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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Hong Kong: a democracia pode esperar





   O regime de Pequim terá de tomar uma iniciativa para acelerar a democratização da cidade mais opulenta e livre da China, cujos 6,9 milhões de habitantes manifestam sistematicamente em todas as sondagens, desde os anos oitenta, o desejo de livre escolha do

   A antiga colónia britânica de Hong Kong tomou o gosto às grandes manifestações de rua quando, em 1989, mais de um milhão de pessoas marcharam em protesto contra a repressão militar na Praça de Tiannamen, e, desde então, a mobilização popular é um recurso constante para pressionar o governo local e, sobretudo, levar Pequim, a conceder maior autonomia política à Região Administrativa Especial.

   Em Julho de 2003 mais de meio milhão de manifestantes saíram às ruas opondo-se a uma proposta do governo de lei anti-subversão restritiva das liberdades civis e as manifestações, mais uma vez ordeiras, no ano seguinte contribuíram para a demissão do falhado chefe do executivo, o magnata Tung Chee-hwa, manchado pela sua submissão a Pequim, o fracasso no combate a epidemia do SARS e pela incapacidade em obviar aos efeitos gravosos da crise financeira asiática e da queda das receitas do mercado imobiliário.

   O seu sucessor, Donald Tsang, um dos mais distintos altos funcionários da administração britânica e responsável pelas finanças no pós-1997, confronta-se, agora, também, com a contestação.

   Nove meses depois de Tsang assumir a chefia do governo, mais de 80 mil pessoas, incluindo a antiga número dois do executivo, Anson Chan, convergiram para o centro da cidade a 4 de Dezembro, exigindo sufrágio universal e eleições directas.

   O impasse gira em torna da proposta de reforma do sistema político que será votada pelo Conselho Legislativo a 21 deste mês.

   Presentemente, o colégio eleitoral que escolhe o chefe do executivo é composto por 800 membros sujeitos à caução de Pequim e Tsang propõe duplicar o número destes eleitores.

   A eleição directa do chefe do executivo, em 2007, está excluída.

   O actual Conselho Legislativo, cujo mandato expira em 2008, tem, por sua vez, 60 deputados, metade dos quais eleitos por sufrágio universal.

   Tsang aventa aumentar para 35 o número de deputados escolhidos por voto directo universal dentro de três anos.

   Seria, também, aberta à eleição directa a escolha de 400 dos 529 membros dos conselhos distritais, responsáveis pela administração de serviços básicos e obras públicas.

   Para ser aprovada a proposta necessita de obter uma maioria de dois terços no Conselho Legislativo e os 25 deputados democratas, conforme a terminologia adoptada em Hong Kong, opõem-se terminantemente às alterações tidas por insuficientes para assegurar a livre escolha dos eleitores.

   Depois da manifestação de 4 de Dezembro, a primeira a contestar abertamente Donald Tsang, o primeiro-ministro chinês fez uma declaração inesperada apoiando as propostas do executivo de Hong Kong e considerando-as um passo no sentido da «futura implementação do sufrágio universal».

   Pequim, que assumiu em 2004 o direito de veto sobre eventuais reformas do sistema político, anunciara, em Abril, que as eleições para chefe do conselho executivo e para o Conselho legislativo não seriam por sufrágio universal.

   A Lei Básica, a constituição em vigor desde 1997, que assegura um «elevado grau de autonomia» e a preservação do sistema capitalista até 2047, refere apenas que a adopção do sufrágio universal em Hong Kong é o «desiderato final».

   Alterações à Lei Básica obrigam ao assentimento da Assembleia Nacional Popular da China e Pequim, além de se arrogar o «direito de interpretação» da Constituição, exclui a apresentação de propostas nesse sentido por parte dos órgãos legislativo e executivo de Hong Kong.

   O fracasso de Tsang em fazer aprovar a sua proposta ameaça retirar-lhe legitimidade e lançar Hong Kong num impasse político, tanto mais que a oposição pró-democracia, ciente das objecções de Pequim, tão pouco tem possibilidade de impor o princípio do sufrágio directo, mas não desiste de conseguir um compromisso formal quanto ao calendário de introdução da escolha universal dos órgãos executivo e legislativo.

   O regime de Pequim terá, assim, de tomar uma iniciativa para acelerar a democratização da cidade mais opulenta e livre da China, cujos 6,9 milhões de habitantes manifestam sistematicamente em todas as sondagens, desde os anos oitenta, o desejo de livre escolha dos representantes políticos.

   A grande e vexatória questão para o regime comunista tem a ver com a impossibilidade de fazer concessões que possam sugerir estar a ceder a manifestações de rua e a protestos orquestrados por deputados no Conselho Legislativo de Hong Kong.

   A crescente instabilidade social, patente na repressão dos protestos da semana passada na aldeia Dongzhou, na província de Guangdong, onde se situa Hong Kong, é vista pelos dirigentes comunistas como razão maior para não adoptar iniciativas que possam ser entendidas como cedências políticas.

   A vizinha Macau, próspera na monocultura do jogo, é muitas vezes apontada em vão por Pequim como um exemplo de estabilidade possível numa democracia mitigada.

