Mostrar mensagens com a etiqueta Al Qaeda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Al Qaeda. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

007 por controlo remoto





   Uma arrepiante carência de controlos institucionais caracteriza a condução de operações militares anti-terroristas nos Estados Unidos, conforme ficou patente na audiência no Senado para confirmação do novo director da CIA John Brennan.

   Obama expandiu o programa de ataques com Veículos Aéreos Não-Tripulados (VANT) lançado pela administração Bush, deixando à discrição dos comandos militares e da CIA o assassínio de suspeitos terroristas no estrangeiro na condição de minizarem o mais possível danos colaterais.

   O parecer de justificação legal da Casa Branca do “assassínio selectivo” em Setembro de 2011 de Anwar Al Awlaki, nascido no Novo México e um dos principais operacionais da Al Qaeda no Iémen, alarga desmesuradamente as condições em que pode ser dada “ordem para matar”.

   Mesmo no caso de cidadãos norte-americanos a eliminação física de “líderes operacionais” da Al Qaeda ou organizações associadas só é constrangida pelo tradicional imperativo da proporcionalidade na guerra, ou seja, pela obrigação de restringir ao máximo o número de vítimas civis tidas por inocentes.

   O “assassínio selectivo” com recurso a VANT justifica-se, segundo o parecer do Departamento de Justiça de Washington divulgado este mês, por os alegados terroristas constituirem um permanente perigo iminente dada a sua incessante actividade conspiratória.

   A “não-viabilidade” de captura dos suspeitos -- por dificuldades operacionais, diplomáticas ou outras razões não-especificadas – é definida igualmente por “funcionários de alto nível devidamente informados”.

   Nestas condições haverá luz verde para a pronta eliminação de terroristas.

   Além da lista de pessoas a abater autorizada pelo presidente, todos os suspeitos de associação ideológica ou operacional, pontual ou sistemática, a organizações terroristas anti-norte-americanas podem vir a ser considerados para “assassínio selectivo”.

   As Comissões do Congresso com poderes para supervisionar as forças armadas e os serviços de informação deram a maior liberdade de acção aos responsáveis por acções anti-terroristas no estrangeiro que a opinião pública aprova por larga maioria, apesar da oposição aumentar no caso de se tratar de cidadãos norte-americanos.

   A mortandade entre as populações civis provocada pela utilização letal de VANT é subavaliada pelos responsáveis militares e da CIA que consideram terroristas, até prova em contrário, todos os homens em idade combatente que se encontrem em contacto com suspeitos sob mira ou na área restrita alvo de ataque.

   A New America Foundation contabilizou 350 ataques no Paquistão entre 2004 e a primeira semana deste mês que teriam provocado 1 956 a 2 649 mortes. As vítimas civis neste balanço representariam18% a 23%.

  Uma investigação de The Bureau of Investigative Journalism, referenciado pelo projecto Living Under Drones das Faculdades de Direito de Stanford e Nova Iorque, estima, por sua vez, o número de mortes no Paquistão de Junho 2004 a meados de Setembro do ano passado entre 2 562 a 3 325. Os dados disponíveis ao público apontam para 474 a 881 mortes de civis.

  No caso do Paquistão os ataques de VANT contribuiram para dizimar a liderança da Al Qaeda, provocaram baixas de vulto entre chefes taliban, mas devido aos elevados custos colaterais encolarizaram ainda mais populações altamente motivadas pelo ódio aos Estados Unidos.

  O uso letal, fácil e expedito, de VANT noutros países como o Afeganistão, Iémen ou Somália – evitando arriscar unidades de forças especiais – tranformou-se num expediente táctico cada vez mais frequente e com tendência a alastrar -- agora o Mali, amanhã a Síria – apesar dos elevadíssimos riscos de alienar populações civis, dificultar a recolha de informação por espiões no terreno, e provocar cismas com putativos aliados políticos e militares.

  O “assassínio selectivo” por controlo remoto no estrangeiro de suspeitos definidos por vezes em função de padrões comportamentais ou associações pessoais e de parentesco passíveis de suscitar a suspeita de intenção terrorista é altamente controverso de um ponto de vista legal.

  O cunho sistemático desta prática vai acarretar complicações desmesuradas à medida que outros estados e entidades não-estatais venham a dispor de meios técnicos para recorrer aos mesmos expedientes.

  Os Estados Unidos à escala planetária, Israel na sua vizinhança e Moscovo no norte do Cáucaso, estão a estabelecer precendentes perniciosos na utilização letal de VANT.

Jornal de Negócios

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Terrorismo low cost




   Terrorismo a baixo custo vale milhões.

   Assim, sem tirar nem pôr, a Al Qaeda do Iémen acaba de incentivar os militantes na luta contra os infiéis à inovação terrorista low cost.

   Os seguidores de Bin Laden na península arábica são particularmente letais e inventivos.

  A "Al Qaeda na Península Arábica" propaga na internet uma revista chamada "Inspire" em inglês de lei ou não fosse um dos seus principais operacionais, Anwar Al Awlaki, de origem norte-americana.

  Na última edição congratulam-se com o sucesso da conjura de Outubro de 2010 que paralizou o transporte de correio aéreo.

  Com muito detalhe e fotografias os terroristas imenenitas e sauditas explicam como enviarem encomendas com explosivos por correio aéreo expresso da capital do Iémen para sinagogas em Chicago.

   As bombas foram detectadas no Dubai e na Grã-Bretanha, depois dos serviços secretos da Arábia Saudita terem fonecido informações sobre a conspiração.

   Em resultado o transporte aéreo de correio expresso acabou sujeito a interrupções e novas regras de segurança tiveram de ser improvisadas de emergência.

  Só por isso a operação foi um sucesso e tudo por uma ninharia, gabam-se os terroristas.

  A conspiração custou apenas 4 mil e 200 dólares. Bastou comprar umas impressoras, uns telemóveis, e enviar tudo por correio aéreo.

  Um êxito porque os prejuízos provocados somaram milhares de milhões de dólares e vão obrigar a vultosos investimentos em medidas de segurança.

  Mais umas quantas conspirações destas, mais uns esforços de terrorismo a baixo custo, e os infiéis ainda vão à bancarrota.

  Tal é a recomendação terrorista que chega do Iémen.

  São, pois, uns fiéis seguidores de Bin Laden estes terroristas da península arábica.

  Já Bin Laden se gabara que investira uns poucos milhares de dezenas de dólares nos atentados do 11 de Setembro.

   Agora, os seus seguidores recomendam muitas e muitas acções terroristas a baixo custo para provocar milhões e milhões de prejuízos.

  É a era do terrorismo low cost. 

TSF / O Mundo num Minuto
22 Novembro 2010

domingo, 9 de setembro de 2012

O Iraque depois do fracasso

Iraqis view burnt and damaged vehicles, after a suicide car bomb attack, in Kirkuk, 290 kilometers (180 miles) north of Baghdad, Iraq, Sunday Sept.17, 2006.

