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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Roteiro da Guerra no Médio Oriente

 
   Yasser Arafat considerava insensato comparar Ariel Sharon a Charles de Gaulle e o primeiro-ministro de Israel, por seu turno, classificava como um equívoco a analogia com o presidente francês porque, dizia, «a Argélia é aqui, os judeus não têm para onde partir e o estado de Israel é central para todas as comunidades judias dispersas pelo mundo».
 
   Por uma vez os dois inimigos concordavam numa apreciação crucial que justificou toda a carreira política de Sharon, ainda que, desde 1988, o político do Likud afirmasse ter começado a admitir a necessidade de descartar territórios que não fossem vitais à segurança do estado de Israel.

   Só em 2004, no entanto, Sharon começou a concretizar os planos de definição unilateral de fronteiras, mediante a neutralização militar e isolamento diplomático do adversário.

  Os objectivos que guiavam Sharon passavam por assegurar profundidade estratégia mínima, capacidade de dissuasão e projecção de força superiores a todos os estados vizinhos, coesão étnica e preservação da aliança com os Estados Unidos.

   A sua estratégia continha, no entanto, lapsos consideráveis para sustentar a pacificação regional.

   Os elementos mais óbvios das insuficiências do projecto a longo prazo de Sharon tinham a ver com a recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, a manutenção do carácter judaico e democrático do estado -  tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala - e, sobretudo, a viabilidade e estabilidade de um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia.

   O estratego desapareceu sem dar resposta a estas contradições, ainda que tenha enterrado definitivamente a quimera da «Grande Israel», e saiu de cena precisamente numa conjuntura em que sopram ventos de guerra no Médio Oriente.

   Evocar o pior cenário possível é uma questão de avaliação da magnitude e probabilidade dos riscos e implica uma conjunção e imbricação de variáveis a curto prazo.

  Precisamente por isso, falhado o objectivo do Roteiro de Paz, patrocinado pela ONU, União Europeia, Rússia e Estados Unidos, que apontava para uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, é altura de apurar os riscos de um Roteiro de Guerra.

   Incapazes de separar o estado de Israel da turbulência nos territórios palestinianos, os dirigentes israelitas, ainda que possam conter em limites toleráveis eventuais vagas terroristas, terão de coexistir com uma Autoridade Palestiniana em que o peso dos integristas do Hamas será cada vez maior.

   O cenário de um desfasamento acentuado de interesses imediatos entre os palestinianos da Cisjordânia e a anarquia de Gaza, implicando um comprometimento directo do Egipto, não obsta a que Israel tenha de definir a médio prazo as condições aceitáveis de viabilidade de uma entidade estatal árabe nas suas fronteiras.

   A anexação dos colonatos judeus próximos à linha de fronteira de 1967 na Cisjordânia só teria viabilidade se o estado palestiniano escapasse à lógica dos bantustões que a elite militar e política de Israel persiste em impor, ignorando, ainda, concessões simbólicas na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados palestinianos.

   Tendo em conta o imponderável da evolução do Hamas, que à semelhança do Hizballah no Líbano, nunca irá abdicar da componente armada, Israel viu falhar, para já, a opção Mahamoud Habbas.

  Tudo o que vier será para pior.

  Na fronteira norte, o regime do presidente Bashar Al Assad dificilmente sobreviverá à crise provocada pelo assassínio de Rafic Hariri, sendo o regresso à primeira linha dos Irmãos Muçulmanos e o ajuste de contas com a minoria alauíta dados incontornáveis.

  A questão adiada do retorno dos Montes Golã para efeitos de contenção da Síria e da neutralização do Líbano irá colocar-se a curto prazo aos dirigentes israelitas.

   Na frente interna, um futuro governo israelita não terá condições para levar a cabo o desmantelamento de colonatos na Cisjordânia, mesmo limitado a áreas envolvendo 80 mil dos 240 mil colonos, e, sobretudo, nunca poderá aventar argumentos de reforço de segurança em fronteiras definidas unilateralmente dada a degradação da autoridade da Fatah nos territórios palestinianos.

  Acresce que qualquer governo de Israel terá de dar provas de força para conter previsíveis actos terroristas ao mesmo tempo que tentará acelerar o ritmo de redução de importações de produtos e, sobretudo, de mão-de-obra palestiniana, agravando, necessariamente, a crise económica e social nos territórios.

