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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dilemas chineses





   Uma crise de liquidez no mercado interbancário gerada e mal gerida pelo Banco Central de Pequim e o lançamento de uma campanha de propaganda para reafirmar a liderança do partido comunista ilustram os dilemas que desde os anos 80 definem a política chinesa.

  O Banco Central reduziu no início de Junho a oferta de liquidez no mercado interbancário para forçar cortes no crédito, sobretudo ao sector informal financeiro, nominalmente regulado pelas administrações locais e regionais e equivalente a cerca de 10% do PIB, segundo estimativas conservadoras.

   Um inaudito aumento de 52% na concessão de crédito no mercado interno nos primeiros cinco meses deste ano em relação a idêntico período de 2012 lançara o alarme no Banco Central e levou à adopção de medidas extremas.

   Ao reduzir a injecção de liquidez, o Banco Central provocou uma alta histórica das taxas "overnight" e a sete dias viu-se confrontado com rumores sobre a insolvência do "Banco da China", um dos quatro maiores bancos comerciais do estado, enquanto os mercados internacionais reflectiam temores de uma crise de crédito na segunda economia mundial.

   Zhou Xiaochuan acabou por vir assegurar que o Banco Central prossegue uma política de regulação e ajustamento da liquidez para garantir a estabilidade dos mercados financeiros e de um sistema bancário sólido e solvente, mas, as declarações do governador não dissiparam dúvidas sobre a capacidade das autoridades para controlarem fluxos de crédito numa conjuntura de contracção da economia.

                             Imponderáveis do crédito

   O sector imobiliário, por exemplo, registou em Junho uma subida de preços de 7,4% em relação ao ano anterior – de acordo com dados de uma das maiores agências chinesas, a "SouFun" –, confirmando que os investidores encontraram formas de contornar as restrições ao crédito, designadamente a proibição de compra de segunda habitação.

  Após colapsos pontuais em 2011 – designadamente em Ordos, na Mongólia Interior, e em Wenzhou, na província costeira de Zhejiang, no sudeste da China – que puseram em causa a angariação de receitas pelos governos locais através de leilões de concessões de terra para construção e desencadearam falências em cadeia, o imobiliário é de novo visto como investimento rentável.

  A alta de preços num sector que representa 13% do PIB poderá, contudo, revelar-se de pouco dura a manterem-se restrições ao crédito para conter a dívida de administrações locais (equivalente a um montante próximo dos 25% a 36% do PIB) e obrigar os quatro maiores bancos do país (responsáveis por cerca de 40% do total de empréstimos) a fazerem provisões para obviar a maus devedores.

  A contracção do sector financeiro informal apresenta, por sua vez, o risco de asfixiar grande número de pequenas e médias empresas.

  Num universo de 40 milhões de PME 97% não têm acesso a crédito bancário, segundo dados do banco de investimentos de Pequim "CITIC" , vendo-se obrigadas a recorrer a agentes financeiros não regulados pelo poder central.

   O fim do ciclo de investimentos empreendidos sob tutela do estado entre 2008 e 2010, que beneficiou essencialmente as grandes empresas públicas, a impossibilidade de ampliar quotas nos mercados de exportação, associada ao aumento de custos salariais e à apreciação do reminbi, conjugam-se para uma redução da taxa de crescimento económico.

                                         Confiar no líder

   O objectivo oficial para este ano cifra-se em 7,5%, abaixo da média de crescimento de 10,5% da última década e justifica que Xi Jinping – presidente desde Março e líder do partido eleito em Novembro do ano passado – se tenha visto obrigado a uma nova campanha de propaganda.

   A legitimidade comunista deriva presentemente da capacidade para promover melhorias nas condições materiais de vida da população e o partido depara-se com crescentes dificuldades para evitar defraudar expectativas.

   A nova liderança é herdeira do Plano Quinquenal 2006-2010 que visava criar uma "sociedade harmoniosa" e dava por esgotado – devido ao envelhecimento populacional, degradação ambiental e crescentes assimetrias sociais e regionais – o modelo de desenvolvimento promovido pelas reformas de Deng Xiaoping no final da década de 70.

