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sábado, 8 de setembro de 2012

Depois de Hillary perder


 
 
 
 
   Hillary Clinton perdeu o estatuto de candidata favorita à Casa Branca e resta-lhe agora tentar quebrar o ímpeto ganho por Barack Obama como o homem da mudança que galvaniza o voto de jovens e mulheres entre o eleitorado democrata, agregando, ainda, um crescente apoio entre independentes.
 
   Durante todo o ano de 2007 Hillary impôs-se nas sondagens como a predilecta dos eleitores democratas, apesar de Barack a igualar na angariação de fundos (cerca de 100 milhões de dólares), até a primeira derrota no caucus do Iowa abalar a marcha triunfal da senadora de Nova Iorque.

   Um sinal muito significativo da viragem nas intenções de voto surgiu, posteriormente, nas sondagens de fim-de-semana entre os eleitores democratas de New Hampshire.

   Os inquiridos que em Dezembro, antes da desfeita de 3 de Janeiro no Iowa, davam Hillary como a candidata melhor colocada para bater um republicano na eleição presidencial mudaram de opinião e passaram a considerar Barack como o democrata mais qualificado para conquistar a Casa Branca.

                     Duas derrotas e uma campanha acrimoniosa

   Duas derrotas consecutivas não representam o fim das ambições de Hillary, mas obrigam-na a enveredar por uma campanha acrimoniosa, arriscada e eventualmente contraproducente, contra Barack.

   Nas próximas primárias dos democratas com direito a eleição de delegados à Convenção Nacional de Agosto Hillary terá de ganhar em Nevada no dia 19 (presentemente a senadora vai à frente nas sondagens) e, uma semana depois, na Carolina do Sul, onde a parada é mais complexa dado o peso do eleitorado negro e a influência de John Edwards, nascido neste estado e antigo senador pela Carolina do Norte.

    Contra ela, além das expectativas defraudadas e do ímpeto ganho por Barack, joga também a campanha populista de John Edwards – candidato à vice-presidência na falhada investida de John Kerry contra George W. Bush e Dick Cheney em 2004 – que, apesar de não ter hipóteses de conseguir a nomeação, vinca ainda mais a retórica de ataque ao status quo e o peso da ala esquerda do partido democrata.

   Mesmo que fracasse nessas votações Hillary Clinton conta com a sua máquina a nível nacional para se impor nas primárias de 5 de Fevereiro.

   Dos 22 estados que votarão nessa terça-feira, Nova Iorque e a Califórnia eram dados como ganhos por Hillary até à votação no New Hampshire, e se o eleitorado hispânico mantiver as reticências que tem manifestado em relação a Obama a senadora ainda tem boas possibilidades de conseguir a nomeação.

   Mas Hillary, por mais fundadas que sejam as suas críticas à inexperiência e contradições da alegada “retórica poética” de Obama (nada de estranho nestas matérias, por sinal, já que ela própria fez campanha em 1992 ao lado do marido, o candidato nascido em Hope, Arkansas, que dizia “acreditar num lugar chamado Esperança”), viu escapar-lhe o tom triunfal, a dinâmica imparável de vitória com um programa centrista e confronta-se com um avolumar de críticas ao seu estilo frio e alegada veia manipuladora.

   Esta pecha política de jogar na imponderável “triangulação” ao estilo Bill Clinton – dizendo-se acima das opções entre a esquerda e direita do espectro político – e a imagem de marca crispada que tanto agastam o eleitorado independente e exasperam em absoluto os mais moderados dos republicanos irão prejudicar necessariamente Hillary no caso de eleitores, políticos e financiadores democratas se depararem com a alternativa de outra candidatura não menos equívoca, mas potencialmente ganhadora como a arrancada de Barack Obama começa a aventar.

   Se Hillary Clinton não conseguir anular a dinâmica de expectativas de mudança trazida por Barack Obama mesmo que consiga arrebatar a nomeação democrata terá pela frente a difícil escolha de um candidato à vice-presidência que consiga na Convenção de Denver, no final de Agosto, cumprir dois desígnios fundamentais: assegurar os equilíbrios que mantenham a unidade do partido e alargar o apelo eleitoral do ticket democrático à Casa Branca.    

                              O futuro candidato à derrota

   Frente a Hillary ou a Obama será ingrata a sorte do opositor republicano.

   As tendências de fundo apontam para uma vitória democrática nas presidenciais e largas maiorias anti-republicanas na votação para a Câmara de Representantes, na eleição de 35 dos 100 mandatos de senadores em disputa e em 11 dos estados cujos governadores vão a escrutínio a 4 de Novembro.
Mitt Romney, o ex-governador do Massachusetts, averbou no New
Hampshire a segunda derrota – apesar de ter arrebatado, entretanto, 8 dos 12 delegados em disputa no caucus republicano do Wyoming no passado sábado – sem que Mike Huckabee ou John McCain tenham assegurado qualquer viabilidade para as suas candidaturas.

   Rudolph Giuliani, o principal rival do milionário mórmon à nomeação republicana, só entrará na contenda dia 29 na primária da Florida, aposta nas votações de 5 de Fevereiro, e até lá tudo continua em aberto.

   O antigo presidente da câmara de Nova Iorque arriscou apostar apenas nas primárias dos grandes estados e é ainda o mais presidenciável entre os republicanos.

   O problema de Giuliani resume-se nisto: o gabarito nacional do homem que evoca 11 de Setembro ad nauseam é certo, mas a nomeação é mais equívoca. 

   Quer Romney, quer Giuliani (católico, três vezes casado e demasiado liberal para largas faixas do eleitorado republicano) estão longe de fazer consenso no partido que fez eleger George W. Bush e fazem desesperar a militância evangélica das causas fracturantes das guerras da cultura e costumes da América.

   A Convenção Nacional Republicana de Setembro em St. Paul, no Minnesota, será, muito provavelmente, ainda mais agreste que o conclave democrático.

   No meio de tudo isto, George W. Bush, ignoto e desesperante para os candidatos do partido republicano, partiu com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma para o Médio Oriente.

   É outra imagem forte desta campanha presidencial.



Jornal de Negócios
09 Janeiro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=308907

Uma transição atípica na Casa Branca


 
 
   O sucessor de George W. Bush tem de anunciar o mais rapidamente possível os responsáveis por alguns dos principais cargos da nova administração.
 
