Mostrar mensagens com a etiqueta US dólar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta US dólar. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de setembro de 2012

O fim de uma era

  Zhou Xiaochuan
                                                Governador Banco do Povo da China

   Na altura em que chineses, brasileiros e russos põem em causa o estatuto preponderante do dólar como moeda de reserva torna-se claro que as negociações para a reforma do Fundo Monetário Internacional vão ter se fazer à custa de norte-americanos e europeus.

  A duplicação das reservas do FMI para 500 mil milhões de dólares irá por conta dos Estados Unidos e da União Europeia, com 100 mil milhões cada, e boa parte dos remanescentes 50 mil milhões poderão ser subscritos pela China.

  O ressurgimento do Fundo como financiador internacional justifica a sugestão do governador do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, de substituir o dólar como moeda de reserva pelos Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI que, apesar de prematura, reflecte a crescente preocupação em Pequim com a estabilidade da divisa norte-americana.

                                         Alternativas ao dólar

  Os DES, instituídos pelos FMI em 1969 para regular as transacções com os seus 185 Estados-membros, não ultrapassam presentemente os 32 mil milhões de dólares. Estes DES, definidos em função das médias de um pacote que inclui o dólar, o euro o iene e a libra, são convertidos pelos países que a eles recorrem em divisas locais através dos bancos centrais nacionais aumentado a circulação monetária.

  Na economia internacional as transacções continuam a basear-se em moedas de reserva, sobretudo dólares, e iniciar um processo, que apesar de poder contar com o apoio de estados com reservas significativas de divisas, implica uma desvalorização progressiva do dólar que prejudicaria a própria China.

  Pequim detém reservas na ordem dos dois triliões de dólares e os investimentos em títulos de tesouro norte-americanos atingem os 793 mil milhões de dólares, cobrindo um quarto da dívida de Washington, mas na China não faltam os economistas que consideram a divisa dos Estados Unidos como condenada a uma forte desvalorização a prazo.

  A quebra nas taxas de poupança norte-americanas conduziu ao aumento crescente dos défices externos desde o final dos anos 90.

  No ano passado o défice da balança de pagamentos dos Estados Unidos cifrava-se em 800 mil milhões de dólares, equivalente a 6% do Produto Interno Bruto. Dado que o défice orçamental, 12 % do PIB, se manterá, por sua vez, na ordem do trilião de dólares até 2019, a estabilidade do dólar é uma questão em aberto.

  2002 e meados de 2008 os défices levaram a moeda norte-americana a perder cerca de um terço do seu valor, mas desde então o dólar valorizou 15% surgindo, uma vez mais, como divisa de refúgio.

                           Maior peso para economias emergentes

  A estabilidade do dólar está dependente de um aumento da capacidade de aforro doméstica, que será de qualquer forma elidida pelo défice orçamental, de uma inflação baixa e do afluxo continuado de capital estrangeiro.

  Estas condições dificilmente serão alcançadas a médio prazo e se os Estados Unidos não têm possibilidade para impor desvalorizações unilaterais tão pouco podem garantir por si sós a estabilidade do dólar o que é motivo de forte preocupação em Pequim.

  O peso do dólar nas transacções internacionais tenderá a diminuir à medida que aumentarem os diferenciais de crescimento entre a economia norte-americana e as de países como a China, a Índia ou Brasil.

  Muitos economistas e políticos chineses temem uma instabilidade do sistema de câmbios provocada pelas oscilações do dólar e os défices estruturais da economia norte-americana, ao mesmo tempo que pretendem evitar uma apreciação excessiva do yuan.

  Uma das formas de preparar alternativas à preponderância do dólar passa, assim, pelo reforço do papel do FMI o que obriga, desde logo, a uma revisão dos direitos de voto e a um aumento dos contributos de estados como a China, a África do Sul ou o Brasil.

  Dificilmente os Estados Unidos conseguirão manter os actuais 14 %, que lhes garantem um direito de veto, e de forma alguma a China se conformará com os presentes 4% ou a Índia com os 2,3 % a que tem direito a par da Holanda.

  A tradicional partilha das presidências do FMI e do Banco Mundial, entre um europeu e um norte-americano, respectivamente, está desde já condenada.

  Os oito lugares que os estados europeus detêm entre os 24 representantes do comité executivo do FMI terão, igualmente, de ser reduzidos para acomodar países asiáticos, latino-americanos e africanos.

  Precisamente por verem no FMI o instrumento fundamental para assegurar no imediato fluxos de capital para países asiáticos, africanos e latino-americanos, muitos dirigentes de Pequim defendem desde já a revisão do actual sistema de quotas e direitos de voto.

  Uma vez ultrapassado o direito de veto norte-americano e reduzido o peso europeu no FMI será então possível, do ponto de vista de Pequim, iniciar o processo que a prazo permita reduzir significativamente o papel do dólar como moeda de reserva internacional.