A series of five bomb attacks including two suicide car bombings in the northern city of Kirkuk Sunday left more than 20 people dead and nearly 80 wounded, police said.

Picture: AP/Yahya AhmedKirkuk, 17 Setembro 2006

  A amplitude da derrota republicana nas eleições do próximo mês determinará os termos da revisão da política norte-americana face ao Iraque, mas o fracasso estratégico de Washington é já uma realidade incontornável.

   O reforço da presença militar norte-americana em Bagdade, iniciado em Junho para tentar controlar a violência sectária na capital, não produziu resultados e a insegurança continua a aumentar nas províncias sunitas ao mesmo tempo que eclodem confrontos entre milícias xiitas.

   As rivalidades étnicas e as conivências com as diversas milícias impossibilitam que as forças policiais e militares iraquianas se assumam como garante de segurança, tornando vãs as promessas do governo central de controlar directamente metade das 18 províncias do país dentro de um ano.

   Seis meses após ter assumido o cargo de primeiro-ministro, o xiita Nuri al Malik é incapaz de assegurar o mínimo de consenso que permita dar corpo ao plano de reconciliação nacional ao mesmo tempo que as autoridades centrais não conseguem prover serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento.

   Todos os esforços de investimento e reconstrução estão condicionados pela deterioração das condições de segurança que provocaram mais de meio milhão de mortes nos últimos três anos e pelas deslocações de população que já levaram 1,6 milhões de iraquianos a deixar o país e condenaram outro milhão e meio à situação de refugiados internos.

  As recentes negociações encetados pelos militares norte-americanos com líderes tribais e grupos de guerrilheiros sunitas, excluindo, segundo as primeiras indicações apenas as facções ligadas à Al Qaeda – que representam menos de 10 por cento dos cerca de 20 a 40 mil insurrectos activos nas províncias ocidentais e no centro do Iraque – estão condenadas ao fracasso à medida que se acentua a preponderância das milícias xiitas do Exército do Mahdi, liderado por Moqtada Sadr, e da Organização Badr, o braço armado do "Conselho Supremo para a Revolução Islâmica".

                                 Bancarrota dos acordos políticos

   As garantias dadas este ano pelo embaixador norte-americano Zalmay Khalizad a líderes sunitas de que uma eventual reorganização administrativa implicaria uma partilha equitativa das receitas petrolíferas e o direito de veto sobre questões essenciais de segurança, relações externas e representação política caíram por terra.

   Os partidos xiitas impõem a sua lei no sul do país e nas áreas de maioria xiita de Bagdade e as regiões curdas praticamente não reconhecem a autoridade do governo central, reservando-se o direito de secessão.

   A estabilidade da região norte de maioria curda está, no entanto, sujeita a vagas periódicas de atentados terroristas sobretudo em Kirkuk, a sua capital petrolífera, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   Na inexistência de condições para a consolidação de um governo central que, através de um pacto de federação e suportado por um exército fiável e eficaz, possa impor a sua autoridade política e administrativa a todo o país, a discussão de calendários de retirada dos 140 mil militares norte-americanos e dos 7200 britânicos acantonados na região de Bassorá apenas agrava as dissensões étnicas.

   A proliferação de poderes locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como a multiplicação de bandos criminosos armados, é uma consequência irreversível a médio prazo da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein e nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Mesmo um improvável acordo de princípio entre os Estados Unidos e o Irão sobre o estatuto da maioria xiita num estado independente ou como entidade preponderante num estado unitário ou federal não garantiria o termo das rivalidades entre as diversas facções xiitas, pouco propensas, aliás, a aceitar a tutela persa, e confrontar-se-ia com a oposição das restantes comunidades.

                                   Partilhas sangrentas

   Uma partilha do Iraque em três entidades, concedendo "grosso modo" as províncias do norte aos curdos, as regiões centrais aos sunitas e o sul aos xiitas, seguindo o modelo de administração otomano, implicaria um banho de sangue entre os sete milhões de habitantes de Bagdade e uma sistemática limpeza étnica de contornos tão selváticos quanto a divisão do Raj em 1947.

   Tal cenário seria agravado, ao contrário do que aconteceu com as independências da Índia e do Paquistão, pela forte possibilidade de intervenção das potências vizinhas, nomeadamente da Turquia temerosa de um eventual estado curdo independente, dos países de maioria sunita, como a Jordânia ou a Arábia Saudita e, naturalmente, do Irão, além de poder fazer perigar o domínio dos alauítas na Síria.

   Outra forma de partilha segundo o modelo confessional que vingou no Líbano a partir dos anos quarenta é inviável dado o passado recente de violência extrema e a desproporção entre as diversas comunidades: cerca de 65 por cento de xiitas, 20 por cento de sunitas, percentagem similar de curdos, além de minorias turcomenas e assírios, entre outras, entre os 27 milhões de habitantes do país.

   A incapacidade do exército (cerca de 130 mil homens) e das forças policiais (aproximadamente 150 mil efectivos) demonstrarem unidade e eficácia – o que, simultaneamente, afasta a tradicional solução do poder ditatorial de junta militar ou homem-forte -, bem como a existência de potências vizinhas com interesses divergentes quanto à estabilização e, sobretudo, neutralização do Iraque, tornam, também, irrelevante a opção do modelo confessional libanês.

   Ante o paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, Washington e Londres estão, agora, sem condições políticas para reforçar os seus efectivos – uma iniciativa que, de qualquer modo, nesta fase já não conseguiria evitar a erosão do estado iraquiano – e condenadas a procurar formas de retirada a curto prazo.

                                     Sem margem de manobra

   A oposição das opiniões públicas na Grã-Bretanha, na Austrália (parceiro menor com cerca de 1 400 militares) e, mais recentemente, nos Estados Unidos, à continuação da presença militar no Iraque obrigam, portanto, a limitar dados junto dos respectivos eleitorados, mas retiram margem de manobra negocial.

   A consolidação de um regime democrático num estado unitário ou federal, com uma aliança preferencial com os Estados Unidos, está, presentemente, fora de consideração.

   Um regime ditatorial que assegure a unidade estatal do Iraque é inviável devido à fraqueza e cisões nas forças militares e de segurança e por motivo da força e proliferação de milícias xiitas, sunitas e curdas.

   A hipótese mais crível aponta no sentido do aumento da violência e confrontos tribais, clânicos e étnicos e à emergência de centros de poder locais e regionais autónomos que poderão conduzir à partilha de facto do país, sacrificando, sobretudo, os interesses da minoria sunita, privada das receitas do petróleo.

   Por mais voltas que a administração Bush tente dar ao problema o facto essencial é que a sua intervenção militar ameaça conduzir à desagregação do estado iraquiano e destabilizar a região que vai Golfo Pérsico, ao deserto da Síria, passando pelo Curdistão.

