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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

007 por controlo remoto





   Uma arrepiante carência de controlos institucionais caracteriza a condução de operações militares anti-terroristas nos Estados Unidos, conforme ficou patente na audiência no Senado para confirmação do novo director da CIA John Brennan.

   Obama expandiu o programa de ataques com Veículos Aéreos Não-Tripulados (VANT) lançado pela administração Bush, deixando à discrição dos comandos militares e da CIA o assassínio de suspeitos terroristas no estrangeiro na condição de minizarem o mais possível danos colaterais.

   O parecer de justificação legal da Casa Branca do “assassínio selectivo” em Setembro de 2011 de Anwar Al Awlaki, nascido no Novo México e um dos principais operacionais da Al Qaeda no Iémen, alarga desmesuradamente as condições em que pode ser dada “ordem para matar”.

   Mesmo no caso de cidadãos norte-americanos a eliminação física de “líderes operacionais” da Al Qaeda ou organizações associadas só é constrangida pelo tradicional imperativo da proporcionalidade na guerra, ou seja, pela obrigação de restringir ao máximo o número de vítimas civis tidas por inocentes.

   O “assassínio selectivo” com recurso a VANT justifica-se, segundo o parecer do Departamento de Justiça de Washington divulgado este mês, por os alegados terroristas constituirem um permanente perigo iminente dada a sua incessante actividade conspiratória.

   A “não-viabilidade” de captura dos suspeitos -- por dificuldades operacionais, diplomáticas ou outras razões não-especificadas – é definida igualmente por “funcionários de alto nível devidamente informados”.

   Nestas condições haverá luz verde para a pronta eliminação de terroristas.

   Além da lista de pessoas a abater autorizada pelo presidente, todos os suspeitos de associação ideológica ou operacional, pontual ou sistemática, a organizações terroristas anti-norte-americanas podem vir a ser considerados para “assassínio selectivo”.

   As Comissões do Congresso com poderes para supervisionar as forças armadas e os serviços de informação deram a maior liberdade de acção aos responsáveis por acções anti-terroristas no estrangeiro que a opinião pública aprova por larga maioria, apesar da oposição aumentar no caso de se tratar de cidadãos norte-americanos.

   A mortandade entre as populações civis provocada pela utilização letal de VANT é subavaliada pelos responsáveis militares e da CIA que consideram terroristas, até prova em contrário, todos os homens em idade combatente que se encontrem em contacto com suspeitos sob mira ou na área restrita alvo de ataque.

   A New America Foundation contabilizou 350 ataques no Paquistão entre 2004 e a primeira semana deste mês que teriam provocado 1 956 a 2 649 mortes. As vítimas civis neste balanço representariam18% a 23%.

  Uma investigação de The Bureau of Investigative Journalism, referenciado pelo projecto Living Under Drones das Faculdades de Direito de Stanford e Nova Iorque, estima, por sua vez, o número de mortes no Paquistão de Junho 2004 a meados de Setembro do ano passado entre 2 562 a 3 325. Os dados disponíveis ao público apontam para 474 a 881 mortes de civis.

  No caso do Paquistão os ataques de VANT contribuiram para dizimar a liderança da Al Qaeda, provocaram baixas de vulto entre chefes taliban, mas devido aos elevados custos colaterais encolarizaram ainda mais populações altamente motivadas pelo ódio aos Estados Unidos.

  O uso letal, fácil e expedito, de VANT noutros países como o Afeganistão, Iémen ou Somália – evitando arriscar unidades de forças especiais – tranformou-se num expediente táctico cada vez mais frequente e com tendência a alastrar -- agora o Mali, amanhã a Síria – apesar dos elevadíssimos riscos de alienar populações civis, dificultar a recolha de informação por espiões no terreno, e provocar cismas com putativos aliados políticos e militares.

  O “assassínio selectivo” por controlo remoto no estrangeiro de suspeitos definidos por vezes em função de padrões comportamentais ou associações pessoais e de parentesco passíveis de suscitar a suspeita de intenção terrorista é altamente controverso de um ponto de vista legal.

  O cunho sistemático desta prática vai acarretar complicações desmesuradas à medida que outros estados e entidades não-estatais venham a dispor de meios técnicos para recorrer aos mesmos expedientes.

  Os Estados Unidos à escala planetária, Israel na sua vizinhança e Moscovo no norte do Cáucaso, estão a estabelecer precendentes perniciosos na utilização letal de VANT.

Jornal de Negócios

domingo, 16 de setembro de 2012

O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Se não o matarem...

   A manobra já foi realizada uma vez com êxito quando o Presidente Ayub Khan, o primeiro de uma longa série de golpistas, se afastou após 11 anos no poder para ceder o lugar ao seu chefe do Estado-Maior do Exército Yahya Khan, mas, desta feita, parece faltar uma alternativa militar ao general Pervez Musharraf.

  Em Março de 1969, com a passagem de testemunho a Yahya Khan, as chefias militares acordaram uma estratégia para perpetuar a ditadura e só a derrota dois anos depois na guerra com a Índia pela independência do Paquistão Oriental as levou a ceder o poder ao líder do Partido do Povo Zulfikar Ali Bhutto.

   Musharraf tem este exemplo bem presente.

   O general teme que a rebelião no Baluchistão e nas zonas tribais do Noroeste redunde em nova desagregação do estado paquistanês.

   O general vigia os seus altos comandos e colocou nos postos-chave homens de confiança.

   O número dois na chefia das forças armadas, Ashfaq Pervez Kiani, o director dos serviços de inteligência (ISI), Nadim Taj, e o responsável pelos serviços secretos militares, Nadim Ejaz, são generais que devem a carreira a Musharraf. Os arsenais nucleares continuam a cargo do general Khalid Kidwai, apesar de ter oficialmente passado à reserva em 2005. 

                                           Reprimir e dividir

   O general reprime as oposições, manipula os tribunais, impõe a censura, mas evitou até agora hostilizar directamente o Partido do Povo de Benazir Bhutto e os islamitas do Jamiat Ulema-i-Islam liderados por Faz ul Rahman.

   O islamita, figura importante na Província da Fronteira do Noroeste, e Benazir, com o seu bastião no Sind, são os potenciais aliados para uma partilha de poder.

   A manobra do general é clara, mas joga com muitos inimigos jurados.

   O apoio conjuntural do Muttahida Qaumi Mouvement (MQM) - o principal partido dos mohajir (muçulmanos de língua urdu oriundos da Índia após a Partilha de 1947, como é o caso de Musharraf) - pode ajudar o general a controlar a grande metrópole de Karachi, mas arrisca alienar Benazir Bhutto.

   Por mais esforços que os Estados Unidos tenham feito para encontrar um general que possa substituir Musharraf, o facto é que até agora o presidente continua a gozar da lealdade dos altos comandos.

   O maior risco para Musharraf passa por um alastrar da contestação no Punjab, onde é forte o apoio à Liga Muçulmana de Nawaz Shariff, que obrigue à intervenção das forças militares, alienando os oficiais de origem punjabi que predominam nas chefias do exército.

   Outro factor que escapa ao controlo do general é o acumular dos sinais de desmoralização e desorientação entre os 550 mil homens do exército, sobretudo entre os militares pashtun que representam um quarto dos efectivos, pelo fracasso em controlar as zonas tribais na fronteira com o Afeganistão.

   Sucedem-se deserções e rendições em massa de soldados a milícias islamitas como as ocorridas recentemente no vale de Swat e no sul do Waziristão.

  Apesar de ter destacado mais de 90 mil homens para o noroeste do país, o exército e o depauperado Corpo de Fronteira, 80 mil polícias militarizados recrutados localmente, revelam-se incapazes de controlar as tribos pashtun que contestam o governo de Islamabade e apoiam a insurreição taliban no Afegansitão.

   Se o general, forçado pelo agravamento da conjuntura económica e a contestação violenta, tentar cerrar fileiras jogando a cartada de destabilização na Caxemira indiana e manipulando acções terroristas na Índia corre o risco de gerar uma escalada militar potencialmente desastrosa como aconteceu em 1999 e 2002.    

   Caxemira e o confronto com a Índia continuarão, ainda assim, a servir de pretexto para canalizar a maioria dos mais de dez mil milhões de dólares de ajuda militar norte-americana para aquisição de armamento convencional em detrimento da formação de corpos especializados em operações anti-insurreição e antiterroristas, como tem vindo a acontecer desde 2001.