   Na herança ideológica de Xi encontra-se, ainda, a promoção do consumo interno e melhoria de qualidade de vida, destacada para o quinquénio 2011-2015, o que justifica que o líder venha agora declarar que o desempenho dos responsáveis do partido não deve apenas ser apreciado pelo seu papel na promoção do crescimento económico.

   Tal como os antecessores e na ressaca de sucessivos escândalos de corrupção – entre os celerados mais recentes destacam-se Bo Xilai, chefe do partido em Chongqing, e Liu Zhinjun, ministro dos transportes ferroviários – Xi apela à integridade e probidade dos 85 milhões de membros do partido e à confiança na liderança comunista.

   Um apelo à confiança e à crença no sonho de uma China próspera e influente é a mensagem, pouco substancial, que tem para oferecer um presidente que, preservando o monopólio do poder, pretende gerir reformas inadiáveis numa conjuntura de desaceleração do crescimento económico.


Jornal de Negócios
3 de Julho 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/dilemas_chineses.html

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma epidemia na China





   Uma década passada sobre a erupção da "Síndrome Respiratória Aguda Severa" (SARS) a China confronta-se com novo surto de epidemia aviária, mas as autoridades de Pequim estão desta feita a cooperar com a "Organização Mundial de Saúde" (OMS) para conter a propagação do vírus.

   O H7N9 tinha infectado 24 pessoas, oito das quais morreram, até terça-feira em Xangai e nas províncias de Zhejiang, Jiangsu e Anhui no leste do país.

  O vírus aparenta poder vir a ser transmitido de aves para mamíferos, como porcos, mas não sofreu mutações que propiciem a transmissão entre seres humanos.

  A primeira morte foi assinalada a 7 de Fevereiro, a segunda a 4 de Março, e a informação oficial da "Comissão para a Saúde Nacional e o Planeamento Familiar", entidade sucedânea do "Ministério da Saúde" desde o mês passado, foi divulgada a 31 de Março.

  Ao contrário do ocorrido quando a epidemia da SARS eclodiu no final de 2002 em Guangdong -- a província do Sul com forte concentração de explorações suínas e aviárias adjacente a Macau e Hong Kong -- as autoridades chinesas forneceram a informação disponível à OMS e a países vizinhos, incluindo Taiwan, tendo alertado a população para os riscos sanitários.

  A epidemia irrompeu precisamente quando a "Assembleia Nacional Popular" formalizava a nomeação como chefe de estado de Xi Jinping e coincidiu com um novo escândalo de saúde pública motivado pelo aparecimento de mais de 6 mil porcos mortos no Huangpu, rio que abastece Xangai.

   Tal como sucedeu noutros países atingidos por epidemias, caso da cólera no Peru ou de casos localizados de lepra na Índia nos anos 90, ou, ainda, da encefatopatia espongifrome bovina detectada na segunda metade da década de 80 no Reino Unido, as autoridades chineses mostraram-se muito relutantes em reconhecer a gravidade da SARS.

   A ocultação de informação e a falta de cooperação de Pequim com a OMS, que entre Março e Julho de 2003 conseguiu conter a epidemia, revelaram-se muito prejudiciais para a imagem e respeitabilidade da China.

   Em termos de saúde pública e credibilidade de Pequim, a epidemia da SARS -- que causou 774 mortes (cerca de 10% das pessoas infectadas) na esmagadora maioria na China e na Região Administrativa Especial de Hong Kong, além de prejuízos estimados em 40 mil milhões de dólares – foi o equivalente do Tchernobil soviético, obrigando o regime a adoptar maior abertura no tratamento noticioso em caso de crises sanitárias com repercussões internacionais.

  A presente epidemia levou ao encerramento de mercados aviários nas províncias afectadas, apesar de ainda não terem sido anunciadas medidas de compensação para os produtores, e levou Hong Kong, por exemplo, a introduzir testes veterinários de forma a obstar à importação de aves contaminadas.

  Alguns especialistas alertaram para o risco do H7N9 poder ser facilmente transmissível à imagem da estirpe do vírus aviário H5N1 que desde 2003 infectou mais de 600 pessoas causando a morte de 60% dos contaminados.

  A OMS considera, contudo, que, presentemente, se está longe de uma situação semelhante à das mutações do H1N1 de origem suína que ao mesclar-se com vírus humanos e aviários desencadeou a pandemia de gripe de 2009 responsável por 294 500 mortes.