   A ter-se confirmado a vitória de Barack Obama, a sua tarefa estará facilitada graças à maioria democrática no Senado, que acelerará as confirmações após o presidente tomar pose, a 20 de Janeiro.
 
   Um presidente democrata confrontar-se-á, no entanto, com a dificuldade de ter de assumir opções programáticas urgentes ainda antes de entrar na Casa Branca, evitando, simultaneamente, comprometer-se com iniciativas da administração Bush.

    A cimeira financeira internacional de 15 de Novembro em Washington é o primeiro exemplo de uma situação de potencial conflito entre a administração republicana e a futura equipa democrata.

                                     Uma cimeira sem Obama

    Obama terá então anunciado a escolha do futuro secretário do Tesouro, mas não poderá desautorizar compromissos que Bush venha a assumir.

    Os nomes mais falados numa administração Obama – designadamente Larry Summers ou Robert Rubin, antigos secretários do Tesouro de Bill Clinton, ou, ainda, o antigo presidente da Reserva Federal, Paul Volcker, além de Timothy Geithner, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque – representam um capital de experiência e consistência política que poderá ser bem acolhido nos círculos financeiros e empresariais.

    Declarações de princípio ou propostas de medidas que sejam adoptadas na cimeira de nada valerão sem a aprovação prévia da equipa de Barack Obama, que, no entanto, não se pode arrogar das prerrogativas exclusivas do ainda presidente ou apresentar propostas contradizendo a Casa Branca numa altura em que ainda não tem capacidade oficial.

    Um confronto entre Bush e Obama nos próximos dois meses apresenta um risco demasiado alto de destabilização dos mercados financeiros e pode obrigar a um compromisso que limite ainda mais as opções da futura administração.

    Esta será uma das questões mais intrincadas do período de transição numa conjuntura de deterioração da situação económica nos Estados Unidos e de instabilidade financeira e cambial.

    Igual importância terá a indicação do futuro secretário de Estado e do conselheiro de segurança nacional.

   Entre as opções de Obama para chefiar o departamento de Estado, figuram dois senadores republicanos, Richard Lugar e Chuck Hagel, e o democrata hispânico Bill Richardson, governador do Novo México.

    A escolha de Samantha Power para conselheira seria a mais problemática duma lista onde figuram personalidades mais experientes, como o antigo responsável pelo Comando Central (Médio Oriente e Ásia Central), o general Anthony Zinni, ou a ex-subsecretária de Estado para os assuntos africanos de Clinton, Susan Rice.

    Uma das características das listas de nomes aventados nos círculos democratas é o elevado número de antigos responsáveis dos anos Clinton e de personalidades moderadas republicanas, o que indicia, à partida, as pressões a que Obama será sujeito para formar uma administração que, inevitavelmente, decepcionará a ala mais à esquerda que lançou a sua candidatura nas primárias democráticas.  

                                    O Iraque de novo no topo da agenda

   Em questões de política externa e de segurança, as escolhas de Obama assumirão uma importância capital, tanto mais porque Washington terá de chegar a acordo com Bagdade sobre um acordo de segurança até final de Dezembro, data em que expira o mandato da ONU para a presença de tropas norte-americanas no Iraque.

    Os termos do acordo, nomeadamente o estatuto legal das forças militares norte-americanas e datas de retirada, implicam o acordo prévio do sucessor de Bush e não é seguro que os partidos políticos iraquianos aceitem uma solução viável para Obama e para o Pentágono.

    Nestas questões, a que se junta a crise latente na península coreana, a presumível coerência de uma administração democrática será testada por outras nomeações fundamentais.

    Para secretário de estado da Defesa, Chuck Hagel surge de novo como hipótese viável, a par da manutenção de Robert Gates, entre outros nomes vindos uma vez mais da administração Clinton, casos de Richard Danzig ou John Hamre.

                                   Uma transição conflituosa

   A expectativa de que George Bush promulgue até à data limite de 20 deste mês legislação relevante na área económica e até 20 de Dezembro directivas governamentais noutros sectores, como justiça, saúde e ambiente, que obriguem a futura administração a tomar iniciativas morosas para anular essas iniciativas, é factor de potencial perturbação durante o período de transição.

    A dimensão da maioria democrática no Senado é outro elemento de consequências difíceis de avaliar.

    Caso os democratas tenham conseguido anular a minoria de bloqueio republicana, obtendo 60 mandatos, Obama terá de manobrar entre as propensões de uma revolução legislativa, cedendo à ala mais à esquerda do partido e às reivindicações de sindicatos, e a necessidade de refrear medidas incomportáveis com a gravíssima situação orçamental.

   Em qualquer dos casos, as expectativas de mudança que grande parte do eleitorado tem na presidência Obama serão rapidamente frustradas dados os constrangimentos económicos e financeiros, os confrontos internacionais provocados pela adopção de medidas proteccionistas e a elevadíssima probabilidade de uma grande crise no primeiro ano de mandato, devido aos programas militares nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

   John McCain, que, por estas horas, estará muito provavelmente a ser acusado por todos os dramas da derrota republicana, tem ainda mais uma batalha pela frente.

   O senador do Arizona poderá contribuir para salvaguardar no Senado o núcleo mais moderado do partido republicano e, neste caso, será um dos aliados mais valiosos para Barack Obama e um dos seus críticos mais respeitados.

Jornal de Negócios
05 Novembro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=339604

As cem horas de Pelosi e os 804 dias de Bush





   Nancy Pelosi, a primeira mulher a presidir à Câmara de Representantes, anunciou um plano parcimonioso para as suas primeiras cem horas como terceira figura da hierarquia do estado norte-americano que, a ser bem sucedido, contestará a iniciativa política em matéria de política interna de George W. Bush nos 804 dias que lhe restam de mandato presidencial.

   A milionária de São Francisco pretende levar a maioria democrática a votar, nomeadamente, o aumento do salário mínimo de 5,15 para 7,25 dólares/hora, a redução para metade das taxas de juro nos empréstimos a estudantes, uma diminuição dos preços dos medicamentos cobertos pelos seguros de saúde Medicare – abrangendo mais de 40 milhões de cidadãos, na esmagadora maioria com mais de 65 anos – e, na vertente anticorrupção, um pacote de reforma do sistema de "lobbying" no Congresso.  

