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domingo, 2 de setembro de 2012

De repente, lá longe, enquanto a Europa dormia...





   O Irão colocou em xeque europeus, russos e chineses ao assinar um acordo para aumentar as suas compras de gás natural ao Turquemenistão e ao fornecer assistência para a exploração de jazidas na Ásia Central.

   O acordo, anunciado durante uma visita do presidente Gurbanguly Berdymukhamedov a Teerão no último fim-de-semana, contempla o fornecimento de 10 mil milhões de metros cúbicos de gás ao Irão, elevando para 18 mil milhões de metros cúbicos as compras anuais iranianas.

   O preço de compra não foi divulgado, mas deverá rondar os 340 dólares por mil metros cúbicos - ao nível dos contratos feitos entre a Rússia e os clientes europeus - aceites no ano passado pela Gazprom russa para aquisições ao Turquemenistão e ao Cazaquistão.

   Teerão irá igualmente participar na exploração das jazidas de Yolotan-Osman Sul no leste do Turquemenistão e, neste particular, a relevância do acordo é ainda maior.


O ascendente do Turquemenistão
   Os resultados da primeira prospecção desta jazida por uma consultora ocidental, a britânica Gaffney Cline & Associates Ltd., foram divulgados em Outubro e indiciam a existência de reservas de 6 triliões de metros cúbicos (considerando mínimos de 4 triliões a máximos de 14 triliões de metros cúbicos), o equivalente às reservas provadas dos Estados Unidos, as sextas maiores do mundo.

   O Turquemenistão ascenderá, assim, ao topo da lista de produtores, tornando-se na quarta maior potência do gás natural, numa altura em que os contratos celebrados para vendas à Rússia, China e Irão absorvem 150 mil milhões de metros cúbicos da sua produção.

   O Irão, que possui as terceiras maiores reservas provadas a seguir à Rússia e praticamente a par do Qatar, importa directamente gás de Ashgabat desde a abertura em 1997 do gasoduto Korpezhe - Kurt Kui.

   Devido às necessidades de consumo interno e às dificuldades em financiar a exploração das jazidas de Pars Sul, no Golfo Pérsico, as maiores do mundo, estimadas em cerca de 33 triliões de metros cúbicos e partilhadas com o Qatar, a capacidade de exportação do Irão é limitada.
   Teerão ganha neste contrato com Ashgabat mais argumentos para fazer valer o projecto de exploração de Pars e a sua possível rota de fornecimentos à Europa, via Golfo Pérsico, através da Turquia.


O trunfo do Irão
   O Irão conseguiu, ainda, limitar a importância dos gasodutos Turquemenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia, e, sobretudo, condiciona a viabilidade do adiado projecto Nabucco (via Turquia e assente, essencialmente, em fornecimentos do Azerbeijão e Turquemenistão), além de pôr em causa o gasoduto de inspiração russa South Stream no Mar Negro.

   O ganhador absoluto no xadrez do gás natural é o Turquemenistão (72,3 mil milhões de metros cúbicos produzidos em 2007), que se torna num fornecedor incontornável capaz de prover o cliente chinês e as insuficiências de produção da Rússia e do Irão.

   Para a União Europeia, dependente da Rússia em 40% das suas importações de gás natural, e para os Estados Unidos, outro mentor do projecto Nabucco, a importância acrescida do Turquemenistão e do seu parceiro iraniano representa um dilema considerável.

   A aprovação do Acordo Interino de Comércio com Ashgabat, bloqueado desde 2006 pelo Parlamento Europeu devido a violações de direitos humanos, tornou-se uma questão urgente para a União Europeia, que, conforme defende a Comissão em Bruxelas, terá de reforçar os contactos com o Turquemenistão para diversificar as suas fontes de abastecimento energético.
   Para portugueses e espanhóis, a argumentação em prol de uma base europeia de depósitos de gás natural liquefeito ganha mais pontos, mas de pouco vale num contexto global em que os principais trunfos moram na Ásia Central. Enquanto a Europa dormia, a geopolítica deu uma reviravolta.

Jornal de Negócios
25 Fevereiro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=355972

A Rússia apresenta a conta a Obama


   A administração Obama definiu um entendimento com a Rússia como a primeira das reorientações estratégicas viáveis, mas ainda não apurou devidamente os custos das concessões que terá de fazer a Moscovo.

