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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um Nobel da Paz por declaração de intenções


   Um Nobel da Paz por declarações de intenção, é o mínimo que se pode dizer da decisão do Comité de Oslo.

   Obama terá criado um novo clima na política internacional.

   O presidente que ainda nem cumpriu um ano de mandato terá mostrado o seu empenho num mundo sem armas nucleares, advoga o reforço da diplomacia multilateral, o diálogo e negociações, dá atenção particular à democracia e aos direitos humanos, manifesta preocupação pelos efeitos das alterações climáticas.

   Obama é o oposto de Bush e a sua agenda política vale um Nobel.

   É a justificação do Comité de Oslo. É, pelo menos, prematura tamanha distinção.

  Quando noutras ocasiões recentes o Nobel foi para políticos com responsabilidades executivas tais premiados tinham já algo para mostrar.

   Frederik de Klerk e Nelson Mandela em 1993 tinham feito avançar o processo de desmantelamento pacífico do apartheid na África do Sul.

  No ano seguinte, em 1994, Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat estavam empenhados num processo negocial que poderia ou não vir a resultar. Compreende-se o prémio como uma tentativa de apoio a um esforço que, afinal, acabou num fracasso.

  Mikhail Gorbatchov ao receber o Nobel da Paz em 1990 tinha já cumprido uma missão histórica. Restava-lhe só um ano como presidente de uma União Soviética que iria desaparecer, mas muito fizera pelo fim da Guerra Fria.

   Agora, no caso de Barack Obama é caso para dizer que ainda mal se fez ao caminho.

   Além disso, premiar o chefe de estado de uma superpotência com interesses contraditórios em processos negociais por todo o globo é altamente problemático.

   Obama propõe-se reduzir os arsenais nucleares das grandes potências e reforçar o regime de não-proliferação, mas essas negociações mal começaram e basta lembrar que também Ronald Reagan propõs o mesmo a Gorbatchov em 1986.
   
    Para a Cimeira de Copenhaga do próximo mês de Dezembro ainda se falta saber o que vai, de facto, propor  Washington em matéria de combate ao aquecimento global, que concessões farão, que condições tem Obama nos Estados Unidos para avançar com cortes significativos nas emissões de gases com efeito de estufa.

  Quanto a Guantánamo não será sequer no prazo apontado, no final do ano, que se resolverá o destino dos presos e mais difícil ainda é prever o que possa vir a acontecer no Afeganistão, no Iraque.

  É incerto também o que resultará dos diferendos sobre os projectos nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

  Em suma, por melhores que sejam as intenções de Barack Obama, por mais que se leve à letra as suas declarações, é prematuro, muito prematuro, atribuir-lhe um Nobel da Paz. 

TSF / O Mundo num Minuto
9 Outubro 2009   

domingo, 2 de setembro de 2012

Traz de volta a minha metralhadora

 

    “Traz de volta a minha metralhadora. Não me contenhas!”

     Foi assim ao som de Umshini Wam, uma das canções da fúria na luta armada contra o apartheid, que Jacob Zuma humilhou Thabo Mbeki e ficou a um passo de ser eleito presidente do Congresso Nacional Africano (ANC).
 
   Jacob Zuma é agora o homem-forte de destino incerto: tem pela frente a chefia do estado ou um controverso processo judicial que o poderá levar à cadeia.

  Ao desfeitiar Mbeki numa das Conferências Nacionais mais tempestuosas nos 98 anos do movimento Zuma ficou imediatamente na linha da frente para vencer as eleições de 2009, liderando a coligação do ANC, do Partido Comunista e do Congresso dos Sindicatos da África do Sul (Cosatu) que governa o país deste a queda do apartheid em 1994.

  Zuma, com um passado de luta clandestina desde a juventude, passando por dez anos de prisão em Robben Island ao lado de Nelson Mandela, foi eleito vice-presidente do ANC em Dezembro de 1997 e dois anos depois chegou a vice-presidente da África do Sul.

   Os apoios de Zuma sempre foram de peso – chegou a chefiar os serviços de informação do movimento, um cargo de alta influência – e aumentaram significativamente graças ao papel desempenhado na pacificação da província do Kwazulu-Natal durante os confrontos entre o Inkhata e o ANC na década de 90.

                                    À prova de escândalo

   A demissão da vice-presidência do Estado em Junho de 2005 não o impediu de manter o cargo de direcção no ANC, ao mesmo tempo que dava voz aos grupos descontentes com a política dita centrista de Mbeki.