  Finalmente, a questão mais gravosa e imponderável passa pela resposta a dar ao programa nuclear militar iraniano.

   As estimativas israelitas apontam para um ponto de não-retorno no programa nuclear de Teerão ainda este ano.

  A complexidade da situação foi agravada pela decisão norte-americana de vender a Israel, em Fevereiro do ano passado, 500 bombas convencionais de penetração capazes de atingir instalações subterrâneas, enquanto Moscovo acordava, em Dezembro, o fornecimento de 30 sistemas TOR-M1 de defesa anti-aérea a Teerão.

   A eventualidade de um ataque israelita a alvos iranianos é uma hipótese muito crível, tanto mais que os apoiantes do presidente Mahmoud Ahmadinejad se revelam avessos a qualquer compromisso diplomático, contando a seu favor com a dificuldade de êxito de uma acção militar e as gravosas consequências que acarretaria.

   Mesmo sem levar em linha de conta uma eventual guerra civil no Iraque, nem um atentado em larga escala da Al Qaeda, a concretização negativa de duas ou três situações de risco são mais do que suficientes para considerar muito crível o agravamento da situação no Médio Oriente, admitindo, mesmo, a probabilidade alta de confrontos militares.

  É o roteiro que poderá levar o barril de petróleo até aos cem dólares.   

Jornal de Negócios
11 Janeiro 2006

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domingo, 9 de setembro de 2012

O milagre da ressurreição do Roteiro de Paz

Annapolis, 27 Novembro 2007


   Ressuscitar o Roteiro de Paz israelo-palestiniano, qual Lázaro morto e insepulto desde a sua apresentação oficial em Abril de 2003, requer um milagre à imagem de um Cristo.
   O Roteiro, traçado pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e ONU, propunha-se chegar a uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, mas nem sequer a primeira fase foi concretizada.
   Em Annapolis voltou assim a falar-se da renúncia mútua à violência e do reconhecimento do direito à existência de dois estados no território do antigo Mandato britânico da Palestina aprovado pela Liga das Nações em 1922.

   Reler os termos do Roteiro é um exercício elucidativo sobre tudo o que tem vindo a falhar.

   À Autoridade Palestiniana de Yasser Arafat cumpria fazer cessar todos os actos terroristas, reestruturar os serviços de segurança e reformar a administração para preparar a instauração de um estado independente.

   Israel, sob a liderança de Ariel Sharon, deveria, por sua vez, parar com todas as operações que ameaçassem a integridade dos civis palestinianos e adoptar medidas para normalizar a vida dos cidadãos dos territórios e, à medida que melhorassem os padrões de segurança e a cooperação com as autoridades palestinianas, retirar das áreas ocupadas desde Setembro de 2000 no auge da Segunda Intifada.

   Finalmente, de acordo com a primeira fase do Roteiro, seria congelada a expansão de colonatos judeus e Israel procederia, ainda, ao desmantelamento dos colonatos construídos desde 2000.

                                    Um roteiro esfrangalhado

   A retirada unilateral de Gaza decidida por Ariel Sharon em 2005, o subsequente triunfo do Hamas nas eleições legislativas palestinianas de Janeiro de 2006, a guerra entre os islamitas e a Fatah que culminou na expulsão cinco meses depois dos homens de Mahmoud Abbas de Gaza, transformaram irremediavelmente a situação no terreno.

   Israel, por seu turno, prosseguiu a expansão dos colonatos na Cisjordânia, com a intenção de anexar Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 250 mil residentes judeus nos territórios ocupados.

   O fracasso da ofensiva israelita contra o Hizballah no Verão de 2006 afastou a hipótese de futuras retiradas unilaterais ao levar à admissão por parte de Telavive de que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, poderiam oferecer garantias de segurança a Israel.

   A neutralização de risco militar por parte dessas entidades clientares, graças a uma capacidade de dissuasão esmagadora por parte de Israel, implicava, ainda, que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   A administração norte-americana ante o impasse tentou desde a tomada do poder pelo Hamas em Gaza convocar um encontro internacional, à imagem da Cimeira de Madrid organizada em 1991, após a primeira guerra do Golfo, de forma a assumir alguma iniciativa diplomática e obviar à erosão provocada pela desordem no Iraque.

                            A conjuntura não propicia milagres
 
   Annapolis seria à primeira vista um bom ponto de partida dada a presença de todos os estados da Liga Árabe.