   Só o Irão verá a sua posição estratégica reforçada com o colapso do estado que nos anos oitenta foi a principal força de contenção com que os Estados Unidos contaram para se opor ao regime de Khomeini.

Jornal de Negócios
26 Outubro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=284778

Um clima de desorientação

 Atentado Mesquita Buratha,
                                                       Bagdade, 7 Abril 2006
   Uma sucessão de impasses militares e diplomáticos está a provocar uma catadupa de iniciativas desconexas que revelam profunda desorientação e descoordenação face às crises que se agravam do Levante ao subcontinente indiano.

   A constatação de que o Irão não será sujeito a sanções económicas e financeiras gravosas, selada pelas declarações de Jacques Chirac acerca do diálogo imperativo com Teerão e agravada pela constatação da inviabilidade de um ataque militar norte-americano, evidenciou no imediato os riscos de proliferação nuclear.

   Gamal Mubarak, o filho e putativo herdeiro do presidente egípcio, elaborou, assim, acerca da necessidade do país enveredar por um programa de produção de energia nuclear para fins exclusivamente civis. O ministro da energia concretizou, anunciado de seguida que o Egipto investiria 1,5 mil milhões de dólares na construção de uma central de 1000 MW a inaugurar em 2015.

   A Turquia que, tal como o Egipto, é signatária do Tratado de Não- Proliferação mantém, por sua vez, o projecto de construção de três centrais até 2015, enquanto a Arábia Saudita guarda silêncio sobre eventuais opções nesse sentido.

   Nos últimos meses os estados do Golfo iniciaram, no entanto, discussões preliminares sobre a viabilidade de programas nucleares civis.

   Os riscos destes eventuais programas nucleares acabarem por incorporar componente militares são elevadíssimos face à prossecução dos projectos iranianos que ganhou esta semana novo alento com a confirmação por parte de Moscovo de que cumprirá as suas obrigações contratuais de forma à central de Busher entrar em funcionamento em Novembro de 2007.

   O interesse em obter garantias mútuas informais de não-agressão face às ameaças de Teerão e dos seus aliados explica, por seu lado, as fugas de informação sobre os primeiros contactos de alto nível entre representantes israelitas e sauditas.

   O entendimento entre Telavive e Riade esbarra, contudo, na impossibilidade presente de Israel oferecer concessões na questão palestiniana.

    O descalabro libanês e a recusa terminante do Hizballah em desarmar as suas milícias retirou margem de manobra ao governo de Ehud Olmert que abandonou os planos para uma retirada unilateral da Cisjordânia. As sondagens indicam uma acentuada viragem à direita do eleitorado israelita favorecendo o Likud de Benjamin Netanyahu em detrimento do Kadima de Olmert e dos trabalhistas de Amir Peretz.

   A incapacidade das facções da OLP que ainda aceitam a autoridade do presidente Mahmoud Abbas em imporem uma partilha de poderes ao Hamas em Gaza e o reconhecimento indirecto de Israel condenam, por seu turno, os palestinianos ao isolamento diplomático e à ruína financeira.

   Nesta conjuntura são vãs as esperanças de qualquer compromisso nos termos da proposta avançada pelos sauditas em 2002 que implicava o reconhecimento de Israel pelos estados árabes em troca da retirada dos territórios palestiniano e sírio ocupados em 1967, do estatuto de Jerusalém Oriental como capital de um estado independente e de uma vaga "solução justa" para os mais de quatro milhões de refugiados palestinianos.

                                     Uma guerra perdida

   À apreensão generalizada dos estados árabes sunitas, da Turquia e da Arménia de que Teerão conseguirá levar avante o seu programa e dotar-se de armas nucleares junta-se a constatação de que as possibilidades de pacificação do Iraque são praticamente nulas.

   Todos os partidos curdos e xiitas continuam a aumentar as exigências de autonomia à custa do governo central e a decisão de adiar por dois anos a criação legal de regiões tem sobretudo a ver com o cálculo por parte dos xiitas de que os Estados Unidos ver-se-ão obrigados até lá a retirar do Iraque. Só os curdos pela voz do presidente Talabani expressam interesse público em albergar tropas norte-americanas.

   Uma sondagem encomendada pelo Pentágono e revelada esta semana pela BBC expressa em toda a sua extensão a impossibilidade de conter a insurreição e o terrorismo dos grupos sunitas e a escalada de ataques e retaliações das milícias xiitas.

   Encurralada e politicamente impotente a minoria de cinco milhões de sunitas aparenta agora apoiar esmagadoramente a insurreição armada contra as tropas da coligação norte-americana e britânica.

   Se em 2003 apenas 14 por cento dos sunitas inquiridos manifestavam apoio aos ataques presentemente esse número subiu para 75 por cento, segundo o estudo encomendado pelo Departamento de Defesa de Washington. 

   Fracassado o projecto de democratização no Iraque aumentam as preocupações pelo efeito mobilizador que o conflito tem causado entre radicais sunitas e xiitas seduzidos pela propaganda islamita.

   A estimativa conjunta das 16 agências de informação dos Estados Unidos de que a guerra no Iraque tem aumentado a base de recrutamento de grupos terroristas no Médio Oriente, a nível internacional e junto das comunidades de imigrantes muçulmanos e seus descendentes segue-se a idêntica análise feita no início do ano pelos serviços secretos britânicos.

                                       Um pacto com o diabo

   O panorama fica mais negro pelo fracasso do contingente multinacional em assegurar a segurança nas regiões rurais do Afeganistão que retornou ao padrão tradicional de sustento de milícias tribais pela produção e tráfico de ópio e heroína.

   O Paquistão, por seu turno, acaba de agravar a periclitante situação do governo de Hamid Karzai, que se encontra confinado a Cabul, ao mesmo tempo que vê deteriorem-se as relações com Nova Delhi que alega cumplicidade de Islamabade em grande número de ataques terroristas na Índia.

   O acordo selado entre os líderes tribais do Waziristão e Islamabade para retirada das tropas governamentais da província é uma cedência dos militares na esperança de evitar que a crescente radicalização dos pashtun provocada pelo reforço do movimento taliban acabe por fragilizar ainda mais o regime de Pervez Musharraf.

   O cálculo de que a liberdade de movimentos dos taliban no Waziristão confinará as suas investidas ao território do Afeganistão poderá, no entanto, revelar-se errado em detrimento quer do governo de Cabul, quer de Islamabade se prosseguir a radicalização dos 40 milhões de pashtun que representam mais de 15 por cento da população do Paquistão e cerca de 40 por cento dos alegados súbditos do estado afegão.

   A região fronteiriça é assim refúgio natural para dirigentes da Al Qaeda que continua muito activa ainda que de forma mais descentralizada. Desde Setembro de 2001 os fiéis de Bin Laden dirigiram, financiaram ou participaram directamente em 30 ataques em 12 países que causaram 2060 feridos e 440 mortos, de acordo com um estudo da Rand Corporation para a Agência de Segurança Interna dos Estados Unidos.