   O escândalo de corrupção que justificou a demissão de Zuma, depois de um empresário de Durban e seu consultar financeiro ter sido condenado a 15 anos de prisão, valeu-lhe um processo judicial inconclusivo. A reabertura do processo este ano poderá, contudo, levar proximamente a um julgamento altamente comprometedor para Zuma.

   Às alegações de corrupção, somou-se um julgamento por violação de que saiu ilibado em 2006.

   Num julgamento indecoroso, Zuma reconheceu ter praticado sexo com uma mulher que sabia ser vítima de SIDA sem usar qualquer protecção, mas explicou que depois tomara duche para evitar riscos de contágio. Zuma presidia na altura à Comissão Nacional da SIDA da África do Sul.

   O comportamento confessado por Zuma foi apenas mais um caso deplorável entre outras desgraças da elite política em que sobressaem as atitudes de Mbeki que questiona a etilogia da SIDA, classificando-a como “doença da pobreza”, ou da ministra da Saúde Tshabalala-Msimang que continua a recomendar a beterraba e o alho para efeitos de prevenção enquanto a epidemia atinge mais de 5,5 milhões de sul-africanos.

   As atribulações de Zuma e a sua fama homem de muitas influências e conivências, afora a aura de patriarca femeeiro, alegado pai aos 65 anos de 18 filhos fruto de três casamentos e diversas relações, não impediram que organizações do ANC como a Liga das Mulheres e a Liga da Juventude apoiassem a sua candidatura ao mesmo tempo que o Partido Comunista e o COSATU vislumbram nele o futuro “presidente a favor dos pobres”.

                                O presidente dos pobres

   Até à sua demissão em 2005, Zuma nunca contestou a estratégia económica de Mbeki que abandonou o programa vindo da era de luta contra o apartheid, designadamente a nacionalização da banca e da indústria mineira ou a expropriação de explorações agrícolas nas mãos de empresários brancos que detêm 90 por cento das terras aráveis.

  Jacob Zuma apresenta-se ante investidores e empresários sul-africanos e estrangeiros como um disciplinado seguidor das orientações estratégicas do ANC e de uma política que permitiu o maior crescimento económico da África do Sul desde a II Guerra Mundial.

  A economia gigante do continente africano cresceu a uma média anual de 2,8 por cento a partir de 1994 e atingiu 5 por cento em 2005 e 5,4 por cento no ano passado.

  Uma era de crescimento possibilitou a diminuição do desemprego, que se cifra presentemente em 25,2 por cento, e a alocução de subsídios a cerca de 12 milhões de pessoas das camadas mais pobres.

   Apesar disso, mais de 40 por cento dos 48 milhões de sul-africanos subsistem com um euro por dia.

  A emergência de uma classe empresarial negra, outro dos sinais de renovação pós-apartheid, não impediu, no entanto, que as estatísticas oficiais reconheçam um aumento da desigualdade social e racial, enquanto a quota na partilha dos diversos tipos de propriedade se queda pelos 12 por cento para os negros, conforme reconheceu Mbeki no seu discurso à Conferência Nacional de Polokwane.

  O fracasso total do governo no combate à criminalidade é matéria que não deixa salvaguardas para qualquer sucessor de Mbeki e surge como um dos maiores óbices, a par do aumento da corrupção e da epidemia de SIDA, para o crescimento sustentado do país.

   As últimas estatísticas da criminalidade revelam uma desumanidade assombrosa – 49 assassínios, 125 violações declaradas, 503 roubos violentos por dia – que devasta as comunidades negras, mas atemoriza, também, mestiços e brancos de maior poder económico para não dizer nada de putativos investidores estrangeiros.

   Zuma, apesar da sua retórica populista, o oposto do circunspecto Mbeki, surge como o homem que tudo pode aos olhos de quem o quer, mas, de facto, a sua capacidade de manobra é limitada.

   A África do Sul é já demasiado rica e complexa para enfrentar uma eventual investida à Mugabe, caso Zuma por aí enveredasse, ainda que, convém não esquecer, a possibilidade de uma sociedade se degradar em laivos de radicalismos diversos ser sempre capaz de surpreender.

                              A presidência ou os tribunais

  A eleição de Zuma poderá contribuir para manter os equilíbrios entre as maiores comunidades negras dentro do ANC e facilitar a coexistência com o Inkhata no Kwazulu-Natal.

