Mostrar mensagens com a etiqueta Egipto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egipto. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Israel confronta-se com a sua fragilidade






   Os parcos dividendos da ofensiva contra Gaza lançam as maiores dúvidas sobre a capacidade de Israel poder aventurar-se num ataque unilateral ao Irão sem sofrer um incomensurável desaire.

   Uma semana de bombardeamentos deixou a claro que, salvo uma inviável reocupação de Gaza temida pela própria população judia, Israel não conseguirá eliminar a ameaça dos mísseis do Hamas e de outras organizações islamitas.

   Uma trégua, implicando a suspensão do lançamento de mísseis a troco do aligeiramento do bloqueio imposto por Israel há cinco anos, não poderá obviar ao rearmamento do Hamas e demais organizações palestinianas.

   Os esforços israelitas para destruir redes de contrabando, como, por exemplo, os ataques ocorridos no Sudão, estão condenados ao fracasso dada a situação de insegurança na península do Sinai e o apoio do governo islamita do Cairo aos confrades do Hamas.

  Além da frente sul de Israel, sujeita a ser fustigada por mísseis de fraca precisão, também áreas do centro do país e mesmo Telavive e Jerusalém estão agora na mira de mísseis Fajr 5 de origem iraniana com um alcance de 75 quilómetros.

  A notória melhoria da capacidade do Hamas e da Jihad Islâmica no fabrico, montagem, armazenamento e lançamento de mísseis permitirá recuperar a curto prazo a degradação das suas capacidades ofensivas provocada pela actual investida israelita.

   Os inimigos em Gaza representam uma ameaça tão perigosa e destabilizadora quanto o Hizballah a norte, apesar da segurança relativa oferecida pelo sistema de defesa antimísseis Cúpula de Ferro.

   A constatação de Israel da impossibilidade de desalojar o Hamas fragiliza Mahmoud Abbas que aguarda o reconhecimento pela Assembleia Geral da ONU da Autoridade Palestiniana como estado observador.

   A ameaça de retaliações de Israel e dos Estados Unidos no caso de promoção do estatuto internacional palestiniano -- designadamente através do congelamento de contribuições e financiamentos à ONU e à Autoridade Palestiniana -- contribui para alienar os palestinianos da Cisjordânia que vêem os seus representantes incapazes de obter concessões.

   Nenhum avanço quanto ao estatuto de Jerusalém, o congelamento e desmantelamento de colonatos judaicos, o direito de retorno de refugiados e o controlo de recursos hídricos.

   Neste impasse aumenta o risco da Fatah perder o controlo da Cisjordânia e do ressentimento dos árabes israelitas -- 20% da população do estado hebraico -- extravassar em protestos de rua, enquanto na Jordânia se reforça as exigência dos Irmãos Muçulmanos que reclamam ao Rei Abdullah II o corte de relações com Israel.

   Na frente norte, onde a imponderabilidade da guerra civil na Síria condiciona o Hizballah e priva Israel de um inimigo fiável, o estado hebraico confronta-se com as consequências do fracasso estratégico do confronto de 2006 que consagrou os xiitas libaneses como irredutível força militar.

   A retaguarda israelita apresenta-se, portanto, muito insegura e a população judia acaba de sofrer novo choque psicológico ao ser confrontada com acrescida vulnerabilidade a ataques de mísseis.

   O risco de isolamento diplomático no caso de Israel enveredar por acções militares que resultem em significativas baixas civis entre o inimigo começa também a fazer-se sentir entre uma população que, na ausência de garantias credíveis de segurança, tenderá, no entanto, a votar em forças políticas que rejeitam qualquer compromisso territorial.

   Perdido o contrapeso estratégico que representava a Turquia o isolamento israelita no Médio Oriente é avassalador.

   A conjugação pontual de interesses contra o Irão com as monarquias sunitas do Golfo, o Arzebeijão e alguns grupos curdos não basta para Israel se lançar numa eventual acção militar com ou sem apoio prévio dos Estados Unidos.

   A extrema fragilidade da situação nas conflituosas fronteiras de Israel obriga a uma mobilização total de recursos e riscos generalizados para os civis judeus em caso de guerra com o Irão, nova ronda de confrontos em todas as frentes, e esta realidade só a pouco e pouco começa a ser compreendida.

Jornal de Negócios
21 Novembro 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

O crepúsculo dos cristãos do Levante

Le pape à Bkerké, le 15 septembre 2012, devant des dizaines de milliers de jeunes. REUTERS/Sharif Karim
Bkerké, 15 Setembro

“ Entre a potência
  E a existência
  Entre a essência
  E a descendência
  Tomba a Sombra

                Porque Teu é o Reino”


“Os Homens Ocos”, T. S. Elliot



   Crentes apreensivos, angustiados e divididos aguardam pela visita que Bento XVI inicia sexta-feira ao Líbano numa altura em que tudo conspira contra as comunidades cristãs do Levante.

   João Paulo II na sua peregrinação em Maio de 1997 teve a ousadia de apelar à reconciliação nacional e ao respeito pela soberania libanesa.

   Os cristãos ainda eram, então, uma força decisiva no confronto com a Síria que recusava retirar as tropas que em 1976 tinham intervido na guerra civil e com Israel que ocupava o sul do Líbano desde 1982.

   Bento XVI, pelo contrário, além da mensagem doutrinária católica e ecuménica e apelos de cunho humanitário, pouca margem de manobra terá para declarações abertamente políticas dadas as divisões entre igrejas e blocos políticos e a ameaça de retorno à guerra civil.

                                   Comunidades divididas

   Bechara Boutros Al Rahi -- patriarca dos maronitas, a maior confissão oriental em comunhão com a igreja católica -- tem evitado criticar abertamente o regime de Damasco e os seus apoiantes no Líbano, caso do general cristão Michael Aoun do Movimento Patriótico Livre aliado presentemente aos xiitas do Hizballah.

   Samir Geagea, outro líder histórico de milícias maronitas, mantem uma atitude de oposição radical ao regime de Bashar Al Assad, mas sem grande eco junto dos políticos cristãos, druzos, ou sunitas que aceitaram integrar a actual coligação governamental dominada pelo Hizballah.

   Os cristãos libaneses – maronitas, ortodoxos gregos, arménios, assírios, melquitas, ortodoxos siríacos e protestantes, entre as principais confissões – representam 30% a 40% da população, mas a comunidade xiita está em vias de assumir idêntico peso demográfico, deixando para trás os sunitas, cerca de 30%, e druzos, 5%.

   O último censo teve lugar em 1932 e os equilíbrios étnico-religiosos alteraram-se radicalmente.

   A predominância política cristã no Líbano, propiciada pela França após a partilha dos despojos do Império Otomano, perdeu-se no rescaldo da guerra civil de 1975-1990 que marcou a ascensão dos xiitas.

   A perda de poder político no Líbano foi a par de uma diminuição genérica da presença cultural cristã no Levante depois do papel de relevo que clérigos, intelectuais e artistas cristãos desempenharam na Renascença Árabe (Al Nahda) desde meados do século XIX.

   No século passado George Antonius, oriundo de uma família egípcio-libanesa cristão-ortodoxa, ainda viria a ser nos anos 30 um dos expoentes do nacionalismo árabe.

   O grego-ortodoxo Michel Aflaq, nascido em Damasco, surgiria como teórico maior do nacionalismo e panarabismo de veia socialista na década de 40 e fundaria o partido Ba`ath (Resurgimento) que viria a tomar o poder na Síria e no Iraque.