   O primeiro objectivo russo, partilhado por todas as tendências políticas em Moscovo, é pôr termo ao alargamento da NATO a Leste e reduzir a presença norte-americana na Ásia Central.

   A decisão da NATO de retomar os contactos com Moscovo, suspensos desde 19 de Agosto, foi feita à custa de ignorar a exigência expressa pública e formalmente de que russos e georgianos teriam de retirar para as posições que ocupavam antes do eclodir da guerra.

                            Preponderância russa no Cáucaso

  Moscovo mantém a sua presença militar na Abkázia e na Ossétia do Sul, mas os Estados Unidos convenceram os aliados mais renitentes, caso dos estados bálticos, da República Checa e da Polónia, a aceitarem sem contrapartidas a reactivação do Conselho Rússia-NATO.

   A promessa de uma futura adesão da Geórgia à NATO mantém-se em agenda, mas basta constatar que os aliados não forneceram até agora o apoio prometido a Tiblissi para a reconstrução de infra-estruturas civis e muito menos ajuda militar para concluir que, de facto, a entrada georgiana na aliança foi posta de lado.

   Uma eventual adesão da Geórgia foi sempre contestada devido aos contenciosos fronteiriços entre Tiblissi e Moscovo. O aventureirismo do presidente Mikhail Saakashvili persuadiu a maioria dos membros da NATO de que os riscos não compensavam o apoio ao radicalismo georgiano.

   No caso da Ucrânia a instabilidade política e ausência de consenso interno sobre a adesão à NATO justificavam, por sua vez, todas as objecções a uma expansão da aliança a Leste, aliás sem fito estratégico visível.

   Moscovo conseguiu, assim, o primeiro dos seus desideratos e a questão da instalação de sistemas de radar e anti-mísseis norte-americanos na República Checa e na Polónia, de dúbia utilidade, tornou-se uma questão secundária que serve apenas a Moscovo para negociar concessões no quadro da sua inviável proposta de segurança pan-europeia.

                                 Desunião europeia, ganho russo

    Sobra a Iniciativa de Parceria a Leste da União Europeia, envolvendo a Ucrânia, Moldova, Geórgia, Arménia, Azerbeijão e, eventualmente, a Bielorrússia, que almeja oferecer, em prazo indefinido, termos comerciais favoráveis, isenção de vistos e cooperação energética a estes estados que não reúnem condições nem económicas, nem políticas para negociarem a entrada no bloco europeu.

   A inexistência de uma estratégia comum dos 27 em matéria energética dificulta, ainda mais, a concretização de projectos que estimulem as economias dos estados incluídos na Parceira a emanciparem-se da área de influência da Rússia.

   A Alemanha vetou a concessão de financiamentos da União Europeia para o gasoduto Nabucco, apesar da Comissão considerá-lo de interesse estratégico para diversificar os fornecimentos através do acesso ao Mar Cáspio, e a concorrência entre os gasodutos Nord Stream, no Báltico e de interesse especial para Berlim, e South Stream no Mar Negro, com patrocínio russo e da Itália, garantem a Moscovo o domínio incontestado nos abastecimentos.

    O comportamento errático dos políticos ucranianos confirma, por seu turno, os limites de cooperação com estados que alimentam contenciosos potencialmente explosivos com a Rússia.

   Moscovo conseguiu, com o beneplácito de Washington, ver reconhecida na prática a sua área de influência no Leste europeu e no Cáucaso, vê travada a expansão da NATO e confirma a preponderância nas importações europeias de gás natural.


                            Trunfos fortes na Ásia Central

   Na Ásia Central, o Kremlin, depois de levar o Quirguistão a negar a utilização da base aérea de Manas pelos Estados Unidos e os seus aliados, ofereceu os bons serviços da rede ferroviária russa para canalizar, via Cazaquistão, abastecimentos da NATO enviados da Letónia para as forças no Afeganistão.