   O ímpeto político que os democratas venham a ganhar na sua batalha minimalista das cem horas legislativas e nas nomeações para as principais comissões da Câmara de Representantes poderá, no entanto, ser contido caso os republicanos tenham conseguido manter o controlo do Senado.
                            
                                        A vitória curta

   Considerando a hipótese de o Partido Democrático ter recuperado a Câmara de Representantes, mas falhado o Senado, dificilmente os opositores de Bush poderão concretizar a partir de Janeiro o seu programa "Um novo rumo para a América" que preconiza, designadamente, a adopção de um calendário para a retirada do Iraque e a transferência das responsabilidades de segurança para o governo de Bagdade, o reforço do contingente militar empenhado na captura de Bin Laden, a redução dos impostos para as classes médias e a limitação de deduções fiscais para rendimentos elevados e companhias petrolíferas, além da recusa da privatização parcial do sistema de reformas.

   A necessidade de negociar acordos com uma maioria republicana no Senado poderá conduzir a alguns compromissos viáveis em matéria de políticas de imigração ou comercial – acentuando, no entanto, o pendor proteccionista face à concorrência internacional – e consensualizar iniciativas legislativas para maior eficiência energética, investigação de energias alternativas ou o programa de reforma do ensino primário e secundário promovido pela presidência Bush.   

   A margem de compromisso é, apesar de tudo, reduzida, se a maioria no Senado for liderada pelo republicano Mitch McConnel.

   As classes médias, com rendimentos inferiores a 75 mil dólares/ano, não beneficiaram do crescimento económico registado após a recessão de 2001 e mostram-se particularmente sensíveis às turbulências conjunturais, apesar do baixo nível de desemprego que se cifra em 4,4 por cento. Eventuais inflexões significativas nas intenções de voto poderão, assim, ocorrer nos próximos anos.

   Não tendo a Casa Branca recolhido benefício eleitoral da recuperação económica dos últimos cinco anos e claudicado em áreas fundamentais como os objectivos da guerra no Iraque, a luta antiterrorista, a probidade orçamental e a contenção do despesismo do governo federal – cifrado num aumento anual de 3,1 por cento no primeiro quinquénio da presidência Bush  –, além de deixar alastrar impunemente o cadastro de corrupção e imoralidades, é crível que os democratas venham a pressionar em todas estas questões através de comissões de inquérito de modo a pôr em causa a competência administrativa de Bush e os chamados valores morais caros aos republicanos. 

   Uma inflexão centrista por parte da Casa Branca em busca de compromissos legislativos confronta-se com a questão incontornável de reconhecimento do fracasso iraquiano e com a incoerência da maior parte dos líderes democratas em articularem uma estratégia de retirada militar que consiga preservar um vislumbre mínimo de estabilidade e integridade do estado no Iraque.
                                     
                                    Tiro de partida para 2008

   Esta quarta-feira marca o tiro de partida para as presidenciais de 2008 e nenhum putativo candidato à Casa Branca – da inevitável Hillary Clinton ao impoluto John McCain, passando pelo promissor Barack Obama e o consagrado Rudolph Giuliani – estará disposto a sacrificar as suas aspirações por um compromisso que salve a face a George W. Bush.

   A impossível pacificação do Iraque será uma das questões fundamentais com que se confrontarão os candidatos presidenciais e todos eles terão de se assumir contra a política de Bush no Iraque e as usurpações de poderes por parte da Casa Branca na chamada luta antiterrorista.

   A contestação dos abusos do privilégio executivo será, no entanto, mais fácil de levar a cabo pelos democratas e seus previsíveis candidatos presidenciais do que a definição de uma estratégia de retirada do Iraque efectiva que evite dar o flanco a acusações de derrotismo.

   Reza a história eleitoral norte-americana que para gerir o fracasso de uma intervenção militar falhada um candidato presidencial se obriga a aventar estratégias mais latas e de consequências imprevisíveis em prol de novos arranjos geoestratégicos.

   À imagem de um Eisenhower, atolado na Coreia, ou de um Nixon, perdido na Indochina, alguém terá de assumir que falhar no Iraque acarreta avançar com propostas arrojadas frente ao Irão, à Palestina, a Coreia do Norte ou, noutra vertente, assumir a impossibilidade dos Estados Unidos continuarem a ignorar as suas responsabilidades na questão maior do controlo das emissões de gases com efeito de estufa.
 
                                               O patinho coxo

   Se Harry Reid tiver garantido a liderança de uma maioria democrata no Senado a sua dinâmica de vitória condenará a Casa Branca a um arrastado confronto com comissões conjuntas do Congresso que escrutinarão todos os fiascos da administração republicana.

   Bush recorreu apenas uma vez ao veto presidencial para impor, em Julho, a manutenção das restrições de financiamento federal à investigação sobre células embrionárias estaminais, mas, a partir de agora, é de esperar que o veto venha a revelar-se a opção por excelência numa Casa Branca cercada tal como aconteceu a Bill Clinton em 1994, dois anos após a sua eleição – e anteriormente a Ronald Reagan –, mas sem que George W.Bush manifeste dotes de subtileza para negociar compromissos, apesar das recentes evocações da sua experiência como governador em Austin.

   John Bolton deixará a ONU, a demissão de Donald Rumsfeld será inevitável e, mesmo com um Supremo Tribunal de orientação maioritariamente conservadora, a capacidade da Casa Branca recuperar a iniciativa legislativa revelar-se-á diminuta. 

   Imperará o gridlock, o impasse, cujas consequências negativas também poderão prejudicar os democratas e, sobretudo, os seus senadores com ambições presidenciais.

   A quota de aprovação de Bush é inferior a 40 por cento, mas a actuação do Congresso de maioria republicana desde 1994 (excepto o breve interlúdio entre Maio de 2001 e Novembro de 2002 em que os democratas beneficiaram da deserção de um senador republicano num altura em que o Senado estava repartido equitativamente e o vice-presidente Dick Cheney assegurava o voto de desempate) é ainda pior não atingindo sequer os 30 por cento.

   Transformar a Câmara de Representantes e o Senado num palco de campanha sistemática de obstrução e inquérito apresenta, consequentemente, sérios riscos de credibilidade para os democratas.