   Investigações preliminares do Laboratório de Microbiologia Patogénica da "Academia de Ciências" de Pequim indicam que o vírus resulta de uma mistura de estripes encontradas em aves selvagens oriundas do Sul da península coreana e em galinhas e patos da região do delta do rio Yangtze.

   As populações suínas aparentemente não estão infectadas pelo H7N9, mas o vírus ao passar directamente de aves para seres humanos é altamente letal, segundo as informações divulgadas esta semana pelos especialistas chineses.

   Os riscos de alastramento da epidemia são difíceis de avaliar, mas um factor merece desde já ser salientado: pela primeira vez, as autoridades chinesas deram resposta expedita a uma crise sanitária capaz de afectar países vizinhos e enveredaram por uma cooperação plena com a OMS.


Jornal de Negócios
10 Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/uma_epidemia_na_china.html

sábado, 29 de dezembro de 2012

Grandes Herdeiros






   A divulgação das fotografias na internet das gémeas em lingerie foi fatal para Qi Fang que acabou demitido no princípio de Dezembro por abuso de poder e corrupção.

   O chefe da polícia de Wusu, na província de Xinjiang, noroeste da China, mantinha à custa do erário público num apartamento de luxo as duas irmãs que faziam a inveja de camaradas e meros mortais.

   A malfeitoria levou os media oficiais a condenaram lapidarmente o camarada Qi e a uma rectificação: as jovens eram de facto irmãs, mas não se tratava de gémeas.

  A inesperada precisão não se perdeu entre as dezenas de escândalos sexuais e financeiros denunciados por blogues, redes sociais e na media sob controlo do estado após o Congresso do Partido Comunista (PCC) ter consagrado em Novembro a nova liderança de Xi Jinping.

  A luta contra a corrupção foi apontada, à semelhança do que já ocorrera com o antecessor Hu Jintao, como uma prioridade por Xi na sequência de processos envolvendo altos dirigentes como o ministro dos transportes ferroviários, Liu Zhinjun, ou Bo Xilai, chefe do partido em Chongqing, membro da Comissão Política, filho de Bo Yibo, um dos grandes do pós-maoísmo.

  O ano passado terá visto agravar-se a corrupção que em 2011, segundo um relatório agora divulgado pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, levara à demissão de 4 843 quadros com funções a nível distrital ou superior.

  Conivências pessoais, redes alargadas de patrocínio, o tradicional guangxi, expandiram-se a todos os níveis da administração controlada pelo PCC, tornando extremamente difícil a erradicação de cliques corruptas, de acordo com investigadores chineses entrevistados recentemente pelo semanário O Observador Económico, de Pequim.

  A denúncia não-oficial de casos de corrupção, a par de actos de contestação política, expandiu-se de tal forma que obrigou as autoridades a adoptaram regras mais restritas de uso da internet por parte dos 538 milhões de utentes registados oficialmente no final do primeiro semestre de 2012.

  O retrato do guangxi comunista ficou, entretanto, muito mais preciso em 2012 graças a uma série de grandes investigações de orgãos de comunicação social norte-americanos cada vez mais empenhados em decifrar os fluxos de poder na China.

  The New York Times revelou em Outubro que familiares do primeiro-ministro Wen Jiabao, que abandonará o cargo em Março após uma década de governação, acumularam activos no valor de 2,7 mil milhões USD.

   O acesso ao jornal foi bloqueado na China tal como sucedeu ao serviço noticioso da Bloomberg depois de anunciar em Junho que familiares de Xi Jinping -- excluindo mulher e filha, mas com destaque para a sua irmã Qi Qiaoqiao – eram detentores de activos no montante de 376 milhões USD e propriedades em Hong Kong avaliadas em 55,6 milhões USD.

  A fechar o ano The Wall Street Journal apurava que os 75 milionários membros do Congresso Nacional do Povo tinham aumentado as suas fortunas mais rapidamente do que os demais confrades constantes da lista dos 1 024 chineses mais ricos compilada pelo Hurun Report, de Xangai.