                                  Um assassínio muito provável

   O general pensa ter calculado bem a manobra e espera que conversações com Benazir Bhutto debilitem ainda mais o Partido do Povo para forçar uma ex-governante de má reputação a aceitar a sua permanência na presidência depois de um impasse eleitoral na votação que talvez possa ocorrer em Janeiro.

   O general sabe que a antiga primeira-ministra não goza de grandes simpatias nas hierarquias militares e carece de apoios nas regiões do sudoeste e do noroeste, fronteiriças do Irão e do Afeganistão e, consequentemente, vitais para os Estados Unidos.

   O general, se continuar a escapar às tentativas de assassinato dos islamitas, calcula ter boas hipóteses de neste segundo golpe, após oito anos no poder, conseguir neutralizar o aparelho judicial e dividir as oposições.

   O general manipulou o seu patrono norte-americano e está seguro que enquanto puder contar com as forças armadas, que sugam um quarto do orçamento, controlam empresas com um valor superior a 4 mil milhões de dólares e propriedades avaliadas em 20 mil milhões de dólares, não haverá quem o afaste do poder.

   É bem possível que Musharraf tenha razão e, por isso mesmo, será provavelmente assassinado, que é o que costuma acontecer nestes casos.

Jornal de Negócios
07 Novembro 2007

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domingo, 9 de setembro de 2012

Um clima de desorientação

 Atentado Mesquita Buratha,
                                                       Bagdade, 7 Abril 2006
   Uma sucessão de impasses militares e diplomáticos está a provocar uma catadupa de iniciativas desconexas que revelam profunda desorientação e descoordenação face às crises que se agravam do Levante ao subcontinente indiano.

   A constatação de que o Irão não será sujeito a sanções económicas e financeiras gravosas, selada pelas declarações de Jacques Chirac acerca do diálogo imperativo com Teerão e agravada pela constatação da inviabilidade de um ataque militar norte-americano, evidenciou no imediato os riscos de proliferação nuclear.

   Gamal Mubarak, o filho e putativo herdeiro do presidente egípcio, elaborou, assim, acerca da necessidade do país enveredar por um programa de produção de energia nuclear para fins exclusivamente civis. O ministro da energia concretizou, anunciado de seguida que o Egipto investiria 1,5 mil milhões de dólares na construção de uma central de 1000 MW a inaugurar em 2015.

   A Turquia que, tal como o Egipto, é signatária do Tratado de Não- Proliferação mantém, por sua vez, o projecto de construção de três centrais até 2015, enquanto a Arábia Saudita guarda silêncio sobre eventuais opções nesse sentido.

   Nos últimos meses os estados do Golfo iniciaram, no entanto, discussões preliminares sobre a viabilidade de programas nucleares civis.

   Os riscos destes eventuais programas nucleares acabarem por incorporar componente militares são elevadíssimos face à prossecução dos projectos iranianos que ganhou esta semana novo alento com a confirmação por parte de Moscovo de que cumprirá as suas obrigações contratuais de forma à central de Busher entrar em funcionamento em Novembro de 2007.

   O interesse em obter garantias mútuas informais de não-agressão face às ameaças de Teerão e dos seus aliados explica, por seu lado, as fugas de informação sobre os primeiros contactos de alto nível entre representantes israelitas e sauditas.

   O entendimento entre Telavive e Riade esbarra, contudo, na impossibilidade presente de Israel oferecer concessões na questão palestiniana.

    O descalabro libanês e a recusa terminante do Hizballah em desarmar as suas milícias retirou margem de manobra ao governo de Ehud Olmert que abandonou os planos para uma retirada unilateral da Cisjordânia. As sondagens indicam uma acentuada viragem à direita do eleitorado israelita favorecendo o Likud de Benjamin Netanyahu em detrimento do Kadima de Olmert e dos trabalhistas de Amir Peretz.

   A incapacidade das facções da OLP que ainda aceitam a autoridade do presidente Mahmoud Abbas em imporem uma partilha de poderes ao Hamas em Gaza e o reconhecimento indirecto de Israel condenam, por seu turno, os palestinianos ao isolamento diplomático e à ruína financeira.

   Nesta conjuntura são vãs as esperanças de qualquer compromisso nos termos da proposta avançada pelos sauditas em 2002 que implicava o reconhecimento de Israel pelos estados árabes em troca da retirada dos territórios palestiniano e sírio ocupados em 1967, do estatuto de Jerusalém Oriental como capital de um estado independente e de uma vaga "solução justa" para os mais de quatro milhões de refugiados palestinianos.

                                     Uma guerra perdida

   À apreensão generalizada dos estados árabes sunitas, da Turquia e da Arménia de que Teerão conseguirá levar avante o seu programa e dotar-se de armas nucleares junta-se a constatação de que as possibilidades de pacificação do Iraque são praticamente nulas.

   Todos os partidos curdos e xiitas continuam a aumentar as exigências de autonomia à custa do governo central e a decisão de adiar por dois anos a criação legal de regiões tem sobretudo a ver com o cálculo por parte dos xiitas de que os Estados Unidos ver-se-ão obrigados até lá a retirar do Iraque. Só os curdos pela voz do presidente Talabani expressam interesse público em albergar tropas norte-americanas.

   Uma sondagem encomendada pelo Pentágono e revelada esta semana pela BBC expressa em toda a sua extensão a impossibilidade de conter a insurreição e o terrorismo dos grupos sunitas e a escalada de ataques e retaliações das milícias xiitas.

   Encurralada e politicamente impotente a minoria de cinco milhões de sunitas aparenta agora apoiar esmagadoramente a insurreição armada contra as tropas da coligação norte-americana e britânica.

   Se em 2003 apenas 14 por cento dos sunitas inquiridos manifestavam apoio aos ataques presentemente esse número subiu para 75 por cento, segundo o estudo encomendado pelo Departamento de Defesa de Washington. 

   Fracassado o projecto de democratização no Iraque aumentam as preocupações pelo efeito mobilizador que o conflito tem causado entre radicais sunitas e xiitas seduzidos pela propaganda islamita.

   A estimativa conjunta das 16 agências de informação dos Estados Unidos de que a guerra no Iraque tem aumentado a base de recrutamento de grupos terroristas no Médio Oriente, a nível internacional e junto das comunidades de imigrantes muçulmanos e seus descendentes segue-se a idêntica análise feita no início do ano pelos serviços secretos britânicos.

                                       Um pacto com o diabo

   O panorama fica mais negro pelo fracasso do contingente multinacional em assegurar a segurança nas regiões rurais do Afeganistão que retornou ao padrão tradicional de sustento de milícias tribais pela produção e tráfico de ópio e heroína.

   O Paquistão, por seu turno, acaba de agravar a periclitante situação do governo de Hamid Karzai, que se encontra confinado a Cabul, ao mesmo tempo que vê deteriorem-se as relações com Nova Delhi que alega cumplicidade de Islamabade em grande número de ataques terroristas na Índia.

   O acordo selado entre os líderes tribais do Waziristão e Islamabade para retirada das tropas governamentais da província é uma cedência dos militares na esperança de evitar que a crescente radicalização dos pashtun provocada pelo reforço do movimento taliban acabe por fragilizar ainda mais o regime de Pervez Musharraf.

   O cálculo de que a liberdade de movimentos dos taliban no Waziristão confinará as suas investidas ao território do Afeganistão poderá, no entanto, revelar-se errado em detrimento quer do governo de Cabul, quer de Islamabade se prosseguir a radicalização dos 40 milhões de pashtun que representam mais de 15 por cento da população do Paquistão e cerca de 40 por cento dos alegados súbditos do estado afegão.

   A região fronteiriça é assim refúgio natural para dirigentes da Al Qaeda que continua muito activa ainda que de forma mais descentralizada. Desde Setembro de 2001 os fiéis de Bin Laden dirigiram, financiaram ou participaram directamente em 30 ataques em 12 países que causaram 2060 feridos e 440 mortos, de acordo com um estudo da Rand Corporation para a Agência de Segurança Interna dos Estados Unidos.

