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quarta-feira, 13 de março de 2013

A violência da História



Manifestação antigovernamental sunita
Falluja, 15 Fevereiro 2013


   Entalado entre a guerra civil síria e o temor do programa militar nuclear iraniano provocar um conflito generalizado do Golfo Pérsico ao Cáspio, o Iraque, dez anos depois da queda de Saddam Hussein, está longe de ser o “farol da democracia” prometido por George W. Bush.

  Tensões entre xiitas e as minorias sunita, curda e turcomena comprometem um sistema federalista imperfeito, toldam a negociação sobre repartição de recursos e a institucionalização de normas democráticas.

  Os níveis de violência atingidos entre 2006 e 2008 reduziram-se significativamente, mas, sobretudo nas áreas sunitas, impera a falta de segurança e é também entre a minoria arredada do poder que se faz sentir mais fortemente o peso do desemprego que atinge cerca de 40% dos iraquianos.

   Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por seu turno, confrontam-se com o passivo de uma invasão concebida sem medir as consequências e planeada com negligência criminosa que chegou a aproveitar aos extermicionistas terroristas da Al Qaeda sunita.

   As justificações invocadas para a guerra, designadamente a existência de arsenais de armas químicas e biológicas como ameaça iminente, revelaram-se falsas e demonstraram a sistemática manipulação de dados de valor duvidoso recolhidos e analisados por serviços de informação incapazes de assegurarem a sua autonomia face a preconceitos governamentais arreigados.

  A fraude das armas de destruição maciça – além da questão da insuficiência na recolha de informações sobre projectos militares clandestinos e confronto de análises contraditórias -- saparam a legitimidade para futuras intervenções unilaterais, sem cobertura da ONU, para alegadamente salvaguardar a paz e segurança internacionais.

  Nem o anúncio por Washington e Londres em Dezembro de 2003 de que Muammar Gadaffi renunciara a um programa militar nuclear clandestino de dimensões insuspeitas evitou o avolumar de críticas ao bem fundado da estratégia de Bush e Tony Blair.

   O patrocínio norte-americano da intrasigência israelita no conflito com palestinianos reforçou as alas islamitas e rejeicionistas de um acordo com o estado hebraico, que, por seu turno, persistentemente discrimina a população árabe.

   A duplicidade de critérios, patente na aliança com as monarquias sunitas autocráticas do Golfo Pérsico, retirou credibilidade à propalada “nova era de democratização” por todo o Médio Oriente e os abusos na “guerra contra o terrorismo” conjuraram-se para acentuar uma imagem altamente negativa dos Estados Unidos, e por arrasto dos seus aliados ocidentais, na maior parte dos países árabes e islâmicos.

  A ausência de planos, a falta de recursos militares e assistenciais civis, a desorientação na identificação de aliados locais para dar início a esforços necessariamente morosos e de resultados incerto de criação de entidades administrativas minimamente credíveis saldaram-se num estrondoso fracasso político, com elevadíssimos custos humanos para as populações do Iraque, como, ainda, do Afeganistão.

  A presunção de que não seria necessário mobilizar grandes contingentes militares para garantir a segurança no final das hostilidades, actos inanes como a decisão do líder da Autoridade Provisória Paul Bremer de desmantelar as forças armadas iraquianas e expulsar da administração pública todos os membros do antigo partido governamental Ba`ath, selaram o destino de uma intervenção mal concebida e pior concretizada.

   Barack Obama ao concretizar a retirada militar en 2012 deixou o Iraque como aliado incerto, sem conseguir mitigar as consequências estratégicas negativas da invasão de 2003.

   A guerra acelerou dinâmicas conflituais internas nos estados do Médio Oriente saídos da partilha anglo-francesa dos despojos do Império Otomano no final da I Guerra Mundial.

   Na Síria ou no Iraque os poderes de minorias étnico-confessionais, promovidas por Paris e Londres, foram irremediavelmente postos em causa e volatilizou-se a barreira de segurança das monarquias sunitas que representava o regime de Saddam contra o Irão xiita liderado por Khomeini.

   O pacto de 1943 entre Franklin Roosevelt e o rei Saud ainda define as garantias de segurança de Washington a Riade e os Estados Unidos, apesar da sua cada vez maior autonomia energética, precisam de assegurar o livre fluxo de petróleo e gás do Médio Oriente para os mercados mundiais.

   Independemente de uma capacidade única de projecção de força, Washington perde influência política à medida que a contestação, com forte pendor islamita, derruba regimes autocráticos no Médio Oriente.

   A arrogância e inépcia de Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Blair e demais coniventes, o despotismo torcionário de Saddam apostado num confronto insustentável, a deriva terrorista dos salafistas sunitas, a vingança xiita e curda, ficam como um exemplo dos malefícios da ignorância e da violência da história.

Jornal de Negócios
13 Fevereiro 2013

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Putin: parceiro incontornável

 


   O anúncio oficial da abertura de negociações entre Washington e Moscovo sobre um acordo de cooperação nuclear civil vai consagrar este fim-de-semana o estatuto da Rússia como parceiro estratégico incontornável dos Estados Unidos.

   A concessão de fundo de George Bush baseia-se num cálculo realista de que o sistema autocrático criado por Vladimir Putin atingiu um nível de estabilidade e independência económica e financeira que inviabiliza os anseios dos círculos neoconservadores de Washington de cercearem e enclausurarem a Rússia numa esfera de influência cada vez mais limitada. 

   Ainda que os benefícios políticos que Bush venha a recolher a curto prazo da acomodação com Putin sejam bastante limitados e as áreas de fricção entre as duas potências tenham tendência a aumentar, a Casa Branca acaba por reconhecer a impossibilidade de jogar em muitos tabuleiros descartando os interesses de Moscovo.                                          
                    
                                         Um acordo vantajoso

   Um eventual acordo dará a Moscovo a oportunidade que visa desde meados dos anos noventa de importar, armazenar e reprocessar resíduos radioactivos provenientes de reactores abastecidos pelos Estados Unidos, um mercado internacional potencialmente estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares.

   Independentemente dos investimentos necessários para obviar às deficiências de segurança das centrais e depósitos nucleares russos, um acordo de cooperação nuclear civil poderá, antes do fim desta década, permitir ao governo de Moscovo concretizar o objectivo estabelecido pela legislação aprovada em Julho de 2001 de converter o país no maior depositário e reprocessador de lixo nuclear.

   A Rússia estima ter capacidade para armazenar e reprocessar cerca de dez por cento do combustível nuclear irradiado numa década a nível mundial, rondando a 20 mil toneladas, independentemente das críticas sobre eventuais impactes ambientais perniciosos e da oposição manifestada pela maioria dos inquiridos em estudos de opinião conduzidos por institutos russos. 

   Um acordo nuclear civil tem, ainda, interesse acrescido para a Rússia na medida em que permitirá a Moscovo negociar novos contratos para venda de urânio enriquecido destinado ao mercado norte-americano.

   Aqui entra em consideração o facto de expirar em 2013 o programa, no montante de 12 mil milhões de dólares, assinado entre os dois países em 1993, para converter 500 toneladas de urânio altamente enriquecido dos antigos arsenais soviéticos em urânio mais pobre destinado a venda em centrais civis norte-americanas.

   A Casa Branca e o Kremlin têm, igualmente, aventado planos para a criação de centros de processamento de combustível para fornecimento a programas nucleares civis de países terceiros. Um entendimento russo-americano nesta matéria é conforme à estratégia conjunta dos países do G8 para promoção da energia nuclear como alternativa à dependência dos hidrocarbonetos.

   As propostas avançadas de forma independente por Moscovo e Washington têm em comum a preocupação em garantir a recuperação de resíduos para evitar riscos de desvio para fins militares.

  De um centro de enriquecimento de urânio para fornecimento a países membros da Agência Internacional de Energia Atómica, ao depósito e reprocessamento de combustível irradiado, passando por unidades internacionais de pesquisa e desenvolvimento para a indústria nuclear civil várias propostas russas são compatíveis com os objectivos estratégicos dos Estados Unidos no sector.

   A Parceria Global para a Energia Nuclear proposta pela Casa Branca, em Fevereiro, visa, precisamente, criar um consórcio internacional para reprocessamento de combustível irradiado de forma a permitir a utilização de plutónio para civis exclusivamente civis.

   Se Bush relançou o debate sobre a construção de novas centrais nucleares nos Estados Unidos, suspensa desde o início dos anos setenta, Putin, por seu turno, pretende aumentar a produção de electricidade com recurso ao nuclear dos actuais 16 por cento para 25 por cento até 2020.

   Há, portanto, um leque bastante alargado de interesses comuns aos dois estados para justificar um futuro acordo de cooperação nuclear civil.

   Putin poderá apresentar esta nova vertente de cooperação bilateral com os Estados Unidos como uma componente essencial da questão da segurança energética sem que Moscovo se veja obrigada a fazer cedências no sector do gás conformes às aspirações da União Europeia de criação de «um mercado energético seguro e estável e condições de concorrência equitativas».
                                
                                   Vagas vantagens políticas

   A abertura de Washington visa, ainda, como objectivo político imediato assegurar o apoio russo para conter o programa militar nuclear iraniano e, subsidiariamente, a intratável crise coreana.

   Moscovo aceitou atrasar os trabalhos para completar a central nuclear de Bushehr (um contrato de 800 milhões de dólares) e limitará os fornecimentos a Teerão dos sistemas móveis de mísseis antiaéreos Thor-M1, além da venda de mísseis S-300, em concessão à abertura de Washington.

