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quarta-feira, 24 de abril de 2013

O terrorista do lado




Boston
15 de Abril 2013
   A radicalização terrorista de jovens de origem estrangeira e aparentemente adaptados aos usos e costumes norte-americanos é motivo de grande perplexidade para a maior parte da opinião pública dos Estados Unidos.

  A violência em Boston, contudo, está longe de ser caso único envolvendo cidadãos nascidos ou naturalizados norte-americanos e convertidos ao islamismo salafista e a tácticas terroristas.

   Anwar al-Alwalaki – filhos de iemenitas e nascido no Novo México – tornou-se ideólogo da "Al Qaeda na Península Arábica" até ser abatido por um míssil no Iémen em 2011, e Nidal Malik Hassan – nado e criado por emigrantes palestinianos na Virginia – major psiquiatra e responsável pela morte de 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, em 2009, tipificam a radicalização terrorista salafista.

  A ideologia dos intransigentes do retorno ao califado e ao rigorismo dos primeiros seguidores do Profeta motivou outros actos terroristas nos Estados Unidos no pós 11 de Setembro envolvendo cidadãos naturalizados como, por exemplo, as conjuras fracassadas dos irmãos de origem paquistanesa Sheheryar e Raees Qazir, detidos em Miami, em 2012.

  Os irmãos Tsarnaev enquadram-se num padrão diferente à semelhança de Suleiman Talovitch, muçulmano nascido na Bósnia-Herzegovina em 1988, naturalizado em 2005 e, por motivação incerta, assassino de cinco pessoas num centro comercial em Salt Lake City, em 2007.

  Os matadores de Boston, filhos de uma avar do Daguestão e de um tchetcheno, tiveram um percurso atormentado do Quirguistão até à chegada a Massachusetts em 2002.

  Tamerlan (homónimo de Tamerlão o imperador turco-mongol do final do século XIV-início do século XV), nascido em 1986, evidenciou dificuldades de integração e a partir de 2008 deu sinais de interesse crescente pela religião islâmica e de radicalismo de orientação salafista.

   A sua estada de seis meses no Daguestão em 2012 e as suspeitas dos serviços de informações e segurança russos de eventual conluio com separatistas tchetchenos ou grupos extremistas do norte do Cáucaso têm contornos pouco claros.

   Tamerlão foi, no entanto, notoriamente o cabecilha de um acto de punição de increús e/ou de vingança contra quem lhe frustou aspirações ao reconhecimento e glória.

  Os meses de Tamerlão pelo norte do Cáucaso – a mais corrupta e violenta região russa com uma arreigadíssima tradição de resistência a invasores estrangeiros e centenários ódios clânicos, tribais, religiosos e nacionalistas – terão contribuído para a radicalização terrorista.

  O culto tradicional da honra e da vingança, a voragem do autosacrifício salafista – factores muito marcantes entre os tchechenos e os avar na convulsiva história do Cáucaso – podem ter alimentado ideias de violência a Tamerlão num imaginário onde se misturaria a mágoa pela discriminação como muçulmano, as atrocidades no Iraque ou Afeganistão por culpas americanas, massacres na Síria ou qualquer outro motivo de despeito.

  O "post mortem" ideológico de um terrorista à solta num país onde armas e violência são desvario quotidiano, é incerto, mas, por certo, politicamente separatistas tchetchenos e salafistas caucasianos nada têm que os leve presentemente a pretender hostilizar os Estados Unidos.

  A propaganda do Kremlin e muitos analistas russos sérios e independentes reiteraram, aliás, as denúncias de complacência de Washington ante os extremismos que campeiam no flanco sul da Rússia, ainda que a pista de uma eventual cumplicidade de salafistas terroristas tchetchenos no atentado não seja crível.

  A influência de Tamerlão sobre Dzhokhar (nascido em 1993 e baptizado com o nome do líder tchetcheno Dzhokhar Dudaiev, primeiro presidente da república separatista em 1991, morto por um míssil em 1996) aparenta tratar-se de um caso clássico de preponderância levando à radicalização do mais jovem por obediência e deferência ante um mentor modelar.

  Os Tsarnaev representam, igualmente, um dos pesadelos maiores dos serviços de informação e forças de segurança: terroristas sem vínculos organizacionais e logísticos a organizações que, por putativa inspiração ou justificação, se lançam em actos de violência de cunho mais ou menos amadorístico, mas potencialmente letais.

  Em regra, só as redes comunitárias e de vizinhança estão em condições de detectar e apenas em certas situações extremas mutações comportamentais que indiciem a possibilidade de eventuais comportamentos perigosos.

  A relação de confiança entre as autoridades repressivas do estado e o comum das gentes ou líderes comunitários, sobretudo, de etnogrupos ou filiações religiosas minoritárias, é muito difícil de conseguir, pode, naturalmente, nem sempre ser isenta de motivações ínvias, e exige persistência.

  Na Grã-Bretanha e no Canadá, conforme aparenta ser o caso da detenção dos suspeitos de conspiração para um ataque na ligação ferroviária Toronto-Nova Iorque, a investigação foi propiciada por um alerta/denúncia de um responsável religioso da comunidade islâmica de Toronto.

  Custa a admitir, mas o terrorista do lado pode ser ou não oriundo de uma região onde campeiem ódios e violências, inspirar-se em extremismos religiosos, nacionalistas, raciais ou étnicos, ou aparentar ser uma rapariga ou rapaz, sobretudo um rapaz, bem comportado que, de repente, mata e destrói.

  Para o recurso à violência indiscriminada contra civis ou, por vezes, alvos militares ou administrativos, nunca faltaram pretextos, motivações e desvarios, mas a motivação ideológica na opção por tácticas terroristas é fundamental.

  Nestes tempos em que o carácter espectacular de um atentado é tanto mais amplo quanto maior a cobertura noticiosa e a difusão em redes sociais o risco do ataque solitário aumentou ainda que seja diferente da táctica terrorista de organizações nacionalistas ou religiosas com estratégias relativamente bem definidas.


Jornal de Negócios
24 de Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/o_terrorista_do_lado.html

domingo, 16 de setembro de 2012

Terrorismo Olímpico





    Há sete anos, Tony Blair regozijava-se com a atribuição a Londres dos Jogos da XXX Olimpíada, mas na manhã seguinte, 7 de Julho, quatro bombistas suicidas atacavam o sistema de transportes da capital provocando 52 mortos e mais de 700 feridos.

   Nestes Jogos de Verão paira sobre Londres o espectro dos atentados perpetrados por três islamistas de origem paquistanesa e jamaicana, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, e criados em Inglaterra.

   Da Conspiração da Pólvora, de 1605, para fazer explodir a Casa dos Lordes e matar o rei Jaime I, aos ataques do IRA Provisório, entre 1973 e 1997, Londres tem uma longa história de atribulações terroristas e retaliações governamentais, mas estas Olimpíadas batem recordes de preocupações securitárias.

   A magnitude dos atentados da Al Qaeda contra os Estados Unidos, em 2001, acarretou o reforço de medidas de segurança e legislação securitária e nos Jogos Olímpicos de Atenas e Pequim, ainda que sob regimes políticos diversos, os custos de protecção de pessoas e bens dispararam.