   A estes ataques da responsabilidade da Al Qaeda juntam-se os atentados perpetrados no Iraque e as acções de grupos radicais islamitas independentes que se tornaram mais letais nos últimos cinco anos do que em qualquer período precedente.

   No encadeamento de todas estas crises surge um elemento comum.

   A administração Bush mostra-se incapaz de articular iniciativas diplomáticas coerentes em pelo menos quatro questões fulcrais: o programa nuclear iraniano, a guerra do Iraque, o conflito israelo-palestiniano-árabe, além do Afeganistão.

    Os Estados Unidos em vez de promoverem ou coordenarem iniciativas diplomáticas estão assim cada vez mais sujeitos aos riscos das acções que os seus aliados e parceiros decidem assumir unilateralmente.


Jornal de Negócios
27 Setembro 2006

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Coreia do Norte sobe a parada


   O Paquistão efectuou em Maio de 1998 a sua primeira série de testes nucleares.

   Seguiram-se três anos de sanções e, em 2004, o principal responsável do programa paquistanês Abdul Khan era obrigado a confessar publicamente que uma rede clandestina sob sua direcção traficava informação e materiais para países envolvidos em projectos nucleares militares.
   A Líbia, o Irão e a Coreia do Norte contavam-se entre os principais clientes da rede de Abdul Khan e Pyongyang chegou mesmo a adquirir centrifugadores do tipo P2 para enriquecimento de urânio, segundo revelou o general Pervez Musharraf nas suas memórias recém-publicadas.

   A nuclearização militar do Paquistão, na sequência do teste realizado pela Índia em 1974, foi o caso mais grave de fracasso do Tratado de Não-Proliferação desde a sua adopção em 1968.
 
   Nem Nova Delhi, nem Islamabade são signatários do Tratado e, por duas ocasiões, em 1999 e em 2002, os dois estados estiveram perto de recorrer aos seus arsenais nucleares.
 
   Israel, que iniciou com auxílio da França na década de cinquenta um programa militar nuclear, concluído com êxito nos anos sessenta, encontra-se, igualmente, fora do Tratado.

  A Coreia do Norte, que em 2003 abandonou o Tratado acaba, por sua vez, de tornar-se a nona potência militar nuclear do planeta.

   No acervo positivo das últimas décadas podem, no entanto, contar-se a renúncia de estados como a África do Sul, o Brasil e a Líbia aos seus projectos militares nucleares, bem como a desnuclearização das antigas repúblicas soviéticas mediante acordos estabelecidos por iniciativa de Moscovo e Washington.

   Aos riscos de proliferação estatal junta-se a ameaça terrorista patente no tráfico ilegal de materiais radioactivos passíveis de uso para fabrico de "bombas sujas". A Agência Internacional de Energia Atómica registou desde 2002 mais de 300 casos de tráfico ilegal de materiais radioactivos, sobretudo na Europa.

   As perspectivas de imposição de uma proibição total de testes nucleares são remotas. Potências nucleares, como, por exemplo, os Estados Unidos, recusam tal alternativa invocando a necessidade de modernização dos seus arsenais.

                                        A última cartada

   O ensaio nuclear norte-coreano foi de dimensão diminuta. As estimativas vão de uma quilotonelada a 15 quilotoneladas.

  Trata-se de uma potência em todo o caso inferior à explosão que arrasou Hiroxima em 1945 e abaixo do nível dos primeiros ensaios nucleares indiano e paquistanês.
 
   As capacidades da Coreia do Norte armar mísseis com engenhos nucleares são, aparentemente, ainda pouco significativas, mas seria um erro subestimar a determinação de Pyongyang que conseguiu concretizar o objectivo estabelecido nos anos cinquenta de se dotar de meios militares nucleares.
 
   A Coreia do Norte contou, inicialmente, com o apoio reticente de Moscovo e, posteriormente, de Pequim, mas, além do contributo paquistanês, as fases finais do projecto assentaram nos seus próprios recursos humanos e tecnológicos.
 
   Nunca Kim Il Sung, nem o seu sucessor Kim Jong Il perderam de vista que só armas nucleares poderiam evitar que os Estados Unidos voltassem a considerar a possibilidade de optar pelo uso de bombas atómicas contra o regime de Pyongyang, tal como o general Douglas MacArthur propôs no final de 1950 para deter o avanço das tropas norte-coreanas e chinesas.
 
   A partir do momento em que passou a dispor de urânio e plutónio com qualidade suficiente para dotar-se de um pequeno arsenal nuclear o regime de Kim Jong Il tem-se por invulnerável a um ataque militar, tanto mais que os 20 milhões de habitantes de Seul estão ao alcance das suas forças de artilharia e os mísseis da classe No-Dong têm capacidade para flagelar todo o sul da península e alcançar o Japão.
 
   O objectivo aparente de Pyongyang, falhadas as iniciativas negociais da administração Clinton e a estratégia de recusa de conservações directas de George W. Bush, visa obrigar os Estados Unidos a assinarem um acordo de paz que ponha termo ao estado técnico de guerra que prevalece desde o final das hostilidades em 1953, retirando as suas tropas e arsenais da península, provendo ajuda económica e financeira, além de garantias de segurança.
 
   Nenhuma administração norte-americana alguma vez aceitará tais condições e se Washington falhou o desiderato de impedir a nuclearização da Coreia do Norte pode, pelo menos, considerar que a última cartada de Kim Jong Il isolou ainda mais o país e provou que a campanha iniciada o ano passado para desarticular a vasta rede norte-coreana de lavagem de dinheiro – nomeadamente através de bancos em Macau –, tráfico de droga e cigarros afectou significativamente o regime, mas não a ponto de pôr em causa a sua sobrevivência.
 
    A partir de agora Pyongyang já não tem mais cartas para jogar salvo a provocação militar que será intolerável para todos os estados vizinhos.
  
  A possibilidade de Pyongyang aumentar as suas receitas através de vendas de tecnologia militar é limitada e a ameaça de tráfico de materiais radioactivos ou nucleares para grupos terroristas mostra-se, ainda que real, pouco racional porque provocaria retaliações capazes de aniquilar o regime que visa, sobretudo, a sua autoperpetuação.

                                 Um novo imperativo para a China

   O regime de Kim Jong Il é essencialmente vulnerável a sanções que a China possa vir a aplicar já que Pequim fornece mais de 70 por cento do combustível e um terço dos alimentos consumidos pela Coreia do Norte.

   Para a China, a aplicação de sanções implica o risco de Pyongyang enveredar por provocações militares intoleráveis, agravando ainda mais os riscos de militarização nuclear do Japão ou da Coreia do Sul, ou de causar o colapso do estado norte-coreano.
  
   Ambas as alternativas são negativas para Pequim que, presentemente, não dispõe de influência para propiciar qualquer tipo de golpe político ou militar em Pyongyang.
 
   A capacidade de resistência do regime de Kim Jong Il à avalanche de desastres (secas, inundações, fomes) que causou mais de dois milhões de mortos na última década não augura, também, viabilidade às sanções internacionais que vieram a ser adoptadas se Pequim mantiver um nível mínimo de abastecimentos para permitir a subsistência do estado norte-coreano.
 
   Em Seul reina, também, o consenso de que o colapso brusco do regime norte-coreano apresenta riscos económicos e de segurança intoleráveis.
 
   O Irão e a necessidade de preservar a capacidade de dissuasão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear são os factores que obrigam, no entanto, à adopção de medidas de contenção da Coreia do Norte.

    Se tal como aconteceu com o Paquistão, a Coreia do Norte conseguir nos próximos anos ser aceite como potência nuclear o Tratado está condenado e o regime iraniano terá excelentes perspectivas de êxito para o seu programa militar.
  
  Kim Jong Il cometeu, contudo, um erro clássico.

  Ao realizar um teste nuclear precisamente no dia em que o Comité Central do Partido Comunista chinês iniciava o seu plenário o líder norte-coreano fez perder a face ao presidente Hu Jintao.
 
   É algo de intolerável para a cultura política chinesa e levará certamente a China a repensar as alternativas de que dispõe para derrubar o "Querido Líder", preservando, no entanto, a Coreia do Norte como entidade estatal autónoma.
 
   Talvez aqui possa surgir uma oportunidade para ultrapassar o impasse se Pequim conseguir articular um acordo com os Estados Unidos que terão de propiciar garantias de segurança aos eventuais sucessores de Kim Jong Il.



