepção do Curdistão, os fornecimentos de electricidade são insuficientes, estima-se que apenas 30 por cento da população tenha acesso a água potável e, segundo dados da Oxfam, 28 por cento das crianças iraquianas revela sinais de desnutrição.

   Os mais de dois milhões de refugiados em países vizinhos e os dois milhões de deslocados no Iraque continuam sem perspectivas de retorno e realojamento.  

   Os níveis de violência mantêm-se muito elevados, tendo-se registado 1 980 mortes em Julho e 2.890 vítimas em confrontos e atentados em Agosto.
                                       
                                           Outra guerra

   Por qualquer padrão de avaliação os níveis de conflitualidade mostram um país atormentado por violências que opõem as principais comunidades étnicas e religiosas, sem que o governo central, paralisado por conflitos políticos, faça valer a sua putativa autoridade.

   Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos não foram, portanto, atingidos e a instabilidade interna do Iraque tornou o país mais permeável aos interesses conflituosos dos estados vizinhos, designadamente o Irão, a Turquia e a Síria.

   Aos Estados Unidos resta apenas reduzir as perdas, tentar evitar que uma retirada faseada alente nos próximos dois anos uma guerra civil que provoque o desmembramento do estado iraquiano e concentrarem-se na protecção dos demais estados petrolíferos árabes do Golfo.

   A contenção do Irão passou a ser o principal desiderato estratégico dos Estados Unidos.
   Esta guerra acabou.

   Agora é outra guerra.



Jornal de Negócios
13 Setembro 2007

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O Iraque depois do fracasso

Iraqis view burnt and damaged vehicles, after a suicide car bomb attack, in Kirkuk, 290 kilometers (180 miles) north of Baghdad, Iraq, Sunday Sept.17, 2006.

A series of five bomb attacks including two suicide car bombings in the northern city of Kirkuk Sunday left more than 20 people dead and nearly 80 wounded, police said.

Picture: AP/Yahya AhmedKirkuk, 17 Setembro 2006

  A amplitude da derrota republicana nas eleições do próximo mês determinará os termos da revisão da política norte-americana face ao Iraque, mas o fracasso estratégico de Washington é já uma realidade incontornável.

   O reforço da presença militar norte-americana em Bagdade, iniciado em Junho para tentar controlar a violência sectária na capital, não produziu resultados e a insegurança continua a aumentar nas províncias sunitas ao mesmo tempo que eclodem confrontos entre milícias xiitas.

   As rivalidades étnicas e as conivências com as diversas milícias impossibilitam que as forças policiais e militares iraquianas se assumam como garante de segurança, tornando vãs as promessas do governo central de controlar directamente metade das 18 províncias do país dentro de um ano.

   Seis meses após ter assumido o cargo de primeiro-ministro, o xiita Nuri al Malik é incapaz de assegurar o mínimo de consenso que permita dar corpo ao plano de reconciliação nacional ao mesmo tempo que as autoridades centrais não conseguem prover serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento.

   Todos os esforços de investimento e reconstrução estão condicionados pela deterioração das condições de segurança que provocaram mais de meio milhão de mortes nos últimos três anos e pelas deslocações de população que já levaram 1,6 milhões de iraquianos a deixar o país e condenaram outro milhão e meio à situação de refugiados internos.

  As recentes negociações encetados pelos militares norte-americanos com líderes tribais e grupos de guerrilheiros sunitas, excluindo, segundo as primeiras indicações apenas as facções ligadas à Al Qaeda – que representam menos de 10 por cento dos cerca de 20 a 40 mil insurrectos activos nas províncias ocidentais e no centro do Iraque – estão condenadas ao fracasso à medida que se acentua a preponderância das milícias xiitas do Exército do Mahdi, liderado por Moqtada Sadr, e da Organização Badr, o braço armado do "Conselho Supremo para a Revolução Islâmica".

                                 Bancarrota dos acordos políticos

   As garantias dadas este ano pelo embaixador norte-americano Zalmay Khalizad a líderes sunitas de que uma eventual reorganização administrativa implicaria uma partilha equitativa das receitas petrolíferas e o direito de veto sobre questões essenciais de segurança, relações externas e representação política caíram por terra.

