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sábado, 1 de setembro de 2012

Akhmátova e Berlin: ninguém morre no mundo

    


   "Se eles matam os poetas é porque respeitam a poesia", asseverara, nos anos trinta, o perseguido Óssip Mandelstam a Anna Akhmátova.

   Muitos anos depois do assassínio do poeta, já perto do fim, a velha senhora haveria de lembrar, "falando de viés" como profetizara o seu protegido e admirado Iósif Bródski: "Toda uma geração passou por mim como através de uma sombra".

   Anna Andréievna, "a maior poeta (nunca gostou que lhe chamassem poetisa) da Rússia só comparável à infeliz e trágica Marina Tsvietáieva " rendeu-se ainda menina à poesia e, com o seu marido, Nikolai Gumiliov, foi um dos expoentes máximos do acmeísmo, um movimento que a partir de 1909 se propôs superar o simbolismo, por via do credo da simplicidade, concisão e perfeição das formas poéticas.

   Nascida perto de Odessa, em 1889, a vida de Akhmátova é a Rússia marcada pela desgraça.

   Em 1921, Gumiliov (de quem se separara em 1918, após oito anos de casamento) é fuzilado por alegada conspiração anti-soviética.

   O filho do casal, Lev Gumiliov (1912-1992), reconhecido durante a perestroika de Gorbatchov como um dos mais brilhantes e controversos etnólogos e historiadores do país, esteve preso e exilado de 1939 a 1945 e de 1949 a 1956, acabando de relações praticamente cortadas com a mãe.
  
   O historiador da arte Nikolai Punin, com quem foi casada de 1924 a 1937, seria preso em 1949 e morreria quatro anos depois num campo de concentração.

   O desgosto e morte amargurada de Aleksandr Blok, em 1921, cúmplice virtuoso de poesias ("Tudo morre no mundo: as mães e a juventude", no dizer de Jorge de Sena, que o traduziu e admirou "um dos versos mais extraordinários que já um poeta escreveu"), a deportação de Mandelstam morto na prisão, em 1938 ("Vivemos num país ora irreal e estranho", assim começa a sátira a Stalin que lhe selaria o destino), o exílio e suicídio de Tsietáieva, em 1941 ("Só resta a alma, nascida em qualquer parte"), o ostracismo de Pasternak ("O escuro da noite jorra sobre mim" ) que, em 1960, a precedeu seis anos na morte, sangraram-lhe o sentimento, mas nunca a impediram de correr pelo mundo em poesia, "fazendo milagres".

   1923 estava já condenada ao silêncio e ao martírio.

  Serão anos de cantos de amor e desgraça que culminaram num ciclo clássico: o "Requiem", iniciado em 1935, concluído em 1940, publicado na Rússia em 1989: "marido enterrado, filho na cadeia, orai por mim".

     Da poesia de Akhmátova, isolada e ignorada, apenas em 1940 viriam a surgir algumas publicações esporádicas.

     Em 1941, durante a ofensiva nazi contra Leningrado, foi evacuada para Tashkent, no Uzbequistão, e só no final da guerra regressou à cidade do seu coração; lugar onde, como tantas vezes recordava, assomava a cada pedra a maldição que Evdokia Lopukhiná, a mulher renegada por Pedro, O Grande, lançara sobre a capital imperial: "Seja vazio este lugar!".

  Mas, maldizendo a maldição da tzarina, as artes e as revoluções apossaram-se de Piter (desde sempre a designação popular para Sankt Peterburg, Petrogrado, Leningrado, a Petersburgo na versão portuguesa).

  Numa noite de Novembro do ano de 1945, um jovem académico de Oxford, destacado temporariamente para a embaixada britânica em Moscovo, acercou-se do antigo palácio dos Sheremetiev, A Casa da Fonte, e assomou ao quarto que Akhmátova partilhava numa habitação comunal.

  É esse encontro, "uma história de amor" e a sua deriva poética e política, que o romancista húngaro György Dalos reconstitui em "O Convidado do Futuro".



                                     Uma noite em Novembro

  Dois testemunhos estritamente pessoais evocam essa noite.
 
  O ensaio e memória de Isaiah Berlin, "Meetings with Russian Writers in 1945 and 1956", publicado em 1980 na "The New York Review of Books", e reimpresso na colectânea "Personal Impressions", Oxford University Press, estava já o historiador de ideias nascido em Riga, em 1909, consagrado como um dos mais influentes pensadores políticos do século.