Jornal de Negócios
11 Outubro 2006


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Índia e Paquistão de crise em crise




   Os ataques de Mumbai foram o culminar de um ano de acções terroristas na Índia, na maior parte perpetradas por redes islamitas, e colocaram o governo de coligação liderado pelo Partido do Congresso numa situação insustentável.
   Aos fracassos sucessivos dos serviços de informação e segurança de Nova Delhi para obstarem a atentados de organizações como os Mujahideen da Índia, apoiados por islamitas do Paquistão e do Bangladesh, aos ataques de radicais hindus contra comunidades cristãs e muçulmanas, à insurreição maoísta em Bengala Ocidental e no Centro e Leste do país, veio juntar-se o "raide" terrorista de Mumbai.

                                  A ameaça islamita na Índia
   Apesar dos operacionais que desembarcaram em Mumbai serem oriundos do Paquistão as acções mais violentas partiram recentemente do Movimento dos Estudantes Islamitas da Índia.

   As redes islamitas indianas ganharam força desde a destruição da mesquita de Ayodhya em 1992 por radicais hindus e dos motins em Bombaim no ano seguinte (a Bombaim que Catarina de Bragança levou como dote no casamento com Carlos II de Inglaterra em 1661 só assumiu o nome em maharati em 1996), enveredando pela via terrorista em contacto com militantes paquistanesas e bengalis.

   O submundo do crime organizado de Mumbai, com ligações aos emirados do Golfo Pérsico e ao Paquistão, embrenhou-se, também, em acções terroristas que tiveram o seu momento mais sangrento nos atentados organizados em 2003 pelo mafioso Dawood Ibrahim (refugiado actualmente em Karachi) e patrocina grupos radicais hindus e muçulmanos.

   Os motins anti-muçulmanos em Gujarat, com a complacência do governo estadual nacionalista hindu, em 2002, marcaram outro momento de radicalização da militância islamita na Índia.

   A acentuada degradação das condições de vida da minoria muçulmana (cerca de 150 milhões de fiéis, 14 % da população) reconhecida pelos próprios estudos oficiais, como, por exemplo, o relatório da Comissão Sachar de 2006, tem vindo a facilitar o recrutamento de jovens motivados pela ideologia jihadista.

   Desde os anos 90 que organizações como Lashkar-e-Toiba (O Exército dos Puros) e Joish-e-Mohammad (Os Guerreiros de Maomé), sustentadas pelo exército e serviços secretos do Paquistão, revigoraram com fervor fundamentalista a contestação separatista em Caxemira.

   A confluência de todas estas tendências é agora cada vez mais notória. O "raide" de Mumbai visou os símbolos cosmopolitas das elites da capital financeira da Índia, atingindo por arrasto visitantes estrangeiros, e assumiu mesmo um teor anti-judaico com o massacre no centro ortodoxo dos Lubavitch numa cidade sem tradição de anti-semitismo.

                                        De Caxemira a Cabul

   O diferendo sobre o estatuto de Caxemira, na origem directa de duas guerras entre a Índia e o Paquistão desde a partilha sangrenta de 1947, passou a ser um elemento catalisador da toda a militância islamita no subcontinente.

   O arco de crises que vai do Afeganistão (o atentado de Julho à embaixada indiana em Cabul contou com a cumplicidade dos serviços secretos paquistaneses) ao Bangladesh (o Harkat-ul-Jihad-al-Islami, Movimento da Guerra Santa Islâmica, criado durante a guerra anti-soviética no Afeganistão, tem lançado ataques na Índia a partir da fronteira bengali) paralisa o governo de Manmohan Singh que incapaz de negociar um acordo sobre Caxemira se vê obrigado a exigir a Islamabade a repressão de frentes islamitas e bandos do crime organizado.

    O governo de Asif Zardari, confrontado com elementos das forças armadas e dos serviços de informação que apoiam os islamitas, não tem condições para cumprir a exigência de Nova Delhi sem obter concessões quanto ao referendo adiado desde 1947 sobre Caxemira.

   Um agravamento das relações entre as duas potências nucleares do subcontinente é tanto mais previsível quanto maior for o aumento da contestação dos nacionalistas hindus do Baharatiya Janata que têm nas eleições legislativas de Maio uma oportunidade para regressar ao poder e retomarem uma campanha anti-muçulmana à semelhança do que aconteceu durante a sua governação entre 1998 e 2004.

   A resposta previsível por parte do Paquistão, depois de Zardari ceder às pressões dos militares, passa pela ameaça de recolocar forças ao longo da fronteira com a Índia o que agravaria ainda mais a situação na Província do Noroeste e nas áreas tribais, aproveitando aos tabilan, além dos separatistas do Baluchistão, no sul do país.

   Em Dezembro de 2001 um ataque suicida dos islamitas do Lashkar-e-Toiba ao parlamento de Nova Delhi criou uma situação de tal tensão que só a mediação de Washington evitou in extremis uma guerra entre a Índia e o Paquistão.

   Ao acabar 2008 a tensão está de volta, mas com a frente afegã a reduzir a margem de manobra, o acordo nuclear entre Washington e Nova Delhi ameaçado por um futuro governo nacionalista hindu, e um rol de agravos cada vez mais pesado.


Jornal de Negócios
03 Dezembro 2008

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domingo, 2 de setembro de 2012

A caminho da pior das derrotas



Ponte da Amizade
Afeganistão-Rep. Socialista Soviética do Uzbequistão
1 Fevereiro de 1989

     O mais difícil, quando tudo estiver acabado, vai ser encenar qualquer coisa que tente iludir a desgraça à imagem do que foi a partida do último soldado soviético do Afeganistão, protagonizada pelo general Boris Gromov ao atravessar a ponte sobre o Amu Darya para o Uzbequistão ao sol de um meio-dia de Fevereiro de 1989.

  A mais poderosa aliança militar do mundo, os seus aliados australianos, sul-coreanos e demais envolvidos caminham inexoravelmente para um fracasso militar e uma catástrofe política no Afeganistão, numa guerra que, passados oito anos, falha nos objectivos e se revela equívoca na estratégia e tácticas.

                                        Guerra para quê?

   Firmar um governo em Cabul suficientemente forte para impedir que o Afeganistão reverta a favor de investidas radicais islamitas na Ásia Central e covil de organizações terroristas é, agora, sacrificadas a realidades intratáveis a democratização ou os direitos das mulheres, o objectivo da NATO.

  Limitar a produção e tráfico de drogas, desviando, na medida do possível, os seus proventos do financiamento de actividades subversivas e terrorristas, surge, subsidiariamente, como condição muito necessária, mas não impreterível, para a NATO e aliados virem a conformar-se com uma autoridade autocrática em Cabul capaz de evitar a desagregação do estado afegão por via de acordos com potentados regionais e senhores da guerra.

   Barack Obama acabou de selar o compromisso de mais tropas no terreno e maior compromisso na formação de militares e polícias afegãos na expectativa de dentro de quatro a cinco anos poder iniciar uma retirada gradual de tropas.

   Em números redondos, os Estados Unidos contarão, em meados de 2010, com 100 mil militares no Afeganistão e os seus aliados somarão outros 40 mil homens, chegando, assim, a níveis de presença no terreno superiores aos cerca de 120 mil homens que a União Soviética mobilizou ao apogeu da intervenção que se arrastou por uma década desde o final de 1979.

   Afeganizar a guerra, duplicando os actuais efectivos do exército para 240 mil homens e da polícia para 160 mil, afigura-se difícil de conseguir a curto prazo.

   As actuais taxas de deserção no exército rondam um para quatro e os efectivos mal chegam aos 134 mil homens. A desproporção étnica, dada a dificuldade de recrutamento entre a maioria pashtun (40% da população), é, ainda, perigosa, dado que os tadjiques (um quarto da população) representam 41% dos efectivos e dominam as chefias militares e do ministério da defesa.

   Baixas civis e militares muito aquém das provocadas pelas tácticas de terra queimada e gente massacrada da URSS, legitimação internacional por obra de mandatos da ONU, distinguem, no imediato, a guerra da NATO da invasão soviética.