   Os partidos xiitas impõem a sua lei no sul do país e nas áreas de maioria xiita de Bagdade e as regiões curdas praticamente não reconhecem a autoridade do governo central, reservando-se o direito de secessão.

   A estabilidade da região norte de maioria curda está, no entanto, sujeita a vagas periódicas de atentados terroristas sobretudo em Kirkuk, a sua capital petrolífera, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   Na inexistência de condições para a consolidação de um governo central que, através de um pacto de federação e suportado por um exército fiável e eficaz, possa impor a sua autoridade política e administrativa a todo o país, a discussão de calendários de retirada dos 140 mil militares norte-americanos e dos 7200 britânicos acantonados na região de Bassorá apenas agrava as dissensões étnicas.

   A proliferação de poderes locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como a multiplicação de bandos criminosos armados, é uma consequência irreversível a médio prazo da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein e nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Mesmo um improvável acordo de princípio entre os Estados Unidos e o Irão sobre o estatuto da maioria xiita num estado independente ou como entidade preponderante num estado unitário ou federal não garantiria o termo das rivalidades entre as diversas facções xiitas, pouco propensas, aliás, a aceitar a tutela persa, e confrontar-se-ia com a oposição das restantes comunidades.

                                   Partilhas sangrentas

   Uma partilha do Iraque em três entidades, concedendo "grosso modo" as províncias do norte aos curdos, as regiões centrais aos sunitas e o sul aos xiitas, seguindo o modelo de administração otomano, implicaria um banho de sangue entre os sete milhões de habitantes de Bagdade e uma sistemática limpeza étnica de contornos tão selváticos quanto a divisão do Raj em 1947.

   Tal cenário seria agravado, ao contrário do que aconteceu com as independências da Índia e do Paquistão, pela forte possibilidade de intervenção das potências vizinhas, nomeadamente da Turquia temerosa de um eventual estado curdo independente, dos países de maioria sunita, como a Jordânia ou a Arábia Saudita e, naturalmente, do Irão, além de poder fazer perigar o domínio dos alauítas na Síria.

   Outra forma de partilha segundo o modelo confessional que vingou no Líbano a partir dos anos quarenta é inviável dado o passado recente de violência extrema e a desproporção entre as diversas comunidades: cerca de 65 por cento de xiitas, 20 por cento de sunitas, percentagem similar de curdos, além de minorias turcomenas e assírios, entre outras, entre os 27 milhões de habitantes do país.

   A incapacidade do exército (cerca de 130 mil homens) e das forças policiais (aproximadamente 150 mil efectivos) demonstrarem unidade e eficácia – o que, simultaneamente, afasta a tradicional solução do poder ditatorial de junta militar ou homem-forte -, bem como a existência de potências vizinhas com interesses divergentes quanto à estabilização e, sobretudo, neutralização do Iraque, tornam, também, irrelevante a opção do modelo confessional libanês.

   Ante o paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, Washington e Londres estão, agora, sem condições políticas para reforçar os seus efectivos – uma iniciativa que, de qualquer modo, nesta fase já não conseguiria evitar a erosão do estado iraquiano – e condenadas a procurar formas de retirada a curto prazo.

                                     Sem margem de manobra

   A oposição das opiniões públicas na Grã-Bretanha, na Austrália (parceiro menor com cerca de 1 400 militares) e, mais recentemente, nos Estados Unidos, à continuação da presença militar no Iraque obrigam, portanto, a limitar dados junto dos respectivos eleitorados, mas retiram margem de manobra negocial.

   A consolidação de um regime democrático num estado unitário ou federal, com uma aliança preferencial com os Estados Unidos, está, presentemente, fora de consideração.

   Um regime ditatorial que assegure a unidade estatal do Iraque é inviável devido à fraqueza e cisões nas forças militares e de segurança e por motivo da força e proliferação de milícias xiitas, sunitas e curdas.

   A hipótese mais crível aponta no sentido do aumento da violência e confrontos tribais, clânicos e étnicos e à emergência de centros de poder locais e regionais autónomos que poderão conduzir à partilha de facto do país, sacrificando, sobretudo, os interesses da minoria sunita, privada das receitas do petróleo.