    Outro, o "Poema Sem Herói", obra maior da literatura europeia.

    Testemunha Berlin que o poema que ouviu recitar naquela noite e que só foi terminado em 1962, após 22 anos de escrita e apuro, já então representava para Akhmátova "um memorial derradeiro à sua vida como poeta, ao passado da cidade "St Petersburg que era parte do seu ser, e, na forma de uma procissão carnavalesca de véspera de Epifania de personagens mascaradas en travesti, aos seus amigos, suas vidas, destinos e a ela própria."

   O próprio Berlin haveria, após aquela noite, de se metamorfosear numa "musa poética", na expressão de Dalos.

    Foi "a experiência mais memorável" da sua vida. O professor, de apenas 35 anos, viu-se tomado, sem erro por certo, como a personificação do que o Ocidente e a sua cultura tinham de melhor.
 
   Akhmátova evoca-o como "Homem, / nem melhor, nem pior do que os outros, / que não espalha o gelo letal / e há calor na sua mão./ Acaso " visita do futuro! --/ chegarás mesmo a minha casa/ virando à esquerda da ponte?"

  Três décadas passadas, o autor de "Quatro Ensaios sobre a Liberdade" admitiria que a poeta vira nele "um mensageiro do fim do mundo". Aquela noite seria o encontro de "duas personagens da história do mundo escolhidas pelo destino para dar início a um conflito cósmico".

  Akhmátova acreditava que o encontro com o "convidado do futuro" ("visita do futuro", na versão de Nina e Filipe Guerra) dera início à Guerra Fria e, em certo sentido, o seu sentimento trágico da vida (algo que sempre escapou a Berlin, racionalista céptico por definição) captou melhor a essência da barbárie stalinista do que o endoutrinamento liberal do professor de Oxford.

  A poeta temia o pior e, confirmando-se a sua "auto-imagem trágica de Cassandra", na expressão de Berlin, o pós-guerra na União Soviética saldou-se por uma nova vaga de repressão ideológica, de contornos nitidamente racistas e chauvinistas. Akhmátova e o seu infeliz parceiro de letras e desgraça, o escritor satírico Mikhail Zoshchenko, seriam, em 1946, alvo de uma violenta campanha de difamação que culminou num célebre processo de purga conduzido pelo ideólogo-mor do regime, Andrei Jdánov.

   A poeta, insultada como "freira e prostituta", resistiu e Zoshchenko ficou destroçado numa perseguição que, conforme escreve Dalos, revelava uma vez mais o stalinismo como "um despotismo arcaico" em que o ditador caprichava na perseguição pessoal.

   Akhmátova, tal como Pasternak, o cineasta Eisenstein, o compositor Shostakóvski, ou o romancista e dramaturgo Mihhail Bulgákov anos antes, foi apenas uma das vítimas do arbítrio do déspota, do totalitarismo e irredentismo ideológico do regime, que nesse pós-guerra tantos admiradores contou entre a intelectualidade europeia e norte-americana.

   Em Portugal, António José Saraiva, à época devoto incondicional do stalinismo ideológico, haveria, por exemplo, de elevar Jdánov a paradigma do gosto e da revolução das artes nas páginas da "Vértice".

  Abalado pela tragédia, Berlin só muitos anos depois viria a descobrir que a sua curta estada na Rússia, entre Setembro de 1945 e Janeiro de 1946, fora pretexto para acusações não só contra Pasternak e Akhmátova, mas também para processos, em 1950 e 1951, contra três irmãos do seu pai, residentes em Moscovo.

   Desses encontros no Inverno de 1945 com Akhmátova e, também, com Pasternak " que lhe falou de um romance que tinha em mente, algo "luminoso, elegante, harmonioso", o fatídico "Doutor Jivago" ", Berlin iria sublinhar que lhe "devolveram a pátria russa", de onde saíra em 1919 com apenas dez anos.





  No quarto miserável, onde Akhmátova guardava manuscritos e um célebre retrato que Modigliani lhe pintara em Paris antes da Primeira Guerra, Berlin deparou-se com "uma princesa no exílio, orgulhosa, infeliz".

    Nunca esqueceu a mulher que escreveu "A noite e a Rússia eterna permanecem em mim".