   O encontro no Maryland representava, sobretudo, uma oportunidade para Washington agregar estados árabes, em particular a Síria, a uma neutralização e pacificação do Iraque ao mesmo tempo que isolava o Hamas, o Hizballah e o Irão, a troco da promessa de apoio a Mahmoud Abbas e pressão sobre Israel. 

   Os 22 estados árabes foram, no entanto, a Annapolis na base do plano saudita de 2002 para normalização das relações com Israel a troco da retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967 e de uma solução justa para a questão dos refugiados palestinianos. Os objectivos árabes são, ademais, muito díspares.

   Riade tenta essencialmente evitar um isolamento total do Hamas e o alastrar da guerra civil palestiniana. Uma radicalização sunita islamita da Palestina ao Egipto é capaz de ameaçar a própria Arábia Saudita e oferece oportunidades ao Irão xiita para destabilizar a dinastia de Saud.

   O risco de retorno da guerra civil libanesa, com a consequente influência acrescida de Teerão, obriga, também, os sauditas a tentar levar Washington a empenhar-se numa mediação que, além de obrigar Israel a concessões, garanta, pelo menos, o status quo no Líbano.

   Para a Síria, a oportunidade de recolocar na agenda a questão dos Montes Golã poderá permitir o reforço da sua posição negocial no Líbano, atormentada pela implicação de Damasco no assassínio do primeiro-ministro Rafic Hariri em 2005, e, em termos ainda pouco claros, obter garantias de segurança depois do mal esclarecido ataque aéreo israelita a instalações militares sírias em Setembro.

   Todos os cálculos possíveis para um relançamento de negociações de paz esbarram, contudo, com a impossibilidade de Abbas ou Ehud Olmert puderem fazer concessões significativas.

                           Negociadores sem sustento político

   Abbas não tem condições para avançar nas negociações sem que Israel levante os controlos militares na Cisjordânia e aceite no mínimo discutir na base dos termos mediados por Bill Clinton há sete anos.

   Incapaz de se impor ao Hamas, Abbas só pode aceitar negociações que compreendam a redefinição de fronteiras, cabendo aos palestinianos pelo menos 94 por cento do território da Cisjordânia, a partilha de Jerusalém e compensações para os mais de 4 milhões de refugiados de forma a poder vir limitar a prazo a reivindicação do direito de retorno aos territórios de uma Palestina independente.

   Olmert, cuja principal preocupação passa pela militarização nuclear do Irão, verá a sua coligação governamental desfazer-se, com a saída dos ultra-ortodoxos do Shas e dos nacionalistas de Yisrael Beitenu, caso conceda negociar nestes termos e, limitado ao apoio parlamentar dos partidos árabes e do Meretz, de centro-esquerda, terá, ainda, de enfrentar as ambições de Ehud Barak, à frente dos trabalhistas, e do líder do Likud, Benjamin Nethanyau.

    A hipótese de até ao final do mandato de George Bush palestinianos e israelitas alcançarem qualquer acordo viável é, consequentemente, nula.

   As expectativas de mero relançamento de negociações criadas em Annapolis são insuficientes para criar uma nova dinâmica política e o agudizar da crise sobre o programa nuclear iraniano no próximo ano arruinará qualquer esperança de uma mediação norte-americana que possa levar Israel a concessões capazes de reforçarem a periclitante posição de Mahmoud Abbas.


Jornal de Negócios
28 Novembro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=306610

Atolados de Gaza ao Jordão

 Faixa de Gaza


   É a última quimera nas chancelarias europeias e de Washington: apoiar um governo da Fatah na Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, e isolar Gaza com a ajuda do Egipto e a cumplicidade das monarquias sunitas do Médio Oriente.

   A melhoria das condições de vida dos dois milhões e meio de palestinianos da Cisjordânia, graças à eficiência e lisura administrativas da Fatah e à boa vontade de Israel, será, neste cálculo, o factor decisivo para provar a existência de uma alternativa credível aos habitantes de Gaza que acabarão por repudiar o Hamas.

   Os progressos nas negociações entre a Autoridade Palestiniana e Israel acabarão neste cenário por selar o isolamento e impotência dos islamitas a quem serão negadas quaisquer concessões políticas. Ao Hamas apenas será concedido o acesso a ajuda humanitária de emergência, fluxos mínimos de abastecimentos – electricidade, água, combustíveis – e trocas comerciais para obviar ao colapso de Gaza.

