Tumen, Fronteira RPC/Coreia do Norte
Enquanto Kim Jong Il encena em Pyongyang a transferência dinástica de poderes para o seu filho mais novo, outra incógnita surge quanto à política de Pequim face à Coreia do Norte.
O regime norte-coreano tornou-se uma complicação de monta para a China depois da primeira explosão nuclear de Pyongyang em Outubro de 2006 a que se seguiu segundo teste em Maio do ano passado.
A China fornece cerca de 90 por cento da energia, perto de 80 por cento dos bens de consumo e quase metade dos artigos alimentares que a Coreia do Norte consume, é o principal suporte diplomático de Pyongyang e sustenta com créditos incobráveis um défice nas trocas comerciais bilaterais que supera os mil milhões de dólares.
Até agora todas as advertências e críticas que vão surgindo esporadicamente na imprensa chinesa quanto à necessidade de uma reforma da falida economia norte-coreana têm caído em saco roto.
Por óbvios motivos estratégicos Pequim não pode permitir o colapso do regime de Pyongyang, mas a capacidade chinesa para forçar concessões por parte da Coreia do Norte quanto ao seu programa nuclear militar tem sido deveras limitada no âmbito das conversações em que participam ainda a Rússia, o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos.
A China tem assistido impotente aos mais recentes desvarios de Kim Jong Il.
O comportamento errático e provocatório de Pyongyang atingiu um ponto deveras perigoso com o ataque à corveta sul-coreana Cheonan em Março e o fracasso de uma bizarra reforma monetária no final do ano passado lançou dúvidas sobre a sanidade mental do Grande Líder.
Pequim face aos riscos acrescidos do processo de transmissão de poderes para Kim Jong-un poderá ter adoptado uma estratégia de intervenção avantajada na Coreia do Norte.
O que aguarda confirmação são, assim, as notícias que começaram a circular este mês de que bancos e empresas chinesas estão prestes a assinar um acordo com uma recém-criada entidade de cooperação da Coreia do Norte: a Agência de Investimento Internacional Taepung.
O montante aventado aponta para um pacote de investimentos chineses na ordem dos 10 mil milhões de dólares. A concretizar-se esta injecção de capital seria equivalente a cerca de 70 por cento do Produto Interno Bruto da Coreia do Norte e implicaria a criação de empresas mistas e zonas económicas especiais.
Há lógica nestas notícias que foram veiculadas a partir de Pequim.
A China, pesando as suas opções, pode bem ter decidido investir em força na Coreia do Norte para forçar pelo menos as grandes linhas de uma reforma económica que permita a sobrevivência do regime, contenha o seu comportamento agressivo e leve a algumas concessões na questão nuclear.
O EMBARAÇO DE NOVA DELHI
Deve ser grande o gaúdio em Pequim com as agruras da Índia.
Os meios de comunicação social indianos são, aliás, os primeiros a destacar o embaraço e vergonha nacionais provocados pela desordem que rodeia os Jogos da Commonwealth que abrem este domingo em Nova Delhi.
É a primeira vez que a Índia organiza os Jogos, que tiveram o seu primeiro avatar como British Empire Games em 1930, e os custos, sobre os quais ninguém se entende, estabelecem um recorde.
Em 2003, quando foi atribuida à Índia a organização dos Jogos, o governo indiano estimou em 500 milhões de dólares os custos de construção e modernização de infraestruturas desportivas, acessos, fornecimentos de água e energia.
Pelas últimas contas esta factura chegou aos 4,6 mil milhões de dólares.
A construção de um novo terminal no aeroporto internacional Indira Ghandi orçou, por sua vez, em 2,7 mil milhões de dólares.
A décima nona edição dos Jogos está já marcada por casos de corrupção (16 projectos de construção no montante de 508 milhões de dólares estão sob investigação), incompetência crassa, desorganização, deficiências e atrasos na edificação e recuperação de centros desportivos e instalações de acolhimento aos atletas e à comunicação social, e um rol de desacertos que obrigaram à intervenção de emergência do primeiro-ministro Manmohan Sing para salvar a honra da casa.
