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domingo, 2 de setembro de 2012

Reverência à China



   Ao credor deve-se reverência e numa versão moderna do constrangimento político passou menos de uma década desde os tempos em que Washington apostrofava Pequim como "competidor estratégico" até à presente admissão de que a China é estado em ascensão que os Estados Unidos nem sequer pretendem conter.

   Obama admitiu a óbvia impossibilidade americana de se opor ao ascenso da China nos termos clássicos da Guerra Fria ou de tentar refrear a expansão económica de Pequim ainda antes da cimeira com o presidente chinês Hu Jintao, mas a alegada justificação diplomática de uma cooperação mutuamente vantajosa deixa muito a desejar.

                                      Um devedor de alto risco

   O embaraço económico-financeiro é conclusivo: Pequim é o maior credor de Washington e detinha 797,1 mil milhões em títulos do tesouro norte-americanos em Agosto. Os Estados Unidos somam um défice comercial recorde com a China.

   No ano passado as exportações norte-americanas cifraram-se em 69,7 mil milhões de dólares e as importações da China alcançavam os 337,8 mil milhões de dólares.

    No passado mês de Setembro as exportações da China para os Estados Unidos iam nos 27 914 milhões de dólares e as vendas norte-americanas quedavam-se pelos 5 800 milhões de dólares.

   Ganhos de produtividade e abundância de capital impulsionam as exportações chinesas e a experiência da valorização em 21 % do yuan entre Julho de 2005 e Julho de 2008 indica que o efeito cambial sobre os preços dos artigos vendidos pela China ao estrangeiro é muito pequeno.

   Enquanto o consumo interno não aumentar na China uma eventual valorização do yuan pouco alterará a dinâmica de saldos comerciais altamente excedentários.

   No terceiro trimestre deste ano as reservas chinesas alcançavam os 2,3 triliões de dólares depois de Pequim investir na compra da divisa norte-americana para manter a indexação de 6,38 face ao dólar em vigor na prática desde Julho de 2008.

                                         O problema é o dólar
 
   Pequim considera que um yuan subvalorizado não é o problema maior no contencioso com Washington e declara que as políticas monetária e fiscal dos Estados Unidos destabilizam o dólar.

   Tal como outros países exportadores asiáticos a China faz saber que a política norte-americana de dólar barato, taxas de juro baixas e um défice orçamental estimado em 1,502 triliões de dólares para o ano fiscal de 2010 ameaça a estabilidade dos mercados com excesso de liquidez.

   A acentuada quebra do dólar face ao iene, ao won coreano ou ao dólar australiano desde o início deste ano é vista como uma deliberada estratégia norte-americana para propulsionar as suas exportações à custa dos demais parceiros comerciais a que se juntam práticas proteccionistas tais como as taxas impostas em Setembro a vendas chinesas de pneus e tubos de aço.

   Apesar de ser insustentável a actual subvalorização do yuan Pequim descarta a possibilidade de valorizações significativas até consolidar a estabilização da sua economia.

   Só na segunda metade de 2010, caso se mantenham os actuais níveis de crescimento (8,9 % no terceiro trimestre de 2009 em relação a período homólogo de 2008), Pequim admite rever em alta a cotação do yuan.

   Na primeira visita presidencial à China Obama não viu satisfeitas as suas pretensões nas frentes económica, financeira e cambial e ainda que Pequim continue a necessitar de garantir acesso ao mercado norte-americano e às tecnologias de topo dos Estados Unidos presentemente é Hu Jintao quem define os termos da relação com Washington.

                                   O pessimismo das futuras elites

   Um dado sobre as relações culturais entre os dois países é revelador das expectativas das futuras elites da China e também da Índia.

  Entre os 671 618 alunos estrangeiros que no ano académico de 2008-09 frequentaram instituições de ensino superior dos Estados Unidos contaram-se mais de 98 mil estudantes chineses, número só superado pelos cerca de 103 mil indianos atraídos pela excelência das universidades norte-americanos.