   Depois da reeleição de 2004, Bush não conseguiu fazer aprovar os planos de autorização de descontos parciais para fundos privados de segurança social ou de legalização de imigrantes clandestinos e é ainda menos crível que, agora, possa avançar com iniciativas capazes de cativarem uma Câmara de Representantes hostil – independentemente do aumento do número de representantes democratas conservadores – quanto mais um Congresso dominado pelo partido democrático.

   Um presidente desacreditado é uma danação para um partido vencido depois de doze anos de maioria no Congresso e uma ameaça para qualquer candidato republicano à Casa Branca. Tanto basta, portanto, para que Bush corra o risco de penar 804 dias de solidão política e muito por culpa dos seus pares. 

   Conclua-se, apesar de tudo, com a mera consideração de que, ainda que uma vaga revanchista dos democratas possa vir a mostrar-se contraproducente, é bem provável que a inclemência das crises que assolam o vasto mundo venha a condenar as hostes republicanas e democratas a um confronto particularmente virulento.

Jornal de Negócios
08 Novembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=285422

   As eleições de 7 de Novembro saldaram-se por 233 mandatos democratas contra 202 republicanos na Câmara de Representantes.
   No Senado registou-se um empate 49-49, com 2 independentes dispostos a alinhar com o Partido Democrático. (Nota de Setembro 2012)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O que pensam os brancos amargurados?



Democratic presidential hopeful Sen. Hillary Rodham Clinton, D-N.Y., celebrates at her Pennsylvania primary election night party in Philadelphia



    O que mais importa nesta quarta-feira é saber como o eleitorado branco democrata de baixos rendimentos da Pensilvânia votou por Barack Obama.
 
   O candidato cometeu um dos maiores lapsos desta campanha ao qualificar os eleitores das pequenas cidades da Pensilvânia como gente amargurada pela perda de empregos que sublima as suas frustrações através do culto das armas, da religião e da xenofobia.

   Apurar quanto pesou esta tirada na votação é um dos elementos fulcrais para perspectivar as hipóteses de Obama na contenda presidencial.

                                   Uma vitória indispensável

   Caso se tenham confirmado as sondagens que davam uma vantagem média de sete pontos a Hillary Clinton, a senadora de Nova Iorque continua na corrida pela nomeação presidencial, mas uma vitória inferior aos 10% de avanço conseguidos pela candidata no Ohio a 4 de Março nada de bom augura para as suas ambições.

   A Pensilvânia é um estado com perfil demográfico favorável a Hillary: 85% da população é branca (média nacional: 74 %), os negros representam 11 % dos 12,4 milhões de habitantes (menos 1% do que a média do país) e os hispânicos são a maior minoria 4% (15 % a nível nacional).

   O rendimento médio de 20 800 dólares é inferior aos 21 587 dólares da estatística nacional, a percentagem de pessoas maiores de 65 anos atinge os 15 % (só superada pela Florida e a Virgínia Ocidental) e com 22,4 % de licenciados a Pensilvânia encontra-se dois pontos abaixo da média nacional.

   Todos estes indicadores num estado em quebra demográfica e económica, bem como a presença de uma grande comunidade católica – 53% da população num país onde apenas 25 % professam a fé católica – e até a maioria feminina da população (51,4 % de mulheres para uma média nacional de 50,7%) favoreciam largamente Hillary Clinton.

   O apoio de eleitores democratas brancos de baixos rendimentos (menos de 50 mil dólares/ano) e fracas qualificações académicas, além do voto feminino, hispânico e de maiores de 55 anos, fora fulcral para as 16 vitórias de Hillary contra 26 de Obama (em termos de votos expressos) e, a confirmar-se de novo a dificuldade do senador do Illinois em captar estas faixas do eleitorado, o candidato estará em apuros no confronto com John McCain.

                             Um candidato com defeito grave

   Mais do que voltar a perder um grande estado, como aconteceu na Califórnia, em Nova Jersey, Nova Iorque, Texas ou Ohio, Barack poderá ter-se confrontado mais uma vez com a rejeição do eleitorado branco (que se fez sentir menos no Ohio e em New Hampshire) e partir em desvantagem para as próximas primárias de 6 de Maio, sobretudo em Indiana, apesar de ser favorito na Carolina do Norte.

   A confirmar-se a dificuldade de Obama em ganhar o eleitorado branco, as suas possibilidades de triunfo na votação de Novembro diminuem drasticamente.

   Sondagens da Universidade de Quinnipiac realizadas na Pensilvânia na semana passava indicavam que 34% dos eleitores democratas brancos optariam por votar em McCain em vez de Obama e idênticos resultados surgem em dois outros estados vitais para a eleição de Novembro: a Flórida e o Ohio.

   É com esta perspectiva que Hillary conta para tentar virar a seu favor a maioria dos delegados democratas, sublinhando, ainda, as vitórias que obteve nos estados com maior número de votos para o colégio eleitoral, resguardando-se, no entanto, a excepção do Illinois onde venceu Obama.

   Um eventual triunfo na Pensilvânia, onde se repartiam proporcionalmente 158 delegados, não terá, contudo, possibilitado a Hillary reduzir significativamente a sua desvantagem para a Convenção de Denver em Agosto.

   Antes da votação de terça-feira estavam em disputa 588 delegados e a senadora de Nova Iorque contava, segundo estimativa da Associated Press, com 1 251 mandatos, enquanto que Obama tinha garantidos 1 415.

   Com mais nove primárias pela frente, o senador do Illinois, independentemente do resultado na Pensilvânia, chegará com uma maioria de delegados eleitos à Convenção de Denver e, muito provavelmente, em vantagem no número de votos expressos a seu favor (mais 700 mil do que Hillary antes da votação de ontem).

   Obama terá, no entanto, de garantir apoio maioritário entre os 794 notáveis do partido, os chamados superdelegados com liberdade de voto, para conseguir os 2 025 delegados necessários para a nomeação.
   Hillary somava ontem o apoio de 258 superdelegados e Obama tinha a seu lado 233.

                                            Uma eleição renhida

   Seis semanas depois da última votação no Mississippi, ambos os candidatos democratas viram aumentar os seus níveis de rejeição e o tom acrimonioso da campanha favoreceu John McCain.