                          Perda de influência e enquistamento

   À medida que surtos nacionalistas ou comunitários assumiram maior cunho religioso os cristãos do Levante e Médio Oriente acabaram por perder a protecção de regimes autocráticos que os usavam como contrapeso político conforme as conveniências.

   No Iraque boa parte dos fiéis assírios e caldeus (cerca de 3% da população) fugiu às violências que eclodiram após o derrube do regime minoritário sunita de Saddam Hussein.

   Idêntico cenário está em vias de se repetir na Síria onde a minoria cristã (10% da população) apostou desde os anos 60 numa convergência de interesses com o regime alauíta a braços com a revolta da maioria sunita.

   Igualmente debilitadas pela emigração e contracção demográfica que levaram os cristãos a as minorias cristãs na Palestina, Israel e Jordânia só representam cerca de 3% da população e veêm-se subordinadas aos interesses conflituosos das maiorias sunitas e judaicas.

   No grande baluarte cristão do Levante os coptas, sensivelmente 10% dos 84 milhões de egípcios, viram desaparecer a salvaguarda do regime de Hosni Mubarak e enfrentam agora o revivalismo islamita.

   O enquistamento dos coptas, acentuando o conservadorismo religioso e social numa tentativa de preservar valores identitários num ambiente hostil, é uma reacção que se poderá repetir noutras comunidades cristãs do Levante sem condições para acalentarem revisionismos radicais.

   As comunidades cristãs representavam cerca de 20% da população do Médio Oriente no início do século XX e presentemente não ultrapassam os 5%, sensivelmente 12 milhões de almas.

   A emigração, a subordinação ou impotência políticas, a perda de dinamismo cultural marcam as novas gerações de cristãos levantinos tementes a perseguições e discriminações.

   A viagem de Bento XVI ao Líbano numa altura em que a guerra civil síria ameaça toda a região irá ilustrar pela sua incapacidade de assumir atitudes de ruptura ou protesto esta impotência genérica que assombra os fiéis, essa perda de viço que há décadas atormenta as comunidades cristãs do Levante.



Jornal de Negócios
12 Setembro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=577929&pn=1

domingo, 9 de setembro de 2012

Atolados de Gaza ao Jordão

 Faixa de Gaza


   É a última quimera nas chancelarias europeias e de Washington: apoiar um governo da Fatah na Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, e isolar Gaza com a ajuda do Egipto e a cumplicidade das monarquias sunitas do Médio Oriente.

   A melhoria das condições de vida dos dois milhões e meio de palestinianos da Cisjordânia, graças à eficiência e lisura administrativas da Fatah e à boa vontade de Israel, será, neste cálculo, o factor decisivo para provar a existência de uma alternativa credível aos habitantes de Gaza que acabarão por repudiar o Hamas.

   Os progressos nas negociações entre a Autoridade Palestiniana e Israel acabarão neste cenário por selar o isolamento e impotência dos islamitas a quem serão negadas quaisquer concessões políticas. Ao Hamas apenas será concedido o acesso a ajuda humanitária de emergência, fluxos mínimos de abastecimentos – electricidade, água, combustíveis – e trocas comerciais para obviar ao colapso de Gaza.

   Num primeiro momento Israel aceitou desbloquear cerca de 400 milhões de dólares de impostos e taxas devidos à Autoridade Palestiniana.

  Abbas reiterou, por sua vez, o compromisso de reconhecimento dos acordos estabelecidos entre a Autoridade Palestiniana e Israel. A União Europeia comprometeu-se a retomar a ajuda financeira embargada desde a formação do governo do Hamas em Março de 2006 e Washington pronunciou-se no mesmo sentido.

                                    A Fatah das quimeras

   Em Ramallah a nomeação para chefe de governo de Salam Fayyad, ministro das finanças entre 2002 e 2005, foi a solução encontrada dar uma nota de seriedade a um executivo sem figuras de peso político.

   Fayyad, que terá também a seu cargo as pastas dos negócios estrangeiros e das finanças, é, no entanto, apenas a face aceitável para uma reaproximação às capitais ocidentais. Os seus apoios políticos derivam do exterior, a sua margem de manobra está condicionada pelos interesses das facções da Fatah.

   O afastamento do antigo homem forte da Fatah em Gaza, Mohammed Dalan, foi entretanto consumado com a dissolução do Conselho Nacional de Segurança e a reorganização das forças de segurança ficou confiada a Abd Al Yahia, velho adversário de Arafat e falhado ministro do Interior nos idos de 2002.

   Al Yahia, que aos 78 anos é outra vez cara nova num sector fulcral da governação, reconheceu imediatamente não ter qualquer ideia de como impor em Gaza a ilegalização das milícias do Hamas, enquanto a Fatah prosseguia o desmantelamento das instituições ligadas aos islamitas na Cisjordânia.

   Independentemente do executivo nomeado por Abbas não ser reconhecido por um parlamento dominado pelo Hamas, cujos deputados são invariavelmente detidos por Israel, do presidente usurpar poderes e de ser impossível convocar eleições, a questão essencial tem a ver com a existência de uma efectiva dualidade de poderes: Gaza está nas mãos dos islamitas e a Cisjordânia sob controlo da Fatah.

   As duas forças não renegam o princípio de uma única entidade palestiniana, mas, na prática, agrava-se o fosso entre os habitantes de Gaza e da Cisjordânia.

   O primeiro problema para a Fatah será criar uma estrutura administrativa e de segurança na Cisjordânia expurgada de elementos do Hamas e gerir a ajuda internacional sem dar a impressão de que abandona à sua sorte os palestinianos de Gaza.

   A derrocada militar em Gaza não propicia grande confiança para o eventual esforço de apoio bélico à Fatah por parte de Israel, dos Estados Unidos e dos regimes árabes sunitas seus aliados.

   Práticas de boa governança são, por outro lado, impossíveis de criar num território sob controlo militar externo e dependente economicamente de Israel. Certas áreas da Cisjordânia – Nablus, por exemplo, onde o Hamas é maioritário – são tão ingovernáveis quanto Gaza.

   A segunda questão premente passa por Abbas conseguir que Israel liberte presos palestinianos, em particular o influente Marwan Barghouti, condenado a cinco penas de prisão perpétua, como sinal de boa vontade negocial.

   Dificilmente Israel cederá neste ponto e caso Barghouti voltasse a Ramallah constituir-se-ia à sua volta uma nova frente política capaz de agregar os descontentes da Fatah e islamitas próximos do Hamas e da Jihad Islâmica.

   Em terceiro lugar, os termos de eventuais negociações com Israel são absolutamente desfavoráveis à Fatah e condenam Abbas ao fracasso.

                            Israel sem interesse em concessões

   A esmagadora maioria dos israelitas recusa concessões territoriais que levem ao desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, que albergam 450 mil judeus, e apoia a manutenção da barreira de segurança e a fixação unilateral de fronteiras.

   Todas as sondagens indicam, ainda, que em Israel, após o fracasso da retirada unilateral de Gaza, o descalabro militar no Líbano e ante a persistência de ataques terroristas intermitentes oriundos dos territórios palestinianos, não existem condições políticas para negociações.

   Nem a partilha de Jerusalém é aceite, nem compensações aos quatro milhões de refugiados palestinianos estão em agenda.

   Transformar a Fatah numa entidade clientelar e subordinada numa Cisjordânia enxameada de colonatos e controlos militares israelitas é uma tentação impossível dado o irredentismo palestiniano.