   Os investimentos em infra-estrutruras e desenvolvimento rural claudicam, no entanto, ainda mais do que os tentados durante a intervenção soviética, e a corrupção administrativa é tão endémica e pervasiva quanto a dos anos oitenta e surge potenciada pelo tráfico de drogas, que ronda, presentemente, os 4 mil milhões de dólares por ano.

                                          Pior do que antes

  Um dos factos alarmantes resume-se a isto: sem apoios estrangeiros significativos (como o arco que uniu Washington, Islamabade, Riade e Pequim contra Moscovo) ou equipamento militar de ponta (caso dos fatais mísseis Stinger, que fizeram claudicar o domínio aéreo soviético), a insurreição taliban no Sul e Leste do Afeganistão, além da guerrilha de históricos radicais islamitas como Gulbuddin Hekmatyar, e revoltas locais alastrando além das áreas de maioria pashtun, replicam para pior o impasse que levou à derrota soviética.

  Desta feita, o pecado original não advém de um erro de cálculo estratégico ao desencadear a invasão, como ocorreu com a intervenção soviética de Dezembro de 1979, apesar de desde os idos de Outubro de 2001 a investida militar liderada pelos Estados Unidos esbarrar contra as resistências dos tradicionalismos locais e, sobretudo, claudicar ante algo que implica pensar estratégia.

   Um governo afegão alinhado com a Índia (alvo de sucessivos atentados à sua representação diplomática em Cabul desde que Nova Deli apostou em Hamid Karzai ou quem seja poder na capital afegã e se mostre adverso a submter-se ao Paquistão) será sempre tido em Islamabade como um risco estratégico.

   A contenção dos riscos de subversão radical islamita nas províncias pashtun na fronteira do Afeganistão nunca será tida em Islamabade como algo que valha contrição militar face à Índia e, pelo lado do Paquistão, o vizinho da Ásia Central pode ir ardendo a fogo lento.

                                                  Nada ajuda

   A acrescer risco ao compromisso de Obama, advém o crescendo de tensão com o Irão, as dificuldades previsíveis para cumprir o calendário de retirada do Iraque, e os custos da guerra num clima pouco propício, sem que o governo de Cabul releve lisura ou eficácia administrativas.

  Custos de 3,6 mil milhões de dólares/mês, quase mil mortos norte-americanos até agora, outros 30 mil milhões de dólares por ano para pagar o reforço de efectivos no Afeganistão, tornam cada vez mais difícil de fazer aceitar uma guerra por um eleitorado que dentro de um ano decidirá as maiorias no Congresso de Washington.

  As contas estão feitas e as realidades no terreno obrigariam a um muito maior investimento em tropas e ajuda económica efectiva que são inaceitáveis para os eleitorados ocidentais.

  Quando a guerra e os caixões retornarem em força, passado o Inverno no Afeganistão, e se aproximarem as eleições gerais britânicas e as votações para o Congresso de Washington no final de 2010, pouco haverá para apresentar de positivo da investida militar.

   A partir daí será o princípio do fim, a busca afogueada de compromissos para uma retirada, sem que se possa presumir o que venham a ser as consequências globais da pior das derrotas possíveis: a que nem se pode assumir como tal.



Jornal de Negócios
02 Dezembro 2009

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Afeganistão: à espera da Primavera

  Helmand, Afeganistão


   Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

   A ineficácia e corrupção da administração do presidente Hamid Karzai, a insuficiência de efectivos militares e de meios financeiros para a reconstrução de um país devastado por 30 anos de guerra conduziram a um impasse.

   Os aliados, com apenas cerca de 70 mil homens no terreno, não têm condições para assegurar o controlo das províncias de maioria pashtun do sul e leste do Afeganistão e ao optarem pelo recurso sistemático a ataques aéreos reforçaram a hostilidade das populações nas áreas mais sujeitas à presença dos talibans.

                           Uma guerra cada vez mais sangrenta

   A ONU estima que no ano passado, o mais sangrento desde a invasão de 2001, o número de vítimas civis tenha aumentado 39% em relação a 2007, cifrando-se em 2.119 mortes.

   Os talibans teriam causado 55% das baixas civis, mas os ataques aéreos da NATO e dos Estados Unidos seriam responsáveis por 455 mortes, apesar dos aliados reconhecerem apenas 237 vítimas.

  O agravamento da situação deu origem a críticas públicas de responsáveis norte-americanos e da NATO a Karzai, enquanto o presidente afegão exige que parem os ataques aéreos e as forças aliadas cooperem plenamente com os cerca de 80 mil homens do exército nacional não se envolvendo, designadamente, em buscas e interrogatórios não autorizados de civis.

  Numa altura em que se agrava a crise constitucional provocada pelo adiamento das eleições presidenciais para Agosto, quando o mandato de Karzai termina em Maio, o claro distanciamento entre os aliados e o presidente abriu caminho para a escolha de um sucessor que terá de ser aceitável para as tribos pashtun (cerca de 40% da população) e para as minorias tadjiques (aproximadamente 27% dos habitantes do Afeganistão), além de hazaras, uzbeques e turcomenos.

   Na expectativa de um recrudescimento dos combates no início da Primavera, as negociações políticas entre as facções afegãs e a recandidatura de Karzai estão dependentes da estratégia que os aliados venham a definir na cimeira da NATO de Abril.

                                            Irredutíveis pashtun

   Os talibans, nomeadamente a frente liderada pelo Mullah Omar e as forças comandadas por Jalauddin Haqqani, recusam quaisquer conversações, e só alguns comandantes islamitas isolados, designadamente na província de Helmand, aceitaram até agora tréguas a troco de assumirem o controlo das suas áreas de influência.

   Acordos pontuais fomentados, ora pelas forças aliadas, ora pelo governo de Cabul, têm permitido a milícias tribais e às forças dos chamados "senhores da guerra" controlarem vastas áreas territoriais.

   A produção de ópio diminuiu 19% no ano passado em relação a 2007, mas continua a ser suficiente para financiar o esforço de guerra dos talibans e alimentar a corrupção dos poderes públicos.

   Restrito presentemente a 12 das 34 províncias do país, o cultivo de ópio é também motivo de divergências entre os aliados (norte-americanos e britânicos consideram a erradicação um objectivo imediato ao contrário da maior parte dos demais contingentes da NATO) e as autoridades afegãs.

   Pelo menos 15% dos 32 milhões de afegãos dependem do cultivo de ópio e as políticas de substituição de culturas têm produzido resultados limitados, enquanto persistem desacordos sobre a viabilidade de programas de compra directa das colheitas aos produtores, legalizando a principal fonte de rendimento dos camponeses, sobretudo em Helmand e noutras províncias do sul.

   A irredutível resistência dos talibans pashtun no sul e no leste do Afeganistão é inseparável da rebelião islamita e tribal no Paquistão e o consenso entre os aliados é de que só acordos políticos, mitigando os apoios além fronteiriços, poderão evitar um agravamento da situação militar.

                                       O futuro da guerra

   Paquistaneses e indianos favorecem facções rivais no Afeganistão, mas, tal como a China e o Irão, têm interesse na viabilização de gasodutos, oleodutos e rotas comerciais que implicam a pacificação do território afegão.

   Negociações envolvendo paquistaneses, indianos, chineses e iranianos, além das repúblicas da Ásia Central onde a Rússia tem ascendente, são um pressuposto para a estabilização do Afeganistão, mas dependem da contenção dos talibans que no ano passado infligiram mais de 290 baixas aos aliados.

   A administração Obama considera duplicar o contingente norte-americano com mais 30 mil homens (o máximo reforço possível dadas as limitações orçamentais e humanas das forças armadas de Washington e ainda assim dependente da redução da presença no Iraque), mas conta com escasso apoio dos aliados.

   Mesmo um reforço dos 1 100 homens do contingente australiano não compensará a retirada de tropas canadianas e holandesas, ao mesmo tempo que a maior parte dos membros da NATO dificilmente mobilizarão mais de 10 mil militares para o cenário de guerra no Afeganistão.

   Um total de 100 mil homens é ainda insuficiente.

   Treinar e financiar o exército afegão para que chegue aos previstos 130 mil efectivos, encetar acções ofensivas no sul e leste do país e manter simultaneamente condições de segurança para projectos de desenvolvimento (para os quais não existem verbas, nem meios humanos) são objectivos que ultrapassam os meios previsivelmente disponíveis.