   Num primeiro momento Israel aceitou desbloquear cerca de 400 milhões de dólares de impostos e taxas devidos à Autoridade Palestiniana.

  Abbas reiterou, por sua vez, o compromisso de reconhecimento dos acordos estabelecidos entre a Autoridade Palestiniana e Israel. A União Europeia comprometeu-se a retomar a ajuda financeira embargada desde a formação do governo do Hamas em Março de 2006 e Washington pronunciou-se no mesmo sentido.

                                    A Fatah das quimeras

   Em Ramallah a nomeação para chefe de governo de Salam Fayyad, ministro das finanças entre 2002 e 2005, foi a solução encontrada dar uma nota de seriedade a um executivo sem figuras de peso político.

   Fayyad, que terá também a seu cargo as pastas dos negócios estrangeiros e das finanças, é, no entanto, apenas a face aceitável para uma reaproximação às capitais ocidentais. Os seus apoios políticos derivam do exterior, a sua margem de manobra está condicionada pelos interesses das facções da Fatah.

   O afastamento do antigo homem forte da Fatah em Gaza, Mohammed Dalan, foi entretanto consumado com a dissolução do Conselho Nacional de Segurança e a reorganização das forças de segurança ficou confiada a Abd Al Yahia, velho adversário de Arafat e falhado ministro do Interior nos idos de 2002.

   Al Yahia, que aos 78 anos é outra vez cara nova num sector fulcral da governação, reconheceu imediatamente não ter qualquer ideia de como impor em Gaza a ilegalização das milícias do Hamas, enquanto a Fatah prosseguia o desmantelamento das instituições ligadas aos islamitas na Cisjordânia.

   Independentemente do executivo nomeado por Abbas não ser reconhecido por um parlamento dominado pelo Hamas, cujos deputados são invariavelmente detidos por Israel, do presidente usurpar poderes e de ser impossível convocar eleições, a questão essencial tem a ver com a existência de uma efectiva dualidade de poderes: Gaza está nas mãos dos islamitas e a Cisjordânia sob controlo da Fatah.

   As duas forças não renegam o princípio de uma única entidade palestiniana, mas, na prática, agrava-se o fosso entre os habitantes de Gaza e da Cisjordânia.

   O primeiro problema para a Fatah será criar uma estrutura administrativa e de segurança na Cisjordânia expurgada de elementos do Hamas e gerir a ajuda internacional sem dar a impressão de que abandona à sua sorte os palestinianos de Gaza.

   A derrocada militar em Gaza não propicia grande confiança para o eventual esforço de apoio bélico à Fatah por parte de Israel, dos Estados Unidos e dos regimes árabes sunitas seus aliados.

   Práticas de boa governança são, por outro lado, impossíveis de criar num território sob controlo militar externo e dependente economicamente de Israel. Certas áreas da Cisjordânia – Nablus, por exemplo, onde o Hamas é maioritário – são tão ingovernáveis quanto Gaza.

   A segunda questão premente passa por Abbas conseguir que Israel liberte presos palestinianos, em particular o influente Marwan Barghouti, condenado a cinco penas de prisão perpétua, como sinal de boa vontade negocial.

   Dificilmente Israel cederá neste ponto e caso Barghouti voltasse a Ramallah constituir-se-ia à sua volta uma nova frente política capaz de agregar os descontentes da Fatah e islamitas próximos do Hamas e da Jihad Islâmica.

   Em terceiro lugar, os termos de eventuais negociações com Israel são absolutamente desfavoráveis à Fatah e condenam Abbas ao fracasso.

                            Israel sem interesse em concessões

   A esmagadora maioria dos israelitas recusa concessões territoriais que levem ao desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, que albergam 450 mil judeus, e apoia a manutenção da barreira de segurança e a fixação unilateral de fronteiras.

   Todas as sondagens indicam, ainda, que em Israel, após o fracasso da retirada unilateral de Gaza, o descalabro militar no Líbano e ante a persistência de ataques terroristas intermitentes oriundos dos territórios palestinianos, não existem condições políticas para negociações.

   Nem a partilha de Jerusalém é aceite, nem compensações aos quatro milhões de refugiados palestinianos estão em agenda.

   Transformar a Fatah numa entidade clientelar e subordinada numa Cisjordânia enxameada de colonatos e controlos militares israelitas é uma tentação impossível dado o irredentismo palestiniano.