   Após as primeiras tentativas de conversações Israel tentará convencer os seus aliados de que Abbas não reúne quaisquer condições para fazer valer compromissos de segurança e controlo administrativo na Cisjordânia.

   Israel terá ainda de negociar com o Hamas os controlos fronteiriços de Gaza e a passagem de boa parte da ajuda internacional que sustenta 85 por cento dos 1,4 milhões de palestinianos do enclave.

   Da parte do Cairo não se poderá esperar muito para evitar o contrabando e entrada de armamento em Gaza em contrapeso à ajuda internacional pois uma cooperação declarada com Israel não seria de bom-tom para o regime de Mubarak apostado no combate aos islamitas egípcios, parceiros do Hamas, mas necessitado da legitimidade que só a alegada solidariedade árabe confere.

   O Egipto, tal como a Jordânia ou a Arábia Saudita não podem, além disso, cortar as pontes com os islamitas palestinianos pois caber-lhes-á a curto prazo a tentativa de relançar negociações entre a Fatah e o Hamas.

                                         O crescente verde

   Os islamitas de Ismail Haniya em Gaza tenderão no imediato, por força da necessidade de negociar directamente com Israel, a evitar confrontos com o exército de Telavive e deixarão provavelmente a retórica de rejeição da existência do estado judaico para os seus correligionários exilados em Damasco sob a chefia de Khaleed Meshall a quem coube já, também, os primeiros sinais de abertura para negociações com Abbas.

   O sucesso da islamização de Gaza é uma incógnita e a possibilidade de actos de provocação e de acções terroristas a partir do enclave deixa em aberto a eventualidade de ataques israelitas que tenderão a ficar aquém da reocupação, apesar de Israel poder optar por estabelecer zonas tampão no norte e no sul do enclave.

   Os equilíbrios que vierem a ser conseguidos nas próximas semanas estarão dependentes de saber quem quebrará primeiro e da instável situação no Líbano.

   De um lado, o Hamas que caso se veja incapaz de administrar Gaza poderá optar por lançar novas ofensivas contra Israel.

   Do outro, Abbas que impotente para se afirmar como líder nacionalista capaz de arrancar concessões a Israel arrisca ver ruir o domínio da Fatah na Cisjordânia.

   Seja como for um nacionalismo palestiniano com uma vertente acentuadamente islamita tenderá a afirmar-se cada vez mais.

  Até porque por parte de Israel não se justifica presentemente fazer concessões aos palestinianos e nenhuma pressão norte-americana nesse sentido se fará sentir nos tempos mais próximos.



Jornal de Negócios
20 Junho 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=297844

Um clima de desorientação

 Atentado Mesquita Buratha,
                                                       Bagdade, 7 Abril 2006
   Uma sucessão de impasses militares e diplomáticos está a provocar uma catadupa de iniciativas desconexas que revelam profunda desorientação e descoordenação face às crises que se agravam do Levante ao subcontinente indiano.

   A constatação de que o Irão não será sujeito a sanções económicas e financeiras gravosas, selada pelas declarações de Jacques Chirac acerca do diálogo imperativo com Teerão e agravada pela constatação da inviabilidade de um ataque militar norte-americano, evidenciou no imediato os riscos de proliferação nuclear.

   Gamal Mubarak, o filho e putativo herdeiro do presidente egípcio, elaborou, assim, acerca da necessidade do país enveredar por um programa de produção de energia nuclear para fins exclusivamente civis. O ministro da energia concretizou, anunciado de seguida que o Egipto investiria 1,5 mil milhões de dólares na construção de uma central de 1000 MW a inaugurar em 2015.

   A Turquia que, tal como o Egipto, é signatária do Tratado de Não- Proliferação mantém, por sua vez, o projecto de construção de três centrais até 2015, enquanto a Arábia Saudita guarda silêncio sobre eventuais opções nesse sentido.

   Nos últimos meses os estados do Golfo iniciaram, no entanto, discussões preliminares sobre a viabilidade de programas nucleares civis.

   Os riscos destes eventuais programas nucleares acabarem por incorporar componente militares são elevadíssimos face à prossecução dos projectos iranianos que ganhou esta semana novo alento com a confirmação por parte de Moscovo de que cumprirá as suas obrigações contratuais de forma à central de Busher entrar em funcionamento em Novembro de 2007.

   O interesse em obter garantias mútuas informais de não-agressão face às ameaças de Teerão e dos seus aliados explica, por seu lado, as fugas de informação sobre os primeiros contactos de alto nível entre representantes israelitas e sauditas.

   O entendimento entre Telavive e Riade esbarra, contudo, na impossibilidade presente de Israel oferecer concessões na questão palestiniana.

    O descalabro libanês e a recusa terminante do Hizballah em desarmar as suas milícias retirou margem de manobra ao governo de Ehud Olmert que abandonou os planos para uma retirada unilateral da Cisjordânia. As sondagens indicam uma acentuada viragem à direita do eleitorado israelita favorecendo o Likud de Benjamin Netanyahu em detrimento do Kadima de Olmert e dos trabalhistas de Amir Peretz.

   A incapacidade das facções da OLP que ainda aceitam a autoridade do presidente Mahmoud Abbas em imporem uma partilha de poderes ao Hamas em Gaza e o reconhecimento indirecto de Israel condenam, por seu turno, os palestinianos ao isolamento diplomático e à ruína financeira.

   Nesta conjuntura são vãs as esperanças de qualquer compromisso nos termos da proposta avançada pelos sauditas em 2002 que implicava o reconhecimento de Israel pelos estados árabes em troca da retirada dos territórios palestiniano e sírio ocupados em 1967, do estatuto de Jerusalém Oriental como capital de um estado independente e de uma vaga "solução justa" para os mais de quatro milhões de refugiados palestinianos.

                                     Uma guerra perdida

   À apreensão generalizada dos estados árabes sunitas, da Turquia e da Arménia de que Teerão conseguirá levar avante o seu programa e dotar-se de armas nucleares junta-se a constatação de que as possibilidades de pacificação do Iraque são praticamente nulas.

   Todos os partidos curdos e xiitas continuam a aumentar as exigências de autonomia à custa do governo central e a decisão de adiar por dois anos a criação legal de regiões tem sobretudo a ver com o cálculo por parte dos xiitas de que os Estados Unidos ver-se-ão obrigados até lá a retirar do Iraque. Só os curdos pela voz do presidente Talabani expressam interesse público em albergar tropas norte-americanas.

   Uma sondagem encomendada pelo Pentágono e revelada esta semana pela BBC expressa em toda a sua extensão a impossibilidade de conter a insurreição e o terrorismo dos grupos sunitas e a escalada de ataques e retaliações das milícias xiitas.

   Encurralada e politicamente impotente a minoria de cinco milhões de sunitas aparenta agora apoiar esmagadoramente a insurreição armada contra as tropas da coligação norte-americana e britânica.

   Se em 2003 apenas 14 por cento dos sunitas inquiridos manifestavam apoio aos ataques presentemente esse número subiu para 75 por cento, segundo o estudo encomendado pelo Departamento de Defesa de Washington. 

   Fracassado o projecto de democratização no Iraque aumentam as preocupações pelo efeito mobilizador que o conflito tem causado entre radicais sunitas e xiitas seduzidos pela propaganda islamita.

   A estimativa conjunta das 16 agências de informação dos Estados Unidos de que a guerra no Iraque tem aumentado a base de recrutamento de grupos terroristas no Médio Oriente, a nível internacional e junto das comunidades de imigrantes muçulmanos e seus descendentes segue-se a idêntica análise feita no início do ano pelos serviços secretos britânicos.