  A riqueza dos 75 deputados, que detinham no conjunto activos superiores a mil milhões USD, aumentou 81% entre 2007 e 2012. Por comparação os activos de milionários sem cargos políticos registaram um acréscimo médio de 47%

  A Bloomberg apresentou, por sua vez, uma exaustiva investigação das fortunas de descendentes directos e seus cônjuges dos “Oito Anciãos”, o núcleo duro que em torno de Deng Xiaoping lançou as reformas económicas do pós-maoísmo.

   Entre os herdeiros dos “Oito Imortais” -- como por irrisão e em louvor da tradição popular taoísta dos “Oito Sábios” ficaram conhecidos os patriarcas comunistas – destacavam-se Wang Ju, He Ping e Chen Yuan que chegaram a controlar empresas estatais com activos no valor de 1,6 triliões USD no final de 2011, quase 1/5 do PIB da China.

  Entre estes 103 camaradas três estão actualmente no topo do poder.
  Xi Jianping e outros dois dirigentes dos sete membros do Comité Permanente da Comissão Política são filhos de Imortais e um quarto, Wang Qishan, é casado com a filha de um Imortal.

  A ascensão da aristocracia comunista desde o início das reformas nos anos 80 processou-se através do controlo de empresas estatais e de investimentos em Hong Kong e Macau que, posteriormente, alargaram os seus interesses ao estrangeiro.

  Numa segunda fase os Grandes Herdeiros, se assim se lhes pode chamar, apostaram no sector privado, sobretudo na área financeira e tecnológica, mas sempre com a rede protectora do guangxi.

  Filhos, filhas, netas e netos dos Imortais contam-se entre os maiores ganhadores das reformas que relançaram a fortuna da China e levaram cerca de 600 milhões de pessoas a escaparem a situações de probreza.

  O custo de uma acentuada desigualdade social em que, presentemente, um por cento da população detém 41,4 da riqueza nacional, tem uma vertente política em que poder partidário, administrativo, económico e financeiro se confundem sem remissão.


Jornal de Negócios
2 Janeiro 2013

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Quarenta anos depois de Nixon



   À liderança chinesa importa projectar uma imagem de coesão e coerência estratégica numa fase de transição geracional no partido e no Estado

   Xi Jinping, futuro homem forte da China, encontrou-se com Obama, na Casa Branca, para reforçar a "confiança mútua", enquanto o primeiro-ministro Wen Jiabao reiterava, em Pequim, que eventuais investimentos chineses nos fundos de resgate europeus dependem de uma estratégia credível da UE para superação da crise da dívida soberana.

   Van Rompuy e Barroso, encurralados por concessões que terão de fazer para reconhecimento da China como economia de mercado ou comprador sem peias de armamento, foram novamente notificados de que, malgrado o risco de recessão do seu principal parceiro comercial, Pequim só intervirá nos mercados financeiros a favor do euro mediante sólidas garantias de Bruxelas e do BCE.

   Incapazes de asseverarem a exequibilidade de uma incerta estratégia de estabilização da eurozona, Barroso e Van Rompuy deixaram Pequim entregues a si próprios e, uma vez mais, ficou a claro que a China, como qualquer outra potência, coopera ou opõe-se a outros estados antes do mais em função dos seus próprios interesses.

   Xi entrava nessa mesma terça-feira na Casa Branca, 40 anos depois da histórica visita de Richard Nixon a Pequim, e poucos em Washington se mostravam capazes de estar à altura do malfadado presidente republicano para tentarem antever os próximos confrontos com a China.

                                            Os timoneiros

   À liderança chinesa importa projectar uma imagem de coesão e coerência estratégica numa fase de transição geracional no partido e no estado, marcada por fortes tensões internas e incertezas sobre crises internacionais, designadamente no Médio Oriente com ameaças para o fluxo de fornecimentos de petróleo da Arábia Saudita e do Irão.

   A reformulação do modelo de desenvolvimento a concretizar pela chamada "quinta geração de líderes comunistas" obriga ao reforço do consumo interno e à redução de impactos ambientais negativos num ambiente de polarização social conflitual, escassez de oferta de mão-de-obra e, conjunturalmente, alto risco financeiro por via da explosão da "bolha imobiliária" e do endividamento excessivo de autoridades provinciais.

