Barack Obama conseguiu reorientar a seu favor os termos do debate sobre a presença norte-americana no Iraque e fortalecer a imagem de político com competência para definir um novo rumo estratégico em Washington logo nos primeiros dias do seu périplo internacional.
O candidato chegou a Bagdade precisamente na altura em que o primeiro-ministro Nouri Al Maliki, em busca de lustro nacionalista para as próximas eleições provinciais, expressava interesse público num calendário de retirada das tropas norte-americanas e desistia de um acordo de longo prazo sobre o estatuto do pessoal militar norte-americano e a instalação de bases dos Estados Unidos no Iraque.
O agravamento da situação no Afeganistão proporcionou ainda a Obama a oportunidade para fazer valer a sua estratégia de recolocar em 16 meses contingentes militares do Iraque para reforçar tropas e equipamentos em apoio do governo de Cabul naquela que afirma ser "a frente central no combate ao terrorismo".
Uma estratégia ofensiva
A estratégia de Obama, omissa quanto à cooperação a esperar por parte do Paquistão, obriga necessariamente a um reforço militar dos aliados europeus, do Canadá e da Austrália e à adopção de regras de empenhamento que coloquem na primeira linha de combate contingentes da Força Internacional de Assistência e Segurança da NATO, sobretudo os cerca de 3.500 soldados alemães, até agora afastados do confronto directo com os taliban.
Ao enquadrar a retirada gradual do Iraque, sujeita às condições político-militares no terreno, numa estratégia regional de "guerra ao terrorismo" e de contenção do Irão através de negociações - favorecido ainda pela mudança táctica da administração Bush, que levou o subsecretário de Estado William Burns a participar em conversações directas com uma delegação iraniana - o candidato democrata coloca John McCain numa situação delicada.
Para o senador democrata sobra ainda a vantagem de insinuar, no tom demagógico de campanha eleitoral, uma economia de 10 mil milhões de dólares por mês em gastos militares que poderão ficar disponíveis para reforma dos cuidados de saúde e reequilíbrio orçamental.
O senador republicano gozava, até agora, de vantagem na apreciação do eleitorado sobre a sua capacidade de liderança em questões de segurança nacional.
McCain passou, no entanto, a ter de discutir a presença militar norte-americana no arco de crises que vai do Mediterrâneo ao Paquistão, sem poder acusar o rival democrata de derrotismo ou irresponsabilidade a partir do momento em que até a administração Bush acedeu a estabelecer "um horizonte temporal" para a retirada de tropas do Iraque e iniciou negociações directas com Teerão.
Um realista centrista
Para Obama, depois de realçar a necessidade de cooperação multilateral no combate às alterações climáticas e à proliferação militar nuclear, será altura de retomar e reforçar as declarações que fez o ano passado de que nunca hesitaria em "recorrer à força, unilateralmente, se necessário, para proteger os interesses vitais dos Estados Unidos em caso de ataque ou ameaça iminente".
Obama sublinhou, então, a necessidade de um Plano Marshall para os países do Médio Oriente envolvidos na "guerra ao terrorismo", ao mesmo tempo que caracterizou o risco de organizações terroristas obterem armas de destruição maciça como uma ameaça global. A estratégia do candidato democrata surge, assim, enquadrada nos parâmetros estratégicos essenciais de política de segurança que fazem consenso entre realistas conservadores e liberais de Washington.
Nota-se, também, uma importância acrescida dada à negociação em instituições multilaterais e a ausência de apelos a reformas democráticas em estados aliados chave, como a Arábia Saudita ou o Egipto.
Há grandes áreas cinzentas no que possa ser a atitude de uma administração Obama no relacionamento com a Rússia, a China e a Índia, e o pendor tradicionalmente proteccionista dos democratas em matéria comercial é motivo de apreensão, do Canadá ao Brasil.
As grandes linhas do centrismo ideológico de Obama em matéria internacional começam, no entanto, a ficar claras.
Algumas declarações passadas denotavam claramente a inexperiência diplomática de Obama e até a ideia de discursar nas Portas de Brandenburgo demonstrou um triunfalismo deslocado, próprio de um candidato pouco dado aos pruridos da velha Europa.
De resto, afirmar que Jerusalém deve permanecer como capital indivisível de Israel ou que informação credível e accionável sobre a localização de suspeitos terroristas poderia levar a ataques no Paquistão sem pedido prévio de autorização a Islamabade, foram declarações infelizes, mas até revelam as convicções profundas de Obama. Nem pomba, nem falcão, Obama está prestes a encontrar o seu tom e a sua pose na frente internacional para desgraça de McCain.
É bem possível que, também nas questões de segurança nacional, o candidato democrata venha a arrebatar a palma eleitoral ao veterano McCain.
Jornal de Negócios
23 Julho 2008
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