                                       Um pacto com o diabo

   O panorama fica mais negro pelo fracasso do contingente multinacional em assegurar a segurança nas regiões rurais do Afeganistão que retornou ao padrão tradicional de sustento de milícias tribais pela produção e tráfico de ópio e heroína.

   O Paquistão, por seu turno, acaba de agravar a periclitante situação do governo de Hamid Karzai, que se encontra confinado a Cabul, ao mesmo tempo que vê deteriorem-se as relações com Nova Delhi que alega cumplicidade de Islamabade em grande número de ataques terroristas na Índia.

   O acordo selado entre os líderes tribais do Waziristão e Islamabade para retirada das tropas governamentais da província é uma cedência dos militares na esperança de evitar que a crescente radicalização dos pashtun provocada pelo reforço do movimento taliban acabe por fragilizar ainda mais o regime de Pervez Musharraf.

   O cálculo de que a liberdade de movimentos dos taliban no Waziristão confinará as suas investidas ao território do Afeganistão poderá, no entanto, revelar-se errado em detrimento quer do governo de Cabul, quer de Islamabade se prosseguir a radicalização dos 40 milhões de pashtun que representam mais de 15 por cento da população do Paquistão e cerca de 40 por cento dos alegados súbditos do estado afegão.

   A região fronteiriça é assim refúgio natural para dirigentes da Al Qaeda que continua muito activa ainda que de forma mais descentralizada. Desde Setembro de 2001 os fiéis de Bin Laden dirigiram, financiaram ou participaram directamente em 30 ataques em 12 países que causaram 2060 feridos e 440 mortos, de acordo com um estudo da Rand Corporation para a Agência de Segurança Interna dos Estados Unidos.

   A estes ataques da responsabilidade da Al Qaeda juntam-se os atentados perpetrados no Iraque e as acções de grupos radicais islamitas independentes que se tornaram mais letais nos últimos cinco anos do que em qualquer período precedente.

   No encadeamento de todas estas crises surge um elemento comum.

   A administração Bush mostra-se incapaz de articular iniciativas diplomáticas coerentes em pelo menos quatro questões fulcrais: o programa nuclear iraniano, a guerra do Iraque, o conflito israelo-palestiniano-árabe, além do Afeganistão.

    Os Estados Unidos em vez de promoverem ou coordenarem iniciativas diplomáticas estão assim cada vez mais sujeitos aos riscos das acções que os seus aliados e parceiros decidem assumir unilateralmente.


Jornal de Negócios
27 Setembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=282827

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Crescente Verde

 (Hassan al Banna)

Quando em meados de Janeiro os resultados das eleições confirmarem a predominância dos "Irmãos Muçulmanos" no parlamento do Cairo a Junta Militar não terá a opção dos seus confrades argelinos que há 20 anos impuseram o estado de emergência para fazerem frente a uma vitória nas urnas da "Frente Islâmica da Salvação".
Os militares egípcios, interessados em salvaguardar os privilégios que foram acumulando desde os anos 50, terão de chegar a um entendimento com os islamitas de forma a viabilizar a formação de um governo civil, a elaboração da constituição e a eleição presidencial no Verão de 2012.

Ante uma situação económica e financeira à beira da ruptura à direcção dos "Irmãos Muçulmanos" convirá evitar hostilizar os militares e confrontos com os cristãos coptas.

A colaboração com partidos laicos, a exemplo dos corregelionários da irmandade na Tunísia e em Marrocos, isolando as alas mais radicais do islamismo, é a via mais eficaz para consolidar posições num contexto de contestação social e opções económicas penosas para a maioria da população.

Arredar o espectro de um confronto à imagem da guerra civil argelina que se prolongou por uma década causando mais de 60 mil mortos é um dos desideratos imediatos do islamismo político no Egipto.

O ponto alto do islamismo político
Um século de activismo político islamita no mundo árabe sunita atinge o seu ponto mais alto com a esperada vitória eleitoral dos "Irmãos Muçulmanos" no Egipto.

A organização fundada por Hassan al Banna em Ismailia, em 1928, visava a restauração do Califado em respeito pela palavra literal do Corão e dos ensinamentos do Profeta, bases da lei islâmica, por via do exemplo pio e da acção caritativa.

Cedo a revolta contra a repressão e o fanatismo contra regimes apóstatas ou anti-muçulmanos gerou acções violentas em que a "jihad" como luta espiritual pela pureza religiosa se subordinou à "jihad" como imposição da lei sagrada pela força das armas.

Do Egipto à Jordânia forças islamitas impuseram-se pela contestação armada e terrorista, assistencialismo social e mobilização eleitoral - contribuindo as diversas tácticas para a vitória do "Hamas" nas eleições palestinianas de 2006 - e chegaram a influenciar decisivamente governos, caso do Sudão de Omar al Bashir entre 1989 e 2000.

O islamismo apostado na participação política pacífica, oscilou, por seu turno, entre a cooperação com os poderes instituídos e a resistência não-violenta à opressão, ainda que tenha visto as suas dissidências alimentarem derivas terroristas, e na actualidade hegemoniza o discurso político.

A falência de projectos socialistas e panarabistas - do nasserismo egípcio aos partidos "Ba'ath" sírios e iraquianos -, o apelo limitado e exclusivista do waabismo saudita e a erosão da legitimidade religiosa tradicionalista das monarquias de Marrocos ou da Jordânia, abriram caminho à expansão ideológica do islamismo político.

O modelo prático-doutrinário dos islamitas do "Partido da Justiça e Desenvolvimento" está a dar boas provas no universo turco, uma sociedade marcada pela modernização secularista sob tutela militar que viu abolido o sultanato em 1922, enquanto opções de índole salafista (radicais na pretensão de recriar pela força a teocracia maometana) têm vindo a fracassar do Afeganistão à Somália.

O critério da prática
Na área cultural muçulmana em disputa com correntes modernistas - influentes por exemplo no maior país de orientação islâmica, a Indonésia - e frente a confissões religiosas rivais, de xiitas a sufis, os islamitas sunitas distinguem-se pelas referências doutrinárias, mas, sobretudo, pela sua prática política.

A "xaria", lei islâmica, apresentada como matriz da organização das instituições e do enquadramento da economia, é um corpo doutrinário de tal maneira vago e ambíguo que permite as mais divergentes interpretações.

Outra vertente essencial ao islamismo político é a "identidade muçulmana" e a proclamação identitária tanto pode admitir a coexistência com berberes ou hindus, a imposição ou não de estatuto subordinado a comunidades judias ou cristãs, ou, ainda, assumir características assimilacionistas.

O reconhecimento pelo estado da prevalência de valores e práticas muçulmanas é, também, uma exigência incontornável dos islamitas na impossibilidade de fundirem numa única forma de poder a legitimidade religiosa que entendem como essência da ordem social.

Os traços ideológicos essenciais do islamismo político ganharam força em diversos contextos históricos e em função das circunstâncias e das resistências que enfrentam as referências doutrinárias podem justificar a conquista pela violência do poder do estado.

Do banho de sangue ao pragmatismo
No Iémen ou na Líbia a contestação de xiitas e tuaregues, as rivalidades tribais, a precariedade das estruturas do estado submetidas a interesses clânicos, excluem praticamente a possibilidade de competição e partilha pacífica do poder e os movimentos islamitas tendem a assumir maioritariamente cunho violento e exclusivista.