   Nas Olimpíadas gregas a factura de segurança terá rondado 1,24 mil milhões de euros e em Londres essas despesas deverão duplicar, correspondendo a 15% ou 20% dos custos totais.

   A candidatura de Londres foi apresentada como um projecto de baixo custo (2,37 mil milhões de libras/3,02 mil milhões de euros), capaz de reabilitar zonas degradadas do "East End", e destinado a projectar uma imagem de cidade aberta e inovadora.

   Os custos para o erário público ascendem, no entanto, a 11 mil milhões de libras, segundo apurou uma comissão parlamentar, sendo altamente duvidoso um retorno positivo deste investimento.

   Além do previsível congestionamento do sistema de transportes público e da circulação rodoviária, ferroviária e aérea, o terrorismo representa a principal ameaça a "Londres 2012", de acordo com a estimativa oficial de riscos que contempla ainda actos de violência ligados ao crime organizado ou a extremistas britânicos, alterações da ordem pública, acidentes e desastres naturais.

    A hipermediatização dos Jogos Olímpicos, em crescendo desde as emissões televisivas de Roma em 1960 para 21 países, transforma o evento num pólo de atracção para acções de propaganda oficial e contra-propaganda, actos de protesto pacífico e atentados terroristas.

   O historial terrorista das Olimpíadas resume-se, contudo, ao assassinato de onze atletas e treinadores israelitas por um comando palestiniano do "Setembro Negro" em Munique, em 1972, e à morte de dois espectadores em Atlanta, em 1996, na explosão de uma bomba colocada por um extremista de direita em protesto contra o "socialismo global".

   O "Comité Olímpico Internacional", por sua vez, só a partir de 2004 passou a subscrever apólices de seguro contra o cancelamento parcial ou total dos eventos desportivos devido a actos de terrorismo.

   Os Jogos de Londres vão decorrer sob o risco de atentado terrorista "muito provável", na terminologia oficial, a que acresce o alojamento de participantes e a realização de grande número de eventos desportivos numa zona do leste da cidade caracterizada por altas taxas de criminalidade.

   Os exercícios com mísseis anti-aéreos em parques, nos terraços e telhados de edifícios públicos e residenciais foram apenas um dos mais perturbantes episódios das vastas medidas de segurança em curso e evidenciam o temor a atentados.

   De "lobos solitários" de extrema-direita a acções coordenadas por organizações islamitas terroristas da Somália, Iémen ou Paquistão a lista de potenciais atacantes é extensa, mas o maior risco advém do confronto entre Israel e o Irão.

   Após o atentado na semana passada em Burgas, que provocou a morte a cinco turistas israelitas e a um motorista búlgaro, a polícia de Nova Iorque fez chegar aos "media" um estudo indicando que os "Guardas Revolucionários" do Irão ou seus agentes teriam estado envolvidos em nove tentativas de ataques a alvos judeus na Bulgária, Tailândia, Índia, Quénia, Geórgia, Arzebeijão e Chipre.

   O porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou, por seu turno, agentes iranianos e do "Hizballah" libanês de envolvimento directo em 20 ataques terroristas contra israelitas no estrangeiro ocorridos no último ano.

   Qualquer atentado em Londres que possa ser atribuído, justificadamente ou não, a agentes a soldo de Teerão será um passo mais no caminho da guerra aberta entre Israel e o Irão com inevitável envolvimento norte-americano.


  
Jornal de Negócios
25 Julho 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=569977

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Terrorismo low cost




   Terrorismo a baixo custo vale milhões.

   Assim, sem tirar nem pôr, a Al Qaeda do Iémen acaba de incentivar os militantes na luta contra os infiéis à inovação terrorista low cost.

   Os seguidores de Bin Laden na península arábica são particularmente letais e inventivos.

  A "Al Qaeda na Península Arábica" propaga na internet uma revista chamada "Inspire" em inglês de lei ou não fosse um dos seus principais operacionais, Anwar Al Awlaki, de origem norte-americana.

  Na última edição congratulam-se com o sucesso da conjura de Outubro de 2010 que paralizou o transporte de correio aéreo.

  Com muito detalhe e fotografias os terroristas imenenitas e sauditas explicam como enviarem encomendas com explosivos por correio aéreo expresso da capital do Iémen para sinagogas em Chicago.

   As bombas foram detectadas no Dubai e na Grã-Bretanha, depois dos serviços secretos da Arábia Saudita terem fonecido informações sobre a conspiração.

   Em resultado o transporte aéreo de correio expresso acabou sujeito a interrupções e novas regras de segurança tiveram de ser improvisadas de emergência.

  Só por isso a operação foi um sucesso e tudo por uma ninharia, gabam-se os terroristas.

  A conspiração custou apenas 4 mil e 200 dólares. Bastou comprar umas impressoras, uns telemóveis, e enviar tudo por correio aéreo.

  Um êxito porque os prejuízos provocados somaram milhares de milhões de dólares e vão obrigar a vultosos investimentos em medidas de segurança.

  Mais umas quantas conspirações destas, mais uns esforços de terrorismo a baixo custo, e os infiéis ainda vão à bancarrota.

  Tal é a recomendação terrorista que chega do Iémen.

  São, pois, uns fiéis seguidores de Bin Laden estes terroristas da península arábica.

  Já Bin Laden se gabara que investira uns poucos milhares de dezenas de dólares nos atentados do 11 de Setembro.

   Agora, os seus seguidores recomendam muitas e muitas acções terroristas a baixo custo para provocar milhões e milhões de prejuízos.

  É a era do terrorismo low cost. 

TSF / O Mundo num Minuto
22 Novembro 2010

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O espectro terrorista paira sobre a Rússia

Moscovo, 29 Março 2010

    Pouco depois do presidente Dmitri Medvedev ter anunciado, em Abril de 2009, o fim de uma década de "operações anti-terroristas" na Tchetchénia uma vaga de atentados no norte do Cáucaso obrigou o Kremlin a tomar medidas drásticas para conter a espiral de violência.

    O último Verão ficou marcado por um incremento de acções terroristas na Tchetchénia e, sobretudo, nas repúblicas vizinhas da Ingushétia e do Daguestão, não poupando também a Kabardino Balkaria.

    O recrudescimento da violência político-religiosa, saldando-se por 916 mortes confirmadas em 2009 contra 586 no ano anterior, foi ficando restrito ao norte do Cáucaso até, em Novembro, um atentado contra o comboio-expresso Moscovo-Sankt Petersburgo ter vitimado 27 pessoas.

    Finavam-se assim quase cinco anos de relativa calma para maioria da população russa em que separatistas do norte do Caúcaso não concretizaram atentados noutras regiões do país e confirmava-se o fracasso de Moscovo em estabilizar o flanco sul onde, segundo Medvedev, imperam "baixo nível de vida, elevado desemprego e a corrupção generalizada".

                            A ameaça de uma campanha terrorista
   Ao diagnóstico do presidente, tornado público durante uma visita à região em Junho, pode acrescentar-se a radicalização religiosa, confrontos entre seitas sufis e islamitas wahabitas, sentimentos separatistas anti-russos e lutas entre clãs e etnias pelo controlo político e esferas de influência nos circuitos das economias oficial e paralela.

