Poucas alternativas restam à junta militar que de facto governa actualmente o Egipto além de negociar a demissão de Hosni Mubarak e convocar eleições legislativas e presidenciais até ao final deste ano.
Um compromisso entre as principais forças da oposição laica e islamita poderá impor Muhamed Al Baradei como alternativa presidencial a eventuais candidatos patrocinados pelo partido governamental.
A dinâmica criada pela contestação a Mubarak irá conduzir, no entanto, a uma forte guinada de sentido conservador islamita e os "Irmãos Muçulmanos" acabarão por se impor como uma das principais forças políticas, senão mesmo como o maior partido, na eventualidade de eleições legislativas.
A força dos irmãos Fundada em 1928 em Ismailia a "Irmandade", cuja ideologia islamita inspirou movimentos similares da Jordânia e Palestina ao Sudão e Argélia, resistiu a todas as vagas de repressão sob Gamal Nasser nos anos 50 e 60.
No universo sunita as teses do irmão muçulmano Sayyid Qutb, enforcado em 1966, advogando a guerra santa contra os poderes instituídos tidos por apóstatas, assumiram um teor ainda mais radical com outros ideólogos apostados na instauração de uma lei islâmica ao arrepio das tradições ortodoxas.
Outro egípcio, Abdel Farag, executado em 1982, definiu a jihad como um dos pilares do Islão e dever do crente que define de modo individual e soberano a própria ideia de submissão à Lei do Profeta, e este complexo ideológico sustentou a primeira grande fase de terrorismo islamita das décadas de 70 e 80.
No Egipto organizações com recrutamento essencialmente urbano, como a "Takfir Wal Hijra" e a "Jihad Islâmica", foram desfeiteadas pela repressão que se seguiu ao assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981, mas a "Gamaat Islamiyya", com forte implantação nas regiões rurais do Alto Egipto ainda se mantém activa ainda que as acções terroristas tenham decaído bastante em relação à década de 90.
O fracasso do panarabismo socialista de Nasser a par de um processo de urbanização acelerada criou um vazio ideológico que, após Sadat assumir a presidência em 1970, o regime procurou colmatar através de uma islamização controlada pelo poder que teve o seu corolário na revisão constitucional que definiu a lei islâmica, "xaaria", como "principal fonte legislativa".
Todos os estudos de opinião revelam presentemente a prevalência de valores islâmicos conservadores e mesmo radicais entre a população do Egipto que vão, aliás, a par de um acentuado enquistamento comunitário entre os discriminados cristãos coptas (cerca de 10 % dos 84 milhões de egípcios).
Alienação e autocracia Os "Irmãos Muçulmanos" ao renunciarem à violência política a partir dos anos 70 e através de várias tentativas de aliança com partidos laicos na década de 80 conseguiram, por sua vez, resistir à repressão, enquanto ampliavam a sua rede assistencial que colmata as deficiências do estado e asseguravam o controlo de algumas das principais associações profissionais do Egipto.
À medida que organizações de esquerda e partidos laicos liberais e nacionalistas cediam terreno e a teia de interesses económicos do "Partido Nacional Democrático" governamental se adensava num conluio entre militares, representantes das forças de segurança e meios de negócios afectos ao regime, agravava-se a alienação política de grande parte da população
As receitas do turismo, dos direitos de passagem no Canal do Suez, da ajuda norte-americana e das remessas dos emigrantes no Golfo Pérsico permitiram nos últimos dois anos manter taxas de crescimento económico na ordem dos 5%, mas, ainda assim insuficientes para
obviar a taxas de desemprego na ordem dos 20%.
Uma população muito jovem (cerca de metade na faixa entre os 17 e os 30 anos), com mais de 40 % dos egípcios concentrados nas cidades, mostrou-se particularmente sensível às recentes altas de preços de produtos essenciais e ao impasse sucessório criado pela autocracia política.
O impasse a que chegaram três décadas de Mubarak ficou patente nas eleições legislativas de Novembro, quando após exclusões de forças da oposição e boicotes, o partido governamental acabou por ficar com 81 % dos mandatos, enquanto o presidente ponderava uma reeleição para Setembro de 2011 ou a possibilidade de garantir a sucessão fazendo eleger o seu filho Gamal.