   A estes ataques da responsabilidade da Al Qaeda juntam-se os atentados perpetrados no Iraque e as acções de grupos radicais islamitas independentes que se tornaram mais letais nos últimos cinco anos do que em qualquer período precedente.

   No encadeamento de todas estas crises surge um elemento comum.

   A administração Bush mostra-se incapaz de articular iniciativas diplomáticas coerentes em pelo menos quatro questões fulcrais: o programa nuclear iraniano, a guerra do Iraque, o conflito israelo-palestiniano-árabe, além do Afeganistão.

    Os Estados Unidos em vez de promoverem ou coordenarem iniciativas diplomáticas estão assim cada vez mais sujeitos aos riscos das acções que os seus aliados e parceiros decidem assumir unilateralmente.


Jornal de Negócios
27 Setembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=282827

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Al Qaeda 2010

   Umar Farouk Abdulmutallab
   Captura de Umar Farouk Abdulmutallab
   Detroit, 25 Dezembro 2009


    Outro terrorista oriundo de família milionária, à imagem do patrono Osama Bin Laden, desta feita o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, marcou no dia de Natal a agenda terrorista Al Qaeda 2010.

   O ataque fracassado serviu para relembrar que na "frente distante" dos santuários do Islão, na lógica estratégica que Bin Laden definiu e outros prosseguem, os ataques a aviões, serviços de transportes ou alvos civis capazes de proporcionarem grande número de vítimas continuam a ser um dos objectivos essenciais dos radicais islamitas no Ocidente.

   Salvo recurso de acesso a armas radiológicas ou biológicas - o pior dos cenários -, as organizações terroristas islamitas apostam tudo por tudo na escalada de atentados que possam ultrapassar o impacto dos ataques de 11 de Setembro, das carnificinas de Madrid em 2004 ou de Londres no ano seguinte.

   A táctica terrorista de afrontamento é uma droga dura que obriga a redobrar a dose para conforto dos fiéis e temor de outrem.

                                          O eixo iemenita

    Da base ("al qaeda" significa precisamente "base" ou "fundação") paquistanesa-afegã criada nos finais dos anos oitenta pelos jihadistas em guerra contra a União Soviética até à actual galáxia de grupos terroristas com presença notória no Iémen e na Somália, além do Paquistão, os radicais islamistas perderam muita da sua sofisticação organizacional.

   O ataque ao voo da Northwest, copiando o padrão estabelecido em Dezembro de 2001 pelo bombista do sapato Richard Reid, que tentou também utilizar pentrita para derrubar um avião da American Airlines, revela a facilidade de recrutamento nos meios islamistas, mas mostra, igualmente, a crescente dificuldade em estabelecer células clandestinas na Europa.

   Na "frente próxima" da luta contra regimes ditos apóstatas e alvo de alegadas ocupações por infiéis, a galáxia radical islamita tem, no entanto, alvos bem mais precisos e uma base de apoio substancial, pelo que a verborreia ideológica se revela mais mortífera e eficaz ao potenciar conflitos étnicos-religiosos.

   O Paquistão, mais ainda do que o Afeganistão, é um palco de actuação privilegiado, sobretudo depois de fracassar a campanha antixiita de Abu Al Zarqawi no Iraque, mas, fustigados pela repressão e operações antiterroristas norte-americanas, os jihadistas têm vindo a refugiar-se mais recentemente no caótico Iémen.

   Fruste Estado marcado pelas dissensões tribais, o Iémen foi desde os anos setenta, juntamente com a Arábia Saudita, uma das principais fontes de recrutamento jihadistas e logo em Outubro de 2000 o contratorpedeiro norte-americano USS Cole foi atacado no porto de Adén.

   O Iémen, mais ainda do que a Somália, continua a apresentar condições para sustentar operações terroristas na península arábica e na África Oriental, servindo, ainda, de base para operações contra alvos ocidentais.

   Não por acaso, dos 198 presos que restam em Guantánamo 91 são imenitas e a eventual libertação de muitos destes detidos mostra-se problemática.

   Dois dos implicados na organização do ataque de Natal são imenitas libertados de Guantánamo em Novembro de 2007 que, após um período de doutrinamento antiterrorista na Arábia Saudita, acabaram por ressurgir no Iémen como líderes militares da Al Qaeda local.

   Os grupos radicais islamitas parasitam os conflitos locais do Magrebe à Indonésia, mas a sua sorte varia consoante conjunturas diversas e na presença de grupos com forte motivação nacionalista, conforme ocorre na Palestina ou no Líbano, a ideologia jihadista propagada por Bin Laden dificilmente se consegue implantar.

                               Um bando para matar muçulmanos

   De Caxemira à Argélia, tensões antigas propiciaram o advento de grupos radicais que, além dos seus objectivos locais, acabam por facultar operacionais para ataques a Ocidente.

   Os ataques na "frente distante", teorizados pelo saudita Bin Laden e o egípcio Ayman Al Zawahiri, revelaram-se efectivos, mas exigem financiamentos e uma rede organizacional que, presentemente, não estão ao alcance da maior parte das células jihadistas.

   A maioria das vítimas das investidas islamitas terroristas na matriz Al Qaeda acaba, assim, por ser gente dos estados da verdadeira linha da frente, os países muçulmanos.

   Nem os vis cristãos do dessacralizado Ocidente ou os Coptas do Egipto são as maiores vítimas da Al Qaeda.

   Muçulmanos, sobretudo xiitas, foram o principal alvo dos atentados cometidos nos últimos anos pelos terroristas que reivindicam o patrocínio de Bin Laden e Al Zawahiri.

   Os 313 atentados reivindicados pela Al Qaeda ou por organizações fiéis a Bin Laden entre 2004 e 2008 provocaram 3.010 mortos.

   Mesmo considerando os ataques em Madrid, em 2004, e em Londres, no ano seguinte (os 20 mortos do atentado de Outubro de 2005 em Bali, entre eles 15 indonésios, foram obra da Jemaah Islamiyah, uma organização local bem mais antiga e autónoma), só 12% das vítimas (371) era ocidental. A maioria dos mortos foi constituída por iraquianos, argelinos e egípcios.

   Considerando o período precedente, entre 1995 e 2003, 23 atentados reivindicados pela Al Qaeda resultaram em 3.454 mortos, mas aqui entram os ataques de 11 de Setembro, que causaram 3.021 vítimas.

   Inclusivamente na fase de maior sofisticação e eficácia terroristas, a Al Qaeda concentrou a sua acção em países de maioria islâmica (20 dos atentados) e, entre 433 mortos verificados em outros ataques efectuados entre 1995 e 2003, só 19% das vítimas (88 pessoas) era ocidental.