Jornal de Negócios
01 Abril 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=361622

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A longa marcha




   Aliviar a curto prazo a ameaça das escaramuças comerciais com os Estados Unidos degenerarem num confronto em larga escala destabilizando o comércio mundial é um dos objectivos conseguidos com o anúncio da flexibilização da taxa de câmbio do yuan.

   A banda de variação cambial diária passou esta semana a 0,5 %, terminando a indexação imposta em Julho de 2008 que, graças à intervenção do banco central de Pequim, fixava um câmbio de 6,38 yuans face ao dólar.

   A valorização do yuan será, segundo sustenta o Banco Central, gradual e contida de forma a evitar uma repetição da dinâmica ocorrida entre Julho de 2005 e o Verão de 2008 quando a divisa de Pequim ganhou 21% em relação ao dólar e a China enfrentou um afluxo especulativo de capitais estrangeiros.

                                      O mercantilismo chinês

   A China em 1994 unificou o seu sistema cambial (abolindo os certificados cambiais para uso exclusivo de empresas e particulares estrangeiros) e fixou um valor de troca do yuan em cerca de 8,6 face ao dólar.

   A lógica mercantilista levou a baixar este valor para 8,2 em 2001 e as pressões externas obrigaram à valorização de 2005.

   A gestão política da divisa chinesa, que desde 2005 tem em consideração um pacote de divisas e não se limita ao dólar, orientou-se no sentido de gerar excedentes comerciais.

   Os défices nas trocas com o Japão, a Coreia do Sul ou o Brasil, são largamente compensados por excedentes nas transacções com os Estados Unidos ou a União Europeia que viu o euro desvalorizar-se este ano 18 % em relação ao yuan.

   Em Maio o excedente comercial chinês cifrava-se em 19,5 mil milhões de dólares, registando um aumento anual de 48,5 %.

   Uma valorização do yuan em relação ao dólar é no imediato compensada pela depreciação do euro tendo em conta que 16,3 % das transacções comerciais da China se realizam com a União Europeia e 12,9% com os Estados Unidos.

   A nível interno a valorização do yuan contribui para conter a inflação (3,1 % em Maio, o nível mais alto em 19 meses, enquanto se agrava o risco de estoiro da bolha imobiliária) e baixar os custos de importação de matérias-primas, apesar de ao diminuir as margens de lucro do sector exportador poder ameaçar a subsistência de algumas unidades industriais agravando a conflitualidade social.

   A subvalorização do yuan é um facto secundário face ao aumento dos custos com remunerações do trabalho e gastos de energia que penalizam a competitividade chinesa, enquanto o passivo da degradação ambiental é tido pelos dirigentes de Pequim como incomportável.

                           A lenta promoção do mercado interno

   O modelo de crescimento económico seguido desde os anos 80 foi reconhecido como esgotado pelo Partido Comunista que para o plano quinquenal 2006-2010 apontou como objectivos fundamentais a redução da dependência do comércio externo, a superação da subalternidade tecnológica (menos de 1/5 das exportações são classificadas como produtos de alta tecnologia) e a diminuição das assimetrias sociais e regionais.

   O crescimento económico este ano deverá rondar os 9 %, acima dos 8 % considerados pela hieraquia chinesa como factor essencial para garantir a estabilidade social e conter o desemprego abaixo dos 10 %, e Pequim admite ter ultrapassado os perigos maiores da crise financeira e económica mundial.

   As autoridades chinesas mantêm a posição de que a política de Washington de dólar barato, taxas de juros baixas e déficites persistentes provoca excesso de liquidez nos mercados, sublinhando que o saldo positivo da balança de transacções correntes da República Popular baixou de 11 % do PIB em 2007 para 6,1% no ano passado, cifrando-se em 297,1 mil milhões de dólares.

   O Banco Mundial prevê que esse saldo se reduza para 4,7 % do PIB em 2010.

   As reservas em divisas estimadas em 2,4 triliões de dólares, 70 % do pecúlio em divisa norte-americana, e uma dívida pública rondando os 20 % do PIB são uma salvaguarda para conjunturas negativas e permitem folga suficiente para lançar pacotes de estímulos como ocorreu em Novembro de 2008.

                       Política cambial ao serviço das reformas

   A política cambial de Pequim é um dos componentes estritamente controlados pelo estado para uma reforma que visa um aumento do consumo doméstico que se mantém inferior a 55 % do PIB.

   É difícil às autoridades chinesas sanearem o sistema bancário ou conterem o crédito sem provocarem reacções bruscas e negativas e mais complexo ainda se mostra a tentativa de promover o consumo e reduzir uma taxa de aforro que supera os 40 % do rendimento disponível das famílias na ausência de redes de assistência social e protecção ao desemprego.

   Evitar situações de ruptura nas relações com os parceiros comerciais (as exportações foram, a par da expansão da produção e produtividade agrícolas, um dos motores do crescimento chinês desde os anos 80) é um imperativo para Pequim prosseguir a reforma de um modelo económico esgotado.