   Na China contam-se somente 20 mil estudantes norte-americanos e ambos os países declaram pretender aumentar as trocas académicas, mas a atracção dos Estados Unidos já perdeu muito do seu brilho.

   Um recente estudo da Ewing Kaufman Foundation, de Kansas City, revelava que a maioria dos estudantes estrangeiros, apesar de louvar a qualidade do ensino superior nos Estados Unidos, considera que a economia norte-americana já conheceu melhores dias.

   Só 7 % dos estudantes chineses e 25 % dos alunos indianos dizem acreditar que a economia norte-americana venha a crescer mais do que no passado.

   Entre os inquiridos apenas 6 % dos estudantes indianos e 10 % dos alunos chineses admitem a intenção de residir permanentemente nos Estados Unidos após a conclusão dos estudos.

  Está aqui um elemento muito revelador do que sejam as percepções das futuras elites dos dois maiores países asiáticos quanto ao futuro dos Estados Unidos.


Jornal de Negócios
18 Novembro 2009

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ideologia 7 por cento





   Um crescimento económico anual na ordem dos 7% é o objectivo apontado no plano quinquenal 2011/2015 que a Assembleia Nacional Popular da China está em vias de aprovar.
   Promover o consumo interno, reduzindo as desigualdades sociais e a degradação ambiental, são objectivos essenciais para assegurar a estabilidade na transição para a nova liderança que o 18º Congresso do Partido Comunista ratificará em Outubro de 2012.

   O futuro chefe do partido e do estado, Xi Jinpiang, e o provável próximo primeiro-ministro, Li Leqiang, serão os legatários de uma estratégia que garantiu a sucessão consensual da liderança política depois das convulsões de 1989.

                                   Características chinesas

   "Socialismo com características chinesas" tornou-se o chavão oficial para definir um sistema em que o controlo indisputado do partido sobre o estado assenta a sua legitimidade na prossecução de um crescimento económico capaz de prover uma melhoria contínua das condições de vida.

   Na ausência de pluralismo político e liberdade de expressão a ideologia do crescimento económico ininterrupto, a par do nacionalismo, subsiste como razão de estado inquestionável que obriga à aquiescência dos cidadãos.

   A matriz da ideologia do poder tem a sua expressão na alocação e redistribuição de recursos que o partido define no plano quinquenal, o décimo segundo desde 1953.

   O plano em aprovação rege-se pelas mesmas linhas das "directivas gerais" para 2006/2010 que tinham assumido a impossibilidade de prosseguir um modelo económico assente em exportações com escassa incorporação tecnológica e insustentáveis custos ambientais.

   O objectivo de crescimento de 7,5% do quinquénio precedente acabou por ser ultrapassado, cifrando-se em 11,1%, mas a "Sociedade Harmoniosa" prometida pelo presidente Hu Jintao viu acentuar-se a desigualdade social.

                              Desigualdade e contestação

   Na China o coeficiente Gini - do 0 da igualdade perfeita de rendimentos a 1 na desigualdade máxima de concentração individual total de riqueza em detrimento dos demais - passou no socialismo de miséria maoísta de 0,28 (ou provavelmente menos dado que as estatísticas não são fidedignas) a 0,5 na altura em que Pequim se assume como a segunda maior economia do planeta.

   Para a maioria da população, sobretudo de etnia Han, enquanto se mantiverem credíveis as expectativas de melhoria da sua situação social é possível que a contestação -- desde que as autoridades dêem a entender com um mínimo de credibilidade a sua disponibilidade para atenderem a queixas pontuais - possa ser contida dentro dos limites do tolerável para o regime, ainda que as assimetrias regionais possam deitar tudo a perder.