   Após as primeiras tentativas de conversações Israel tentará convencer os seus aliados de que Abbas não reúne quaisquer condições para fazer valer compromissos de segurança e controlo administrativo na Cisjordânia.

   Israel terá ainda de negociar com o Hamas os controlos fronteiriços de Gaza e a passagem de boa parte da ajuda internacional que sustenta 85 por cento dos 1,4 milhões de palestinianos do enclave.

   Da parte do Cairo não se poderá esperar muito para evitar o contrabando e entrada de armamento em Gaza em contrapeso à ajuda internacional pois uma cooperação declarada com Israel não seria de bom-tom para o regime de Mubarak apostado no combate aos islamitas egípcios, parceiros do Hamas, mas necessitado da legitimidade que só a alegada solidariedade árabe confere.

   O Egipto, tal como a Jordânia ou a Arábia Saudita não podem, além disso, cortar as pontes com os islamitas palestinianos pois caber-lhes-á a curto prazo a tentativa de relançar negociações entre a Fatah e o Hamas.

                                         O crescente verde

   Os islamitas de Ismail Haniya em Gaza tenderão no imediato, por força da necessidade de negociar directamente com Israel, a evitar confrontos com o exército de Telavive e deixarão provavelmente a retórica de rejeição da existência do estado judaico para os seus correligionários exilados em Damasco sob a chefia de Khaleed Meshall a quem coube já, também, os primeiros sinais de abertura para negociações com Abbas.

   O sucesso da islamização de Gaza é uma incógnita e a possibilidade de actos de provocação e de acções terroristas a partir do enclave deixa em aberto a eventualidade de ataques israelitas que tenderão a ficar aquém da reocupação, apesar de Israel poder optar por estabelecer zonas tampão no norte e no sul do enclave.

   Os equilíbrios que vierem a ser conseguidos nas próximas semanas estarão dependentes de saber quem quebrará primeiro e da instável situação no Líbano.

   De um lado, o Hamas que caso se veja incapaz de administrar Gaza poderá optar por lançar novas ofensivas contra Israel.

   Do outro, Abbas que impotente para se afirmar como líder nacionalista capaz de arrancar concessões a Israel arrisca ver ruir o domínio da Fatah na Cisjordânia.

   Seja como for um nacionalismo palestiniano com uma vertente acentuadamente islamita tenderá a afirmar-se cada vez mais.

  Até porque por parte de Israel não se justifica presentemente fazer concessões aos palestinianos e nenhuma pressão norte-americana nesse sentido se fará sentir nos tempos mais próximos.



Jornal de Negócios
20 Junho 2007

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Um descalabro estratégico no Líbano


 
 
   Eliminar o Hizballah como força militar com capacidade para atacar Israel é o objectivo imediato de Telavive na frente de guerra libanesa, mas as implicações políticas obrigam a rever os pressupostos sobre a segurança do estado judaico.

   A oportunidade para Telavive atacar o Hizballah surgiu quando o líder xiita Hassan Nasrallah abriu as hostilidades numa tentativa de criar uma frente alargada de luta contra Israel - cavalgando a onda de confrontos em Gaza - e de paralisar as veleidades anti-sírias do governo de Beirute que passavam pelo desarmamento das milícias xiitas.

   O patrocínio sírio - com Bashar Al Assad enfraquecido pela retirada forçada do Líbano no ano passado e sob inquirição da ONU no assassínio do chefe de governo libanês Rafic Hariri - e o apoio de Teerão, grata por mais uma carta negocial na questão nuclear, bastaram a Nasrallah para se lançar ao ataque.

   O Hizballah precisava, igualmente, de reforçar a sua posição face às crescentes críticas no governo de coligação de Beirute à recusa das milícias xiitas em desarmarem em contravenção à Resolução 1559 adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2004.

   Apesar de o Hizballah ter conseguido fazer reconhecer ainda no início deste ano o seu estatuto de «movimento de resistência legítimo» por parte do primeiro-ministro Fouad Siniora, a questão do desarmamento das milícias xiitas (mas, também, dos grupos palestinianos sunitas) e o alargamento do controlo governamental à totalidade do país (designadamente à zona fronteiriça com Israel) continuavam a ser levantadas pelos partidos druzos, sunitas e cristãos.