    A frente de ataque jihadista é fruste porque nada adianta como alternativa, resumindo-se à intransigência ante qualquer forma de modernidade alegadamente atentatória a valores atávicos de um Islão primordial.

   Fechada em si mesma, a Al Qaeda continuará em 2010 a tentar um ataque espectacular capaz de rivalizar com o 11 de Setembro, mas, mais do que nessa frente distante anti-ocidental, o terrorismo jihadista inspirado por Bin Laden continuará a seguir um padrão mortífero que o caracteriza como uma verdadeira máquina de matar muçulmanos.



Jornal de Negócios
20 Dezembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=402757

domingo, 19 de agosto de 2012

Obrigado Bin Laden



   As exortações do terrorista Bin Laden têm uma vantagem incomensurável.

   Cada tirada do saudita aponta o caminho a seguir na guerra ao islamismo totalitário e desfaz qualquer ilusão em matéria de apaziguamento e concessões.

    Osama Bin Laden não ofereceu desta feita tréguas a europeus ou norte-americanos, intercaladas de ameaças de actos terroristas, e advertiu que a guerra é total e indiscriminada pois, afirma o xeque, recaem sobre todos os povos as responsabilidades pelas acções anti-islâmicas dos seus «dirigentes e senhores».

   Consequentemente, qualquer civil é conivente na cruzada e, portanto, potencial alvo por via da guerra sem quartel que movem «os sionistas e os cruzados» contra a comunidade imaginária de fiéis do Profeta, sob o comando do foragido em terras das tribos pashtun.

   A campanha de genocídio no Darfur, em que se empenham em particular as milícias Janjaweed, é apresentada por Bin Laden como «justa resistência» a uma cruzada ocidental e sionista para dividir o Sudão.

  A ignota tragédia do Darfur está, agora, a par da generalizada ofensiva anti-islâmica para «pilhar as riquezas» dos crentes.

  É uma tentativa propagandística de Bin Laden de justificar uma nova frente terrorista depois de ter ignorado o Sudão desde a sua expulsão do país em 1996.

   As referências ao Darfur, com os frustes conselhos para os putativos guerreiros aproveitarem a estação das chuvas e armarem-se, é, apenas, mais um caso exemplar da capacidade de Bin Laden em parasitar todo e qualquer conflito que envolva comunidades muçulmanas.

   Vem na linha da proclamação de Novembro de 2001 ao denunciar os «cruzados australianos» que a mando da ONU desembarcaram em terras indonésias para «separar Timor-Leste do mundo islâmico» e nesta mensagem de Abril Bin Laden reitera a denúncia desta conspiração dos «cruzados, dos sionistas e dos hindus».

   O boicote ao governo de Ismail Haniyeh é outra prova da conspiração global contra o Islão na interpretação mais recente de Bin Laden, ecoando as tiradas de um apoiante declarado, o xeque iemenita Abd al-Majid al Zindani, que no início deste mês manifestou o apoio aos islamitas palestinianos numa reunião no Iémen em que esteve presente o líder do Hamas Kahled Mashaal.

   O porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, apressou-se a afirmar que a doutrina do movimento «é totalmente diferente da ideologia do xeque Bin Laden», mas admitiu, também, que «o cerco internacional ao povo palestiniano» é foco de tensão no mundo árabe e islâmico» e alimenta a suspeita de «uma aliança ocidental e israelita».

   No plano da ideologia que alimenta a acção o universo fantasmagórico dos islamitas acaba por confundir todas as correntes e a vertente nacionalista do Hamas, herdeiro dos Irmãos Muçulmanos, revela-se, assim, na sua obsessão pelo extermínio dos judeus paralela à retórica exclusivista e genocida de Bin Laden.

   A incapacidade que a Al Qaeda tem mostrado para implantar-se na Palestina, mostra, contudo, que o islamismo nacionalista do Hamas é um obstáculo de peso às ambições de jihad global de Bin Laden.

   A deriva terrorista anti-xiita e contra as facções nacionalistas sunitas no Iraque promovida por Abu al Zarqawi e agravada pelos atentados de Novembro do ano passado em Amã contribuíram para desprestigiar ainda mais a Al Qaeda como alegada vanguarda da resistência islâmica.

   A marcar presença nesta última tentativa de Bin Laden para provar que é ainda capaz de marcar a agenda guerreira, apesar de, na realidade, limitar-se a parasitar os conflitos possíveis, o foragido tentou, igualmente, reavivar a campanha contra os alegados insultos caricaturais ao Profeta e a proibição do porte do véu islâmico nas escolas francesas, reiterando as tradicionais ameaças aos governantes «hipócritas e apóstatas» vendidos a um compromisso com os inimigos do Islão.

    Não trouxe novidade e revelou frustração quanto a movimentos e causas que se multiplicam, ignorando a jihad pela restauração do Califado acalentada por Osama Bin Laden.

                                         Bin Laden sem o Irão

   Gravada após a segunda semana de Março, a julgar pela referência ao ataque israelita à prisão de Jericó, a declaração de Bin Laden, tal como a exortação de 19 de Janeiro, refere as guerras do Iraque e do Afeganistão, acrescenta agravos sofridos na Tchetchénia, em Caxemira, na Bósnia, na Somália, no Afeganistão e no Paquistão, mas é omissa quanto a uma questão fulcral: o Irão.

   Bin Laden e o seu número dois, o egípcio Aimen al Zawari, evoluíram nas névoas do islamismo sunita e estão excluídos doutro universo dogmático, o dos heréticos xiitas, que, como ideólogos consequentes, optam por relegar às trevas.

   Ora, o xiita persa Mahmoud Ahmadinejad é o pólo oposto de Bin Laden.

   Nos seus momentos de exaltação Ahmadinejad perde-se no recolhimento do khalvat, na comunhão com o Mahdi, o décimo segundo imã oculto.

   Ahmadinejad é um crente no mahdaviat, devoto ao culto e activismo pelo retorno do Soberano do Mundo, como, aliás, deixou claro na alocução à Assembleia Geral da ONU em Setembro do ano passado, um mês após tomar posse como presidente do Irão.

   O martírio da bomba nuclear será, nas alucinações de Ahmadinejad, a via do activismo, a ta´bi`a, a exemplo do sacrifício do imã Husain para restaurar a Casa de Ali; um passo do walâyat, o ciclo de iniciação espiritual xiita no sentido oculto da mensagem profética.

   Esta dogmática xiita é alheia ao activismo sunita de Bin Laden que visa unificar os crentes e expandir a Casa do Islão na pureza mítica dos tempos do Profeta, sem miragem de apocalipse e advento da justiça divina.

   Nas suas alucinações místicas os radicais islamitas sunitas e xiitas têm em Bin Laden e Ahmadinejad dois pólos totalmente opostos que se combatem numa tradição que acreditam advir das lutas que dilaceraram os sucessores de Maomé.

   Ao foragido nas montanhas que as tribos pashtun protegem cabe daqui endereçar um imenso obrigado por nos relembrar estas infames e alucinadas verdades de uma guerra sem quartel.