   Ela prestou-lhe a maior das homenagens: converteu-o, nas palavras da sua amiga Nadjeda Mandelstam, a viúva do poeta assassinado, "o protótipo do leitor do futuro, pois naquele maldito ano ninguém no nosso país tinha aprendido a ler como devia ser".
 
    Fez de Isaiah Berlin um testemunho que desse a ler a verdade dos tempos em que "a Rússia baixava o olhar seco, / torcia os braços e ia a direito, / diante de mim, para oriente", para o exílio e a morte que não existe nunca.



"O Convidado do Futuro", György Dalos, Ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001

"Prosas Escolhidas e Poema sem Herói", Anna Akhmátova, 292 págs., Ed. Relógio D`Água, Lisboa, 2001

Netparque
21 Julho 2001

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A alma russa e Portugal




Minhas senhoras, meus senhores,
Dami i gaspada,



  Tak natchinaiut. Goda v dva....
  É assim que começam. Pelos dois anos...

  São os primeiros versos de um poema de Baris Pasternak.

  Tak natchinaiut jit stijom. Ot mamki rvutsia v tmu mellodii.

  É assim que começam a viver de poesia as crianças. Separam-se da ama para o enigma das melodias.
  Ocorreu-me este poema e ao apresentar este livro da Siiri e do José lembro-me como tudo começou.

   Começou cedo e não foi nada fácil.

   Nem para a rapariga vinda da Estónia, nem para a rapaziada chegada de Portugal, nem para as meninas que embarcaram também daqui, de Lisboa, para lá tão longe.

   Naturalmente muito nos divertimos e sonhámos coisas imensas. À juventude nada se nega.

   Facto é, no entanto, que a Rússia soviética era uma terra cruel.

    Quando o futuro nos sorria, no final dos anos setenta, a União Soviética era, sobretudo, um império assente numa mentira que só se partilhava por ilusão, fanatismo ou estupidez imoral.

   A URSS subsistia pela força e represssão, era uma mentira que se repudiava em escárnio ou indiferença e ameaçava corromper tudo e todos.

     Demasiado poucos tinham a ousadia quase alucinada de contestar abertamente o regime e precisamente por isso eram muito temidos.
Era assim!

   Depois vivendo entre russos, vivendo com os russos e com muitos outros, começava-se, por fim, a perceber o sentido profundo da poesia de Pasternak que exigia não trair, ser fiel a si próprio.

   Bit jivim, jivim i tolko, jivim i tolka do kantza.
   Estar vivo e só vivo, e só vivo até ao fim.

   Sobrevivemos e aqui chegámos; cada qual com as suas histórias muito pessoais.

   Naquela Rússia Soviética, naquela Rússia da nossa juventude, de Portugal pouco se sabia.

   Vasco da Gama e Camões eram nomes conhecidos. Certamente.

   Da mesma maneira que tão pouco era desconhecido que Shakespeare existira ou que Colombo chegara à América.

   Bebiam por lá uma coisa horrorosa que dava pelo nome de Portvein, mas também era verdade que bebiam tudo a que pudessem deitar a mão, e Portugal era Cunhal, Eusébio --- Eusébio associado naturalmente a Lev Iashin, o grande guarda-redes da selecção soviética e do Dínamo de Moscovo ---, sobrando ainda a Amália fadista.

   Do lado de cá a nossa ignorância pasmava por igual.

   Sem meio termo a Rússia era tida como terra que tivera outrora grandes escritores e músicos, mas tudo se tinha perdido nas trevas do comunismo.

   Para os crentes comunistas e demais apaniguados, a Rússia era o sovietismo, o comunismo em todo o seu esplendor.

   Nesses tempos a Rússia pesava como uma mágoa, um insulto, uma traição.

   Era-se insultado por ter ido à Rússia, por voltar da Rússia, por desprezar o comunismo ou por suspeita de sovietismo.

   Havia, contudo, outra história com a Rússia, uma história ignorada que começou a mudar para nós a partir de 1974 e para os russos com a perestroika e o colapso do regime soviético.

   Tudo mudou e mudou de tal maneira que Roman Abramovitch acabaria por chegar a Lisboa no seu iate, em Junho de 2004, para contratar José Mourinho para o Chelsea.

   Lisboa, Portugal, são hoje ponto de passagem e destino de viagem para muitos russos, rondando 50 mil entradas por ano. Para muitas desses visitantes será uma surpresa descobrir que os contactos entre a Rússia e Portugal têm longa tradição.