   O próximo passo russo é fazer valer a sua influência no Tadjiquistão onde a base aérea indiana de Farkhor, a única estrutura militar que Nova Deli tem no estrangeiro, ganhou importância acrescida para o esforço de guerra no Afeganistão, e facilitar as negociações entre Dushambé e Washington para o trânsito de material não letal destinado à NATO.

   Apesar de a Rússia ter de contrabalançar os seus interesses na Ásia Central com os da China e da Índia, a crescente crise do Paquistão obriga os Estados Unidos a procurar alternativas e apoios na região e Moscovo passa a contar com mais trunfos negociais.

   A tentativa de Obama de ganhar o apoio de Teerão para o esforço de guerra no Afeganistão, a troco da participação directa dos Estados Unidos nas negociações sobre o dossiê nuclear iraniano, passa também por Moscovo.

   A Rússia, tal como o Irão, nada tem a ganhar com uma derrota da NATO no Afeganistão, mas ver os Estados Unidos em apuros numa guerra sem saída é um magnífico cenário negocial.

   A administração Obama solicitou ao Kremlin que suspendesse o contrato com Teerão para envio de mísseis anti-aéreos de longo alcance S-300, depois de há dois anos ter fornecido mísseis anti-aéreos Tor-M1 de curto alcance, mas a Rússia parece ter concluído que, salvo um impraticável ataque militar norte-americano, o programa nuclear militar iraniano é irreversível.

   A cooperação russo-iraniana no nuclear civil, patente na central de Busher, fornece, aliás, a Moscovo argumentos para o seu plano de desnuclearização militar do Médio Oriente que servirá para conter a proliferação após a mais que provável conclusão com êxito do projecto armamentista de Teerão.

   A Rússia defende a cooperação internacional em programas nucleares civis através do fornecimento de urânio não enriquecido a países que o requeiram para fins pacíficos sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica.

   O acordo nuclear entre os Estados Unidos e a Índia, apesar de Nova Deli não ter assinado os Tratados de Interdição de Testes Nucleares e de Não-Proliferação, retirou boa parte dos argumentos de Washington para se opor às iniciativas da Rússia.

                           Concessões nos armamentos estratégicos
 
   Os Estados Unidos e a Rússia estão em consonância para a assinatura de um novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas que substitua o acordo de 1991, que expira em Dezembro, mas Moscovo tem duas exigências que Washington terá de acomodar.

   O Kremlin pretende que o novo acordo não se limite à redução das ogivas nucleares, mas contemple, também, meios de transporte, designadamente mísseis intercontinentais balísticos, além de propor a interdição de estacionamento de armas ofensivas estratégicas fora dos territórios nacionais da Rússia e dos Estados Unidos.

   Para Washington mais concessões estão na calha quanto à exigência russa de limitar ou suspender o desenvolvimento unilateral de sistemas de mísseis anti-balísticos e face à proposta conjunta de Moscovo e Pequim para limitar ou interditar a utilização de armas espaciais.

  Obama vai pagar uma pesada factura para relançar as relações com a Rússia.

Jornal de Negócios
11 Março 2009

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domingo, 19 de agosto de 2012

O alento de Cavaco Silva à Turquia



Ancara, 12 Maio 2009


   Cumpre bem o seu papel Cavaco Silva ao alentar as esperanças da Turquia na adesão à União Europeia, mas as negociações entre Ancara e Bruxelas vão arrastar-se muito mais do que os sete anos que Portugal precisou para entrar na CEE e não existe qualquer garantia de que venham a ser bem sucedidas.

   As conversações encetadas em Outubro de 2005 não culminarão num acordo em 2013, conforme pretendera inicialmente o primeiro-ministo Recep Erdogan, e a persistente oposição na França, na Alemanha, na Áustria e na Grécia à entrada da Turquia compromete a eventual adesão turca que, em último recurso, poderá ser vetada por qualquer destes Estados.

   Apenas um dos 35 capítulos do processo formal de negociações foi concluído ("Ciência e Pesquisa"), outros oito entretanto abertos estão congelados e até a discussão do dossiê "energia" está em causa devido ao veto do Chipre.

                                  Um estendal de bloqueios

   Na ilha dividida desde 1974, a eleição do presidente Demetris Christofias deu a partir do ano passado novo ímpeto às negociações com o seu homólogo turco Mehmet Ali Talat para criação de um Estado federal, mas os resultados foram nulos até agora.