    No imediato os atentados desta semana em Moscovo por duas bombistas suicidas originárias do norte do Caúcaso levantam dúvidas quanto à capacidade do Kremlin de evitar novos ataques capazes de tirarem lustro às comemorações em Maio dos 65 anos da vitória na II Guerra Mundial.

   O maior risco é, sobretudo, a previsível escalada de violência separatista para aproveitar a atenção internacional na contagem decrescente para as Olimpíadas de Inverno de 2014 em Sotchi, na província adjacente de Krasnodar.

    Um novo crescendo da xenofobia russa tendo como alvo os compatriotas do norte do Caúcaso - cinco milhões e meio de pessoas num dos mais complexos caldeirões étnicos do planeta -, abrangendo igualmente cristãos georgianos e ossetas, além de imigrantes da Ásia Central de religião muçulmana, é uma deriva inevitável que irá a par de um aumento da repressão e presença das forças militares e de segurança na região.

    Sinal do que está para vir foi a sugestão do chefe da Comissão de Investigação da Procuradoria da Rússia, Aleksandr Bastrikin, a 4 de Março, de criar uma base de dados com as impressões digitais de toda a população do norte do Caúcaso e a emissão de novas matrículas para veículos automóveis para monitorizar potenciais ameaças terroristas.

                                  Uma proliferação de conflitos
   A eclosão dos confrontos na Tchetchénia no dealbar dos anos 90, a guerra de 1994-1996, o subsequente conflito de 1999-2000, a instauração com beneplácito de Moscovo do regime do presidente Ramzan Kadirov apostado na islamização da república (presentemente com 1 milhão de habitantes), apoiando-se nas duas principais confrarias sufis (Kadiria e Nakshbandia) contra os fundamentalistas wahabitas, redundaram numa maior dispersão dos movimentos separatistas em toda a região.

   Na Ingushétia (cerca de 460 mil habitantes), em risco de renovado conflito com os vizinhos cristãos ossetas, a proliferação de um islão wahabita seguiu um curso semelhante ao do Daguestão (2,5 milhões de habitantes), assinalando-se idêntica tendência na Kabardino Balkaria (900 mil habitantes), enquanto na república de Karachaievo-Tcherkessia (aproximadamente 400 mil habitantes) Karachais e Balkars confrontam reivindicações de Circassianos e Abazas.

   A diversidade de conflitos no norte do Caúcaso dificulta uma estratégia concertada de estabilização por parte de Moscovo.

   A proliferação e conflitualidade dos diversos movimentos separatistas de tendência wahabita é ofuscada, contudo, pela predominância de tchetchenos e inguches na maior parte dos atentados terroristas anti-russos.

                                     As viúvas negras
   O aparecimento de mulheres bombistas-suicidas (na maioria tchetchenas, mas tendo sido identificadas também inguches) a partir de 2000 entrou, por sua vez, decisivamente no tradicional imaginário russo marcado pelo temor e fascinação pelas fúrias caucasianas desde as campanhas de conquista tzarista no início do século.

   Num contexto ainda mais complexo do que o que propiciou o bombismo suicida feminino entre curdos, tamiles ou palestinianos, as mártires (shadiki) do norte do Caúcaso transformaram-se em agentes essenciais nos mais recentes ataques separatistas.

   Conhecidas como viúvas negras entre a população russa, estas suicidas são conduzidas por convicção ideológico-religiosa e desejo de vingança por violência contra familiares e humilhações pessoais ou manipuladas por pressões sociais num contexto tradicional em que família e clã estão acima de tudo.

   Viúvas negras participaram nos principais ataques terroristas separatistas, caso dos sequestros no teatro Dubrovka, em Moscovo, em 2002, e na escola de Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, além dos atentados desse ano contra dois aviões comerciais russos que provocaram 89 mortos.

   O espectro das viúvas negras que paira sobre a Rússia é outro sinal da proliferação e dispersão de grupos terroristas islamitas no norte do Caúcaso apostados numa guerra santa que não deixa margem de manobra negocial para um Kremlin incapaz de definir uma estratégia de estabilização na mais conflituosa região do país



Jornal de Negócios
31 Março 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=417683

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Índia e Paquistão de crise em crise




   Os ataques de Mumbai foram o culminar de um ano de acções terroristas na Índia, na maior parte perpetradas por redes islamitas, e colocaram o governo de coligação liderado pelo Partido do Congresso numa situação insustentável.
   Aos fracassos sucessivos dos serviços de informação e segurança de Nova Delhi para obstarem a atentados de organizações como os Mujahideen da Índia, apoiados por islamitas do Paquistão e do Bangladesh, aos ataques de radicais hindus contra comunidades cristãs e muçulmanas, à insurreição maoísta em Bengala Ocidental e no Centro e Leste do país, veio juntar-se o "raide" terrorista de Mumbai.

                                  A ameaça islamita na Índia
   Apesar dos operacionais que desembarcaram em Mumbai serem oriundos do Paquistão as acções mais violentas partiram recentemente do Movimento dos Estudantes Islamitas da Índia.

   As redes islamitas indianas ganharam força desde a destruição da mesquita de Ayodhya em 1992 por radicais hindus e dos motins em Bombaim no ano seguinte (a Bombaim que Catarina de Bragança levou como dote no casamento com Carlos II de Inglaterra em 1661 só assumiu o nome em maharati em 1996), enveredando pela via terrorista em contacto com militantes paquistanesas e bengalis.

   O submundo do crime organizado de Mumbai, com ligações aos emirados do Golfo Pérsico e ao Paquistão, embrenhou-se, também, em acções terroristas que tiveram o seu momento mais sangrento nos atentados organizados em 2003 pelo mafioso Dawood Ibrahim (refugiado actualmente em Karachi) e patrocina grupos radicais hindus e muçulmanos.

   Os motins anti-muçulmanos em Gujarat, com a complacência do governo estadual nacionalista hindu, em 2002, marcaram outro momento de radicalização da militância islamita na Índia.

   A acentuada degradação das condições de vida da minoria muçulmana (cerca de 150 milhões de fiéis, 14 % da população) reconhecida pelos próprios estudos oficiais, como, por exemplo, o relatório da Comissão Sachar de 2006, tem vindo a facilitar o recrutamento de jovens motivados pela ideologia jihadista.

   Desde os anos 90 que organizações como Lashkar-e-Toiba (O Exército dos Puros) e Joish-e-Mohammad (Os Guerreiros de Maomé), sustentadas pelo exército e serviços secretos do Paquistão, revigoraram com fervor fundamentalista a contestação separatista em Caxemira.

   A confluência de todas estas tendências é agora cada vez mais notória. O "raide" de Mumbai visou os símbolos cosmopolitas das elites da capital financeira da Índia, atingindo por arrasto visitantes estrangeiros, e assumiu mesmo um teor anti-judaico com o massacre no centro ortodoxo dos Lubavitch numa cidade sem tradição de anti-semitismo.