   Neste livro o José e a Siri cinjem-se a Lisboa na evocação de uma relação velha de séculos. Outros roteiros estão na calha.




    Nada de deslumbramentos, no entanto.

    Na complicadíssima história da relação da Rússia com a Europa Lisboa não ocupa lugar cimeiro.

   Está longe de Amesterdão onde Pedro I foi apurar as técnicas modernas da construção naval no século XVIII e a muitas viorsti da Roma onde Gogol escreveu as “Almas Mortas”.

   Não pesa como Veneza. Na cidade de S. Marcos a Rússia contempla os túmulos de Igor Stravinski, Sergei Diaghilev ou Iosif Brodski.

   Para um russo Portugal está ainda muito longe de se comparar à França, à Grã-Bretanha, à Alemanha.

   Não foi por cá que Ivan Turgieniev partilhou amizade com Gustave Flaubert. Não foi em Lisboa que Aleksandr Gertzen se exilou, foi em Londres. Foi em Baden Baden que Dostoievski se perdeu na roleta. Foi na Toscânia e não nos Açores que Andrei Tarkovski filmou “Nostalgia”.

   Tudo isso é certo e seguro, mas a alma russo tocou esta ponta ocidental do continente.

   A Siri e o José evocam alguns episódios e faço notar que há, essencialmente, três momentos em que Portugal importa para a Rússia.
   Portugal abre em 1415, com a conquista de Ceuta, um ciclo expansionista em que participam outras potências da Europa Ocidental.

    O paralelo tardio, noutra ponta da Europa, terá lugar com as conquistas continentais da Rússia a partir da tomada de Kazan por Ivan o Terrível em 1552.

   Nessas épocas mais remotas é possível recensear contactos esporádicos, notícias soltas de parte a parte, mas será uma tragédia a chamar as atenções: o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

   O terramoto do Dia de Todos os Santos suscitou polémicas sobre os desígnios da Providência e a ordem do universo.

   O “Poème sur le désastre de Lisbonne” de Voltaire logo nesse ano de 1755 e quatro anos depois a sátira “Candide ou l'optimisme” foram muito discutidos e as elites russas não se alhearam desta grande polémica da época do Iluminismo.

   O poeta arcádico lisboeta Domingos Quita atribuia o terramoto a “nossos atrocíssimos pecados”. Também o arquimandrita Gedeon na corte de Catarina II evocava o castigo divino.
   Entre os racionalistas, à imagem de Immanuel Kant em Könisberg, haveria de destacar-se um russo: Mikhail Lomonossov.

   Baseando-se em informações sobre o terramoto 1746 de Lima, no Peru, e o abalo em Lisboa, Lomossov retomaria numa comunicação à Academia de Ciências de São Petersburgo em 1757 a teoria avançada um século antes pelo jesuíta alemão Athanasius Kircher: os sismos são provocados por fogos de enxofre em abismos subterrâneos.

    O cientista russo especulou ainda que os metais fossem gerados pela precipitação de depósitos minerais em brechas subterrâneas e empurrados para a superfície pelos fogos e terramotos.

   A memória do terramoto de Lisboa persistiu e chegou até à poesia simbolista de Aleksandr Blok.

   É nesta época de despotismo iluminado que contamos com a presença de portugueses como o médico Ribeiro Sanches na corte de Catarina II em São Petersburgo.

   É então, em 1779, que D. Maria envia o seu primeiro embaixador para São Petersburgo. No ano seguinte chegaria a Lisboa o embaixador de Catarina II.

   No entanto, só de facto no início do século XIX no que toca à passagem de russos por Portugal e em particular por Lisboa temos matéria substancial.

   Há um momento forte que aqui é recordado: a saga da esquadra do almirante Dmitri Nikokaievitch Seniavin.




Дмитрий Николаевич Сенявин

   O tzar Alexandre I enviara em 1806 Seniavin para o Mar Adriático para contrariar a crescente influência francesa.

   Seniavian saiu-se bem nos confrontos com os franceses, mas no final de 1806 a Rússia e o Império Otomano entraram em guerra.

   Seniavin travou várias batalhas pelo controlo do Estreito de Dardanelos, mas, repentinamente, foi surpreendido por uma reviravolta no jogo de alianças. Alexandre I e Napoleão celebraram a paz de Tilsit em Julho de 1807.

   Seniavin via-se obrigado a abandonar o Mediterrâneo Oriental. Largou de Corfu em meados de Setembro rumo ao Atlântico, para o Báltico onde se agigantava a ameaça sueca.