   A vitória de nacionalistas de direita nas eleições legislativas do mês passado no norte de Chipre, seguida da decisão do Tribunal Europeu de Justiça que obriga a União Europeia a reconhecer os direitos de cipriotas gregos sobre propriedades em disputa na zona turca, paralisou as negociações.

   O impasse em Chipre voltou ao ponto em que se encontrava quando o acordo de reunificação proposto pela ONU foi rejeitado em 2004 pelos cipriotas gregos.

   Os cipriotas turcos continuam a interditar o tráfego de navios e aviões cipriotas gregos, enquanto Ancara rejeita o estatuto de Chipre como estado membro da União Europeia e continua a ser o único país a reconhecer a República Turca do Norte de Chipre.

   As reformas promovidas pelo governo turco nas áreas dos direitos humanos, estatuto das mulheres e da minoria curda são ainda insuficientes para satisfazer os critérios da União Europeia e persiste a tensão entre os militares, Erdogan e o presidente Abdullah Gul, eleito em 2007 pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento.

    Em Julho do ano passado a interdição do Partido da Justiça e do Desenvolvimento - no poder desde Março de 2003 - por alegado crime de subversão do estatuto laico do Estado, chumbou no Tribunal Constitucional pela diferença de apenas um voto (seis dos onze juízes votaram pela dissolução, aquém, portanto, da maioria necessária de sete votos) tendo sido assim evitada "in extremis" uma crise institucional.

   O processo aberto em Outubro de 2008 contra a rede militar clandestina ultra-nacionalista Ergenekon, acusada de terrorismo e conspiração, continua, por sua vez, a inquinar as relações entre as forças armadas e os islamitas.

                                      Um desenvolvimento positivo

   Além da progressiva normalização das relações com a Grécia, a perspectiva do estabelecimento de relações diplomáticas entre a Turquia e a Arménia, apesar das reticências do Arzebeijão que teme perder o apoio de Ancara para recuperar os territórios perdidos para Erevan na guerra de 1991-1994, é o desenvolvimento mais prometedor para sustentar as aspirações turcas a uma integração europeia.

   O desanuviamento entre turcos e arménios contribuiu para que a Turquia, bem como o Arzebeijão e a Geórgia, acedesse na semana passada a participar no gasoduto Nabucco, mas Ancara, apesar de ter desistido das exigências de um desconto de 15 % na compra do gás que passe pelo seu território, faz depender a efectiva participação no projecto da abertura a curto prazo do dossiê energético nas negociações com Bruxelas.

   A viabilidade do gasoduto de 3 300 quilómetros para transporte de gás do Cáspio via Turquia, Bulgária, Roménia e Hungria para a Áustria, orçado em cerca de oito mil milhões de euros, depende ainda da garantia de acesso a fornecimentos do Turquemenistão - além das vendas em menor escala do Cazaquistão e Uzbequistão - e eventuais complicações políticas em Ancara ou no Cáucaso podem adiar o início dos trabalhos de construção previsto para 2011.

  A Turquia adquire 63 % do gás natural que consome à Rússia e tal como a União Europeia, dependente de Moscovo para 40 % das importações, tem particular interesse na concretização do Nabucco o que limita a sua capacidade negocial frente a Bruxelas.

                                    Um apoio bem necessário

   O apoio de Portugal às aspirações europeias da Turquia, reiterado por Cavaco Silva, é deveras importante porque vai ao arrepio dos temores religiosos e demográficos de alemães ou franceses e sublinha a importância estratégica turca no Médio Oriente e no Mar Negro.

   O alento que o presidente leva à Turquia assume, ainda, grande significado conjuntural dado que em Dezembro a União Europeia terá de fazer o ponto da situação nas negociações com Ancara que estão, para efeito práticos, bloqueadas.

   Será um alento bem necessário, mas, de facto, a eventual adesão turca dificilmente se concretizará mesmo no final da próxima década e serão necessárias grandes mudanças no xadrez internacional para ultrapassar a obstinada oposição de alemães, franceses, austríacos e gregos à integração de um Estado que de imediato se tornaria no maior país da União.


Jornal de Negócios
13 Maio 2009

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