Jornal de Negócios
26 Abril 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=274979

O "Irão terrorista"

Atiyah Al Rahman


   Depois de acabar com Bin Laden, em Maio, a Casa Branca riscou da lista dos terroristas mais procurados o principal chefe operacional da Al Qaeda, Atiyah Al Rahman, que terá sido morto no noroeste do Paquistão a 22 de Agosto.

   Um míssil disparado por um avião não-tripulado no norte do Waziristão eliminou, de acordo com informações oficiais norte-americanas, o líbio que nos últimos meses, antes de Bin Laden ser abatido em Abbottabad, conspirara com o líder da Al Qaeda para desencadear novos atentados nos Estados Unidos.

   Al Rahman, que já fora dado como morto em Outubro do ano passado, tinha a cabeça a prémio por um milhão de dólares, era, segundo Washington, o comandante das forças da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão e uma figura chave nos contactos com os jihadistas do Magrebe, no Iémen e demais núcleos ligados à organização.

   O homem que passara a número dois da Al Qaeda liderada pelo egípcio Aiman Al Zawahiri era, portanto, o mais proeminente responsável pela coordenação de operações e contactos nos círculos jidahistas.

                                         O canal iraniano

   Uma declaração emitida a 28 de Julho pelo Departamento do Tesouro de Washington nomeara, também, Al Rahman como um dos seis elementos de uma rede terrorista que operaria ao abrigo de "um acordo entre a Al Qaeda e o governo do Irão".

   A nota do governo norte-americano indicava, ainda, que Al Rahman fora designado, em data não especificada, por Bin Laden como "representante da Al Qaeda no Irão", uma posição que, alegadamente, lhe permitia entrar e sair da República Islâmica com autorização de Teerão.

   A Al Qaeda teria através deste acordo com Teerão garantido "um canal privilegiado" para fazer transitar "dinheiro, agentes de apoio e operacionais do Médio Oriente para o sul da Ásia".

   O Departamento do Tesouro arrestava consequentemente bens sob jurisdição norte-americana dos jihadistas e proibia contactos comerciais ou financeiros com todos os seis membros da Al Qaeda em trato com o Irão.

   O sírio Ezedin Abdel Aziz Khalil, sedeado no Irão, seria o chefe da rede - ainda que Al Rahman fosse alegadamente o representante não-residente junto dos iranianos - que abrangia jihadistas no Kuwait, Qatar e Paquistão.

   Nenhum iraniano era identificado no comunicado que, de acordo com o subsecretário David Cohen, com o pelouro da "intelligence" sobre terrorismo e finanças, esclarecia "o apoio sem paralelo do Irão ao terrorismo".

   O subscretário de Barack Obama declarava taxativamente que "o Irão é, actualmente, o principal estado apoiante do terrorismo".

                                        Atavismos políticos

   Dez anos passados sobre os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos a retórica que serviu a George W. Bush como um dos pretextos para justificar a invasão do Iraque ressurge sob a Administração Obama.

   O Irão é, agora, o estado tido como patrono da Al Qaeda numa altura em que Teerão, aparentemente em vias de recuperar dos danos provocados no ano passado pelo vírus informático "Stuxnet", tem vindo a aumentar a capacidade de produção de urânio enriquecido passível de utilização militar.

   A conjuntura económica e financeira não se apresenta propícia a uma eventual operação norte-americana contra o Irão, as previstas retiradas de efectivos militares do Iraque e do Afeganistão desaconselham hostilizar directamente Teerão, mas à entrada de um ano eleitoral é previsível que as tiradas contra os inimigos dos Estados Unidos subam de tom.

   Divergências de apreciação sobre os riscos do programa nuclear militar do Irão ou ameaças de redes terroristas são expressas abertamente por responsáveis da administração democrática e neste caso do alegado acordo Al Qaeda-Teerão podem redundar numa escalada retórica de consequências políticas dificilmente controláveis.

                                            Inimigos e expedientes

   Os líderes xiitas do Irão encontram-se num pólo religioso rigorosamente oposto aos safalistas sunitas da Al Qaeda.

   Teerão opõs-se aos taliban sunitas e de etnia pashtun do Afeganistão desde meados da década de 90 e, tal como Washington ou Nova Deli, apoiou em 2001 a "Aliança do Norte" na luta contra os homens do mullah Omar e Bin Laden.

   Alguns dirigentes da Al Qaeda, caso do egípcio Saif Al Abdel, terão, presumivelmente, encontrado abrigo no Irão após a queda dos taliban.

   As autoridades de Teerão restringiram as suas actividades ou colocaram pessoas ligadas a Bin Laden sob prisão domiciliária, segundo informações admitidas inclusivamente pelos serviços de informações norte-americanos, para as utilizarem em eventuais trocas de prisioneiros.

   A extradição para o Irão dos guerrilheiros "Mujaedin e-Khalq" baseados no Iraque e anteriormente apoiados por Saddam Hussein foi, por exemplo, um dos objectivos frustrados de negociações entre Teerão e Washington em que elementos da Al Qaeda serviriam como moeda de troca.

   Independentemente de contactos e conivências em operações de tráfico clandestino de armas, informações e financiamentos, os objectivos estratégicos de Teerão nada têm em comum com a Al Qaeda excepto no que possa vir a fazer valer os interesses iranianos ou prejudicar inimigos em comum sem dano de maior para o Irão.

                                             Os cadastrados

   Qualquer apoio ou condescendência de Teerão em relação à Al Qaeda, que sob a liderança do jordano Abu Al Zarqawi entre 2004 e 2006 lançou uma campanha de massacre dos xiitas no Iraque, só pode ser encarada como um expediente táctico.

   Quando Obama permite declarações peremptórias acusando Teerão de cumplicidade no planeamento de actos terroristas contra os Estados Unidos aumenta o risco de uma escalada retórica e propagandística face a um estado hostil que acabará por restringir as opções da Casa Branca.

   Pouco ou nada recomenda o regime iraniano, mas, tendo em conta o cadastro da administração Bush na justificação infundada de uma intervenção militar contra o Iraque, que, aliás, poderia ser considerada por outras razões e sobretudo conduzida de forma diferente, o mínimo a esperar de Obama era um pouco mais de sensatez ao permitir que um subsecretário arrisque a tirada do "Irão terrorista".

Jornal de Negócios
31 Agosto 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=503813

Morte e transfiguração de Bin Laden




   A perseguição a Osama Bin Laden chegou ao fim na altura em que o apelo da "Al Qaeda" se tornou essencialmente irrelevante na maior parte do mundo islâmico.

   Bin Laden falhou no seu objectivo: impulsionar a criação de um califado de Granada ao Turquestão chinês e a reconquista de todos os territórios em tempos sob alegado domínio islâmico.