   A imposição de sanções económicas ao Irão continua, no entanto, a ser recusada por Moscovo que recusa ser arrastada para uma dinâmica que considera semelhante à criada pela administração Bush para justificar a intervenção militar no Iraque, com o risco acrescido de pôr em causa os interesses estratégicos russos no Cáucaso e no Mar Cáspio se o arrastamento do Azerbaijão vier a juntar-se à deriva da Geórgia para a esfera de influência ocidental.

   Na frente norte-coreana a Rússia apoia a China na recusa de imposição de sanções e tal como Pequim – a única potência com real capacidade de influência em Pyongyang – teme, sobretudo, a implosão do estado de Kim Jong Il e a perspectiva de afirmação militar japonesa na Ásia Oriental.

   As concessões que os Estados Unidos consigam de Moscovo a curto prazo são assim muito limitadas.
  
   A Rússia tem, ainda, como interesse mais imediato renegociar os termos do acordo START I, que limita os arsenais nucleares russos e norte-americanos a 6000 ogivas e cuja vigência expira no final de 2009, para evitar, dada a denúncia em 2002 do Tratado de Mísseis Anti-Balísticos por parte de Washington, o agravamento do actual desequilíbrio estratégico.

   A nível global a influência estratégica recém-adquirida pela Rússia graças essencialmente ao boom nas exportações de gás natural e petróleo e ao êxito de Putin na centralização autocrática do poder económico e político será confirmada na cimeira de S. Petersburgo.

                                      Um parceiro difícil       

   A Rússia impõe-se como parceiro estratégico independentemente dos conflitos sobre o estatuto da Transdniestria, da Abkházia e da Ossétia do Sul, do apoio à Belarus e aos regimes ditatoriais da Ásia Central, das disputas sobre fornecimentos de gás e da oposição declarada à eventual adesão da Geórgia e da Ucrânia à NATO.

   A questão de pressionar no sentido de reformas democráticas o regime autocrático putinista deixa, assim, de ser pôr, desfazendo-se a ilusão de que Moscovo pudesse ser integrada num sistema sob tutela estratégica dos Estados Unidos que levou Bush Pai e Bill Clinton a trazerem a periclitante Rússia de Ieltsin para o então G7.

   A recuperação do estatuto de potência não esconde, no entanto, as limitações do modelo de desenvolvimento putinista dado que, apesar de nos últimos oito anos a população abaixo do nível de subsistência (estimado em 2 dólares/dia) ter diminuído para metade, um em cada 5 russos ainda pena em situação de pobreza absoluta.

   Este défice social explica a apelo de Putin para a adopção urgente de políticas capazes de conterem o colapso demográfico iniciado no período soviético, nos anos sessenta, com o aumento da mortalidade.

    Até 2008 a Rússia continuará a perder 600 mil pessoas por ano e as projecções apontam para que a população se reduza dos actuais 143,4 milhões para 101,5 milhões em 2050, comprometendo o actual modelo de desenvolvimento.

   O sistema putinista assente nas exportações de hidrocarbonetos sob controlo estatal, associadas à chamada «ditadura da lei» imposta pelo Kremlin, garantiu a recuperação económica e financeira, mas ainda está a dar os primeiros passos no sentido de definir uma estratégia de desenvolvimento compatível com o objectivo de recuperar o estatuto perdido de superpotência.
 
   A cimeira de S. Petersburgo consagrará, ainda assim, Putin num dos seus momentos de glória.

Jornal de Negócios
12 Julho 2006

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domingo, 9 de setembro de 2012

A recessão e a liderança

 
 
   A muito provável recessão nos Estados Unidos apresenta o sério risco de poder prolongar-se muito mais do que os três trimestres de quebra registados em 2001 devido à crise do sector financeiro.
 
   Uma das consequências de uma eventual recessão será o agravamento do défice orçamental (163 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2006/07 Outubro-Setembro) e quem suceder a George W. Bush herdará um saldo negativo que poderá aproximar-se do recorde de 413 mil milhões de dólares registado em 2004.
 
   O plano de estímulo fiscal apresentado pela administração Bush agravará necessariamente o défice orçamental, que representa 1,2% do PIB, e o seu sucessor ou sucessora dificilmente poderá cumprir promessas eleitorais de tipo expansionista, como os 110 mil milhões de dólares que Hillary Clinton se propõe injectar na expansão da assistência médica.

                                             O pacote tardio

   Na campanha eleitoral norte-americana entrou agora em cheio a discussão sobre a recessão que aí vem ou já começou.

   Os 150 mil milhões de dólares, equivalentes a 1,2 por cento do PIB dos Estados Unidos, de patrocínio fiscal do pacote Bush chegam demasiado tarde para evitar o pior e a Reserva Federal – após baixar a taxa directora para 3,5 por cento num corte de 75 pontos base, o maior desde Agosto de 1982 – tem as opções limitadas já que o índice de preços ao consumidor registou um aumento de 2,7 por cento em 2007.

   O pacote Bush, na versão actualmente em discussão, propõe designadamente a entrega de 800 dólares por pessoa, 1 600 dólares por família, mas o Congresso dominado pelos democratas tenderá a eliminar as subvenções para as camadas de rendimentos mais altos, por exemplo, contribuintes com receitas superiores a 85 mil dólares/ano.

   Qualquer que seja o montante final dos cheques a enviar aos contribuintes e os benefícios atribuídos a empresas, acrescidos, eventualmente, de verbas para estimular obras em infra-estruturas a nível estadual, o pacote, se for aprovado antes de Março pelo Congresso, só no Verão começará a produzir efeitos no aumento do consumo.

   Acresce que a crise no sector financeiro e a quebra no imobiliário seguem o seu curso independentemente do eventual sucesso do pacote de estímulos fiscais e subvenções estaduais.

                                                Promessas excessivas

   Será, pois, em clima depressivo que as convenções dos partidos democrático e republicano aclamarão os seus candidatos no final de Agosto e no início de Setembro.

   Até lá é bem provável que aumentem as promessas de subvenções e ajudas estatais.

   Hillary Clinton defende em particular ajudas federais no montante de 30 mil milhões de dólares para obviar à crise do sector imobiliário, mais 10 mil milhões para apoio a desempregados (matéria particularmente sensível depois do índice de desemprego ter alcançado em Dezembro 5%, o valor mais alto em dois anos).

   Entre os republicanos surge a ideia de tornar permanentes as reduções de impostos avançadas por Bush em 2001 e 2003 que expiram em 2010 e Rudy Giuliani chega a prometer a maior baixa da carga fiscal na história do país.

   A retórica proteccionista torna-se cada vez mais omnipresente.

   Mitt Romney, por exemplo, declarou em Detroit que a indústria automóvel não podia ficar em mãos estrangeiras, ignorando que cerca de 30% dos 83 mil trabalhadores do sector são empregados por empresas não-americanas que representam quase metade das vendas do sector nos Estados Unidos.    
         
   Mesmo que os Estados Unidos escapem à recessão a percepção do eleitorado é depressiva e se em campanha presidencial vingam as promessas de política anticíclica, os défices orçamental e da balança de transacções correntes vão cortar as veleidades do sucessor ou sucessora de Bush que prestar juramento em Janeiro.


Jornal de Negócios
23 Janeiro 2008

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O milagre da ressurreição do Roteiro de Paz

Annapolis, 27 Novembro 2007


   Ressuscitar o Roteiro de Paz israelo-palestiniano, qual Lázaro morto e insepulto desde a sua apresentação oficial em Abril de 2003, requer um milagre à imagem de um Cristo.
   O Roteiro, traçado pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e ONU, propunha-se chegar a uma resolução final e compreensiva do conflito em 2005, mas nem sequer a primeira fase foi concretizada.
   Em Annapolis voltou assim a falar-se da renúncia mútua à violência e do reconhecimento do direito à existência de dois estados no território do antigo Mandato britânico da Palestina aprovado pela Liga das Nações em 1922.

   Reler os termos do Roteiro é um exercício elucidativo sobre tudo o que tem vindo a falhar.

   À Autoridade Palestiniana de Yasser Arafat cumpria fazer cessar todos os actos terroristas, reestruturar os serviços de segurança e reformar a administração para preparar a instauração de um estado independente.

   Israel, sob a liderança de Ariel Sharon, deveria, por sua vez, parar com todas as operações que ameaçassem a integridade dos civis palestinianos e adoptar medidas para normalizar a vida dos cidadãos dos territórios e, à medida que melhorassem os padrões de segurança e a cooperação com as autoridades palestinianas, retirar das áreas ocupadas desde Setembro de 2000 no auge da Segunda Intifada.

   Finalmente, de acordo com a primeira fase do Roteiro, seria congelada a expansão de colonatos judeus e Israel procederia, ainda, ao desmantelamento dos colonatos construídos desde 2000.

                                    Um roteiro esfrangalhado

   A retirada unilateral de Gaza decidida por Ariel Sharon em 2005, o subsequente triunfo do Hamas nas eleições legislativas palestinianas de Janeiro de 2006, a guerra entre os islamitas e a Fatah que culminou na expulsão cinco meses depois dos homens de Mahmoud Abbas de Gaza, transformaram irremediavelmente a situação no terreno.

   Israel, por seu turno, prosseguiu a expansão dos colonatos na Cisjordânia, com a intenção de anexar Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 250 mil residentes judeus nos territórios ocupados.

   O fracasso da ofensiva israelita contra o Hizballah no Verão de 2006 afastou a hipótese de futuras retiradas unilaterais ao levar à admissão por parte de Telavive de que só entidades clientelares no Líbano e nos territórios palestinianos, com reais capacidades de controlo militar e policial, poderiam oferecer garantias de segurança a Israel.

