domingo, 19 de agosto de 2012

Morte e transfiguração de Bin Laden




   A perseguição a Osama Bin Laden chegou ao fim na altura em que o apelo da "Al Qaeda" se tornou essencialmente irrelevante na maior parte do mundo islâmico.

   Bin Laden falhou no seu objectivo: impulsionar a criação de um califado de Granada ao Turquestão chinês e a reconquista de todos os territórios em tempos sob alegado domínio islâmico.

   Fracassou ainda a estratégia de liderança da "Al Qaeda" na mobilização dos muçulmanos para o derrube de regimes ditos apóstatas no norte de África, no Médio Oriente e na Ásia central.

   Os ataques contra os judeus e o auto proclamado "inimigo longínquo", os infiéis patronos de apóstatas, obtiveram, no entanto, um êxito paradoxal ao provocarem a retaliação da incoerente "guerra ao terrorismo" da administração Bush que contribuiu para destabilizar precários equilíbrios de poder do Magrebe aos contrafortes do Hindu Kush.

   Desde 2001 se muita coisa mudou, imensa gente morreu e sofreu nos conflitos que buscaram justificação nas violências da "jihad" e da "guerra ao terrorismo", também a "Al Qaeda" de Bin Laden jaz entre as ruínas moribunda e ainda letal.

                                A disputa pelo manto do profeta

   A tentativa de Bin Laden hegemonizar os movimentos salafistas (apostados no derrube violento de qualquer regime que não reconheça as suas interpretações da lei islâmica) começou por ser bem sucedida com os primeiros atentados de repercussão global, em particular o ataque de 1993 ao "World Trade Center" de Nova Iorque.

   A "Al Qaeda" assumiu então uma posição de vanguarda no terrorismo jihadista e o contributo ideológico e organizacional do egípcio Ayman al Zawahiri revelou-se fundamental para a coordenação e financiamento de acções terroristas à escala internacional.

   A orientação sectária sunita da "Al Qaeda" e os ataques indiscriminados causadores de vítimas muçulmanas, matando mulheres e crianças, contudo, cedo criaram tensões entre militantes e potenciais apoiantes da jihad global.

   Tal como sucedera com os salafistas egípcios da "Gamaa Islamyia" e da "Jihad Islâmica", empenhados no anos 90 em campanhas de terrorismo visando sobretudo coptas e alvos estrangeiros, o extremismo táctico e doutrinário deixou a "Al Qaeda" crescentemente isolada.

   A sangrenta campanha anti-xiita no Iraque iniciada pelo jordano Abu al Zarqawi ainda se prolongou por mais dois anos depois da morte do líder da "Al Qaeda na Mesopotâmia" em 2006, mas acabou por redundar na alienação das tribos sunitas que eram a base da organização.

   A partir de 2008 o apoio norte-americano aos adversários sunitas iraquianos da "Al Qaeda" ponha fim a quatro anos de campanha terrorista por parte dos seguidores de Bin Laden.

   A "Al Qaeda" revelou-se igualmente incapaz de representar na Palestina uma alternativa aos radicais islamitas do "Hamas" de orientação nacionalista ou aos separatistas em guerra por um emirado no Norte do Cáucaso.

   A perda de bases no Afeganistão, a erosão provocada pela prisão e morte de muitos quadros (casos do egípcio Mohammed Atef, líder militar da organização morto perto de Cabul em Novembro de 2001, ou do chefe operacional do 11 de Setembro o kuwaitiano Khalid Sheik Mohammed capturado em Rawalpindi em 2003), dificuldades de financiamento, movimentação e comunicação limitaram fortemente, por seu turno, a capacidade operacional da "Al Qaeda".

   Bin Laden em quase uma década de fuga acabou reduzido a um símbolo de propaganda jihadista, enquanto do Magrebe ao Iémen, passando pela Somália ou o Mali, organizações nominalmente sob a tutela da "Al Qaeda" elaboravam estratégias autónomas.

                                   A dispersão da Al Qaeda

   A função orientadora e coordenadora do terrorismo salafita a que Bin Laden e Aiman Al Zawahiri aspiraram esfumou-se ainda que duas décadas de terrorismo jihadista global tenham aproveitado e potenciado a radicalização de muitos muçulmanos da Europa ao Sudeste da Ásia.

    O exemplo mais claro é apresentado pela doutrinação da "Al Qaeda" na "Península Arábica" que sob a liderança do iemenita Nasir Al Wuhayshi prega uma guerra generalizada, sem chefia central, e à medida das capacidades ofensivas de jihadistas capazes de aproveitarem toda a oportunidade para ataques em qualquer local possível.

   O núcleo central da "Al Qaeda", mobilizando escassas centenas de militantes, está sobretudo disperso pelas zonas tribais do Paquistão, desempenha um papel secundário na galáxia de organizações radicais islamitas da região, e dificilmente terá capacidade para coordenar atentados fora desta área.

   Morto o líder carismático que motivou adesões entre os crentes do terrorismo salafista, a sobrevivência da "Al Qaeda" enquanto organização depende agora das provas de terror que possam dar as suas células dispersas concretizando algum atentado de alto valor simbólico ou substancialmente destrutivo.

   A nível regional, independentemente do eventual ataque de ocasião perpretado pela "Al Qaeda" no Paquistão ou no Afeganistão, outras organizações radicais islamistas como os "Taliban" do clã Haqqani são muito mais activas e poderosas motivando terroristas que noutros tempos seriam atraídos pela "Al Qaeda".

   A "Lashkar-e-Taiba", o "Exército dos Puros" que luta pela islamização de Caxemira e conta com cumplicidades nas forças armadas e serviços secretos de Islamabade, é, por sua vez, uma ameaça particularmente relevante entre os movimentos islamitas no Paquistão devido aos riscos que representam os seus ataques contra a Índia.

                                     Foragido sem rumo

   Ao abrigo de Abbottabad, sob a inegável protecção equívoca de algumas altas patentes paquistanesas que Washington terá de fingir ignorar para salvaguardar interesses maiores como a dissuasão nuclear no subcontinente e a planeada retirada do Afeganistão, ainda chegaram a Bin Laden os ecos da revoltas no norte de África e no Médio Oriente.

    O saudita nem liderava, nem se metaformoseara num mito.

    Bin Laden era apenas um fugitivo.

    Na contestação a regimes autocráticos estão a ser irrelevantes os apelos jihadistas e na legitimação religiosa das revoltas árabes fazem-se ouvir vozes islamitas das ramas mais tradicionais dos "Irmãos Muçulmanos".

   É uma conjuntura em que a ideologia teocrática do safalismo, ainda que vivaz e capaz de eventualmente vir a retomar ímpeto, cede o passo a mobilizações feitas em nome de valores e interesses muito diversos da pregação da "Al Qaeda".

   Quando chegaram para o matar Bin Laden já estava transfigurado num fantasma da propaganda salafista.


Jornal de Negócios
04 Maio 2011

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