Entre os escombros da oposição apenas uma força política continuava a dar sinais de força.
Prudência política Os "Irmãos Muçulmanos", que nas legislativas de 2005 tinham obtido o seu melhor resultado eleitoral com 20 % dos sufrágios, apesar de notórias divergências quanto às tácticas a seguir contra o regime, ao elegerem o seu oitavo líder, o professor de medicina veterinária Muhammed Badie, em Janeiro de 2010, apostaram na continuidade de uma política de não-afrontamento directo a Mubarak.
O potencial subversivo das manifestações convocadas por diversos pequenos grupos oposicionistas laicos incentivadas pelo exemplo tunisiano foi subestimado inicialmente pelos Irmãos Muçulmanos, mas rapidamente o movimento se incorporou à contestação evitando, no entanto, assumir uma posição liderante.
As reivindicações mínimas de demissão do presidente e convocação de eleições são partilhadas pelos "Irmãos Muçulmanos".
De momento a Irmandade põe de lado exigências como a criação de um conselho de clérigos com capacidade de supervisão e veto de toda a legislação ou a interdição de candidaturas presidenciais de mulheres ou não-muçulmanos que ao serem estatuídas em documentos políticos em 2007 geraram forte polémica no seio do movimento.
Uma guinada Islamita
É uma incógnita saber se a "Irmandade" manterá a sua coesão, evoluindo para uma estratégia de conquista eleitoral do poder legislativo à imagem dos islamitas turcos do "Partido Justiça e Desenvolvimento", ou se predominarão tendências mais radicais.
O conservadorismo da sociedade egípcia, com um terço de analfabetos e quase 20% da população subsistindo na pobreza, em que, apesar do acordo de paz firmado com Israel em 1979, subsiste um virulento anti-judaísmo e ódio ao estado vizinho judeu, não augura uma transição política assente em valores de pluralismo, equidade ante a lei, separação de poderes e tolerância religiosa.
Os "Irmãos Muçulmanos" serão um dos actores fundamentais num processo político que procurará desmantelar as estruturas de poder herdadas da revolução dos "Oficiais Livres" de 1952 e uma forte guinada de teor islamita será, com toda a probabilidade, uma das tendências mais fortes dos próximos tempos no Egipto.
A dinâmica criada pela contestação a Mubarak irá conduzir, no entanto, a uma forte guinada de sentido conservador islamita e os "Irmãos Muçulmanos" acabarão por se impor como uma das principais forças políticas, senão mesmo como o maior partido, na eventualidade de eleições legislativas.
A força dos irmãos Fundada em 1928 em Ismailia a "Irmandade", cuja ideologia islamita inspirou movimentos similares da Jordânia e Palestina ao Sudão e Argélia, resistiu a todas as vagas de repressão sob Gamal Nasser nos anos 50 e 60.
No universo sunita as teses do irmão muçulmano Sayyid Qutb, enforcado em 1966, advogando a guerra santa contra os poderes instituídos tidos por apóstatas, assumiram um teor ainda mais radical com outros ideólogos apostados na instauração de uma lei islâmica ao arrepio das tradições ortodoxas.
Outro egípcio, Abdel Farag, executado em 1982, definiu a jihad como um dos pilares do Islão e dever do crente que define de modo individual e soberano a própria ideia de submissão à Lei do Profeta, e este complexo ideológico sustentou a primeira grande fase de terrorismo islamita das décadas de 70 e 80.
No Egipto organizações com recrutamento essencialmente urbano, como a "Takfir Wal Hijra" e a "Jihad Islâmica", foram desfeiteadas pela repressão que se seguiu ao assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981, mas a "Gamaat Islamiyya", com forte implantação nas regiões rurais do Alto Egipto ainda se mantém activa ainda que as acções terroristas tenham decaído bastante em relação à década de 90.
O fracasso do panarabismo socialista de Nasser a par de um processo de urbanização acelerada criou um vazio ideológico que, após Sadat assumir a presidência em 1970, o regime procurou colmatar através de uma islamização controlada pelo poder que teve o seu corolário na revisão constitucional que definiu a lei islâmica, "xaaria", como "principal fonte legislativa".