  O objectivo essencial de um reforço militar parece assim limitar-se a conter o alastramento e intensificação das ofensivas talibans de forma a criar condições diplomáticas para envolver os países vizinhos em negociações.

   A deriva islamita dos pashtun no Paquistão não augura, no entanto, hipóteses de sucesso a curto prazo para a estabilização do Afeganistão mesmo numa variante minimalista em que o governo de Cabul seja reconhecido como autoridade simbólica nos principais centros urbanos e entre as minorias étnicas.

   Um reforço militar implica no imediato uma intensificação dos combates e um aumento das vítimas civis, sem contrapartida na melhoria na oferta de equipamentos e serviços às populações, e poderá contribuir para uma alienação ainda maior dos pashtun.

   O que acontecer esta Primavera determinará o futuro da guerra no Afeganistão.

   Se os Estados Unidos e a NATO não conseguirem conter a guerrilha taliban, a vontade política para prosseguir o esforço de guerra e investir na reconstrução do Afeganistão claudicará irremediavelmente.



Jornal de Negócios
18 Fevereiro 2009

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Al Qaeda 2010

   Umar Farouk Abdulmutallab
   Captura de Umar Farouk Abdulmutallab
   Detroit, 25 Dezembro 2009


    Outro terrorista oriundo de família milionária, à imagem do patrono Osama Bin Laden, desta feita o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, marcou no dia de Natal a agenda terrorista Al Qaeda 2010.

   O ataque fracassado serviu para relembrar que na "frente distante" dos santuários do Islão, na lógica estratégica que Bin Laden definiu e outros prosseguem, os ataques a aviões, serviços de transportes ou alvos civis capazes de proporcionarem grande número de vítimas continuam a ser um dos objectivos essenciais dos radicais islamitas no Ocidente.

   Salvo recurso de acesso a armas radiológicas ou biológicas - o pior dos cenários -, as organizações terroristas islamitas apostam tudo por tudo na escalada de atentados que possam ultrapassar o impacto dos ataques de 11 de Setembro, das carnificinas de Madrid em 2004 ou de Londres no ano seguinte.

   A táctica terrorista de afrontamento é uma droga dura que obriga a redobrar a dose para conforto dos fiéis e temor de outrem.

                                          O eixo iemenita

    Da base ("al qaeda" significa precisamente "base" ou "fundação") paquistanesa-afegã criada nos finais dos anos oitenta pelos jihadistas em guerra contra a União Soviética até à actual galáxia de grupos terroristas com presença notória no Iémen e na Somália, além do Paquistão, os radicais islamistas perderam muita da sua sofisticação organizacional.

   O ataque ao voo da Northwest, copiando o padrão estabelecido em Dezembro de 2001 pelo bombista do sapato Richard Reid, que tentou também utilizar pentrita para derrubar um avião da American Airlines, revela a facilidade de recrutamento nos meios islamistas, mas mostra, igualmente, a crescente dificuldade em estabelecer células clandestinas na Europa.

   Na "frente próxima" da luta contra regimes ditos apóstatas e alvo de alegadas ocupações por infiéis, a galáxia radical islamita tem, no entanto, alvos bem mais precisos e uma base de apoio substancial, pelo que a verborreia ideológica se revela mais mortífera e eficaz ao potenciar conflitos étnicos-religiosos.

   O Paquistão, mais ainda do que o Afeganistão, é um palco de actuação privilegiado, sobretudo depois de fracassar a campanha antixiita de Abu Al Zarqawi no Iraque, mas, fustigados pela repressão e operações antiterroristas norte-americanas, os jihadistas têm vindo a refugiar-se mais recentemente no caótico Iémen.

   Fruste Estado marcado pelas dissensões tribais, o Iémen foi desde os anos setenta, juntamente com a Arábia Saudita, uma das principais fontes de recrutamento jihadistas e logo em Outubro de 2000 o contratorpedeiro norte-americano USS Cole foi atacado no porto de Adén.

   O Iémen, mais ainda do que a Somália, continua a apresentar condições para sustentar operações terroristas na península arábica e na África Oriental, servindo, ainda, de base para operações contra alvos ocidentais.

   Não por acaso, dos 198 presos que restam em Guantánamo 91 são imenitas e a eventual libertação de muitos destes detidos mostra-se problemática.

   Dois dos implicados na organização do ataque de Natal são imenitas libertados de Guantánamo em Novembro de 2007 que, após um período de doutrinamento antiterrorista na Arábia Saudita, acabaram por ressurgir no Iémen como líderes militares da Al Qaeda local.

   Os grupos radicais islamitas parasitam os conflitos locais do Magrebe à Indonésia, mas a sua sorte varia consoante conjunturas diversas e na presença de grupos com forte motivação nacionalista, conforme ocorre na Palestina ou no Líbano, a ideologia jihadista propagada por Bin Laden dificilmente se consegue implantar.

                               Um bando para matar muçulmanos

   De Caxemira à Argélia, tensões antigas propiciaram o advento de grupos radicais que, além dos seus objectivos locais, acabam por facultar operacionais para ataques a Ocidente.

   Os ataques na "frente distante", teorizados pelo saudita Bin Laden e o egípcio Ayman Al Zawahiri, revelaram-se efectivos, mas exigem financiamentos e uma rede organizacional que, presentemente, não estão ao alcance da maior parte das células jihadistas.

   A maioria das vítimas das investidas islamitas terroristas na matriz Al Qaeda acaba, assim, por ser gente dos estados da verdadeira linha da frente, os países muçulmanos.

   Nem os vis cristãos do dessacralizado Ocidente ou os Coptas do Egipto são as maiores vítimas da Al Qaeda.

   Muçulmanos, sobretudo xiitas, foram o principal alvo dos atentados cometidos nos últimos anos pelos terroristas que reivindicam o patrocínio de Bin Laden e Al Zawahiri.

   Os 313 atentados reivindicados pela Al Qaeda ou por organizações fiéis a Bin Laden entre 2004 e 2008 provocaram 3.010 mortos.

   Mesmo considerando os ataques em Madrid, em 2004, e em Londres, no ano seguinte (os 20 mortos do atentado de Outubro de 2005 em Bali, entre eles 15 indonésios, foram obra da Jemaah Islamiyah, uma organização local bem mais antiga e autónoma), só 12% das vítimas (371) era ocidental. A maioria dos mortos foi constituída por iraquianos, argelinos e egípcios.

   Considerando o período precedente, entre 1995 e 2003, 23 atentados reivindicados pela Al Qaeda resultaram em 3.454 mortos, mas aqui entram os ataques de 11 de Setembro, que causaram 3.021 vítimas.

   Inclusivamente na fase de maior sofisticação e eficácia terroristas, a Al Qaeda concentrou a sua acção em países de maioria islâmica (20 dos atentados) e, entre 433 mortos verificados em outros ataques efectuados entre 1995 e 2003, só 19% das vítimas (88 pessoas) era ocidental.

    A frente de ataque jihadista é fruste porque nada adianta como alternativa, resumindo-se à intransigência ante qualquer forma de modernidade alegadamente atentatória a valores atávicos de um Islão primordial.

   Fechada em si mesma, a Al Qaeda continuará em 2010 a tentar um ataque espectacular capaz de rivalizar com o 11 de Setembro, mas, mais do que nessa frente distante anti-ocidental, o terrorismo jihadista inspirado por Bin Laden continuará a seguir um padrão mortífero que o caracteriza como uma verdadeira máquina de matar muçulmanos.



Jornal de Negócios
20 Dezembro 2009

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A outra crise intratável




   Dia após dia, Barack Obama e seus relutantes aliados europeus, canadianos e australianos, vão somando reveses na frente de guerra afegã e deparam-se ante uma crise insanável e cada vez mais alarmante no Paquistão.

   Obama, os presidentes do Afeganistão, Hamid Karzai, e do Paquistão, Asaf Ali Zardari, respectivas chefias militares e dos serviços secretos, estão reunidos em Washington numa cimeira de emergência que vai por à prova a nova estratégia norte-americana para o arco de crises que vai do Médio Oriente, passa pela Ásia Central e culmina no subcontinente indiano.

   A tentativa americana e europeia de afastar Karzai nas eleições presidenciais de Agosto falhou e, na ausência de alternativas, a Casa Branca e a NATO vão ter de continuar a negociar com um governo em Cabul que não poderão deixar cair.