   Fracassou ainda a estratégia de liderança da "Al Qaeda" na mobilização dos muçulmanos para o derrube de regimes ditos apóstatas no norte de África, no Médio Oriente e na Ásia central.

   Os ataques contra os judeus e o auto proclamado "inimigo longínquo", os infiéis patronos de apóstatas, obtiveram, no entanto, um êxito paradoxal ao provocarem a retaliação da incoerente "guerra ao terrorismo" da administração Bush que contribuiu para destabilizar precários equilíbrios de poder do Magrebe aos contrafortes do Hindu Kush.

   Desde 2001 se muita coisa mudou, imensa gente morreu e sofreu nos conflitos que buscaram justificação nas violências da "jihad" e da "guerra ao terrorismo", também a "Al Qaeda" de Bin Laden jaz entre as ruínas moribunda e ainda letal.

                                A disputa pelo manto do profeta

   A tentativa de Bin Laden hegemonizar os movimentos salafistas (apostados no derrube violento de qualquer regime que não reconheça as suas interpretações da lei islâmica) começou por ser bem sucedida com os primeiros atentados de repercussão global, em particular o ataque de 1993 ao "World Trade Center" de Nova Iorque.

   A "Al Qaeda" assumiu então uma posição de vanguarda no terrorismo jihadista e o contributo ideológico e organizacional do egípcio Ayman al Zawahiri revelou-se fundamental para a coordenação e financiamento de acções terroristas à escala internacional.

   A orientação sectária sunita da "Al Qaeda" e os ataques indiscriminados causadores de vítimas muçulmanas, matando mulheres e crianças, contudo, cedo criaram tensões entre militantes e potenciais apoiantes da jihad global.

   Tal como sucedera com os salafistas egípcios da "Gamaa Islamyia" e da "Jihad Islâmica", empenhados no anos 90 em campanhas de terrorismo visando sobretudo coptas e alvos estrangeiros, o extremismo táctico e doutrinário deixou a "Al Qaeda" crescentemente isolada.

   A sangrenta campanha anti-xiita no Iraque iniciada pelo jordano Abu al Zarqawi ainda se prolongou por mais dois anos depois da morte do líder da "Al Qaeda na Mesopotâmia" em 2006, mas acabou por redundar na alienação das tribos sunitas que eram a base da organização.

   A partir de 2008 o apoio norte-americano aos adversários sunitas iraquianos da "Al Qaeda" ponha fim a quatro anos de campanha terrorista por parte dos seguidores de Bin Laden.

   A "Al Qaeda" revelou-se igualmente incapaz de representar na Palestina uma alternativa aos radicais islamitas do "Hamas" de orientação nacionalista ou aos separatistas em guerra por um emirado no Norte do Cáucaso.

   A perda de bases no Afeganistão, a erosão provocada pela prisão e morte de muitos quadros (casos do egípcio Mohammed Atef, líder militar da organização morto perto de Cabul em Novembro de 2001, ou do chefe operacional do 11 de Setembro o kuwaitiano Khalid Sheik Mohammed capturado em Rawalpindi em 2003), dificuldades de financiamento, movimentação e comunicação limitaram fortemente, por seu turno, a capacidade operacional da "Al Qaeda".

   Bin Laden em quase uma década de fuga acabou reduzido a um símbolo de propaganda jihadista, enquanto do Magrebe ao Iémen, passando pela Somália ou o Mali, organizações nominalmente sob a tutela da "Al Qaeda" elaboravam estratégias autónomas.

                                   A dispersão da Al Qaeda

   A função orientadora e coordenadora do terrorismo salafita a que Bin Laden e Aiman Al Zawahiri aspiraram esfumou-se ainda que duas décadas de terrorismo jihadista global tenham aproveitado e potenciado a radicalização de muitos muçulmanos da Europa ao Sudeste da Ásia.

    O exemplo mais claro é apresentado pela doutrinação da "Al Qaeda" na "Península Arábica" que sob a liderança do iemenita Nasir Al Wuhayshi prega uma guerra generalizada, sem chefia central, e à medida das capacidades ofensivas de jihadistas capazes de aproveitarem toda a oportunidade para ataques em qualquer local possível.

   O núcleo central da "Al Qaeda", mobilizando escassas centenas de militantes, está sobretudo disperso pelas zonas tribais do Paquistão, desempenha um papel secundário na galáxia de organizações radicais islamitas da região, e dificilmente terá capacidade para coordenar atentados fora desta área.

   Morto o líder carismático que motivou adesões entre os crentes do terrorismo salafista, a sobrevivência da "Al Qaeda" enquanto organização depende agora das provas de terror que possam dar as suas células dispersas concretizando algum atentado de alto valor simbólico ou substancialmente destrutivo.

   A nível regional, independentemente do eventual ataque de ocasião perpretado pela "Al Qaeda" no Paquistão ou no Afeganistão, outras organizações radicais islamistas como os "Taliban" do clã Haqqani são muito mais activas e poderosas motivando terroristas que noutros tempos seriam atraídos pela "Al Qaeda".

   A "Lashkar-e-Taiba", o "Exército dos Puros" que luta pela islamização de Caxemira e conta com cumplicidades nas forças armadas e serviços secretos de Islamabade, é, por sua vez, uma ameaça particularmente relevante entre os movimentos islamitas no Paquistão devido aos riscos que representam os seus ataques contra a Índia.

                                     Foragido sem rumo

   Ao abrigo de Abbottabad, sob a inegável protecção equívoca de algumas altas patentes paquistanesas que Washington terá de fingir ignorar para salvaguardar interesses maiores como a dissuasão nuclear no subcontinente e a planeada retirada do Afeganistão, ainda chegaram a Bin Laden os ecos da revoltas no norte de África e no Médio Oriente.

    O saudita nem liderava, nem se metaformoseara num mito.

    Bin Laden era apenas um fugitivo.

    Na contestação a regimes autocráticos estão a ser irrelevantes os apelos jihadistas e na legitimação religiosa das revoltas árabes fazem-se ouvir vozes islamitas das ramas mais tradicionais dos "Irmãos Muçulmanos".

   É uma conjuntura em que a ideologia teocrática do safalismo, ainda que vivaz e capaz de eventualmente vir a retomar ímpeto, cede o passo a mobilizações feitas em nome de valores e interesses muito diversos da pregação da "Al Qaeda".

   Quando chegaram para o matar Bin Laden já estava transfigurado num fantasma da propaganda salafista.


Jornal de Negócios
04 Maio 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=482445

O vendaval

 

  Angelus Novus, Paul Klee, 1920

   "Há um quadro de Paul Klee intitulado 'Angelus Novus'. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés."

   Walter Benjamin, 1940


Antes que a guerra o arrebatasse, George W. Bush via-se a si próprio como um "conservador com compaixão", "unificador de uma nação dividida", apostado na promoção de valores cristãos, sem proselitismos excessivos, e deveras empenhado no relançamento da economia através de um corte radical de impostos.