Na Síria aproxima-se a hora dos "Irmãos Muçulmanos" vingarem o massacre de Hama, em 1982, e a minoria alauíta (uma seita herética do Islão no poder em Damasco desde os anos 60) e seus aliados cristãos irão irremediavelmente sofrer às mãos da maioria sunita num conflito sangrento.

Na Tunísia, pelo contrário, o governo de coligação com secularistas liberais e conservadores liderado pelo islamita Hamadi Jebali tem condições para prosseguir uma política pragmática e moderada se não lhe falharem os mercados da União Europeia. A vitória islamita no maior país árabe irá mudar a forma como o islão político é visto da Mauritânia à Malásia, mas, muito mais do que vagas e contraditórias referências doutrinárias e ideológicas, será a actuação dos "Irmãos Muçulmanos" egípcios que irá determinar juízos, contestação, adesões e repúdio.




Jornal de Negócios
30 Novembro 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=522703

Uma guerra incontrolável



   A guerra civil síria começou por impulsionar confrontos étnico-religiosos no norte do Líbano, galvanizou os sunitas iraquianos na sua resistência à preponderância da maioria xiita e agitou separatistas curdos na Turquia.

   O regime da minoria alauíta entrou, entretanto, em rota de choque contra os islamitas sunitas no poder em Ancara e o derrube de um caça turco na linha de fronteira no Mediterrâneo Oriental avivou o risco de confronto directo entre a Síria e a Turquia.

   O apoio político e as facilidades de fornecimento de armamento, financiado sobretudo pelo Qatar e a Arábia Saudita, que a Turquia tem concedido a diversas facções rebeldes sírias é um jogo perigoso que pode descambar numa guerra com Bashar Al Assad.

   Populações curdas habitam nas regiões fronteiriças do norte da Síria e sudeste da Turquia e os dois estados estiveram já à beira da guerra até Damasco de cortar em 1998 o seu apoio ao "Partido dos Trabalhadores Curdos" de Abdullah Ocalam.

   Actualmente, a situação é mais delicada devido ao arrastar da guerra civil na Síria e aos apoios militares e diplomáticos que Assad concita de Moscovo a Teerão.

   Moscovo recusa qualquer solução que ponha em causa a preservação da base naval russa em Tartus, o reconhecimento do seu estatuto de potência com interesses do Cáucaso ao Mediterrâneo, passando pelo Cáspio e a Ásia Central -- que em nada serão favorecidos por radicalismos islamitas –, além de, subsidiariamente, recuperar o tradicional papel tzarista de defesa da minoria cristã no Levante.

   Estados como a China ou a Índia opõem-se, por sua vez, a que eventuais resoluções da ONU viabilizando uma intervenção militar limitada no conflito para protecção de civis possam ser utilizadas para cobertura de ofensivas da NATO e seus aliados árabes como ocorreu na Líbia.

   Ano e meio de manifestações e confrontos que degeneraram em guerra aberta abalaram o regime, mas os alauítas ainda demonstram clara superioridade militar.

   Os combates nos subúrbios de Damasco são cada vez mais intensos, mas Aleppo, a maior cidade do país, mantém-se sob firme controlo governamental.

   Outras minorias, caso de cristãs ou curdos, continuam a demonstrar grande reticência em alinhar com forças da maioria sunita (74% da população) onde se faz sentir a influência de movimentos islamitas, incluindo grupos anti-xiitas e anti-alauítas.

   O recurso crescente a tácticas terroristas por parte do governo e de diversos grupos revoltosos, desde o "Exército Sírio Livre" a brigadas jihadistas, realça a inviabilidade de uma intervenção externa para apoiar um bloco étnico-religioso contra outras facções.

   O conflito sírio implica, contudo, tantos intervenientes que está a revelar-se um factor de destabilização regional impossível de controlar.

   A eleição presidencial de Mohammed Mursi, ainda que coarctado pelo poder militar egípcio, confirmou a força crescente dos "Irmãos Muçulmanos" em todo o universo sunita e pesa sobre o destino da Síria.

  O islamismo radical do movimento, fundado em 1928 em Ismailia, justificou desde ideologias extermicionistas e tácticas terroristas a formas pacíficas de intervenção política e regista fracassos retumbantes, como no Sudão, ou êxitos assinaláveis conforme sucede presentemente na Turquia.

   O que vier a suceder no Egipto definirá o futuro de um islamismo político bastante diversificado que vingou no mundo sunita árabe em oposição a ideologias nacionalistas, panarabistas, liberais, socialistas e secularistas.

   O islamismo dos "Irmãos Muçulmanos" em países como a Tunísia, o Egipto ou a Jordânia é, também, uma resistência ao rigorismo wahabita promovido por uma Arábia Saudita em que a família real, bastião das monarquias conservadoras árabes, enfrenta um incerto processo de sucessão.

   A guinada islamita no Egipto suscita preocupações em Israel que, além de contabilizar o reforço do Hamas em Gaza e na Cisjordânia, vê reabrir-se a possibilidade de ressurgir a prazo um perigo militar a sul numa altura em que a frente libanesa, onde predominam os xiitas do "Hezbollah", e síria se revela insegura.

   Não aperta ainda uma tenaz anti-israelita dos Golã ao Suez, como na guerra de 1973, mas o fracasso das negociações entre o Irão e as cinco potências permanentes do Conselho de Segurança além da Alemanha confirmou para os decisores de Telavive que Teerão não abandonará o seu programa nuclear militar e que sanções económicas e financeiras dificilmente surtirão efeito.

   Demasiadas crises, cálculos e interesses contraditórios estão a convergir sobre a Síria.



27 Junho 2012
Jornal de Negócios

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=564771

domingo, 19 de agosto de 2012

A sina dos cristãos do Egipto



O ano começou sangrento com um atentado suicida numa igreja em Alexandria a 1 de Janeiro que causou a morte de 23 coptas, sucedendo-se desde então ataques a templos e confrontos entre cristãos e muçulmanos no Egipto.

A triste sina dos cristãos do Egipto atingiu o clímax na mortandade de domingo, no Cairo, quando manifestantes coptas, protestando contra a passividade da Junta Militar e do governo ante as violências anti-cristãs, se envolveram numa sangrenta batalha campal com militares.

A brutalidade da repressão das unidades militares contra mais de dez mil manifestantes coptas, os apelos na televisão estatal à retaliação contra a violência de "cristãos enfurecidos", as contraditórias versões oficiais sobre a responsabilidade pelos incidentes que provocaram mais de duas dezenas de mortes e três centenas de feridos, alimentam as piores suspeitas de uma minoria discriminada.

As minorias ancestrais
A ancestral comunidade cristã do Nilo teme que o seu destino siga os passos dos maronitas do Líbano - grandes derrotados da guerra civil dos anos 70 e 80 que marcou a ascensão política e demográfica dos xiitas - ou do cristãos do Iraque, onde boa parte dos fiéis das igrejas caldeias e assírias, cerca de 3% da população, fugiu às violências subsequentes ao derrube de Saddam Hussein.

No caso do Líbano, ainda que as diversas denominações cristãs possam representar entre 30% a 40% dos pouco mais de 4 milhões de habitantes (não existem dados fidedignos na ausência de um recenseamento desde 1932), o sentimento de perda de influência é notório.

No único estado levantino surgido da partilha do império otomano no final da I Guerra Mundial em que cristãos - maronitas, gregos e arménios ortodoxos e católicos - mantinham uma posição de poder ímpar as novas relações de força saídas das guerras civis libanesas conduziram irreversivelmente a uma subalternização do bloco político-religioso cristão.