   Por mais voltas que a administração Bush tente dar ao problema o facto essencial é que a sua intervenção militar ameaça conduzir à desagregação do estado iraquiano e destabilizar a região que vai Golfo Pérsico, ao deserto da Síria, passando pelo Curdistão.

   Só o Irão verá a sua posição estratégica reforçada com o colapso do estado que nos anos oitenta foi a principal força de contenção com que os Estados Unidos contaram para se opor ao regime de Khomeini.

Jornal de Negócios
26 Outubro 2006

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Um descalabro estratégico no Líbano


 
 
   Eliminar o Hizballah como força militar com capacidade para atacar Israel é o objectivo imediato de Telavive na frente de guerra libanesa, mas as implicações políticas obrigam a rever os pressupostos sobre a segurança do estado judaico.

   A oportunidade para Telavive atacar o Hizballah surgiu quando o líder xiita Hassan Nasrallah abriu as hostilidades numa tentativa de criar uma frente alargada de luta contra Israel - cavalgando a onda de confrontos em Gaza - e de paralisar as veleidades anti-sírias do governo de Beirute que passavam pelo desarmamento das milícias xiitas.

   O patrocínio sírio - com Bashar Al Assad enfraquecido pela retirada forçada do Líbano no ano passado e sob inquirição da ONU no assassínio do chefe de governo libanês Rafic Hariri - e o apoio de Teerão, grata por mais uma carta negocial na questão nuclear, bastaram a Nasrallah para se lançar ao ataque.

   O Hizballah precisava, igualmente, de reforçar a sua posição face às crescentes críticas no governo de coligação de Beirute à recusa das milícias xiitas em desarmarem em contravenção à Resolução 1559 adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2004.

   Apesar de o Hizballah ter conseguido fazer reconhecer ainda no início deste ano o seu estatuto de «movimento de resistência legítimo» por parte do primeiro-ministro Fouad Siniora, a questão do desarmamento das milícias xiitas (mas, também, dos grupos palestinianos sunitas) e o alargamento do controlo governamental à totalidade do país (designadamente à zona fronteiriça com Israel) continuavam a ser levantadas pelos partidos druzos, sunitas e cristãos.

   A cooperação das forças de segurança de Beirute com o FBI no desmantelamento de uma célula terrorista alegadamente implicada no planeamento de um ataque terrorista a um túnel ferroviário entre Nova Jérsia e Manhattan (anunciado no início deste mês, mas resultando de uma operação que decorria desde o principio do ano) foi mais um sinal de que, a prazo, a coligação anti-síria poderia fazer perigar o estatuto especial reclamado pelo Hizballah.

   Nasrallah precisava de avançar e fazer valer as suas credenciais de único líder árabe que alguma vez conseguiu fazer frente a Israel, obrigando-a a retirar em 2000 e a aceitar quatro anos depois a libertação de 30 presos libaneses e 420 detidos palestinianos a troco dos cadáveres de três soldados israelitas e de um empresário judeu capturado no Líbano, além da entrega de mapas dos campos de minas estabelecidos por exército de Israel no sul do país.

   Libertar os presos árabes das cadeias israelitas e reforçar a aliança com o Hamas - que data de Dezembro de 1992 quando o Hizballah tomou a seu cargo a segurança dos 414 militantes islamitas palestinianos deportados por Israel para o sul do Líbano - foram os objectivos proclamados por Nasrallah que, assim, tentava, uma vez mais, transcender as limitações derivadas do carácter minoritário xiita do seu movimento.

                                   A impossível solução militar

   A reacção israelita, previsível no caso de um governo de coligação liderado por políticos sem credenciais militares e apostados num plano controverso de redefinição unilateral de fronteiras, acarretou uma escalada militar tanto mais irremediável quanto erros e insuficiências de informação e análise sobre as capacidades do Hizballah se fizeram sentir.