   A neutralização de risco militar por parte dessas entidades clientares, graças a uma capacidade de dissuasão esmagadora por parte de Israel, implicava, ainda, que controlos militares no terreno e o muro da Cisjordânia obviassem ou reduzissem significativamente atentados suicidas e ataques de guerrilha a partir dos territórios abandonados, mas o choque provocado pelos lançamentos de mísseis a partir do sul do Líbano e de Gaza mostrou que a guerra de atrito não se limita a incursões armadas pontuais de guerrilheiros ou a atentados suicidas.

   A administração norte-americana ante o impasse tentou desde a tomada do poder pelo Hamas em Gaza convocar um encontro internacional, à imagem da Cimeira de Madrid organizada em 1991, após a primeira guerra do Golfo, de forma a assumir alguma iniciativa diplomática e obviar à erosão provocada pela desordem no Iraque.

                            A conjuntura não propicia milagres
 
   Annapolis seria à primeira vista um bom ponto de partida dada a presença de todos os estados da Liga Árabe.

   O encontro no Maryland representava, sobretudo, uma oportunidade para Washington agregar estados árabes, em particular a Síria, a uma neutralização e pacificação do Iraque ao mesmo tempo que isolava o Hamas, o Hizballah e o Irão, a troco da promessa de apoio a Mahmoud Abbas e pressão sobre Israel. 

   Os 22 estados árabes foram, no entanto, a Annapolis na base do plano saudita de 2002 para normalização das relações com Israel a troco da retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967 e de uma solução justa para a questão dos refugiados palestinianos. Os objectivos árabes são, ademais, muito díspares.

   Riade tenta essencialmente evitar um isolamento total do Hamas e o alastrar da guerra civil palestiniana. Uma radicalização sunita islamita da Palestina ao Egipto é capaz de ameaçar a própria Arábia Saudita e oferece oportunidades ao Irão xiita para destabilizar a dinastia de Saud.

   O risco de retorno da guerra civil libanesa, com a consequente influência acrescida de Teerão, obriga, também, os sauditas a tentar levar Washington a empenhar-se numa mediação que, além de obrigar Israel a concessões, garanta, pelo menos, o status quo no Líbano.

   Para a Síria, a oportunidade de recolocar na agenda a questão dos Montes Golã poderá permitir o reforço da sua posição negocial no Líbano, atormentada pela implicação de Damasco no assassínio do primeiro-ministro Rafic Hariri em 2005, e, em termos ainda pouco claros, obter garantias de segurança depois do mal esclarecido ataque aéreo israelita a instalações militares sírias em Setembro.

   Todos os cálculos possíveis para um relançamento de negociações de paz esbarram, contudo, com a impossibilidade de Abbas ou Ehud Olmert puderem fazer concessões significativas.

                           Negociadores sem sustento político

   Abbas não tem condições para avançar nas negociações sem que Israel levante os controlos militares na Cisjordânia e aceite no mínimo discutir na base dos termos mediados por Bill Clinton há sete anos.

   Incapaz de se impor ao Hamas, Abbas só pode aceitar negociações que compreendam a redefinição de fronteiras, cabendo aos palestinianos pelo menos 94 por cento do território da Cisjordânia, a partilha de Jerusalém e compensações para os mais de 4 milhões de refugiados de forma a poder vir limitar a prazo a reivindicação do direito de retorno aos territórios de uma Palestina independente.

   Olmert, cuja principal preocupação passa pela militarização nuclear do Irão, verá a sua coligação governamental desfazer-se, com a saída dos ultra-ortodoxos do Shas e dos nacionalistas de Yisrael Beitenu, caso conceda negociar nestes termos e, limitado ao apoio parlamentar dos partidos árabes e do Meretz, de centro-esquerda, terá, ainda, de enfrentar as ambições de Ehud Barak, à frente dos trabalhistas, e do líder do Likud, Benjamin Nethanyau.

    A hipótese de até ao final do mandato de George Bush palestinianos e israelitas alcançarem qualquer acordo viável é, consequentemente, nula.

   As expectativas de mero relançamento de negociações criadas em Annapolis são insuficientes para criar uma nova dinâmica política e o agudizar da crise sobre o programa nuclear iraniano no próximo ano arruinará qualquer esperança de uma mediação norte-americana que possa levar Israel a concessões capazes de reforçarem a periclitante posição de Mahmoud Abbas.


Jornal de Negócios
28 Novembro 2007

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A guerra em busca de cobertura política

Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left, and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007. Mullen arrived in Israel on Sunday, as a guest of the Israel Defence Forces.
Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left,
and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007
                     
 
 
   O almirante Mike Mullen, chefe do estado-maior conjunto das forças armadas dos Estados Unidos, vetou um ataque de Israel ao Irão até a próxima administração de Washington formular uma estratégia para o Médio Oriente.
 
   A oposição do Pentágono foi expressa durante uma visita de Mullen a Israel no final de Junho depois das manobras conjuntas das forças aéreas de Telavive e de Atenas no Mediterrâneo oriental para testar a capacidade operacional israelita de desencadear acções ofensivas a longo distância.

   A opção dos comandos militares norte-americanos e da administração Bush passa, presentemente, pela via negocial e o aumento da pressão sobre Teerão através de sanções comerciais e financeiras.

   Até meados de Março, altura em que a próxima administração norte-americana estará plenamente operacional, a possibilidade de um confronto militar com o Irão está posta de lado, salvo alguma ocorrência excepcional e independentemente de declarações provocatórias vindas de Teerão por ocasião do 30º aniversário da Revolução Islâmica em Fevereiro.

                                      O impasse israelita

   O veto norte-americano cria uma situação delicada a Israel.

   A maior parte dos decisores políticos e militares israelitas rejeita a ideia de que o programa militar nuclear iraniano vise a obtenção de uma capacidade de dissuasão de último recurso contra ameaças externas.

    As análises do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, considerando que a motivação iraniana para desenvolver um programa nuclear clandestino derivou da ameaça do Iraque de Saddam Hussein e do perigo que os Estados Unidos representam à soberania e ambições regionais do Irão, foram consideradas infundadas.

    As estimativas de existência de risco mínimo de transferência para grupos terroristas de armamento nuclear ou de materiais radioactivos para produção de uma “bomba suja”, aventadas no estudo publicado no ano passado em Telavive, são igualmente rejeitadas pelos decisores israelitas.

   Em Israel a possibilidade do Irão se dotar de capacidade militar nuclear, ainda que mínima, é encarada como uma alteração radical das relações de força e uma ameaça à existência do estado judaico que não tem dimensão territorial para sustentar as perdas provocadas por um potencial ataque.

   O monopólio nuclear de Israel no Médio Oriente ficaria comprometido e o novo estatuto iraniano implicaria a busca de meios equivalentes por parte de estados como a Turquia, o Egipto ou a Arábia Saudita.

   As estimativas israelitas, assumindo o pior cenário possível, apontam, ainda, para a obtenção de capacidade militar nuclear por parte do Irão (’stocks’ de urânio enriquecido e miniaturização de ogivas) no prazo de dois anos.

   Um ataque israelita visando as estruturas envolvidas no programa nuclear e, eventualmente, instalações militares e petrolíferas implicaria a cooperação dos Estados Unidos.

   O lançamento de mísseis de longo alcance da classe Jericó, o recurso aos três submarinos Dolphin ao dispor de Israel, as sucessivas vagas de bombardeamentos de caças F 15 e F 16, obrigam a autorização dos Estados Unidos que controlam o espaço aéreo do Iraque e mantém a Quinta Esquadra, baseada no Bahrain.

   Um ataque, que teria de se prolongar por vários dias, poderia na melhor das hipóteses destruir parte das instalações nucleares dispersas por todo o Irão e matar quadros técnicos essenciais ao projecto militar de Teerão.

   A questão política essencial agravar-se-ia, no entanto, pois um Irão sujeito a um ataque massivo optaria a prazo, independentemente das opções ideológicas dos seus dirigentes, por dotar-se de garantias de segurança que passam necessariamente por meios militares nucleares.

   Israel, ainda que recorra exclusivamente a meios convencionais, está manietada pela presença militar norte-americana no Golfo Pérsico.

                                 Os dilemas do sucessor de Bush
   Washington mesmo que não participasse directamente num ataque pagaria o preço de uma acção militar israelita, alegadamente unilateral, e a retaliação iraniana contra a navegação comercial no Golfo Pérsico obrigaria à intervenção da Quinta Esquadra.

   O próximo presidente norte-americano terá de tomar logo no início do mandato uma série de decisões vitais.

    Primeiro, será necessário avaliar se a imposição de sanções é suficiente para impedir a nuclearização militar do Irão.

   O eventual fornecimento ao Irão de sistemas de mísseis anti-aéreos S-300 por parte da Rússia poderá revelar-se igualmente crucial para aferir a viabilidade de isolamento diplomático de Teerão.

   Em segundo lugar, a situação política no Irão, após as eleições presidenciais de Maio, deverá fornecer dados sobre as possibilidades negociais, ainda que a determinação iraniana em obter capacidade de dissuasão nuclear dificilmente possa ser posta em causa.

   Por fim, ante o provável fracasso do recurso a sanções e negociações, o sucessor de Bush terá de considerar se a mais que provável obtenção de capacidade nuclear militar por parte de Teerão é, de facto, casus belli.