                                        De Caxemira a Cabul

   O diferendo sobre o estatuto de Caxemira, na origem directa de duas guerras entre a Índia e o Paquistão desde a partilha sangrenta de 1947, passou a ser um elemento catalisador da toda a militância islamita no subcontinente.

   O arco de crises que vai do Afeganistão (o atentado de Julho à embaixada indiana em Cabul contou com a cumplicidade dos serviços secretos paquistaneses) ao Bangladesh (o Harkat-ul-Jihad-al-Islami, Movimento da Guerra Santa Islâmica, criado durante a guerra anti-soviética no Afeganistão, tem lançado ataques na Índia a partir da fronteira bengali) paralisa o governo de Manmohan Singh que incapaz de negociar um acordo sobre Caxemira se vê obrigado a exigir a Islamabade a repressão de frentes islamitas e bandos do crime organizado.

    O governo de Asif Zardari, confrontado com elementos das forças armadas e dos serviços de informação que apoiam os islamitas, não tem condições para cumprir a exigência de Nova Delhi sem obter concessões quanto ao referendo adiado desde 1947 sobre Caxemira.

   Um agravamento das relações entre as duas potências nucleares do subcontinente é tanto mais previsível quanto maior for o aumento da contestação dos nacionalistas hindus do Baharatiya Janata que têm nas eleições legislativas de Maio uma oportunidade para regressar ao poder e retomarem uma campanha anti-muçulmana à semelhança do que aconteceu durante a sua governação entre 1998 e 2004.

   A resposta previsível por parte do Paquistão, depois de Zardari ceder às pressões dos militares, passa pela ameaça de recolocar forças ao longo da fronteira com a Índia o que agravaria ainda mais a situação na Província do Noroeste e nas áreas tribais, aproveitando aos tabilan, além dos separatistas do Baluchistão, no sul do país.

   Em Dezembro de 2001 um ataque suicida dos islamitas do Lashkar-e-Toiba ao parlamento de Nova Delhi criou uma situação de tal tensão que só a mediação de Washington evitou in extremis uma guerra entre a Índia e o Paquistão.

   Ao acabar 2008 a tensão está de volta, mas com a frente afegã a reduzir a margem de manobra, o acordo nuclear entre Washington e Nova Delhi ameaçado por um futuro governo nacionalista hindu, e um rol de agravos cada vez mais pesado.


Jornal de Negócios
03 Dezembro 2008

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Al Qaeda 2010

   Umar Farouk Abdulmutallab
   Captura de Umar Farouk Abdulmutallab
   Detroit, 25 Dezembro 2009


    Outro terrorista oriundo de família milionária, à imagem do patrono Osama Bin Laden, desta feita o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, marcou no dia de Natal a agenda terrorista Al Qaeda 2010.

   O ataque fracassado serviu para relembrar que na "frente distante" dos santuários do Islão, na lógica estratégica que Bin Laden definiu e outros prosseguem, os ataques a aviões, serviços de transportes ou alvos civis capazes de proporcionarem grande número de vítimas continuam a ser um dos objectivos essenciais dos radicais islamitas no Ocidente.

   Salvo recurso de acesso a armas radiológicas ou biológicas - o pior dos cenários -, as organizações terroristas islamitas apostam tudo por tudo na escalada de atentados que possam ultrapassar o impacto dos ataques de 11 de Setembro, das carnificinas de Madrid em 2004 ou de Londres no ano seguinte.

   A táctica terrorista de afrontamento é uma droga dura que obriga a redobrar a dose para conforto dos fiéis e temor de outrem.

                                          O eixo iemenita

    Da base ("al qaeda" significa precisamente "base" ou "fundação") paquistanesa-afegã criada nos finais dos anos oitenta pelos jihadistas em guerra contra a União Soviética até à actual galáxia de grupos terroristas com presença notória no Iémen e na Somália, além do Paquistão, os radicais islamistas perderam muita da sua sofisticação organizacional.

   O ataque ao voo da Northwest, copiando o padrão estabelecido em Dezembro de 2001 pelo bombista do sapato Richard Reid, que tentou também utilizar pentrita para derrubar um avião da American Airlines, revela a facilidade de recrutamento nos meios islamistas, mas mostra, igualmente, a crescente dificuldade em estabelecer células clandestinas na Europa.

   Na "frente próxima" da luta contra regimes ditos apóstatas e alvo de alegadas ocupações por infiéis, a galáxia radical islamita tem, no entanto, alvos bem mais precisos e uma base de apoio substancial, pelo que a verborreia ideológica se revela mais mortífera e eficaz ao potenciar conflitos étnicos-religiosos.

   O Paquistão, mais ainda do que o Afeganistão, é um palco de actuação privilegiado, sobretudo depois de fracassar a campanha antixiita de Abu Al Zarqawi no Iraque, mas, fustigados pela repressão e operações antiterroristas norte-americanas, os jihadistas têm vindo a refugiar-se mais recentemente no caótico Iémen.

   Fruste Estado marcado pelas dissensões tribais, o Iémen foi desde os anos setenta, juntamente com a Arábia Saudita, uma das principais fontes de recrutamento jihadistas e logo em Outubro de 2000 o contratorpedeiro norte-americano USS Cole foi atacado no porto de Adén.

   O Iémen, mais ainda do que a Somália, continua a apresentar condições para sustentar operações terroristas na península arábica e na África Oriental, servindo, ainda, de base para operações contra alvos ocidentais.

   Não por acaso, dos 198 presos que restam em Guantánamo 91 são imenitas e a eventual libertação de muitos destes detidos mostra-se problemática.

   Dois dos implicados na organização do ataque de Natal são imenitas libertados de Guantánamo em Novembro de 2007 que, após um período de doutrinamento antiterrorista na Arábia Saudita, acabaram por ressurgir no Iémen como líderes militares da Al Qaeda local.

   Os grupos radicais islamitas parasitam os conflitos locais do Magrebe à Indonésia, mas a sua sorte varia consoante conjunturas diversas e na presença de grupos com forte motivação nacionalista, conforme ocorre na Palestina ou no Líbano, a ideologia jihadista propagada por Bin Laden dificilmente se consegue implantar.

                               Um bando para matar muçulmanos

   De Caxemira à Argélia, tensões antigas propiciaram o advento de grupos radicais que, além dos seus objectivos locais, acabam por facultar operacionais para ataques a Ocidente.

   Os ataques na "frente distante", teorizados pelo saudita Bin Laden e o egípcio Ayman Al Zawahiri, revelaram-se efectivos, mas exigem financiamentos e uma rede organizacional que, presentemente, não estão ao alcance da maior parte das células jihadistas.

   A maioria das vítimas das investidas islamitas terroristas na matriz Al Qaeda acaba, assim, por ser gente dos estados da verdadeira linha da frente, os países muçulmanos.

   Nem os vis cristãos do dessacralizado Ocidente ou os Coptas do Egipto são as maiores vítimas da Al Qaeda.

   Muçulmanos, sobretudo xiitas, foram o principal alvo dos atentados cometidos nos últimos anos pelos terroristas que reivindicam o patrocínio de Bin Laden e Al Zawahiri.