   O alegado «aventureirismo» do Hizballah, condenado pelas potências árabes sunitas, como a Arábia Saudita, tementes de mais uma derrocada dos frágeis equilíbrios políticos e comunitários que desde o início dos anos 90 poupam o Líbano à guerra civil, é justificado pela autoconfiança de uma força política que ganhou respeito para a desprezada comunidade xiita e que se orgulha de ter expulso contingentes norte-americanos e franceses em atentados terroristas nos anos oitenta e de bater-se vitoriosamente contra Israel.

   Desde os anos 80, com o patrocínio iraniano e, posteriormente, sírio, o Hizballah conseguiu transformar um movimento guerrilheiro num partido político armado e tutelar uma extensa rede assistencial e educativa, que tornam impossível o seu mero esmagamento militar, à semelhança do que se passa com o Hamas em Gaza.

   O sério risco de desagregação do regime de Bashar Al Assad - da perda do poder por parte da minoria alauíta e do previsível ajuste de contas dos Irmãos Muçulmanos sunitas em retaliação pelo massacre de Hama, em 1982 - garante ao Hizballah suficiente cobertura política da Síria que só conta no Líbano com o apoio de forças xiitas.

   Uma vez mais ao lado de Teerão, Damasco pode, por sua vez, contar com o Hizballah para recuperar capacidade negocial e surgir, outra vez, como mediador de uma crise libanesa e israelo-libanesa.

   A curto prazo o Hizballah sairá militarmente enfraquecido pela violência da retaliação militar israelita, mas, como exemplares islamitas, os militantes xiitas ganharão, uma vez mais, prestígio ante os sunitas palestinianos pela sua intransigência frente ao inimigo sionista e tornarão inviável qualquer tentativa de consenso político no Líbano dado que hegemonizam a comunidade xiita que representa cerca de 40 por cento dos quatro milhões de habitantes do país.

   Nenhum poder no Líbano será capaz, contra a Síria e a comunidade xiita, de desarmar as milícias do Hizballah e, reconhecendo esta realidade, as sugestões diplomáticas de Israel passam essencialmente pela exigência de retirada dos guerrilheiros da fronteira sul, contando com a eventual capacidade dos cerca de 60 mil homens do exército libanês para controlarem a região.

   A hipótese de reforço da UNIFIL, instituída em 1978, poderá criar uma zona desmilitarizada na fronteira com Israel, mas a presença de um contingente alargado da ONU com poderes para retaliar a eventuais ataques, só fará sentido se servir como etapa transitória para o exército libanês tomar controlo da região.

   Os equilíbrios políticos no Líbano tornar-se-ão, no entanto, ainda mais frágeis quer o Hizballah seja isolado e afastado da coligação governamental, quer reforce o seu peso após o cessar-fogo.

   O estado libanês e o seu exército correm sério risco de desagregação e o retorno dos confrontos comunitários poderá condenar o país ao papel tradicional de palco de conflito das potências regionais por peões interpostos.

                               O fim das retiradas unilaterais

   O retorno da questão libanesa e, por extensão, dos termos de acomodação com a Síria e retirados dos Montes Golã, obriga Israel a representar a sua estratégia regional.

   O plano de retirada unilateral da Cisjordânia, mesmo limitado a áreas onde residem 80 mil dos 240 mil colonos judeus, deixou de ter condições para avançar. O confronto em Gaza entre o Hamas e a Fatah e a impossibilidade de evitar ataques a partir do enclave já tinham posto em causa a ideia de que seria possível isolar Israel dos territórios palestinianos.

   Ainda assim, Ehud Olmert e os aliados trabalhistas pensavam ser possível avançar para uma segunda retirada cujos termos passavam por controlar militarmente o vale do Jordão de forma a isolar a Cisjordânia do reino haxemita e anexar os territórios onde se situam os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de outros núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron.

   A lógica de segurança implicava que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   Tornou-se claro para os estrategos de Telavive que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, podem oferecer garantias de segurança a Israel.

   Todas as tentativas nesse sentido falharam nos anos 80 e 90 no Líbano (apoio à Falange cristã maronita, criação do Exército do Sul do Líbano) e nunca tiveram qualquer hipótese de exequibilidade nos territórios palestinianos.