   O candidato republicano passou a surgir nas sondagens empatado num eventual confronto com Clinton e apenas um ponto abaixo de Obama, apesar do agravamento da situação económica e do recrudescer da violência no Iraque que levam 66 % dos norte-americanos a desaprovar a administração republicana.

   A vitória democrática na eleição presidencial que se prefigura em Janeiro é, agora, bem menos certa e o arrastar da disputa entre Hillary e Barack prejudica notoriamente o Partido Democrático.

   Um sinal da tormenta surgiu terça-feira com a decisão do Partido Democrático da Carolina do Norte de anular o debate entre os dois candidatos agendado para 27 de Abril.

   Constrangimentos de tempo e questões logísticas foram as razões apresentadas para o cancelamento do debate, mas a frase reveladora do comunicado era esta: “registam-se, ainda, preocupações crescentes sobre as consequências de mais um debate para a unidade do partido”.



Jornal de Negócios
23 Abril 2008

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Machado e bisturi


 

   O futuro próximo da política externa dos Estados Unidos vislumbrou-se numa troca de argumentos entre Barack Obama e John McCain no debate de sexta-feira.
   O candidato democrata, evocando a perícia e precisão do cirurgião e do seu bisturi para a inevitável cirurgia de cortes orçamentais, declarou que era preciso por termo à guerra no Iraque.
   Obama, sem delongas, sublinhou que a guerra custa aos Estados Unidos 10 mil milhões de dólares por mês numa altura em que Bagdad dispõe de um excedente orçamental de 79 mil milhões de dólares.
   O senador republicano na sua réplica denunciou despesas incontroladas e afirmou que Washington dispensava 700 mil milhões de dólares por ano a países que nem apreciam particularmente os Estados Unidos. McCain exigiu firmeza, mas não esqueceu de mencionar 500 mil milhões de dólares de dívidas para com a China como exemplo dos constrangimentos orçamentais.
   Dois dias antes a Câmara de Representantes aprovara um orçamento para o Pentágono, contemplando 621,5 mil milhões de dólares em programas de defesa nacional no ano fiscal que começa a 1 de Outubro.
   No próximo orçamento, seja à machadada, seja pelo corte de bisturi, as amputações vão obrigar a uma reavaliação dolorosa das capacidades de projecção do poder e influência de Washington.

                                            Cálculo político

   Os custos mais pesados do resgate e saneamento do sistema bancário e financeiro vão fazer-se sentir com maior virulência sobretudo nos primeiros dois anos da próxima administração.  
   Um presidente republicano terá uma margem de manobra limitada ante um Congresso de maioria democrata, mas Obama confrontar-se-á com a necessidade de não alienar a sua base política de apoio.
   Uma administração democrata terá de evitar que o abrandamento económico ou uma eventual recessão comprometam as eleições para o Congresso de 2010 e as perspectivas de reeleição presidencial.
   A estratégia política dos democratas implica evitar uma perda das maiorias na Câmara de Representantes e no Senado tal como sucedeu em 1994 a Bill Clinton, dois anos após a sua eleição.
   É neste condicionalismo político que serão negociados cortes no orçamento que terão, no entanto, de preservar o essencial das opções de defesa e ajuda militar e civil ao estrangeiro.
   Uma redefinição de prioridades estratégicas é limitada pelo arco de crises em que estão implicados interesses dos Estados Unidos.
   Mesmo que não se verifique um agravamento da situação no Iraque a transferência de recursos para o teatro de guerra no Afeganistão não possibilitará economias nos 68,6 milhões de dólares que em 2009 foram orçamentados para operações militares nos dois países.
   Os 45 mil milhões de dólares anuais em ajuda militar para aquisição de armamento aos Estados Unidos não deverão sofrer alteração de maior ainda que os principais beneficiários, Israel e o Egipto com uma quota superior a 80 %, possam ver diminuir um pouco a sua posição relativa.
   Washington tentará até, graças os financiamentos de ajuda militar, aumentar a quota de 52 % nas vendas internacionais de armamento que, segundo os últimos dados disponíveis relativos a 2006, supera largamente o competidor mais próximo: a Rússia com 21%.
   A instabilidade no Paquistão, a crise de sucessão de Mubarak no Egipto, a aliança com Israel, o programa de combate ao narcotráfico na Colômbia e a prevista ampliação deste tipo de cooperação ao México, não permitem cortes na ajuda dispensada aos principais beneficiários de Washington.
   A eventualidade de um confronto com o Irão, a tensão na península coreana e o aumento dos orçamentos militares da China e da Rússia tão pouco facilitarão a redução das despesas com defesa. O abandono de alguns programas de armamento convencional ou de iniciativas controversas, como o sistema de radares e baterias anti-mísseis na República Checa e na Polónia, será compensado por investimentos em projectos de militarização do espaço.
   Ambos os candidatos pretendem aumentar os efectivos nos corpos do exército e fuzileiros (750 mil no activo na proposta de Obama e 900 mil segundo McCain) e, consequentemente, se as despesas com defesa não podem continuar a crescer ao ritmo imposto pela administração Bush (um aumento de 85 % desde 2001) tão pouco são de esperar reduções significativas.
   Os Estados Unidos manterão as suas despesas militares aos níveis actuais, próximas, portanto, dos 4 % do PIB. Será sobre outras áreas do orçamento que recairão as machadas e os cortes de bisturi.