   Os 313 atentados reivindicados pela Al Qaeda ou por organizações fiéis a Bin Laden entre 2004 e 2008 provocaram 3.010 mortos.

   Mesmo considerando os ataques em Madrid, em 2004, e em Londres, no ano seguinte (os 20 mortos do atentado de Outubro de 2005 em Bali, entre eles 15 indonésios, foram obra da Jemaah Islamiyah, uma organização local bem mais antiga e autónoma), só 12% das vítimas (371) era ocidental. A maioria dos mortos foi constituída por iraquianos, argelinos e egípcios.

   Considerando o período precedente, entre 1995 e 2003, 23 atentados reivindicados pela Al Qaeda resultaram em 3.454 mortos, mas aqui entram os ataques de 11 de Setembro, que causaram 3.021 vítimas.

   Inclusivamente na fase de maior sofisticação e eficácia terroristas, a Al Qaeda concentrou a sua acção em países de maioria islâmica (20 dos atentados) e, entre 433 mortos verificados em outros ataques efectuados entre 1995 e 2003, só 19% das vítimas (88 pessoas) era ocidental.

    A frente de ataque jihadista é fruste porque nada adianta como alternativa, resumindo-se à intransigência ante qualquer forma de modernidade alegadamente atentatória a valores atávicos de um Islão primordial.

   Fechada em si mesma, a Al Qaeda continuará em 2010 a tentar um ataque espectacular capaz de rivalizar com o 11 de Setembro, mas, mais do que nessa frente distante anti-ocidental, o terrorismo jihadista inspirado por Bin Laden continuará a seguir um padrão mortífero que o caracteriza como uma verdadeira máquina de matar muçulmanos.



Jornal de Negócios
20 Dezembro 2009

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domingo, 19 de agosto de 2012

O mito do século XXI



   "Terrorista antimuçulmano" - é o enquadramento político sumário para Anders Breivik e nesta lapidar definição resume-se muito da ideologia do assassino norueguês.

   Uma análise preliminar do heteróclito manifesto de Breivik revela que o anti-islamismo tem uma função equivalente nas elucubrações do norueguês às tiradas de anti-judaísmo de um ideólogo do nazismo como Alfred Rosenberg.

   Para o alemão, oriundo da Estónia e autor do devastador "O mito do século XX" (1930), o ódio ao judeu era a pedra de toque do racismo extermicionista teutónico e no caso do norueguês, nascido em Londres, a expulsão dos muçulmanos surge como a essência do contra-ataque à ameaça da "jihad".

                                      Às portas de Viena

   A ameaça apocalíptica muçulmana surgiu quando Maomé "começou a massacrar judeus e cristãos" e a guerra dura desde então no universo maniqueísta de Breivik.

   O manifesto de justificação ideológica de Breivik leva por título "2083 - Uma declaração europeia de independência".

    A data assinala 400 anos sobre o triunfo das hostes cristãs lideradas pelos Habsburg contra os otomanos no cerco de Viena e surge como símbolo de uma arrastada "Reconquista".

   A conivência de capitalistas que exploram mão-de-obra barata, a corrupção moral de entidades supranacionais como a União Europeia ou as Nações Unidas, além da decadência das elites multiculturalistas e marxistas abriram, entretanto, as portas da Europa à invasão dos emigrantes do Islão.

   Os sustentáculos do chamado "multiculturalismo marxista", sobretudo entidades estatais e partidos "traidores do cristianismo europeu", surgem, consequentemente, como alvos prioritários na actual fase de combate aos crentes de Alá.

   Foram mortos os primeiros traidores ou coniventes em Oslo e na ilha de Utoeya num acto simbólico de propaganda pelo acto, à velha maneira anarquista, chacinando, sobretudo, jovens apoiantes do partido dominante.

    Matar o trabalhista é, na Noruega, o primeiro passo para aniquilar a ameaça muçulmana.

                                 Totalitarismo nacionalista

   A fantasmagoria genocidária do norueguês assenta na ideia de "homogeneidade da nação" e, por isso, o ideólogo dos fiordes louva a Coreia do Sul e o Japão, e, em menor medida, Taiwan.

   Tais estados asiáticos representariam uma entidade "monocultural, cientificamente avançada, com uma economia progressiva e desenvolvida, dotada de um nível excepcional de regalias sociais".

    À vertente antimuçulmana junta-se, assim, a ideia reaccionária de homogeneidade étnica, protecção da raça contra miscigenações indesejadas e autarcia económica.

   Uma "nova zona económica" privilegiando a Europa, os Estados Unidos, a Rússia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Israel, a par de uma política proteccionista e interdição de deslocalização de actividades empresariais, é o objectivo final para sustento da Cristandade e de seus aliados.

                                 A crueldade necessária

   Para lá chegar o extermínio de minorias promotoras de valores e políticas corruptores de valores cristãos (em Portugal, por exemplo, contam-se a 10 807 prevaricadores, segundo o ideólogo norueguês) é "uma crueldade necessária".

   O norueguês é herdeiro de conflituosas tradições europeias que, além do extermínio assumido de raças inferiores em conquistas coloniais, abarcam, por exemplo, certas correntes anarquistas.

   O francês Émile Henry no início dos anos 90 do século XIX recorria ao atentado bombista indiscriminado em Paris para fazer "a burguesia inteira expiar os crimes" de "exploração dos infelizes" e, posteriormente, comunistas e nazis irão justificar o terror em massa contra inimigos de classe e da nação.

    Aos 32 anos Breivik pensa ser um representante típico de uma geração traumatizado pela "tirania islâmica e multiculturalista", mas, de facto, é antes filho do ressentimento e das tradições de culpabilização genérica de classes grupos étnicos ou religiosos.

    Presentemente, 11,4% da população da Noruega é constituída por imigrantes e refugiados de primeira ou segunda geração e, apesar, de recorrentes sondagens assinalarem reticências quanto à integração de estrangeiros a expressão de sentimentos xenófobos tem vindo a diminuir.

   O Islão tornou-se a segunda maior religião do país, com mais de 160 mil fiéis, mas a sociedade norueguesa, tal como acontece nos demais países nórdicos, revela forte coesão social e cultural.

   A conflitualidade provocada pela chegada de estrangeiros, sobretudo de religião muçulmana, acentuou-se, no entanto, a partir dos anos 90 e foi o caldo de cultura para a proliferação de grupos xenófobos.

    Além do ódio a uma entidade genericamente definida como o Islão ou a "Jihad", o estado e instituições multinacionais surgem como inimigos a abater o que explica a influência em Breivik do norte-americano Ted Kaczynski que durante duas décadas até à sua prisão em 1996 recorreu ao terrorismo contra o "sistema técnico-industrial".

                                   Os testículos ou as crianças

   O autoproposto redentor de uma futura ordem templária - o típico corpo de elite capaz de suportar o insuportável como advogaria Heinrich Himmler para os seus SS - explora recursos sectários e secretos para iludir o inimigo levando às últimas consequências a retórica anti-muçulmana.

   A ideologia jihadista do salafismo islamita encontra em Breivik o seu exacto oposto quando o norueguês admite o recurso a armas de destruição maçica.