   Apesar de protestos e greves terem vindo a aumentar na última década o consenso social - abalado, no entanto, pela contestação ideológica de minorias intelectuais e activistas como o Prémio Nobel da Paz 2010 Liu Xiabao - desejado pelo Partido Comunista tem-se mantido, não obstante os riscos de dissensão étnica, agravada pelos diferenciais de rendimento, no Tibete e Xinjiang.

   O primeiro-ministro Wen Jiabao apresentou como objectivo quinquenal um aumento dos rendimentos equivalente à taxa desejada de 7% de crescimento económico essencialmente por via da contenção da inflação (5% é a previsão para 2011), apesar de uma alta nos custos de trabalho não contribuir para conter pressões inflacionistas.

   É a meta mais baixa das duas últimas décadas e tem em conta que no quinquénio precedente os rendimentos do trabalho só acompanharam os aumentos de produtividade e do PIB em três das 27 províncias do país, segundo os dados oficiais.

    Outro alvo do plano passa por uma redução do consumo de energia de 16 % por unidade de PIB essencial para obviar à depredação ambiental provocada pelo excessivo recurso ao carvão (70% do consumo de energia na China) e, subsidiariamente, pela diminuição das importações de hidrocarbonetos.

                                         Partido e excluídos

   O objectivo de incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se, no entanto, com uma rudimentar rede de saúde, assistência e segurança sociais razão principal das elevadas taxas de aforro que rondam 30% dos rendimentos familiares.

   O envelhecimento da população realça estas carências.

   Projecções da ONU, na variante intermédia, cifram para meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

   O plano quinquenal não apresenta soluções inovadoras nesta área, enquanto a estimativa das despesas com o sector de saúde representa apenas 0,4% do PIB a confirmar-se as expectativas de um crescimento de 8% previsto para este ano.

   O governo de Pequim apesar de referir aumentos de subsídios para famílias de menores rendimentos é omisso quanto a custos orçamentais que estarão balizados pelo objectivo do défice orçamental não exceder em 2011 os 2% do PIB.

   De fora ficam ainda 221 milhões de chineses que as estatísticas de Pequim consideram "mão-de-obra flutuante", ou seja, população migrante em busca de trabalho sem os obrigatórios certificados de residência.

   A liderança colectiva no Partido Comunista está em vias de garantir com êxito o processo particularmente complicado de sucessão de líderes, mas ainda não deu provas de capacidade para definir novas estratégias e mudar de rumo ante abalos inesperados.

Jornal de Negócios
9 Março 2011

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=472085

Rezar às alminhas



Sines





   Com crise política pré-anunciada para a Primavera, em sérios apuros orçamentais, sob o flagelo de juros incomportáveis para sustentar a dívida pública, o Portugal político-económico-financeiro rejubilou com a visita de Hu Jintao.

  Assente a poeira e ainda antes de José Sócrates se encontrar com Wen Jiabao em Macau ficou claro que Portugal interessa à China essencialmente como eventual plataforma de distribuição e canal para investimentos em África.

  Eventuais participações na banca, estão em causa o BCP e o BPI, e na EDP têm em comum visarem sobretudo os mercados africanos.

   No caso do BCP uma paridade accionista entre a Caixa Geral de Depósitos, a Sonangol e o Banco de Comércio e Indústria da China criaria o “núcleo forte” desejável capaz de evitar o risco de OPA`s hostis.

   A possível entrada da COSCO em Sines, onde um terminal é gerido pela Autoridaridade Portuária de Singapura, visa, por seu turno, ampliar a rede de distribuição que a maior empresa de transportes marítimos e logística de Pequim tem vindo a alargar por todo o mundo.

   Na Europa, além de Nápoles, a grande aposta da COSCO é a concessão por 35 anos do porto grego do Pireu.

   O investimento iniciado em 2009, no montante de 700 milhões de dólares, assegurará uma base logística para todo o Mediterrâneo Oriental e Europa do Leste através dos Balcãs.