   A alternativa de oferta, por parte dos Estados Unidos, de um “chapéu nuclear” através de garantias formais e públicas de segurança aos estados da região, implicando uma retaliação não convencional em caso de ataque iraniano, dificilmente será crível e, consequentemente, revelar-se-á insuficiente para impedir uma escalada ‘armamentista’ e o colapso do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

                             Um ataque com garantias políticas
   Uma operação militar exclusivamente norte-americana contra as instalações nucleares do Irão, sem apoio do Conselho de Segurança da ONU, poderá reduzir significativamente as capacidades do Irão retomar um programa militar, mas deixará em aberto a questão política de desnuclearização do Golfo Pérsico.

   A ponderação dos custos de destabilização generalizada do Líbano ao Afeganistão, passando pelo Iraque, e da interrupção e redução de fornecimentos petrolíferos acaba por estar subordinada às possíveis vantagens que apresente uma efectiva neutralização nuclear do Irão.

   Os riscos de escalada militar poderão ser contidos, mas, mesmo no melhor dos cenários possíveis, a questão política nunca terá solução sem o concurso da Rússia e da China para um compromisso regional que não poderá deixar de lado um acordo de paz entre Israel e um estado palestiniano.

    Os custos de uma acção militar de Washington sem ter assegurado com os estados aliados, a Rússia e a China os termos de um compromisso regional para desnuclearizar parcialmente o Médio Oriente, mantendo o arsenal israelita, são demasiado pesados e imprevisíveis.

   Estes dilemas vão condicionar os passos do sucessor de Bush e do lado de Israel, considerando o pior cenário possível que para Telavive passa pela eleição de Barack Obama, vai aumentar a pressão política e diplomática para forçar um ataque ao Irão.

   Um ataque norte-americano, que não envolva Israel, necessita de uma cobertura política que terá de começar a ser negociada logo nos primeiros dias do mandato do sucessor de Bush.


Jornal de Negócios
09 Julho 2008

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Um presidente desconcertante e dois chefes de governo equivocados

 Bush e John Howard
                                                    Forum APEC, Hanói, 18 Novembro 2006


    A vontade de "êxito instantâneo" é, afinal, uma ilusão nefasta, o Iraque uma "tarefa morosa" e difícil, mas o que conta é a determinação porque o triunfo é possível a menos que se opte pela retirada, tal a lição que, trinta e um anos após a queda de Saigão, George W. Bush diz ter retirado da guerra do Vietname ao compará-la com a actual situação em terras de Mesopotâmia.

   À desconcertante tirada de Bush na presença do seu aliado australiano John Howard, no primeiro dia de visita a Hanói, veio juntar-se a admissão por Tony Blair de que a intervenção no Iraque foi "um desastre", mas não por erros de planeamento ou devido a qualquer erro estratégico.

   Mais articulado do que o presidente norte-americano, o chefe de governo britânico culpava "as dificuldades" por motivo da violência desencadeada pela Al Qaeda e os insurrectos sunitas, por um lado, e pelas milícias xiitas apoiadas pelo Irão, por outro, contra a vontade de paz da maioria dos iraquianos.

    Determinado a manter tropas no Iraque em apoio do governo de Bagdade, Blair na sua entrevista ao canal inglês da Al Jazeera, concluiu que a dificuldade da situação residia na acção dos mesmos "elementos estrangeiros" que alimentam o extremismo global e, consequentemente, só uma estratégia de pacificação abarcando todo o Médio Oriente e o Afeganistão poderá conter a ameaça de uma corrente minoritária islamita "perversa e aberrante".

                             Blair em busca de crédito e parceiros

   A "estratégia global" de Blair passa por promover "forças moderadas" e oferecer uma parceria para "uma solução construtiva" à Síria e ao Irão a partir do momento em que designadamente Teerão abdique do apoio ao terrorismo e cumpra as suas obrigações internacionais desistindo do programa militar nuclear.

   A recusa de cooperação por parte de sírios e iranianos implica o isolamento internacional dos dois regimes, na visão do chefe de governo britânico.
Ignorando as advertências de Blair, Damasco e Teerão rapidamente tomaram a iniciativa diplomática para alargarem a sua margem de manobra no conflito sem esperarem por eventuais convites para negociações.

   A Síria restabelecia as relações diplomáticas com Bagdade cortadas em 1982 e o presidente Ahmanidejad convidada os homólogos iraquiano e sírio para uma cimeira em Teerão.

   Confrontada com as manchetes sobre o "desastre iraquiano", Downing Street viu-se obrigada a rectificar o sentido das declarações de Blair, precisando que o derrube de Saddam Hussein e a formação de um governo democraticamente eleito em Bagdade só podiam considerar-se como evoluções positivas e que o primeiro-ministro se limitara a constatar "as dificuldades existentes".

   As precisões e rectificações dificilmente terão elevado o crédito político de Blair nas capitais do Médio Oriente que, para além do caos da invasão do Iraque, ainda estão longe de lhe perdoar o apoio concedido a Israel quando Londres se recusou a apelar a um cessar-fogo imediato, em Julho, na fase inicial do ataque ao Líbano.

   De volta a Hanói, Condoleezza Rice, contagiada pelo desconcerto do seu presidente, afirmava, na mesma altura em que Blair se esquivava à apreciação desastrosa, que os iraquianos tinham boas lições a receber dos vietnamitas.

   No entender da secretária de estado os iraquianos devem preservar a sua unidade estatal e tal como os vietnamitas assumiram "escolhas difíceis" sobre os seus "conflitos internos" (eufemismo para a guerra contra a França entre 1945 e 1954 e para o posterior conflito com os Estados Unidos e os seus aliados anticomunistas) e abriram a economia ao exterior (a partir de 1986) também os povos da Mesopotâmia se seguirem o exemplo dos comunistas de Hanói terão "um futuro de paz e oportunidades".

   À encomendação da "escolha difícil" da guerra sem quartel dos líderes comunistas do Vietname e das suas reformas económicas após anos de catástrofe por parte da antiga professor universitária de Stanford, seguiu-se a vez do chefe do governo australiano que veio negar a ocorrência qualquer desastre no Iraque.

   Para John Howard é inverosímil falar em desastre pois a intervenção revelou-se apenas "mais difícil do que o esperado" e duas eleições, um referendo e o julgamento de Saddam são prova do "heroísmo" e "perseverança" dos iraquianos.

   Num fim-de-semana em que a violência fazia mais de 150 mortos no Iraque as declarações de Bush, Blair e Howard parecem, pois, revelar incapacidade em reconhecer que a situação se caracteriza pela proliferação de poderes rivais locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como pela multiplicação de bandos criminosos armados, em consequência da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein, e que nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Constatar que o exército e as forças de segurança são permeáveis à acção de milícias desafectas ao governo central e reconhecer o fracasso do executivo de Bagdade em assegurar o mínimo de consenso entre partidos xiitas, curdos e sunitas, além de se mostrar incapaz de prover condições de segurança e serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento, é acto que tão pouco parece estar ao alcance dos actuais responsáveis em Washington, Londres e Camberra.
      
                            A pergunta que faziam a Baker

   O paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, condiciona qualquer iniciativa política e acabou por deixar os três políticos implicados no fracasso à espera das propostas que a comissão Baker-Hamilton venha a aventar para puderem alterar o rumo.

   Henry Kissinger já opinou junto da comissão bipartidária que uma retirada precipitada destabilizaria por muito tempo a região, admitindo, no entanto, que o governo de Bagdade não conseguirá impor a curto prazo a sua autoridade a todo o país e controlar a violência sectária.

   Para o velho estratego só uma grande conferência internacional, com participação obrigatória da Síria e do Irão poderá definir compromissos que permitam ultrapassar o impasse.

   Da parte de Bush e de Howard, o compromisso para com um calendário de retirada faseada parece, no entanto, ser a atitude mais previsível ante as recomendações que o painel de notáveis e o grupo de análise do Pentágono venham a apresentar.

   A opção de reforço do actual contingente militar é, notoriamente, de difícil execução, de valia duvidosa e praticamente impossível de aceitar pelas opiniões públicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

   Já Blair acalenta algumas esperanças de apoio à sua vaga "estratégia global" e à possível convocação de uma grande cimeira internacional à semelhança da Conferência de Madrid orquestrada por James Baker em Outubro de 1991 com a anuência de Gorbachev no rescaldo da Operação Escudo do Deserto que obrigou Saddam a retirar do Kuwait e garantiu a autonomia das regiões curdas na zona de exclusão no norte do Iraque.

   Antes do mais, o presidente desconcertante e os dois primeiros-ministros equivocados terão, contudo, de atentar nas razões que levam James Baker a contar para quem o quer ouvir como, depois de anos passados a ser constantemente interrogado sobre as razões que o levaram a apoiar a decisão de Bush pai de não derrubar Saddam Hussein em 1991, acabou por chegar uma altura em que já ninguém via necessidade de lhe perguntar tal coisa.

   Já ninguém pergunta ao antigo secretário de Estado o porquê de tão controversa decisão que tanto amargou aos xiitas.

   Ninguém o interpela sobre tal opção desde o final de 2003, meio ano depois de Bush filho ter proclamado o "fim de operações militares significativas" no Iraque a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln com a faixa em fundo de "Missão Cumprida", quando os crescentes ataques de insurrectos e terroristas sunitas e xiitas vieram juntar-se ao caos dos primeiros meses da ocupação.



Jornal de Negócios
22 Novembro 2006

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Bush e as oportunidades da propaganda


 Base de Guantánamo


   Num tortuoso passe de propaganda George Bush tenta fazer do «combate ao terrorismo» o tema político central da campanha eleitoral para o Congresso, mas, independentemente dos problemas que possa colocar à oposição democrática, a Casa Branca persiste numa estratégia nefasta que sapa a legitimidade dos Estados Unidos e compromete os aliados.

