sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Rezar às alminhas



Sines





   Com crise política pré-anunciada para a Primavera, em sérios apuros orçamentais, sob o flagelo de juros incomportáveis para sustentar a dívida pública, o Portugal político-económico-financeiro rejubilou com a visita de Hu Jintao.

  Assente a poeira e ainda antes de José Sócrates se encontrar com Wen Jiabao em Macau ficou claro que Portugal interessa à China essencialmente como eventual plataforma de distribuição e canal para investimentos em África.

  Eventuais participações na banca, estão em causa o BCP e o BPI, e na EDP têm em comum visarem sobretudo os mercados africanos.

   No caso do BCP uma paridade accionista entre a Caixa Geral de Depósitos, a Sonangol e o Banco de Comércio e Indústria da China criaria o “núcleo forte” desejável capaz de evitar o risco de OPA`s hostis.

   A possível entrada da COSCO em Sines, onde um terminal é gerido pela Autoridaridade Portuária de Singapura, visa, por seu turno, ampliar a rede de distribuição que a maior empresa de transportes marítimos e logística de Pequim tem vindo a alargar por todo o mundo.

   Na Europa, além de Nápoles, a grande aposta da COSCO é a concessão por 35 anos do porto grego do Pireu.

   O investimento iniciado em 2009, no montante de 700 milhões de dólares, assegurará uma base logística para todo o Mediterrâneo Oriental e Europa do Leste através dos Balcãs.

   Sines como porto para grandes porta-contentores surge como uma possibilidade particularmente atraente a partir do momento em que estiver concluida em 2014 a ampliação do Canal do Panamá, mas já é mais complicada a sua articulação com outra plataforma logística em Portugal.

   A Nam Kwong e a Mota-Engil têm uma parceria para a plataforma logística do Poceirão, em Alenquer, mas o projecto tem um pequeno senão.

   É inexistente uma ligação ferroviária para transporte de mercadorias entre Sines e o Poceirão.

   Acresce que a REFER-Rede Ferroviária Nacional está entretanto a rever, presume-se que no sentido do corta e corta, os projectos de investimentos e idêntica sorte teve o plano Portugal Logístico que previa a construção de onze plataformas de armazenamento e distribuição.

   Suspenso o projecto de TGV a construção da linha Sines-Badajoz para mercadorias que deveria circular paralela ao segmento de alta velocidade Évora-Caia torna-se excepcionalmente cara.

  Sem ligação para mercadorias entre Sines e Badajoz outras duas linhas, a variante de Alcácer que já consumiu 159 milhões de euros e o projectado troço entre Vendas-Novas e Évora, ficariam sem conexão com Espanha.

   Bem podem as empresas públicas e privadas portuguesas rezar às alminhas pelos yuans e tentar fazer valer as potencialidades nacionais em matéria de logística e distribuição, mas de pouco lhes valerá se estes constrangimentos não forem resolvidos a contento de putativos investidores.

   Já a declaração de intenções sobre a duplicação do volume de trocas comerciais entre Portugal e a China nos próximos cinco anos animou quanto baste os círculos empresariais lusitanos.

   Além da PT e da Cimpor (presente na China desde 2007 e com investimentos rondando os 180 milhões de euros) poucas empresas alegadamente muito interessadas em investir no mercado chinês têm músculo financeiro para se aventurarem tão longe.

   Ainda assim, não há publicação lusa que não tenha vindo a alardear o potencial imenso que a China reserva às energias renováveis made in Portugal, à cortiça ou ao azeite na senda das vendas bem sucedidas de pedras ornamentais.

   Precisamente porque Portugal nem sequer se conta entre os sessenta principais parceiros comerciais da China as potencialidades são imensas e por aí todos ficaram felizes, tanto mais que se pretende equílibro nas trocas o que a suceder promete ser um case study capaz de valer um Nobel.

  Lamentável foi os juros da dívida portuguesa a 10 anos terem batido nos 7% sem que a alardeada compra de obrigações nacionais por parte da China se tenha feito sentir.

   Diga-se em abono da verdade que quem conta e faz contas percebe que a eventual aquisição de dívida pública portuguesa é ínfima parte da estratégia chinesa de diversificação na aplicação das suas reservas cambiais.

  Alguns decisores têm inclusivamente a noção de que quanto maiores forem as aplicações de Pequim em euros, tanto maior será a capacidade negocial chinesa para forçar uma clivagem entre a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão em matéria de disputas cambiais.

   De momento os montantes de compra de dívida pública portuguesa por investidores chineses é desconhecido, tanto mais que se realiza no mercado secundário, mas está por certo muito longe de contribuir para obviar à alta de juros.

  Para todos os efeitos os investidores aguardam pelas decisões, aprazadas para o final do ano, quanto ao mecanismo europeu de resolução de crises de dívidas soberanas e respectivo fundo permanente de resgate que, a vingar a proposta da Alemanha, penalizará os credores privados.

  Por aqui, tão longe da China, resta dizer que Hu Jintao facturou imenso em Portugal.

   É garantido para Hu e o seu sucessor Xi Jinping que o presente e futuros governos de Lisboa irão continuar a contar-se entre os mais compreensivos e adaptativos parceiros de Pequim na União Europeia.

   Além do mais a dívida pública de Portugal assegura potencialidades tão imensas quanto o mercado chinês.

HOJEMACAU
11 Novembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=5056

Sem comentários:

Enviar um comentário