                                        Tensão generalizada

   A consequência incontornável é um aumento da tensão entre Washington e os aliados, sobretudo europeus.
   Os 60 mil homens da Força de Intervenção Rápida Europeia terão efectivamente de se apresentar a serviço e não faltarão pressões de Washington para aumento dos actuais níveis de despesas em defesa da União Europeia (na ordem de 1,9 % do PIB), dos demais aliados na NATO, além da mobilização de militares e equipamentos para o campo de batalha no Afeganistão.
   Os programas de ajuda ao desenvolvimento e de erradicação de doenças no Terceiro Mundo dificilmente continuarão a ser financiados ao nível estabelecido pela administração Bush que canalizou para combate à SIDA, sobretudo em África, 18,8 mil milhões de dólares desde 1993. Nesta matéria caberá aos demais países da OCDE criticarem e colmatarem o desinvestimento norte-americano.
   A crescente dependência de investidores estrangeiros para financiamento da dívida federal, 9,7 biliões de dólares este mês, condiciona a futura administração e limita as opções da diplomacia norte-americana.
   Se a Reserva Federal aumentar as taxas de juro para atrair investimento criará condições para aumento de investimentos em acções de empresas norte-americanas e aplicações em títulos de longo prazo, mas deprimirá a actividade económica.
   Caso Bernanke e o Tesouro optem por uma política inflacionária a posição do dólar será afectada negativamente.
   Em qualquer dos casos Washington terá de levar em conta que 45 % da dívida pública está na mão de investidores estrangeiros, cabendo quase metade ao Japão e à China.
   No jogo de interdependências é muito grande a quota de dependência norte-americana.
   A tensão com o exterior tenderá a crescer dada a importância para a estabilização do dólar das reservas em divisas de países como a China e dos capitais dos fundos soberanos.
    Os investimentos de fundos da Arábia Saudita, dos Emiratos Árabes Unidos ou da Rússia estão dependentes do preço do petróleo e da evolução da cotação do dólar, mas se as tendências proteccionistas predominarem no Congresso (como aconteceu ao torpedear em 2006 a compra pela Dubai Ports das operações da londrina Peninsular and Oriental Steam Navigation Corp. em seis portos norte-americanos) outros fundos da China a Singapura poderão reduzir a sua presença nos Estados Unidos.
   Numa conjuntura recessiva um congresso de maioria democrata tenderá a rejeitar a adopção de acordos de comércio livre com a Colômbia e a Coreia do Sul, complicará as relações com os parceiros da NAFTA e levantará objecções a uma reforma das leis de emigração o que não facilitará as relações com os países da América Central e do Sul.
   O défice na balança de transacções correntes de Washington nada augura de bom para o retomar das negociações na Organização Mundial do Comércio e na falta de recursos para investimento em programas de energias alternativas e de conservação energética a próxima administração não conseguirá diminuir a dependência de fornecimentos do exterior e consequentes custos políticos.
   Arábia Saudita, Angola ou Nigéria ocupam lugar cativo nos interesses de Washington.
   Este défice energético dificultará as negociações na área do ambiente e aumentará as tensões com aliados e estados como a China e a Índia na definição de um programa global de contenção das mudanças climáticas.
   Estas são consequências previsíveis da actual conta corrente em Washington, mas outras crises prováveis na Coreia do Norte, em Caxemira ou nalguma das autocracias da Ásia Central poderão complicar ainda mais o cenário.
   Os próximos anos com Barack ou McCain vão ser agrestes e uma potência global em apertos financeiros tenderá a assumir comportamentos erráticos e contraditórios.


Jornal e Negócios
29 Setembro 2008

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Presidenciável procura parceiro(a)

 
   Barack Obama assegurou efectivamente a nomeação como candidato presidencial, mas ainda terá de penar muito para unir o eleitorado do Partido Democrático e definir uma estratégia vencedora para a Casa Branca. 
 
   Numa campanha acrimoniosa, os democratas escaparam pelo menos ao pesadelo de uma Convenção sem candidato definido, mas Obama não pode correr o risco de chegar a Denver no final de Agosto sem ter já escolhido um vice-presidente.
   Autoproclamado político da inclusão racial e da audácia da esperança, Obama viu-se claramente identificado pela campanha de Hillary e Bill Clinton como um candidato favorecido pela minoria negra que outrora incensara o antigo presidente democrata.
   A relutância de Obama em repudiar a velha amizade e admiração pelo pastor racista Jeremiah Wright agravou o estigma racial.
Obama continua a não conseguir garantir o apoio maioritário de democratas brancos de baixos rendimentos, qualificações académicas diminutas, além do voto feminino, hispânico e de maiores de 55 anos.
   Todos os temas de ataque a Obama – elitista, arrogante, inexperiente, dúbio patriota com ligações espúrias a empresários suspeitos de Chicago, pastores xenófobos e terroristas do Weather Underground – foram explorados por Hillary e aos republicanos resta repicar e acentuar o tom crítico para chocar o eleitorado hesitante ante um candidato filho de muçulmano que leva o nome Hussein.
   A recusa pública de Geraldine Ferraro – candidata à vice-presidência em 1984 na campanha de Walter Mondale que redundou na reeleição de Ronald Reagan – em votar Obama por o considerar sexista e oportunista na exploração de sentimentos racistas é um exemplo claro das dificuldades que o senador tem pela frente para unificar o eleitorado democrata.
   Entre os apoiantes de Hillary, 25 a 40 por cento admitem, presentemente, não votar ou escolher McCain em Novembro se a senadora não for candidata.
Esta rejeição que, em regra, diminui à medida que se aproxima a data da eleição, cifra-se em 25 por cento entre os eleitores de Obama que afirmam preferir o candidato republicano à senadora de Nova Iorque.
   Nenhuma sondagem considerou até agora a possibilidade de alteração de maiorias eleitorais em estados-chave através de transferências de votos de democratas e votantes sem filiação partidária para candidatos independentes como Ralph Nader, que em 2000 conseguiu quase 2.900.000 votos (2,7%), para quatro anos depois baixar para os 465.000 (0,38%).
   O parceiro ou parceira (Hillary excluída e remetida para eventual líder da maioria democrata no Senado) de Obama terá, portanto, de reunir requisitos suficientes para colmatar a maior parte das deficiências do senador que podem custar a eleição em estados- chave como o Ohio, Texas ou Flórida e, adicionalmente, apresentar credenciais em matéria de política externa e defesa.