   A campanha engendrada pelo estratego Karl Rove traz à ribalta a ameaça do «islamo-fascismo» e exalta a luta contra as «trevas da tirania e terror» que jura subordinar-se ao estrito respeito pela lei e a Constituição em prol da liberdade e segurança.

   Como mensagem simplista para fitos eleitorais é, desde logo, um artifício portentoso para amarrar à Casa Branca os congressistas republicanos em apuros e ansiosos de se distanciarem da desaprovação recorde do presidente nas vésperas da votação de Novembro.

   Os democratas apostados na exploração do impasse iraquiano, das memórias de Katrina, da alta da gasolina, dos escândalos do antigo líder da Câmara Tom DeLay, enquanto avivam os receios das "mortgage moms" e reivindicam o aumento do salário mínimo federal num contexto de crescimento económico, acabam, de novo, obrigados a um debate sobre a ameaça do terrorismo e a segurança nacional.

   Uma matéria que as sondagens deste Verão indicavam ter vindo a cair na hierarquia das preocupações do eleitorado ante as apreensões quanto à economia e à guerra no Iraque (cada vez menos vista como frente da luta antiterrorista apesar do presidente afirmar que a segurança da nação depende do desfecho da «batalha nas ruas de Bagdade») é assim puxada para a primeira linha graças ao privilégio presidencial de marcar a agenda política.

   A manobra é inteligente, perversa e arriscada, mas chega, provavelmente, demasiado tarde para salvar a maioria republicana na Câmara de Representantes - mesmo que talvez seja possível garantir o controlo do Senado - e poupar a Casa Branca a dois anos de desgaste num confronto com um Congresso hostil.

                                     Um debate arriscado

   O Congresso de Washington começou assim esta semana a discussão do compromisso possível com a Casa Branca que possa levar à criação de tribunais militares para julgar os «combatentes inimigos» detidos em Guantánamo na sequência do acórdão do Supremo Tribunal do passado mês de Junho.

   Na agenda os congressistas têm, ainda, o eventual alargamento de poderes de monitorização e escuta de chamadas telefónicas de cidadãos norte-americanos para o estrangeiro no âmbito da vigilância antiterrorista da Agência Nacional de Segurança, igualmente condenado por um tribunal federal em Agosto.

   Finalmente, está em análise a proposta de lei concedendo à CIA poderes para interrogatório coercivo de suspeitos de terrorismo, garantindo, ainda, imunidade retroactiva a responsáveis por eventual uso de tortura na luta anti-terrorista desde 2001.

   Potenciais candidatos presidenciais como o senador republicano John McCain propõem desde já que os tribunais militares que venham a julgar suspeitos de terrorismo recusem, como defende a Casa Branca, testemunhos não juramentados e obtidos sob coacção e que os réus tenham acesso a todas as provas apresentadas pela acusação.

   Outras propostas subscritas por republicanos e democratas admitem que sejam presentes a julgamento testemunhos não juramentados e obtidos sob coacção, desde que não tenha implicado actos de tortura, e que provas tidas como classificadas pela acusação sejam apenas divulgadas aos advogados de defesa sob compromisso de confidencialidade.

   O estatuto dos tribunais a aprovar pelo Congresso para julgar os detidos de Guantánamo, conforme requerido pelo Supremo Tribunal, dificilmente se conformará aos desejos da administração Bush. Politica e legalmente esgotou-se, assim, o tempo em que a Casa Branca podia pretender manter detidos por tempo indefinido e sem assistência legal os suspeitos de terrorismo acantonados em Guantánamo e nas prisões secretas da CIA no estrangeiro.

   Como evitar que julgamentos públicos sob inevitável escrutínio internacional descambem em fiascos judiciais, manipulações legais ou plataformas de propaganda radical islamita, é uma questão essencial que a urgência do calendário eleitoral pode comprometer.

   As questões que levantam os «procedimentos alternativos» de interrogatório por parte da CIA, classificados sumariamente pelo presidente como «duros», mas «seguros, legais e necessários», revelam-se ainda mais delicadas.

   Se o Exército acaba de excluir expressamente na última versão do seu «Manual de Interrogatório» a «tortura» e «tratamentos cruéis e degradantes» nos termos das Convenções de Genebra, independentemente do estatuto legal do prisioneiro, a Casa Branca pretende garantir à CIA o privilégio de recorrer a métodos «duros».

   A definição explícita dos métodos «duros» porá necessariamente em causa a argumentação teorizada por Alberto Gonzales, o mentor legal de Bush, nomeado Procurador-Geral em Fevereiro de 2005.

   O Congresso de Washington não admitirá a tese aventada por Gonzales de que «prisoneiros não-combatentes» de nacionalidade estrangeira possam ser sujeitos a técnicas de interrogatório «não-letais» proibidas pela legislação nacional e internacional desde que se encontrem fora de território norte-americano.

   Depois dos abusos de Abu Ghraib, reconhecidos pelo Pentágono, torna-se igualmente claro que Bush nunca poderá levar avante o seu objectivo de conseguir que o Congresso legisle no sentido de interditar a «terroristas capturados» o direito de processarem judicialmente nos Estados Unidos militares e funcionários civis norte-americanos com base nas Convenções de Genebra.

   O tema é demasiado sensível e a formulação da Casa Branca por demais ambígua para que eventuais abusos possam ser sumariamente ignorados.

   As crescentes fugas de informação oriundas de responsáveis e agentes da CIA e do FBI sobre alegadas objecções operacionais e de princípio quanto ao recurso à tortura em operações clandestinas são sinal de preocupação institucional e ecoam as resistências que Rumsfeld encontrou no Pentágono levando-o a ceder quanto à aplicação das tradicionais leis da guerra.

                               O fim da presidência abusiva

   O sistema judicial norte-americano foi pondo em causa a pretensão da Casa Branca de colocar fora da jurisdição dos tribunais os chamados «combatentes inimigos» e a directiva presidencial de Janeiro de 2002 de que as Convenções de Genebra não se aplicam na luta anti-terrorista.

   Os poderes extraordinários que se arrogou o presidente em matéria de segurança nacional estão a ser gradualmente contestados (como é exemplo a polémica sobre o carácter obrigatório de autorizações de tribunais especiais para monitorizações e escutas telefónicas nos Estados Unidos de cidadãos norte-americanos suspeitos de terrorismo) e as consequências fazem-se sentir.

   Bush viu-se obrigado a reconhecer os programas secretos de detenções da CIA, ainda que continuem no escuro as «extradições extraordinárias», ou seja a entrega de suspeitos às autoridades de estados que aplicam a tortura para obtenção de informações sob orientação de agentes norte-americanos.

   Obrigada a ceder às pressões do sistema judicial, dos altos comandos militares e a um número crescente de responsáveis das agências de segurança e informação a Casa Branca tenta transformar concessões inevitáveis em trunfo eleitoral, mas é muito possível que o debate político lhe possa vir a correr de forma desfavorável.

   Para grande número de governos e largos sectores da opinião pública de países democráticos aliados de Washington persiste o desconcerto ante os argumentos de que práticas ao arrepio da lei internacional e contrárias à própria Constituição norte-americana são o aríete necessário na «longa guerra contra o terrorismo» que continua a confundir perigos distintos em nome da «luta pela civilização».

   Ao eleitorado norte-americano calha em sorte dois meses de propaganda orquestrada por Karl Rove, sob o mote «Só Nós Fazemos Frente Ao Terror», para tentar ultrapassar o desencanto com Bush e alentar as esperanças dos candidatos republicanos fiéis ao presidente.

   Os imponderáveis da guerra no Iraque, as consequências imprevisíveis de atentados terroristas e o eventual acerto ou desacerto do Partido Democrático em argumentar no Congresso e em campanha sobre direitos constitucionais e política de segurança vão pôr à prova o passe de propaganda do «cérebro de Bush» que dificilmente repetirá os triunfos de 2002 e 2004.



Jornal de Negócios
13 Setembro 2006

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sábado, 8 de setembro de 2012

Depois de Hillary perder


 
 
 
 
   Hillary Clinton perdeu o estatuto de candidata favorita à Casa Branca e resta-lhe agora tentar quebrar o ímpeto ganho por Barack Obama como o homem da mudança que galvaniza o voto de jovens e mulheres entre o eleitorado democrata, agregando, ainda, um crescente apoio entre independentes.
 
   Durante todo o ano de 2007 Hillary impôs-se nas sondagens como a predilecta dos eleitores democratas, apesar de Barack a igualar na angariação de fundos (cerca de 100 milhões de dólares), até a primeira derrota no caucus do Iowa abalar a marcha triunfal da senadora de Nova Iorque.

   Um sinal muito significativo da viragem nas intenções de voto surgiu, posteriormente, nas sondagens de fim-de-semana entre os eleitores democratas de New Hampshire.

   Os inquiridos que em Dezembro, antes da desfeita de 3 de Janeiro no Iowa, davam Hillary como a candidata melhor colocada para bater um republicano na eleição presidencial mudaram de opinião e passaram a considerar Barack como o democrata mais qualificado para conquistar a Casa Branca.

                     Duas derrotas e uma campanha acrimoniosa

   Duas derrotas consecutivas não representam o fim das ambições de Hillary, mas obrigam-na a enveredar por uma campanha acrimoniosa, arriscada e eventualmente contraproducente, contra Barack.

   Nas próximas primárias dos democratas com direito a eleição de delegados à Convenção Nacional de Agosto Hillary terá de ganhar em Nevada no dia 19 (presentemente a senadora vai à frente nas sondagens) e, uma semana depois, na Carolina do Sul, onde a parada é mais complexa dado o peso do eleitorado negro e a influência de John Edwards, nascido neste estado e antigo senador pela Carolina do Norte.