   A degradação da situação em Gaza e a ascensão do Hamas retiraram qualquer fundamento à ilusão de que seria possível isolar os territórios e reduzir o recurso à mão-de-obra palestiniana, sem que a crise política, económica e social transbordasse em actos de violência além das linhas de fronteira impostas por Israel.

   Fracassou, assim, o plano de Ariel Sharon de definir unilateralmente fronteiras mediante a neutralização militar e o isolamento diplomático do inimigo palestiniano.

   Tal como o Hizballah, também os militantes palestinianos apresentam o risco de em devido tempo virem a armar-se de mísseis com alcance suficiente para bombardear os principais centros urbanos de Israel.

   A garantia defensiva de profundidade estratégica mínima não faz sentido para o estado judaico ante inimigos determinados e apostados numa guerra de atrito de baixa intensidade.

   O Hizballah, expressão islamita das reivindicações xiitas no Líbano, e o Hamas, alternativa islamita sunita ao fracasso do nacionalismo laico palestiniano, representam uma cultura de violência e de rejeição ideológica que Israel não pode extirpar por recurso exclusivo à força, como fez no passado.

                                     Retomar as negociações

   Outros elementos que guiavam o pensamento estratégico de Sharon permanecem válidos como sejam a manutenção de uma capacidade de dissuasão e projecção de força superior a todos os estados vizinhos, incluindo a componente nuclear, a coesão étnica e a preservação da aliança com os Estados Unidos, mas todas as óbvias insuficiências da política do mentor de Olmert são, também, mais claras do nunca.

   Nenhum projecto de preservação do estado judaico num contexto regional essencialmente hostil pode assentar na recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, e ignorar que a manutenção do carácter judaico e democrático do estado obriga a integrar com direito plenos a minoria árabe, tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala.

   Um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia humilhado e ofendido pela recusa de concessões na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados nunca será consolo nem para um povo que se crê espoliado, nem para os judeus que se sentem ameaçados.

   A reabertura da frente libanesa veio mostrar que a questão palestiniana condiciona todo o contexto regional e obriga Israel, após afastar as ameaças terroristas mais imediatas, a retomar negociações e avançar com concessões políticas que possam vir a permitir a pouco e pouco a emergência de forças alternativas aos movimentos islamistas e rejeicionistas apostados no recurso à violência.



Jornal de Negócios
19 Julho 2006

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Tudo se desmorona

Hassan Nasrallah, Líder Hizballah


   Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, denunciando o embargo europeu ao enclave, reconhecido apenas por Ancara e o Arzebeijão, já comandos turcos faziam missões de reconhecimento nas montanhas Kandil, no Curdistão iraquiano.

   Ancara, em pleno braço de ferro com Bruxelas sobre o estatuto de Chipre, ameaça desencadear uma ofensiva contra as bases dos guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em retaliação pelos ataques que os separatistas curdos têm vindo a lançar a partir do norte do Iraque.

   A Turquia denuncia, ainda, a complacência do governo do Iraque ao permitir a abertura de centros de propaganda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em Kirkuk e Bagdade e exorta a União Europeia, os Estados Unidos e a NATO a apoiarem uma acção militar contra uma organização tida por terrorista nas capitais ocidentais.

   Paralelamente, a Turquia negocia a sua eventual participação numa força multinacional para o Líbano graças às boas relações que mantém com Israel e ao seu estatuto de membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica.

   A ameaça de intervenção militar turca - que deve evocar em Washington más recordações por via da recusa de Ancara em permitir a abertura de uma frente norte contra Saddam Hussein na campanha militar de 2003 - junta-se à vaga de atentados terroristas que nos últimos dois meses têm vindo a abalar Kirkuk, a capital petrolífera do norte do Iraque, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   O plano de reconciliação nacional do primeiro-ministro iraquiano Nuri al Malik revela-se, por sua vez, um fracasso e o Pentágono viu-se obrigado a transferir 3 200 homens de Mosul, no norte do país, para Bagdade num esforço para estancar a violência entre sunitas e xiitas na capital.