Na vizinha Síria nada de bom aguarda, por sua vez, os cristãos ortodoxos gregos e católicos.
Os cristãos, sensivelmente 10% dos 22 milhões de sírios, firmaram com a minoria alauíta (uma variante heterodoxa xiita que tem idêntico peso demográfico) uma aliança de interesses ante a maioria sunita que é agora refém do destino do regime do clã de Bashar al Assad.

Nos territórios da Palestina, na Jordânia e em Israel as minorias cristãs não ultrapassam os 3% das respectivas populações, mas a contracção demográfica caracteriza estas comunidades que em situação de extrema instabilidade acatam a predominância dos interesses políticos conflituosos de muçulmanos e judeus.

Os coptas desprotegidos
O Egipto alberga a maior comunidade cristã no Levante e a influência e protecção política que os coptas gozavam durante o regime de Hosni Mubarak foi posta em causa.

Cerca de 10% dos 84 milhões de egípcios seguem os ritos da Igreja Copta Ortodoxa, do papa Shenouda III de Alexandria, e outros 250 mil são fiéis da Igreja Copta Católica em união com o Vaticano, liderada pelo patriarca de Alexandria Antonius Naguib.

A discriminação sempre se fez sentir, designadamente na obrigatoriedade de autorizações governamentais para construção e remodelação de templos, e o terrorismo salafista dos anos 80 e 90 fustigou os coptas, sobretudo nas zonas rurais do sul do Egipto com maior concentração cristã e onde as suas elites têm presença vincada nas actividades económicas.

Um enquistamento da comunidade copta na preservação de valores identitários religiosos, sob tutela de um clero muito conservador, acentuou-se em resposta à crescente força do islamismo, representado sobretudo pelos "Irmãos Muçulmanos".

O regime de Mubarak, mais ainda do que o seu antecessor Anwar Sadat, era, no entanto, uma salvaguarda de última instância ante ameaças de radicalismo de matriz muçulmana quanto mais não fosse para usar os coptas como contrapeso político consoante as conveniências.

Sem surpresa, o papa Shenouda III manteve o apoio a Mubarak até as chefias militares optarem por afastar o presidente para conter os protestos populares em que participaram igualmente coptas dos grandes centros urbanos.

Condenados a sofrer
A luta de interesses e a competição partidária pós-Mubarak, em que sobressaem em força organizativa e influência ideológica os "Irmãos Muçulmanos", colocaram irremediavelmente os coptas numa posição delicada.

Os coptas do Egipto são uma minoria religiosa sem aliados à vista ou patronos potenciais.
Um estatuto de comunidade religiosa subordinada - com autonomia interna no direito de família, mas sem direito de proselitismo, por exemplo - é o destino reservado aos coptas pelas tendências islamitas mais relevantes no Egipto.

Garantias de pluralismo e equidade serão afastadas a partir do momento em que o princípio da "xaria" (lei islâmica) como fonte principal da legislação começar a ser aplicado na prática num clima hostil ao secularismo.

A Junta Militar ao definir um arrastado processo para escolha de legisladores responsáveis pela elaboração de uma constituição que terá de ser sujeita a referendo antes da realização de eleições presidenciais incrementou a contestação política.

Mais dois anos de tutela militar são excessivos no entender da maior parte das forças políticas que se opuseram a Mubarak e um governo provisório prestes a esgotar as reservas em divisas estrangeiras carece de legitimidade ou capacidade para negociar a repartição de recursos do estado.

Exasperação, radicalização, busca de bodes expiatórios, confronto e desilusão são o previsível destino de muitos egípcios numa fase em que movimentos liberais e secularistas se mostram impotentes para opor-se às pretensões da Junta Militar ou ao ímpeto islamita.

A minoria copta, sem patronos interessados no seu apoio, nomeadamente entre as chefias militares, impossibilitada de formar partidos confessionais e firmar alianças com outros grupos que arrisquem afrontar abertamente o predomínio das tendências islamistas, está condenada a sofrer.



Jornal de Negócios
12 Outubro 2011

A quimera da transição controlada




Washington e por arrasto a União Europeia apostam num processo de transição controlado pelas forças armadas para a realização de eleições presidenciais no Egipto, mas uma real democratização implica o desmantelamento do actual sistema de poder.

Uma normalização à egípcia, preservando o essencial do actual sistema em que o estado - uma aliança entre altas esferas militares e meios de negócios afectos ao regime - tutela a partilha dos principais recursos económicos, redistribuindo rendas e benefícios, não é opção que resista a uma reformulação do sistema político num sentido pluralista.

Eleições e reformas institucionais que permitam o acesso aos centros de decisão política de representantes de classes sociais e movimentos políticos e religiosos presentemente excluídos do sistema de poder implicam um confronto com os interesses instituídos que gerará forte instabilidade antes de se formar um novo sistema de alianças minimamente coerente.

A preponderância dos militares
A preponderância dos militares e de elementos das forças de segurança antes do início dos protestos manifestava-se na sua presença à frente de 21 dos 29 governos provinciais e nas direcções de empresas privadas e públicas como a Autoridade do Canal do Suez.

Além de investimentos de empresas controladas por militares na indústria turística e no sector imobiliário, regista-se ainda a presença tentacular do Ministério da Produção Militar que empregando 40 mil civis diversificou a sua produção para áreas da construção civil ou artigos de consumo como televisores ou purificadores de água.

Os militares egípcios, apoiados na ajuda financeira de Washington, reforçada após o acordo de paz com Israel de 1979, apenas por duas vezes no período pós-Nasser tinham tido de intervir em assuntos internos.

Em 1977 os militares foram mobilizados para conter revoltas contra o aumento dos preços do pão e em 1986 aniquilaram uma rebelião da polícia anti-motins.

O afastamento em 1989 de um potencial rival de Mubarak, o marechal Abd Ghazala de ministro da Defesa, selou um pacto em que os militares deixaram de vez a contenção de conflitos internos a cargo das forças do ministério do Interior que aumentaram a sua influência na luta contra o terrorismo islamita e na repressão dos Irmãos Muçulmanos na década de 90.

O recente movimento de protesto teve desde logo como consequência a alteração desta partilha de funções e as forças armadas substituíram-se às forças de segurança evitando confrontos directos com os manifestantes.

A remodelação governamental, com o afastamento do ministro do Interior Habib El Adly, e a promoção do responsável dos serviços de informações general Omar Suleiman a vice-presidente acabou por levar uma junta militar, onde sobressai igualmente o ministro da Defesa, marechal Mohamed Tantawi, à direcção efectiva do estado.

De momento as propostas de reformas apresentadas pelos militares limitam-se a uma revisão das condições de candidatura às eleições presidenciais agendadas para Setembro, uma limitação de dois mandatos para o chefe de estado e promessas de maior liberdade de imprensa.

A convocação de eleições legislativas não é sequer referida tal como o levantamento do estado de emergência em vigor desde o assassinato de Anwar Sadat em Outubro de 1981.

Um reordenamento político
Ao assumirem a liderança política as chefias das forças armadas viram-se obrigadas a afastar as figuras mais relevantes dos meios de negócios que desde 2004 vinham a ter um papel cada vez mais destacado nos círculos governamentais e do partido do regime a começar pelo putativo herdeiro Gamal Mubarak.

As privatizações iniciadas na década de 80 consolidaram o conluio entre os meios de negócios e o regime de Mubarak.

Não por acaso um dos ministros entretanto caídos em desgraça foi precisamente o responsável pela pasta do Comércio e Indústria, Muhamed Rashid, o primeiro empresário a entrar para um executivo de Mubarak em 2004.