   A cooperação das forças de segurança de Beirute com o FBI no desmantelamento de uma célula terrorista alegadamente implicada no planeamento de um ataque terrorista a um túnel ferroviário entre Nova Jérsia e Manhattan (anunciado no início deste mês, mas resultando de uma operação que decorria desde o principio do ano) foi mais um sinal de que, a prazo, a coligação anti-síria poderia fazer perigar o estatuto especial reclamado pelo Hizballah.

   Nasrallah precisava de avançar e fazer valer as suas credenciais de único líder árabe que alguma vez conseguiu fazer frente a Israel, obrigando-a a retirar em 2000 e a aceitar quatro anos depois a libertação de 30 presos libaneses e 420 detidos palestinianos a troco dos cadáveres de três soldados israelitas e de um empresário judeu capturado no Líbano, além da entrega de mapas dos campos de minas estabelecidos por exército de Israel no sul do país.

   Libertar os presos árabes das cadeias israelitas e reforçar a aliança com o Hamas - que data de Dezembro de 1992 quando o Hizballah tomou a seu cargo a segurança dos 414 militantes islamitas palestinianos deportados por Israel para o sul do Líbano - foram os objectivos proclamados por Nasrallah que, assim, tentava, uma vez mais, transcender as limitações derivadas do carácter minoritário xiita do seu movimento.

                                   A impossível solução militar

   A reacção israelita, previsível no caso de um governo de coligação liderado por políticos sem credenciais militares e apostados num plano controverso de redefinição unilateral de fronteiras, acarretou uma escalada militar tanto mais irremediável quanto erros e insuficiências de informação e análise sobre as capacidades do Hizballah se fizeram sentir.

   O alegado «aventureirismo» do Hizballah, condenado pelas potências árabes sunitas, como a Arábia Saudita, tementes de mais uma derrocada dos frágeis equilíbrios políticos e comunitários que desde o início dos anos 90 poupam o Líbano à guerra civil, é justificado pela autoconfiança de uma força política que ganhou respeito para a desprezada comunidade xiita e que se orgulha de ter expulso contingentes norte-americanos e franceses em atentados terroristas nos anos oitenta e de bater-se vitoriosamente contra Israel.

   Desde os anos 80, com o patrocínio iraniano e, posteriormente, sírio, o Hizballah conseguiu transformar um movimento guerrilheiro num partido político armado e tutelar uma extensa rede assistencial e educativa, que tornam impossível o seu mero esmagamento militar, à semelhança do que se passa com o Hamas em Gaza.

   O sério risco de desagregação do regime de Bashar Al Assad - da perda do poder por parte da minoria alauíta e do previsível ajuste de contas dos Irmãos Muçulmanos sunitas em retaliação pelo massacre de Hama, em 1982 - garante ao Hizballah suficiente cobertura política da Síria que só conta no Líbano com o apoio de forças xiitas.

   Uma vez mais ao lado de Teerão, Damasco pode, por sua vez, contar com o Hizballah para recuperar capacidade negocial e surgir, outra vez, como mediador de uma crise libanesa e israelo-libanesa.

   A curto prazo o Hizballah sairá militarmente enfraquecido pela violência da retaliação militar israelita, mas, como exemplares islamitas, os militantes xiitas ganharão, uma vez mais, prestígio ante os sunitas palestinianos pela sua intransigência frente ao inimigo sionista e tornarão inviável qualquer tentativa de consenso político no Líbano dado que hegemonizam a comunidade xiita que representa cerca de 40 por cento dos quatro milhões de habitantes do país.

   Nenhum poder no Líbano será capaz, contra a Síria e a comunidade xiita, de desarmar as milícias do Hizballah e, reconhecendo esta realidade, as sugestões diplomáticas de Israel passam essencialmente pela exigência de retirada dos guerrilheiros da fronteira sul, contando com a eventual capacidade dos cerca de 60 mil homens do exército libanês para controlarem a região.

   A hipótese de reforço da UNIFIL, instituída em 1978, poderá criar uma zona desmilitarizada na fronteira com Israel, mas a presença de um contingente alargado da ONU com poderes para retaliar a eventuais ataques, só fará sentido se servir como etapa transitória para o exército libanês tomar controlo da região.

   Os equilíbrios políticos no Líbano tornar-se-ão, no entanto, ainda mais frágeis quer o Hizballah seja isolado e afastado da coligação governamental, quer reforce o seu peso após o cessar-fogo.

   O estado libanês e o seu exército correm sério risco de desagregação e o retorno dos confrontos comunitários poderá condenar o país ao papel tradicional de palco de conflito das potências regionais por peões interpostos.