   Navegava junto à costa portuguesa no início de Novembro quando o mau tempo o obrigou a procurar refúgio em Lisboa. A má sorte perseguia Seniavin. Fundeou a 10 de Novembro.

   Por essa altura a Rússia entrava em guerra com a Grã-Bretanha, Londres enviava um esquadrão naval para impor o Bloqueio Continental à França, o general Jean-Andoche Junot iniciava a invasão de Portugal em conluio com Carlos IV de Espanha e o todo poderoso primeiro-ministro Manuel Godoy.

   Ora, a 29 de Novembro a corte de alucinada D. Maria e do príncipe regente João largava de Lisboa rumo ao Brasil. No dia seguinte Junot entrava na capital.

   Nesta confusão Seniavin quedava-se no Tejo com as tropas francesas à vista e a esquadra britânica ao largo. O almirante optou por uma estrita neutralidade, desobedecendo às ordens que lhe chegavam do tzar Alexandre I.

   Passou o Inverno, foi-se a Primavera e chegou o Verão. Junot foi batido no Vimeiro e retirou. Sete naus e uma fragata russas continuavam no Tejo.

   Só no final de Agosto de 1808 Seniavin conseguiu zarpar do Tejo rumo a Portsmouth e, depois de outras agruras impostas pela Royal Navy, ainda demoraria mais um ano até aportar a Riga.

   As guerras napoleónicas tomaram a Europa de ponta a ponta e nesse tempo de convulsões Portugal serviu de exemplo a liberais russos.

    As revoluções liberais em Espanha e Portugal foram fonte de inspiração para muitos dos aristocratas que em Dezembro de 1825 tentaram derrubar o tzar Nicolau I.

   Esse surto constitucionalista liberal valeu, aliás, o aplauso do exilado Almeida Garret que em 1830 no seu “Portugal na Balança da Europa” publicado em Londres escreveria: “A revolução da Rússia foi o maior triunfo da civilização. A ineficácia da tentativa não admira nem lhe diminui a importância.” Para Garret a tentativa de golpe nas margens do rio Neva era a “maior prova”, a prova “mais clara do irresístivel poder das luzes.”

   Ilusões que cedo se dissiparam, mas os séculos XIX e XX foram tempo de passagens russas por Lisboa.

Lisbon. Sunrise - Ivan Aivazovsky


    A Torre de Belém foi pintada por Ivan Aivazovski e muitas outras terras de Portugal constam dos anais russos.

    As viagens de circum-navegação russas do século XIX trouxeram à Madeira o escritor Ivan Gontcharov, o autor do notável “Oblomov” esse romance superior sobre a impotência e indolência.

   O José Milhazes já escreveu sobre a passagem de Gontcharov pelo Funchal, voltará ao assunto e irá lembrar como o vinho da Madeira se tornou muito apreciado pela aristocracia russa desde o final do século XVIII.

   Sobra até a lenda de que o vinho da Madeira também acabaria por ajudar a matar Rasputin nos idos de 1916. Mas aí já será outra história com tintos da Crimeia.

   Temos ainda Fátima que é a promessa de milagre da conversão da Rússia Vermelha que a Igreja Católica acarinhou e propagou.



   Казанская Богоматерь

 A Fátima foi dar um dos mais venerados ícones da Igreja Ortodoxa russa, o ícone da Nossa Senhora de Kazan.

   Kazanskaia Bogomater data de finais do século XVI e terá desaparecido em 1904 em Sankt Petersburg.

  Uma cópia do século XVIII, mas uma obra-prima da arte sacra, chegou ainda assim ao Ocidente após a revolução de 1917.

   Acabou adquirida pelo Exército Azul nos Estados Unidos e em 1970 foi entronizada na Capela Bizantina da Domus Pacis em Fátima. Em 1993 o ícone foi entregue a João Paulo II e alimentou a esperança falhada de uma visita papal à Rússia.

   Só em Agosto de 2004 o cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontífico para a Promoção da Unidade dos Cristãos, entregaria ao Patriarca Alexis II o venerado ícone que hoje se encontra na catedral do Kremlin de Kazan, no Tartaristão.

   Ievgéni Ievtuchenko também foi à Cova da Iria por altura da sua visita a Portugal em Maio de 1967 a convite de Snu Abecassis, a senhora dinamarquesa da editora D. Quixote.