Todos os estudos de opinião revelam presentemente a prevalência de valores islâmicos conservadores e mesmo radicais entre a população do Egipto que vão, aliás, a par de um acentuado enquistamento comunitário entre os discriminados cristãos coptas (cerca de 10 % dos 84 milhões de egípcios).
Alienação e autocracia Os "Irmãos Muçulmanos" ao renunciarem à violência política a partir dos anos 70 e através de várias tentativas de aliança com partidos laicos na década de 80 conseguiram, por sua vez, resistir à repressão, enquanto ampliavam a sua rede assistencial que colmata as deficiências do estado e asseguravam o controlo de algumas das principais associações profissionais do Egipto.
À medida que organizações de esquerda e partidos laicos liberais e nacionalistas cediam terreno e a teia de interesses económicos do "Partido Nacional Democrático" governamental se adensava num conluio entre militares, representantes das forças de segurança e meios de negócios afectos ao regime, agravava-se a alienação política de grande parte da população
As receitas do turismo, dos direitos de passagem no Canal do Suez, da ajuda norte-americana e das remessas dos emigrantes no Golfo Pérsico permitiram nos últimos dois anos manter taxas de crescimento económico na ordem dos 5%, mas, ainda assim insuficientes para
obviar a taxas de desemprego na ordem dos 20%.
Uma população muito jovem (cerca de metade na faixa entre os 17 e os 30 anos), com mais de 40 % dos egípcios concentrados nas cidades, mostrou-se particularmente sensível às recentes altas de preços de produtos essenciais e ao impasse sucessório criado pela autocracia política.
O impasse a que chegaram três décadas de Mubarak ficou patente nas eleições legislativas de Novembro, quando após exclusões de forças da oposição e boicotes, o partido governamental acabou por ficar com 81 % dos mandatos, enquanto o presidente ponderava uma reeleição para Setembro de 2011 ou a possibilidade de garantir a sucessão fazendo eleger o seu filho Gamal.
Entre os escombros da oposição apenas uma força política continuava a dar sinais de força.
Prudência política Os "Irmãos Muçulmanos", que nas legislativas de 2005 tinham obtido o seu melhor resultado eleitoral com 20 % dos sufrágios, apesar de notórias divergências quanto às tácticas a seguir contra o regime, ao elegerem o seu oitavo líder, o professor de medicina veterinária Muhammed Badie, em Janeiro de 2010, apostaram na continuidade de uma política de não-afrontamento directo a Mubarak.
O potencial subversivo das manifestações convocadas por diversos pequenos grupos oposicionistas laicos incentivadas pelo exemplo tunisiano foi subestimado inicialmente pelos Irmãos Muçulmanos, mas rapidamente o movimento se incorporou à contestação evitando, no entanto, assumir uma posição liderante.
As reivindicações mínimas de demissão do presidente e convocação de eleições são partilhadas pelos "Irmãos Muçulmanos".
De momento a Irmandade põe de lado exigências como a criação de um conselho de clérigos com capacidade de supervisão e veto de toda a legislação ou a interdição de candidaturas presidenciais de mulheres ou não-muçulmanos que ao serem estatuídas em documentos políticos em 2007 geraram forte polémica no seio do movimento.
Uma guinada Islamita
É uma incógnita saber se a "Irmandade" manterá a sua coesão, evoluindo para uma estratégia de conquista eleitoral do poder legislativo à imagem dos islamitas turcos do "Partido Justiça e Desenvolvimento", ou se predominarão tendências mais radicais.
O conservadorismo da sociedade egípcia, com um terço de analfabetos e quase 20% da população subsistindo na pobreza, em que, apesar do acordo de paz firmado com Israel em 1979, subsiste um virulento anti-judaísmo e ódio ao estado vizinho judeu, não augura uma transição política assente em valores de pluralismo, equidade ante a lei, separação de poderes e tolerância religiosa.
Os "Irmãos Muçulmanos" serão um dos actores fundamentais num processo político que procurará desmantelar as estruturas de poder herdadas da revolução dos "Oficiais Livres" de 1952 e uma forte guinada de teor islamita será, com toda a probabilidade, uma das tendências mais fortes dos próximos tempos no Egipto.
Jornal de Negócios
02 Fevereiro 2011
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