    Contra ela, além das expectativas defraudadas e do ímpeto ganho por Barack, joga também a campanha populista de John Edwards – candidato à vice-presidência na falhada investida de John Kerry contra George W. Bush e Dick Cheney em 2004 – que, apesar de não ter hipóteses de conseguir a nomeação, vinca ainda mais a retórica de ataque ao status quo e o peso da ala esquerda do partido democrata.

   Mesmo que fracasse nessas votações Hillary Clinton conta com a sua máquina a nível nacional para se impor nas primárias de 5 de Fevereiro.

   Dos 22 estados que votarão nessa terça-feira, Nova Iorque e a Califórnia eram dados como ganhos por Hillary até à votação no New Hampshire, e se o eleitorado hispânico mantiver as reticências que tem manifestado em relação a Obama a senadora ainda tem boas possibilidades de conseguir a nomeação.

   Mas Hillary, por mais fundadas que sejam as suas críticas à inexperiência e contradições da alegada “retórica poética” de Obama (nada de estranho nestas matérias, por sinal, já que ela própria fez campanha em 1992 ao lado do marido, o candidato nascido em Hope, Arkansas, que dizia “acreditar num lugar chamado Esperança”), viu escapar-lhe o tom triunfal, a dinâmica imparável de vitória com um programa centrista e confronta-se com um avolumar de críticas ao seu estilo frio e alegada veia manipuladora.

   Esta pecha política de jogar na imponderável “triangulação” ao estilo Bill Clinton – dizendo-se acima das opções entre a esquerda e direita do espectro político – e a imagem de marca crispada que tanto agastam o eleitorado independente e exasperam em absoluto os mais moderados dos republicanos irão prejudicar necessariamente Hillary no caso de eleitores, políticos e financiadores democratas se depararem com a alternativa de outra candidatura não menos equívoca, mas potencialmente ganhadora como a arrancada de Barack Obama começa a aventar.

   Se Hillary Clinton não conseguir anular a dinâmica de expectativas de mudança trazida por Barack Obama mesmo que consiga arrebatar a nomeação democrata terá pela frente a difícil escolha de um candidato à vice-presidência que consiga na Convenção de Denver, no final de Agosto, cumprir dois desígnios fundamentais: assegurar os equilíbrios que mantenham a unidade do partido e alargar o apelo eleitoral do ticket democrático à Casa Branca.    

                              O futuro candidato à derrota

   Frente a Hillary ou a Obama será ingrata a sorte do opositor republicano.

   As tendências de fundo apontam para uma vitória democrática nas presidenciais e largas maiorias anti-republicanas na votação para a Câmara de Representantes, na eleição de 35 dos 100 mandatos de senadores em disputa e em 11 dos estados cujos governadores vão a escrutínio a 4 de Novembro.
Mitt Romney, o ex-governador do Massachusetts, averbou no New
Hampshire a segunda derrota – apesar de ter arrebatado, entretanto, 8 dos 12 delegados em disputa no caucus republicano do Wyoming no passado sábado – sem que Mike Huckabee ou John McCain tenham assegurado qualquer viabilidade para as suas candidaturas.

   Rudolph Giuliani, o principal rival do milionário mórmon à nomeação republicana, só entrará na contenda dia 29 na primária da Florida, aposta nas votações de 5 de Fevereiro, e até lá tudo continua em aberto.

   O antigo presidente da câmara de Nova Iorque arriscou apostar apenas nas primárias dos grandes estados e é ainda o mais presidenciável entre os republicanos.

   O problema de Giuliani resume-se nisto: o gabarito nacional do homem que evoca 11 de Setembro ad nauseam é certo, mas a nomeação é mais equívoca. 

   Quer Romney, quer Giuliani (católico, três vezes casado e demasiado liberal para largas faixas do eleitorado republicano) estão longe de fazer consenso no partido que fez eleger George W. Bush e fazem desesperar a militância evangélica das causas fracturantes das guerras da cultura e costumes da América.

   A Convenção Nacional Republicana de Setembro em St. Paul, no Minnesota, será, muito provavelmente, ainda mais agreste que o conclave democrático.

   No meio de tudo isto, George W. Bush, ignoto e desesperante para os candidatos do partido republicano, partiu com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma para o Médio Oriente.

   É outra imagem forte desta campanha presidencial.



Jornal de Negócios
09 Janeiro 2008

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Uma transição atípica na Casa Branca


 
 
   O sucessor de George W. Bush tem de anunciar o mais rapidamente possível os responsáveis por alguns dos principais cargos da nova administração.
 
   A ter-se confirmado a vitória de Barack Obama, a sua tarefa estará facilitada graças à maioria democrática no Senado, que acelerará as confirmações após o presidente tomar pose, a 20 de Janeiro.
 
   Um presidente democrata confrontar-se-á, no entanto, com a dificuldade de ter de assumir opções programáticas urgentes ainda antes de entrar na Casa Branca, evitando, simultaneamente, comprometer-se com iniciativas da administração Bush.

    A cimeira financeira internacional de 15 de Novembro em Washington é o primeiro exemplo de uma situação de potencial conflito entre a administração republicana e a futura equipa democrata.

                                     Uma cimeira sem Obama

    Obama terá então anunciado a escolha do futuro secretário do Tesouro, mas não poderá desautorizar compromissos que Bush venha a assumir.

    Os nomes mais falados numa administração Obama – designadamente Larry Summers ou Robert Rubin, antigos secretários do Tesouro de Bill Clinton, ou, ainda, o antigo presidente da Reserva Federal, Paul Volcker, além de Timothy Geithner, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque – representam um capital de experiência e consistência política que poderá ser bem acolhido nos círculos financeiros e empresariais.

    Declarações de princípio ou propostas de medidas que sejam adoptadas na cimeira de nada valerão sem a aprovação prévia da equipa de Barack Obama, que, no entanto, não se pode arrogar das prerrogativas exclusivas do ainda presidente ou apresentar propostas contradizendo a Casa Branca numa altura em que ainda não tem capacidade oficial.

    Um confronto entre Bush e Obama nos próximos dois meses apresenta um risco demasiado alto de destabilização dos mercados financeiros e pode obrigar a um compromisso que limite ainda mais as opções da futura administração.

    Esta será uma das questões mais intrincadas do período de transição numa conjuntura de deterioração da situação económica nos Estados Unidos e de instabilidade financeira e cambial.

    Igual importância terá a indicação do futuro secretário de Estado e do conselheiro de segurança nacional.

   Entre as opções de Obama para chefiar o departamento de Estado, figuram dois senadores republicanos, Richard Lugar e Chuck Hagel, e o democrata hispânico Bill Richardson, governador do Novo México.

    A escolha de Samantha Power para conselheira seria a mais problemática duma lista onde figuram personalidades mais experientes, como o antigo responsável pelo Comando Central (Médio Oriente e Ásia Central), o general Anthony Zinni, ou a ex-subsecretária de Estado para os assuntos africanos de Clinton, Susan Rice.

    Uma das características das listas de nomes aventados nos círculos democratas é o elevado número de antigos responsáveis dos anos Clinton e de personalidades moderadas republicanas, o que indicia, à partida, as pressões a que Obama será sujeito para formar uma administração que, inevitavelmente, decepcionará a ala mais à esquerda que lançou a sua candidatura nas primárias democráticas.  

                                    O Iraque de novo no topo da agenda

   Em questões de política externa e de segurança, as escolhas de Obama assumirão uma importância capital, tanto mais porque Washington terá de chegar a acordo com Bagdade sobre um acordo de segurança até final de Dezembro, data em que expira o mandato da ONU para a presença de tropas norte-americanas no Iraque.

    Os termos do acordo, nomeadamente o estatuto legal das forças militares norte-americanas e datas de retirada, implicam o acordo prévio do sucessor de Bush e não é seguro que os partidos políticos iraquianos aceitem uma solução viável para Obama e para o Pentágono.

    Nestas questões, a que se junta a crise latente na península coreana, a presumível coerência de uma administração democrática será testada por outras nomeações fundamentais.

    Para secretário de estado da Defesa, Chuck Hagel surge de novo como hipótese viável, a par da manutenção de Robert Gates, entre outros nomes vindos uma vez mais da administração Clinton, casos de Richard Danzig ou John Hamre.

                                   Uma transição conflituosa

   A expectativa de que George Bush promulgue até à data limite de 20 deste mês legislação relevante na área económica e até 20 de Dezembro directivas governamentais noutros sectores, como justiça, saúde e ambiente, que obriguem a futura administração a tomar iniciativas morosas para anular essas iniciativas, é factor de potencial perturbação durante o período de transição.

    A dimensão da maioria democrática no Senado é outro elemento de consequências difíceis de avaliar.

    Caso os democratas tenham conseguido anular a minoria de bloqueio republicana, obtendo 60 mandatos, Obama terá de manobrar entre as propensões de uma revolução legislativa, cedendo à ala mais à esquerda do partido e às reivindicações de sindicatos, e a necessidade de refrear medidas incomportáveis com a gravíssima situação orçamental.

   Em qualquer dos casos, as expectativas de mudança que grande parte do eleitorado tem na presidência Obama serão rapidamente frustradas dados os constrangimentos económicos e financeiros, os confrontos internacionais provocados pela adopção de medidas proteccionistas e a elevadíssima probabilidade de uma grande crise no primeiro ano de mandato, devido aos programas militares nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

   John McCain, que, por estas horas, estará muito provavelmente a ser acusado por todos os dramas da derrota republicana, tem ainda mais uma batalha pela frente.