   Perigam os planos de retirada gradual do contingente norte-americano ante a persistência da insurreição nas províncias de maioria sunita, enquanto Londres e Washington se resignam à crescente afirmação das milícias xiitas no sul do Iraque, temendo a destabilização do Curdistão iraquiano como a machadada final na periclitante unidade do estado iraquiano.

   Totalmente ignaros face às realidades do Médio Oriente políticos norte-americanos, como o presidente do Partido Democrático Howard Dean, acabam a denunciar Nuri al Malik como anti-semita pelo facto do primeiro-ministro xiita recusar denunciar o terrorismo do Hizballah e acusar Israel de crimes de guerra no Líbano.

                            Um mistério dentro de um enigma

   Condoleezza Rice e seus assessores perderam-se, entretanto, na quimera da mais estranha das campanhas militares israelitas dando cobertura política a uma ofensiva que, alegadamente, propiciaria um golpe devastador contra um aliado regional do eixo maligno sírio-iraniano.

   Em boa verdade, o ataque ao Líbano revelou-se mais incoerente do que a investida israelita de 1956 contra o Suez, apoiada por Londres e Paris, e menos determinado do que as invasões de 1978 e 1982 para extirpar os guerrilheiros palestinianos.

   Por razões enigmáticas, mas em que o amargo de duas décadas de intervenção directa Líbano pesou muito, o Estado-Maior de Telavive optou por uma campanha de bombardeamentos aéreos, sem a correlativa ofensiva terrestre, com o objectivo inicial de escorraçar a componente guerrilheira - dotada de arsenais de mísseis subestimados - de um movimento islamita fortemente implantado nas comunidades xiitas do sul do Líbano.

   A ofensiva militar israelita falhou em toda a linha, reforçando a posição política do Hizballah. Uma acção de contra-guerrilha com ocupação territorial do sul do Líbano implicava aceitar baixas consideráveis por parte de Israel e obrigava a uma ocupação prolongada para a qual não existiam garantias diplomáticas.

   O objectivo de isolar o Hizballah das demais forças políticas libanesas era necessariamente incompatível com a devastação do país. Nada resultou e Telavive entrega-se, agora, à inaudita negociação sobre a eventual presença de forças multinacionais no sul do Líbano para garantia de uma zona desmilitarizada a prazo.

   A investida terrestre à terceira semana de guerra já só serve para delimitar território que venha eventualmente a ser ocupado por uma força militar internacional.

   O corolário político é, ainda, mais gravoso.

   A capacidade de dissuasão de Israel falhou: nem degradou significativamente a capacidade de flagelação do Hizballah, nem concretizou uma ocupação territorial para erradicar focos de guerrilha.

   O simples facto de o Hizballah ter resistido à ofensiva e continuar a flagelar Israel com os seus mísseis é motivo suficiente para Hassan Nasrallah reivindicar vitória.

   Não há político em Israel que não compreenda as implicações assustadoras do fracasso. Depois das Intifadas, após a vaga islamita, Israel mostrou-se incapaz de aplacar pela força os movimentos que põem em causa a sua existência como estado, ora as fronteiras impostas nas guerras de 1967 e 1973.

   Retiradas unilaterais ficam assim fora de questão sem acordos políticos com parceiros negociais reconhecidos internacionalmente. É um beco sem saída e, portanto, só resta a Telavive contar com a ameaça nuclear iraniana para recuperar margem de manobra diplomática.

                                    Trunfos de Teerão


  Ora, se houve potência regional capaz de capitalizar com a crise libanesa foi, precisamente, o Irão.

  Viu desfazer-se a inicial convergência dos estados sunitas na condenação do aventureirismo do Hizballah, cavalgou a vaga de repulsa anti-americana pelo apoio à ofensiva israelita e guardou-se para o confronto de Agosto.

  Tudo somado estamos perante um impasse muito similar ao criado pela Coreia do Norte, mas, enquanto Pyongyang prosseguiu um programa nuclear militar clandestino num contexto de escassez extrema de recursos e por exclusiva estratégia de unificação nacional sob a tutela do confucionismo-estalinista da dinastia de Kim Il Sung, o Irão optou, na senda do Xá Pahlevi, por dotar-se de capacidades de dissuasão, ou ofensivas, capazes de garantirem a sua hegemonia regional.