  Zuma torna-se no primeiro zulu a presidir ao ANC desde os tempos de Albert Lutuli (presidente de 1950 a 1958 e Prémio Nobel da Paz em 1960), depois de uma série de líderes de origem xhosa como Oliver Tambo, Mandela e Mbeki.

   O confronto entre Zuma e Mbeki torna praticamente impossível a coexistência de dois centros de poder, mas o novo líder poderá ter dificuldade em conseguir uma maioria parlamentar que leve à convocação de eleições antecipadas antes de ser eventualmente acusado de corrupção.

   Se o impasse se mantiver durante quase ano e meio nem mesmo Cyril Ramaphosa, antigo líder sindicalista e secretário-geral do ANC, poderá vingar como candidato de compromisso porque, após ter perdido a corrida à liderança para Thabo Mebki em 1997, virou a agulha para uma carreira altamente lucrativa no mundo dos negócios.

   No caso de Zuma não poder candidatar-se à presidência, a única alternativa é o actual secretário-geral do ANC, Kgalema Motlanthe, que surgiu na Conferência Nacional como um dos seus principais apoiantes.

   Para a maioria que impôs a sua vontade no ANC, o triunfo de Zuma é um compromisso para a presidência da África do Sul se empenhar numa viragem à esquerda, mas para os meios de negócios a retórica populista é, por enquanto, mera promessa para iludir o pobre e política sem futuro.

   Duas perspectivas diversas são menos que uma certeza e, passe a incerteza sobre os reais desígnios de Zuma, a sua eleição tão pouco dá conforto aos principais rivais do ANC.

   Nem o Inkhata de Mangosuthu Buthelezi, com a sua base zulu, ou os Democratas Independentes na ala centro-esquerda, sob a liderança de Patricia de Lille, ou sequer os liberais da Aliança Democrática de Helen Zille, presidente da câmara da Cidade do Cabo, estão em condições de retirar a maioria de dois terços que tem vindo a caber ao ANC e aos seus aliados.

  Jacob Zuma cultiva um discurso populista, tem uma vida pessoal complicadíssima, é tão irresponsável quanto Mbeki no combate à epidemia de SIDA, ignoto na mediação da crise do Zimbabué, e não se sabe o que será o seu futuro.
  
   A Zuma pode sorrir a presidência, se não se perder numa nova guerra nos tribunais com sério risco de prisão.

   Certo é que a grande potência africana acaba de entrar num período de imensa instabilidade e que o triunfo de Zuma traz consigo a promessa arriscada de uma nova dinâmica política capaz de comprometer todas as esperanças de afirmação do país que prometia consagrar a sua respeitabilidade na realização do Mundial de Futebol de 2010.


Jornal de Negócios
19 Dezembro 2007

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Zuma e o pote de ouro





   Ameaçador e conciliador, homem para todas as audiências, Jacob Zuma será presidente da África do Sul e, muito provavelmente, o Congresso Nacional Africano (ANC) irá manter uma maioria parlamentar de dois terços.

   O sucessor de Nelson Mandela e Thabo Mbeki comporta-se como um chefe tribal zulu e os seus sucessivos escândalos judiciais nada auguram de bom para o futuro ainda que Zuma se declare um fiel seguidor das políticas do ANC que permitiram a expansão económica subsequente à queda do "apartheid" e a instauração de um regime democrático.

   As declarações de Zuma sobre a necessidade de reduzir os poderes do Tribunal Constitucional e as afirmações de que o sistema judicial, bem como a comunicação social, terão de se transformar para reflectir os valores da sociedade sul-africana denunciam uma frustre compreensão do que seja um Estado de direito.


                                            Tendências radicais

   Apesar das promessas em contrário, é crível que, pela primeira vez, o ANC liderado por Zuma venha a proceder a uma revisão constitucional, reforçando os poderes do presidente, caso consiga uma maioria de dois terços conforme aconteceu em duas das três eleições que tiveram lugar desde o desmantelamento do "apartheid" em 1994.

   A cisão dos apoiantes de Mbeki, que criaram o Congresso do Povo (COPE) após o afastamento do presidente em Setembro de 2008, reforçou a influência dos comunistas e dos sindicatos no ANC e, em consequência, a promessa de Zuma criar um "forte ministério do planeamento" apresenta o risco de se fazer à custa da contida política fiscal e monetária que o ministro das finanças Trevor Manuel prossegue desde 1996.

