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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Pátria basca e liberdade


   José Luis Zapatero corre o sério risco de repetir o erro cometido por Felipe González há vinte anos se retomar as negociações com a ETA após o atentado no aeroporto de Barajas.

   Em 1987 o governo socialista insistiu na prossecução da estratégia simultânea de repressão policial, patrocínio à guerra suja dos GAL (os comandos anti ETA que alegadamente defendiam a democracia nos esgotos, no dizer de González), negociações políticas directas com os separatistas em Argel e conversações para um acordo antiterrorista com os partidos bascos à excepção do Herri Batasuna, concluído com o pacto de Ajuria Enea assinado em Janeiro de 1988.

   Há vinte anos os etarras alternaram, por sua vez, a mobilização política através da participação do Herri Batasuna nas eleições europeias, em que conseguiu a eleição de um deputado para o parlamento de Estrasburgo, e as acções terroristas que atingiram o paroxismo em Junho com o seu primeiro atentado contra alvos civis ao deflagrarem uma bomba incendiária no supermercado Hipercor, em Barcelona, matando 21 pessoas e ferindo 39.

   Ainda assim, dois meses depois do massacre na capital catalã, o líder etarra Eugénio Estxebeste negociava de novo em Argel com o comissário da polícia Manuel Ballesteros (posteriormente implicado no processo dos GAL) e após arrastadas negociações a ETA anunciaria a 21 de Janeiro de 1989 o seu primeiro cessar-fogo unilateral que logo no início de Abril seria morto e enterrado numa série de atentados.

                       Bem diferente é a situação vinte anos depois.

   O Herri Batasuna de Arnaldo Otegi está ilegalizado e os nacionalistas bascos, que chegaram a embarcar no pacto de Lizarra com a ETA em 1998, confundidos com o irredentismo dos terroristas. O atentado de Barajas deu origem às primeiras divergências públicas entre o lehendakari Juan Ibarretxe, pronunciando-se no sentido de manter o diálogo com a ETA e a sua ala política, e o líder do Partido Nacional Basco, Josu Imaz, que responsabilizou exclusivamente os separatistas pelo rompimento das negociações.

   A promessa de cessar-fogo permanente da ETA de 22 de Março de 2006 e a subsequente resolução parlamentar de Maio, com a oposição do Partido Popular, autorizando o governo a negociar se os separatistas ETA abandonassem as armas estão enterradas nos escombros de Barajas.

                                   A persistência do terrorismo

   O maior erro de Zapatero foi ignorar que em quase meio século de activismo etarra, desde a fase de guerra revolucionária anticapitalista e antifranquista até o irredentismo nacionalista a partir de 1974 começar a admitir a táctica de negociações com Madrid, a luta armada sempre foi definida pelos sucessivos líderes separatistas como a forma de acção mais eficaz para obter cedências do governo central, dos partidos nacionalistas e dos socialistas bascos.

   Ao fechar os olhos aos roubos de armas no sul da França, à persistência das "extorsões revolucionárias" e à violência de rua os socialistas permitiram que a rede informal de associações e agrupamentos separatistas, que eleitoralmente representa apenas cerca de 140 mil votantes entre perto de três milhões de bascos espanhóis, continuasse a sustentar as células clandestinas da ETA.

   A subestimação da importância das acções violentas de rua, a Kalea Borroka – outro dos elementos de intimidação e destabilização da sociedade basca que contribuem para o crescimento económico comparativamente mais baixo da região em relação à Catalunha, à Comunidade Valenciana ou a Navarra, por exemplo – resultou claramente de um erro de cálculo quanto à prevalência da chamada "violência de baixa intensidade" como um elemento fulcral da estratégia dita de "Assédio" (Oldartzen), adoptada pela ETA em 1995, para apoio à luta terrorista contra alvos militares, policiais e civis.

   Ao não exigir a cessação da "violência de baixa intensidade" e das extorsões antes de admitir publicamente a hipótese de negociações com a ETA, Zapatero correu um risco que redundou num fracasso político muito grave e descredibilizou por tabela o líder socialista basco Jesus Eguiguren.

   As já escassas hipóteses de acertar com a oposição conservadora um acordo de princípio sobre os termos de uma eventual negociação com a ETA ficaram comprometidas pela exigência de Mariano Rajoy, de olhos postos nas eleições do próximo ano, do governo suprimir imediatamente qualquer contacto com os separatistas.

   Zapatero resiste ainda ao reconhecimento do seu fracasso político e a admitir que imposição de desarmamento, fim da violência terrorista, das extorsões e da "Kalea Borroka" é condição prévia a negociações.
Sinal do embaraço de Zapatero é o facto de só ontem, quatro dias após o atentado, porta-vozes não identificados do governo virem afirmar ao diário El País que a "suspensão das iniciativas de diálogo", anunciada pelo primeiro-ministro no sábado, significava "dar por terminado o processo de diálogo".