  Dessa visita que despertou muito interessou entre a intelectualidade lisboeta ficaram dois poemas.

  Um intitula-se “Amor à Portuguesa”. É, diga-se, poema muito medíocre. Tem os amantes “sob a ponte Salazar / à sua sombra negra como breu”. Tem os lábios dos amantes. “Os nossos lábios eram dois países /onde nós dois éramos livres.”

   No segundo poema “Fátima”, precisamente, Ievtuchenko contempla “tristes camponeses”, povo que se arrrasta e ignora que “os pastores de rebanhos” não podem, nem sequer “pensam tirar os seus filhos da cruz...”

   Outros poemas mais cativantes são citados neste roteiro que muito justamente termina com um “Postal de Lisboa” de Iossif Brodski com “monumentos a eventos que nunca ocorreram”.

   Prova provada como diria Ana Akhamátova de que “Pecados/ nunca são coisa de poeta” / “Poetam/ voabché ne pristali gréchi”.

   Claro que neste livro se descobre o que russos escreveram sobre bacalhau e vinho, fados e o castelo, procissões, igrejas, eléctricos, touradas e também se encontra algo que sempre intriga um alfacinha ao chegar a Moscovo.

   É um estilo arquitectónico que também reconhece o moscovita ao deambular por Lisboa e Sintra.

  É que as linhas mouriscas do Palácio da Pena, do Campo Pequeno, da Estação Ferroviária do Rossio foram a inspiração para a excêntrica Mansão Morozov.




    Um edifício único na capital russa.

   Tem traços manuelinos, neomouriscos, neoromânticos. A inconfundível mansão, entre a Praça do Picadeiro e a Arbat, foi construida no final da década de 1890 por encomenda do milionário Arsenii Morozov.

  Viajantes moscovitas frente à estação do Rossio reconhecerão imediatamente a matriz da mansão Morozov.

   Depois, se subirem ao Chiado e forem ao S. Carlos, deparam com um teatro com uns interiores muito parecidos com o Balshoi ou o Mariinski de São Petersburgo.

   Ainda não há muito tempo filmava-se em Helsínquia o que passaria por exteriores de Leningrado e o São Carlos era o cenário do Kirov, do Mariinski.

   Lembro-me bem de ver ali dançar, em 1985, Mikhail Barishnikov nas filmagens das “White Nights” em que contracenava com Gregory Ines.

   Bem, vê uma russa tanta coisa, vê tanta coisa um russo, e ainda lhe falta lembrar a má sorte nesta Lisboa dos Ballets Russes.

   Chegou a companhia a Lisboa no Sud Express a 2 de Dezembro de 1917.

  Três dias depois foi apanhada pelo golpe de Sidónio Pais e por cá ficaram os Ballets enquanto Serguei Diaghilev seguia para Espanha a tentar convencer o rei Afonso XIII e outros mecenas a salvarem a companhia da falência.



  Os Ballets Russes deram dois espectáculos no São Carlos e outros nove no Coliseu dos Recreios.

   Só cativaram os modernistas: o crítico Manuel Sousa Pinto, António Ferro, Almada Negreiros.

  Partiram falidos a 28 de Março de 1918.

  Vir a este extremo do continente é fitar o Atlântico no Cabo da Roca e quem tiver a sorte de chegar por mar verá com outros olhos Cascais, o Estoril, os Jerónimos, a Torre de Belém.

   Desembarcando no cais de Alcântara poderá entender porque é que esta cidade e seus arredores foram também o “paraíso triste” de Saint-Exupéry nos anos da II Guerra Mundial.

   Um porto neutral por onde, entre tantos refugiados, passou Marc Chagall na sua fuga para Nova Iorque na terrível Primavera de 1941.

   O Estoril, seu casino e hotéis, nunca deixam de cativar por aventuras de espiões e exílio de reis, mas nunca um russo poderá esquecer que lá morreu Aleksandr Aleksandrovitch Alekhine.

   O xadrezista Alekhine, que deixara a Rússia em 1921, faleceu aos 53 anos num hotel do Estoril.


   Muitas suspeitas rodearam sempre a sua morte em Março de 1946.

   Muito provavelmente Alekhine teve mesmo morte acidental, engasgado com um pedaço de carne, essa foi a conclusão a que chegaram após estudarem a documentação disponível o José Milhazes e o biólogo Celso Cunha.