   Ao mesmo tempo, a independência do Banco Central tem sido contestada pelas alas mais radicais do ANC que acusam o seu presidente Tibo Mboweni de se preocupar excessivamente com o controlo da inflação que ronda os 8% e mostra tendência de queda.

   O aumento dos subsídios sociais (que abrangem presentemente 12,5 milhões de pessoas entre os 49 milhões de habitantes) e uma política de expansão orçamental (o défice no ano fiscal 2009/2010 não deverá ultrapassar os 3,8% do PIB) para prover aos 4,2 milhões de sul-africanos que subsistem com menos de 1 dólar/dia - os mais pobres entre os 34% da população que só dispõe de 2 dólares/dia - são dois meios a que Zuma deverá recorrer para satisfazer os seus apoiantes.

    Difícil de concretizar será o objectivo de transferir para proprietários negros 30% das terras aráveis até 2014 que, dado o controlo do aparelho do Estado por parte do ANC, acentuará ainda mais o sistema de patrocínio e o clientelismo característico da África do Sul.

    Zuma, conforme mostram as acusações de corrupção de que foi alvo, sempre conviveu bem com a emergente burguesia negra e os meios de negócios ao mesmo tempo que cultivava uma imagem populista.

   Desta feita, contudo, o maior peso dos sindicatos da COSATU, do Partido Comunista e dos radicais da Liga da Juventude do ANC - liderada por Julius Malema, o homem de mão usado pelo futuro presidente para atacar impiedosamente qualquer inimigo - poderá alterar o errático padrão de comportamento político de Zuma e arruinar a imagem de conciliador que ganhou ao negociar com o Inkhata durante os confrontos dos anos 90 no KwaZulu-Natal.

                                   Uma erosão eleitoral contida

     Depois dos 70% de votos obtidos nas eleições de 2004, as sondagens indiciam que nas eleições de hoje o ANC possa sofrer uma erosão pouco acentuada entre a sua base de apoio esmagadoramente constituída pelas classes mais pobres e menos instruídas entre os 79% de negros que constituem a população do país.

   A Aliança Democrática (AD) de Hellen Zille, presidente da câmara da Cidade do Cabo, poderá chegar no máximo aos 15% (teve 12% nas últimas eleições) e conquistar mesmo o governo do Cabo Ocidental, a única das nove províncias que escaparia assim ao ANC.

   A base social da AD mantém-se maioritariamente branca (9,6% da população), acrescida do apoio de indianos (2,6%) e mestiços (9%) e o impacto do recém-formado COPE entre o eleitorado negro é ainda uma incógnita apesar de as últimas sondagens apontarem para uma intenção de voto na ordem dos 11%.

   Entre os principais partidos, o Inkhata do veterano Mangosuthu Buthelezi continua confinado ao seu eleitorado zulu na província do KwaZulu-Natal e as sondagens prevêem uma acentuada quebra de apoio que poderá levar-lhe quase metade dos 7% dos votos que obteve em 2004.

   A confirmarem-se as sondagens que dão ao ANC uma votação na ordem dos 67% Jacob Zuma terá uma maioria de dois terços que dará força ao seu slogan favorito: "Traz de volta a metralhadora. Não me contenhas!", pois assim se entoa nos comícios o "Umshini Wam", uma das canções da fúria na luta contra o apartheid.

    A nação do Arco-Íris ainda não encontrou o seu pote de ouro e com Zuma na presidência entra agora num período em que as incógnitas sobre o futuro são mais que muitas.


Jornal de Negócios
22 Abril 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=364454

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Comunismo não é palavra vã



Liu Xiaobo





   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica” da China.

   Relembrando aos mais desatentos que comunismo não é palavra vã os líderes de Pequim reagiram como seria de esperar à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo.

   O problema para os comunistas de Pequim é que a China não se pode comportar como o regime militar da Birmânia que mantém Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária ou os ayathollas do Irão que obrigaram ao exílio Shirin Ebadi.

   Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica”.

   Do coro elogios a Liu e da chuva de críticas à censura chinesa dissidiram de forma igualmente prevísivel os comunistas portugueses que viram no Nobel de Liu “um golpe na credibilidade” do galardão e uma manobra “inseparável das pressões dos Estados Unidos à República Popular da China”.