   Karzai tem deixado bem claro, ao jogar com os interesses de russos, iranianos e indianos no Afeganistão, que sabe usar contrapesos à dependência dos seus reticentes patronos ocidentais.

                                      Uma mão sem ás pashtun

   A insurreição, que mobiliza boa parte dos pashtun (40% da população afegã), e a produção de ópio, nervo da guerra, estão para durar e a estratégia de contenção por parte da NATO arrisca o fracasso à medida em que os taliban ganham força no Paquistão e consolidam a sua presença no sul do país e leste do Afeganistão.

    A incapacidade do exército paquistanês para obstar às investidas taliban para além das áreas tribais nas regiões fronteiriças com o Afeganistão, levanta cada vez maiores dúvidas sobre a capacidade do governo de Islamabade para garantir a integridade do Estado sem recorrer ao tradicional recurso de confronto com a Índia.

   As dúvidas expressas publicamente por altos responsáveis norte-americanos sobre a segurança das instalações nucleares militares e civis paquistanesas são, mais do que mera manobra de propaganda, expressão de uma real incerteza acerca dos riscos potenciais que o Paquistão representa em termos de eventual desvio de materiais capazes de produzir bombas sujas para não falar da reactivação de redes de proliferação clandestina como ocorreu com o bando de Abdul Khan nos anos noventa.

   Reforçar a ajuda militar dos Estados Unidos ao Paquistão (mil milhões de dólares anuais desde os atentados de 2001) com pretexto de apoiar acções anti-terroristas e contra-insurreição, além de verbas para o sistema de ensino (num país que apresenta deploráveis níveis educacionais com mais de metade da população analfabeta), não colhe presentemente grande favor no Congresso de Washington dado os parcos resultados obtidos até hoje.

   Um novo pacote de ajuda económica a Islamabade de 7,5 mil milhões de dólares em cinco anos proposto pela Casa Branca enfrenta resistência no Congresso e nem sequer a hipótese do líder da oposição conservadora Nawaz Sharif integrar um governo de salvação nacional servirá de contrapartida aceitável dada a ineficácia e corrupção da administração civil no Paquistão.

   Ao contrário do que sucede no Afeganistão as organizações taliban paquistanesas ultrapassam o grupo étnico pashtun (15% da população) e começaram a expandir-se pelas províncias do Punjab e de Sind, apesar de não terem presença significativa em cidades como Lahore e Karachi.

   Para o exército paquistanês, uma campanha militar em larga escala contra os taliban não é uma prioridade estratégica (80% dos efectivos continuam concentrados na fronteira com a Índia) e na região do noroeste a implantação dos integristas continuará a sustentar a insurreição dos pashtun afegãos ao mesmo tempo que alarma cada vez aliados tradicionais como a China e a Arábia Saudita.

                                           Póquer com a Índia

   Face à urgência aflitiva em Cabul e Islamabade, surge a Índia que usa o Afeganistão como frente de batalha para fragilizar o Paquistão e impor-se como parceiro preferencial dos Estados Unidos, potência pacificadora da Ásia Central e no Oceano Índico frente à China.

   O acordo nuclear de 2008 patrocinado por Washington - que permite à Índia adquirir tecnologias, equipamentos e combustíveis para fins civis sob supervisão limitada da Agência Internacional de Energia Atómica, libertando recursos para o programa nuclear militar, sem que Nova Delhi, tal como o Paquistão, tenha subscrito o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, ou o Tratado de Interdição Completa de Testes Nucleares de 1996 - não se traduziu de momento num realinhamento estratégico.

   A prazo um entendimento entre Nova Delhi e os Estados Unidos à custa de Islamabade é, no entanto, uma alternativa cada vez mais viável à medida em que o esforço de guerra no Afeganistão fica comprometido pela presença taliban no Paquistão.

   De momento, Obama e os seus averbam derrotas tácticas que comprometem projectos de estabilização na Ásia Central e no Paquistão e tudo isso dá asas ao governo que advir das eleições indianos e imensa margem de manobra ao Irão.

   Para quem tiver de jogar no xadrez da geopolítica, tudo isto é muito pior do que os dramas da General Motors e os activos tóxicos de Wall Street.



Jornal de Negócios
06 Maio 2009

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domingo, 19 de agosto de 2012

A lenta ascensão da Índia




   A viagem à Índia de Cavaco Silva e de nutrida delegação empresarial vale bem a pena, sobretudo este ano, depois de Lisboa e Nova Delhi terem perdido tanto tempo em declarações de intenções falhadas e contenciosos que nem pouparam as comemorações da chegada de Vasco da Gama a Calecute.
  
   O tempo é propício depois doutro ano se ter passado em que a Índia acusou Islamabade de cumplicidade em actos terroristas, reavivando o risco de nova guerra com o Paquistão, tal como em 1999 e em 2001, no que seria o quarto conflito militar desde a Partilha do Raj em 1947.

   Os ventos correm de feição pois 2006 foi, também, o ano em que a Índia brilhou no Fórum de Davos, reforçou as relações económicas com o Irão, viu com agrado o triunfo de expatriados como Lakshmi Mittal ainda que bem mais importantes tenham sido os êxitos de empresas como a Tata Motors e a Infosys Technologies.

   Pequim e Nova Delhi relançaram, igualmente, no preciso ano em que os Estados Unidos reconhecerem o estatuto de potência militar nuclear da Índia, a cooperação económica e resolveram os principais diferendos fronteiriços, que provocaram uma guerra em 1962.

   A coligação liderada por Manmohan Singh chega assim a 2007 com uma considerável rede internacional de protecção – apesar dos imprevisíveis confrontos com o Paquistão, a crise iraniana, a destabilização crescente do Bangladesh e o recrudescer da guerra civil no Sri Lanka – que oferece boas perspectivas para sustentar o boom económico que desde o início da liberalização em 1991 tem possibilitado à Índia um crescimento anual na ordem dos sete por cento.

                              O crescimento pelo lado de dentro

   O modelo indiano de desenvolvimento prosseguido na última década e meia tem assentado essencialmente na mobilização do capital privado interno tanto mais que o investimento directo estrangeiro representa menos de 1 por cento do Produto Interno Bruto, que está prestes a atingir os 930 mil milhões de dólares, sendo inclusivamente ultrapassado pelas remessas dos emigrantes.   

   A percentagem das trocas comerciais com o exterior já superou os 30 por cento do PIB, com as importações a ultrapassarem as exportações, mas o consumo interno é o motor da economia, equivalendo a mais de 60 por cento de toda a riqueza gerada no país.

   A fraca criação de emprego, na ordem de um por cento ao ano, a par dos persistentes défices orçamentais, é a maior pecha do desenvolvimento indiano e o tão dinâmico sector das indústrias de serviços, cujas exportações representam mais de 30 por cento das vendas ao exterior (metade por via de produção de software), absorve no subsector das tecnologias de informação apenas 1,3 milhões dos 400 milhões de almas que constituem a força laboral do país. 

   Apesar de 70 por cento dos 1,13 mil milhões de indianos residirem em áreas rurais o contributo do sector agrícola para o PIB queda-se pelos 22 por cento e a indústria (27 por cento do PIB) revela-se incapaz de absorver mão-de-obra excedentária.

   Uma política industrial ainda orientada para a promoção não-concorrencial de pequenas e médias empresas nacionais e leis laborais de protecção de emprego dos dez por cento de trabalhadores cobertos pelo sistema herdado dos anos 50 excluem do mercado de trabalho entre três a cinco por cento da população.

   Ainda que os padrões de desigualdade social na Índia sejam inferiores aos registados na China ou no Brasil, o baixíssimo rendimento per capita anual de 830 dólares e a subsistência de 380 milhões de pessoas com menos de um dólar disponível por dia condenam o país a um longo e penoso calvário de miséria.

   Os cerca de 250 milhões de indianos tidos como pertencentes às classes médias serão factor de inovação e promotores de novos padrões de consumo, mas a outra Índia é um travão ao desenvolvimento.

   Um sistema partidário em que os dois grandes partidos – Congresso e Bharatiya Janata – estão condenados a coligações pulverizadas pelos interesses de forças regionais, uma burocracia omnipresente, infra-estruturas e serviços básicos inadequados são outras pechas da sociedade indiana que limitam sensivelmente as aspirações das elites de Nova Deli, Mumbai ou Chennai.