   Sines como porto para grandes porta-contentores surge como uma possibilidade particularmente atraente a partir do momento em que estiver concluida em 2014 a ampliação do Canal do Panamá, mas já é mais complicada a sua articulação com outra plataforma logística em Portugal.

   A Nam Kwong e a Mota-Engil têm uma parceria para a plataforma logística do Poceirão, em Alenquer, mas o projecto tem um pequeno senão.

   É inexistente uma ligação ferroviária para transporte de mercadorias entre Sines e o Poceirão.

   Acresce que a REFER-Rede Ferroviária Nacional está entretanto a rever, presume-se que no sentido do corta e corta, os projectos de investimentos e idêntica sorte teve o plano Portugal Logístico que previa a construção de onze plataformas de armazenamento e distribuição.

   Suspenso o projecto de TGV a construção da linha Sines-Badajoz para mercadorias que deveria circular paralela ao segmento de alta velocidade Évora-Caia torna-se excepcionalmente cara.

  Sem ligação para mercadorias entre Sines e Badajoz outras duas linhas, a variante de Alcácer que já consumiu 159 milhões de euros e o projectado troço entre Vendas-Novas e Évora, ficariam sem conexão com Espanha.

   Bem podem as empresas públicas e privadas portuguesas rezar às alminhas pelos yuans e tentar fazer valer as potencialidades nacionais em matéria de logística e distribuição, mas de pouco lhes valerá se estes constrangimentos não forem resolvidos a contento de putativos investidores.

   Já a declaração de intenções sobre a duplicação do volume de trocas comerciais entre Portugal e a China nos próximos cinco anos animou quanto baste os círculos empresariais lusitanos.

   Além da PT e da Cimpor (presente na China desde 2007 e com investimentos rondando os 180 milhões de euros) poucas empresas alegadamente muito interessadas em investir no mercado chinês têm músculo financeiro para se aventurarem tão longe.

   Ainda assim, não há publicação lusa que não tenha vindo a alardear o potencial imenso que a China reserva às energias renováveis made in Portugal, à cortiça ou ao azeite na senda das vendas bem sucedidas de pedras ornamentais.

   Precisamente porque Portugal nem sequer se conta entre os sessenta principais parceiros comerciais da China as potencialidades são imensas e por aí todos ficaram felizes, tanto mais que se pretende equílibro nas trocas o que a suceder promete ser um case study capaz de valer um Nobel.

  Lamentável foi os juros da dívida portuguesa a 10 anos terem batido nos 7% sem que a alardeada compra de obrigações nacionais por parte da China se tenha feito sentir.

   Diga-se em abono da verdade que quem conta e faz contas percebe que a eventual aquisição de dívida pública portuguesa é ínfima parte da estratégia chinesa de diversificação na aplicação das suas reservas cambiais.

  Alguns decisores têm inclusivamente a noção de que quanto maiores forem as aplicações de Pequim em euros, tanto maior será a capacidade negocial chinesa para forçar uma clivagem entre a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão em matéria de disputas cambiais.

   De momento os montantes de compra de dívida pública portuguesa por investidores chineses é desconhecido, tanto mais que se realiza no mercado secundário, mas está por certo muito longe de contribuir para obviar à alta de juros.

  Para todos os efeitos os investidores aguardam pelas decisões, aprazadas para o final do ano, quanto ao mecanismo europeu de resolução de crises de dívidas soberanas e respectivo fundo permanente de resgate que, a vingar a proposta da Alemanha, penalizará os credores privados.

  Por aqui, tão longe da China, resta dizer que Hu Jintao facturou imenso em Portugal.

   É garantido para Hu e o seu sucessor Xi Jinping que o presente e futuros governos de Lisboa irão continuar a contar-se entre os mais compreensivos e adaptativos parceiros de Pequim na União Europeia.

   Além do mais a dívida pública de Portugal assegura potencialidades tão imensas quanto o mercado chinês.

HOJEMACAU
11 Novembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=5056