   Teerão guarda os trunfos de influência entre os xiitas do Iraque, apesar das reticências de Ali al Sistani, o principal ayatollah iraquiano, mas, sobretudo, joga com as dissenções entre as potências do Conselho de Segurança da ONU para ganhar tempo para o seu programa nuclear.

   Quando, a 22 de Agosto, Teerão, a meio termo das negociações sobre a crise libanesa, rejeitar as injunções da ONU e anunciar a prossecução do seu programa nuclear, cavará um fosso entre a Rússia, a China e os demais estados do Conselho de Segurança.

  Após as primeiras sanções, interditando designadamente transferências de tecnologia com possível uso militar, dificilmente haverá consenso para adoptar medidas que degradem sensivelmente a economia iraniana.

   Então, desfeita a quimera de uma vaga de democratização no Médio Oriente que a intervenção no Iraque alegadamente propiciaria, Washington terá de ponderar seriamente a possibilidade de um ataque militar ao Irão.


Jornal de Negócios
02 Agosto 2006

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Do Líbano à desgraça



 
   Duas semanas depois do início da ofensiva israelita no Líbano é patente o fracasso de Telavive.

   Os bombardeamentos aéreos e incursões limitadas no terreno não conseguiram eliminar a ameaça militar do Hizballah, esgotou-se o prazo de cobertura diplomática e chegou o momento de negociar um cessar-fogo.

   O general da força aérea Dan Halutz, que desde a sua nomeação em Junho de 2005 para chefe do estado-maior general das forças armadas aguardava uma oportunidade para erradicar a ameaça dos mísseis do Hizballah, optou por uma guerra a meio gás sem mobilizar forças para uma investida rápida e massiva contra as posições das milícias xiitas no sul do Líbano, no vale de Beeka e em Beirute.

   A má memória das invasões de 1978 e 1982 inibiu os estrategos israelitas que, desta feita, nem contavam com putativos aliados entre as facções libanesas, mas, ainda assim, jogaram na hipótese de isolamento político do Hezbollah, com a consequente degradação da capacidade de iniciativa militar das milícias.

   Seguras de si e dominadoras, para lembrar a controversa tirada de De Gaulle, as elites políticas e militares israelitas partiram do princípio de que a destruição de parte significativa das infra-estruturas libanesas seria mais do que suficiente para levar a maioria não xiita (cerca de 60 por cento da população) a contestar os custos da persistência do Hezbollah como força militar num estado liberto ainda há apenas um ano da tutela militar síria.

   Surpreendidas e ambíguas em relação à subestimação das capacidades das milícias xiitas, as forças armadas israelitas viram-se incapazes de ocupar sequer a faixa de território do sul do Líbano que se estende até ao rio Litani e de impor um tampão de segurança numa área cobrindo trinta quilómetros a norte da sua fronteira.

   Inconclusivas e perplexas, as últimas estimativas israelitas apontam para uma degradação importante das capacidades militares do Hizballah, mas, admitem, que seriam necessárias semanas para obliterar os arsenais das milícias xiitas - capazes de flagelar Israel a distâncias fora do alcance da actual ofensiva - e obviar ao seu reabastecimento por parte da Síria e do Irão.

   Em conclusão: Israel não eliminou a capacidade do Hizballah lançar mísseis contra o seu território, sofreu baixas significativas em confrontos directos com as milícias xiitas, hostilizou as demais comunidades libanesas, e ver-se-á obrigada a aceitar um cessar-fogo que fragilizará os delicados equilíbrios do Líbano conseguidos após o final da guerra civil em 1990 e reintegrará a Síria como parceiro negocial.

                                           Negociar mal

   Se o governo de coligação em Beirute de Fouad Siniora, de que o Hizballah faz parte, escapar a esta crise, a sua estratégia negocial irá obrigá-lo a retomar algumas exigências altamente penosas para Israel.

   Em primeiro lugar, o executivo de Beirute terá de concretizar uma troca de prisioneiros libaneses e palestinianos pelos soldados israelitas em poder do Hizballah.