   O senador do Arizona poderá contribuir para salvaguardar no Senado o núcleo mais moderado do partido republicano e, neste caso, será um dos aliados mais valiosos para Barack Obama e um dos seus críticos mais respeitados.

Jornal de Negócios
05 Novembro 2008

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As cem horas de Pelosi e os 804 dias de Bush





   Nancy Pelosi, a primeira mulher a presidir à Câmara de Representantes, anunciou um plano parcimonioso para as suas primeiras cem horas como terceira figura da hierarquia do estado norte-americano que, a ser bem sucedido, contestará a iniciativa política em matéria de política interna de George W. Bush nos 804 dias que lhe restam de mandato presidencial.

   A milionária de São Francisco pretende levar a maioria democrática a votar, nomeadamente, o aumento do salário mínimo de 5,15 para 7,25 dólares/hora, a redução para metade das taxas de juro nos empréstimos a estudantes, uma diminuição dos preços dos medicamentos cobertos pelos seguros de saúde Medicare – abrangendo mais de 40 milhões de cidadãos, na esmagadora maioria com mais de 65 anos – e, na vertente anticorrupção, um pacote de reforma do sistema de "lobbying" no Congresso.  

   O ímpeto político que os democratas venham a ganhar na sua batalha minimalista das cem horas legislativas e nas nomeações para as principais comissões da Câmara de Representantes poderá, no entanto, ser contido caso os republicanos tenham conseguido manter o controlo do Senado.
                            
                                        A vitória curta

   Considerando a hipótese de o Partido Democrático ter recuperado a Câmara de Representantes, mas falhado o Senado, dificilmente os opositores de Bush poderão concretizar a partir de Janeiro o seu programa "Um novo rumo para a América" que preconiza, designadamente, a adopção de um calendário para a retirada do Iraque e a transferência das responsabilidades de segurança para o governo de Bagdade, o reforço do contingente militar empenhado na captura de Bin Laden, a redução dos impostos para as classes médias e a limitação de deduções fiscais para rendimentos elevados e companhias petrolíferas, além da recusa da privatização parcial do sistema de reformas.

   A necessidade de negociar acordos com uma maioria republicana no Senado poderá conduzir a alguns compromissos viáveis em matéria de políticas de imigração ou comercial – acentuando, no entanto, o pendor proteccionista face à concorrência internacional – e consensualizar iniciativas legislativas para maior eficiência energética, investigação de energias alternativas ou o programa de reforma do ensino primário e secundário promovido pela presidência Bush.   

   A margem de compromisso é, apesar de tudo, reduzida, se a maioria no Senado for liderada pelo republicano Mitch McConnel.

   As classes médias, com rendimentos inferiores a 75 mil dólares/ano, não beneficiaram do crescimento económico registado após a recessão de 2001 e mostram-se particularmente sensíveis às turbulências conjunturais, apesar do baixo nível de desemprego que se cifra em 4,4 por cento. Eventuais inflexões significativas nas intenções de voto poderão, assim, ocorrer nos próximos anos.

   Não tendo a Casa Branca recolhido benefício eleitoral da recuperação económica dos últimos cinco anos e claudicado em áreas fundamentais como os objectivos da guerra no Iraque, a luta antiterrorista, a probidade orçamental e a contenção do despesismo do governo federal – cifrado num aumento anual de 3,1 por cento no primeiro quinquénio da presidência Bush  –, além de deixar alastrar impunemente o cadastro de corrupção e imoralidades, é crível que os democratas venham a pressionar em todas estas questões através de comissões de inquérito de modo a pôr em causa a competência administrativa de Bush e os chamados valores morais caros aos republicanos. 

   Uma inflexão centrista por parte da Casa Branca em busca de compromissos legislativos confronta-se com a questão incontornável de reconhecimento do fracasso iraquiano e com a incoerência da maior parte dos líderes democratas em articularem uma estratégia de retirada militar que consiga preservar um vislumbre mínimo de estabilidade e integridade do estado no Iraque.
                                     
                                    Tiro de partida para 2008

   Esta quarta-feira marca o tiro de partida para as presidenciais de 2008 e nenhum putativo candidato à Casa Branca – da inevitável Hillary Clinton ao impoluto John McCain, passando pelo promissor Barack Obama e o consagrado Rudolph Giuliani – estará disposto a sacrificar as suas aspirações por um compromisso que salve a face a George W. Bush.

   A impossível pacificação do Iraque será uma das questões fundamentais com que se confrontarão os candidatos presidenciais e todos eles terão de se assumir contra a política de Bush no Iraque e as usurpações de poderes por parte da Casa Branca na chamada luta antiterrorista.

   A contestação dos abusos do privilégio executivo será, no entanto, mais fácil de levar a cabo pelos democratas e seus previsíveis candidatos presidenciais do que a definição de uma estratégia de retirada do Iraque efectiva que evite dar o flanco a acusações de derrotismo.

   Reza a história eleitoral norte-americana que para gerir o fracasso de uma intervenção militar falhada um candidato presidencial se obriga a aventar estratégias mais latas e de consequências imprevisíveis em prol de novos arranjos geoestratégicos.

   À imagem de um Eisenhower, atolado na Coreia, ou de um Nixon, perdido na Indochina, alguém terá de assumir que falhar no Iraque acarreta avançar com propostas arrojadas frente ao Irão, à Palestina, a Coreia do Norte ou, noutra vertente, assumir a impossibilidade dos Estados Unidos continuarem a ignorar as suas responsabilidades na questão maior do controlo das emissões de gases com efeito de estufa.
 
                                               O patinho coxo

   Se Harry Reid tiver garantido a liderança de uma maioria democrata no Senado a sua dinâmica de vitória condenará a Casa Branca a um arrastado confronto com comissões conjuntas do Congresso que escrutinarão todos os fiascos da administração republicana.

   Bush recorreu apenas uma vez ao veto presidencial para impor, em Julho, a manutenção das restrições de financiamento federal à investigação sobre células embrionárias estaminais, mas, a partir de agora, é de esperar que o veto venha a revelar-se a opção por excelência numa Casa Branca cercada tal como aconteceu a Bill Clinton em 1994, dois anos após a sua eleição – e anteriormente a Ronald Reagan –, mas sem que George W.Bush manifeste dotes de subtileza para negociar compromissos, apesar das recentes evocações da sua experiência como governador em Austin.

   John Bolton deixará a ONU, a demissão de Donald Rumsfeld será inevitável e, mesmo com um Supremo Tribunal de orientação maioritariamente conservadora, a capacidade da Casa Branca recuperar a iniciativa legislativa revelar-se-á diminuta. 

   Imperará o gridlock, o impasse, cujas consequências negativas também poderão prejudicar os democratas e, sobretudo, os seus senadores com ambições presidenciais.

   A quota de aprovação de Bush é inferior a 40 por cento, mas a actuação do Congresso de maioria republicana desde 1994 (excepto o breve interlúdio entre Maio de 2001 e Novembro de 2002 em que os democratas beneficiaram da deserção de um senador republicano num altura em que o Senado estava repartido equitativamente e o vice-presidente Dick Cheney assegurava o voto de desempate) é ainda pior não atingindo sequer os 30 por cento.

   Transformar a Câmara de Representantes e o Senado num palco de campanha sistemática de obstrução e inquérito apresenta, consequentemente, sérios riscos de credibilidade para os democratas.

   Depois da reeleição de 2004, Bush não conseguiu fazer aprovar os planos de autorização de descontos parciais para fundos privados de segurança social ou de legalização de imigrantes clandestinos e é ainda menos crível que, agora, possa avançar com iniciativas capazes de cativarem uma Câmara de Representantes hostil – independentemente do aumento do número de representantes democratas conservadores – quanto mais um Congresso dominado pelo partido democrático.

   Um presidente desacreditado é uma danação para um partido vencido depois de doze anos de maioria no Congresso e uma ameaça para qualquer candidato republicano à Casa Branca. Tanto basta, portanto, para que Bush corra o risco de penar 804 dias de solidão política e muito por culpa dos seus pares. 

   Conclua-se, apesar de tudo, com a mera consideração de que, ainda que uma vaga revanchista dos democratas possa vir a mostrar-se contraproducente, é bem provável que a inclemência das crises que assolam o vasto mundo venha a condenar as hostes republicanas e democratas a um confronto particularmente virulento.

Jornal de Negócios
08 Novembro 2006

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   As eleições de 7 de Novembro saldaram-se por 233 mandatos democratas contra 202 republicanos na Câmara de Representantes.
   No Senado registou-se um empate 49-49, com 2 independentes dispostos a alinhar com o Partido Democrático. (Nota de Setembro 2012)

Bush: os anos do fim

Valerie Plame e Joseph Wilson
 
 
   Um ano após a reeleição, o presidente perdeu a iniciativa política e começa a ganhar corpo a ideia de que o actual impasse irá prejudicar os interesses políticos dos seus apoiantes.
  
   Muito em breve o número de militares norte-americanos caídos no Iraque alcançará a fatídica fasquia dos dois mil mortos precisamente na altura em que George Bush se confronta com o pior escândalo dos últimos cinco anos.

   Karl Rove, o «cérebro» da Casa Branca, irá conhecer, ao que tudo indica, o mesmo destino de Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente, e ser confrontado com acusações de perjúrio e de violação da Lei de Protecção de Identidades Secretas.

   A denúncia de Valerie Plame como agente da CIA surge aos olhos da opinião pública, que mal digeriu o escândalo de Abu Graibh, como uma retaliação insane contra o seu marido, o embaixador Joseph Wilson, que, em Julho de 2003, acusou publicamente a Casa Branca de manipular informações e mentir sobre a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque.