    O vice-presidente Xi -- em Outubro, aos 59 anos, será eleito secretário-geral do Partido Comunista antes de assumir em Março de 2013 a chefia do estado -- nos encontros desta semana com a elite do poder norte-americano visa firmar o seu estatuto internacional de guardião dos interesses de Pequim ao mesmo tempo que testa as possibilidades de entendimento com Washington.

   Independentemente de Xi e Barack Obama conseguirem encetar uma relação pessoal razoável (ao invés da notória frieza patente no trato com o actual presidente Hu Jiantao) o futuro líder chinês lidará com uma Casa Branca democrática, ou eventualmente com Mitt Romney, segundo alguns princípios estratégicos muito claros.

                                             O confronto

   Pequim considera-se parceiro paritário de Washington e desconta as tiradas de campanha eleitoral de republicanos e democratas sobre concorrência desleal chinesa destrutiva de postos de trabalho nos Estados Unidos.

   Acções unilaterais norte-americanas são, contudo, inaceitáveis para Pequim e controvérsias sobre alegadas manipulações do yuan, desrespeito por direitos de propriedade intelectual ou proteccionismos, terão de ser enquadradas num fluxo de trocas que no ano passado se saldaram num défice comercial de Washington de 295 mil milhões de dólares ante o seu principal credor de dívida pública.

   Em Washington, tal como nas principais capitais europeias, ainda é difícil aceitar a nova relação de forças e ora se sobrestima uma irresistível ascensão da China, ora se subestima a imensa conflitualidade de uma sociedade de desigualdades crescentes com baixo patamar de rendimento per capita e em vias de urbanização acelerada em que só este ano os citadinos superaram a população rural.

   Pelas bandas de Pequim, por outro lado, é difícil definir os termos de acerto entre uma reivindicação de orgulho nacionalista promotora de consensos em torno do partido/Estado e ameaçadora para a maior parte dos países vizinhos e uma política realista que contenha a estratégia de Washington de preponderância militar e controlo das principais rotas marítimas do Índico ao Pacífico.

    O confronto é assumido como risco a prazo por todos os competidores.

    Com Xi e talvez com Obama a China chegará à outra curva da estrada que nem Mao nem Nixon chegaram a vislumbrar.


Jornal de Negócios
15 Fevereiro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=538273

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ideologia 7 por cento





   Um crescimento económico anual na ordem dos 7% é o objectivo apontado no plano quinquenal 2011/2015 que a Assembleia Nacional Popular da China está em vias de aprovar.
   Promover o consumo interno, reduzindo as desigualdades sociais e a degradação ambiental, são objectivos essenciais para assegurar a estabilidade na transição para a nova liderança que o 18º Congresso do Partido Comunista ratificará em Outubro de 2012.

   O futuro chefe do partido e do estado, Xi Jinpiang, e o provável próximo primeiro-ministro, Li Leqiang, serão os legatários de uma estratégia que garantiu a sucessão consensual da liderança política depois das convulsões de 1989.

                                   Características chinesas

   "Socialismo com características chinesas" tornou-se o chavão oficial para definir um sistema em que o controlo indisputado do partido sobre o estado assenta a sua legitimidade na prossecução de um crescimento económico capaz de prover uma melhoria contínua das condições de vida.

   Na ausência de pluralismo político e liberdade de expressão a ideologia do crescimento económico ininterrupto, a par do nacionalismo, subsiste como razão de estado inquestionável que obriga à aquiescência dos cidadãos.

   A matriz da ideologia do poder tem a sua expressão na alocação e redistribuição de recursos que o partido define no plano quinquenal, o décimo segundo desde 1953.

   O plano em aprovação rege-se pelas mesmas linhas das "directivas gerais" para 2006/2010 que tinham assumido a impossibilidade de prosseguir um modelo económico assente em exportações com escassa incorporação tecnológica e insustentáveis custos ambientais.

   O objectivo de crescimento de 7,5% do quinquénio precedente acabou por ser ultrapassado, cifrando-se em 11,1%, mas a "Sociedade Harmoniosa" prometida pelo presidente Hu Jintao viu acentuar-se a desigualdade social.