                                          O maior inimigo

   Conversações que possam conduzir à integração política da ETA, à semelhança do que aconteceu com o IRA, implicam ainda que os etarras abdiquem das suas teses sobre a grande nação basca, Euskal Herria, e os alegados direitos territoriais em Espanha e França de que alegadamente goza o celebrado falante do basco, qualquer euskaldun, em detrimento do desprezado erduldunak, esse ignorante da mais velha língua da Península em que o reaccionário e racista Sabino Arana inventou a mitologia do nacionalismo eterno dos foros de antanho e do catolicismo conservador nas últimas décadas do século XIX.

   Pior ainda: a crise basca acentua a clivagem entre direita e esquerda sobre o modelo de estado, o projecto de reordenamento quase federal encetado pelos socialistas e os termos das relações entre as 17 comunidades e as cidades autónomas de Ceuta e Melilla que integram a monarquia espanhola.

   A recusa de Zapatero em dar publicamente por total e absolutamente excluída qualquer negociação com a ETA sem provas concludentes do desarmamento e desarticulação da rede terrorista torna o primeiro-ministro espanhol refém dos separatistas e diminui-o politicamente frente às oposições nacionalistas no País Basco e na Catalunha, dando trunfos à estratégia securitária e às tendências centralistas de vastos sectores do Partido Popular.

   Na Espanha democrática a ETA representa precisamente o oposto da denominação pela qual jurou lutar em 1959: Euskadi Ta Askatasuna.

   A ETA é o maior inimigo da Pátria Basca e da liberdade.



Jornal de Negócios
03 Janeiro 2007

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Espanha: café amargo




    Católico e conservador o líder da Liga Regionalista da Catalunha Francesc Cambó sonhou com uma Catalunha autónoma numa Espanha grande e unida, mas quando rumou a Madrid para ocupar a pasta do Fomento no governo de União Nacional de Antonio Maura, no rescaldo da crise de 1917

   Ficou então para a história a advertência que o andaluz Alcalá-Zamora lhe lançou nas Cortes de Madrid de que não era possível ser ao mesmo tempo o Bolívar da Catalunha e o Bismarck de Espanha.

   A Guerra Civil veria Cambó apoiar as hostes de Franco e Alcalá-Zamora, primeiro presidente da Segunda República, condenado ao exílio, mas o dilema Bolívar-Bismarck ainda hoje alucina muito político catalão e espanhol pois é longa e problemática a questão nacional em terras de Espanha.

                                       A ideia de Espanha

   O termo Espanha começa a impor-se para nomear uma entidade política unificada no final do século XV com Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis católicos que conquistaram a Granada mourisca, expulsaram os judeus e viram Colombo descobrir o Novo Mundo.

   O centralismo madrileno só viria a impor-se com o absolutismo de Filipe V no início do século XVIII e o despotismo iluminado dos seus sucessores Fernando VI e Carlos III.

   Foi assim que, vencida a Guerra da Sucessão, o primeiro dos Bórbon encetou a unificação legal do reino, poupando apenas os privilégios dos apoiantes que tinha encontrado nas Vascongadas, em Navarra e no Valle de Aran, nos Pirinéus.

   Mais tarde, a ideia de Espanha como comunidade nacional, mais abrangente do que o culto do terrunho, da patria chica, ganha corpo frente às investidas de Napoleão.

    Para além da vertente tradicionalista o sentimento nacional e a ideia de estado-nação são, igualmente, muito marcados pelo centralismo da Constituição de Cádis de 1812, a resposta dos liberais às investidas de Napoleão.

    Em Março de 1812 as Cortes, proclamando a fé católica de Espanha e adoptando o modelo administrativo centralista francês, definiam a Nação soberana como «a união de todos os Espanhóis em ambos os hemisférios».

    Mas o século XIX ficará marcado pela perda das colónias, o fracasso da modernização liberal, a persistência relativa dos poderes nobiliárquicos e o peso dos interesses agrários.

   As áreas centrais e meridionais não acompanharão a industrialização e o fôlego comercial que darão novo peso às províncias vascas e catalãs.

   Um nacionalista como Prat de la Riba viria a expressar as novas realidades ao concluir, no final de Novecentos, que a prosperidade da Catalunha estava em perigo devido ao «desequilíbrio entre a nossa força económica e a nossa nulidade política dentro de Espanha».

   As renascenças culturais inventarão novos mitos e alimentarão a reivindicação de poderes para as velhas entidades regionais que se assumem como nações autónomas.