   A revelação da identidade de uma agente secreta por altos responsáveis governamentais desmoralizou os serviços de informação e contribuiu para alimentar fugas sucessivas sobre a forma como a Casa Branca ignorou sistematicamente todos os dados e análises que punham em causa os planos de guerra.

   À direita as críticas sobem de tom. O antigo conselheiro de segurança nacional de Bush pai, general Brent Scowcroft, ridiculariza, agora, «a ideia evangélica» de que seja possível exportar a democracia por via militar, enquanto o chefe de gabinete do ex-secretário de estado Colin Powell, coronel Lawrence Wilkerson, acusa o vice-presidente Dick Cheney e o secretário da defesa Donald Rumsfeld de promoverem uma «cabala incompetente» e prosseguirem uma política externa ruinosa, com a conivência de Condoleezza Rice.

   Declarações contraditórias dos altos comandos sobre eventuais reduções do contingente militar e acerca da estabilização do Iraque fragilizam ainda mais a administração que não tem reconhecidamente estratégia alternativa e procura, em vão, recentrar a agenda política e conter as críticas crescentes dos sectores mais direitistas.

   Os índices de aprovação da política presidencial, abaixo dos 40 por cento, não põem ainda em causa a base de apoio republicana, mas as preocupações nas hostes partidárias avolumam-se com a expectativa de maus resultados nas eleições para o Senado e a Câmara de Representantes no próximo ano.

    Os inquéritos judiciais a Tom DeLay, que teve de renunciar à liderança da maioria republicana na Câmara de Representantes face a acusações de financiamentos eleitorais ilícitos, e ao líder no Senado, Bill Fristy, alvo de suspeitas mais difíceis de provar, de insider trading, não moralizam o partido.

   O mais grave, do ponto de vista da direita republicana, é, no entanto, a incapacidade de Bush de avançar uma agenda conservadora - sobretudo na questão do aborto e da disciplina fiscal -, acrescida de sinais de desorientação política.

   À nomeação bem sucedida, mas pouco entusiasmante para os radicais republicanas, de John Roberts para a presidência do Supremo Tribunal, sucedeu-se o fracasso na escolha da advogada Harriet Miers. Um caso de autismo político na linha do falhanço administrativo na gestão do desastre do furacão Katrina que bem revelou os perigos do favoritismo e da reestruturação dos departamentos federais de segurança segundo uma óptica estrita de combate a ameaças terroristas. 

   A bem acolhida indigitação de Bernard Bernanke para a presidência da Reserva Federal surge em fundo às dúvidas sobre o bem fundado da política económica da administração Bush que fracassou no controlo do défice orçamental.

   A alta dos combustíveis, os sinais de quebra no mercado imobiliário a agravar a redução do consumo interno, associadas aos défices comercial e orçamental, não dão grande margem de manobra a Bush, apesar das previsões da Reserva Federal apontarem para a manutenção de taxas de crescimento de 3,5 por cento no corrente ano e de 3,25 ou 3,5 por cento em 2006, à semelhança do que vem ocorrendo desde 2002.

   A tentativa de promover uma reforma do código fiscal, a última cartada de Bush para retomar a iniciativa política, encontra forte oposição no Congresso que já bloqueou as propostas de privatização da segurança social.

   Um ano após a reeleição, o presidente perdeu a iniciativa política e começa a ganhar corpo a ideia de que o actual impasse irá prejudicar os interesses políticos dos seus apoiantes.

   Em Dezembro de 2001 George Bush tomou a decisão de invadir o Iraque. Quatro anos o Iraque tem uma constituição que aliena a comunidade sunita e está a braços com uma insurreição que levará muito tempo da debelar.

   O espectro do Iraque assombra a Casa Branca. É a questão que paralisa a administração. Bush não pode declarar vitória e retirar; pede tempo, mas já não convence a opinião pública.

   Certo é que escândalos e crises de conjuntura são comuns, mas se os derradeiros três anos de presidência redundarem em gestão de expedientes para obviar a escândalos maiores e impotência estratégica, então, o panorama é mesmo muito negro.



Jornal de Negócios
26 Outubro 2005



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domingo, 2 de setembro de 2012

O pesadelo de Clinton paira sobre Obama




   Barack Obama fracassou, tal como Bill Clinton, na tentativa de reforma global do sistema de saúde e, agora, tenta escapar à sorte do seu antecessor que a meio do primeiro mandato viu os republicanos ganharem a maioria no Congresso que manteriam de 1994 a 2006, com apenas uma curta desfeita no Senado entre 2001 e 2002.

   O discurso deste quarta-feira do Estado da Nação incidirá essencialmente sobre criação de emprego e contenção do défice orçamental e marcará uma nova estratégia para tentar contrariar a bem sucedida campanha republicana de crítica ao alegado despesismo da administração democrática que leva já a maioria do eleitorado (56 % dos inquiridos num inquérito da Gallup de 8-10 deste mês) a manifestar-se contra a política económica da Casa Branca.

   Invocar o êxito do primeiro ano na estabilização da economia não basta para fazer esquecer que a taxa de desemprego subiu de 8,5 % em Janeiro de 2009 para 9,7 % em Dezembro, quando Obama apontara como objectivo fazê-la baixar para 8 % até ao final do ano.

                                            O défice desde já
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   Um primeiro passo para inverter a crescente percepção negativa do eleitorado obriga Obama a propor desde já medidas de contenção orçamental.

  O défice ascendeu a 1,4 triliões de dólares no ano fiscal que terminou a 30 de Setembro, 9,9 % do PIB, e deveria, segundo as projecções da Casa Branca reduzir-se gradualmente para 4,2 % em 2014, aumentando posteriormente devido a custos com pensões e saúde.

  A estimativa avançada ontem pelo Gabinete do Orçamento do Congresso aponta para um défice de 1,35 triliões no ano fiscal de 2010, 9,2 % do PIB, prevendo uma melhoria orçamental até meados da década, seguida de nova degradação.

  A dívida pública nos cenários do Gabinete do Congresso deverá ultrapassar os actuais 60 % do PIB para valores superiores a 100 % no final da década, com os pagamentos de juros de dívida a passarem dos actuais 207 mil milhões de dólares/ano para 723 mil milhões de dólares em 2020. As pressões para um aumento das taxas de juro das obrigações do tesouro serão, portanto, enormes.

   A degradação orçamental, dos 236 mil milhões de dólares de superavit que Clinton legou e que a administração de George W. Bush viu transformar-se no défice de 1,3 triliões de dólares que Obama herdou ao chegar à Casa Branca, não pode ser continuar a ser subestimada.

  Politicamente a tirada do antigo cérebro de Bush, o conselheiro Karl Rove, de que os défices em oito anos de administração republicana não ultrapassaram a média de 3,2 % do PIB, pouco acima da média de 2,7 % do pós-guerra, enquanto os planos de Obama apontam para uma média de 4,2 % na próxima década, marca o debate político.

  O argumento de Rove, exigindo cortes de impostos e da despesa pública, colhe maior favor junto do eleitorado do que a argumentação democrata de que o pacote de estímulos à economia de 787 mil milhões de dólares, elemento fundamental para evitar a pior crise desde a Grande Depressão precipitada pelo laxismo financeiro de Bush, se mostrou eficaz e está em vias de ser ressarcido.

                                       Primeiros cortes

   A proposta que será incluída no orçamento a apresentar a 1 de Fevereiro de congelar gastos durante três anos em diversos departamentos (segurança nacional e programas de ajuda internacional não especificados excluídos) que no último ano representavam 477 mil milhões de dólares num montante global 3,5 triliões de dólares terá, a ser aprovada, um impacto diminuto.
  
   O congelamento abrange apenas 17 % das despesas orçamentadas e o seu alcance é limitado, na ausência de cortes significativos nos sectores de saúde e segurança social, ainda que anule o aumento de 7,3 % que Obama requisitara no ano passado precisamente para as áreas agora em causa.

   Às medidas entretanto anunciadas de benefícios fiscais para famílias com rendimentos anuais inferiores a 85 mil dólares, reformados e agregados familiares com crianças a cargo, irão juntar-se novos programas para recuperação dos 7 milhões de postos de trabalho perdidos desde Dezembro de 2007.

   Mesmo a concretizar-se a previsão do FMI de um crescimento da economia norte-americana de 2,7% este ano, Obama arrisca uma punição eleitoral em Novembro que poderá custar-lhe a maioria quer na Câmara de Representantes (256 mandatos democratas vs. 178 republicanos), quer no Senado onde a minoria republicana recuperará a sua capacidade de bloqueio legislativo com a entrada do seu recém-eleito senador pelo Massachusetts.

   Na tentativa de salvaguardar os candidatos democratas de temas eleitoralmente perniciosos as iniciativas de reforma do sector da energia e de redução de emissões tóxicas deixarão de assumir prioridade política, inviabilizando propostas para acordos internacionais vinculativos em matéria de combate ao aquecimento global.

   Presentemente é impossível que o Senado aprove um compromisso que permita fazer valer a lei votada em Junho na Câmara de Representantes por apenas 219 a favor e 212 contra que visava reduzir para 17 % em 2020, em relação a valores de 2005, as emissões de gases com efeito de estufa.

   Uma nova estratégia doméstica marcada pelos esforços de apoios à criação de emprego e contenção do défice implica abandonar os grandes projectos de reforma nos sectores da saúde e energia assim se frustam as ambições que levaram Obama à Casa Branca.


Jornal de Negócios
27 Janeiro 2010

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