   Outro caso a assinalar tem a ver com o inefável teórico dos “valores asiáticos” Kishore Mahbubani que na véspera do anúncio do Nobel para Liu, quando ía alta nas bolsas das apostas a candidatura do preso de Jinzhou, advertiu desde logo que o Comité Nobel de Oslo reflecte a visão do mundo ocidental.

   O académico e ex-diplomata de Singapura afirmou que tal viés explica que um líder que contribuiu para retirar 600 milhões de pessoas da pobreza como Deng Xiaoping não tenha recebido o Nobel.

   No que respeita à Ásia o Nobel está reservado para dissidentes.

  Pessoas respeitáveis como Suu Kyi ou o coreano Kim Dae Jung, mas, ainda assim, meros dissidentes, no entender de Mahbubani.

   O racícionio tortuoso de Mahbubani deve ter agradado em Pequim, mas tem o senão de ignorar que Suu Kyi em 1991 era a vencedora de uma eleição popular anulada por uma junta militar e Kim Dae Jung foi premiado não apenas pela sua carreira de luta pelos direitos humanos, mas também e sobretudo pelos esforços “em prol da paz e reconciliação com a Coreia do Norte”.

   No longínquo ano de 1974, quando a virtuosa China passava pela Revolução Cultural, o Nobel da Paz foi partilhado pelo irlandês Sean Mac Bride e Eisaku Sato, tendo o primeiro-ministro japonês sido escolhido pela promoção de uma política pacifista e de cooperação internacional, e no ano anterior Henry Kissinger e Lu Duc Tho tinham sido galardoados pela êxito na negociação de um cessar-fogo no Vietname.

   Entre os galardoados asiáticos o Dalai Lama, em 1989, ano de Tiannamen, Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, e Shirin Ebadi, em 2003, enquadram-se na categoria “dissidentes” ou “independentistas subversivos”, mas quanto a Madre Teresa de Calcutá, albanesa de nascimento, mas consagrada em 1979 por obras de caridade na Índia, ou ao bengali Muhammad Yunnus e o Banco Grameen de micro-crédito, premiados em 2006, dificilmente a alegação do ideólogo dos “valores asiáticos” faz qualquer sentido.

   O decano da Escola Lee Kuan Yew de Política Pública aventou uma linha de defesa fraudulenta, mas coerente com as alegadas idiosincracias asiáticas, que os propagandistas de Pequim nem sequer tentaram ainda explorar ficando-se pelas teses de uma cabala estrangeira desrespeitosa da honra chinesa.

   Entre os sinólogos, no entanto, não foi perdido de vista que o Nobel de Liu Xiaobo poderá vir a ter uma influência crucial no debate das elites chinesas sobre reformas políticas.

   Aos decisores políticos e económicos estrangeiros chegam ecos de experiências frustadas de votações com candidaturas diversas para delegados a congressos do Partido Comunista a nível distrital ou eleições directas para conselhos administrativos de aldeias.

   As minudências dos debates teóricos sobre valores universais e mediação de interesses contraditórios versus valores específicos chineses de harmonia social num quadro hierárquico controlado pelo partido/estado já são, contudo, mais difíceis de apreciar.

   Liu e outros promotores da Carta 08, como Zhang Zuhua ou Zhiang Qisheng, contribuíram para definir como objectivo político a atingir por via pacífica uma democracia constitucional que incorpore valores e práticas como eleições multipartidárias, salvaguarda dos direitos humanos e liberdades fundamentais de expressão, crença e associação, além de divisão e equílibrio entre poderes legislativo, executivo e judicial.

   A Carta 08 representa, assim, um passo significativo para ultrapassar as limitações das discussões entre a intelectualidade chinesa sobre os modelos de “democracia socialista” que de uma forma ou de outra tentam perservar um papel liderante para o Partido Comunista.

   Na tormentosa história da China moderna intelectuais acabaram por ver as suas propostas vanguardistas marcarem uma época.

   Os nomes de Wang Tao, Kang Youwei, Cai Yuanpei, Sun Yatzen ou a menção a um dos primeiros comunistas chineses como Li Dazhao são exemplos que não escapam aos hierarcas de Pequim de como uma centelha pode incendiar a pradaria.

   O risco de Liu Xiaobo vir juntar-se a esta lista é, pois, assinalável e a comoção e embaraço em Pequim perfeitamente compreensíveis.