                                 A democracia e outras vantagens

   A Índia conta, contudo, com vantagens de maior que eventualmente lhe podem vir a garantir um futuro bem mais auspicioso do que o reservado ao único país que se lhe pode comparar em peso histórico e demográfico.

   Em primeiro lugar, a Índia apresenta uma dinâmica demográfica mais favorável.

    Em 2020, a idade média será de 29 anos, contra 37 anos na China e 45 anos na Europa Ocidental para termo de comparação.

   A Índia, que ultrapassará antes de meados do século a massa humana da China, não se confrontará assim com o problema de sustentabilidade de uma população envelhecida, apesar de ter de resolver rapidamente a crescente quebra no rácio mulheres-homens provocada pelo infanticídio e aborto de bebés do sexo feminino.

   Em segundo lugar, o descalabro ambiental que avassala a China está longe de se fazer sentir com semelhante acuidade na Índia (devido em parte ao menor crescimento industrial) que conta, ainda, com padrões de povoamento mais equilibrados.

   Em terceiro lugar, a prevalência do inglês como língua veicular das elites e dos meios de negócios facilita grandemente a integração económica global da Índia, apesar da mediocridade do sistema de ensino público.   

   Finalmente, uma imprensa livre, tribunais independentes e um sistema democrático que ultrapassou o sobressalto da "Emergência" imposta por Indira Ghandi em 1975 e continua a resistir a confrontos religiosos, guerrilhas maoístas e separatistas, banditismo e níveis de corrupção inauditos em estados como Bihar ou conflitos de castas virulentos, representam, por si só, por maiores que sejam as suas insuficiências, um valor inestimável para o desenvolvimento da Índia.

Jornal de Negócios
10 Janeiro 2007

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A China ao longe - Jialong e Zheng He





   O Jialong tem capacidade para mergulhar até 7000 metros de profundidade, batendo assim o submersível japonês Shinkai 6500 que conforme o nome indica consegue chegar aos 6500 metros de profundidade e é o modelo mais avançado em todo o mundo, superando os rivais russo, norte-americanos e franceses.

   A exemplo dos russos, que em Agosto de 2007 colocaram uma bandeira no leito de uma zona contestada do Oceano Ártico, também os chineses anunciaram ter mergulhado a 3759 metros para cravar a sua bandeira nas profundezas do Mar do Sul da China.

   O submersível Jiaolong, em honra do mítico dragão das águas, com três técnicos a bordo do Centro de Pesquisa Científica de Construção Naval e apoio logístico da Marinha chinesa, efectou o seu mergulho em Julho perto de águas territoriais das Filipinas, mas o êxito do teste só foi divulgado no final de Agosto.

   O Jialong tem capacidade para mergulhar até 7000 metros de profundidade, batendo assim o submersível japonês Shinkai 6500 que conforme o nome indica consegue chegar aos 6500 metros de profundidade e é o modelo mais avançado em todo o mundo, superando os rivais russo, norte-americanos e franceses, asseverou a maior parte da imprensa.

   As revistas de oceonagrafia e os institutos especializados rectificaram de imediato estes dados sem que lhes tenha sido prestada a atenção devida, mas já lá vamos.

   Os testes do Jialong começaram o ano passado e em 2011 o submersível deverá atingir os 5000 metros de profundidade antes de em 2012 testar a sua capacidade máxima.

   Ao chegar às páginas de "The New York Times", precisamente no fatídico dia 11 de Setembro, quase duas semanas depois de ter sido notícia em Hong Kong e nos órgãos oficiais chineses, a novidade sobre os testes do Jialong suscitou de imediato comentários contraditórios sobre as reivindicações territoriais de Pequim no Mar do Sul da China e o crescente poderio da marinha de guerra chinesa.

   Aos alertas sobre as ambições da China para explorar riquezas minerais nos leitos dos oceanos, além do alarme sobre o risco de Pequim poder vir a obter informação classificada espiando cabos submarinos ou recuperando material militar de outros países, juntaram-se as lamentações sobre a perda de liderança dos Estados Unidos na investigação de ponta.

   As litanias dos pessimistas, deprimidos pela forma como os Estados Unidos cedem passo à China na investigação de energias alternativas, designadamente painéis solares, ignorou mesmo os feitos tecnológicos de uma das principais instituições de estudos oceanográficos do país.

  O "Woods Hole Institute" de Massachusetts desenvolveu um submersível não-tripulado para exploração de profundidades além dos 4000 metros.

   O Nereus, neste caso baptizado em honra do senhor da águas do Mar Egeu da mitologia grega, em Maio do ano passado mergulhou a 10 092 metros na Fossa da Marianas e, ao custo de 8 milhões de dólares por unidade, não presentemente rival.

   Afinal, mesmo nas profundezas dos oceanos, nem tudo está perdido para os Estados Unidos.

 



                                           AS ÁGUAS DO ÍNDICO

   Em Nova Delhi agravou-se, entretanto, a preocupação com mais um desaire na disputa estratégia com Pequim.

   No contencioso contam-se disputas fronteiriças com a China nos contrafortes dos Himalaias, o apoio de Pequim aos projectos nucleares civis do Paquistão e o risco de agravamento de tensões quando se iniciar o processo de reincarnação do Dalai Lama, mas para a Índia o mais assustador nos últimos anos tem sido a crescente presença chinesa no Oceano Índico.

   Em Julho a Índia recebeu o líder da junta militar da Birmânia, ignorou protestos contra o regime ditatorial do general Than Shwe, assinou acordos de cooperação económica e protocolos de segurança contra movimentos separatistas dos estados de Nagaland, Manipur e Mizoran, além de obter novas promessas de acesso ao gás natural que irá ser extraído no Golfo de Bengala.

   Pequim facturou, no entanto, muito mais ao receber este mês o general Shwe.

   Tal como a Índia a China tomou nota da convocação de eleições para Novembro pela junta e não contestou os planos dos militares para se perpetuarem no poder.

   Para trás ficaram também os desentendimentos que resultaram da fuga para a China de mais de 30 mil refugiados na sequência de uma ofensiva militar em Agosto de 2009 contra guerrilheiros de etnia Wa, Kachin, Shan e Kokang.

   Pequim comprometeu-se a controlar os separatistas dispersos ao longo da fronteira com Yunnan que combatem os militares de Naypyidaw.

   Garantida a necessária estabilidade fronteiriça pode continuar a avançar a construção de oleodutos e gasodutos do porto de Kyaukpru até à província de Yunan.

   O volume previsto de compras chinesas através destes oleodutos e gasodutos está estimado em 22 milhões de toneladas de crude e 12 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano.

   De resto empresas chinesas já investiram este ano na Birmânia mais de 8 mil milhões dólares em projectos ligados sobretudo ao sector da energia.
Em matéria de acesso aos recursos naturais da Birmânia a China bate por completo a Índia.

   O pior para os indianos é, contudo, a cooperação naval entre Pequim e a junta militar.

   Dois navios de guerra chineses aportaram este mês, pela primeira vez, num porto da Birmânia, perto de Rangoon, na viagem de retorno de missões anti-pirataria ao largo da Somália.

   A China coopera na construção de diversos portos de águas profundas na Birmânia e, face às apreensões de Nova Delhi, argumenta pretender apenas vir a utilizar essas instalações para fins comerciais.

   Gás natural ou petróleo importados do Golfo Pérsico ou da África Ocidental poderão ser canalizados através dos portos birmaneses para os oleodutos e gasodutos ligados a Yunnan, permitindo encurtar as viagens entre seis a sete dias ao eliminarem a necessidade de utilizar a rota dos Estreitos de Malaca.

   Para a Índia o que está em curso é a concretização de estratégia de presença naval chinesa no Índico que vai muito além da vertente comercial.

   Pequim não só investe na construção ou requalificação de portos na Birmânia, mas também no Bangladesh, em Chittagong, no Paquistão, em Gwadar, e este ano o governo do Sri Lanka acordou com Pequim a reconstrução do porto de Hambatota.

   A Índia desespera e a China evoca o grande almirante Zheng He que no início do século XV chegou a Ormuz e Melinde.


HOJEMACAU
16 Setembro 2010

http://hojemacau.com.mo/?p=2521