   A política cambial chinesa integra-se neste contexto de reformas domésticas que limita, em última análise, a sua flexibilidade e não se restringe a uma mera resposta política às pressões dos parceiros comerciais de Pequim.


Jornal de Negócios
23 Junho 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=431455

A guerra do yuan e do dólar


O secretário do Tesouro de Obama, Timothy Geithner, ao acusar a China de manipulação cambial subiu a parada no conflito comercial entre Washington e Pequim, que arrisca alastrar ao Fundo Monetário Internacional e à Organização Mundial do Comércio.
A acusação de Geithner foi imediatamente contestada por responsáveis chineses, denunciando veleidades proteccionistas por parte da nova administração que, alegadamente, pretenderia ainda descartar as responsabilidades dos Estados Unidos na actual crise financeira.

Geithner sublinhou, igualmente, que Washington pretende explorar todas as vias diplomáticas para "alcançar um realinhamento cambial", que passa também pela não-depreciação do iene, e apelou a Pequim para estimular o consumo interno, mas a acusação de manipulação do yuan indicia claramente que a administração Obama vai seguir uma linha de negociação dura com a China.

Manobra arriscada

É uma manobra arriscada e implica – no caso do Tesouro considerar no relatório semestral sobre políticas económicas internacionais e cambiais, a divulgar em Abril, que a China manipula o yuan para ganhos comerciais –, o desencadear de um processo formal de abertura de negociações com Pequim.

O agravar dos diferendos entre Washington e Pequim dificultará o retomar das fracassadas negociações da ronda de Doha na OMC e ameaça envolver o FMI numa discussão inconclusiva sobre as políticas cambiais dos seus estados membros.

A posição do presidente do FMI, Dominique Strauss-Khan, que considera o yuan "significativamente subavaliado", não é partilhada por outros membros da direcção executiva.

O yuan, desde o abandono da taxa de câmbio fixa em Julho de 2005, apreciou-se 21% em relação ao dólar, mas o défice norte-americano nas trocas comerciais com a China não cessou de aumentar. Acresce que, presentemente, as vendas chinesas representam 19% das importações norte-americanas, enquanto as exportações dos Estados Unidos para a China não chegam a 6% das trocas comerciais com o exterior.

O câmbio diário dólar-yuan no mercado interbancário varia numa banda de 0,5% em relação à paridade definida pelo banco central de Pequim, determinada pela oferta e procura e em função de um pacote de divisas de referência que incorpora o dólar, o euro, o iene e o won coreano, além de, em menor proporção, a libra, o baht, o rublo e os dólares australiano, canadiano e de Singapura.

O banco central tem sustido desde Julho a apreciação do yuan, mas de forma a evitar fuga de capitais. A quebra na procura internacional é responsável pelo abrandamento das exportações chinesas e a quebra nos excedentes comerciais (cifrados em 39 mil milhões de dólares em Dezembro) pelo que uma acentuada manipulação cambial no sentido da depreciação não resolveria qualquer problema, antes podendo desencadear maior destabilização financeira através de desvalorizações por parte dos competidores asiáticos e de outras economias emergentes.

Um emaranhado de interesses

O acentuado abrandamento da economia chinesa obriga Pequim a manter a estabilidade da sua moeda e do sistema bancário. Os pacotes de investimentos domésticos anunciados desde Novembro visam inverter as tendências negativas evidenciadas por um crescimento de apenas 6,6 % no último trimestre de 2008, segundo as contestadas estatísticas oficiais, o ritmo mais lento da década.

Na iminência de as exportações virem a ter um crescimento nulo este ano devido à contracção da procura internacional, a estratégia passa por obviar a crescente desigualdade e conflitualidade sociais, sendo axiomático em Pequim que um crescimento abaixo dos 8% fará disparar o desemprego para níveis socialmente incomportáveis.

Reduzir a dependência do comércio externo, aumentar o consumo doméstico (inferior a 55% do PIB), superar a subalternidade tecnológica (menos de 1/5 das exportações são classificadas como produtos de alta tecnologia) e diminuir assimetrias regionais e sociais implica reforçar medidas de assistência social e terá como consequência o abandono do objectivo de manter o défice orçamental em 1,1% do PIB, além de elevar a dívida pública, estimada oficialmente em apenas 20% do PIB, para níveis muito mais altos.

A destabilização do dólar não interessa a Pequim. A China é o maior financiador da dívida pública norte-americanas. Em Novembro a China detinha títulos do tesouro no montante de 681,9 mil milhões de dólares e 70 a 80% das reservas de Pequim são denominadas em dólares. Pequim dificilmente poderá continuar a sustentar a crescente dívida pública dos Estados Unidos, mas tão pouco lhe convém uma depreciação dos títulos do tesouro.

Neste emaranhado de interesses e constrangimentos mútuos o secretário do Tesouro entrou mal ao fazer subir a parada numa questão não essencial para o relançamento das economias norte-americana e chinesa.


Jornal de Negócios
28 Janeiro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=351398