                                        DIVIDIR PELO YUAN

   Os diferendos sobre política monetária estão ao rubro e um académico chinês teve o mérito de preto no branco explicitar publicamente uma possível estratégia de actuação para a China.

   Um artigo de Wang Yong, professor de um instituto de Zhengzhou, província de Hennan, despertou as atenções. O académico defendeu que Pequim não deve permitir uma apreciação superior a 3 por cento do yuan este ano.

   A melhor forma da China evitar a formação de uma coligação liderada por Washington para pressionar uma valorização perniciosa do yuan seria cavar uma clivagem entre a União Europeia, o Japão e os Estados Unidos.

   Para tal a compra de obrigações japonesas de longo prazo, vendendo simultaneamente obrigações nipónicas de curto prazo, permitiria evitar a apreciação do iene temida por Tóquio e ganhar logo aqui um aliado.

   Outra vertente passaria por aplicações para aliviar a crise de dívida soberana na União Europeia.

    Neste particular a compra de títulos de dívida pública de Portugal, Grécia, Irlanda e Itália são, no entender, de Wang Yong, uma estratégia recomendável.

   O artigo só surprendeu pela sua clareza e se por alguns momentos deu mais alguns momentos de satisfação ao atormentado ministro Teixeira dos Santos — por estranho que pareça ainda diz de entrevista em entrevista estar bem com a sua consciência — logo tudo caiu por terra ante os comentários da imprensa especializada chamando a atenção para alegadas práticas predatórias e mercantilistas de Pequim.

              UM VELHO SUBVERSIVO EDITADO EM PEQUIM

   Coisa estranha e subversiva será a próxima edição pela editora CITIC de Pequim de “Conversas comigo mesmo”.

   É uma compilação de documentos conservados pela Fundação Nelson Mandela e tem como objectivo, segundo os organizadores, desmistificar a imagem do líder sul-africano.

   É um propósito político bem claro para obviar a manipulações do legado de Mandela e incentivar a discussão sobre a história trágica e o futuro incerto da África do Sul.

   Mandela sempre tentou resguardar a sua privacidade, mas neste livro surgem cartas e rascunhos da sua autobiografia inacabada que abordam questões muito pessoais e frequentemente dolorosas.

   Um tópico fica bem patente: o reconhecimento de erros e falhas.

   Mandela afirma ter sido um jovem que escondia as suas fraquezas adoptando uma atitude arrogante.

   Surge como um líder político, preso em Robben Island, que se mostra preocupado com a imagem enganosa de que os outros o possam ver um santo.

   Nunca fui um santo, escreveu Mandela na prisão.

   Nem mesmo atendendo à velha definição de que um pecador é alguém tenta superar seus erros e defeitos, escreveu ainda para reforçar uma preocupação que foi aumentado ao longo de 27 anos de prisão.

   Numa nota após um encontro em 1991 com Arthur Miller, um ano depois de sair da prisão, Mandela refere ter gostado da entrevista com o dramaturgo norte-americano.

   Escreve que Arthur Miller como pessoa de valor e mérito se mostra naturalmente modesto e atento aos outros. Enfim, como se personificasse aquilo que Mandela considera essencial.

   Também por isso Mandela afirma ter gostado de Isabel II. Encontrou uma rainha, que, além de todas as formalidades, se mostrou uma mulher franca, simples, divertida e com uma apreciação aguda das grandes questões.

   Em suma, Mandela aos 92 anos dá a conhecer parte dos seus arquivos pessoais para deixar uma mensagem muito simples: nunca mitifiquem um líder político. Todos temos momentos de fraqueza, erro, angústia, medo e egoísmo.

   Barack Obama assina o prefácio destas notas pessoais de Mandela, sublinhado a ideia de que o líder sul-africano nunca foi um santo, nunca quis ser visto como um santo, mas nem por isso deixa de ser uma das personalidades mais dignas e inspiradoras em tempos difíceis.

   No ocaso de uma vida cheia Mandela ainda luta para deixar uma advertência: não mitifiquem os políticos, discutam tudo, atentam aos erros e fraquezas de quem lidera.

   Isto dito por Nelson Mandela assume uma relevância que mais ninguém pode igualar e tem tanto de subversivo que ainda haverá quem se venha a arrepender de permitir que possa ser publicado em Pequim.

HOJEMACAU
14 Outubro 2010