    Num ambiente de crise, perdido um centro unificador, um madrileno como Ortega y Gasset virá mesmo a proclamar, em 1920, na sua Espanha Invertebrada, que «Castela fez a Espanha e Castela a desfez».

   Unidade e fragmentação são, pois, uma constante da história, mas só o regime de Franco impôs em Espanha um modelo centralista ditatorial estiolando toda e qualquer veleidade de afirmação regional.

                                            Café para todos

   Após a morte de Franco um primeiro ponto de equilíbrio foi alcançado com a Constituição de 1978 e a instituição de comunidades autónomas.

   Catalunha, País Basco e Galiza foram denominadas nacionalidades históricas e ganharam larga autonomia.

    Logo depois, a Andaluzia também se assumiu como nacionalidade histórica no quadro da monarquia constitucional.

    Foi o momento do celebrado «café para todos», no dizer do então primeiro-ministro Adolfo Suárez.

   A descentralização, o laicismo e a neutralidade dos militares tornaram-se os esteios da Espanha democrática.

    Mas o processo de reordenamento do estado está ainda longe de fazer consenso, é pretexto para todas as jogadas das elites políticas, e, assim, não foi por acaso que metade dos catalães se alheou do referendo sobre o novo Estatuto que consagra significativos poderes administrativos, fiscais e de organização judiciária, além de manter a língua catalã a par do castelhano.

   O processo de negociações do Estatuto que substituirá o texto de 1979 foi atribulado em Barcelona e a versão adoptada pelo parlamento catalão, em Setembro de 2005, sofreu alterações substanciais.

   As discussões nas Cortes de Madrid acabaram por gerar um texto em que o impasse ideológico está bem expresso.

   No preâmbulo afirma-se que o parlamento de Barcelona definiu a Catalunha como «nação» expressando o seu sentimento e vontade de cidadania.
 
    Logo a seguir, no artigo primeiro, a Catalunha passa a ser referida como «nacionalidade».

   Tanto bastou para garantir a oposição da Esquerda Republicana da Catalunha ao Estatuto de compromisso.

    Menos ainda foi suficiente para sustentar a oposição do Partido Popular que vê neste Estatuto uma ameaça à unidade do estado, da mesma forma que alguns dirigentes socialistas não catalães, como Juan Ibarra, presidente da Junta da Estremadura, ou o ex-ministro da Defesa José Bono, natural da província de Albacete, em Castilla-La Mancha.

   Este Estatuto da Catalunha é, no entanto, sobretudo em termos fiscalidade e financiamentos do governo central, a matriz que tem guiado a revisão dos estatutos que regerão outras comunidades como Valência e Baleares, Aragão e Andaluzia.

   Se os radicais e terroristas do País Basco forem isolados e cair a reivindicação de independência da grande nação vasca (Euskal Herria), o compromisso catalão poderá também servir para orientar a revisão do Estatuto Euskadi.

    Mas entre os dois nacionalismos saídos da pujança vascã e catalã no século XIX a diferença sempre foi de monta.

   Ao contrário da doutrina racista e culturalista patente nos primeiros escritos do pai do nacionalismo vasco, Sabino Arana, os nacionalistas catalães nas suas vertentes revolucionárias populares ou conservadoras nunca reivindicaram a soberania sobre glórias históricas, exigindo o retorno de Montpellier ou Nápoles, por exemplo, e acomodaram-se à coexistência no seio do estado espanhol.

   Os nacionalistas vascos, pelo contrário, ainda não alijaram totalmente o lastro da herança de Arana.

                                                Poucas certezas

   Certo é que com as suas 17 comunidades autónomas e as cidades autónomas de Ceuta e Melilla, no norte de África, a Espanha ainda está longe de completar o reordenamento do estado na variante quase federal promovida por Rodriguez Zapatero.

   Para além das difíceis negociações entre o governo central e as regiões e nacionalidades ou nações o aspecto mais gravoso da questão é a falta de acordo entre esquerda e direita quanto ao modelo de estado.

    Temos aqui um dos principais dilemas da política espanhola para muitos e bons anos e quanto ao resto pouco mais certezas sobram.

   Valha a lição do grande hispanista e catalanista francês Pierre Vilar que considerava, pouco antes de falecer em 2003, que este século assistirá a novos ordenamentos políticos.

   O historiador guardava, ao fim de longa meditação sobre os destinos da Península, uma única certeza: em termos de identidades nacionais prevaleceriam pelo peso das suas culturas um reduto vasco, outro português e galaico, a massa castelhano-andaluza e a Catalunha, de Guardamar a Salses.

   Pouco mais certezas sobram quanto ao destino ibérico neste século.

Jornal de Negócios
21 Junho 2006

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