Outro alto responsável do Partido Nacional Democrático e presidente da comissão do Plano e Orçamento da Assembleia Nacional Ahmed Ezz, um magnata do sector siderúrgico, foi igualmente afastado, mas os militares têm-se esforçado por reiterar que não ocorrerão alterações fundamentais de política económica.

O modelo económico seguido nas últimas décadas não gerou, no entanto, taxas de crescimento capazes de criar emprego para uma força de trabalho que cresceu 2,7 por cento na última década.

Em consequência o desemprego entre os jovens com menos de 25 anos ronda os 25 %. A expansão do sistema educacional levou a que um em cada sete dos licenciados não tenha emprego e que entre os jovens que concluíram o ensino secundário (42% da mão-de-obra) 80% não encontre colocação.

Apesar do nível de formação ser medíocre pelos padrões internacionais a emigração, sobretudo para os estados petrolíferos do Golfo, era uma saída tradicional para os jovens egípcios.
O risco de agitação que esta emigração representava levou, contudo, os governantes dos petro-estados do Golfo a optarem a partir dos anos 90 por outras fontes de mão-de-obra oriundas do subcontinente indiano e de países do Sudeste da Ásia, como a Indonésia e Filipinas.

Patrimonialismo e contestação
Uma das válvulas de segurança nos equílibrios sociais do Egipto deixou assim de funcionar numa altura em que as recessões dos anos 80 e 90, além da crise financeira do final desta década, obrigavam o estado a reduzir subsídios sociais (que presentemente representam 1/5 do orçamento) e empregos na administração e empresas públicas.

A opção por privatizações foi, por sua vez, incapaz de aumentar os níveis de produtividade para níveis que tornassem a economia egípcia competitiva em termos internacionais.

Acentuaram-se, ainda, as características de patrimonialismo da economia e gerou-se uma cultura de ostentação de riqueza que acabou por agravar o fosso entre os estratos mais ricos, as classes médias urbanas e a grande maioria da população, os 40% de egípcios que subsistem com menos de 2 dólares/dia.

As tensões sociais que se vinham a acumular acabaram por colocar em causa um sistema político autocrático. A transição para um sistema pluralista obriga a uma partilha de poderes com forças políticas, organizações sindicais e profissionais, que irão promover reivindicações incompatíveis com o presente quadro institucional.

Tirando cerca de 30% da população empregue no sector agrícola a maioria dos demais egípcios depende directamente ou indirectamente do Estado.

Uma das pressões que terá de gerir o sistema político serão precisamente as reivindicações para medidas de criação de emprego por parte do estado, tanto mais que o investimento directo estrangeiro (6,76 mil milhões de dólares no ano fiscal que terminou em Junho com 3,6 mil milhões aplicados no sector petrolífero) e as aplicações de capital nacional não terão capacidade de gerar um aumento significativo de postos de trabalho a curto prazo.
A transição política no Egipto será inevitavelmente tumultuosa.

Jornal de Negócios
09 Fevereiro 2011

As pragas do Egipto



Poucas alternativas restam à junta militar que de facto governa actualmente o Egipto além de negociar a demissão de Hosni Mubarak e convocar eleições legislativas e presidenciais até ao final deste ano.
 
 
Um compromisso entre as principais forças da oposição laica e islamita poderá impor Muhamed Al Baradei como alternativa presidencial a eventuais candidatos patrocinados pelo partido governamental.

A dinâmica criada pela contestação a Mubarak irá conduzir, no entanto, a uma forte guinada de sentido conservador islamita e os "Irmãos Muçulmanos" acabarão por se impor como uma das principais forças políticas, senão mesmo como o maior partido, na eventualidade de eleições legislativas.

A força dos irmãos Fundada em 1928 em Ismailia a "Irmandade", cuja ideologia islamita inspirou movimentos similares da Jordânia e Palestina ao Sudão e Argélia, resistiu a todas as vagas de repressão sob Gamal Nasser nos anos 50 e 60.

No universo sunita as teses do irmão muçulmano Sayyid Qutb, enforcado em 1966, advogando a guerra santa contra os poderes instituídos tidos por apóstatas, assumiram um teor ainda mais radical com outros ideólogos apostados na instauração de uma lei islâmica ao arrepio das tradições ortodoxas.

Outro egípcio, Abdel Farag, executado em 1982, definiu a jihad como um dos pilares do Islão e dever do crente que define de modo individual e soberano a própria ideia de submissão à Lei do Profeta, e este complexo ideológico sustentou a primeira grande fase de terrorismo islamita das décadas de 70 e 80.

No Egipto organizações com recrutamento essencialmente urbano, como a "Takfir Wal Hijra" e a "Jihad Islâmica", foram desfeiteadas pela repressão que se seguiu ao assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981, mas a "Gamaat Islamiyya", com forte implantação nas regiões rurais do Alto Egipto ainda se mantém activa ainda que as acções terroristas tenham decaído bastante em relação à década de 90.

O fracasso do panarabismo socialista de Nasser a par de um processo de urbanização acelerada criou um vazio ideológico que, após Sadat assumir a presidência em 1970, o regime procurou colmatar através de uma islamização controlada pelo poder que teve o seu corolário na revisão constitucional que definiu a lei islâmica, "xaaria", como "principal fonte legislativa".

Todos os estudos de opinião revelam presentemente a prevalência de valores islâmicos conservadores e mesmo radicais entre a população do Egipto que vão, aliás, a par de um acentuado enquistamento comunitário entre os discriminados cristãos coptas (cerca de 10 % dos 84 milhões de egípcios).

Alienação e autocracia Os "Irmãos Muçulmanos" ao renunciarem à violência política a partir dos anos 70 e através de várias tentativas de aliança com partidos laicos na década de 80 conseguiram, por sua vez, resistir à repressão, enquanto ampliavam a sua rede assistencial que colmata as deficiências do estado e asseguravam o controlo de algumas das principais associações profissionais do Egipto.
À medida que organizações de esquerda e partidos laicos liberais e nacionalistas cediam terreno e a teia de interesses económicos do "Partido Nacional Democrático" governamental se adensava num conluio entre militares, representantes das forças de segurança e meios de negócios afectos ao regime, agravava-se a alienação política de grande parte da população

As receitas do turismo, dos direitos de passagem no Canal do Suez, da ajuda norte-americana e das remessas dos emigrantes no Golfo Pérsico permitiram nos últimos dois anos manter taxas de crescimento económico na ordem dos 5%, mas, ainda assim insuficientes para
obviar a taxas de desemprego na ordem dos 20%.

Uma população muito jovem (cerca de metade na faixa entre os 17 e os 30 anos), com mais de 40 % dos egípcios concentrados nas cidades, mostrou-se particularmente sensível às recentes altas de preços de produtos essenciais e ao impasse sucessório criado pela autocracia política.

O impasse a que chegaram três décadas de Mubarak ficou patente nas eleições legislativas de Novembro, quando após exclusões de forças da oposição e boicotes, o partido governamental acabou por ficar com 81 % dos mandatos, enquanto o presidente ponderava uma reeleição para Setembro de 2011 ou a possibilidade de garantir a sucessão fazendo eleger o seu filho Gamal.
Entre os escombros da oposição apenas uma força política continuava a dar sinais de força.

Prudência política Os "Irmãos Muçulmanos", que nas legislativas de 2005 tinham obtido o seu melhor resultado eleitoral com 20 % dos sufrágios, apesar de notórias divergências quanto às tácticas a seguir contra o regime, ao elegerem o seu oitavo líder, o professor de medicina veterinária Muhammed Badie, em Janeiro de 2010, apostaram na continuidade de uma política de não-afrontamento directo a Mubarak.