                              Desigualdade e contestação

   Na China o coeficiente Gini - do 0 da igualdade perfeita de rendimentos a 1 na desigualdade máxima de concentração individual total de riqueza em detrimento dos demais - passou no socialismo de miséria maoísta de 0,28 (ou provavelmente menos dado que as estatísticas não são fidedignas) a 0,5 na altura em que Pequim se assume como a segunda maior economia do planeta.

   Para a maioria da população, sobretudo de etnia Han, enquanto se mantiverem credíveis as expectativas de melhoria da sua situação social é possível que a contestação -- desde que as autoridades dêem a entender com um mínimo de credibilidade a sua disponibilidade para atenderem a queixas pontuais - possa ser contida dentro dos limites do tolerável para o regime, ainda que as assimetrias regionais possam deitar tudo a perder.

   Apesar de protestos e greves terem vindo a aumentar na última década o consenso social - abalado, no entanto, pela contestação ideológica de minorias intelectuais e activistas como o Prémio Nobel da Paz 2010 Liu Xiabao - desejado pelo Partido Comunista tem-se mantido, não obstante os riscos de dissensão étnica, agravada pelos diferenciais de rendimento, no Tibete e Xinjiang.

   O primeiro-ministro Wen Jiabao apresentou como objectivo quinquenal um aumento dos rendimentos equivalente à taxa desejada de 7% de crescimento económico essencialmente por via da contenção da inflação (5% é a previsão para 2011), apesar de uma alta nos custos de trabalho não contribuir para conter pressões inflacionistas.

   É a meta mais baixa das duas últimas décadas e tem em conta que no quinquénio precedente os rendimentos do trabalho só acompanharam os aumentos de produtividade e do PIB em três das 27 províncias do país, segundo os dados oficiais.

    Outro alvo do plano passa por uma redução do consumo de energia de 16 % por unidade de PIB essencial para obviar à depredação ambiental provocada pelo excessivo recurso ao carvão (70% do consumo de energia na China) e, subsidiariamente, pela diminuição das importações de hidrocarbonetos.

                                         Partido e excluídos

   O objectivo de incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se, no entanto, com uma rudimentar rede de saúde, assistência e segurança sociais razão principal das elevadas taxas de aforro que rondam 30% dos rendimentos familiares.

   O envelhecimento da população realça estas carências.

   Projecções da ONU, na variante intermédia, cifram para meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

   O plano quinquenal não apresenta soluções inovadoras nesta área, enquanto a estimativa das despesas com o sector de saúde representa apenas 0,4% do PIB a confirmar-se as expectativas de um crescimento de 8% previsto para este ano.

   O governo de Pequim apesar de referir aumentos de subsídios para famílias de menores rendimentos é omisso quanto a custos orçamentais que estarão balizados pelo objectivo do défice orçamental não exceder em 2011 os 2% do PIB.

   De fora ficam ainda 221 milhões de chineses que as estatísticas de Pequim consideram "mão-de-obra flutuante", ou seja, população migrante em busca de trabalho sem os obrigatórios certificados de residência.

   A liderança colectiva no Partido Comunista está em vias de garantir com êxito o processo particularmente complicado de sucessão de líderes, mas ainda não deu provas de capacidade para definir novas estratégias e mudar de rumo ante abalos inesperados.

Jornal de Negócios
9 Março 2011

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Um problema chinês



Bo Xilai



   A queda em desgraça de uma das principais figuras do Partido Comunista e a caótica campanha para a eleição do chefe do executivo de Hong Kong evidenciam as disfunções do sistema político da China.

   A demissão de Bo Xilai, chefe do PC em Chongqing, trouxe à luz do dia as divisões no topo do partido com condenações públicas da linha neo-maoísta.

   Bo mantém-se entre os 24 elementos da Comissão Política, mas o seu afastamento será concretizado quando o vice-presidente Xi Jinping se tornar secretário-geral.

    O primeiro-ministro Wen Jiabao liderou as críticas ao ex-líder do município autónomo do sudoeste da China – metrópole com mais de 30 milhões de habitantes – que proclamava o privilégio de empresas estatais e a mobilização popular com palavras de ordem maoístas.

                                  Desgraça de um neo-maoísta


   Filho de uma eminência da era de Deng Xiaoping, Bo Yibo, o homem--forte de Chongqing cultivava uma irreverente imagem populista de inimigo da corrupção e das desigualdades sociais.