   Exigindo prova irrefutável de devoção ao massacre, Breivik medita sobre os termos em que possa ser feita confiança num templário para cometer um atentado com armas atómicas, bombas radioactivas ou substâncias químicas e biológicas.

   Melhor não lhe ocorre, num universo macho, como garantia e aconchego ideológico, do que a exigência da ablação dos testículos e pénis do devoto matador antes de lhe serem confiadas as armas para o extermínio.

   Uma alternativa poderia também passar pelo assassínio a sangue-frio de crianças por parte do cruzado anti-muçulmano de forma a fazer prova da sua fidelidade à causa e disposição ao martírio.

   É a paranóia megalómana de um assassino sistemático e ideologicamente justificado pelo essencialismo de uma nação cristã em guerra contra as trevas do islão.

    Rosenberg encontrou em Breivik um sucessor ideológico; outro mito para o século XXI.


Jornal de Negócios

O "Irão terrorista"

Atiyah Al Rahman


   Depois de acabar com Bin Laden, em Maio, a Casa Branca riscou da lista dos terroristas mais procurados o principal chefe operacional da Al Qaeda, Atiyah Al Rahman, que terá sido morto no noroeste do Paquistão a 22 de Agosto.

   Um míssil disparado por um avião não-tripulado no norte do Waziristão eliminou, de acordo com informações oficiais norte-americanas, o líbio que nos últimos meses, antes de Bin Laden ser abatido em Abbottabad, conspirara com o líder da Al Qaeda para desencadear novos atentados nos Estados Unidos.

   Al Rahman, que já fora dado como morto em Outubro do ano passado, tinha a cabeça a prémio por um milhão de dólares, era, segundo Washington, o comandante das forças da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão e uma figura chave nos contactos com os jihadistas do Magrebe, no Iémen e demais núcleos ligados à organização.

   O homem que passara a número dois da Al Qaeda liderada pelo egípcio Aiman Al Zawahiri era, portanto, o mais proeminente responsável pela coordenação de operações e contactos nos círculos jidahistas.

                                         O canal iraniano

   Uma declaração emitida a 28 de Julho pelo Departamento do Tesouro de Washington nomeara, também, Al Rahman como um dos seis elementos de uma rede terrorista que operaria ao abrigo de "um acordo entre a Al Qaeda e o governo do Irão".

   A nota do governo norte-americano indicava, ainda, que Al Rahman fora designado, em data não especificada, por Bin Laden como "representante da Al Qaeda no Irão", uma posição que, alegadamente, lhe permitia entrar e sair da República Islâmica com autorização de Teerão.

   A Al Qaeda teria através deste acordo com Teerão garantido "um canal privilegiado" para fazer transitar "dinheiro, agentes de apoio e operacionais do Médio Oriente para o sul da Ásia".

   O Departamento do Tesouro arrestava consequentemente bens sob jurisdição norte-americana dos jihadistas e proibia contactos comerciais ou financeiros com todos os seis membros da Al Qaeda em trato com o Irão.

   O sírio Ezedin Abdel Aziz Khalil, sedeado no Irão, seria o chefe da rede - ainda que Al Rahman fosse alegadamente o representante não-residente junto dos iranianos - que abrangia jihadistas no Kuwait, Qatar e Paquistão.

   Nenhum iraniano era identificado no comunicado que, de acordo com o subsecretário David Cohen, com o pelouro da "intelligence" sobre terrorismo e finanças, esclarecia "o apoio sem paralelo do Irão ao terrorismo".

   O subscretário de Barack Obama declarava taxativamente que "o Irão é, actualmente, o principal estado apoiante do terrorismo".

                                        Atavismos políticos

   Dez anos passados sobre os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos a retórica que serviu a George W. Bush como um dos pretextos para justificar a invasão do Iraque ressurge sob a Administração Obama.

   O Irão é, agora, o estado tido como patrono da Al Qaeda numa altura em que Teerão, aparentemente em vias de recuperar dos danos provocados no ano passado pelo vírus informático "Stuxnet", tem vindo a aumentar a capacidade de produção de urânio enriquecido passível de utilização militar.

   A conjuntura económica e financeira não se apresenta propícia a uma eventual operação norte-americana contra o Irão, as previstas retiradas de efectivos militares do Iraque e do Afeganistão desaconselham hostilizar directamente Teerão, mas à entrada de um ano eleitoral é previsível que as tiradas contra os inimigos dos Estados Unidos subam de tom.

   Divergências de apreciação sobre os riscos do programa nuclear militar do Irão ou ameaças de redes terroristas são expressas abertamente por responsáveis da administração democrática e neste caso do alegado acordo Al Qaeda-Teerão podem redundar numa escalada retórica de consequências políticas dificilmente controláveis.

                                            Inimigos e expedientes

   Os líderes xiitas do Irão encontram-se num pólo religioso rigorosamente oposto aos safalistas sunitas da Al Qaeda.

   Teerão opõs-se aos taliban sunitas e de etnia pashtun do Afeganistão desde meados da década de 90 e, tal como Washington ou Nova Deli, apoiou em 2001 a "Aliança do Norte" na luta contra os homens do mullah Omar e Bin Laden.

   Alguns dirigentes da Al Qaeda, caso do egípcio Saif Al Abdel, terão, presumivelmente, encontrado abrigo no Irão após a queda dos taliban.

   As autoridades de Teerão restringiram as suas actividades ou colocaram pessoas ligadas a Bin Laden sob prisão domiciliária, segundo informações admitidas inclusivamente pelos serviços de informações norte-americanos, para as utilizarem em eventuais trocas de prisioneiros.

   A extradição para o Irão dos guerrilheiros "Mujaedin e-Khalq" baseados no Iraque e anteriormente apoiados por Saddam Hussein foi, por exemplo, um dos objectivos frustrados de negociações entre Teerão e Washington em que elementos da Al Qaeda serviriam como moeda de troca.

   Independentemente de contactos e conivências em operações de tráfico clandestino de armas, informações e financiamentos, os objectivos estratégicos de Teerão nada têm em comum com a Al Qaeda excepto no que possa vir a fazer valer os interesses iranianos ou prejudicar inimigos em comum sem dano de maior para o Irão.

                                             Os cadastrados

   Qualquer apoio ou condescendência de Teerão em relação à Al Qaeda, que sob a liderança do jordano Abu Al Zarqawi entre 2004 e 2006 lançou uma campanha de massacre dos xiitas no Iraque, só pode ser encarada como um expediente táctico.

   Quando Obama permite declarações peremptórias acusando Teerão de cumplicidade no planeamento de actos terroristas contra os Estados Unidos aumenta o risco de uma escalada retórica e propagandística face a um estado hostil que acabará por restringir as opções da Casa Branca.

   Pouco ou nada recomenda o regime iraniano, mas, tendo em conta o cadastro da administração Bush na justificação infundada de uma intervenção militar contra o Iraque, que, aliás, poderia ser considerada por outras razões e sobretudo conduzida de forma diferente, o mínimo a esperar de Obama era um pouco mais de sensatez ao permitir que um subsecretário arrisque a tirada do "Irão terrorista".