   No topo da lista libanesa figurará Samir al Kantar. É o guerrilheiro da Frente Popular de Libertação da Palestina que, aos 17 anos, foi detido, em 1979, num ataque à cidade israelita de Nahariya que custou a vida a um polícia, um civil e uma criança israelitas. Condenado a 542 ano de prisão, este druzo é um dos três presos libaneses que Hassan Nasrallah jurou libertar no discurso de 25 de Maio último, Dia da Resistência e Libertação, que celebra a retirada israelita do sul do país há seis anos.

   A sua libertação, com a de detidos palestinianos, será celebrada como uma indubitável vitória pelo Hizballah, tão transcendente quanto a resistência que levou à retirada israelita do Líbano em 2000.

   Em segundo lugar, a coligação de Beirute proporá a retirada de Israel da região de Sheeba, os 25 quilómetros quadrados nos contrafortes dos montes Golan cuja soberania o Líbano reivindica, mas Telavive afirma integrarem território sírio que, por sinal, ocupa desde 1967.

   A questão de Sheeba é particularmente relevante pois sustenta o argumento aventado pelo primeiro-ministro Fouad Siniora para legitimar politicamente o desarmamento do Hizballah, retirando-lhe o estatuto de movimento de resistência à ocupação israelita.

   Neste momento, ainda antes sequer que sejam discutidas indemnizações pelos danos provocados pelos confrontos, a Síria surgirá como parceiro negocial, não só pelo seu estatuto como estado possidente dos Montes Golã ocupados na guerra de 1967, mas, também, como factor de estabilização do Líbano.

   A contrapartida à boa-vontade de Damasco em suspender os fornecimentos militares ao Hezbollah passará pelo pressuposto de evitar que as conclusões do inquérito da ONU acerca do assassinato de ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, em Fevereiro de 2005, impliquem sanções ao regime de Damasco que, além disso, poderá manifestar a sua disponibilidade para obstar a infiltrações terroristas no Iraque.

                                       Uma presença indesejada

   A partir do momento em que for invocada a aplicação da Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, adoptada em Setembro de 2004, que obriga ao desarmamento das milícias do Hezbollah, passar-se-á logicamente à discussão dos termos de outras resoluções - 242, de 1967, e 338, de 1973, que obrigam Israel a devolver os Montes Golã à Síria - e Damasco reentrará no jogo diplomático.

   O cessar-fogo, que fará de novo recair as atenções sobre a questão palestiniana, reforçará o papel político do Hezbollah, será visto por largas faixas das populações árabes, sunitas e xiitas, de que só o recurso à força obriga Israel a concessões e condicionará a actuação da força de interposição internacional.

   Um mandato da ONU para forças multinacionais visará impor a desmilitarização do sul do Líbano. Funcionará como um compasso de espera antes que o exército libanês (de maioria xiita, apesar da forte presença cristã nos postos de comando) imponha a soberania do estado e do governo de Beirute.

   Parte-se aqui do princípio etéreo de que o exército do Líbano é uma entidade alheia aos confrontos confessionais do país e ignora-se que as forças armadas sempre foram mantidas propositadamente fracas para evitar a sua instrumentalização pelas diversas facções políticas como ocorreu no passado.

   O desarmamento dos guerrilheiros do Hizballah, que terá de ser assumido pelo contingente estrangeiro, implica o sério risco das forças internacionais serem vistas como uma entidade ao serviço de Israel sobretudo se Telavive não ceder na questão de Sheeba.

   Basta lembrar os atentados ocorridos nos anos oitenta contra forças francesas e norte-americanas no Líbano para ponderar os riscos de uma presença militar internacional no sul do país sem que estejam reunidas as condições políticas para um acordo de paz formal entre Beirute e Telavive.

   Entretanto, dado que o Eixo do Mal sírio e iraniano, reentrou na negociação diplomática por via do conflito libanês, Teerão terá aqui uma dos seus grandes trunfos quando no fatídico dia 22 de Agosto anunciar formalmente a persecução do seu programa nuclear, advertindo que se retirará, se necessário, do Tratado de Não Proliferação Nuclear, a exemplo do que a Coreia do Norte fez em 2003.

Jornal de Negócios
26 Julho 2006

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