quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Zuma e o pote de ouro





   Ameaçador e conciliador, homem para todas as audiências, Jacob Zuma será presidente da África do Sul e, muito provavelmente, o Congresso Nacional Africano (ANC) irá manter uma maioria parlamentar de dois terços.

   O sucessor de Nelson Mandela e Thabo Mbeki comporta-se como um chefe tribal zulu e os seus sucessivos escândalos judiciais nada auguram de bom para o futuro ainda que Zuma se declare um fiel seguidor das políticas do ANC que permitiram a expansão económica subsequente à queda do "apartheid" e a instauração de um regime democrático.

   As declarações de Zuma sobre a necessidade de reduzir os poderes do Tribunal Constitucional e as afirmações de que o sistema judicial, bem como a comunicação social, terão de se transformar para reflectir os valores da sociedade sul-africana denunciam uma frustre compreensão do que seja um Estado de direito.


                                            Tendências radicais

   Apesar das promessas em contrário, é crível que, pela primeira vez, o ANC liderado por Zuma venha a proceder a uma revisão constitucional, reforçando os poderes do presidente, caso consiga uma maioria de dois terços conforme aconteceu em duas das três eleições que tiveram lugar desde o desmantelamento do "apartheid" em 1994.

   A cisão dos apoiantes de Mbeki, que criaram o Congresso do Povo (COPE) após o afastamento do presidente em Setembro de 2008, reforçou a influência dos comunistas e dos sindicatos no ANC e, em consequência, a promessa de Zuma criar um "forte ministério do planeamento" apresenta o risco de se fazer à custa da contida política fiscal e monetária que o ministro das finanças Trevor Manuel prossegue desde 1996.

   Ao mesmo tempo, a independência do Banco Central tem sido contestada pelas alas mais radicais do ANC que acusam o seu presidente Tibo Mboweni de se preocupar excessivamente com o controlo da inflação que ronda os 8% e mostra tendência de queda.

   O aumento dos subsídios sociais (que abrangem presentemente 12,5 milhões de pessoas entre os 49 milhões de habitantes) e uma política de expansão orçamental (o défice no ano fiscal 2009/2010 não deverá ultrapassar os 3,8% do PIB) para prover aos 4,2 milhões de sul-africanos que subsistem com menos de 1 dólar/dia - os mais pobres entre os 34% da população que só dispõe de 2 dólares/dia - são dois meios a que Zuma deverá recorrer para satisfazer os seus apoiantes.

    Difícil de concretizar será o objectivo de transferir para proprietários negros 30% das terras aráveis até 2014 que, dado o controlo do aparelho do Estado por parte do ANC, acentuará ainda mais o sistema de patrocínio e o clientelismo característico da África do Sul.

    Zuma, conforme mostram as acusações de corrupção de que foi alvo, sempre conviveu bem com a emergente burguesia negra e os meios de negócios ao mesmo tempo que cultivava uma imagem populista.

   Desta feita, contudo, o maior peso dos sindicatos da COSATU, do Partido Comunista e dos radicais da Liga da Juventude do ANC - liderada por Julius Malema, o homem de mão usado pelo futuro presidente para atacar impiedosamente qualquer inimigo - poderá alterar o errático padrão de comportamento político de Zuma e arruinar a imagem de conciliador que ganhou ao negociar com o Inkhata durante os confrontos dos anos 90 no KwaZulu-Natal.

                                   Uma erosão eleitoral contida

     Depois dos 70% de votos obtidos nas eleições de 2004, as sondagens indiciam que nas eleições de hoje o ANC possa sofrer uma erosão pouco acentuada entre a sua base de apoio esmagadoramente constituída pelas classes mais pobres e menos instruídas entre os 79% de negros que constituem a população do país.

   A Aliança Democrática (AD) de Hellen Zille, presidente da câmara da Cidade do Cabo, poderá chegar no máximo aos 15% (teve 12% nas últimas eleições) e conquistar mesmo o governo do Cabo Ocidental, a única das nove províncias que escaparia assim ao ANC.

   A base social da AD mantém-se maioritariamente branca (9,6% da população), acrescida do apoio de indianos (2,6%) e mestiços (9%) e o impacto do recém-formado COPE entre o eleitorado negro é ainda uma incógnita apesar de as últimas sondagens apontarem para uma intenção de voto na ordem dos 11%.

   Entre os principais partidos, o Inkhata do veterano Mangosuthu Buthelezi continua confinado ao seu eleitorado zulu na província do KwaZulu-Natal e as sondagens prevêem uma acentuada quebra de apoio que poderá levar-lhe quase metade dos 7% dos votos que obteve em 2004.

   A confirmarem-se as sondagens que dão ao ANC uma votação na ordem dos 67% Jacob Zuma terá uma maioria de dois terços que dará força ao seu slogan favorito: "Traz de volta a metralhadora. Não me contenhas!", pois assim se entoa nos comícios o "Umshini Wam", uma das canções da fúria na luta contra o apartheid.

    A nação do Arco-Íris ainda não encontrou o seu pote de ouro e com Zuma na presidência entra agora num período em que as incógnitas sobre o futuro são mais que muitas.


Jornal de Negócios
22 Abril 2009

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