   A campanha sem precedentes de promoção pública de Bo visava conseguir no Congresso de Outubro um lugar entre os nove membros da Comissão Política Permanente, o principal órgão decisório.

   Tal como nas mais recentes defenestrações da Comissão Política – Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão – acusações de corrupção recaem sobre Bo e familiares próximos, denúncias de regra nas querelas políticas pós-maoístas.

   Na transição ordeira de poder para a "quinta geração de líderes" aos dirigentes comunistas importa evitar dissensões ao mais alto nível capazes de propiciarem ou potenciarem contestações ao partido conforme ocorreu em 1989.

   O "luan", o caos e desordem sociais temidas por gerações de senhores da China, não ameaça de momento o regime, apesar das dificuldades de ajustamento ao abrandamento do crescimento económico e à contracção demográfica.

   Greves, motins e revoltas – como a ocorrida no final de 2011 na aldeia de Wukan, na província sulista de Guangdong – não põem em causa o direito a governar das autoridades centrais, mas, ao agitarem a maioria han alimentam uma potencial crise de legitimidade e representam uma ameaça maior do que o irredentismo separatista de minorias como os muçulmanos do Xinjiang ou tibetanos.

   O "mandato do céu" comunista assenta no crescimento económico e melhoria contínua de condições de vida, mas confronta-se com a impossível partilha do poder político.

                          Uma eleição ou coisa que o valha

   Tung Chee Wa, um magnata dos transportes marítimos salvo da bancarrota por Pequim, tornou-se em 1997 no primeiro chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong.

   Medíocre político Tung foi alvo da contestação ao conluio entre a oligarquia local de negócios e um PC empenhado em garantir a prosperidade da ex-colónia e obviar a tentações autonomistas capazes de alinharem com independentistas de Taiwan.

   Em Março de 2005 Tung demitiu-se no terceiro ano do seu segundo mandato e foi substituído pelo número dois do governo Donald Tsang que transitara da administração colonial.

   A salvaguarda de liberdades e direitos e a manutenção do sistema capitalista, acordadas com Londres por um período de 50 anos, não obrigam Pequim à eleição por sufrágio universal do chefe do governo e a escolha cabe a um Comité Eleitoral de 1 200 representantes de interesses corporativos.

   Para obstar à reivindação de eleições directas as diversas instâncias do poder central têm tentado evitar afrontar directamente a opinião pública que entre os 7 milhões de habitantes se manifesta através de manifestações e protestos, sismograficamente registados em sondagens.

   A eleição deste ano redundou, no entanto, num caos.

   Tsang terminou o segundo mandato crivado de acusações de favorecimento a interesses empresariais e os candidatos com experiência administrativa aceitáveis por Pequim envolveram-se numa acrimoniosa troca de acusações.

   O principal candidato, Henry Tang, oriundo de uma família de empresários têxteis, caiu a pique nas sondagens depois de admitir adultério e a construção ilegal de um complexo subterrâneo numa propriedade da mulher.

   Outro candidato aceitável por Pequim, mas rejeitado pelo muito influente lobbie imobiliário, Leung Chun Ying, viu-se acusado de ligações ao crime organizado e de ter proposto numa reunião de executivo que as manifestações de 2003 contra uma lei anti-subversão, de que o governo acabou por desistir, fossem reprimidas pela polícia de choque.

   As sondagens indicam simpatias maioritárias por Leung, mas a maioria do Comité Eleitoral aguarda instruções de Pequim quanto à orientação de voto.

   Em Hong Kong, no domínio mais liberal da vasta China, uma eleição ou coisa que o valha é um quebra-cabeças.


Jornal de Negócios
21 Março 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=545799

Um processo à chinesa



   Polir a imagem da oligarquia comunista chinesa é o objectivo do julgamento por assassínio de Gu Kailai - mulher de Bo Xilai, líder caído em desgraça em Abril - que começa quinta-feira em Hefei.

    Gu e o seu assistente pessoal e guarda-costas Zhang Xiaojun são acusados de terem envenenado o empresário britânico Neil Heywood num hotel de Chongqing em Novembro de 2011.