Jornal de Negócios
31 Agosto 2011

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Morte e transfiguração de Bin Laden




   A perseguição a Osama Bin Laden chegou ao fim na altura em que o apelo da "Al Qaeda" se tornou essencialmente irrelevante na maior parte do mundo islâmico.

   Bin Laden falhou no seu objectivo: impulsionar a criação de um califado de Granada ao Turquestão chinês e a reconquista de todos os territórios em tempos sob alegado domínio islâmico.

   Fracassou ainda a estratégia de liderança da "Al Qaeda" na mobilização dos muçulmanos para o derrube de regimes ditos apóstatas no norte de África, no Médio Oriente e na Ásia central.

   Os ataques contra os judeus e o auto proclamado "inimigo longínquo", os infiéis patronos de apóstatas, obtiveram, no entanto, um êxito paradoxal ao provocarem a retaliação da incoerente "guerra ao terrorismo" da administração Bush que contribuiu para destabilizar precários equilíbrios de poder do Magrebe aos contrafortes do Hindu Kush.

   Desde 2001 se muita coisa mudou, imensa gente morreu e sofreu nos conflitos que buscaram justificação nas violências da "jihad" e da "guerra ao terrorismo", também a "Al Qaeda" de Bin Laden jaz entre as ruínas moribunda e ainda letal.

                                A disputa pelo manto do profeta

   A tentativa de Bin Laden hegemonizar os movimentos salafistas (apostados no derrube violento de qualquer regime que não reconheça as suas interpretações da lei islâmica) começou por ser bem sucedida com os primeiros atentados de repercussão global, em particular o ataque de 1993 ao "World Trade Center" de Nova Iorque.

   A "Al Qaeda" assumiu então uma posição de vanguarda no terrorismo jihadista e o contributo ideológico e organizacional do egípcio Ayman al Zawahiri revelou-se fundamental para a coordenação e financiamento de acções terroristas à escala internacional.

   A orientação sectária sunita da "Al Qaeda" e os ataques indiscriminados causadores de vítimas muçulmanas, matando mulheres e crianças, contudo, cedo criaram tensões entre militantes e potenciais apoiantes da jihad global.

   Tal como sucedera com os salafistas egípcios da "Gamaa Islamyia" e da "Jihad Islâmica", empenhados no anos 90 em campanhas de terrorismo visando sobretudo coptas e alvos estrangeiros, o extremismo táctico e doutrinário deixou a "Al Qaeda" crescentemente isolada.

   A sangrenta campanha anti-xiita no Iraque iniciada pelo jordano Abu al Zarqawi ainda se prolongou por mais dois anos depois da morte do líder da "Al Qaeda na Mesopotâmia" em 2006, mas acabou por redundar na alienação das tribos sunitas que eram a base da organização.

   A partir de 2008 o apoio norte-americano aos adversários sunitas iraquianos da "Al Qaeda" ponha fim a quatro anos de campanha terrorista por parte dos seguidores de Bin Laden.

   A "Al Qaeda" revelou-se igualmente incapaz de representar na Palestina uma alternativa aos radicais islamitas do "Hamas" de orientação nacionalista ou aos separatistas em guerra por um emirado no Norte do Cáucaso.

   A perda de bases no Afeganistão, a erosão provocada pela prisão e morte de muitos quadros (casos do egípcio Mohammed Atef, líder militar da organização morto perto de Cabul em Novembro de 2001, ou do chefe operacional do 11 de Setembro o kuwaitiano Khalid Sheik Mohammed capturado em Rawalpindi em 2003), dificuldades de financiamento, movimentação e comunicação limitaram fortemente, por seu turno, a capacidade operacional da "Al Qaeda".

   Bin Laden em quase uma década de fuga acabou reduzido a um símbolo de propaganda jihadista, enquanto do Magrebe ao Iémen, passando pela Somália ou o Mali, organizações nominalmente sob a tutela da "Al Qaeda" elaboravam estratégias autónomas.

                                   A dispersão da Al Qaeda

   A função orientadora e coordenadora do terrorismo salafita a que Bin Laden e Aiman Al Zawahiri aspiraram esfumou-se ainda que duas décadas de terrorismo jihadista global tenham aproveitado e potenciado a radicalização de muitos muçulmanos da Europa ao Sudeste da Ásia.

    O exemplo mais claro é apresentado pela doutrinação da "Al Qaeda" na "Península Arábica" que sob a liderança do iemenita Nasir Al Wuhayshi prega uma guerra generalizada, sem chefia central, e à medida das capacidades ofensivas de jihadistas capazes de aproveitarem toda a oportunidade para ataques em qualquer local possível.

   O núcleo central da "Al Qaeda", mobilizando escassas centenas de militantes, está sobretudo disperso pelas zonas tribais do Paquistão, desempenha um papel secundário na galáxia de organizações radicais islamitas da região, e dificilmente terá capacidade para coordenar atentados fora desta área.

   Morto o líder carismático que motivou adesões entre os crentes do terrorismo salafista, a sobrevivência da "Al Qaeda" enquanto organização depende agora das provas de terror que possam dar as suas células dispersas concretizando algum atentado de alto valor simbólico ou substancialmente destrutivo.

   A nível regional, independentemente do eventual ataque de ocasião perpretado pela "Al Qaeda" no Paquistão ou no Afeganistão, outras organizações radicais islamistas como os "Taliban" do clã Haqqani são muito mais activas e poderosas motivando terroristas que noutros tempos seriam atraídos pela "Al Qaeda".

   A "Lashkar-e-Taiba", o "Exército dos Puros" que luta pela islamização de Caxemira e conta com cumplicidades nas forças armadas e serviços secretos de Islamabade, é, por sua vez, uma ameaça particularmente relevante entre os movimentos islamitas no Paquistão devido aos riscos que representam os seus ataques contra a Índia.

                                     Foragido sem rumo

   Ao abrigo de Abbottabad, sob a inegável protecção equívoca de algumas altas patentes paquistanesas que Washington terá de fingir ignorar para salvaguardar interesses maiores como a dissuasão nuclear no subcontinente e a planeada retirada do Afeganistão, ainda chegaram a Bin Laden os ecos da revoltas no norte de África e no Médio Oriente.

    O saudita nem liderava, nem se metaformoseara num mito.

    Bin Laden era apenas um fugitivo.

    Na contestação a regimes autocráticos estão a ser irrelevantes os apelos jihadistas e na legitimação religiosa das revoltas árabes fazem-se ouvir vozes islamitas das ramas mais tradicionais dos "Irmãos Muçulmanos".

   É uma conjuntura em que a ideologia teocrática do safalismo, ainda que vivaz e capaz de eventualmente vir a retomar ímpeto, cede o passo a mobilizações feitas em nome de valores e interesses muito diversos da pregação da "Al Qaeda".

   Quando chegaram para o matar Bin Laden já estava transfigurado num fantasma da propaganda salafista.


Jornal de Negócios
04 Maio 2011

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O vendaval

 

  Angelus Novus, Paul Klee, 1920

   "Há um quadro de Paul Klee intitulado 'Angelus Novus'. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés."