                         McCain melhor do que os republicanos

   As vitórias de candidatos democratas em três circunscrições detidas por representantes republicanos em eleições realizadas desde Março apontam para um triunfo do Partido Democrático nas votações de Novembro para o Congresso.
   McCain, por sua vez, tem vindo a tentar superar as reticências dos republicanos evangélicos e a mitigar críticas passadas, a isenções fiscais, por exemplo, de forma a congregar o eleitorado mais conservador sem, contudo, deixar-se identificar com a actual administração.
   O candidato republicano surge com uma desvantagem apenas um ponto em relação a Obama na última sondagem nacional da Gallup (14-18 de Maio) sobre intenção de voto de eleitores registados, enquanto que Hillary conseguia reunir num confronto com McCain uma vantagem de quatro pontos.
    Faltam, no entanto, sondagens sobre o eventual prejuízo que a candidatura do antigo representante republicano da Geórgia Bob Barr pelo Partido Libertário possa causar a McCain.
   As polémicas das últimas semanas sobre a presença de representantes de empresas de “lobbying” na campanha de McCain indiciam algumas das linhas de ataque que Obama lançará para tentar abalar a imagem promovida pelo candidato republicano.
   A questão da idade de McCain, nascido a 29 de Agosto de 1936, surgirá inevitavelmente como outro tema forte, mas não será assumida por Obama e ficará a cargo dos activistas que já lançaram “sites” do género Things younger than Republican Presidential Candidate onde se comprazem a enumerar velharias mais jovens do que o candidato, caso do McDonald’s, a penicilina, as meias de nylon, a cinematográfica Golden Gate Bridge de São Francisco ou o Super-Homem.
   Obama terá de concentrar-se em alguns temas fortes – política energética e ambiental, reforma da segurança social e assistência médica, contenção do défice orçamental e comercial, Iraque – para fazer avançar a sua campanha e marcar a diferença em relação ao candidato republicano, particularmente vulnerável em matérias económicas e sociais, mas capaz de pôr em causa o discernimento e competência do senador do Illinois em questões de segurança nacional.
   Para McCain a escolha de um parceiro ou parceira na candidatura à Casa Branca passa obrigatoriamente pela identificação de um político(a) com credenciais sobretudo em matéria de economia, que não hostilize a ala conservadora republicana, mas que não surja também identificado com a administração Bush.

                                           Trunfos democratas

   O aumento no número de novos recenseados, o interesse demonstrado pelos jovens nestas primárias, o inovador sistema de angariação de fundos via Internet desenvolvido pela campanha de Obama são trunfos a favor dos democratas.
   No primeiro trimestre de 2008 recensearam-se mais de 3,5 milhões de eleitores, segundo um levantamento da Associated Press. É um aumento significativo de 64 por cento em relação ao primeiro trimestre da campanha de 2004, de acordo com os dados comparativos disponíveis em 21 dos 50 estados do país.
   Descontando a percentagem de cidadãos que mudou de estado (o censo de 2000 estimava a mobilidade geográfica interestadual em 8,5 milhões pessoas/ano, ou seja, 19 % dos 43 milhões de norte--americanos que entre Março de 1999 e Março de 2000 tinham alterado a sua residência), o aumento de inscrições nos cadernos eleitorais aponta para uma participação elevada na votação de Novembro, superior aos 60,7 % registados em 2004.
   Negros e mulheres constituem a maior parte dos novos recenseados e mesmo em estados ganhos por George W. Bush em 2004, como o Iowa, Luisiana ou Carolina do Norte, os democratas recém--inscritos nos cadernos eleitorais superam os republicanos.
   Obama tem a conjuntura a seu favor, mas se não conseguir evitar clivagens no campo democrata dificilmente poderá conduzir uma campanha capaz de seduzir os eleitores independentes.

Jornal de Negócios
21 Maio 2008

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domingo, 2 de setembro de 2012

Madrugada eleitoral



   À partida, as sondagens favorecem Barack Obama, mas, depois dos dramas eleitorais de 2000 e 2004, as projecções das cadeias televisivas norte-americanas irão jogar pelo seguro.
 
   As primeiras projecções chegarão de Kentucky e Indiana. As urnas nos distritos orientais destes estados encerram às 18 horas, hora da Costa Leste.
Os primeiros resultados oficiais começarão a surgir uma hora depois, ao terminar a votação nos demais distritos, ao mesmo tempo que fecham as urnas na Geórgia, Carolina do Sul, Vermont e Virgínia.

   O primeiro sinal de drama para John McCain será uma eventual derrota em Indiana. O estado elege 11 delegados para Colégio Eleitoral, é tradicionalmente um bastião republicano, mas, este ano, a tendência de voto não é clara.

   O Kentucky (8 representantes) tem votado desde 1964 a favor do candidato vitorioso, e McCain está largamente à frente nas sondagens. Ao resultado favorável no Kentucky, McCain terá de juntar um triunfo na Virgínia (13 eleitores), onde todos os candidatos republicanos venceram desde 1968. As sondagens dão vantagem a Obama e será este o primeiro estado a testar o "efeito Bradley".

O "efeito Bradley"

   Caso se constate na Virgínia uma sobrestimação das intenções de voto a favor de Obama entre eleitores brancos, o "efeito Bradley" passará a dominar a madrugada eleitoral e a competição pelos 270 votos do Colégio Eleitoral torna-se imprevisível.

   Obama só a partir do colapso financeiro de Setembro começou a apresentar intenções de voto superiores a 40% entre os eleitores brancos não-hispânicos, mas, ainda assim, inferiores aos 47% conseguidos por James Carter em 1976, o melhor resultado obtido por um democrata, com excepção da vitória esmagadora e atípica de Lyndon Johnson na eleição de 1964.

   No cenário de uma vitória na Virgínia, as hipóteses de McCain continuarão em aberto, pois o candidato republicano surge em vantagem na Geórgia (15 representantes) e na Carolina do Sul (8 votos), apesar de um triunfo de Obama ser certo no Vermont (3 eleitores).

   Se McCain falhar a Virgínia, terá de ganhar no Ohio (20 representantes) e na Pensilvânia (21 eleitores), onde as sondagens lhe são desfavoráveis. Um fracasso do candidato republicano em qualquer destes estados dará a vitória a Obama e o "efeito Bradley" não terá assim inquinado as pesquisas sobre intenção de voto.

Se assim for, a noite eleitoral já estará decidida pouco depois das 20 horas na Costa Leste e seremos poupados a uma longa madrugada.

Maioria democrata no congresso

   A partir desta altura, o principal foco de interesse incidirá sobre as votações para o Senado.

   Os democratas têm presentemente uma maioria de 51 senadores, contando com dois votos de independentes, incluindo Joe Lieberman, que apoia McCain. Um terço dos 100 mandatos está em disputa e os democratas têm boas hipóteses de afastarem os actuais senadores republicanos do Colorado, Novo México, Virgínia, Carolina do Norte, New Hampshire, Oregon e Alasca. Uma maioria democrática no Senado é um dado adquirido e a dúvida está em saber se alcançará os 60 mandatos para superar a minoria de bloqueio republicana.