O potencial subversivo das manifestações convocadas por diversos pequenos grupos oposicionistas laicos incentivadas pelo exemplo tunisiano foi subestimado inicialmente pelos Irmãos Muçulmanos, mas rapidamente o movimento se incorporou à contestação evitando, no entanto, assumir uma posição liderante.

As reivindicações mínimas de demissão do presidente e convocação de eleições são partilhadas pelos "Irmãos Muçulmanos".

De momento a Irmandade põe de lado exigências como a criação de um conselho de clérigos com capacidade de supervisão e veto de toda a legislação ou a interdição de candidaturas presidenciais de mulheres ou não-muçulmanos que ao serem estatuídas em documentos políticos em 2007 geraram forte polémica no seio do movimento.

Uma guinada Islamita
É uma incógnita saber se a "Irmandade" manterá a sua coesão, evoluindo para uma estratégia de conquista eleitoral do poder legislativo à imagem dos islamitas turcos do "Partido Justiça e Desenvolvimento", ou se predominarão tendências mais radicais.

O conservadorismo da sociedade egípcia, com um terço de analfabetos e quase 20% da população subsistindo na pobreza, em que, apesar do acordo de paz firmado com Israel em 1979, subsiste um virulento anti-judaísmo e ódio ao estado vizinho judeu, não augura uma transição política assente em valores de pluralismo, equidade ante a lei, separação de poderes e tolerância religiosa.

Os "Irmãos Muçulmanos" serão um dos actores fundamentais num processo político que procurará desmantelar as estruturas de poder herdadas da revolução dos "Oficiais Livres" de 1952 e uma forte guinada de teor islamita será, com toda a probabilidade, uma das tendências mais fortes dos próximos tempos no Egipto.




Jornal de Negócios
02 Fevereiro 2011

Guerra sem quartel na Líbia



    Desvaneceu-se aos primeiros ataques a convergência momentânea que possibilitou a cobertura legal da ONU para a intervenção na Líbia.  
   
   Vladimir Putin expressou em linguagem inflamada a condenação da ofensiva aérea comparando-a a uma cruzada, mas acabou por ser contraditado pelo presidente Dmitri Medvedev que classificou como insustentável a tirada do primeiro-ministro.

    À ambiguidade de Moscovo, crítica da alegada desproporcionalidade da ofensiva aérea, juntaram-se as reservas de Nova Delhi e de Pequim com apelos a um cessar-fogo e ao termo dos bombardeamentos.

   A União Africana expressou a sua oposição aos ataques e imediatamente surgiram reticências da Liga Árabe temerosa de se ver associada a uma intervenção liderada por potências militares ocidentais.

   Com a excepção do Qatar os demais estados árabes rejeitaram participar em operações ofensivas contra a Líbia e à medida que surgirem as primeiras baixas civis confirmadas é de esperar um maior distanciamento por parte da Liga Árabe.

   A vizinha Argélia critica o carácter não proporcional dos bombardeamentos que pretende ver suspensos e tal como a Tunísia e o Egipto teme os efeitos destabilizadores de uma guerra civil prolongada na Líbia.

                                        Cacafonia aliada

   Divergências políticas entre os membros da coligação militar impediram até agora os Estados Unidos de passarem o comando e coordenação das operações à NATO, um objectivo que se confronta, aliás, com objecções por parte da Turquia.

   A liderança e coordenação das operações de imposição de uma zona de exclusão aérea e do bloqueio naval -- cuja duração é impossível de estimar - continua em aberto, sendo possível que o comando tenha de vir a ficar fora da alçada da NATO.

   Declarações dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros de Londres admitindo atacar directamente o líder líbio levaram, por sua vez, os comandos militares britânicos e Washington a rejeitarem expressamente a eliminação física de Gadaffi e uma mudança de regime como objectivos da ofensiva aérea.

   A França continua, entretanto, isolada no reconhecimento diplomático da junta de Benghazi, que a União Europeia se limita a aceitar como um interlocutor político, e a chefe da diplomacia espanhola deu a conhecer as suas reservas quanto à liderança e objectivos das forças rebeldes.

   Trinidad Jiménez revelou domingo, um dia depois do começo dos bombardeamentos, ter tido um encontro sigiloso no Cairo a 12 de Março com representantes do Conselho Nacional de Transição Líbio (CNTL) em que recusou fornecimentos de armas aos rebeldes e manifestou dúvidas quanto ao real apoio popular às forças anti-Gadaffi fora da região da Cirenaica, tradicionalmente hostil ao regime de Tripoli.

                                     Uma entidade dúbia

   A apreensão quanto ao CNTL é justificada devido à forte presença de radicais islamitas no leste da Líbia e pelo cunho heteróclito da coligação anti-Gadaffi que agrega líderes tribais em ruptura com o coronel e dissidentes governamentais de última hora como o ex-ministro da Justiça, Mustafa Jalil.

   Alguns lotes de armamento ligeiro chegaram a Benghazi através do Egipto, mas a concessão de apoio militar aos rebeldes viola os termos da resolução do Conselho de Segurança.

   A resolução 1973 visa expressamente o estabelecimento imediato de um cessar-fogo, o fim da violência, de todos os ataques a civis e abusos contra não-combatentes.

   Ao abrigo das sanções em vigor será igualmente problemático processar pagamentos à companhia de petróleo que o CNTL anunciou ter criado esta semana em Bengazhi.

   A extracção de petróleo está praticamente paralisada e eventuais receitas que o CNTL venha a obter terão de ser alocadas a finalidades não-militares.

   A intervenção militar, ao abrigo da autorização para adoptar todas as medidas necessárias de forma a proteger civis ou áreas povoadas por civis sob ameaça de ataque, susteve a ofensiva de Gadaffi na Cirenaica, mas sem intervenção de forças terrestres não conseguirá alterar a actual relação de forças.

   Os embargos de armas, as sanções comerciais e financeiras acentuam o isolamento de Gadaffi, mas disponibilidades não quantificadas em dinheiro vivo além da posse de 143,8 toneladas de reservas de ouro, segundo dados do FMI, permitem sustentar uma guerra prolongada.

   As reservas de ouro, no valor de 6,5 mil milhões de dólares a preços correntes, são um dos recursos mais facilmente transaccionáveis através do Chade e do Níger para aliviar os embargos e sanções.

                                       Guerra tribal

   O evoluir da revolta desde o seu início em meados de Fevereiro evidenciou igualmente o carácter visceralmente tribal dos alinhamentos políticos na Líbia.

   Gadaffi continua a manter forte apoio entre alguns clãs da tribo Warfalla, os Hassoni alinham decididamente ao lado do coronel, bem como a Gadaffa e a Magariha (que partilhavam as chefias militares), enquanto no sul tuaregues e demais tribos de fidelidades incertas dominam os desertos.

   A eliminação de Gadaffi através de um golpe palaciano ou por recurso ao assassínio poderia abrir caminho para conversações que conduzissem a um cessar-fogo, mas até essa possibilidade é duvidosa.

   O extermínio do inimigo surge como o objectivo declarado das facções em confronto e a perspectiva de uma guerra civil prolongada é a hipótese mais séria.

   Aumenta o risco das principais potências militares ocidentais acabarem por ter de assumir todos os custos da intervenção sem que seja claro o que venha a suceder no terreno.

Jornal de Negócios