   Walter Benjamin, 1940


Antes que a guerra o arrebatasse, George W. Bush via-se a si próprio como um "conservador com compaixão", "unificador de uma nação dividida", apostado na promoção de valores cristãos, sem proselitismos excessivos, e deveras empenhado no relançamento da economia através de um corte radical de impostos.

   A América acreditava ser, naquele Verão de 2001, a potência sem rival ante uma Rússia em crise, um Japão estagnado, uma China ainda longe de ganhar músculo económico e financeiro.

                                       O resto pouco contava

   Os aliados europeus mostravam-se irrelevantes e as prioridades do antigo governador do Texas apontavam para a América Latina e, sobretudo, o México.

   Israel era valor seguro e um Irão hostil servia, pelo menos, de contrapeso a Saddam Hussein, e, neste particular, George Walker, tinha contas por ajustar; era uma questão de honra e família.

   A Guerra do Golfo deixara demasiadas pontas soltas e o insolente déspota de Bagdad tentara mesmo assassinar durante uma visita ao Kuwait em Abril de 1993.

                                        De repente tudo mudou

   Já Bill Clinton se confrontara com Osama bin Laden, mas o 11 de Setembro mudou tudo com atentados altamente mortíferos e simbólicos, sangrando o território Continental dos Estados Unidos.

   A guerra era inevitável em resposta a outro Pearl Harbour e George W. Bush tornou-se no presidente da equívoca "Guerra ao Terror".

   Pior e mais insinuoso do que o ataque japonês de Dezembro de 1941 - arrojado e infame, mas compreensível ante um confronto de interesses entre estados soberanos - era ter de admitir que o inimigo islamita actuava de forma letal e politicamente assassina.

   Uma entidade não-estatal, com apoios escusos, raramente assumidos, com a excepção dos talibã de Kandahar, teria de ser alvo de retaliações implacáveis.

   2001 marcou o auge do apelo do salafismo "jihadista "da Al-Qaeda que foi claudicando ao longo da década.

   O extremismo táctico e doutrinário da organização condenou-a ao isolamento apesar da radicalização de muitos muçulmanos do Sudeste da Ásia à Europa.

   Os incessante ataques norte-americanos reduziram significativamente a capacidade operacional da Al-Qaeda.

   A função coordenadora e orientadora a que aspirara Bin Laden esvaneceu-se e grupos radicais islamitas da Somália ao Magrebe, passando pelo Iémen, desenvolvem estratégias autónomas mantendo o recurso a tácticas terroristas.

   Os Estados Unidos conseguiram evitar ataques terroristas no seu território, enquanto na Europa Ocidental, após as investidas em Madrid e Londres, em 2004 e 2005, as ameaças de atentados foram contidas.

   Seja como for, deparamo-nos com um equilíbrio instável em que qualquer atentado poderá ter consequências desproporcionadas em relação ao cúmulo de danos e vítimas.

   As opções da administração Bush, especialmente a invasão do Iraque, provocaram, entretanto, significativas mudanças nos equilíbrios de poder.

Alterações estratégicas

   Em termos estratégicos, o Irão reforçou a sua influência regional a partir do momento em que a maioria xiita iraquiana, notoriamente hostil aos Estados Unidos após a experiência de guerra e ocupação, se impôs a sunitas e curdos.

   O programa militar nuclear de Teerão, caso não seja desmantelado, tornará o país praticamente invulnerável a um ataque ainda esta década e o regime iraniano está em rota de colisão com Israel e as monarquias sunitas do Golfo.

   A intervenção no Afeganistão cumpriu o objectivo de desalojar a Al-Qaeda, mas não conseguiu sequer reverter o país para o estatuto neutral anterior à invasão soviética de 1979 e não é também claro que o Pentágono possa vir a manter bases militares na Ásia Central.

   O incremento da desestabilização do Paquistão foi consequência directa das sucessivas guerras afegãs e o país representa, actualmente, um dos maiores riscos estratégicos.

   Em 2002, Islamabade e Nova Delhi estiveram de novo à beira da guerra, mas nem assim foram estabelecidos, no subcontinente, mecanismos eficazes de monitorização e controlo de riscos de acidente e informação mútua em matérias relativas aos sectores nuclear civis e militares.

   No Paquistão persiste, ainda, o risco de tráfico de tecnologias e materiais nucleares com conivências ao mais alto nível, conforme ficou patente com o desmantelamento da rede controlada por Abdul Qadeer Khan a partir de 2003.

   A guerra contra Saddam Hussein, tida pela administração Bush como recurso necessário e exemplar para derrubar regimes detentores de armas de destruição maciça dispostos a colaborar com redes terroristas não-estatais, levou Gadhaffi a renunciar em 2003 ao seu programa nuclear clandestino.

   Este êxito no combate à proliferação nuclear militar teve, contudo, contraponto negativo em 2006, quando a Coreia do Norte testou o seu primeiro engenho nuclear.

   Dois anos depois, no âmbito da aproximação entre Washington e Nova Delhi, os Estados Unidos conseguiram levar os 44 países do "Grupo de Fornecedores Nucleares", entre os quais Portugal, a levantar um embargo em vigor há 34 anos de venda de materiais, equipamentos e tecnologias nucleares à Índia.

   Foram assim postos em causa os tratados de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, e de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, de 1996, e criado um precedente grave com o estatuto de excepção atribuído à Índia que, tal como o Paquistão, Coreia do Norte e Israel, recusa subscrever estes acordos internacionais.

                                       A potência dominante


   A entrada dos Estados Unidos numa guerra permanente não-convencional à escala planetária contra eventuais ameaças terroristas, essencialmente de matriz islamita, levou, ainda, à adopção de medidas securitárias que dificilmente serão abandonadas.

   Uma década de guerras, de controvérsias legais e escândalos, designadamente por recurso institucional à tortura, entretanto, degradaram a nível internacional a imagem idealizada dos Estados Unidos ao mesmo tempo que a crise financeira de 2008, o acumular de défices comerciais e orçamentais contrastavam com o crescimento económico da China.

    À excepção da área militar, onde a preponderância dos Estados Unidos é esmagadora, o declínio relativo norte-americano parece acentuar-se em todas as áreas, mas a maior economia do mundo guarda trunfos que não estão ao alcance de qualquer rival.

   Depois da hegemonia incontestada do pós-guerra em que os Estados Unidos representavam cerca de metade do PIB mundial esse valor baixou para 30% em 1970 e mantém-se estável desde então, enquanto o seu sector industrial continua ao nível de 1900: um quinto da produção mundial.

   O dinamismo demográfico norte-americano augura décadas pujantes e, em termos de investigação científica, a superioridade dos Estados Unidos não será posta em causa tão cedo.

   No realinhamento económico, político e cultural em curso, em que o peso da China e da Índia se acentua em conformidade com as respectivas dimensões demográficas, os Estados Unidos continuam a ser a potência dominante.

   Os atentados de Setembro foram como que uma grande rajada de vento, daquelas que lembram as teses "Sobre o Conceito da História" que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin escreveu no derradeiro ano da sua vida.

   "Ele (o Anjo da História) gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do Paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o Anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval."


Jornal de Negócios