Um inquérito do Hindustan Times relevava, entretanto, que 68 por cento dos habitantes de Nova Delhi sentia “vergonha” pelo que está a acontecer, enquanto 17 por cento se mostrava “indiferente” e 15 por cento de optimistas a toda a prova diziam ter “orgulho” na organização dos Jogos.
O que irá acontecer entre 3 e 14 de Outubro na capital indiana é uma incógnita, mas o facto da Lloyd’s ter recusado segurar empresas envolvidas na venda de bilhetes, merchandising, ou direitos de transmissão televisiva e radiofónica no caso de cancelamento, adiamentos, atrasos ou incidentes durante os Jogos não augura nada de bom.
A Lloyd’s alegou falta de informação sobre riscos de segurança e qualidade das infraestruturas e acabou por ter de ser o governo indiano a garantir os seguros aumentando em mais 200 milhões a 250 milhões de dólares os custos imparáveis da organização dos Jogos que rondam os 10 mil milhões de dólares.
Descontando os riscos sanitários (este ano foram registados oficialmente 400 casos de dengue), o fiasco da venda de bilhetes (cerca de 200 mil contra uma previsão inicial de 1,7 milhões) e os temores de atentados as 71 selecções presentes nestes Jogos competem em Nova Delhi com o coração na boca.
Os custos da publicidade negativa que rodeia os Jogos de Nova Delhi não estão contabilizados, mas a imagem da Índia leva um rombo colossal.
A boa educação obriga e têm rareado os comentários na comunicação social estatal chinesa sobre as desgraças do rival asiático, mas a comparação entre as Olímpiadas de Pequim e os Jogos de Nova Delhi cedo ou tarde fará o seu caminho.
Ofuscando o embaraço do vizinho foram, portanto, outros acontecimentos maiores a merecer destaque nos media oficiais: a visita de Dmitri Medvedev a Pequim e a inauguração do primeiro oleoduto sino-russo que fornecerá à China 300 mil barris/dia de petróleo russo, o conflito com o Japão sobre as ilhas Diaoyu/Sensuku e os diferendos comerciais e monetários com os Estados Unidos que irão agravar-se à medida que se aproximam as eleições de Novembro para o Congresso de Washington.
O NOBEL DA PAZ DE LIU XIABAO
Pode acontecer é que Pequim esteja prestes a passar por um embaraço que supere noutro plano as agruras de Nova Delhi.
As pressões e ameaças da China contra a Noruega e a União Europeia, advertindo para as consequências negativas que teria a eventual atribuição do Prémio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiabao, estão a ser muitos mal recebidas e arriscam ter o efeito contrário ao desejado por Pequim.
Geir Lundestad, director do Instituto Nobel Norueguês e secretário-permanente do Comité Nobel Norueguês, revelou esta semana que o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Gu Ying o advertiu no Verão em Oslo contra a atribuição do Nobel da Paz a Liu.
Liu Xiabao, detido desde Dezembro 2008 pelos seus apelos subversivos à democratização da China, condenado no dia de Natal de 2009 a onze anos de prisão, é, efectivamente, um sério candidato ao Nobel da Paz.
Três figuras gratas da resistência democrática na Checoslováquia comunista – o antigo presidente checo Vaclav Havel, o bispo de Praga Vaclav Maly e a activista dos direitos humanos Dana Nemcova – apelaram publicamente à atribuição do Nobel da Paz a Liu Xiabao num artigo publicado a 20 de Setembro no The New York Times/International Herald Tribune.
Após as ameaças à porta fechada, a resposta pública chegou pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Jiang Yu declarou peremptório em Pequim que Liu violara a lei e que as suas acções eram “totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz”.
Depois do Dalai Lama, premiado no fatídico ano de 1989, a China arrisca contar com mais uma pedra no sapato.
A bola de neve das críticas à pressões chinesas começou a rolar e só se saberá se Pequim escapará ao pior quando a 8 de Outubro for anunciada em Oslo a decisão dos cinco membros do Comité Nobel eleitos pelo Parlamento norueguês.
HojeMacau
30 Setembro 2010
http://hojemacau.com.mo/?p=3241
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