   A maioria democrática na Câmara dos Representantes (236 mandatos contra 199 eleitos republicanos em 2006) deverá, igualmente, aumentar entre 20 e 25 lugares.

   Um presidente republicano estará condicionado pelo poder legislativo e nem sequer conseguirá nomear juízes de pendor vincadamente conservador para o Supremo Tribunal.

    Dos 9 juízes o mais velho é o liberal John Stevens, de 88 anos, seguindo-se Ruth Ginsburg, uma liberal de 75 anos, o conservador Antonin Scalia, 72 anos, e Anthony Kennedy, também com 72 anos, que oscila entre as duas alas.
  
   As nomeações para o Supremo Tribunal poderiam revelar-se altamente relevantes se estabelecessem uma maioria claramente conservadora, mas a supremacia democrática no Senado, que tem o poder de confirmação, torna impossível tal viragem política.

   Um presidente democrata poderá avançar com uma agenda política em que só as exigências da maioria democrática representarão um óbice de maior.

   De resto, a crise financeira, o apertão orçamental e a urgência da questão nuclear militar iraniana condicionarão tudo o resto.


Jornal de Negócios
29 Outubro 2008

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domingo, 19 de agosto de 2012

Obama faz-se ao mundo




  Barack Obama conseguiu reorientar a seu favor os termos do debate sobre a presença norte-americana no Iraque e fortalecer a imagem de político com competência para definir um novo rumo estratégico em Washington logo nos primeiros dias do seu périplo internacional.

   O candidato chegou a Bagdade precisamente na altura em que o primeiro-ministro Nouri Al Maliki, em busca de lustro nacionalista para as próximas eleições provinciais, expressava interesse público num calendário de retirada das tropas norte-americanas e desistia de um acordo de longo prazo sobre o estatuto do pessoal militar norte-americano e a instalação de bases dos Estados Unidos no Iraque.

  O agravamento da situação no Afeganistão proporcionou ainda a Obama a oportunidade para fazer valer a sua estratégia de recolocar em 16 meses contingentes militares do Iraque para reforçar tropas e equipamentos em apoio do governo de Cabul naquela que afirma ser "a frente central no combate ao terrorismo".

Uma estratégia ofensiva

  A estratégia de Obama, omissa quanto à cooperação a esperar por parte do Paquistão, obriga necessariamente a um reforço militar dos aliados europeus, do Canadá e da Austrália e à adopção de regras de empenhamento que coloquem na primeira linha de combate contingentes da Força Internacional de Assistência e Segurança da NATO, sobretudo os cerca de 3.500 soldados alemães, até agora afastados do confronto directo com os taliban.

  Ao enquadrar a retirada gradual do Iraque, sujeita às condições político-militares no terreno, numa estratégia regional de "guerra ao terrorismo" e de contenção do Irão através de negociações - favorecido ainda pela mudança táctica da administração Bush, que levou o subsecretário de Estado William Burns a participar em conversações directas com uma delegação iraniana - o candidato democrata coloca John McCain numa situação delicada.

   Para o senador democrata sobra ainda a vantagem de insinuar, no tom demagógico de campanha eleitoral, uma economia de 10 mil milhões de dólares por mês em gastos militares que poderão ficar disponíveis para reforma dos cuidados de saúde e reequilíbrio orçamental.

   O senador republicano gozava, até agora, de vantagem na apreciação do eleitorado sobre a sua capacidade de liderança em questões de segurança nacional.

  McCain passou, no entanto, a ter de discutir a presença militar norte-americana no arco de crises que vai do Mediterrâneo ao Paquistão, sem poder acusar o rival democrata de derrotismo ou irresponsabilidade a partir do momento em que até a administração Bush acedeu a estabelecer "um horizonte temporal" para a retirada de tropas do Iraque e iniciou negociações directas com Teerão.

Um realista centrista


  Para Obama, depois de realçar a necessidade de cooperação multilateral no combate às alterações climáticas e à proliferação militar nuclear, será altura de retomar e reforçar as declarações que fez o ano passado de que nunca hesitaria em "recorrer à força, unilateralmente, se necessário, para proteger os interesses vitais dos Estados Unidos em caso de ataque ou ameaça iminente".

   Obama sublinhou, então, a necessidade de um Plano Marshall para os países do Médio Oriente envolvidos na "guerra ao terrorismo", ao mesmo tempo que caracterizou o risco de organizações terroristas obterem armas de destruição maciça como uma ameaça global. A estratégia do candidato democrata surge, assim, enquadrada nos parâmetros estratégicos essenciais de política de segurança que fazem consenso entre realistas conservadores e liberais de Washington.

  Nota-se, também, uma importância acrescida dada à negociação em instituições multilaterais e a ausência de apelos a reformas democráticas em estados aliados chave, como a Arábia Saudita ou o Egipto.

  Há grandes áreas cinzentas no que possa ser a atitude de uma administração Obama no relacionamento com a Rússia, a China e a Índia, e o pendor tradicionalmente proteccionista dos democratas em matéria comercial é motivo de apreensão, do Canadá ao Brasil.

  As grandes linhas do centrismo ideológico de Obama em matéria internacional começam, no entanto, a ficar claras.

  Algumas declarações passadas denotavam claramente a inexperiência diplomática de Obama e até a ideia de discursar nas Portas de Brandenburgo demonstrou um triunfalismo deslocado, próprio de um candidato pouco dado aos pruridos da velha Europa.

  De resto, afirmar que Jerusalém deve permanecer como capital indivisível de Israel ou que informação credível e accionável sobre a localização de suspeitos terroristas poderia levar a ataques no Paquistão sem pedido prévio de autorização a Islamabade, foram declarações infelizes, mas até revelam as convicções profundas de Obama. Nem pomba, nem falcão, Obama está prestes a encontrar o seu tom e a sua pose na frente internacional para desgraça de McCain.

  É bem possível que, também nas questões de segurança nacional, o candidato democrata venha a arrebatar a palma eleitoral ao veterano McCain.

Jornal de Negócios
23 Julho 2008

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