   O corpo do empresário foi cremado sem autópsia, sendo a morte oficialmente atribuída a intoxicação alcoólica, mas no início de Fevereiro a fuga do chefe da polícia de Chongqing, Wang Lijun, para o consulado norte-americano na vizinha cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan, desencadeou o escândalo.

    O consulado acabou cercado por forças policiais enviadas de Chongqing e o governo central teve de ordenar a sua retirada.

   Wang, que começara a sua carreira ao serviço de Bo Xilai em 1992 na cidade portuária de Dalian no nordeste da China, só abandonou as instalações diplomáticas cerca de 24 depois partindo para Pequim sob escolta e para não mais prestar declarações públicas.

                                            Enriquecer é glorioso!

   Uma catadupa de acusações e insinuações surgiram nos media e na blogosfera acusando Bo Xilai e a mulher de envolvimento no assassinato do empresário inglês que desde a década de 90 servia de intermediário a negócios do casal que acumulara entretanto uma fortuna superior a 100 milhões de euros.

   Bo Xilai vinha a promover desde 2007 como líder do partido em Chongqing - um município de 29 milhões de habitantes no sudoeste do país sob controlo directo do governo central - políticas ditas neomaoistas assentes em medidas de mobilização popular para alegado combate à corrupção e promoção de valores sociais igualitários pelo aparelho de estado.

   Como filho de Bo Yibo, um dos líderes máximos das décadas de 80 e 90 do século XX, Bo Xilai tinha uma posição central entre os 25 membros da Comissão Política do partido pretendendo abertamente aceder aos escalões superiores do núcleo dirigente.

   Bo Xilai surgia como um dos favoritos à promoção ao círculo máximo de nove dirigentes do Comité Permanente da Comissão Política a eleger pelo XVIII Congresso agendado para o final deste ano.

   A queda de Bo foi abrupta: a 10 de Abril era anunciado que fora suspenso do Comité Central e da Comissão Política encontrando-se sob investigação por "graves violações da disciplina partidária".

   A desdita de Bo abriu caminho para normalizar o processo de sucessão que consagrará Xi Jinping como líder do partido e do estado, a par de Li Keqiang como chefe do governo, mas lançou a mais crua luz sobre corrupção e abusos de poder ao mais alto nível.

                              Irremediavelmente condenada

   Gu Kalai é julgada, por determinação do Supremo Tribunal, na capital de Anhui, uma província no leste da China apesar de ser acusada de um crime cometido em Chongqing e os seus advogados de defesa foram nomeados pelas autoridades de Hefei.

   Declarações de "fontes oficiais" têm vindo a indicar que a ré confessou o crime cometido alegadamente para defender o filho que estuda em Harvard de ameaças do seu parceiro de negócios britânico.

   As mesmas fontes indiciam que Gu - uma ex-advogada de sucesso - poderá não vir a responder em outros processos por "crimes económicos" caso escape a uma sentença de morte, mas, de facto, tudo dependerá da forma como se desenrolar o julgamento.

   A queda em desgraça de Bo Xilai é irreversível e tal como noutras purgas do pós-maoismo - caso das defenestrações da Comissão Política de Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão - as denúncias de corrupção são instrumentalizadas para fins políticos.

   A conjuntura, contudo, não é propícia a mais polémicas sobre abuso de dinheiros públicos tanto mais que o ministro dos caminhos de ferro, Liu Zhijun, demitido em Fevereiro do ano passado aguarda julgamento por actos de corrupção envolvendo centenas de milhões de euros, e se sucedem revelações sobre as fortunas acumuladas pelos membros da elite do partido e seus familiares.

   As últimas listagens de fortunas do "Hurun Report" e do "Boston Consulting Group" recenseavam 106 bilionários e 310 mil famílias com activos superiores a um milhão de dólares.

   Na China, um por cento da população detém 41,4% da riqueza nacional e o cartão do partido propicia os melhores negócios.

   O julgamento de Gu Kailai tentará fazer a quadratura do círculo esbatendo o mais possível a corrupção, nepotismo e abusos de poder que caracterizam os tratos da elite pós-maoista na sua vertigem de acumulação de capital.

Jornal de Negócios
08 Agosto 2012

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