   Sem sombra de suspeita e por conta da fortuna feita no petróleo do Iraque o museu Calouste Gulbenkian é daquelas instituições em Lisboa onde um russo se irá deter para tentar perceber as voltas que o mundo dá.

   O milionário arménio foi dos primeiros a negociar a compra aos bolcheviques de obras do Ermitage.

   Tal como o norte-americano Andrew Mellow, cujas compras de pinturas de Jan van Eyck ou Rafael acabaram na National Gallery of Art de Washington, Gulbenkian investiu forte na aquisição de obras do Ermitage.


   A “Figura de Velho”, de Rembrandt, que pertenceu à colecção de Catarina II, foi comprada em 1930 por Gulbenkian por 30 mil libras.

   É hoje uma das grandes pinturas em exposição no museu  Gulbenkian.
   Está na altura de terminar.

   Falei em três momentos essenciais em que Portugal e Lisboa importam à Rússia.

   O Terramoto de 1755 que é pretexto para grande polémica intelectual a que a Rússia não ficará alheia.

   Depois, as guerras napoleónicas que envolvem directamente São Petersburgo na política da Península Ibérica.

   Os contactos vão aumentando durante todo o século XIX. A proclamação da república em 1910 em Lisboa provoca a ruptura com a corte de Nicolau II que já ficara chocada com o regicídio de 1908, mas as relações diplomáticas serão rapidamente retomadas.

   Só a seguir, após as revoluções de Fevereiro e Outubro de 1917, vem um hiato em matéria de viagem e contactos.

   Ficam praticamente limitadas à viagem política de sentido único sob tutela do Komitern e do Partido Comunista.

   Finalmente, 1974 marca o início do último momento essencial.

   Retomam-se as relações diplomáticas, chegam imensos camaradas a Lisboa.

   Dos textos, e também há muitas gravações radiofónicas, filme e fotografia da lavra desses correspondentes, agentes comerciais e espiões, os Milhazes aproveitam e bem o roteiro que o agente do KGB e correspondente da TASS Eduard Kovalev dedicou a Lisboa.

   No capítulo alfacinha desse roteiro das cidades do mundo por agentes do KGB, editado em Moscovo em 1996, Kovalev conta com falsa simplicidade como de restaurante em restaurante lá se ia encontrando com fontes de informação diversas; gente ora estupidamente progressista, ora progressivamente cada vez mais comprometida.

   Temos então que na sequência da Revolução dos Cravos a União Soviética apoia e financia o PCP de Álvaro Cunhal, conforma-se ao fracasso de uma tentativa de tomada do poder em Portugal demasiado problemática no contexto de partilha de esferas de influência com os Estados Unidos, mas factura em África.

   Pelo menos numa primeira fase com o MPLA em Angola e a FRELIMO em Moçambique.

  Depois, começou a perestroika e mal se esperava tudo o que se seguiu.

   Desse turbilhão até me lembro da primeira visita de Mikhail Gorbatchov a Portugal.

  Viera ao Porto em Dezembro de 1983 ao X Congresso do PCP. Era então o protegido de Iuri Andropov e não lhe deram a devida atenção.

   Voltaria em Junho de 1995, por altura do sequestro na escola de Budionovski.

   Viemos juntos numa visita a convite de uma estação de televisão onde eu trabalhava.

   Regressava Gorbatchov a Portugal, vinha como conferencista, estadista fracassado ou nem tanto, sempre a justificar as políticas que lhe selaram o destino.

   Em Moscovo, no avião, numa paragem em Frankfurt, já quase a chegar a Lisboa, depois se discutir muita política falámos também de outros assuntos de alto interesse.

   Do sol de Lisboa e do calor que faria tal como no Verão de Stravopol, do bom peixe, de outras coisas que importavam mais do que a política.

   E Gorbatchov percebeu como Portugal se estava a tornar um destino de sol, vinho, filigranas em ouro e prata.

   Primeiro para os novos russos, os novos ricos. A seguir a procura turística iria alargar-se e também surgiria alguma oferta de serviços direccionada para o turista russo.

   Havia mais mundo para lá da política.

   Pois, então, os visitantes da Rússia irão deparar com algumas surpresas.

  E este roteiro é a melhor das introduções.

  Afinal, o espírito russo também paira sobre o Tejo.

Parabéns aos autores e à editora.
Blagadariu vas za vnimanie.

Lisboa, 18 de Maio 2012
Livraria Alêtheia