   Só que as exigências de Hong Kong revelam-se intratáveis e num ambiente de impasse político será difícil à Região Administrativa Especial adoptar estratégias minimamente consensuais para se afirmar como um centro de serviços, sobretudo na área legal, financeira e de logística.

   Apesar dos riscos, ceder em Hong Kong, do ponto de vista dos comunistas de Pequim, seria alimentar aspirações à autonomia em Xangai ou em províncias como Zhejiang e atiçar as tentações independentistas em Taiwan.

   Portanto, a democracia pode esperar.

Jornal de Negócios
14 Dezembro 2005

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=268710

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um problema chinês



Bo Xilai



   A queda em desgraça de uma das principais figuras do Partido Comunista e a caótica campanha para a eleição do chefe do executivo de Hong Kong evidenciam as disfunções do sistema político da China.

   A demissão de Bo Xilai, chefe do PC em Chongqing, trouxe à luz do dia as divisões no topo do partido com condenações públicas da linha neo-maoísta.

   Bo mantém-se entre os 24 elementos da Comissão Política, mas o seu afastamento será concretizado quando o vice-presidente Xi Jinping se tornar secretário-geral.

    O primeiro-ministro Wen Jiabao liderou as críticas ao ex-líder do município autónomo do sudoeste da China – metrópole com mais de 30 milhões de habitantes – que proclamava o privilégio de empresas estatais e a mobilização popular com palavras de ordem maoístas.

                                  Desgraça de um neo-maoísta


   Filho de uma eminência da era de Deng Xiaoping, Bo Yibo, o homem--forte de Chongqing cultivava uma irreverente imagem populista de inimigo da corrupção e das desigualdades sociais.

   A campanha sem precedentes de promoção pública de Bo visava conseguir no Congresso de Outubro um lugar entre os nove membros da Comissão Política Permanente, o principal órgão decisório.

   Tal como nas mais recentes defenestrações da Comissão Política – Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão – acusações de corrupção recaem sobre Bo e familiares próximos, denúncias de regra nas querelas políticas pós-maoístas.

   Na transição ordeira de poder para a "quinta geração de líderes" aos dirigentes comunistas importa evitar dissensões ao mais alto nível capazes de propiciarem ou potenciarem contestações ao partido conforme ocorreu em 1989.

   O "luan", o caos e desordem sociais temidas por gerações de senhores da China, não ameaça de momento o regime, apesar das dificuldades de ajustamento ao abrandamento do crescimento económico e à contracção demográfica.

   Greves, motins e revoltas – como a ocorrida no final de 2011 na aldeia de Wukan, na província sulista de Guangdong – não põem em causa o direito a governar das autoridades centrais, mas, ao agitarem a maioria han alimentam uma potencial crise de legitimidade e representam uma ameaça maior do que o irredentismo separatista de minorias como os muçulmanos do Xinjiang ou tibetanos.

   O "mandato do céu" comunista assenta no crescimento económico e melhoria contínua de condições de vida, mas confronta-se com a impossível partilha do poder político.

                          Uma eleição ou coisa que o valha

   Tung Chee Wa, um magnata dos transportes marítimos salvo da bancarrota por Pequim, tornou-se em 1997 no primeiro chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong.

   Medíocre político Tung foi alvo da contestação ao conluio entre a oligarquia local de negócios e um PC empenhado em garantir a prosperidade da ex-colónia e obviar a tentações autonomistas capazes de alinharem com independentistas de Taiwan.

   Em Março de 2005 Tung demitiu-se no terceiro ano do seu segundo mandato e foi substituído pelo número dois do governo Donald Tsang que transitara da administração colonial.

   A salvaguarda de liberdades e direitos e a manutenção do sistema capitalista, acordadas com Londres por um período de 50 anos, não obrigam Pequim à eleição por sufrágio universal do chefe do governo e a escolha cabe a um Comité Eleitoral de 1 200 representantes de interesses corporativos.

   Para obstar à reivindação de eleições directas as diversas instâncias do poder central têm tentado evitar afrontar directamente a opinião pública que entre os 7 milhões de habitantes se manifesta através de manifestações e protestos, sismograficamente registados em sondagens.

   A eleição deste ano redundou, no entanto, num caos.

   Tsang terminou o segundo mandato crivado de acusações de favorecimento a interesses empresariais e os candidatos com experiência administrativa aceitáveis por Pequim envolveram-se numa acrimoniosa troca de acusações.

   O principal candidato, Henry Tang, oriundo de uma família de empresários têxteis, caiu a pique nas sondagens depois de admitir adultério e a construção ilegal de um complexo subterrâneo numa propriedade da mulher.

   Outro candidato aceitável por Pequim, mas rejeitado pelo muito influente lobbie imobiliário, Leung Chun Ying, viu-se acusado de ligações ao crime organizado e de ter proposto numa reunião de executivo que as manifestações de 2003 contra uma lei anti-subversão, de que o governo acabou por desistir, fossem reprimidas pela polícia de choque.

   As sondagens indicam simpatias maioritárias por Leung, mas a maioria do Comité Eleitoral aguarda instruções de Pequim quanto à orientação de voto.

   Em Hong Kong, no domínio mais liberal da vasta China, uma eleição ou coisa que o valha é um quebra-cabeças.


Jornal de Negócios
21 Março 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=545799