                               O fim das retiradas unilaterais

   O retorno da questão libanesa e, por extensão, dos termos de acomodação com a Síria e retirados dos Montes Golã, obriga Israel a representar a sua estratégia regional.

   O plano de retirada unilateral da Cisjordânia, mesmo limitado a áreas onde residem 80 mil dos 240 mil colonos judeus, deixou de ter condições para avançar. O confronto em Gaza entre o Hamas e a Fatah e a impossibilidade de evitar ataques a partir do enclave já tinham posto em causa a ideia de que seria possível isolar Israel dos territórios palestinianos.

   Ainda assim, Ehud Olmert e os aliados trabalhistas pensavam ser possível avançar para uma segunda retirada cujos termos passavam por controlar militarmente o vale do Jordão de forma a isolar a Cisjordânia do reino haxemita e anexar os territórios onde se situam os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de outros núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron.

   A lógica de segurança implicava que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   Tornou-se claro para os estrategos de Telavive que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, podem oferecer garantias de segurança a Israel.

   Todas as tentativas nesse sentido falharam nos anos 80 e 90 no Líbano (apoio à Falange cristã maronita, criação do Exército do Sul do Líbano) e nunca tiveram qualquer hipótese de exequibilidade nos territórios palestinianos.

   A degradação da situação em Gaza e a ascensão do Hamas retiraram qualquer fundamento à ilusão de que seria possível isolar os territórios e reduzir o recurso à mão-de-obra palestiniana, sem que a crise política, económica e social transbordasse em actos de violência além das linhas de fronteira impostas por Israel.

   Fracassou, assim, o plano de Ariel Sharon de definir unilateralmente fronteiras mediante a neutralização militar e o isolamento diplomático do inimigo palestiniano.

   Tal como o Hizballah, também os militantes palestinianos apresentam o risco de em devido tempo virem a armar-se de mísseis com alcance suficiente para bombardear os principais centros urbanos de Israel.

   A garantia defensiva de profundidade estratégica mínima não faz sentido para o estado judaico ante inimigos determinados e apostados numa guerra de atrito de baixa intensidade.

   O Hizballah, expressão islamita das reivindicações xiitas no Líbano, e o Hamas, alternativa islamita sunita ao fracasso do nacionalismo laico palestiniano, representam uma cultura de violência e de rejeição ideológica que Israel não pode extirpar por recurso exclusivo à força, como fez no passado.

                                     Retomar as negociações

   Outros elementos que guiavam o pensamento estratégico de Sharon permanecem válidos como sejam a manutenção de uma capacidade de dissuasão e projecção de força superior a todos os estados vizinhos, incluindo a componente nuclear, a coesão étnica e a preservação da aliança com os Estados Unidos, mas todas as óbvias insuficiências da política do mentor de Olmert são, também, mais claras do nunca.

   Nenhum projecto de preservação do estado judaico num contexto regional essencialmente hostil pode assentar na recusa política e simbólica em partilhar Jerusalém, cedendo a parte oriental da cidade, e ignorar que a manutenção do carácter judaico e democrático do estado obriga a integrar com direito plenos a minoria árabe, tendo em conta as projecções demográficas que apontam para que os cidadãos árabes venham a passar de 16 para 22 por cento da população total de Israel em 2025, agravadas pelo fim da imigração judia em larga escala.

   Um estado palestiniano reduzido a Gaza e áreas desconexas da Cisjordânia humilhado e ofendido pela recusa de concessões na questão das indemnizações a quatro milhões de refugiados nunca será consolo nem para um povo que se crê espoliado, nem para os judeus que se sentem ameaçados.

   A reabertura da frente libanesa veio mostrar que a questão palestiniana condiciona todo o contexto regional e obriga Israel, após afastar as ameaças terroristas mais imediatas, a retomar negociações e avançar com concessões políticas que possam vir a permitir a pouco e pouco a emergência de forças alternativas aos movimentos islamistas e rejeicionistas apostados no recurso à violência.



Jornal de Negócios
19 Julho 2006

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma guerra incontrolável



   A guerra civil síria começou por impulsionar confrontos étnico-religiosos no norte do Líbano, galvanizou os sunitas iraquianos na sua resistência à preponderância da maioria xiita e agitou separatistas curdos na Turquia.