   A América acreditava ser, naquele Verão de 2001, a potência sem rival ante uma Rússia em crise, um Japão estagnado, uma China ainda longe de ganhar músculo económico e financeiro.

                                       O resto pouco contava

   Os aliados europeus mostravam-se irrelevantes e as prioridades do antigo governador do Texas apontavam para a América Latina e, sobretudo, o México.

   Israel era valor seguro e um Irão hostil servia, pelo menos, de contrapeso a Saddam Hussein, e, neste particular, George Walker, tinha contas por ajustar; era uma questão de honra e família.

   A Guerra do Golfo deixara demasiadas pontas soltas e o insolente déspota de Bagdad tentara mesmo assassinar durante uma visita ao Kuwait em Abril de 1993.

                                        De repente tudo mudou

   Já Bill Clinton se confrontara com Osama bin Laden, mas o 11 de Setembro mudou tudo com atentados altamente mortíferos e simbólicos, sangrando o território Continental dos Estados Unidos.

   A guerra era inevitável em resposta a outro Pearl Harbour e George W. Bush tornou-se no presidente da equívoca "Guerra ao Terror".

   Pior e mais insinuoso do que o ataque japonês de Dezembro de 1941 - arrojado e infame, mas compreensível ante um confronto de interesses entre estados soberanos - era ter de admitir que o inimigo islamita actuava de forma letal e politicamente assassina.

   Uma entidade não-estatal, com apoios escusos, raramente assumidos, com a excepção dos talibã de Kandahar, teria de ser alvo de retaliações implacáveis.

   2001 marcou o auge do apelo do salafismo "jihadista "da Al-Qaeda que foi claudicando ao longo da década.

   O extremismo táctico e doutrinário da organização condenou-a ao isolamento apesar da radicalização de muitos muçulmanos do Sudeste da Ásia à Europa.

   Os incessante ataques norte-americanos reduziram significativamente a capacidade operacional da Al-Qaeda.

   A função coordenadora e orientadora a que aspirara Bin Laden esvaneceu-se e grupos radicais islamitas da Somália ao Magrebe, passando pelo Iémen, desenvolvem estratégias autónomas mantendo o recurso a tácticas terroristas.

   Os Estados Unidos conseguiram evitar ataques terroristas no seu território, enquanto na Europa Ocidental, após as investidas em Madrid e Londres, em 2004 e 2005, as ameaças de atentados foram contidas.

   Seja como for, deparamo-nos com um equilíbrio instável em que qualquer atentado poderá ter consequências desproporcionadas em relação ao cúmulo de danos e vítimas.

   As opções da administração Bush, especialmente a invasão do Iraque, provocaram, entretanto, significativas mudanças nos equilíbrios de poder.

Alterações estratégicas

   Em termos estratégicos, o Irão reforçou a sua influência regional a partir do momento em que a maioria xiita iraquiana, notoriamente hostil aos Estados Unidos após a experiência de guerra e ocupação, se impôs a sunitas e curdos.

   O programa militar nuclear de Teerão, caso não seja desmantelado, tornará o país praticamente invulnerável a um ataque ainda esta década e o regime iraniano está em rota de colisão com Israel e as monarquias sunitas do Golfo.

   A intervenção no Afeganistão cumpriu o objectivo de desalojar a Al-Qaeda, mas não conseguiu sequer reverter o país para o estatuto neutral anterior à invasão soviética de 1979 e não é também claro que o Pentágono possa vir a manter bases militares na Ásia Central.

   O incremento da desestabilização do Paquistão foi consequência directa das sucessivas guerras afegãs e o país representa, actualmente, um dos maiores riscos estratégicos.

   Em 2002, Islamabade e Nova Delhi estiveram de novo à beira da guerra, mas nem assim foram estabelecidos, no subcontinente, mecanismos eficazes de monitorização e controlo de riscos de acidente e informação mútua em matérias relativas aos sectores nuclear civis e militares.

   No Paquistão persiste, ainda, o risco de tráfico de tecnologias e materiais nucleares com conivências ao mais alto nível, conforme ficou patente com o desmantelamento da rede controlada por Abdul Qadeer Khan a partir de 2003.

   A guerra contra Saddam Hussein, tida pela administração Bush como recurso necessário e exemplar para derrubar regimes detentores de armas de destruição maciça dispostos a colaborar com redes terroristas não-estatais, levou Gadhaffi a renunciar em 2003 ao seu programa nuclear clandestino.

   Este êxito no combate à proliferação nuclear militar teve, contudo, contraponto negativo em 2006, quando a Coreia do Norte testou o seu primeiro engenho nuclear.

   Dois anos depois, no âmbito da aproximação entre Washington e Nova Delhi, os Estados Unidos conseguiram levar os 44 países do "Grupo de Fornecedores Nucleares", entre os quais Portugal, a levantar um embargo em vigor há 34 anos de venda de materiais, equipamentos e tecnologias nucleares à Índia.

   Foram assim postos em causa os tratados de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, e de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, de 1996, e criado um precedente grave com o estatuto de excepção atribuído à Índia que, tal como o Paquistão, Coreia do Norte e Israel, recusa subscrever estes acordos internacionais.

                                       A potência dominante


   A entrada dos Estados Unidos numa guerra permanente não-convencional à escala planetária contra eventuais ameaças terroristas, essencialmente de matriz islamita, levou, ainda, à adopção de medidas securitárias que dificilmente serão abandonadas.

   Uma década de guerras, de controvérsias legais e escândalos, designadamente por recurso institucional à tortura, entretanto, degradaram a nível internacional a imagem idealizada dos Estados Unidos ao mesmo tempo que a crise financeira de 2008, o acumular de défices comerciais e orçamentais contrastavam com o crescimento económico da China.

    À excepção da área militar, onde a preponderância dos Estados Unidos é esmagadora, o declínio relativo norte-americano parece acentuar-se em todas as áreas, mas a maior economia do mundo guarda trunfos que não estão ao alcance de qualquer rival.

   Depois da hegemonia incontestada do pós-guerra em que os Estados Unidos representavam cerca de metade do PIB mundial esse valor baixou para 30% em 1970 e mantém-se estável desde então, enquanto o seu sector industrial continua ao nível de 1900: um quinto da produção mundial.

   O dinamismo demográfico norte-americano augura décadas pujantes e, em termos de investigação científica, a superioridade dos Estados Unidos não será posta em causa tão cedo.

   No realinhamento económico, político e cultural em curso, em que o peso da China e da Índia se acentua em conformidade com as respectivas dimensões demográficas, os Estados Unidos continuam a ser a potência dominante.

   Os atentados de Setembro foram como que uma grande rajada de vento, daquelas que lembram as teses "Sobre o Conceito da História" que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin escreveu no derradeiro ano da sua vida.

   "Ele (o Anjo da História) gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do Paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o Anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval."


Jornal de Negócios