   O regime da minoria alauíta entrou, entretanto, em rota de choque contra os islamitas sunitas no poder em Ancara e o derrube de um caça turco na linha de fronteira no Mediterrâneo Oriental avivou o risco de confronto directo entre a Síria e a Turquia.

   O apoio político e as facilidades de fornecimento de armamento, financiado sobretudo pelo Qatar e a Arábia Saudita, que a Turquia tem concedido a diversas facções rebeldes sírias é um jogo perigoso que pode descambar numa guerra com Bashar Al Assad.

   Populações curdas habitam nas regiões fronteiriças do norte da Síria e sudeste da Turquia e os dois estados estiveram já à beira da guerra até Damasco de cortar em 1998 o seu apoio ao "Partido dos Trabalhadores Curdos" de Abdullah Ocalam.

   Actualmente, a situação é mais delicada devido ao arrastar da guerra civil na Síria e aos apoios militares e diplomáticos que Assad concita de Moscovo a Teerão.

   Moscovo recusa qualquer solução que ponha em causa a preservação da base naval russa em Tartus, o reconhecimento do seu estatuto de potência com interesses do Cáucaso ao Mediterrâneo, passando pelo Cáspio e a Ásia Central -- que em nada serão favorecidos por radicalismos islamitas –, além de, subsidiariamente, recuperar o tradicional papel tzarista de defesa da minoria cristã no Levante.

   Estados como a China ou a Índia opõem-se, por sua vez, a que eventuais resoluções da ONU viabilizando uma intervenção militar limitada no conflito para protecção de civis possam ser utilizadas para cobertura de ofensivas da NATO e seus aliados árabes como ocorreu na Líbia.

   Ano e meio de manifestações e confrontos que degeneraram em guerra aberta abalaram o regime, mas os alauítas ainda demonstram clara superioridade militar.

   Os combates nos subúrbios de Damasco são cada vez mais intensos, mas Aleppo, a maior cidade do país, mantém-se sob firme controlo governamental.

   Outras minorias, caso de cristãs ou curdos, continuam a demonstrar grande reticência em alinhar com forças da maioria sunita (74% da população) onde se faz sentir a influência de movimentos islamitas, incluindo grupos anti-xiitas e anti-alauítas.

   O recurso crescente a tácticas terroristas por parte do governo e de diversos grupos revoltosos, desde o "Exército Sírio Livre" a brigadas jihadistas, realça a inviabilidade de uma intervenção externa para apoiar um bloco étnico-religioso contra outras facções.

   O conflito sírio implica, contudo, tantos intervenientes que está a revelar-se um factor de destabilização regional impossível de controlar.

   A eleição presidencial de Mohammed Mursi, ainda que coarctado pelo poder militar egípcio, confirmou a força crescente dos "Irmãos Muçulmanos" em todo o universo sunita e pesa sobre o destino da Síria.

  O islamismo radical do movimento, fundado em 1928 em Ismailia, justificou desde ideologias extermicionistas e tácticas terroristas a formas pacíficas de intervenção política e regista fracassos retumbantes, como no Sudão, ou êxitos assinaláveis conforme sucede presentemente na Turquia.

   O que vier a suceder no Egipto definirá o futuro de um islamismo político bastante diversificado que vingou no mundo sunita árabe em oposição a ideologias nacionalistas, panarabistas, liberais, socialistas e secularistas.

   O islamismo dos "Irmãos Muçulmanos" em países como a Tunísia, o Egipto ou a Jordânia é, também, uma resistência ao rigorismo wahabita promovido por uma Arábia Saudita em que a família real, bastião das monarquias conservadoras árabes, enfrenta um incerto processo de sucessão.

   A guinada islamita no Egipto suscita preocupações em Israel que, além de contabilizar o reforço do Hamas em Gaza e na Cisjordânia, vê reabrir-se a possibilidade de ressurgir a prazo um perigo militar a sul numa altura em que a frente libanesa, onde predominam os xiitas do "Hezbollah", e síria se revela insegura.

   Não aperta ainda uma tenaz anti-israelita dos Golã ao Suez, como na guerra de 1973, mas o fracasso das negociações entre o Irão e as cinco potências permanentes do Conselho de Segurança além da Alemanha confirmou para os decisores de Telavive que Teerão não abandonará o seu programa nuclear militar e que sanções económicas e financeiras dificilmente surtirão efeito.

   Demasiadas crises, cálculos e interesses contraditórios estão a convergir sobre a Síria.



27 Junho 2012
Jornal de Negócios

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